Os Trovadores Malditos, de Marcel Carné

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Os Trovadores Malditos, no original Les Visiteurs du Soir, filme de 1942 dirigido por Marcel Carné, teria sido, segundo Mécia de Sena, uma das possíveis “inspirações” para a criação de O Físico Prodigioso. Transcrevemos, a seguir, na íntegra, o comentário de Jorge de Sena ao filme, lido em 5 de julho de 1949 nas “Terças-feiras clássicas”, organizadas pelo J.U.B.A. no cinema Tivoli de Lisboa. O trecho cortado pela Censura foi reintegrado ao texto no volume póstumo Sobre Cinema, de 1988, que reúne os escritos do autor sobre a sétima arte. 

Les Visiteurs du Soir é um filme em que a poesia, a ironia, a música, o sentido alegórico e a técnica cinematográfica aliadas a alguns séculos de consciência e de cultura, se conjugam para formar uma obra que, se não é uma das obras-primas do cinema, é sem dúvida uma das mais belas e interessantes que o cinema europeu tem produzido. Se reparardes bem, este filme não poderia ter sido produzido na América. Se um tema semelhante o tivesse sido, por certo que a reconstituição, aliás imaginosa, da Idade Média seria uma salada de todo o bric-à-brac de todos os lugares desde o séc. XII ao séc. XVII, pelo menos as personagens seriam todas duma beleza glicerinada e mirífica, haveria pradarias e cow-boys, tudo isto imensamente em tecnicolor. Seria um espetáculo magnífico capaz de satisfazer as bilheterias, mas incapaz de reflectir mais do que a magnificência heteróclita de quem a produzia. Mesmo o diabo nada teria de um grande senhor, pouco se distinguiria daquele pobre diabo que, segundo Stephen Vincent Bénet, Daniel Webster tão juridicamente enrola.

Porque este filme mete o diabo e alguns dos seus executores oficiais. A sensualidade maliciosa e violenta que esses agentes do maligno patenteiam é, no cinema, timbre de honra do cinema europeu que, apesar de tudo, não atingiu ainda a hipocrisia industrial do Código Hays.

A própria lentidão do espectáculo, que culmina com a imobilidade da cena do baile é índice duma segurança poética que o baixo comercialismo não permite.

A força requintada, a brutalidade graciosa, um sentimentalismo depurado e subtil, o qual, através dos versos de Jacques Prévert, faz ecoar a sensibilidade provençal e trovadoresca, dão a este filme um tom que resume alguns dos mais belos momentos da sensibilidade europeia.

[A liberdade do amor e o amor da liberdade, um e outro tão vigorosos, conscientes e firmes que contra eles as portas do Inferno não prevalecerão, representam imperativos constantes da nossa consciência, leis permanentes da nossa personalidade.] (Trecho cortado pela Censura)

O demónio que, sendo orgulho de poder é também mediocridade satisfeita, como dizia Gogol, não consegue bater-se com a capacidade de resistência daquelas duas forças fundamentais.

Conto medieval ou fábula de hoje, Les visiteurs du soir na sua poética reconstituição de ambientes, significa isto mesmo: as tentações, as ciladas, as emboscadas nada conseguem perante a dignidade indefectível de um amor que não recua em enganar o próprio diabo como ele merece que o enganem para que a liberdade prevaleça.

Deste modo, poderíamos dizer que Les visiteurs du soir não é um filme fantástico. É uma obra actual em que as vicissitudes da condição humana são alegorizadas. A própria música sublinhando o filme se nos transporta ilusoriamente, associada às imagens, a épocas perdidas, contribui para criar um estado de encantamento em que a lição da actualidade mais traiçoeiramente penetrará o público desprevenido. A poesia que ressuma da luminosidade ou do sombrio das imagens ou do sereno requinte dos diálogos, integra para o mesmo fim todas estas forças. Que a poesia proceda por portas travessas é apenas uma questão de cultura; não será por isso menos violenta, menos directa, menos contundente. Certas diatribes automáticas surrealistas são sem dúvida, apesar da sua ininteligibilidade imediata, mais eficazes que a clareza de algumas dúzias de velhices “do Padre Eterno”. Tudo o que o homem faz visa, ao fim e ao cabo, o entendimento próprio ou alheio, mas tudo o que o homem faça visando apenas esse entendimento, esquecendo que na memória do coração humano, há “no céu e na terra mais coisas que a tua filosofia sonha”, (como Hamlet dizia a Horácio) restringirá esse próprio entendimento, porquanto o homem só progride na medida em que conscientemente ultrapassar aquilo que, em cada conjunto de circunstâncias, é a sua própria medida.

A lição da perpétua luta do amor ressalta de uma canção que um dos trovadores canta e cuja letra, que tendes no programa, passo a traduzir:

Demónios e maravilhas
Ventos e marés
Já para longe o mar se retirou
E tu
Como uma alga docemente embalada pelo vento
Nas areias do leito te moves sonhando
Demónios e maravilhas
Ventos e marés

Já para longe o mar se retirou
Mas em teus olhos entreabertos
Duas pequenas vagas ficaram
Demónios e maravilhas
Ventos e marés
Duas pequenas vagas para me afogar.

Demónios e maravilhas – é bem o lema significativo deste filme, como o é do nosso tempo. E, se quisermos, da própria vida.

 

* in: Sobre Cinema, 1988