Papel dos escritores no Brasil

Nesta comunicação escrita para a Convenção anual da PCCLAS – Pacific Coast Council for Latin American Studies – realizada em Santa Barbara, California, em novembro de 1970, Jorge de Sena, com notável poder de síntese, perfaz um percurso pela Literatura Brasileira tomando como fio condutor a busca da chamada "identidade nacional" e as preocupações político-sociais. Observe-se o especial destaque dado a Jorge Amado.


Não é fácil para um escritor nascido e criado na Europa, que estudou o Brasil e a cultura brasileira muitos anos, e que se tornou brasileiro, quando no Brasil viveu, falar a uma assistência Norte-Americana, e para mais, uma assistência académica, do «papel dos escritores no Brasil». São muitas as razões. Antes de mais, um europeu, mesmo quando ama e respeita as Américas, não as vê como os americanos talvez gostem de ver. Em segundo lugar, um português que se torna brasileiro e ao mesmo tempo continua parte activa da cultura portuguesa é uma pessoa com lealdades divididas. E se os portugueses e os brasileiros sentem que não é fácil ser um português ou um brasileiro, imaginem o que será ser os dois ao mesmo tempo! Não é realmente fácil, posso garantir-vos, e tal como disse o imperador de outros tempos em circunstâncias bem especiais, não é um «leito de rosas»… E, em terceiro lugar, há ainda mais uma complicação a acrescentar. Tenho a certeza que todos vós estais interessados no Brasil, que muitos de vós amam o Brasil e alguns de vós até o amarão, não de modo paternalista, mas com a convicção de que não há povos melhores do que outros. No entanto, sois americanos, estamos na América e eu, aqui, estou sendo parte de vós, como professor americano. Significa isto que uma terceira lealdade me prende, de certa maneira. Eu declino dizer quem nesta trindade é o Deus Padre, o Deus Filho ou o Espírito Santo — a diferença de opinião poderia dividir-nos.

E vamos à matéria. Como crítico literário sempre mantive dois princípios aparentemente contraditórios: que as obras de arte, qualquer arte, devem ser estudadas e entendidas através da sua própria estrutura, por elas mesmas, e também que nenhum profundo entendimento de qualquer obra de arte pode ser atingido se não possuímos informação e experiência suficientes para vencer as exigências do espaço, do tempo e as diferentes visões da vida que condicionaram a sua criação. A contradição, se é inteiramente impossível para muitos entendimentos, é apenas ilusória para mim. Não muitos países oferecem melhor exemplo para a demonstração do que o Brasil.

Diz-se vulgarmente que o Brasil é um país em formação. De certo modo todos os países estão sempre em formação, a menos que estejam já condenados a desaparecer. Mas mesmo então, se eles podem desaparecer como nações e certos tipos de civilização, não o poderão como países. A História é precisamente a relação crítica de como impérios desaparecem mas os países prevalecem, para outros impérios se construírem em cima. É também normalmente dito que as américas são países novos, sobretudo em comparação com os países velhos da Europa e da Ásia. Mas de cada vez mais acredito que isto é uma conspiração Euro-Asiática, como diríeis, para vos fazer sentir jovens e presos a obrigações, como bons filhos, de tomar conta dos pais quando eles forem velhos. As nações da Europa não são assim tão velhas; muitas delas pretendem apenas que o são para parecerem respeitáveis. Algumas delas, como o Reino Unido, Alemanha, Itália, são mais jovens do que a descoberta da América, que tem a mesma idade da Espanha — algumas delas são mais jovens do que os Estados Unidos ou o Brasil. Nunca antes existiram como as nações em que se tornaram e que fingem que sempre foram. O mito das Américas é baseado no mito do Novo Mundo. Mas esse mundo era novo apenas para os europeus quando eles o descobriram. E isto explica o interesse nas Américas pelo passado pré-colombiano: é como descobrir que afinal de contas, o novo era tão velho como o velho. Claro que há ainda outro ponto importante. Ao descobrirem o Novo Mundo, os europeus colonizaram-no. E as nações que surgiram no cenário americano eram ex-colónias que se libertaram dos seus senhores. Mas fazendo-o não estavam de modo algum na mesma posição das colónias africanas ou asiáticas do nosso tempo. Estes novos países ganhavam a sua liberdade, se é que realmente a ganharam, em muitos casos, que tinham perdido, sobretudo durante a expansão colonial da Europa, no século passado: tinham sido colónias, mas não tinham sido colonizados. No Novo Mundo a população foi, por séculos, feita de cidadãos da mãe-pátria e dos descendentes deles. Querer liberdade, pedir independência não era exactamente expulsão da dominação estrangeira: era cortar laços que tinham perdido o sentido, apesar de serem o verdadeiro fundamento em que esse sentido de liberdade se criara. Ao ler proclamações de independência (sempre foi um dos meus entretenimentos) desde a primeira conhecida da história humana, encontrei na maioria das vezes uma nota muito curiosa; um dos mais fortes argumentos em favor da independência é o de que o povo quer ser livre de opressão. Pensando duas vezes, isto parece-nos um pouco estranho. É como dizer que se os escravos forem bem alimentados, tratados com benevolência, e como fazendo parte da família, não há motivo para sonharem com liberdade. E a verdade é que escravatura não é menos escravatura quando os escravos são bem alimentados. Por outro lado, quando os Padres Fundadores dos novos países lutaram pela liberdade, a maioria deles nunca aceitou que essa liberdade abrangesse os seus próprios escravos. Sendo como eram homens de sabedoria, como muitos deles sem dúvida eram, isto pede alguma atenção. Curiosamente, o próprio facto de o Novo Mundo ser novo, favoreceu o aparecimento num ou noutro local de um sentimento novo. As colónias eram extensões da mãe-pátria, gente viria viver neste lado da terra, tinham de ajus-tar-se a um novo ambiente de acordo com as suas tradições, mas, apesar de todos os laços, iam moldando uma coisa diferente, tão diferente que, ao regressarem, sentiam-se mal na terra dos seus antepassados, onde até o último dos mendigos os tratava como cidadãos de segunda classe. Isto era evidentemente uma contradição muito humilhante quando eles sabiam que estavam a criar uma coisa que era diferente porque tinha de o ser, e, ao criá-lo, não eram lá, de modo algum, de segunda classe. Dentro deste quadro, o caso brasileiro apresenta muito importantes peculiaridades. O Brasil tinha-se tornado nos sécs. XVII e XVIII mais e mais o centro principal do Império Português. Chegou a tal ponto e tão diferente dos outros países das Américas, que no séc. XVIII os melhores escritores portugueses são muitos deles brasileiros, estão ao serviço do governo em Portugal e havia até brasileiros ministros de estado, em Lisboa. Quando o rei português foi para o Brasil estava fazendo o que tinha já sido considerado, pelo menos duas vezes, nos séculos anteriores e, num desenvolvimento lógico, o Rio de Janeiro tornou-se por algum tempo a capital do Império Português. Como sabem, por essa altura, a África não era, para a Europa ou para as Américas, mais do que uma fonte de mão de obra. Para a classe dirigente no Brasil que sentido faria voltar para uma posição secundária, se o rei regressasse a Lisboa, e quando Lisboa não tinha já nenhum controle do comércio Átlântico, que estava inteiramente nas mãos inglesas? As ideias republicanas varriam as américas, o liberalismo (o radicalismo do tempo) era corrente, as grandes potências nunca permitiriam uma tal porção da costa atlântica tornar-se uma segunda França. A independência tinha de ser conseguida a tempo de evitar uma rebelião popular. E o Príncipe D. Pedro, em devido tempo, a proclamou, seguindo o conselho da real paternidade, e capitalizando nos sentimentos nacionais, furiosos com o comportamento dos liberais em Lisboa, que muito liberalmente queriam que o Brasil voltasse ao seu estatuto colonial. Eu não estou lançando dúvidas sobre o genuíno dos sentimentos nacionais mas apenas chamando a atenção para como as classes dominantes mostram por vezes uma clara tendência para fazer estes sentimentos coincidirem com os seus próprios interesses. Mas o problema tremendo que o país novo confrontava era muito diferente do que acontecia noutros lugares. Portugal não fez nenhuma guerra contra o Brasil, os portugueses estavam por toda a parte no Brasil e continuaram a ir para lá aos milhares, tal como tinham feito no passado; toda a gente educada tinha sido educada quase exclusivamente em Portugal; e até a monarquia continuava na mesma família de antes. A independência, portanto, tinha de ser conseguida politicamente e culturalmente, dando ao povo a ideia de que a mãe-pátria não tinha nada que dar (o que era naturalmente comum aos outros países americanos) e que para ser brasileiro era necessário esquecer que as classes dominantes tinham sido, eram e tinham a intenção de ser as classes dominantes. Todos os males e culpas eram de Portugal (o que, é claro, era em parte verdade, já que ninguém tem uma colónia para alimentar belos sentimentos ecológicos). A tal ponto esta ideia foi alimentada que ainda hoje honestos historiadores falam dos sécs. XVII e XVIII em termos de os índios serem os brasileiros, e os seus escravizadores e destruidores apenas os portugueses. É com
o partir do princípio, nos Estados Unidos, de que a Inglaterra roubou a terra aos índios, enquanto os americanos, tentavam sem qualquer possibilidade, salvá-los. Os índios, contudo, eram um grande recurso para as classes dominantes. Para o final do séc. XVIII, os índios tinham morrido nem sempre de morte natural, tinham sido esmagados como «nações» e absorvidos no baixo estrato da população rural (feita de cruzamentos e cruzamentos das chamadas três raças), ou empurrados para as mais distantes terras do interior. Estavam maduros para se tornarem a encarnação das virtudes nacionais e do passado tradicional, sem qualquer risco. E, depois de alguns interlúdios épicos do séc. XVIII, fizeram a sua entrada na cena literária com os Românticos; não como índios contemporâneos mas como antigos heróis medievais. As velhas crónicas e livros de viagens foram rebuscados para dar a cor local que os próprios índios não eram capazes de dar. Os milhões de negros que tinham sido e ainda eram a base de toda a vida social e económica não tiveram o mínimo papel. E porque haveriam de ter? Toda a gente os podia ver por toda a parte, fazendo tudo — eles eram, de facto, o que foi dito dos caminhos de Espanha no Don Quijote: o ilustre cavaleiro anda neles, mas não são nunca descritos. Além disso, os índios eram sem dúvida alguma americanos, e os negros tinham vindo de África e sendo escravos, nunca tinham tido tempo para se tornarem brasileiros, tal como tinha acontecido com os primeiros portugueses que se fixaram. Se insisto em primeiros aqui, é porque as classes dirigentes no Brasil por muito tempo sempre insistiram nisso, como muitas famílias ainda o fazem: e é muito curioso salientar como não viam a contradição disto, já que o Novo Mundo, por ser novo, não necessitaria dessa antiguidade. O facto é que, quando o faziam, faziam a separação entre eles mesmos e os recém-vindos. E já para os meados do século passado, o Brasil abria as portas a milhares vindos de todas as partes do globo. Porquê? Os interesses económicos estavam a mudar, a pressão internacional (e a pressão nacional também) começava a fechar a fonte de mão de obra e a reclamar a abolição da escravatura, e abolir a escravatura era, para as novas classes médias (e alguns dos velhos e frustrados liberais), a maneira de corroer o poder da aristocracia fundado na terra. A ironia estava em que esta aristocracia de cada vez mais capitulava no poder dos grandes investidores, dos exportadores, da máquina bancária e dos negócios, e pedia apenas que o processo fosse gradual, para os salvar do desastre. Esta é a razão pela qual pode dizer-se que o último escravo a ser libertado no Brasil foi o Imperador, quando a república foi proclamada. E completamos o círculo: e melhor podemos agora entender porque os padres fundadores tiveram que escolher entre libertarem-se a eles mesmos ou aos seus escravos.

Mas a campanha para a abolição, no Brasil, permite notáveis exemplos de um modo idêntico de evitar os reais problemas, em favor de largas e ressonantes perorações. A escravatura é brandida como o mal que é, mas quando um poeta e um poeta excelente, escreve contra essa escravatura ele simboliza a situação visualizando o drama do escravo num barco negreiro cruzando o Atlântico. Se nós podemos imaginar que o barco é um símbolo para o Brasil, não menos a escravatura era atacada através de um símbolo que não tinha então realidade nenhuma — e os traficantes, não os donos de escravos, são os alvejados. A sociedade nova que emerge com a República estava tremendamente preocupada em não ser uma sociedade totalmente branca. Quando o Império abrira as portas do país aos imigrantes tinha buscado a Alemanha, já que uma boa quantidade de sangue germânico traria, em princípio, um bom peso de superior raça àquela trapalhada. A República acrescentou um toque final quando teve o cuidado de não permitir imigrantes de África, entre as sucessivas ondas de muitos países que iam para o Brasil para fornecer ofícios, pequeno comércio, etc., requeridos por uma sociedade que crescia rapidamente e para trabalhadores braçais, necessários em um novo sistema de exploração da terra. Ao mesmo tempo esta preocupação acerca de não ser suficientemente branco e portanto por padrões do hemisfério norte de menos valor, começava a ser equilibrada pela «descoberta» de que o «mulato» era realmente a-chave para a natureza brasileira e a fonte da futura grandeza. É imensamente curioso salientar que o romance que iniciou o naturalismo no Brasil tinha por figura principal e no título um mulato, mas… este homem, tal como a celebrada Escrava Isaura tinha sido alguns anos antes, era tão educado, tão falho de características raciais negróides que alimentava a esperança de que com tempo, bom cruzamento, e graça pessoal, os mulatos tornar-se-iam inteiramente e sem se distinguirem, brancos. Claro que eles podiam: e o maior escritor brasileiro até hoje, Machado de Assis, extremamente civilizado e auto-educado cuja arte é uma das mais hábeis mesclas de tragédia e humor alguma vez criadas neste mundo, se ergue precisamente como um símbolo dessa perfeita integração.

No entanto, muitos críticos brasileiros recusaram sempre, embora concedendo génio a Machado de Assis, aceitá-lo como um escritor brasileiro, ou, digamos, o escritor brasileiro. Porque a nova sociedade estava sobretudo interessada em duas correntes literárias: a simbolista-parnasiana, que inclui poetas que vão desde o mais alto sentimento visionário ou o pretenciosismo esteticista de sonhar com vasos e templos gregos, até aos escri-tores-prosadores que consideravam sua mais civilizada obrigação uma elegante e superficial atitude da criação literária; e os regionalistas. O regionalismo estava preocupado com anotar os comportamentos e falas do povo das áreas rurais e as suas peculiaridades, ao mesmo tempo enaltecendo-lhes a dignidade e o bra-sileirismo. Sem dúvida que o povo, aos milhões, era Brasil. Mas olhar para o povo com tal condescendência aristocrática ou tão urbana curiosidade estava de acordo com uma sociedade cujos escritores e cujos leitores viviam principalmente nas cidades. Literatura séria, excepto para uns poucos pobres poetas, não deveria ser tão séria — e Machado de Assis sendo muito sério e descrevendo com impiedosa ironia a mesquinhez da vida e da natureza humana através da sociedade do Rio de Janeiro estava a denunciar como desagradável aquilo que era tão agradável de disfrutar, e não focando o pitoresco da vida rural, também muito agradável de usufruir, especialmente das varandas das casas grandes. Ainda hoje Machado de Assis é realmente um milagre conseguido pela sociedade carioca do segundo reino do Império. Não se pode dizer que o Brasil, com algumas das maiores cidades do mundo, tenha produzido um único escritor da vida citadina que possa, mesmo de longe, aproximar-se da sua grandeza. Nem produziu nenhuma grande obra para lá de alguma importância, sobre os problemas imensos que milhares de imigrantes correndo para o Brasil e ajustando-se a ele encontravam, ainda que o processo já dure há um século.

Quer isto dizer que o Brasil continua dominado pela enormidade das suas áreas rurais, pela vasta população que vive aí (embora tão esparsa)? Não necessariamente. Nas criações e ideias literárias, fala-se muito do povo, mas os heróis dos romances permanecem, na maioria dos casos, os membros da velha aristocracia rural. É mais provável que o Brasil, ou as classes dirigentes no Brasil, ainda não tenham desistido do velho mito romântico de olhar para a Natureza como fonte de pasmo, e para o povo como uma fonte de proveito da burguesia e da aristocracia. A literatura brasileira dos anos 20 e 30, quando os movimento de Avant-Garde se desenvolvem em grande velocidade, e mudando as correntes literárias no país, é um maravilhoso mostruário destas contradições. Os modernistas afinados pelos seus pares europeus e americanos, acerca dos quais estavam perfeitamente informados, atacaram todas as regras e modas do «establishment» literário: era preciso escrever sobre a sua própria experiência, da maneira como se falava, e, acima de tudo era preciso re-descobrir o Brasil. Esta última parte do programa parece contraditória em termos de modernismo internacional — porque muitos modernistas na Europa ou nos Estados Unidos não estavam grandemente preocupados com descobrir os seus próprios países: já tinham tido mais do que a conta disso. Mas não é. Re-descobrir o Brasil era atirar fora o manto da retórica parnasiana, os véus dos nevoeiros simbolistas, as belezas do regionalismo superficial, e também a velha sombra que com gramáticas e meticulosos dicionários, surgira outra vez: o fantasma português. Quer num plano pessoal quer num plano subjectivo a literatura deveria ser a procura de uma identidade nacional. Isto acontece pela primeira vez precisamente quando a República, ou a chamada Primeira ou República Velha, estava em colapso por não tomar em conta os variadíssimos interesses da classe média emergente, nem as preocupações da velha aristocracia do Nordeste ou do Sul: São Paulo e Minas Gerais, mais as suas famílias, realmente governavam o país. É quase irónico que o movimento de vanguarda tivesse sido lançado em São Paulo — quando São Paulo iria ser esmagado pela revolução que todos desejavam. Mais uma vez tal se devia ao facto — acentuado mais tarde com nobre humildade e amarga tristeza por Mário de Andrade, o líder do movimento — de que os primeiros modernistas estavam tão preocupados com descobrir o Brasil neles mesmos que se esqueceram do povo brasileiro. A reacção veio do Nordeste, quando a revolução de 1930 estava a ponto de mudar o equilíbrio de forças na nação. Uma relação que não estava muito interessada no experimentalismo da Vanguarda, e conduziu à criação da Idade de Ouro do romance moderno brasileiro, numa reacção em favor da análise dos problemas sociais. Apenas os quadros políticos tinham sido inteiramente alterados. Uma ditadura estava no poder que a velha aristocracia, os liberais, e os esquerdistas, todos juntos, consideravam ser contra eles. E é isto o que dá uma cor e um sentimento de protesto social a romances que sobretudo dizem respeito às desgraças da velha aristocracia do Nordeste, na viragem do século. Muitas vezes alguns críticos apontaram, mas não acentuaram suficientemente, como no Brasil, o chamado país do futuro, a literatura está virada para o passado. Poderíamos dizer que o povo procura ainda uma integração mítica, obcecados com possuírem um país que muitos deles realmente não possuem. Todavia é mais justo notar como tal literatura sonha com o tempo em que alguns a possuíam. Não há nenhum esforço de reforma social que disfarce esta nostalgia pelos velhos costumes aristocráticos. E isto explica o facto de tão brilhante realização ter tido tão curta vida. Por volta de 1945, quando na onda da vitória aliada na Segunda Guerra Mundial, o regime de Getúlio Vargas foi deposto e a democracia restaurada, já todos aqueles sonhos de reforma através da literatura se tinham desvanecido no ar. Paradoxalmente os velhos usos voltavam sob novo disfarce, e nenhuma reforma foi realmente implementada. E os escritores do protesto social calaram-se — e quando voltaram, e alguns voltaram, foi para oferecer imensamente cómicas e ternas histórias acerca da condição humana em geral. Nenhum caso é mais claro do que o caso de Jorge Amado. A literatura volveu à sobriedade de escrita, às preocupações com a forma, ou às magníficas elaborações de todas as tradições literárias em que doutas experiências, fala popular, erudição, os eternos problemas da vida humana, são tecidos numa enganadora tapeçaria de regionalismo, que deveria matar o regionalismo de uma vez para sempre, mas não matou. Este foi o caso de Guimarães Rosa, um dos mais extraordinários das letras contemporâneas, em qualquer parte.

Nos anos 50, a preocupação política e social atingiu um veículo nunca explorado antes: o teatro. Foram estes os anos do Brasil ser descoberto de novo, re-feito de novo, os anos em que o povo finalmente significou um pouco mais do que o povo para fins de exercícios retóricos. Mas, onde toda a gente está tão cerca do povo e o povo tão longe de toda a gente, poderia isto significar muito? Além disso a literatura, seja qual for, pode desempenhar certas funções na vida política, e muitas obras profundamente imbuídas de intenções políticas estão entre as maiores do mundo. Afinal o Homem é um animal político, como disse Aristóteles. Simplesmente uma coisa é sonhar com o povo, outra coisa é ter talento autêntico e outra ainda é que não pode existir autêntica vida política onde os votantes que elegem um presidente são 9 % da população total (o que aconteceu com a chamada grande vitória que elegeu Jânio Quadros). Todo este esquerdismo festivo, como foi chamado, acabou repentinamente em 1964. Mais do que nunca os escritores escrevem para se oporem às correntes dominantes que parecem suspeitosas de qualquer forma de criação literária. E retornam à sua procura de uma identidade nacional através de símbolos, de representarem acontecimentos históricos distorcidos para fins políticos, etc.

Numa rápida e indirecta maneira, porque não era possível de outro modo, tentei definir qual tem sido o papel dos escritores no Brasil. Firmemente creio que a tragédia e a fascinação de uma literatura tão rica em grandes escritores e grandes obras e dotada de tantas e boas inteligências críticas, tem sido e é ainda, o resultado da própria situação perpetuada na vida social brasileira. A literatura brasileira, e não muitas literaturas mostram isso tão claramente, tem sido um reflexo fiel da história brasileira. Um reflexo, não um retrato. A saudade do passado é um testemunho disso. Mas o papel dos escritores brasileiros, apesar dos seus sentimentos generosos e das suas realizações, jamais irá para além da superfície, enquanto continuarem a insistir em inventar uma alma brasileira como substituto para a realidade brasileira. O problema é: como enfrentar a realidade de uma das maiores nações do mundo — e apesar disso tão desconhecida para os próprios brasileiros que continuam a encantar-se com os retratos das suas próprias maravilhas que enchem as páginas das revistas, e gozando os prazeres exóticos de ler romances acerca de uma parte do país ainda não descrito em ficção, ou deliciando-se na descoberta barroca de maneiras de falar ainda não registadas, ou finalmente, mas não menos importante, interpretando esta realidade em acordo com os seus desejos, como se a vida real devesse ser uma criação literária. E talvez seja. Mas acontece que muitas vezes pensamos que os «script-writers» são muito maus e os grandes escritores raras vezes são eleitos para esse trabalho. E seria que eles se sujeitariam aos requesitos dos produtores? Às vezes, mesmo sem querer, o fazem.

Santa Barbara, Nov. 5, 1970
 

* Estudos de Cultura e Literatura Brasileira. Lisboa, Ed. 70, 1988, p. 337-345