Carta a Fernando Pessoa

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"Lendo Orpheu", 1954, de Almada Negreiros. A tela, que hoje se encontra na Casa Fernando Pessoa, foi encomendada ao pintor pelos sócios do Restaurante Irmãos Unidos. No descerrar do quadro, coube a JS proferir palestra alusiva ao poeta e a Orpheu.

Inaugurou-se dia 24 de março no Rio de Janeiro, depois de enorme sucesso em São Paulo, a exposição "Fernando Pessoa, plural como o universo". Sob este mote, evocamos novamente os estudos pessoanos de Jorge de Sena (ver bibliografia comentada por José Blanco em "Jorge de Sena e Fernando Pessoa") e aqui transcrevemos uma de suas primeiras aproximações do poeta dos heterônimos, em discurso epistolográfico. Sobre esta carta, escrita por um jovem Sena de 25 anos, a melhor apresentação é a do próprio signatário, redigida após mais de uma década: "Publicada na página literária de O Primeiro de Janeiro, de 9/8/44. Catorze anos depois, ainda julgo este escrito dos mais felizes e mais sentidos que tenho dedicado a um Poeta. E comprazo-me em ver nele muito de profético quanto ao que a crítica se preparava ainda para fazer a Fernando Pessoa, além de algumas observações que tiveram mais tarde um futuro alheio" – Nota do Autor em Da Poesia Portuguesa, Lisboa, 1959.

 

Meu caro Amigo


Se me não engano, é esta a segunda carta que V. recebe depois de morto. A outra, como deve estar lembrado, escreveu-lha Carlos Queiroz, que o conheceu pessoalmente. Não tive eu tanta honra, o que, pode crer, é um dos meus desgostos verdadeiros. No entanto, não lamento o desencontro. Apenas a curiosidade ficaria satisfeita; e, em contrapartida, jamais o Álvaro de Campos ou o Alberto Caeiro se revestiriam, a meus olhos, daquelas pungentes personalidades que lhes permitiu, e aos outros, o seu espírito sem realidade nenhuma. Porque esta é a verdade, meu Amigo: toda a sua tendência para a «despersonalização», para a criação de poetas e escritores «heterónimos» e não pseudónimos, significa uma desesperada defesa contra o vácuo que V. sentia em si próprio e à sua volta. Quando V. criou o Álvaro de Campos, o Alberto Caeiro e o Ricardo Reis, quando fez deles um grupo de amigos seus, defendeu-se contra si próprio – e só não o tendo eu conhecido pessoalmente, não tendo, pois, assistido à irremediável ausência de qualquer deles, era possível cumprir-se em mim (ou noutros em idênticas circunstâncias, e para quem, também, a poesia não seja uma forma definitiva como um título consolidado) o que deve ter sido um dos mais melancólicos sonhos da sua vida.

V. não foi um mistificador, nem foi contraditório. Foi complexo, da pior das complexidades – a sensação do vácuo dentro e fora, V. não foi um poeta do Nada, mas, pelo contrário, poeta do excessivamente tudo, do excessivamente virtual, de toda a consciência trágica de probabilidade, que a crença no Destino não exclui.

Os seus heterónimos (e V., quando escreveu em seu próprio nome não foi menos heterónimo do que qualquer deles) não são as personagens independentes, protagonistas do «drama em gente», do qual V. falou. Embora V. os visse, e os ouvisse e, por conta deles, se inspirasse, não representam um drama, nem vivem, em comum, o romance das «vidas que V. não queria ter», segundo a expressão de Casais Monteiro – porque as biografias, que lhes deu, são ainda bem pouco para o que eles disseram… Poderei, com maior piedade do que lhe permitiu, a V., a sua lucidez devoradora, afirmar que essas vidas vieram depois, e amassadas com lágrimas que V. considerou imerecidas, que não quis gastar sobre a sua própria vida?

Quem lê as poesias assinadas com o seu nome, e as outras assinadas Álvaro de Campos, e depois as compara com as de Alberto Caeiro e Ricardo Reis, não sentirá, como eu senti, que só a estes dois últimos pertencia a possibilidade poética de se erguerem, totalmente, acima do «Indefinido»? Esse Lucrécio e esse Horácio, com quem V. tentou raivosamente limitar-se; através dos quais tentou existir com o possível mínimo de ser; pela boca de Caeiro, afirmando o valor intacto do mundo exterior, embalsamado assim num devir inocente; pela boca de Reis, amando o quanto de gratuito a vida lhe podia conceder, uma vez que V. e a sua Lídia abstracta transformassem num só dia a vida inteira –

Inscientes (…) voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.

– esse Lucrécio e esse Horácio, ambos tão incansáveis, tão resignado e indiferente o primeiro, e tão altivo o segundo, eram a sua revolta intelectual.
O Álvaro de Campos e o Pessoa que a V. ficou das sobras, esses eram da sua revolta sentimental. Eram quotidianos; eram o seu chegar à janela e ver a rua; eram a sua mágoa, quer de não estar em toda a parte, quer de estar em parte nenhuma, apesar do paliativo, que a V., quando em seu nome, lhe provinha de uma auto-submissão intelectual terrivelmente activa. Por isso o Álvaro de Campos escreveu a «Ode Marítima» e a «Tabacaria»; por isso o Fernando Pessoa escreveu os poemas da Mensagem e «O Menino da sua Mãe». Ambos recordam a infância; e, para ambos, o passado é, como a infância, uma lembrança misteriosa que não se apaga. Lembrança de quê? Infância de quem? Muitas vezes perguntaram isso, mas a resposta era um silêncio, e, mesmo (bem sabemos, não é?), um consultar dos astros, como verificação…

Não, meu Amigo! O D. Sebastião da Mensagem parece-se tão extraordinariamente com o Menino Jesus do «Guardador de Rebanhos» («era o deus que faltava»…), que quase se suspeita da objectividade de «O Menino da sua Mãe»! É essa a fonte do espantoso vácuo que o cercava, meu Amigo: o vácuo da Terra, da qual o Sol se levanta, mas da qual não nasce!…

A noite, que V. poeticamente sentiu, como raríssimos poetas portugueses, com uma densidade e uma profundidade que a solidão lhe ensinou, foi o seu grande refúgio: nela a sua lucidez se alongava e expandia, é certo que dolorosamente, mas sem encontrar um objecto para o ataque, uma imagem a que antepor um cruel espelho.

Hoje, que a solidão e a lucidez perderam, para V., todo o sentido que tinham, reconheça comigo, que, se a elas ficou devendo uma inspiração sincera, lhes ficou devendo, também, o constante perigo de não conseguir ser o grande Poeta que foi. A presença desse perigo é constante na sua obra; chega a tomar-se um dos temas fundamentais: e momentos houve, nos quais V. se comprazia em mergulhar nessa

… espécie de loucura
que é pouco chamar talento,

como se ela fosse, por si própria, uma virtualidade de expressão poética. Todavia, assemelhava-se a uma virtualidade poética: era um saber o som das asas cortando o ar… Asas tão grandes!… Tão consoladoras essas grandes asas!… E, depois, dizer o quê?… Se dizer fosse o que fosse equivalia a restringir, a criar pequenos e pretensos mitos, em substituição dos outros maiores, tal como as palavras tinham sido criadas para esconjurar esses outros…

Não creio, portanto, que a morte o tenha prejudicado, meu Amigo: V. não diria mais do que disse; V. tinha dito sempre a mesma coisa -maravilhosamente, de quantas maneiras possíveis.

Veja, no entanto, as «Malhas que o Império tece» Porque V., à parte o seu caso único na história das literaturas, para ser algo do Super-Camões que anunciara, não precisava de ter publicado uma espécie de Lusíadas, e de deixar as Líricas dispersas por revistas, ou amontoadas num baú, entregues às mãos do acaso e da amizade…

As suas obras estão sendo publicadas. O grande público decorará o seu nome; muitas pessoas o lerão; algumas o hão-de entender e amar. Outras desconfiarão de V. Outras, ainda, lamentarão secretamente aquela complexidade, de que já falamos, e que não pode servir de garantia a profecias ou realidades, para uso do «gado vestido dos currais dos Deuses». Será tido como mistificador. Será tido como contraditório. Mas V., meu Amigo, já o sabia… E aquele sorriso vago, que flutua aquém dos seus retratos, para quem será, não é verdade?

Creia na imensa admiração e no imenso respeito do

Jorge de Sena

1944

 

* In: Fernando Pessoa & Cª Heterónima. 3a. ed. Lisboa, Ed. 70, 2000, p. 19-22