Sobre a Espanha e sobre a Latino-América

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"Alegorias dos continentes" (Europa e América) de Joaquim Rodrigues Braga (1795-1853), no acervo do Palácio de Queluz, Portugal.

Neste artigo, publicado na página literária do Diário de Notícias, em 21/1/1971, ao refletir sobre a complexidade do diálogo cultural entre Espanha e a “América Espanhola”, Jorge de Sena igualmente reflete sobre as relações entre Portugal e Brasil, propondo caminhos para uma interlocução pluralista e despreconceituosa entre a Ibéria e as Américas hispanófona e lusófona.

 

Ainda há muitos portugueses que pensam que ignorar a Espanha é a melhor maneira de pagar uma tradicional ignorância — que os melhores espanhóis vão reconhecendo como estulta — com que a Espanha por longo tempo só se lembrou ou lembra da cultura portuguesa para a integrar na espanhola ou subordiná-la a ela. Esta atitude é ainda, ao contrário do que a inocência das vaidades lusitanas possa supor, a mais comum entre uma raça extravagante e internacional que dá pelo nome de «hispanistas». Estes senhores e damas não são, em geral, espanhóis ou da América hispânica, mas criaturas que fizeram a sua capelinha, nas universidades deste mundo, à custa da Espanha e dos países da América espanhola, e que, sobretudo nos Estados Unidos da América, onde a ignorância geográfica é muito grande e se não sabe, em consequência, que o Brasil é, em área e em população, como em riqueza literária, tão grande como o resto da América do Sul toda junta, podem mesmo chegar ao requinte imbecil (mas espertalhão para carreira cómoda pela mediocridade triunfante acima) de serem «especialistas do conto do Peru ou do romance da Nicarágua, coisa que qualquer honesto cidadão desses dois países teria vergonha de ser, por evidentemente desejar compreender-se num contexto mais amplo. Tem havido, e há, as chamadas excepções honrosas — e é só a elas que a cultura portuguesa deve alguma coisa. Porque a tradicional atitude dos hispanistas em relação a ela, desde que, no século passado, a filologia e a história literária se criaram em termos modernos, tem sido a de considerarem Portugal um apêndice da Espanha, ou um lamentável equívoco, como diria o famigerado Menéndez Pelayo, ainda hoje mestre de muito espanhol e de muito hispânico, e que foi uma espécie de Teófilo Braga ao contrário. Mas esse apêndice, porque não era nem é parte da Espanha política, embora seja parte das Espanhas históricas e unitárias em face do resto da Europa, merecia-lhes ainda menos atenção do que a Galiza ou a Catalunha com as suas línguas próprias e as suas literaturas autónomas. A sujeição dos hispanistas ao mito imperial da absoluta supremacia castelhana — que sempre foi mais um foco de atracção do que uma entidade única — tem sido quase total, e Portugal era realmente uma desagradável pedra no caminho das especialidades hispânicas. Chegou-se ao ponto, que ainda hoje é comum pelas universidades do mundo em fora, de estudar-se Gil Vicente como um autor castelhano, e de falar-se com seriedade da poesia castelhana de Camões, que é pouca e largamente incerta de autoria. E há, por exemplo, quem continue a pôr em dúvida a autoria portuguesa da Castro de António Ferreira, um dos pontos de partida do teatro espanhol como Gil Vicente, fingindo ignorar que o galego que a traduziu e continuou com outra peça até encorpora nesta última versos de Os Lusíadas… Mas a desvergonha dos chamados doutos nunca teve limites (o que é uma outra questão).

Longamente a América Espanhola foi considerada pelos hispanistas um mero apêndice da Espanha, que ela, a muitos títulos, e na sua diversidade, realmente não podia ser considerada. E o Brasil, esse então, era um apêndice de um apêndice; o que não só era falso como idiota (embora ainda haja portugueses que não tenham devidamente apreciado as diferenças).

A importância política e económica que o Brasil e as repúblicas hispânicas da América assumiram está a modificar vertiginosamente esta situação, à custa de Portugal e da Espanha. Não há como as modas que as vantagens e os interesses dos governos despertam, para os doutos descobrirem logo as minas de ouro. Todos os países estão, desgraçadamente, a contribuir para o equívoco. Para os sul e centro-americanos, como para o México (que é aliás, com a Argentina e o Peru, quiçá dos únicos hispano-americanos a terem literaturas próprias, além do que é criado no entrelaçamento cultural de Hispano-América), este relevo liberta-os de uma sujeição cultural que era realmente indigna e injusta. Mas como será possível estudar as suas literaturas coloniais, ignorando a da Espanha, sobretudo pelo incomparável prestígio universal que foi — há portugueses ditos cultos que o não sabem — e merecidamente é o da Espanha Barroca? Quanto aos estudiosos de «português», limitam-se cada vez mais ao Brasil — o que está perfeitamente certo. E o Brasil sente nisso um orgulho imenso. Apenas este orgulho se engana, e faz o jogo dos seus inimigos, quando insiste em ignorar que a cultura portuguesa, para bem ou para mal, fez o Brasil e dominou nele até aos fins do século XIX (e mesmo os modernistas brasileiros nunca foram tão ignorantes de Portugal quanto se quiseram mostrar para não serem acusados de lusófilos), do mesmo modo, em contrapartida, o Portugal dos séculos XVII e XVIII, como da primeira metade do século XIX, é às vezes incompreensível para os historiadores portugueses de história ou de cultura, pela ignorância, em que continuam, de que o Brasil dominou largamente a vida portuguesa dessas épocas. Quando, para acentuarem a sua justa independência cultural, os brasileiros se embalam na sua irmandade latino-americana, e procuram por sobre Portugal afinidades com a Espanha, ou, por sobre as fronteiras, afinidades que os contactos culturais, raros e acidentais, não justificam, com o resto da América Latina — em lugar de se fazerem mais eles mesmos, reduzem-se a mais uma pequena unidade no mar imenso e confuso da balcanização do continente americano, feita calculadamente e viciosamente, pelas grandes potências. Se portugueses entram no jogo, e incluem o Brasil na América Latina que é realmente sinónimo de América espanhola, cometem uma distracção lamentável, que não serve os profundos interesses de Portugal, do Brasil, e nem sequer… da Latino-América. O que o mundo pretende esquecer é que o Brasil é o maior país das Américas, o de mais recursos, e que a sua cultura se diferencia de raízes diversas na História. E mais: que é natural condutor e líder das outras nações da América Central e do Sul, pelo seu gigantismo e pela profunda unidade interna que os próprios Estados Unidos da América estão muito longe de possuir e que não resistirá ao declínio do seu império.

Que os estudos de Hispano-América se ampliem não é uma desvantagem para a cultura portuguesa. Que eles se façam à custa da Espanha, definitivamente o é, na medida em que um desinteresse pela Península Ibérica no seu elemento mais forte arrasta o retorno do mais fraco ao esquecimento. E, se este processo, paralelamente, é acompanhado por uma exclusiva curiosidade pelo Brasil expressamente dirigida para a eliminação da cultura portuguesa (e raríssimos são os brasileiros de cultura, ou só os de autêntica cultura, que não desejam uma supremacia radical que menos é independência que má consciência de classe, com que a maioria esconde de si mesmos a cumplicidade com a manutenção social e cultural de um «status quo» colonial em que se não pergunta a milhões de brasileiros o que pensam que o Brasil é), o que se está a passar, precisamente quando os intelectuais portugueses andam na flauteação das suas glórias estrangeiras que meio mundo ignora, assemelha-se muito a um desastre ou a uma dança de cegos sobre o abismo.

A cultura portuguesa tem de encontrar o seu caminho político de sobrevivência e de reintegração entre a Espanha de que a fazem parte e o Brasil de que a excluem. Nem para ser simples apêndice de uma, nem para imaginar que a outra é apêndice seu. Não é com larilolés hispânicos ou transatlânticos que isto se faz, nem com a exportação de meia dúzia de professores demasiado jovens, nem com prestigiar constantemente institutos portugueses que não têm alunos, só porque são nos países da velha Europa. Não se fará também com uma ingénua «colonização» do Brasil, que é impossível, absurda, e só daria aos anti-portugueses o pretexto que sempre procuram para os seus clamores de angústia. Não se fará também com a indiscriminada política de mostrar o Portugal dos avós a quantos mais brasileiros melhor, até porque muitos deles não tiveram nunca avós portugueses. Mas com inteligência e planificação supra-política, e, sobretudo, não-provinciana. E por dois caminhos: estudos espanhóis e brasileiros desde o ensino secundário, e uma política cultural que o seja da cultura e não de meia dúzia de caixeiros-viajantes de um produto que sempre venderam tão mal.

* Sobre Teoria e Crítica Literária, Lisboa, Caixotim, 2008, p. 159-163