Transformações e Metamorfoses do Sexo

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Transformações e Metamorfoses do Sexo é o título de uma série de 20 desenhos de José Rodrigues, reproduzidos num álbum, em especial edição da O oiro do dia (Porto, 1980). Precedendo as imagens, um ensaio sem título de Jorge de Sena (p.9-18), reproduzido por Jorge Fazenda Lourenço em A Arte de Jorge de Sena – uma antologia (Lisboa, Relógio d'Água, 2004 p. 363-8), de onde extraímos os fragmentos aqui transcritos.

(…) Que os pintores e/ou artistas gráficos se tenham dado a transformações ou metamorfoses de um tema visual ou de uma forma, é velho como o mundo. Quando, nas paredes das cavernas, uma manada de animais era perseguida por vários caçadores, os animais eram variações uns dos outros e da estilização do animal verdadeiro, tal como as figuras humanas o eram da imagem do guerreiro e do próprio homem. Ao pintarem mais do que uma vez o mesmo quadro, porque os compradores lhos pediram idênticos, nunca os pintores grandes pintaram a mesma coisa: mas variações e metamorfoses daquele “modelo” que o comprador desejara. (…) Em gravuras, os artistas podem apresentar-nos estádios diversos da mesma. Mas, tanto nelas como em desenhos ou pinturas, muitas vezes, como desde sempre, praticaram transformações de forma (e portanto de sentido, no sentido de que o que se vê é para ser sentido de outra maneira), suprimindo, acrescentando, alterando a disposição das partes, jogando com todas as distâncias da representação formal, desde a sugestão mais abstracta até a figuração mais concreta. (…)


(…) os puritanos de todos os tempos, em séculos mais recentes, sempre fizeram por esquecer que existe uma dialéctica sexual do ocultamento e da exibição, e sempre pretenderam suprimir o segundo termo, sobrepondo-lhe as cuecas do primeiro. Há razões profundas para isso que não têm que ver com o que se chama decência, e têm que ver, sobretudo, com o carácter sagrado de todo o sexual, que séculos de cristianismo pervertido, actualmente traduzidos na reversão ateísta que não supere a perversão daquele cristianismo traído (e portanto procede e reage da mesma maneira) traíram. O pudor não é horror do natural que os órgão sexuais e os actos sexuais são: é apenas horror e vergonha do uso maligno deles, isto é, de eles serem sugeridos, convidados, mostrados, ou usados para satisfações mórbidas, desprovidas daquela inocência que, por outro lado, não tem nada a ver com a ideia de estar-se ou não marcado por um Pecado Original. Esta inocência é apenas a alegria legítima de um prazer que foi dado ao animal – humano ou não – em relação ao sexual. Legítima, uma vez que é parte da satisfação do acto sexual concluso, ou da consciência de que os órgãos lá estão (e, mesmo para o velho, a que eles não servem de quase nada às vezes, lá estão para a memória contente de terem servido) no seu lugar, como a anatomia os colocou. (…)


Se a Divina Providência, a supormos que é providência e que é divina, duas qualidades que não vão necessariamente juntas, ao contrário do que, por hábito automático, se pensa (mesmo quem não acredita), quisesse assegurar garantidamente a propagação das espécies, teria, na sua infinita sabedoria, muitas maneiras de resolver o problema sem prazer que as fizesse, sendo humanas, incorrer em pecado de luxúria, como é sabido, um dos pecados mortais. A evolução humana permite, e a constituição psicofisiológica do ser humano sempre permitiu, o prazer sexual, na mais absoluta inocência: e não haverá maior inocência do que usar-se ou pensar-se sexualmente, sem a ideia de que teremos ou não teremos consequências reprodutórias. Só assim, na verdade, se conquista por instantes aquela imortalidade aqui e agora, em que existimos por nós e para nós, e para o corpo que se faz um com o nosso, sem que esse momento de liberdade suprema interfira com a liberdade de ninguém. Porque todos nós somos únicos, desde os mais sabidos e ilustres e refinados, até aos mais ignorantes, anónimos e grosseiros (e o que nós queremos, aqueles que sabem querer, é que todos cheguem àquela aristocracia psicossexual de que a liberdade do sexo é parte inalienável), por existirmos: mas ninguém é mais único – e ao mesmo tempo mais anónimo – do que praticando ou contemplando o acto do amor ou aquilo com que ele se faz e é o corpo. (…)


A correlação íntima e profunda que identifica o divino e o sexual está manifesta nos arcanos de todas as religiões, e explícita em muitas delas que sexualmente representam o divino e vice-versa (será necessário recordar exemplos tão distantes e separados como os relevos eróticos dos templos da Índia e os da América pré-colombiana? Os símbolos fálicos ou femininos dos povos primitivos, ou dos primitivos que nos precederam? A magnificência sexual dos mitos greco-romanos? A necessidade absoluta que o cristianismo sentiu, ao defender-se dos seus castradores mais furiosos, de afirmar como Cristo era um homem completo, dotado de órgãos sexuais como qualquer homem que Ele não poderia ter sido sem eles?). Mas é mais, na verdade, do que correlação. Na medida em que as religiões recolheram e sistematizaram o mais essencial do humano de que viviam ou a quem ajudavam a viver em mundos aterradoramente desconhecidos (mas em que a vida podia ser tão esplendidamente imaginada como os velhos clássicos nos deixaram em versos que são exemplo de inteira e liberta imaginação), elas são já um superstrato socialmente constituído (e por isso tão rígidas de normas – menos morais que sociais – o são entre os primitivos, passe esta palavra que não pode aplicar-se a ninguém, que não às populações, mesmo entre as mais ocidentais, despojadas dos seus costumes e hábitos tradicionais, sem que estes tenham sido transformados dialecticamente por integração moderna). Ao princípio não era o Verbo, não era a Acção, não era nada do que tem sido dito. Ao princípio, e daí nasceram todas as divindades (mesmo que acreditemos que existiam antes de nascerem humanamente para nós), era o Sexo, quando o Homem (ou seja, a espécie humana) o descobriu enquanto tal. Poderíamos e deveríamos dizer que foi esta descoberta, rememorada nos símbolos fálicos mais arcaicos, como nos grafitos das paredes de hoje e sempre (visto que a criança e o jovem de hoje também descobrem em si mesmos, individualmente, o que a humanidade, para ser, descobriu uma vez), o que criou isso a que se chama humanidade, o Homem. O momento em que o sexo passou a ser conhecido como algo em si mesmo, e não como uma função animalmente inconsciente, obedecendo aos impulsos dos ciclos naturais do cio.


(…) Dir-se-á que a ênfase no sexo, ou no sexual, esquece ou suprime aquela palavra mágica (que o é) que tem servido para traduzir em reles vulgaridade a dignidade do que ela significa. Porque o Amor não é senão o desejo sexual elevado à fixação mais ou menos longa (e isso é com cada um, e ninguém tem nada com tal), e à complexa mistura dele com uma outra coisa que existe no sexo, mas pode repetir-se no acto sexual e passar à vida em comum (momentânea ou inteira dos indivíduos), e que, também animal, constitui outra invenção humana como o Sexo, e é a Ternura. Ser isto já não é pouco. Mas, como pensavam os Antigos, o Amor é o Eros supremo, anterior a tudo, e ao qual mesmo os deuses estão submetidos, e é também o Eros-Tânato, em que Amor e Morte se unem (porque morrer é ressuscitar, como sempre se disse do acto sexual, ou voltar ao ventre materno, como os túmulos dos povos arcaicos representavam com segura anatomia feminina). Mas é também o amor que move o Sol e as mais estrelas, como disse o Dante no último verso da sua Commedia. Porque ele é não a paixão, a dor de corno ou de cotovelo, etc., tudo coisas legítimas e inescapáveis do humano. Ele é a vera essência de nós no mundo, através do Sexo e do Divino indistinguíveis precisamente por Amor existir humanamente. Não há deuses sem sexo, e não há amor de Deus que, sem pecado, possa não ser sexual. Porque o maior pecado, se há pecados (e há, dos homens uns para os outros), é castrar o ser humano, o que, para o crente, deveria significar a castração do próprio Deus. Os místicos sempre falaram a linguagem do sexo, não por lhes faltar a língua e serem forçados a analogias desagradáveis, mas porque diziam as coisas como eles não podiam deixar de senti-las (creia-se ou não na experiência deles, sempre válida para quem creia nas metamorfoses do Sexo e do Amor). E, nos próprios místicos, ou nos mais fundos poemas de amor, como nas mais belas representações eróticas, sempre perpassa uma última coisa que nos cumpre referir (…): um sentido do humor, a Ironia. A derradeira ironia de quem sabe que o Sim e o Não são a mesma coisa, e que tudo, em transformação, é e não é ao mesmo tempo. E que, como desde sempre se soube e se representou ou disse, há um lado gracioso e irónico com que o Sexo nos atrai e engana (e às vezes até nos humilha), com as suas imagens fugidias, as suas satisfações apressadas, as suas coincidências gloriosas de prazer. É falso que se diga que depois do coito o animal é triste… À luz do que antes dissemos, o animal poderá sentir-se triste. Mas o homem só pode sentir que, uma vez mais, exerceu a sua liberdade. Por certo que a liberdade é – como o Eros referido – uma coisa terrível, que mete medo a muita gente. Mas o único medo legítimo foi sempre o de não enfrentarmos aquilo que, na realidade que temos e não há outra, é mais do que nós mesmos, tal como o falo cresce para o ato sexual, a vulva se concentra em segurá-lo, e o sémen salta, voltando tudo ao como era antes, ao que parece. E não volta. (…) tudo se modifica constantemente, num combinar e recombinar eterno que é o tempo total da nossa vida.

Santa Bárbara, Setembro de 1977