O mais novo "Doutor em Jorge de Sena"

Parabenizamos Jorge Vaz de Carvalho por se tornar o mais novo "doutor em Jorge de Sena", uma vez que, a 8 de março de 2010, defendeu na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa de Lisboa sua tese de Doutoramento Sinais de Fogo, de Jorge de Sena: Uma poética da Formação, concluída em outubro de 2009, tendo Jorge Fazenda Lourenço como Orientador. Além deste, integraram o júri os Professores Manuel Braga da Cruz, Maria Filomena Molder (arguente), Margarida Braga Neves (arguente), Peter Hannenberg e Isabel Capeloa Gil, que lhe atribuíram a nota máxima — Summa cum Laude — por unanimidade e aclamação. A tese tem sua publicação em livro prevista para janeiro de 2011, pela Assírio & Alvim, vindo a enriquecer a bibliografia crítica editada sobre Sena.
Já como "Professor Doutor", Jorge Vaz de Carvalho participou, no Rio de Janeiro, do Colóquio "O Atlântico como ponte: a Europa e o espaço lusófono", promovido pelo Polo de Pesquisa sobre Relações Luso-Brasileiras (PPRLB) do Real Gabinete Português de Leitura, de 13 a 17 de setembro. Em sessão plenária, expôs sua comunicação "Jorge de Sena: Paisagem e Humanismo", na qual focalizou as "ilhas" destacadas por Jorge de Sena em sua prosa ficcional, particularmente no conto «Duas Medalhas Imperiais com Atlântico».
Na FCH da Universidade Católica, além de docente e investigador no Centro de Estudos de Comunicação e Cultura, Jorge Vaz de Carvalho é o Diretor Científico da nova área de Estudos Artísticos — tudo isto, sem abandonar a música e a carreira operática que abraçou em 1984.
 

Inglaterra Revisitada

por Paula Gândara

Inglaterra Revisitada, organizada postumamente por Mécia de Sena, congrega seis “Cartas de Londres” e duas palestras intituladas “Viagem à Volta da Literatura Inglesa com Algumas Incidências Sobre a Situação da Cultura” e “Inglaterra Revisitada”, ambas proferidas no Instituto Britânico do Porto a convite da Associação Luso-Britânica. As “Cartas de Londres” foram escritas entre 17 de Outubro de 1952 e 28 de Novembro do mesmo ano. Estas “Cartas” foram transmitidas pela primeira vez num programa de rádio da BBC intitulado “Programa de Língua Portuguesa.” O programa era transmitido aos Domingos, às 19h30m, e encontra-se perdido dos registos sonoros da BBC. As palestras datam respectivamente de 22 de Maio de 1953 e de 15 de Janeiro de 1958, tendo a primeira, “Viagem à Volta da Literatura Inglesa com Algumas Incidências Sobre a Situação da Cultura,” sido posteriormente alterada e publicada como artigo de jornal no suplemento literário “Artes e Letras” do Diário de Notícias de 15 de Agosto de 1957. As alterações do texto estão marcadas em parênteses rectos em Inglaterra Revisitada e o final do artigo, que se seguiria ao último parênteses recto, está inserido nas “Notas Bibliográficas.” “Viagem à Volta da Literatura Inglesa com Algumas Incidências Sobre a Situação da Cultura” é o texto de abertura da obra e serve de facto como introdução ao tema que Sena desenvolverá nas “Cartas”, isto é a literatura e a descrição de ambos os povos, o português e o inglês sob o foco dos interesses específicos das culturas. Como nos diz Jorge de Sena, as “Cartas” surgem “por acidente,” por via do olhar atento do autor e quiçá por motivos circunstanciais. Será interessante referir que não se registou à época qualquer informação crítica sobre as “Cartas de Londres”. De qualquer forma, Inglaterra é uma presença excepcional na obra de Sena, um “lugar mágico” que nas palavras de George Monteiro, ele viu “com os olhos ávidos e atentos de um entusiasta.” (1988: 16). Este olhar, no entanto, é condicionado pelo seu interesse maior, Portugal: ao longo das seis “Cartas” encontramos c. de cinquenta e cinco referências explícitas a Portugal, isto é c. de duas por página, para já não mencionar a quantidade de vezes em que surgem comparações apenas entre “nós” e “eles”. A Inglaterra que se nos apresenta é o lugar da comparação possível, “o país ideal para viver-se e ter saudades de Portugal” (Sena 1986: 9). Uma comparação livre de circunstancialidades e marcada pelo fascínio de uma Inglaterra mater cultural, única, face ao Portugal salazarista do descontentamento. Trata-se igualmente de uma colecção de textos marcados por profunda reflexão pessoal e que, pela sua própria estrutura – de crónica –, se situam num espaço que Sena não mais cultivará, entre o jornalismo e a literatura.


“Inglaterra Revisitada” é o resultado da segunda visita do autor a Inglaterra e serve de conclusão à obra. O texto apresenta um tom disfórico distinto dos anteriores: cinco anos volvidos, a Inglaterra que Sena espelha deriva da grande potência que fora para a humildade humana. Porém, mais do que uma civilização em decadência, Inglaterra é a “imagem de um mundo que nasce” (1986: 68) enquanto Portugal seria sempre a “caricatura trágica do mundo que morre” (1986: 68). Inglaterra Revisitada apresenta-se assim como um percurso da percepção do autor: da Inglaterra íntima à Inglaterra que o rodeia, sempre tendo como pano de fundo Portugal.
 

 

Bibliografia:


=> Gândara, Paula. Inglaterra Revisitada, Do Encantamento do Escritor à Palavra da Homem. Tese de Mestrado apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Lisboa. 1992.

=> Guimarães, Fernando. “A Literatura Inglesa: ‘A Literatura Inglesa Revisitada.’” Jornal de Letras. 2a ed. 19 Jun. 1990, 12.

=> Lourenço, Jorge Fazenda. “Rec. Inglaterra Revisitada.” Expresso 6 Set. 1986, 8R.

=> Monteiro, George. “Jorge de Sena, um ‘Inglês’ na América.” Letras & Letras 1 Jun in Dossier Jorge de Sena 1988, 9-19.

=> Moser, G.M. “Reviewed work(s): Inglaterra Revisitada by Jorge de Sena. World Literature Today, Vol. 61, No. 1, Inverno, 1987, 82.

=> Navarro, António Rebordão. “Rec. Inglaterra Revisitada: ‘Jorge de Sena e a Inglaterra.’” Jornal de Notícias 9 Set. 1986, 6.

=> Nogueira, Albano. "Rec. Inglaterra Revisitada, de Jorge de Sena.” Revista Colóquio/Letras n.º 99, Set. 1987, 119-121.

=> Pacheco, Fernando Assis. “Rec. Inglaterra Revisitada.” O Jornal, supl. O Jornal Ilustrado 11 Abr. 1986, 37.

=> Sena, Jorge de. Inglaterra Revisitada, (Duas Palestras e Seis Cartas de Londres). Lisboa: Ed. 70. 1986.

=> Sena, Jorge de. England Revisited. Christopher Damien Auretta (trad.). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 1986.


 

Jorge de Sena e o Portugal Democrático

por Douglas Mansur da Silva

O Portugal Democrático foi o periódico da oposição portuguesa exilada de maior longevidade. Editado a partir de São Paulo entre 1956 e 1975, a publicação, sem jamais ter sofrido censura, contou com a colaboração de expressivos nomes da cultura e da política de Portugal, do Brasil e das então colônias portuguesas em África. Obra coletiva, o jornal veio sempre a lume com a colaboração voluntária de intelectuais, operários, profissionais liberais e artistas, dos mais diferentes matizes ideológicos. Neste sentido, suas páginas refletem tal pluralidade, mas também as disputas internas no campo da oposição ao Estado Novo e ao próprio jornal.


Jorge de Sena nele colaborou entre outubro de 1959 e março de 1963, justamente na fase em que o jornal alcançou regularidade em sua periodicidade mensal e constituiu, pela primeira vez, um Conselho Editorial, que naquela altura contava com nomes como Adolfo Casais Monteiro, Carlos Maria de Araújo, Fernando Correia da Silva, Fernando Lemos, João Alves das Neves, Paulo de Castro e Vitor Ramos. A vinda para o exílio no Brasil de personalidades como Humberto Delgado, também em 1959, fez com que a “questão portuguesa” ganhasse mais espaço na mídia e junto aos imigrantes. Além disto, a inserção de muitos portugueses oposicionistas em diversos setores da sociedade brasileira contribuiu para uma aproximação entre a oposição exilada e universidades, editoras, sindicatos, partidos e associações profissionais e estudantis (Silva, 2006). Em poucos anos o jornal expandiu sua circulação para diversas partes do Brasil, para núcleos da oposição em todos os continentes e mesmo para Portugal.


Assim como para a maioria dos seus quadros, a regular contribuição de Sena ao jornal, e às outras ações por este articuladas, deu-se paralelamente à sua vida pessoal e profissional. Naqueles anos ministrou aulas em Araraquara e Assis, preparou teses e manteve sua produção literária e crítica. Além disto, organizou edições e publicou na imprensa especializada e na grande imprensa. No que se refere ao Portugal Democrático foram, ao todo, 37 textos (Santos, 2005 e 2010), alguns dos quais editoriais ou notas, geralmente não assinados ou sob pseudônimo. Por se tratar de um periódico essencialmente político, as diversas formas de colaboração de Sena para o jornal também traduzem as múltiplas formas de intervenção política consideradas pelo escritor. Assim, além do poema “Desta Vergonha de Existir Ouvindo” (n. 29, Out/1959, p. 5), publicou textos de cultura ou de homenagem a personagens históricos como o Infante Dom Henrique, Agostinho Neto, Álvaro Lins, Jaime Cortesão. Outro conjunto de textos refere-se ao posicionamento ou comentários do jornal frente a conjunturas políticas específicas e apresenta ora um Sena editorialista (“Um 5 de Outubro”, n. 30, Nov/1959; “Salazar processa o New Stateman”, n. 31, Dez/1959; “Uma vitória da Democracia”, n. 33, fev/1960, dentre outros) ora jornalista noticioso, embora com estilo inconfundível (notas como “O General Delgado presidiu às comemorações do 31 de janeiro”, n. 33, Fev/1960).


Nas páginas do Portugal Democrático também foi publicado o discurso de Sena por ocasião das comemorações do 50º. Aniversário da República (“Mensagem de Jorge de Sena – Nas Comemorações do 05 de Outubro”, n. 42, Nov/1960) e textos por ele redigidos, mas assinados coletivamente, como no caso de manifestos como “Uma conspiração contra a Democracia”, assinado pela Comissão Redactorial do Portugal Democrático (n.38, Jul/1960); “Comunicado do Comité dos Intelectuais” (n. 58, Mar/1962) e “O Cap. Almeida Santos assassinado pela PIDE (carta protesto)” (n. 36, Mai/1960), pelo Comité dos Intelectuais e Artistas Portugueses Pró-Liberdade de Expressão. Mas foram os textos que assinou aqueles que mais o evidenciam como uma “pessoa politicamente envolvida e sempre independente” (Sena, 1977, p. 11). Ao todo, foram 13 textos assinados (Oliveira, 2010), nos quais, em sua maioria, Sena aparece como crítico do regime e articulista polêmico mas interessado na organização de ideias, projetos e ações em prol de uma oposição unificada. Com estilo e vocabulário próprio – Sena não se utiliza dos jargões ou palavras de ordem comuns a diversas afiliações políticas – seu texto causava estranhamento na maioria dos militantes de partido. Além do mais, não poupava comentários e investidas irônicas contra os diferentes setores da oposição, provocando reações, réplicas e tréplicas, sobretudo em torno de duas questões fundamentais: as formas de organização da oposição (tanto em Portugal, quanto no exílio) e a “questão colonial”.


Os desdobramentos da Revolução Cubana de 1959 acabaram por repercutir na América Latina e o início da década de 1960 foi marcado por mobilizações em torno de transformações estruturais e a radicalização do discurso e das ações em diversos setores das esquerdas. Nas páginas do Portugal Democrático é possível identificar uma disputa interna em relação à orientação do jornal (Silva, op.cit., p. 108). O êxito na expansão da circulação do jornal contou com o apoio decisivo de redes comunistas. Contudo, a crescente influência do PCP e do PCB sobre o jornal parece ter lugar em 1961, adquirindo orientações partidárias que são sutilmente denunciadas por Jorge de Sena no artigo “As Esquerdas” (n.49, jun/61). De fato, Sena estende suas críticas a todos os setores da oposição, conclamando pela unidade. O ano de 1961 também foi marcado pelo início dos conflitos de libertação nacional em Angola. A “questão colonial” tornou-se objeto das principais cisões na almejada unidade interna da oposição (Silva, op. cit.). Ainda antes do início dos conflitos, o artigo de Sena intitulado “A Comunidade de Estados Portugueses” (n. 39, Ago/1960) foi interpretado por alguns setores do jornal, sobretudo aqueles mais próximos do PCP, como uma alternativa neocolonial (Rodrigues, 2002, p. 191), embora o nome de Sena viesse a figurar em ocasiões posteriores em manifestos coletivos favoráveis à autonomia dos territórios portugueses em África.


O afastamento de alguns militantes em decorrência da “questão colonial” e de conflitos internos, bem como o desgaste de lideranças políticas como Humberto Delgado e Henrique Galvão, levaram à criação, em outubro de 1961, da Unidade Democrática Portuguesa (UDP), iniciativa apoiada pelo Portugal Democrático e da qual participou Sena, no cargo de vice-presidente, ao lado de Adolfo Casais Monteiro e Paulo de Castro. A UDP pretendia reconstituir a unidade da oposição e teria por finalidade viabilizar a realização de tarefas como o estabelecimento de contatos com personalidades da política e da cultura, promoção de conferências e iniciativas culturais, reunião e circulação de notícias sobre Portugal, sobre a oposição e a “questão colonial” (Silva, op.cit.). Em sua carta de princípios explicitava-se o papel da oposição no exílio e a defesa da causa anticolonial. Na prática, acabou por substituir o “Serviço de Informação Portugal Democrático”, criado um ano antes. Mas a UDP tornou-se mais operacional a partir de 1964 (Sertório, 1990, p.42) – altura em que Sena dela já tinha se afastado – editando boletins destinados a órgãos de grande imprensa, em três línguas, e reunindo documentação que serviria de base aos dossiês, encaminhados anualmente à Assembléia Geral da ONU, com denúncias de abusos cometidos pelas forças armadas portuguesas nos conflitos em África.


Em seu último artigo no Portugal Democrático, “A Unidade” (n. 65, Out/1962), Sena voltou a este tema, de maneira mais incisiva, ao referir-se à oposição como “pequeno-burguesa” e sem espírito democrático, por querer tornar “sua” a Revolução e não do povo. Seu nome tornou a aparecer nas páginas do jornal em uma nota de março de 1963, ocasião em que se retiraram em conjunto do Conselho de Redação, Adolfo Casais Monteiro, Fernando Correia da Silva, Fernando Lemos, Jorge de Sena e Paulo de Castro. Tal nota, assinada pelos nomes acima, reafirmava a necessidade de “… uma frente única contra o salazarismo e o fascismo…”, tornando pública aquela decisão “… por não se considerarem em condições de exercer a responsabilidade que lhes cabia na definição de uma política comum para o jornal”. Em seguida, saudavam a nova equipe, composta em sua maioria por comunistas. Ao final, declaravam ser “… fiéis ao lema de que todas as correntes, sem discriminação alguma, devem ser chamadas à tarefa de derrubar o fascismo português… Onde alguma discriminação for mantida, sempre a liberdade estará em perigo, e será traído o direito do povo português de decidir os seus destinos” (n. 70, Mar/1963, p.2). Depoimentos e estudos recentes (Ramos, 2004, p. 113-114; Silva, op. cit., p. 108) relacionam a saída desses “notáveis” à existência de vetos a opiniões e artigos. A publicação persistiu até 1975, apesar do golpe de 1964, que instaurou uma ditadura no Brasil – razão a mais para a partida de Sena no ano seguinte, para os Estados Unidos – tendo em seus quadros de direção e em sua linha editorial, desde então, uma majoritária presença comunista. Tomados em seu conjunto, os escritos de Sena no Portugal Democrático evidenciam autonomia intelectual e o desejo de se projetar como articulador intelectual e político daquilo que mais almejava: a unidade da oposição, a derrubada do regime e a instauração de uma Democracia em Portugal.
 

Bibliografia


=> OLIVEIRA, Fábio Ruela de. (2010) Trajetórias Intelectuais no Exílio: Adolfo Casais Monteiro, Jorge de Sena e Vítor Ramos (1954-1974), Tese de Doutorado em História, Niterói: Universidade Federal Fluminense.
=> RAMOS, Ubirajara Bernini. (2004) Portugal Democrático. Um jornal da resistência ao salazarismo publicado no Brasil, Dissertação de Mestrado em História, São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
=> RODRIGUES, Miguel Urbano Rodrigues. (2002) O Tempo e o Espaço em Que Vivi, vol. I – Procurando um Caminho, Porto: Campo das Letras.
=> SANTOS, Gilda. (2005) “O Jornal Portugal Democrático – Demandas do literário em meio à proposta política” in Légua & Meia – Revista de Literatura e Diversidade Cultural, n. 3, Feira de Santana: UEFS, p. 59-69.
=> SANTOS, Gilda. (2010) “Pronunciamentos: textos políticos e discursos solenes” in Ler Jorge de Sena. Disponível em
http://www.letras.ufrj.br/lerjorgedesena/port/obra/pronunciamentos/texto.php?id=140

=> SENA, Jorge de. (1977) “Prefácio à segunda edição” in Poesia I, Lisboa: Moraes Editores, 2ª. edição.
=> SERTÓRIO, Manuel. (1990) Humberto Delgado. Setenta Cartas Inéditas, Lisboa: Publicação Alfa.
=> SILVA, Douglas Mansur da. (2006) A Oposição ao Estado Novo no Exílio Brasileiro (1956-1974), Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.
 

*Douglas Mansur da Silva. Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Viçosa e Pesquisador Associado do Centro de Estudos de Migrações Internacionais, da Universidade Estadual de Campinas. Doutor em Antropologia pelo Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, com pesquisas sobre militância, redes intelectuais e circulação de saberes de exilados portugueses no Brasil, durante a vigência do Estado Novo em Portugal.

Verbetes para um modo de ler as Metamorfoses de Jorge de Sena

por Gilda Santos

“Na gigantesca obra literária de Jorge de Sena, o volume Metamorfoses (1963) ocupa um lugar especial, pela versatilidade das relações que inovadoramente estabelece, na nossa literatura, entre a criação poética e as artes plásticas e pela sequência de textos de qualidade excepcional que reúne. Juntamente com a “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”, um dos mais conhecidos poemas desse livro é “Camões dirige-se aos seus contemporâneos”, a ultrapassar de largo o busto do épico que lhe serviu de pretexto e a traçar, na primeira pessoa, um retrato de Camões com a veemência indignada de quem, de algum modo, identifica o seu próprio destino com o do poeta quinhentista e verbera a mediocridade tacanha de um tempo incapaz de fazer jus à sua grandeza, de par com passagens que aludem às vicissitudes do cânone camoniano e dos próprios restos mortais do autor de Os Lusíadas, necessariamente presentes no espírito de quem foi um dos nossos maiores camonistas de sempre.”

Palavras como estas, de Vasco Graça Moura (cujo primeiro livro de poesia coincidentemente é de 1963), levaram-nos a eleger Metamorfoses como foco inaugural dos verbetes que aqui pretendemos reunir, com vistas a um futuro Dicionário de Jorge de Sena

 

APRESENTAÇÃO – Sob o título de Metamorfoses, seguidas de quatro sonetos a Afrodite Anadiómena, publica Jorge de Sena, em 1963, pela Moraes Editores de Lisboa, uma coletânea de 26 poemas, escritos entre 1958 e 1963 e distribuídos pelas seguintes seções: Ante-metamorfose (01 poema), Metamorfoses (19 poemas), Post-Metamorfose (02 poemas, com os subtítulos de “Variação primeira” e “Variação segunda”) e Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena (04 poemas). Na reedição do livro – agora inserido em Poesia II, de 1978 -, foi acrescentado à segunda seção o poema “Dançarino de Brunei” (datado de 19/1/1974). Compõem ainda o volume duas páginas com epígrafes: de Ovídio, Manuel Soares de Albergaria, Goethe e Unamuno, como epígrafes gerais à obra; e o verbete “metamorphose” do Vocabulário de Bluteau como epígrafe da segunda seção. Como extra-texto, um “Post-fácio” datado de janeiro de 1963 e ainda Notas explicativas a alguns poemas; em ambos os casos, o autor aponta pistas de leitura para seu livro que, até o momento, não foram contestadas, apesar da advertência irônica “Mal ficaria aos críticos receosos, no número dos quais fraternalmente me incluo, acreditarem em mim” (Sena: 160). Como característica mais marcante do livro, imagens fotográficas que reproduzem pinturas, esculturas, monumentos arquitetônicos etc., com que dialogam os poemas da segunda seção – a que dá título à obra. Bem acolhido pela crítica desde seu lançamento, é o livro de poemas do autor que mais tem recebido a atenção dos ensaístas, não faltando mesmo três dissertações acadêmicas nele especificamente concentradas (cf. bibliografia).

ARTICULAÇÃO (entre os segmentos) – Embora o livro se constitua por quatro seções nítidas, a interrelação entre elas não tem sido aprofundada pelos vários trabalhos publicados sobre Metamorfoses, que se voltam sobretudo para os 20 poemas de interlocução texto/imagem. Mas o próprio Sena percebe este núcleo contido “entre as duas valvas de uma concha pagã”: a Ante-Metamorfose e a Post-Metamorfose. E fora da ligação, evidenciada pelos subtítulos, entre essas três seqüências, os quatro sonetos finais (que têm sido predominantemente vistos como apêndice autônomo dentro do livro), também, conforme palavras do autor, às anteriores têm de se integrar: “os ‘Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena’ que encerram e coroam este volume, são decerto uma supra-metamorfose” (Sena: 158).

AUTOR – Jorge de Sena (02/11/1919 – 04/06/1978) tem tido a sua biografia divulgada em vários dossiers organizados em sua homenagem por publicações especializadas. Em alguns, deve-se mesmo a Mécia de Sena a seleção e o comentário de dados. Para o caso específico de Metamorfoses, conviria relembrar que o livro veio à luz quando o poeta se encontrava exilado no Brasil (para onde viajou em 1959, e onde, confessa, teve “sérios problemas de adaptação” [Sena: 153]) residindo e exercendo a docência acadêmica, na área de Letras, no interior do Estado de São Paulo (de 1959 a 1961 lecionou em Assis e de 1962 a 1965 em Araraquara, a 470 km e a 280 km, respectivamente, da capital do Estado), o que na época significava uma distância enorme da chamada “vida cultural” urbana. Vale lembrar ainda que 16 dos 27 poemas do livro foram escritos no Brasil.

EKPHRASIS – Com base na mitologia grega, que alegorizava na irmandade entre as musas a irmandade das artes, teria surgido a noção clássica de ut pictura poesis, formulada inicialmente por Simônides, segundo testemunho de Plutarco, e depois retomada, ao longo dos séculos, por uma infinidade de pensadores. Dentre estes, Horácio, que na sua Arte Poética, como se sabe, conceitua a pintura como poesia muda e a poesia como pintura que fala, assim favorecendo o delinear-se de um gênero poético que se caracterizaria por descrever uma obra de arte pictórica ou escultórica – a poesia ecfrástica. No entanto, nessa relação entre texto e imagem, o caráter descritivo originalmente preconizado vai ganhando novas dimensões e logo passam os poetas da simples descrição, ao comentário, à reflexão, à recriação. Na contemporaneidade, um número respeitável de teóricos do fenômeno artístico, ocupado menos em fixar fronteiras do que em desfronteirizar os territórios das diferentes artes, tem somado à ecfrástica os conceitos de Bildgedicht, de transposição intersemiótica, de interdiscursividade, entre outros, no afã de lançar luzes sobre uma produção literária que, ultimamente, graças aos ventos pós-modernos, tem ganho particular prestígio. Ora, na poesia portuguesa do século XX, cabe a Jorge de Sena, com as suas Metamorfoses, o papel de pioneiro num caminho em que hoje encontramos Pedro Tamen, David Mourão-Ferreira, Fernando Echevarría, Vasco Graça Moura, Al Berto… Um caminho que, na formulação mais recente de Claus Clüver, corresponde à “verbalização de um texto real ou fictício composto num sistema sígnico não-verbal”. Verbalização que, como quer Sena para seus poemas, pode ser a de “meditações aplicadas”. Para o estudo detido da questão ecfrástica no livro de Sena, consulte-se o minucioso trabalho de Maria Fernanda Conrado.

METAMORFOSES – São múltiplos os processos metamórficos que poderíamos distinguir na obra: 1) o objeto visual se faz poema, ou seja, um sistema sígnico se metamorfoseia em outro; 2) o objeto artístico distanciado pelo tempo, pelo espaço, e mesmo pela “aura” de objeto artístico, se faz presente e acessível; 3) o objeto/referente inanimado ganha vida no poema; 4) elementos dos diferentes poemas vão cambiando semanticamente na interrelação com os demais, até chegarmos à radicalidade dos “Quatro sonetos…”. De forma sintética, diz-nos Adriano Carlos: “Poderíamos mesmo falar da poética seniana como, essencialmente, uma poética da metamorfose: metamorfose do mundo, das imagens do mundo, metamorfose das linguagens, da linguagem”. (Carlos, 1986: 18) No entanto, estamos no reino da poesia e, assim – como nos adverte Camões em seu famoso soneto das “mudanças” – sempre haverá metamorfoses de metamorfoses a descobrir.

MUSEU – Sob o título de Museu foi pensada inicialmente esta série de poemas que depois veio a tomar o nome que hoje tem. É o próprio Sena que informa: “E foi assim que acabei chamando Metamorfoses a poemas que, provisoriamente, chamara Museu. Esta palavra sugestionara-me, quando li, na tradução inglesa do Dicionário das Antiguidades Clássicas, de Oskar Seyffert, que museu foi originariamente um templo dedicado às Musas, e depois local dedicado às obras das Musas; e que era também um cantor, vidente e sacerdote místico, que aparece nas lendas áticas. Deste é dito que viveu nos tempos pré-homéricos, e que teria sido filho de Selene e de Orfeu, ou Lino, ou Eumolpo, enfim, nesta incerteza, o filho de uma trindade poética de pais fecundando a Lua. Era uma palavra esplêndida de sugestão, se, para a maioria das pessoas alheias a estes requintes, não cheirasse sobretudo a pó e a animal empalhado. E “metamorfoses” eram já os dois poemas que, manifestamente, haviam surgido para enquadrar o grupo central das meditações aplicadas” (Sena: 157-8). Esta declaração não pode deixar de ser aproximada daquela em que o poeta confessa ter sido atraído pela “historicidade da natureza humana” que descobriu habitar os museus, quando os visitava na Europa: “E a alegria que sinto, no Museu Britânico ou no Louvre, ante as coleções onde palpita uma vida milenária, não provém de esta ser milenária, estranha, distante, bárbara ou requintada, mas sim de eu sentir em tudo, desde as estátuas aos pequeninos objetos domésticos, uma humanidade viva, gente viva, pessoas, sobretudo pessoas” (Sena: 152). Ora, dos 20 poemas a que chamamos nucleares, 14 reportam-se a peças de museus da Europa (subindo para 16 se considerarmos os monumentos arquitetônicos) e, curiosamente, destes, 6 (ou 8, se considerado o segundo caso) foram escritos no Brasil. Não estaria esse Sena afeito ao convívio intenso com peças queridas, pela poesia, construindo o seu particular museu em terras de exílio, de onde essa arte que se lhe revelou vital estaria (saudosamente) ausente? Não seriam esses objetos catalogados nos museus de Londres, Paris, Bruxelas, poeticamente revisitados a partir de Assis ou Araraquara, ecos de um mundo que já fora seu e cuja recuperação seria na altura uma incógnita?

OVÍDIO – A interlocução entre as Metamorfoses de Ovídio e as de Jorge de Sena talvez seja mais intensa do que se suspeita à primeira vista, talvez extrapole o título comum, a primeira e sintomática epígrafe escolhida por Sena, e – como quer James Houlihan – a “tradução” que Sena faz da história de Céfalo e Prócris cantada por Ovídio. Penso, por exemplo, no epílogo do poema de Ovídio a ecoar tanto em “Camões dirige-se a seus contemporâneos”, como em “A morte, o espaço, a eternidade”. Não será também ocioso evocar o texto de Ovídio quando, em muitos passos de seus livros, Sena convoca referentes mitológicos já celebrados pelo poeta latino. Também não será demais recordar que tanto Ovídio quanto Sena vivenciaram a experiência do exílio.

“PRIMITIVOS” – É o próprio Jorge de Sena quem relembra a seus leitores sua primeira incursão pelo diálogo da poesia com as artes plásticas. Diz ele: “De longa data me interessou uma repercussão poética das outras artes. […] Na minha coletânea, Pedra Filosofal, publicada em 1950, mas reunindo poemas de anos anteriores, há uma sequência de três pequenas líricas – Primitivos – que, comentando “Uma Anunciação”, “O Patinir das Janelas Verdes” e “Bonnard”, antecipa, a uma escala miniatural, os poemas longos sobre objetos pictóricos, escultóricos, ou afins, que constituem estas Metamorfoses” (Sena:151). Em direção oposta, recorde-se que depois das Metamorfoses, Sena publicou vários poemas que poderiam integrar a coletânea, como, por exemplo, “Chartres ou as pazes com a Europa” (Peregrinatio ad loca infecta), “Piazza Navona e Bernini” (Exorcismos), “O Hermafrodito do Museu do Prado” (Conheço o Sal…).

QUATRO SONETOS – Inicialmente publicados na revista Invenção 2, do grupo Concretista de São Paulo (outubro de 1962), não constituem “Os quatro sonetos a Afrodite Anadiômena” (escritos em 6/5, 14/5 e 20/6 de 1961) fenômeno isolado na obra de Jorge de Sena. Na linha de recriação léxica, em que o fator semântico aparentemente se anula, encontram-se ainda 6 poemas: “Colóquio Sentimental em duas partes” (1961), “Na transtornância impiala... (5/8/1961)”, “Anflata cuanimene…” (8/10/1963), “Aflia antonimera pendistalia…” (21/11/1967), “Atia cuí dolcema trazidara…” (/12/1963) e “Petrina, sanguilícia, de soluço…” (3/3/1971). Havendo dúvidas sobre a data precisa do primeiro, verifica-se que todos os demais são posteriores aos sonetos de Metamorfoses, o que faz pensar nestes últimos como os desencadeadores do ciclo. Pensando ainda no conjunto da obra seniana, em interlocução irônica com os sonetos, não pode deixar de ser referido o poema “Afrodite? Não“, incluído no livro póstumo Quarenta anos de servidão. Trata-se igualmente de um soneto onde as palavras “estranhas” aos incautos na verdade encontram-se arroladas pelo renascentista Duarte Nunes de Leão no capítulo XVIII de sua Origem da Língua Portuguesa….
O projeto do autor em relação aos poemas é bastante conhecido: “O que eu pretendo é que as palavras deixem de significar semanticamente, para representarem um complexo de imagens suscitadas à consciência liminar pelas associações sonoras que as compõem. Eu não quero ampliar a linguagem corrente da poesia; quero destruí-la como significação, retirando-lhe o caráter mítico-semântico, que é transferido para a sobreposição de imagens (no sentido psíquico e não estilístico), compondo um sentido global em que o gesto imaginado valha mais que a sua mesma designação. No último soneto, a maior parte das palavras não é inventada, mas os epítetos gregos de Afrodite” (Sena: 159). Para uma leitura produtiva deste segmento de Metamorfoses é imprescindível consultar a percuciente e exaustiva dissertação de Luís Adriano Carlos.

SARAMAGO – É na correspondência (ainda inédita, porém já organizada por Mécia de Sena para publicação) trocada entre Jorge de Sena e José Saramago que se encontra um grande número de informações sobre a gênese e a “arquitetura” do livro Metamorfoses. Na altura em que Jorge de Sena planeava sua publicação, Saramago era um dos diretores da Editorial Estúdios Cor – que já editara o primeiro livro de contos de Sena, Andanças do Demônio, e manifestara interesse em editar esse novo livro de poemas. A hipótese não se confirmou, mas, nas cartas trocadas, que, aliás, vão revelando crescente amizade entre os dois signatários, ficaram registrados dados preciosos para quantos quiserem exercer a crítica genética tomando Metamorfoses como objeto.

TESTEMUNHO – Desde que, no famoso Prefácio da 1ª edição de Poesia I Jorge de Sena escreveu “Como um processo testemunhal sempre entendi a poesia, cuja melhor arte consistirá em dar expressão ao que o mundo (o dentro e o fora) nos vai revelando, não apenas de outros mundos simultânea e idealmente possíveis, mas, principalmente, de outros que a nossa vontade de dignidade humana deseja convocar a que o sejam de facto. Testemunhar do que, em nós e através de nós, se transforma, e por isso ser capaz de compreender tudo, de reconhecer a função positiva ou negativa (mas função) de tudo, e de sofrer na consciência ou nos afectos tudo[…] – eis o que foi, e é, para mim a poesia.”, alçaram-se estas palavras a uma espécie de síntese para a apreensão do conjunto da obra seniana. De fato, sob o prisma do testemunho, podemos ler não só a poesia, mas tudo quanto Sena escreveu. E Metamorfoses, claro está, não constitui exceção. Até porque, como se viu, e como Jorge Fazenda Lourenço desenvolve de maneira irretocável, o processo testemunhal entrelaça-se com o metamórfico. Um poema em que estas idéias são condensadas foi projetado inicialmente para integrar a coletânea. Trata-se do poema “Dedicatória”, que, conforme indicação do autor, nasceu junto com “Cabecinha romana de Milreu”: “e vieram (12/3/63), numa noite e numa madrugada, uma “Dedicatória”, pela qual não esperava, e uma cabeça pequenina que só depois reconheci como a que tive nas mãos, uma vez, no Museu de Faro.[…] Mas suprimi de publicação a Dedicatória” (Sena: 154-5). Mas, hoje, graças à vigilância de Mécia de Sena, o poema encontra-se estampado em 40 Anos de servidão e, pela importância programática de que se reveste, aqui vai transcrito:

Amigos meus: de que metamorfoses
sois vós meus fiéis e como que inimigos?
E que inimigos, as metamorfoses
das coisas e do tempo têm poder
para os aniquilar? Por mais que nasça
dos homens o homem, e que esse homem faça
o que nos será mais que natureza,
nada resta senão este ar maligno,
esta vileza insana, este morder
raivoso e traste, esta indiferença
que nega mais a vida que a maldade.
As obras ficam. Para quê? Quem perde
o tempo que lhe resta, em só amá-las
não por si mesmo mas por outra vida
que exista nelas? Quem? Algum de vós?
Que amor sentis que se desperta lá
onde não resta já mais do que ideia
de terem sido sangue, uma linguagem
tão morta para sempre, que palpita
nessa ilusão de que sois vida viva?

Metamorfoses somos e seremos.
E, se estes versos foram conformados,
mais que por mim, de mim, serão as vossas
que se aguardavam como ténues sombras
em risco de evolarem-se, à beira
do rio que, se o atravessassem, lhes
daria, no esquecerem-se, a existência
tranquila e sólida da morte adiada.
6 PASSOS PARA UMA HIPÓTESE DE LEITURA:
1) Depois do Caos – Todas as abordagens de “Ante-Metamorfose” (o poema que, sob o título de “Metamorfose” tout court, havia sido publicado em Fidelidade, de 1958, e é agora realocado pelo autor no novo livro) apontam a atmosfera de indefinição, indeterminação, que ressuma de seus versos repletos de optativas e interrogações. Fazendo ecoar as primeiras páginas das Metamorfoses de Ovídio, dir-se-ia tratar-se de tempos primordiais – onde o informe cede lugar a uma primeira ordenação do universo, onde a memória do caos não se apagou de todo, onde o silêncio e o verbo ainda se defrontam – aqueles em que um deus, ou uma deusa, ou “imagem, só lembrança, aspiração?” se alonga, de bruços, sobre o areal. Deus ou deusa, acordado ou adormecido, morto ou vivo? – são as indagações, sem resposta, que, na voz de quem contempla, se entrecruzam com outra ainda mais insistente: há quanto tempo ali estaria, naquele espaço que insinua o diálogo estreito entre terra e água, entre o emerso e o imerso? Contudo, na pintura em pincel fino que nos é descrita, algumas certezas: é de corpo talhado à imagem e semelhança do humano este ser onde estão “calcanhares /um pouco soerguidos na lembrança de asas”. Mas, por essa potencialidade do vôo pressentida no que jaz em terra, trata-se de um deus que se humanizou, abdicando de divinas asas; ou de um homem que buscara, qual outro frustrado Ícaro, alçar-se acima de sua humanidade? Em espaço híbrido e tempo incerto – posteriores ao caos mas anteriores à história -, como distinguir limites entre o humano e o divino? Mas, é mesmo imprescindível distinguir esses limites?

2) O Cosmos feito História – Peças datadas de um longínquo século VII/VIII A.C. aos anos 50 do século XX, cobrindo assim quase 3.000 anos da história da arte, constituem os referentes explícitos e diacronicamente alinhados dos 20 poemas nucleares de Metamorfoses. Ultrapassadas as quatro idades míticas referidas por Ovídio (ouro, prata, bronze e ferro), é sobre um tempo de formas construídas pelo Homem que se localiza esta trajetória poética. E nela, Horácio Costa observou 6 poemas “da pedra” (“Gazela da Ibéria”, “Deméter”, “Cabecinha Romana de Milreu”, “Artemidoro”, “Mesquita de Córdova”, “A nave de Alcobaça”), um poema de transição (“Pietà de Avignon”), 12 poemas “da carne” (“Céfalo e Prócris”, “Retrato de um Desconhecido”, “Camões dirige-se a seus contemporâneos”, “‘Eleonora di Toledo, Granduchessa di Toscana’ de Bronzino”, “‘A morta’ de Rembrandt”, “‘O Balouço’ de Fragonard”, “Turner”, “‘A Cadeira Amarela’ de Van Gogh”, “‘Ofélia’ de Fernando Azevedo”, “Carta a meus filhos sobre os Fuzilamentos de Goya”, “A máscara do poeta”, “Dançarino de Brunei”) e 1 poema (“A Morte, o Espaço, a Eternidade”) que tanto finaliza a série como abre horizontes em todos os sentidos, inclusive em relação à Post-Metamorfose. Respaldada pela cronologia, da pedra à carne, e da carne à conquista do espaço sideral, uma visão da História da Humanidade se delineia. Humanidade e história perseguidas e perscrutadas em cada objeto criado pelo artista que lá, indelevelmente, deixou sua marca. Não será por acaso que vários retratos integram a sequência de poemas, como que a fixar personalidades-chave, a surpreender caracteres e expressões de individualidades ao longo do escoar dos séculos. Resgatar, simultaneamente, as marcas da humanidade do homem em seu trajeto histórico e o poder criador que o irmana ao divino são os dois veios de que derivam os poemas. Eis porque, embora a presença da morte, como assinalou o próprio Sena, perpasse por muitos dos versos, a superação dela fala mais alto e nesse jogo dialético entre o mortal e o perene, entre aquilo que prende o homem à terra e aquilo que o faz ansiar por asas, enlaçam-se os poemas. Exemplo claro encontra-se na justaposição do esvoaçante e libertino “‘O Balouço’ de Fragonard” àquele soturno “‘A morta’ de Rembrandt”, ou ainda em “Carta a meus filhos sobre os Fuzilamentos de Goya”, onde a ênfase dada às mortes injustas constitui-se motivo para repudiá-las visceralmente. É, pois, neste segmento das Metamorfoses que a História se presentifica, entendida pelo autor nos seguintes termos: “E se não fora a poesia olhando a História, nenhuma vida em verdade conheceríamos, nem a nossa própria. Não adianta muito, concordarei, este saber, e é mais do que prudente recusá-lo. Mas são precisamente as “metamorfoses” o que nos permite olhar a cabeça de Medusa” (Sena: 157). Ou seja, neste enlace com a arte, o cosmos, pelo universo da palavra poética, fala de harmonia.

3) Da terra ao espaço sideral ou da História à nova cosmogonia – Da pequena gazela de tempos perdidos, que se ergue sobre as três patas, ao Sputnik I, a trajetória histórico-cultural do ocidente, iconicamente representada em Metamorfoses, perfaz rota ascencional. Rota épica que não se pode conformar a limites nem temporais nem espaciais, é o que nos grita o poema “A morte, o espaço, a eternidade”. A obra do homem transpõe barreiras históricas – onde a morte se inscreve – para cumprir seu destino de continuo negar a natureza, de continuo desvendar o desconhecido, de continuo perseguir o infinito. Pela tenacidade do Homem em suplantar tudo que lhe tolha a “fome de infinito”, há-de achar meios “para que em Espaço caiba a Eternidade”. Para tanto, urge haver nova cosmogonia…

4) Nova cosmogonia – Em “Variação primeira”, regressam deuses arcaicos à praia mítica, primordial e iniciática, para, em ritual orgiástico, fecundarem o novo mundo. O paraíso genesíaco agora é outro, marcado pelo excesso: sol ardente, mar azul, vento que faz vibrar a pele, um reino de prazer, sem interdição possível… Não há verbo, há cópulas: no novo tempo, é preciso gerar novos seres, aptos a conviverem com a imortalidade enfim alcançada.

5) Nova raça – Na nova dimensão do tempo que a “Variação Segunda” nos traz, é o arquétipo feminino da cariátide o “pilar do mundo”, a sustentar “o giro dos planetas”. Plena de seiva, de desejo, de sensualidade – fruto perfeito dos deuses fundadores – sobre ela repousa a harmonia, porque como “forma variável e perfeita/do que há e que não há”, será capaz de masculamente ejacular “o brilho dos astros”. Congregando em si o princípio feminino e o masculino (como aquele deus ou deusa de “Ante-metamorfose”, mas agora ereta), cabe-lhe todo o poder, inclusive o de, substituindo Atlas, com mãos abertas e dedos afilados, percutir o espaço.

6) Nova linguagem – Finalizando a recriação do universo levada a cabo pela força erótica da palavra poética, é preciso dotar os novos tempos de uma linguagem nova. Conduzidos por uma sedutora Afrodite que procede do mesmo mar antigo de onde tudo emergiu, emergem os “Quatro sonetos…” que nos ofertam uma semântica em aberto, a ser preenchida por signos em que o arcaico convive com o mais recente. Assim, a “supra-metamorfose”, como lhe chamou o autor, emblematiza todo o processo metamorfoseante que esta sucessão de poemas “de amor e de progresso” (Lopes: 22) nos ensinou.

 

BIBLIOGRAFIA selecionada sobre Metamorfoses:

=> AVELAR, Mário. Jorge de Sena no Baloiço de Fragonard. Diário de Lisboa(supl. “Ler e Escrever”), 03 de abril de 1986 p.3

=> CARLOS, Luís F. Adriano. Jorge de Sena e a escrita dos limites – análise das estruturas paragramáticas nos “Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena”. Universidade do Porto,1986 (Dissertação de Mestrado)

=> CARLOS, Luís F. Adriano. Poética e Poesia de Jorge de Sena: Antinomias, Tensões e Metamorfoses. Universidade do Porto, 1993 (Tese de Doutorado)

=> CATTANEO, Carlo Vitorio. Deus e Deuses na poesia de Jorge de Sena. In: FAGUNDES, F. C. & ORNELLAS, J. N., org. Jorge de Sena: o homem que sempre foi. Lisboa: ICALP, 1992 p.25-81

=> CLÜVER, Claus. Ekphrasis Reconsidered: Jorge de Sena’s Poems on Music and Visual Texts. (revised version of a paper read at the 1993 Conference of the American Comparative Literature Association at Indiana University)

=> CONRADO, Maria Fernanda. Ekphrasis e Bildgedicht – processos ekphrásticos nas Metamorfoses de Jorge de Sena. Universidade de Lisboa, 1997 (Dissertação de Mestrado)

=> COSTA, Horácio. Coluna, Praia, Concha: Símbolos em Metamorfoses. In: PICCHIO, Luciana Stegagno, org. Quaderni Portoghesi. Pisa: Giardini, 13/14: 227-242 prim/autun, 1983

=> CRESPO, Ángel. Notas para una lectura alquímica de las Metamorfoses de Jorge de Sena. In: SHARRER, H. & WILLIAMS, F. G., ed. Studies on Jorge de Sena – a Colloquium. Santa Barbara, University of California, 1981 p. 51-63

=> FAGUNDES, Francisco Cota . History and Poetry as Metamorfoses. Bulletin of Hispanic Studies. [Liverpool]: 59: 129-42, [1982]

=> FRANÇA, José-Augusto. Metamorfoses de Jorge de Sena. In: lISBOA, Eugénio,org. Estudos sobre Jorge de Sena. Lisboa: INCM, 1984 p.

=> HOULIHAN, James. Traduzindo Sena traduzindo Ovídio. In: FAGUNDES, F. C. & ORNELLAS, J. N., org. Jorge de Sena: o homem que sempre foi. Lisboa: ICALP, 1992 p.129-137

=> LIMA, Beatriz de Mendonça. Metamorfoses: o museu poético de Jorge de Sena. (inédito)

=> LOPES, Óscar. Imagens do cosmos na poesia portuguesa. In: – – -. A busca do sentido. Lisboa: Caminho, 1994 p.17-22

=> LOURENÇO, Jorge Fazenda. Da poesia como teatro do mundo: sobre Metamorfoses de Jorge de Sena. In: SANTOS, Gilda, org. Boletim do SEPESP. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 6: 57-87, 1995

=> LOURENÇO, Jorge Fazenda. Testemunho, Vidência, Metamorfose. In: – – -. A poesia de Jorge de Sena como testemunho, metamorfose e peregrinação – Contribuição para o estudo da poética seniana. Santa Barbara, UCSB, 1993 p. 205-289

=> MORNA, Fátima Freitas. Imagem, só lembrança, aspiração?- notas sobre Metamorfoses de Jorge de Sena. In: NOVA RENASCENÇA (Revistra trimestral de cultura), Porto, 32/33: 501-508 out.1988/inv. 1989

=> OLIVEIRA, Maria José Azevedo Pereira de. Art as a Mirror in the Poetry of Jorge de Sena: The Metamorfoses. Londres: King’s College, 1992

=> SENA, Jorge de. Poesia II. Lisboa; Ed. 70. 1988

=> SOUSA, Francisco. Fome de infinito: “A morte, o Espaço, a Eternidade” e O Físico Prodigioso. In: In: FAGUNDES, F. C. & ORNELLAS, J. N., org. Jorge de Sena: o homem que sempre foi. Lisboa: ICALP, 1992 p.139-150

=> VIEIRA-PIMENTEL, F. J. As Metamorfoses de Jorge de Sena: para além do homem e dos deuses. In: Cadernos de Literatura. Coimbra: INIC, 9: 63-74, 1981.

* Texto publicado em Ana Maria Brito, et alii, org. Sentido que a vida faz (Homenagem a Óscar Lopes), Porto, Campo das Letras, 1997, p. 421-428. Gilda Santos é Professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde lecionou Literatura Portuguesa nos Cursos de Graduação e Pós-Graduação da Faculdade de Letras (1976-2006).

Jorge de Sena e o cinema

por Emmanoel Santos

Jorge de Sena amava o cinema, e exercitava esse amor não apenas vendo filmes em salas comerciais e cineclubes, mas também escrevendo sobre eles. Esses comentários estão reunidos em um volume: Sobre Cinema (Lisboa: Cinemateca Portuguesa, 1988), com organização e introdução de Mécia de Sena e co-organização e notas de M.S. Fonseca. Foram textos escritos entre 1946 e 1966, em maioria destinados a serem lidos, precedendo as exibições de filmes promovidas pelo Jardim Universitário de Belas Artes (JUBA), em Lisboa. Vários, obrigados a previamente serem submetidos à Censura, receberam cortes. Ao lado deles há um número menor de outros, escritos para publicação. Além disso, quer na obra publicada, quer no espólio do autor ainda em Santa Bárbara, é possível rastrear um conjunto não apenas de comentários sobre filmes, mas de textos literários de Jorge de Sena, de natureza vária, onde se nota a presença do cinema. São textos que permitem ver qual o conceito de Sena sobre cinema, qual o tipo de cinema que ele prestigiou, que instrumentos teóricos mobilizou para penetrar nas obras cinematográficas. Na obra citada acima, M. S. Fonseca fala em padrões críticos com que Jorge de Sena se aproxima do universo visual e sonoro que os filmes são (p.10). E adiante aponta para uma exigente trama teórica, que se soma a uma análise formal dos filmes pontuada por notações que cruzam o cinema e sua história com a história da literatura, do teatro e outras artes, sem que nunca o Autor se exima a definir a perspectiva ético-política a que a visão e a discussão de cada filme possa implicar (p.10-11). E propõe ao leitor a concepção de cinema que Jorge de Sena assume: uma forma de expressão artística tão “sui-generis” que pode oscilar entre a síntese de todas as artes e a substituição ou superação dessas mesmas artes pela representação direta da realidade. Nessa linha de visão, Jorge de Sena acerca-se do cinema considerando que é de sua natureza tanto estilhaçar a realidade para obter matéria prima, como apresentar de maneira apenas direta a realidade. Diante de um filme em particular Jorge de Sena não o isola para análise, mas o associa, seja a grandes universos de referência, seja a aspectos menores, que um olhar menos avisado poderia tomar como irrelevante ou mesmo impertinente. Na verdade, o referencial de Jorge de Sena vai além do cinema e de sua história, como vai além da literatura, do teatro, das artes em geral e de suas histórias. O referencial de Jorge de Sena é simplesmente a própria vida.

 

Filmes comentados por Jorge de Sena:

• Charlot Hoje e Sempre (sobre vários filmes de C. Chaplin)
• A Bela e o Monstro (La Belle et la Bête, de Jean Cocteau – 2 comentários)
• Almas Perversas (Scarlet Street, de Fritz Lang)
• Os Trovadores Malditos (Les Visiteurs du Soir, de Marcel Carné)
• Salvo da Morte (Angels over Broadway, de Ben Hecht e Lee Garmes)
• A Bandeira (La Bandera, de Julien Duvivier)
• O Silêncio é de Ouro de René Clair e também sobre o poeta Carlos Queiroz (Le Silence est d'or, de René Clair)
• A Arte de Viver (Quartet, de Ralph Smart e outros)
• Breve Encontro (Brief Encounter, de David Lean)
• Os Mistérios da Vida (Flesh and Fantasy, de Julien Duvivier)
• Matou (M!, de Fritz Lang)
• Milagre de Milão (Miracolo a Milano, de Vittorio de Sica)
• Rio Sagrado (The River, de Jean Renoir)
• Maria Walewska (Conquest, de Clarence Brown)
• A Dama de Espadas (Queen of Spades, de Thorold Dickinson)
• Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, de Billy Wilder)
• Algumas notas sobre Macbeth, a propósito de Orson Welles
• Otelo (Othelo, de Orson Welles)
• A Passageira (Pasazerka, de Andrzej Munk)

 

Bibliografia:
=> Emmanoel Santos, “Jorge de Sena e o cinema”. In: Gilda Santos, org., “Evocação de Jorge de Sena”, dossier do Boletim do SEPESP nº 6, Rio de Janeiro, UFRJ, 1995, p. 145-154
=> Emmanoel Santos, “Jorge de Sena: textos sobre cinema”, In: Gilda Santos, org., Jorge de Sena em rotas entrecruzadas, Lisboa, Cosmos, 1999, p. 69-76
=> Mike Harland, Jorge de Sena on Cinema: some further insights into the genesis of O Fisico Prodigioso? Portuguese Studies, Londres, v.20, nº 1, p. 169-185, Set. 2004


 

Os Trovadores Malditos, de Marcel Carné

Os Trovadores Malditos, no original Les Visiteurs du Soir, filme de 1942 dirigido por Marcel Carné, teria sido, segundo Mécia de Sena, uma das possíveis “inspirações” para a criação de O Físico Prodigioso. Transcrevemos, a seguir, na íntegra, o comentário de Jorge de Sena ao filme, lido em 5 de julho de 1949 nas “Terças-feiras clássicas”, organizadas pelo J.U.B.A. no cinema Tivoli de Lisboa. O trecho cortado pela Censura foi reintegrado ao texto no volume póstumo Sobre Cinema, de 1988, que reúne os escritos do autor sobre a sétima arte. 

Les Visiteurs du Soir é um filme em que a poesia, a ironia, a música, o sentido alegórico e a técnica cinematográfica aliadas a alguns séculos de consciência e de cultura, se conjugam para formar uma obra que, se não é uma das obras-primas do cinema, é sem dúvida uma das mais belas e interessantes que o cinema europeu tem produzido. Se reparardes bem, este filme não poderia ter sido produzido na América. Se um tema semelhante o tivesse sido, por certo que a reconstituição, aliás imaginosa, da Idade Média seria uma salada de todo o bric-à-brac de todos os lugares desde o séc. XII ao séc. XVII, pelo menos as personagens seriam todas duma beleza glicerinada e mirífica, haveria pradarias e cow-boys, tudo isto imensamente em tecnicolor. Seria um espetáculo magnífico capaz de satisfazer as bilheterias, mas incapaz de reflectir mais do que a magnificência heteróclita de quem a produzia. Mesmo o diabo nada teria de um grande senhor, pouco se distinguiria daquele pobre diabo que, segundo Stephen Vincent Bénet, Daniel Webster tão juridicamente enrola.

Porque este filme mete o diabo e alguns dos seus executores oficiais. A sensualidade maliciosa e violenta que esses agentes do maligno patenteiam é, no cinema, timbre de honra do cinema europeu que, apesar de tudo, não atingiu ainda a hipocrisia industrial do Código Hays.

A própria lentidão do espectáculo, que culmina com a imobilidade da cena do baile é índice duma segurança poética que o baixo comercialismo não permite.

A força requintada, a brutalidade graciosa, um sentimentalismo depurado e subtil, o qual, através dos versos de Jacques Prévert, faz ecoar a sensibilidade provençal e trovadoresca, dão a este filme um tom que resume alguns dos mais belos momentos da sensibilidade europeia.

[A liberdade do amor e o amor da liberdade, um e outro tão vigorosos, conscientes e firmes que contra eles as portas do Inferno não prevalecerão, representam imperativos constantes da nossa consciência, leis permanentes da nossa personalidade.] (Trecho cortado pela Censura)

O demónio que, sendo orgulho de poder é também mediocridade satisfeita, como dizia Gogol, não consegue bater-se com a capacidade de resistência daquelas duas forças fundamentais.

Conto medieval ou fábula de hoje, Les visiteurs du soir na sua poética reconstituição de ambientes, significa isto mesmo: as tentações, as ciladas, as emboscadas nada conseguem perante a dignidade indefectível de um amor que não recua em enganar o próprio diabo como ele merece que o enganem para que a liberdade prevaleça.

Deste modo, poderíamos dizer que Les visiteurs du soir não é um filme fantástico. É uma obra actual em que as vicissitudes da condição humana são alegorizadas. A própria música sublinhando o filme se nos transporta ilusoriamente, associada às imagens, a épocas perdidas, contribui para criar um estado de encantamento em que a lição da actualidade mais traiçoeiramente penetrará o público desprevenido. A poesia que ressuma da luminosidade ou do sombrio das imagens ou do sereno requinte dos diálogos, integra para o mesmo fim todas estas forças. Que a poesia proceda por portas travessas é apenas uma questão de cultura; não será por isso menos violenta, menos directa, menos contundente. Certas diatribes automáticas surrealistas são sem dúvida, apesar da sua ininteligibilidade imediata, mais eficazes que a clareza de algumas dúzias de velhices “do Padre Eterno”. Tudo o que o homem faz visa, ao fim e ao cabo, o entendimento próprio ou alheio, mas tudo o que o homem faça visando apenas esse entendimento, esquecendo que na memória do coração humano, há “no céu e na terra mais coisas que a tua filosofia sonha”, (como Hamlet dizia a Horácio) restringirá esse próprio entendimento, porquanto o homem só progride na medida em que conscientemente ultrapassar aquilo que, em cada conjunto de circunstâncias, é a sua própria medida.

A lição da perpétua luta do amor ressalta de uma canção que um dos trovadores canta e cuja letra, que tendes no programa, passo a traduzir:

Demónios e maravilhas
Ventos e marés
Já para longe o mar se retirou
E tu
Como uma alga docemente embalada pelo vento
Nas areias do leito te moves sonhando
Demónios e maravilhas
Ventos e marés

Já para longe o mar se retirou
Mas em teus olhos entreabertos
Duas pequenas vagas ficaram
Demónios e maravilhas
Ventos e marés
Duas pequenas vagas para me afogar.

Demónios e maravilhas – é bem o lema significativo deste filme, como o é do nosso tempo. E, se quisermos, da própria vida.

 

Cinema e poesia

Os poemas cinematográficos de Jorge de Sena. Em vídeo: o Encouraçado Potemkin (na íntegra, com legendas em inglês) e a dança de Zorba, o Grego.

Autor de diversas críticas e comentários sobre filmes, reunidos no volume Sobre Cinema (1988), Jorge de Sena também transformou sua leitura de alguns filmes em poema, em exercício semelhante ao que já havia feito com as outras artes em Metamorfoses e Arte de Música. Apresentamos aqui os “poemas cinematográficos” de Sena:

* “Couraçado Potemkin”, de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III
* “À memória de Kazantzakis e a quantos fizeram o filme Zorba the greek, de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III
* “Filmes Pornográficos”, de Conheço o Sal… e Outros Poemas, Poesia III

 

Couraçado Potemkin

Entre a esquadra que aclama
o couraçado passa.
Depois da fila interminável que se alonga
sobre o molhe recurvo na água parda,
depois do carro de criança
descendo a escadaria,
e da mulher de lunetas que abre a boca em gritos mudos,
o couraçado passa.
A caminho da eternidade. Mas
foi isso há muito tempo, no Mar Negro.

Nos cais do mundo, olhando o horizonte,
as multidões dispersas
esperam ver surgir as chaminés antigas,
aquele bojo de aço e ferro velho.
Como os vermes na carne podre que
os marinheiros não quiseram comer,
acotovelam-se sórdidas na sua miséria,
esperando o couraçado.

Uns morrem, outros vendem-se,
outros conformam-se e esquecem e outros são
assassinados, torturados, presos.
Às vezes a polícia passa entre as multidões,
e leva alguns nos carros celulares.
Mas há sempre outra gente olhando os longes,
a ver se o fumo sobe na distância e vem
trazendo até ao cais o couraçado.

Como ele tarda. Como se demora.
A multidão nem mesmo sonha já
que o couraçado passe
entre a esquadra que aclama.
Apenas, com firmeza, com paciência, aguarda
que o couraçado volte do cruzeiro,
venha atracar no cais.

Mas mesmo que ninguém o aguarde já,
o couraçado há-de chegar. Não há
remédio, fugas, rezas, esconjuros
que possam impedi-lo de atracar.

Há-de vir e virá. Tenho a certeza
como de nada mais. O couraçado
virá e passará
entre a esquadra que o aclama.

Partiu há muito tempo. Era em Odessa,
no Mar Negro. Deu a volta ao mundo.
O mundo é vasto e vário e dividido, e os mares
são largos.
Fechem os olhos,
cerrem fileiras,
o couraçado vem.

São Paulo, 23/12/1961

=> Nota do autor sobre o poema, em Poesia III, p.249: Este poema deveria ter feito parte desta colectânea Peregrinatio ad loca infecta, a que por todas as razões e mais uma pertencia. Mas houve que retirá-lo do original, por de impossível publicação naquela época. O poema foi escrito logo após a tremenda impressão que me causou ver pela primeira vez o filme de Eisenstein. Tendo em várias oportunidades visto antes alguns dos “clássicos” russos, nunca tivera ocasião de ver este. Foi em São Paulo, numa matinée, naquele mesmo dia, com Casais Monteiro que também, se me não engano, o não vira nunca. Se me permitem acrescentar, eu em 1961 tinha já dois anos de exílio no Brasil, e os tempos iam feitos para as nossas esperanças democráticas em Portugal. O poema reflecte, pois, não só aquela impressão que o filme causa como obra de arte, que é panfleto, e vice-versa (coincidência tão rara), mas também o estado de espírito naquela época.

 

À memória de Kazantzakis, e a quantos fizeram o filme Zorba the greek

Deixa os gregos em paz, recomendou
uma vez um poeta a outro que falava
de gregos. Mas este poeta, o que falava
de gregos, não pensava neles ou na Grécia. O outro
também não. Porque um pensava em estátuas brancas
e na beleza delas e na liberdade
de adorá-las sem folha de parra, que
nem mesmo os próprios deuses são isentos hoje
de ter de usar. E o outro apenas detestava,
nesse falar de gregos, não a troca falsa
dos deuses pelos corpos, mas o que lhe parecia
traição à nossa vida amarga, em nome de evasões
(que talvez não houvesse) para um passado
revoluto, extinto, e depilado.

Apenas Grécia nunca houve como
essa inventada nos compêndios pela nostalgia
de uma harmonia branca. Nem a Grécia
deixou de ser – como nós não – essa barbárie cínica,
essa violência racional e argua, uma áspera doçura
do mar e da montanha, das pedras e das nuvens,
e das caiadas casas com harpias negras
que sob o azul do céu persistem dentro em nós,
tão sórdidas, tão puras – as casas e as harpias
e a paisagem idem – como agrestes ilhas
sugando secas todo o vento em volta.

E que não só persistem. Porque as somos:
ou tendo-as circunstantes, ou em faces, gestos,
que vão do Atlântico ao Mar Negro, ou vendo-as
não só em sonhos, mas nesta odisseia
de quem, como de Ulisses, uma vida inteira
é qual regresso à pátria demorado
para que apenas de velhice ainda a aceitemos.

Na Grécia todavia, e mais que em Grécia Creta,
isso que somos regrediu. Distância
muito maior existe em ter ficado igual
num mundo que mudou, e em ter ficado o mesmo,
vivendo como de hoje, entre as antigas pedras
guardando em si o mugir do Minotauro
(e os gritos virginais das suas vítimas),
que, em como nós, não ter nascido ali
mas onde apenas derradeiros gregos
vieram.

Por isso, este vibrar de cordas que é uma dança de homens
saltando delicados em furioso êxtase
perante a própria essência de estar vivo
(ó Diónisos, ó Moiras, ó sinistras sombras)
nos fascina tanto. O que é profundo volta,
o que está longe volta, o que está perto é longe,
e o que nos paira n’alma é uma distância elísia.

No lapidar-se a viúva que resiste aos homens
para entregar-se àquele que hesita em possuí-la
e a quem, Centauro, Zorba dá conselhos de
viver-se implume bípede montado
na trípode do sexo que transforma em porcos
os amantes de Circe, mas em homens
aqueles que a violam; nesta prostituta que,
sentimental, ainda vaidosa, uma miséria d’Art Nouveau
trazida por impérios disputando Creta,
será na morte o puro nada feminino que as harpias despem;
e neste Zorba irresponsável, cru, que se agonia
no mar revolto da odisseia, mas
perpassa incólume entre a dor e a morte,
entre a miséria e o vício, entre a guerra e a paz,
para pousar a mão nesse ombro juvenil
de quem não é Telêmaco – há nisto,
e na rudeza com que a terra é terra,
e o mar é mar, e a praia praia, o tom
exacto de uma música divina. Os deuses,
se os houve alguma vez, eram assim.
E, quando se esqueciam contemplando
o escasso formigar da humanidade que
tinha cidades como aldeias destas, neles
(como num sexo que palpita e engrossa)
vibrava este som claro de arranhadas cordas
que o turvo som das percussões pontua.

Deixemos, sim, em paz os gregos. Mas,
nus ou vestidos, menos do que humanos, eles
divinamente são a guerra em nós. Ah não
as guerras sanguinárias, o sofrer que seja
o bem e o mal, e a dor de não ser livre.
Mas sim o viver com fúria, este gastar da vida,
este saber que a vida é coisa que se ensina,
mas não se aprende. Apenas
pode ser dançada.

Madison, Janeiro /1966

 

 

Filmes Pornográficos

Estes que não actores se alugam para filmes
da mais brutal pornografia crua
em que não representam mas só fazem
tudo o que possa imaginar-se e a sério
com a máquina espreitando bem de perto
por ângulos recônditos os gestos,
os orifícios penetrados e
quanto os penetra até que o esperma venha,
por certo são dos que prazer mais sentem
sabendo que afinal se exibem para tantos olhos.
São máquinas de sexo. Às vezes belas,
sem dúvida atraentes muitas delas,
imagens escolhidas como sonhos de
que possa ser a máquina perfeita.
Mas na verdade sentirão prazer?
E na verdade o dão no que se mostram?
Tão máquinas apenas – sem de humano
não digo só que o toque da carícia abrupta
mas mesmo uma atenção de sábio acerto
profissional de orgasmos a filmar –
que nada resta destes actos vistos
sequer desse animal mais que espontâneo
em corpos se afirmando que não falam
mas se penetram ao acaso dados.
Nada de humano ou de animal humano
flutua nestes ou na imagem deles:
até porque são vistos como nunca vistos
os actos cometidos ou espreitados,
e mesmo o esperma do ininterrupto coito
(para quem paga estar seguro de
não ser fingido nada o que foi feito)
ejaculado ou vendo-se escorrer
do corpo mais passivo numa cena
é como imitação que nada inunda
senão o olhar tornado a mesma máquina
que tão perto o foi filmar ampliado.
Horrível é tudo isto. Mas no entanto,
mecânico e brutal, sem graça nem beleza,
roubando ao imaginar quanto é sentido
porque se amor se faz mal pode ver-se,
isto possui uma nobreza estranha
e uma franqueza nua que nenhum amor
a si mesmo confessa: e contradiz
quanto mistério exista, que outro mais profundo
assim nos revela: actos de amor
são tantos actos de amor quanto são actos
de actores ocasionais para ele feitos
que todos somos desde que ele se faça.

13/10/1972

 

Leia mais:

De volta a Portugal: matéria do "Diário de Lisboa", 23/12/1968

Chegado a Portugal, a 23 de Dezembro de 1968, Jorge de Sena volta a ser notícia no “Diário de Lisboa”, jornal que menos afecto ao regime ditatorial de então, publicara a entrevista já divulgada (vide seção Antologias/Declarações públicas). Relevam nesta significativa matéria adiante transcrita, as declarações de Sena elucidativas quer do seu notável trabalho de investigação sobre a História de Portugal, quer da sua esclarecida posição face ao sistema de ensino americano, à crise da juventude então em foco e à débil expressão da cultura portuguesa no estrangeiro. Estes temas, menos conhecidos e estudados na vida e obra de Jorge de Sena, adquirem aqui uma outra visibilidade susceptível de abrir para novas pistas de estudo.

Jorge de Sena em Lisboa

O escritor Jorge de Sena já na casa que sempre conservou em Lisboa e à qual chega após nove anos de ausência. Vem trabalhar como investigador histórico, com uma bolsa de estudo da Universidade de Wisconsin, onde é catedrático. Vem também rever e abraçar amigos firmes de longa data e revisitar esta Lisboa.

 

O escritor Jorge de Sena (que prepara o Romance “Sinais de Fogo”) entrou hoje em Portugal depois de nove anos de ausência

Ao cabo de uma ausência de nove anos, durante os quais tem sido professor catedrático das Universidades de Assis e Araraquara, no Brasil, e do Wisconsin, nos Estados Unidos, reentrou em Portugal o escritor Jorge de Sena.

O infatigável trabalhador do espírito veio à Europa com uma bolsa de estudos daquela Universidade norte-americana, para prosseguir as suas investigações históricas sobre Camões e iniciar uma pesquisa histórica sobre os príncipes portugueses que viveram noutras nações europeias, desde a Idade Média até ao fim do séc. XVI, “Príncipes e princesas que foram gente grada da Europa de então, que demonstraram que Portugal tinha voz na Europa desse tempo.

Jorge de Sena era esperado ontem, na Estação de Santa Apolónia, mas, devido a complicações fronteiriças geradas por um engano só hoje pode entrar em Portugal.
Um dos seus grandes amigos de sempre, o advogado e escritor dr. Sousa Tavares quis ter uma gentileza: resolveu ir buscá-lo à fronteira, esta madrugada, no seu automóvel.
Nele seguimos e às 8h 30 de hoje no café da estação vizinha de Marvão – Beirã, vimo-lo sair com duas malas, por entre o nevoeiro ante a expectativa enregelada de uma dúzia de ferroviários verificadores das alfândegas, guarda-fiscais e polícias.
O poeta regressado teve um ar hesitante de início, e logo um largo sorriso ao ver os amigos. Os abraços fizeram ressoar o cavername das costelas.
Depois foi a viagem até Lisboa o encanto da conversa de um dos mais altos valores da intelectualidade portuguesa.


Visita a 12 países e 60 cidades da Europa

A bolsa que a Universidade de Wisconsin concedeu ao seu catedrático consiste em pagar-lhe os ordenados normais, as viagens e uma ajuda de custo para fotocópias e microfilmes. Aquele estabelecimento de ensino norte-americano tem 67.000 alunos e 1500 professores dos quais 150 são catedráticos.

[J.S.] – “ Devo acentuar que esses catedráticos são eleitos por voto livre e responsável de todos os seus colegas. Estes, ao votarem, explicam francamente as razões do seu voto. A cátedra não é uma posse definitiva, mas sim um posto que tem de justificar-se sempre com próprio valor.”

E Sena acrescentou:
– “Não há sebentas, e todos os professores procuram variar e renovar os cursos de ano para ano. Os materiais de estudo são a bibliografia, os textos e as prelecções.”

Sobre a viagem de estudo que tem efectuado pela Europa nos últimos cinco meses, referiu:
{J.S.] – “Visitei, sucessivamente, a Inglaterra, Dinamarca, Suécia, Alemanha, Holanda, Bélgica, França, Suiça, Áustria, Itália, de novo França (onde fiz conferências na Sorbonne) e Inglaterra (onde deu a lição inaugural no King’s College), Espanha e Portugal. Em todos estes países encontrei textos e códices jamais lidos pelos investigadores históricos portugueses, respeitantes a Camões e aos príncipes a que aludi. Faz pena ver o material de investigação desprezado pelos investigadores nossos compatriotas, a maioria dos quais, nos últimos 50 anos, se limitaram a copiar um restrito número de obras”

Referiu, ainda, que na Universidade de que é professor dois terços dos alunos estudam de graça e só um terço paga anuidades que são de 200 dólares para os naturais do Estado de Wisconsin e de 400 para os de fora.

Membro da “Hispanic Society of América”

Em certo passo da conversa, Jorge de Sena (que enquanto viveu em Portugal, a despeito dos seus reconhecidos méritos, nunca foi promovido para além de engenheiro de 3ª classe, até porque nunca poupava críticas justas a quem quer que fosse) informou em tom bem humorado:

[J.S.] – “Imaginem que me fizeram académico da “Hispanic Society of América”. Eu académico! Com o meu feitio independente, quem é aqui capaz de acreditar nisso?”

Veio à baila a nossa Academia das Ciências, e logo se obteve de Sena uma reacção pronta:

[J.S.] – “Não, dessa não. Já era assim como hoje quando foi criada. Encontrei nas bibliotecas dessa Europa, dezenas de cartas em que se podem verificar as brigas, as intrigazinhas e o provincianismo dos pseudo-intelectuais que se apressaram a pedir ao rei para nela ingressarem.”

Quanto a projectos literários, além daquelas investigações históricas e da edição dos respectivos volumes, Sena pensa publicar brevemente um livro de poemas recentes não incluídos nos seus dois últimos volumes. Está também a escrever
[J.S.] – “um romance enorme de que já completei 600 páginas. Constituirá uma história das nossas gerações desde 1936 a 1959.Nele haverá a minha experiência pessoal e muita ficção. Pretendo que seja una obra dura. Não há nada que eu não tivesse escrito ou que não venha a escrever. Já tem título: “ Sinais de Fogo”. Será uma obra cíclica e não sei em quantos volumes, nem sequer sei se chegarei a escrevê-la toda. Sei é que insisto, será enorme.”

Falou-se depois da cultura portuguesa:
[J.S.] – “Lá fora vemo-nos por vezes, muito embaraçados ante perguntas de alunos nossos que inquirem de nós como é possível ver propagandeados certos autores portugueses que eles logo verificam não valerem nada, e, por outro lado, verificar que lhes omitem outros que eles consideram essenciais. Uma das maiores dificuldades com que sempre tenho deparado é a indicação de bibliografia sobre assuntos portugueses, a pedido de alunos meus…

Por fim Jorge de Sena considerou a actual crise da juventude como resultante, em todos os países capitalistas, da evolução da tecnocracia. Para progredir, essas nações tiveram de formar técnicos em massa. Agora dão-se conta, pela primeira vez, que aquilo que na realidade vale são os técnicos e não as máquinas. E estes, são na realidade quem manda ou virá a mandar. Até porque ou formam técnicos ou entram em decadência. A Universidade é que é actualmente a maior riqueza de um país. E os técnicos não podem manobrar-se como máquinas.

Entretanto, chegávamos à encosta do Restelo, junto da vivenda que Jorge de Sena sempre ali conservou e que alguns dos seus nove filhos (nascidos já no Brasil e nos Estados Unidos) não conhecem. Foi com emoção que o poeta abriu a porta e entrou, após nove anos de ausência.

Jorge de Sena deverá regressar aos Estados Unidos em meados de Fevereiro, mas poderá dilatar a sua estadia em Lisboa, no caso de vir a ser necessário submeter-se a uma intervenção cirúrgica “Gostaria de ser operado por um médico português”.

A Bordo da Sagres: o cadete Jorge de Sena e a viagem do Navio-Escola

Diário de Notícias, 3/10/1937

Sonho acalentado por Jorge de Sena, e estimulado pela família, seu ingresso na Escola Naval mostrou-se inicialmente auspicioso: tendo obtido as melhores classificações, tornou-se o Chefe do “Curso do Condestável”, cuja viagem "de instrução e adaptação" no navio-escola Sagres se inicia a 1º de outubro de 1937 e dura 5 meses — ao fim dos quais, por motivos ainda nebulosos, é excluído da Armada. Este episódio traumático gera persistente mágoa — perceptível, por exemplo, no vasto campo semântico do roubar, furtar, excluir, expulsar, negar (e afins) que percorre toda a sua obra, a começar pelo conto "Caim" (de Génesis), escrito em 38, e pelas centenas de poemas que escreveu, algo catarticamente, na sequência do ocorrido.
Buscando lançar luzes sobre o fato, transcrevemos abaixo notícia sobre a partida da Sagres, estampada no Diário de Notícias, seguida de dois comentários de Mécia de Sena.

 

A CAMINHO DA ÁFRICA E DA AMÉRICA DO SUL
largou ontem do Tejo o navio-escola “Sagres” com os novos cadetes

O navio-escola “Sagres” empreendeu ontem mais um grande cruzeiro de instrução e, ao mesmo tempo, de soberania e de representação diplomática: largou de rumo a Cabo Verde, ao Brasil e a Angola, com demora de cinco meses.
O barco, que conduz a bordo os novos cadetes da Escola Naval, em viagem de adaptação, estava fundeado desde a tarde de anteontem em frente de S. José de Ribamar pronto para a “largada”. O sr. ministro da Marinha, a quem a preparação técnica e moral dos futuros oficiais merece um especial cuidado, quis ir a bordo antes da partida dizer algumas palavras aos cadetes e à tripulação da “Sagres”.
Cerca das 11 e 30, embarcaram no Centro da Aviação Naval do Bom Sucesso, para bordo daquele navio, a fim de aguardarem e receberem o chefe da Armada, os srs. contra-almirantes Mata e Oliveira, major-general da Armada; Ramalho Ortigão, chefe do Estado Maior Naval; Almeida Henriques, superintendente da Armada, e João Baptista de Barros, comandante da Escola Naval, acompanhados pelos respectivos ajudantes.
Pouco antes do meio-dia chegou ao Centro da Aviação Naval o sr. ministro da Marinha, acompanhado também pelos seus ajudantes srs. capitão-tenente Duarte Silva e 1o. tenente Henrique dos Santos Tenreiro. Formou a guarda e acorreram a receber o sr. comandante Ortins de Bettencourt, os srs. capitão-tenente José Cabral, director da Aeronáutica Naval, 1o. tenente Costa Gomes, comandante do Centro, 2o. tenente Bernardino Nogueira, 2o. comandante, e todos os restantes oficiais que ali prestam serviço.
Após os cumprimentos, o sr. ministro da Marinha embarcou na vedeta da Presidência da República, a qual largou imediatamente em direcção à “Sagres”, cuja guranição formou ao avistar-se de bordo o pavilhão ministerial.
Ao portaló do navio-escola foi o ministro recebido e saudado pelo comandante interino sr. 1o. tenente João Pais, visto estar ainda em convalescença o comandante efectivo sr. capitão-tenente, Gabriel Teixeira.
No convés encontravam-se os almirantes e os oficiais da “Sagres” e, a certa distância, os cadetes em uniforme branco. Depois de receber os cumprimentos de todos os presentes, o chefe da Armada percorreu algumas dependências do barco, que sofreram ultimamente importantes beneficiações e que se apresentam por forma modelar.
Finda a visita, o sr. comandante Ortins de Bettencourt desceu à câmara do navio onde, na presença de todos os oficiais e cadetes proferiu um discurso de alto significado político.

Importantes afirmações do sr. ministro da Marinha
Começou o sr. ministro da Marinha por lembrar a transformação que vão sofrendo os serviços da Escola Naval, de harmonia com os princípios orientadores da Revolução Nacional quanto à valorização da mocidade, afirmando a propósito:
“Mussolini disse há dias no seu discurso de Berlim que o povo alemão e o povo italiano se baseiam na sua juventude, dedicada num espírito de disciplina, de coragem, de força, de resistência, de amor à Pátria e de desgosto pela vida fácil. O desgosto pela vida fácil; o gosto pelos riscos e perigos; o prazer da disciplina; a alegria do esforço; o amor da Pátria: eis os traços mais salientes da formação do caracter militar; eis as primeiras regras do bem servir. Pois bem, a reforma da Escola Naval pretendeu pôr em foco a importância das qualidades morais e levá-las ao seu desenvolvimento e apuramento; quis atender às realidades da vida; teve em vista contribuir fortemente para transformar a Armada numa verdadeira força ao serviço da Nação, pronta, disciplinada, patriótica: procurou integrá-la no espírito de renovação nacional”.
Outras afirmações:
“Queremos uma Marinha forte e prestigiada – instrumento útil de política externa em tempo de paz, e de defesa da Pátria se tivermos de sofrer a guerra – e havemos de tê-la, porque a havemos de fazer: nós, os veteranos com a nossa experiência e a nossa dedicação, e vós, moços, cadetes, com a vossa fé, o vosso entusiasmo, a vossa juventude: simplesmente, ela se não fará com o gosto da vida fácil e o desprazer do esforço, com o desânimo e o abandono, com a indisciplina e o aborrecimento das virtudes militares”.
O ministro destacou depois a importância da viagem que a “Sagres” ia iniciar, dizendo:
“A rota que vos foi marcada, neste cruzeiro de cinco meses, levar-vos-á a um porto do Brasil, Pátria irmã onde trabalham e vivem muitos portugueses que, orgulhosos de o serem e cheios de saudade, seguem com devoção, com carinho, com ardente interesse, o engrandecimento de Portugal.
Transmiti ao Brasil os nossos sentimentos de simpatia, de estima e de admiração, e aos nossos compatriotas o terno afecto de irmãos.
Com as terras portuguesas de além-mar e com os portugueses que nela labutam sêde traço de ligação; que, ao ver-vos, esses portugueses sintam que há continuidade entre a terra de onde partis e aquela aonde chegais.
Faço votos para que tenhais uma feliz viagem. Estes votos, estendo-os a todos aqueles que seguem na “Sagres”, ao serviço da Pátria; a v. ex.a sr. comandante interino, encarrego de os transmitir em ordem ao navio”.
Falando depois propriamente para os cadetes, lembrou-lhes os deveres militares e as qualidades cívicas que devem constituir a formação do caracter do soldado e do marinheiro, dizendo:
“Quero prevenir-vos muito especialmente contra um mau costume que, fazendo arraial por toda a parte, veio introduzir-se e fixar-se também no meio naval: a crítica e a depreciação de toda a acção e designadamente das ordens e dos actos dos chefes.
Combatei viva e tenazmente este vício, de consequências sempre perniciosas e contrário à disciplina e ao próprio espírito militar; a sua prática constitue [sic] mesmo uma deslealdade e uma falsidade quando são desconhecidos os fundamentos e as circunstâncias que levaram a dar a ordem ou a praticar o acto criticado.
Escolhestes uma carreira que exige o exercício de altas virtudes e vocação própria. Se neste período de experiência, ou durante a vossa aprendizagem sentirdes que vos falta temperamento, tende a coragem de desistir, prestando assim um serviço a vós mesmos e à Pátria, pois podeis triunfar e ser mais úteis noutro sector da actividade nacional.
É vosso patrono o Condestável D. Nuno Alvares Pereira: estudai a sua vida e meditai nas altas virtudes que incarnou de forma tão perfeita e completa. São dignos de relevo especial: o amor da Pátria; a lealdade para com o rei ao serviço de quem se consagrou totalmente; o sentimento do dever, pondo de parte agravos e injustiças quando se tratava de cumprir; viver sóbrio e cristão; desprendimento dos bens e dos prazeres terrenos; iniciativa; energia; decisão; coragem intemerata; vontade rija como o aço; reconhecimento e recompensa dos serviços prestados pela sua gente; bondade, sem prejuízo da justiça e do serviço de el-rei; actividade; moral inflexível; confiança em si e fé em Deus; rigidez de princípios e aplicação rigorosa da disciplina; alma aberta a todos os sentimentos nobres e fechada às mesquinharias; temperamento franco, leal, alegre e sereno, nunca o abandonando o bom humor nem mesmo nos lances mais difíceis; inacessibilidade ao desânimo; insensibilidade ao sofrimento próprio.
Diz Oliveira Martins que para o Condestável: tudo era religioso, desde os costumes privados, até à disciplina guerreira, até ao culto da Pátria, até ao amor do rei, até finalmente à própria vida que votara a uma missão transcendente e ideal.
Que a sua vida seja a fonte onde haveis de temperar a alma para o serviço da Pátria e as suas virtudes constituam o modelo por onde moldar as vossas!”.

A largada da “Sagres” foi um espectaculo interessante
O sr. 1o. tenente João País proferiu então algumas palavras de agradecimento afirmando a sua esperança de que todos, mais uma vez, saberão cumprir o seu dever e honrar a Armada.
O sr. ministro da Marinha entregou então ao navio um exemplar da “História da Colonização Portuguesa no Brasil”, oferta do sr. ministro da Educação Nacional e, aos cadetes, exemplares da obra “A Vida de Nun’Alvares”, de Oliveira Martins, nos quais escreveu as seguintes palavras:
“Neste livro encontrará inspiração para a sua vida de soldado e de marinheiro da Pátria, tomando como guia e exemplo as altas virtudes do Santo Condestável. (a) Manuel Ortins de Bettencourt”.
O sr. ministro e os almirantes abandonaram depois o navio, cuja artelharia [sic] deu as salvas da ordenança, formando novamente a guarnição.
Ao meio da tarde a “Sagres” suspendeu e navegou a motor de rumo à barra. Uma vez ao largo e aproveitando a ventania rija que soprava, o elegante navio soltou todo o pano e aproou a sudoeste. Com as grandes velas enfonadas a “Sagres” ostentava na sua beleza cênica qualquer coisa de evocativo.
O primeiro porto de escala será S. Vicente de Cabo Verde, seguindo-se Santos (Brasil) portos de Angola, novamente Cabo Verde e, por fim, Lisboa.

(Diário de Notícias, 3/10/1937)
 

 

A propósito desta notícia, Mécia comenta:

=> Lendo essa notícia da partida da Sagres, entende-se claramente que a orientação que ia dar-se aos cadetes tinha novas directivas (e levando em conta que o desencadeamento delas estava ligado à "Revolta dos barcos", que acontecera no ano anterior, e esta era a primeira viagem depois desse acontecimento).

=> A bordo, houve variados acidentes, a ponto de, por duas vezes, os marinheiros terem feito "levantamento de rancho", um dos quais em protesto do tratamento que estava a ser dado aos cadetes.