25 de Abril: dois poemas e dois telegramas

O 25 abril celebrado em dois tempos, dois olhares: na euforia da hora ansiada e na disforia do pouco depois…

 

 

CANTIGA DE ABRIL

Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste pais,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério.
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde. verde e vermelha.

Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por politica demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
E verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

26-28(?)/4/1974

 

NÃO, NÃO, NÃO SUBSCREVO…

Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas – armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de faláeia imensa.
E todos eram povo e em nome del’ falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do pais no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o OteIo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa – defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.

(Fev. 1976)

 

Telegrama 1:

General Spínola
Presidência da República
Lisbon Portugal
Na hora em que assume presidência república é V. Exa. símbolo das liberdades reconquistadas e garantia da democracia futura. Calorosas felicitações

Jorge de Sena

(Abril, 1974)

 

Telegrama 2:

General Spínola
Presidência da República

Reencontrados agora no Porto, após anos de exílio que viveram no Brasil, os abaixo-assinados saudam V. Exa. nesta hora em que o reconhecimento do princípio de independência dos povos ultramarinos, abre uma nova era da História portuguesa.

João Sarmento Pimentel
Jorge de Sena
Francisco Sarmento Pimentel

(Setembro, 1974)

Há 50 anos: poemas de 1961

O ano de 1961 foi extremamente produtivo para a poesia seniana, em todas as suas vertentes. Abaixo o índice de primeiros versos desses poemas que completaram 50 anos em 2011. Em destaque os links para os já editados no site.

Desse conjunto, destacamos aqui 5 exemplos, representando as múltiplas (e concomitantes) facetas de Jorge de Sena: o diálogo com as artes em suas Metamorfoses, o lamento do exilado, o trabalho com a linguagem nos poemas “incompreensíveis”, a reflexão sobre a música, a percepção do tempo como História, Ciência e acima de tudo experiência humana.  

 

Índice:

 

"Instalada a justiça, ..." -------------------------------------------- ?

"Quem muito viu, sofreu, ..." ------------------------------------- ?

"Tronchela adúvia corimata, ..." --------------------------------- ?

"De que tristeza me farei liberto" ---------------------------- 21/2

"Do deus da lira e dos ladrões, ..." --------------------------- 9/3

"De morte natural nunca ninguém morreu" ---------------- 1/4

"Como balouça pelos ares no espaço" ---------------------- 8/4

"Suspensa nas três patas, ..." --------------------------------- 8/4

"Pandemos" -------------------------------------------------------- 6/5

"Anósia" ------------------------------------------------------------- 6/5

"Urânia" ------------------------------------------------------------ 14/5

"Em teu ultimo poema, ..." ------------------------------------ 15/5

"Água da vida, em memória" ---------------------------------- 2/6

"...Mas, meus senhores, ..." ---------------------------------- 10/6

"Estes cânticos ouço repetidamente" ---------------------- 11/6

"Entre o céu e a terra passam" ------------------------------ 11/6

"Os deuses, ladrões" ------------------------------------------- 11/6

"Podereis roubar-me tudo" ------------------------------------ 11/6

"Porque não espero de jamais voltar" ---------------------- 11/6

"Amátia" ------------------------------------------------------------ 20/6

"Como me alongo, cansado..." ------------------------------- 22/6

"Não me peças, ó vida, ..." ------------------------------------ 23/6

"Senhor: não peço mais..." ------------------------------------ 23/6

"Na transtornância impiala..." ---------------------------------- 5/8

"No planalto da Pérsia," ----------------------------------------- 4/9

"Esta é a ditosa pátria..." --------------------------------------- 6/12

"Entre a esquadra que aclama" ----------------------------- 23/12

"Por este anoitecer, o ano acaba" -------------------------- 31/12

 

Poemas selecionados:

* “O Balouço” de Fragonard (Metamorfoses, Poesia II) – 08/04

* Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos (Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III) – s.d.

* Colóquio sentimental em duas partes (Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III) – s.d.

* Estes cânticos ouço repetidamente (Visão Perpétua) – 11/06

* Por este anoitecer, o ano acaba (40 Anos de Servidão) – 31/12

 

“O Balouço” de Fragonard

Como balouça pelos ares no espaço
entre arvoredo que tremula e saias
que lânguidas esvoaçam indiscretas!
Que pernas se entrevêem, e que mais
não se vê o que indiscreto se reclina
no gozo de escondido se mostrar!
Que olhar e que sapato pelos ares,
na luz difusa como névoa ardente
do palpitar de entranhas na folhagem!
Como um jardim se emprenha de volúpia,
torcendo-se nos ramos e nos gestos,
nos dedos que se afilam, e nas sombras!
Que roupas se demoram e constrangem
o sexo e os seios que avolumam presos,
e adivinhados na malícia tensa!
Que estátuas e que muros se balouçam
nessa vertigem de que as cordas são
tão córnea a graça de um feliz marido!
Como balouça, como adeja, como
é galanteio o gesto com que, obsceno,
o amante se deleita olhando apenas!
Como ele a despe e como ela resiste
no olhar que pousa enviesado e arguto
sabendo quantas rendas a rasgar!
Como do mundo nada importa mais!

 

Quem muito viu,…

Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi-

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
qundo o buscar, há-de encontrá-lo morto.

 

Colóquio sentimental em duas partes

I

Tronchela adúvia corimata, que tuestes dilasta anquinudante,
furiça astria dova, retinuta, e quis? Nonória. A tutimão periva
a turidarta influva. Azis? Nocónia. Dimirita, aluina, dúria – oh
comisalva apene. Friscórida. Buliva? Nem ninúria. Que dívia alperidasta clido! Flara:
– Dumeste andorta oroladiara?
– Clande.
– I tru laridolosta zanque?
– Diata.
– Dileste me tisalva.

Aliara doriçara, tigorimenos. Erclusa atrisca duridanta,
merifluamos róvia. Diloguidermos:
– Verida turimana…
– Ciciarva…
– Ablera, ablera, diata.
– Anstria…
– Narva, adiarda, funje…
– Cerida!
Estuta. Nonôra dimirata.
II

Anaridassa, contrimat atuva, anadiramo trévia palpirada. Dimitidana
flurionca fliva. Mês conquiritanta nim puore avri discrote, undiva
aspranca fara, alima gêntia assunta etrétia i
vanta. Diloguidermos:
– Memorta oroladiara?
Nunda siventa ura pradona.
– Ovi trasida medirenta?
– Niata.
– Clito…
– Niata ciciarva anstria.
Arnuda transparara instívio. Impossidanta. Despridova, despridima, deses cara. Anfúria?
Estruta dimirasta.

 

Estes cânticos ouço repetidamente

Estes cânticos ouço repetidamente.
Hoje, atravessam o ar chuvoso e baço,
as ruas desertas, as janelas fechadas da manhã de domingo.
Não são a várias vozes do coro que os canta,
mas num cadenciado uníssono de fiéis devotos
fazendo por chegarem todos em congregação
juntos às Portas do Céu.

Ô-ó-ô-ó-ó…. Ô-ó-ô-ó-ó…
I-i-i-á-á… Ê-ê-ê-é-é…
Ô-ó-ô-ó-ó… Ô-I-ô-I-ô-ó-ó…
Ô-ó-ó-ó-ó…

E recomeçam teimosos, persistentes,
enquanto lá longe, em baixo, os sinos tocam
nas torres que não cantam, para o sacrifício
a que os fiéis assistem ante o cadafalso,
e curvam a cabeça silenciosos,
no momento da Transubstanciação,
tementes de pensar com o Céu ali.

Aqui sentado, eu ouço-os, entrevejo-os,
e fito além-telhados a parda brancura
do céu que é nuvens encobrindo o Sol.
Um automóvel passa chiando na rua molhada.
Provavelmente há pendente do volante
um grupo de amuletos que chocalham
uns contra os outros no ar morno.

ô-ó-ô-ó-ó…. ô-ó-ô-ó-ó…
ô-ó-ô-i-ó-ó… ó-i-ó-i-ó-ó…
O coro calou-se num estertor final.

 

Por este anoitecer, o ano acaba

Por este anoitecer, o ano acaba.
Cinzento e azul no céu por entre as árvores,
acaba o calendário. Muitos crimes dele
serão futuras efemérides nos outros
que, folha a folha, acabarão também.

Como anoitece igual este ano às noites
com que, dia por dia, o ano foi passando
gregorianamente. O mundo ocidental,
cesáreo, atlântico, ex-mediterrânico,
conta do Cristo. Mas os outros mundos

também contarão dele, quando este ocidente
deixar de fingir dele — os deuses morrem —
para funções de calendário laico.
O tempo passa, os calendários mudam,
na vida e morte as horas se sepultam.

E, no entanto, o tempo vai connosco;
é desta terra só, e só por haver outros
que de outros astros são por haver este
diverso tanto a cada movimento.
Por este anoitecer, o ano acaba.

 

Carta a Fernando Pessoa

Em 1944, Sena dirige-se ao Poeta

Inaugurou-se dia 24 de março no Rio de Janeiro, depois de enorme sucesso em São Paulo, a exposição "Fernando Pessoa, plural como o universo". Sob este mote, evocamos novamente os estudos pessoanos de Jorge de Sena (ver bibliografia comentada por José Blanco em "Jorge de Sena e Fernando Pessoa") e aqui transcrevemos uma de suas primeiras aproximações do poeta dos heterônimos, em discurso epistolográfico. Sobre esta carta, escrita por um jovem Sena de 25 anos, a melhor apresentação é a do próprio signatário, redigida após mais de uma década: "Publicada na página literária de O Primeiro de Janeiro, de 9/8/44. Catorze anos depois, ainda julgo este escrito dos mais felizes e mais sentidos que tenho dedicado a um Poeta. E comprazo-me em ver nele muito de profético quanto ao que a crítica se preparava ainda para fazer a Fernando Pessoa, além de algumas observações que tiveram mais tarde um futuro alheio" – Nota do Autor em Da Poesia Portuguesa, Lisboa, 1959.

 

Meu caro Amigo


Se me não engano, é esta a segunda carta que V. recebe depois de morto. A outra, como deve estar lembrado, escreveu-lha Carlos Queiroz, que o conheceu pessoalmente. Não tive eu tanta honra, o que, pode crer, é um dos meus desgostos verdadeiros. No entanto, não lamento o desencontro. Apenas a curiosidade ficaria satisfeita; e, em contrapartida, jamais o Álvaro de Campos ou o Alberto Caeiro se revestiriam, a meus olhos, daquelas pungentes personalidades que lhes permitiu, e aos outros, o seu espírito sem realidade nenhuma. Porque esta é a verdade, meu Amigo: toda a sua tendência para a «despersonalização», para a criação de poetas e escritores «heterónimos» e não pseudónimos, significa uma desesperada defesa contra o vácuo que V. sentia em si próprio e à sua volta. Quando V. criou o Álvaro de Campos, o Alberto Caeiro e o Ricardo Reis, quando fez deles um grupo de amigos seus, defendeu-se contra si próprio – e só não o tendo eu conhecido pessoalmente, não tendo, pois, assistido à irremediável ausência de qualquer deles, era possível cumprir-se em mim (ou noutros em idênticas circunstâncias, e para quem, também, a poesia não seja uma forma definitiva como um título consolidado) o que deve ter sido um dos mais melancólicos sonhos da sua vida.

V. não foi um mistificador, nem foi contraditório. Foi complexo, da pior das complexidades – a sensação do vácuo dentro e fora, V. não foi um poeta do Nada, mas, pelo contrário, poeta do excessivamente tudo, do excessivamente virtual, de toda a consciência trágica de probabilidade, que a crença no Destino não exclui.

Os seus heterónimos (e V., quando escreveu em seu próprio nome não foi menos heterónimo do que qualquer deles) não são as personagens independentes, protagonistas do «drama em gente», do qual V. falou. Embora V. os visse, e os ouvisse e, por conta deles, se inspirasse, não representam um drama, nem vivem, em comum, o romance das «vidas que V. não queria ter», segundo a expressão de Casais Monteiro – porque as biografias, que lhes deu, são ainda bem pouco para o que eles disseram… Poderei, com maior piedade do que lhe permitiu, a V., a sua lucidez devoradora, afirmar que essas vidas vieram depois, e amassadas com lágrimas que V. considerou imerecidas, que não quis gastar sobre a sua própria vida?

Quem lê as poesias assinadas com o seu nome, e as outras assinadas Álvaro de Campos, e depois as compara com as de Alberto Caeiro e Ricardo Reis, não sentirá, como eu senti, que só a estes dois últimos pertencia a possibilidade poética de se erguerem, totalmente, acima do «Indefinido»? Esse Lucrécio e esse Horácio, com quem V. tentou raivosamente limitar-se; através dos quais tentou existir com o possível mínimo de ser; pela boca de Caeiro, afirmando o valor intacto do mundo exterior, embalsamado assim num devir inocente; pela boca de Reis, amando o quanto de gratuito a vida lhe podia conceder, uma vez que V. e a sua Lídia abstracta transformassem num só dia a vida inteira –

Inscientes (…) voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.

– esse Lucrécio e esse Horácio, ambos tão incansáveis, tão resignado e indiferente o primeiro, e tão altivo o segundo, eram a sua revolta intelectual.
O Álvaro de Campos e o Pessoa que a V. ficou das sobras, esses eram da sua revolta sentimental. Eram quotidianos; eram o seu chegar à janela e ver a rua; eram a sua mágoa, quer de não estar em toda a parte, quer de estar em parte nenhuma, apesar do paliativo, que a V., quando em seu nome, lhe provinha de uma auto-submissão intelectual terrivelmente activa. Por isso o Álvaro de Campos escreveu a «Ode Marítima» e a «Tabacaria»; por isso o Fernando Pessoa escreveu os poemas da Mensagem e «O Menino da sua Mãe». Ambos recordam a infância; e, para ambos, o passado é, como a infância, uma lembrança misteriosa que não se apaga. Lembrança de quê? Infância de quem? Muitas vezes perguntaram isso, mas a resposta era um silêncio, e, mesmo (bem sabemos, não é?), um consultar dos astros, como verificação…

Não, meu Amigo! O D. Sebastião da Mensagem parece-se tão extraordinariamente com o Menino Jesus do «Guardador de Rebanhos» («era o deus que faltava»…), que quase se suspeita da objectividade de «O Menino da sua Mãe»! É essa a fonte do espantoso vácuo que o cercava, meu Amigo: o vácuo da Terra, da qual o Sol se levanta, mas da qual não nasce!…

A noite, que V. poeticamente sentiu, como raríssimos poetas portugueses, com uma densidade e uma profundidade que a solidão lhe ensinou, foi o seu grande refúgio: nela a sua lucidez se alongava e expandia, é certo que dolorosamente, mas sem encontrar um objecto para o ataque, uma imagem a que antepor um cruel espelho.

Hoje, que a solidão e a lucidez perderam, para V., todo o sentido que tinham, reconheça comigo, que, se a elas ficou devendo uma inspiração sincera, lhes ficou devendo, também, o constante perigo de não conseguir ser o grande Poeta que foi. A presença desse perigo é constante na sua obra; chega a tomar-se um dos temas fundamentais: e momentos houve, nos quais V. se comprazia em mergulhar nessa

… espécie de loucura
que é pouco chamar talento,

como se ela fosse, por si própria, uma virtualidade de expressão poética. Todavia, assemelhava-se a uma virtualidade poética: era um saber o som das asas cortando o ar… Asas tão grandes!… Tão consoladoras essas grandes asas!… E, depois, dizer o quê?… Se dizer fosse o que fosse equivalia a restringir, a criar pequenos e pretensos mitos, em substituição dos outros maiores, tal como as palavras tinham sido criadas para esconjurar esses outros…

Não creio, portanto, que a morte o tenha prejudicado, meu Amigo: V. não diria mais do que disse; V. tinha dito sempre a mesma coisa -maravilhosamente, de quantas maneiras possíveis.

Veja, no entanto, as «Malhas que o Império tece» Porque V., à parte o seu caso único na história das literaturas, para ser algo do Super-Camões que anunciara, não precisava de ter publicado uma espécie de Lusíadas, e de deixar as Líricas dispersas por revistas, ou amontoadas num baú, entregues às mãos do acaso e da amizade…

As suas obras estão sendo publicadas. O grande público decorará o seu nome; muitas pessoas o lerão; algumas o hão-de entender e amar. Outras desconfiarão de V. Outras, ainda, lamentarão secretamente aquela complexidade, de que já falamos, e que não pode servir de garantia a profecias ou realidades, para uso do «gado vestido dos currais dos Deuses». Será tido como mistificador. Será tido como contraditório. Mas V., meu Amigo, já o sabia… E aquele sorriso vago, que flutua aquém dos seus retratos, para quem será, não é verdade?

Creia na imensa admiração e no imenso respeito do

Jorge de Sena

1944

 

De Maria Gabriela Llansol

Dedicatória de Maria Gabriela Llansol a Jorge de Sena em exemplar de Depois de os Pregos na Erva:

 

Jorge de Sena:

Se a sua escrita não existisse, o que teria sido a minha?

Com a “cumplicidade” de

                         Maria Gabriela Llansol

                              Lovaina, Dez. 73

De José-Augusto França

A 4 de junho de 1979, no dia em que se completava um ano sobre a morte de Jorge de Sena, iniciava-se uma série de 4 programas radiofônicos sob o título “Portugal de Camões e das Comunidades”, alusiva ao 10 de junho, já então “Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas”. Muito justamente, essa primeira emissão é dedicada a Jorge de Sena e, entre outras evocações, temos o magnífico testemunho de José-Augusto França, que, generosamente autorizados, a seguir transcrevemos — e ouvimos.

 

 

Jorge de Sena morreu exactamente há um ano. Deixou a todos quantos com ele contactaram uma sensação de saudade irremediável, de revolta também: era um homem de menos de sessenta anos que tinha uma longa, longa obra feita, e uma longa, mais longa ainda, obra projectada. É sempre injusta a morte quando cai sobre artistas, poetas, criadores. No caso de Jorge de Sena, mais do que triste, foi uma traição que ela fez a um homem que tanto contou com a vida, que tanto pela vida se bateu, e que, em Portugal primeiro e depois num exílio, num exílio voluntário mas que foi sentido, profundamente sentido como um desterro, um desterro ligado a uma imensa, a uma feroz, a uma inclemente saudade do Portugal deixado, e para o qual sempre, mas sempre, ele continuou a escrever, ao qual ele sempre, mas sempre, continuou a dirigir-se…

Ontem mesmo, e como por acaso, me chegou às mãos a edição de um livro, uma plaquete, feita em Santa Bárbara, na universidade onde ultimamente ensinava, um poema, “Sobre estas praias”, um poema em cinco episódios, em cinco cantos se quisermos, traduzido em inglês também.[1] E passei uma grande parte do dia a lê-lo e vendo nele como que uma decantação de tudo quanto na poesia anterior Jorge de Sena dissera. Da poesia anterior, eu comecei a ler muito cedo, logo que apareceu a Coroa da Terra; e eu próprio contribuí para a edição da Pedra Filosofal.[2]

Porque Jorge de Sena para mim é também uma memória de tempos há muito passados. Nos anos 40, e durante 30 anos, ele me acompanhou e eu o acompanhei; em Lisboa primeiro e depois nas várias vezes que com ele voltei a encontrar-me no Brasil. Jorge de Sena foi um colaborador de uma revista minha, de anos atrás, chamada Unicórnio [3], um colaborador constante, aquele para quem sempre se podia apelar. E foi, antes de o conhecer, o homem que no Mundo Literário [4], um semanário publicado em 1946-47, me pareceu sempre encarregado de escrever os artigos mais difíceis naquele momento da vida portuguesa. E, agora mesmo, vejo um romance dele, um romance há muito anunciado, chamado Monte Cativo [5], que tem que ver com a sua experiência do Porto, do Porto onde ele estudou, do Porto que foi uma segunda cidade natal para ele. E este romance, que Jorge de Sena queria incluir num ciclo mais completo, e no qual depositava uma grande fé, este romance vai ser, com certeza, para todos nós, mais uma lembrança que, para além da linguagem da poesia, para além do ecrã que a poesia nos oferece, um quotidiano vibrante de que já tivemos anúncio nas páginas dos seus contos.

Eu estou necessariamente misturando a lembrança do Jorge de Sena meu amigo à lembrança e à presença da sua obra. Uma coisa e outra, para quem foi companheiro dele, naturalmente que constituem uma unidade, uma só situação. Mas, para além daquilo em que nos misturemos, e para aquilo que a sua obra seja, objectivamente, outra coisa há, que é a presença de Jorge de Sena na cultura portuguesa. E essa, aqui e acolá, em Portugal, no Brasil, ou ultimamente nos Estados Unidos, é uma das grandes presenças de que o nosso tempo português pôde beneficiar. Mais o nosso tempo português do que o próprio poeta, por razões óbvias. Mas esse benefício que se traduz em muitos livros publicados, em muitos estudos de extrema erudição, e também por uma polémica permanente que, por seu próprio feitio, Jorge de Sena naturalmente animava, são para os historiadores destes dois, três decénios que acabam de passar, e para aqueles que mais tarde sobre este nosso tempo venham a debruçar-se, um indício extremamente importante, sem o qual muito daquilo que foram nossos anseios, daquilo que foram nossas esperanças, daquilo que foram nossos dramas, daquilo que foram, em suma, umas vivências aflitas, ficaria sem explicação. Esta explicação está, livro a livro, na obra de Jorge de Sena, está no seu próprio destino de poeta, está naquilo – que uma vez escrevi e ainda há pouco o disse –, nessa imensa, feroz, inclemente saudade que ele teve de Portugal e que, todos nós, os jovens, sobretudo, que o lêem hoje pela primeira vez, podem ter dele, já numa situação quase que mítica, na qual os grandes poetas, como Camões, como Fernando Pessoa, como Jorge de Sena vivem na memória possível do tempo.
Notas:

1 JAF refere-se à edição bilíngue Over This Shore… Eight Meditations on the Coast of the Pacific, com tradução de Jonathan Griffin e publicada em 1979 pela Mudborn de Santa Barbara (27 p.). A troca de número de poemas é evidente lapsus linguae.

2 Lê-se no “Prefácio à Segunda Edição” (1977) de Poesia I: “Foi [Pedra Filosofal, 1950] editada pela Confluência, então pertencente a António Pedro e a José-Augusto França. […] O França tornara-se meu amigo desde os tempos preliminares do surrealismo, e na roda de António Pedro, e veio a juntar-se aos directores dos Cadernos de Poesia, e a mim, como um dos dirigentes da 2ª. série, em 1951; a ele, tanto ou mais que a António Pedro, devi que aquela edição se fizesse”. O primeiro ensaio da revista Unicórnio intitula-se “Um Caminho para a Poesia (a propósito da ‘Pedra Filosofal’, de Jorge de Sena)” e foi escrito por Adolfo Casais Monteiro, a pedido de JAF.

3 Jorge de Sena colaborou na Unicórnio (maio/1951) com a “peça em um acto” Amparo de Mãe e conduzindo e comentando o “Inquérito sobre André Gide”; na Bicórnio (abril/1952), com o texto “D.H.Lawrence, D.H.Lawrence, D.H.Lawrence… e um poema de D.H.Lawrence” e respondendo ao inquérito “Como vivem os intelectuais portugueses a sua relação com a cultura passada em Portugal”; na Tricórnio (novembro/1952), com “Ulisseia adúltera: peça em um quadro” e com o artigo “Considerações sobre a revolta”; na Tetracórnio (fevereiro/1955), com o ensaio “Tentativa de um panorama coordenado da Literatura Portuguesa de 1901 a 1950” e respondendo ao inquérito “Quais os livros que vale a pena ler? Quais os livros que valeu a pena escrever?”; na Pentacórnio (dezembro/1956 – último número da revista), com o poema “Mensagem de finados”.

4 A revista Mundo Literário foi publicada em Lisboa de 1946 a 1948, tendo Jaime Cortesão como diretor e Luís de Sousa Rebelo como editor de seus 53 números. Entre o nº 3 (maio/1946) e o nº 52 (maio/1947), Jorge de Sena tem 40 entradas, que incluem ensaios, recensões a livros portugueses e estrangeiros, crítica de cinema e de teatro, crônicas e ficção.

5 Como se sabe, do projetado “ciclo romanesco ‘Monte Cativo’”, só veio à luz o romance inacabado Sinais de Fogo. A este propósito, ler a esclarecedora “Introdução” de Mécia de Sena ao romance, a partir de sua 3ª edição, 1985, e ainda a que precede Monte Cativo e outros projectos de ficção (Porto, ASA,1994).

Andanças… Alguns endereços onde esteve Jorge de Sena*

Sena globe trotter

Lisboa:
Nasceu na Rua José Falcão, nº 55 – 1º (que era então nº 11)
Rua 18 (depois Rua Dinis Dias), nº 18 (desde 11/1/1954)

Porto:
Rua dos Bragas, nº 40 ou 41 (em 1940)
Rua da Boavista, nº 276 – 1º (em 1942)
Rua de Cedofeita, nº 503 (em 1942)
Rua de Cedofeita, nº 478 (em 1942)
Rua Miguel Bombarda, nº 243 (em 1944)

Assis:
Rua 9 de julho, nº 311 (out.1959/ jul. 1961)

Araraquara:
Rua Itália, nº 1437
(jul.1961/ out. 1965)

Rio de Janeiro:
Hotel Nelba – R. Senador Dantas, nº 46
Hotel Nice – R. Riachuelo, nº 201 (em 1965)

São Paulo:
Hotel Pão de Açucar – R. Conselheiro Nébias, 314 (em 1959)

Madison:
314, S.Broom Str. (out. 1965/ mai. 1967)
1938, Rowley Av. (mai. 1967/ ago. 1970)

Santa Barbara:
939, Randolph Road (desde set. 1970)

Londres:
Hotel Chelsea – 9, Cheyne Row (em 1957)
Crescent Hotel – 49, Cartwright Gardens (em 1971-2)

Paris:
Hotel St. Pierre – 4, rue École de Medicine
Hotel Excelsior – 20, rue Cujas (em 1972)

 

[*] Excluem-se as casas de inúmeros amigos onde se hospedou.

Homenagem no Casino Figueira abre portas da toponímia a Jorge de Sena

 

 

“Ler Sinais de Fogo – Homenagem a Jorge de Sena” foi o título do simpósio que, no passado sábado, 27 de Abril [de 2010], reuniu no Casino Figueira um conjunto de especialistas em literatura e apaixonados pela obra do escritor que imortalizou a Figueira da Foz como cenário de um dos romances que marcaram o século XX português.
O administrador do Casino Figueira, Domingos Silva destacou, na sessão de abertura do evento, a importância de devolver Jorge de Sena às gerações mais idosas, e de entregá-lo às mais novas “para que conheçam e tenham orgulho no homem que pôs a sua terra no mapa”. Domingos Silva recordou ainda a génese da iniciativa, que nasceu de uma conversa com Paulo Teixeira Pinto, da Editora Guimarães, que integra o grupo Babel. Ao vice-presidente da autarquia, Carlos Monteiro, o administrador do Casino Figueira lançou o repto para que Jorge de Sena passe a constar da toponímia da cidade. “Vai sendo tempo de se preencher esta lacuna”, considerou, obtendo de imediato a concordância do vereador, que afirmou ser um acto de justiça. “Fará sentido dar resposta a este desafio, encontrando uma rua junto da praia, do Casino, que passe a ostentar o nome de Jorge de Sena”, admitiu Carlos Monteiro.

Uma gala,
75 anos depois
Domingos Silva aproveitou a oportunidade para recordar um evento que teve lugar no Casino Figueira à época da acção de Sinais de Fogo (1935-36), “a comemoração dos 60 anos do mais antigo clube português, o Ginásio Clube Português”, cujo sarau se realizou, a 23 de Junho, no hoje Salão Caffé. “É com prazer que anuncio que em Junho deste ano, 75 anos depois, o Casino Figueira vai acolher a repetição da Gala do Ginásio”, disse. O administrador do Casino Figueira destacou ainda a exposição de fotografia “de um dos grandes fotógrafos nacionais”, Alfredo Cunha, “que em Dezembro de 2009 passou, incógnito, três dias na Figueira da Foz, surpreendendo a cidade e os seus habitantes nos mais pequenos detalhes”. A exposição, de entrada livre, que pode ser vista até dia 18 de Abril, conta ainda com um painel de fotografias da Figueira dos anos 30 do século passado, fruto da “excelente colaboração do Arquivo Fotográfico municipal”, sublinhou.
Ainda na sessão de abertura do evento “Ler Sinais de Fogo – homenagem a Jorge de Sena”, coube a José Carlos Seabra Ferreira, em nome de Paulo Teixeira Pinto (que não pôde comparecer), realçar a missão assumida pela Babel: “Alcançar o melhor. E isso significava desde logo ser a editora de Jorge de Sena”, explicou, afirmando-se grato ao Casino Figueira por se associar à tarefa de “promover a leitura da obra seniana, mobilizando e convocando as sinergias intelectuais de uma plêiade de docentes nacionais e estrangeiros que, sem hesitação, se disponibilizaram para este evento memorável”. Também Sérgio Letria, director da Fundação José Saramago, elogiou “o conjunto de parcerias que culmina neste simpósio”, afirmando ser objectivo da Fundação que dirige “recuperar para o público escritores que, por motivos políticos, ideológicos ou outros, foram injustamente afastados ou esquecidos”. Sérgio Letria leu mesmo uma passagem de “O Caderno de Saramago”, em que o Nobel português escreve, a propósito de Sena, “que volte Jorge de Sena, que volte já. Voltou, enfim.”
Quem também não escondeu a satisfação por este regresso, não apenas aos escaparates das livrarias, mas à leitura dos portugueses, foi o editor da Guimarães-grupo Babel. Vasco Silva anunciou o conjunto de obras de Sena a lançar no mercado, num projecto com coordenação científica de Jorge Fazenda Lourenço, que conta não apenas com reedições mas também com a publicação de inéditos, nomeadamente entrevistas e correspondência. O mercado estrangeiro, nomeadamente o Brasil, integra as intenções editoriais da Babel.
Em representação da viúva de Jorge Sena, Mécia de Sena, falou Jorge Fazenda Lourenço, que destacou, no evento, a presença de “leitores qualificados, amadores no melhor sentido da palavra, da obra de Jorge de Sena”, para um evento que considerou “uma pequena grande conspiração a favor do nosso poeta e autor”.
Coube ao “conhecido barítono, poeta e autor da primeira tese de doutoramento em Portugal sobre «Sinais de Fogo», defendida em Março deste ano”, Jorge Vaz de Carvalho, ser orador da primeira conferência do dia, subordinada ao tema do “Realismo e poesia em Sinais de Fogo de Jorge de Sena”. Vaz de Carvalho, do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa, sublinhou a “dimensão ética” presente em “Sinais de Fogo”, e a sua defesa de um realismo que veio alterar a leitura da literatura como “menos do que a vida”.
Num dia dedicado a Jorge de Sena, José Luís Garcia Martin, poeta, escritor, crítico literário espanhol e professor de literatura da Universidade de Oviedo (Espanha), lembrou que “já antes de Sinais de Fogo a Figueira da Foz fazia parte da literatura espanhola”, já que a Praia da Claridade era destino de Verão de Miguel de Unamuno, poeta que deu a conhecer aos espanhóis autores como Camilo Castelo Branco e Teixeira de Pascoaes, entre outros. O catedrático espanhol sublinhou que “ser português é também não querer ser espanhol”, e reconheceu que esse sentimento “é um eco da História”, algo que ficou do tempo da dinastia filipina e que só se compreende à luz de “uma relação complexa, porque tem muito de familiar”. Ainda assim, o docente defendeu uma “identidade cultural ibérica”, que integra nomes portugueses, “sem os quais não se compreende a poesia espanhola dos anos 70 e seguintes: o universal Fernando Pessoa, que é português e é do mundo; o poeta puro, que polia o poema como música, Eugénio de Andrade, e o homem total, o polemista, Jorge de Sena”.

Desmistificar
Jorge de Sena
A iniciativa “Ler Sinais de Fogo – Homenagem a Jorge de Sena” não foi um desfilar de loas ao escritor que perpetuou a Figueira da Foz dos anos 30 do século XX. Recorde-se que “Sinais de Fogo” só foi publicado após a morte de Sena, e sem ter sido revisto. Assim, ao longo do dia, muitos dos estudiosos da obra de Sena se referiram a “Sinais de Fogo” como uma espécie de “capelas imperfeitas ou inacabadas” em versão literária, ou seja, uma obra-prima que não pôde contar com a mestria do seu autor até ao fim. Seabra Ferreira referiu-se-lhe como um romance que, numa primeira leitura, se lhe afigurou como “muito tradicional, na composição narrativa, no tratamento do erótico e na análise dos personagens”, mas que ao mesmo tempo o seduzia “com uma força tremenda, sem que soubesse bem porquê”. Considerando que o romance de Sena não cabe nas tipologias literárias estanques, Seabra Ferreira situou-o entre o romance histórico e o romance de costumes, entre o neo-realismo, o psicologismo e a auto-ficção, garantindo que, para o leitor, “o valor deste romance cresce com o tempo”, à medida que se vai acedendo “à consciência da consciência”. Mas foi António Manuel Ferreira, da Universidade de Aveiro, quem mais desapaixonadamente falou sobre Jorge de Sena, “Sinais de Fogo” e a Figueira da Foz. O professor, convidado no âmbito do painel sobre a “Aparição da Poesia em Sinais de Fogo”, começou por se apresentar como “um homem da serra”, a quem a praia nunca disse nada, e de cujas memórias de infância a Figueira da Foz está ausente. “Não sou fanático nem estudioso da obra de Sena, por quem tenho uma fria reverência”, disse, admitindo gostar muito, ainda assim, de “Sinais de Fogo”. Mas, acrescentou, “não vejo razões para ser considerado um dos melhores romances portugueses do século XX… aliás, se assim fosse, seria muito pobre a produção romanesca desse século”, considerou. Sobre a poesia que surge em “Sinais de Fogo”, o docente da Universidade de Aveiro tem-na como “uma maldição”, algo que o personagem, Jorge, dispensaria de bom grado, “porque a poesia não substitui a vida, nunca”, garantiu. Segundo este especialista, “Sinais de Fogo” revela “demasiadamente” as vertentes de poeta e de ensaísta do seu autor. “Quem começa a escrever poesia, como acontece no romance com Jorge, não escreve assim”, explicou, defendendo também que em “Sinais de Fogo” há “uma intromissão excessiva do ensaísta Jorge de Sena”, nas reflexões do personagem principal, “que não são compatíveis com a idade”, sustentou. “Na minha opinião, isto faz periclitar a verosimilhança (da obra)”, concluiu, não sem antes sublinhar que Jorge de Sena “era um intelectual como não houve mais, com uma enorme capacidade de trabalho… e nove filhos”.

um livro e um filme – duas obras distintas

O dia dedicado a “Sinais de Fogo” terminou com a projecção do filme homónimo, de Luís Filipe Rocha, de 1995. Para o apresentar a plateia contou com a opinião avalizada de Eugénia Vasques , professora e crítica de teatro portuguesa, e de Jorge Leitão Ramos, crítico de cinema. Eugénia Vasques lamentou que o filme tenha o mesmo nome do livro, por considerá-los duas obras distintas, ainda que o filme parta do livro. “Mas não há uma adaptação do livro para guião, há uma construção, a partir de alguma da matéria do livro, de um verdadeiro guião”, defendeu, lembrando que o filme “tem muitas e subtis referências à própria vida de Jorge e Mécia de Sena”, que não constam do livro. A distinção entre a obra literária e a cinematográfica foi partilhada por Leitão Ramos, que afirmou que “o romance Sinais de Fogo não cabe no filme”, desde logo porque o livro está escrito na primeira pessoa e o filme não tem um narrador na primeira pessoa. “E ainda bem, porque normalmente os filmes que têm um narrador na primeira pessoa são muito maus”, disse. Assim, o filme “é um olhar exterior, que está no código genético do cinema”, uma obra sobre “o fim da inocência, com sexo de um lado e política do outro”, que apresenta uma visão inovadora à época, a de “uma fase do PCP iminentemente desmantelável e sem organização formal”, ao mesmo tempo que se destaca por “uma cenografia, um guarda-roupa e uma excelente reconstituição da época, exemplar e rara no cinema português”, concluiu.

[Ler Jorge de Sena] no JL

Fomos notícia no JL em dezembro de 2010

Encerramos este ano de 2010, o primeiro de nosso site (hoje, com pouco menos de dois meses de existência, já tendo recebido visitantes de 143 cidades espalhadas por 24 países, e contando quase 500 amigos no Facebook), com a notícia da seguinte nota publicada no JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias:

 

A Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro lançou, este ano, uma plataforma digital dedicada ao escritor português Jorge de Sena (1919 – 1978). Desde que a profa. Cleonice Berardinelli fundou na pós-graduação "O poliédrico Jorge de Sena", em 1982, a obra seniana tem sido objeto de vários estudos académicos. O site "Ler Jorge de Sena" resulta da vontade de "ampliar o mais possível a sua rede de leitores", pelo que disponibiliza uma biografia, cronologia, fotografias, informação bibliográfica e, ainda, um arquivo com notícias, artigos e estudos sobre o autor.*

 

Esperamos que, através de registros deste tipo, bem como pelo apoio de nossos amigos e colaboradores, possamos, em 2011, ampliar ainda mais essa rede de leitores da obra seniana.

 

* "Jorge de Sena em linha", Nota publicada no JL, n.1049, 15 a 28 de dezembro de 2010