33.Mapas poéticos de Espanha: ressonâncias da hispanofilia na obra de Jorge de Sena

Dora Nunes Gago
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Goya, "El dos de mayo de 1808 en Madrid...", óleo sobre tela, 268 x 347 cm 1814. Museu do Prado, Madrid

Os dias 2 e 3 de maio tornaram-se datas imortalizadas pelas telas de Francisco de Goya, ambas no Museu do Prado. "El dos de mayo de 1808 en Madrid o la lucha de los mamelucos en la Puerta del Sol" assinala o início da luta ibérica contra as tropas invasoras de Napoleão. Mais conhecido, "El tres de mayo de 1808 en Madrid o los fusilamientos en la montaña del Príncipe Pío" constitui um dos mais impressionantes testemunhos pictóricos da violência e da brutalidade da guerra. Tomando este como "fonte", escreveu Jorge de Sena o extraordinário "Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya", último poema datado de Portugal, antes de seu exílio no Brasil (e cujo texto, com o quadro e com a bela interpretação de Eunice Munõz, já aqui reproduzimos). Hoje, sob o mote das datas, e das duas telas que as celebram, trazemos a nossos leitores alguns veios da hispanofilia de Jorge de Sena, observada em dois ensaios de Dora Gago e numa pequena antologia da poesia lorquiana, traduzida por Sena. Em "Mapas politicos de Espanha: ressonâncias da hispanofilia na obra de Jorge de Sena", nossa colaboradora parte dos espaços geográficos visitados/mencionados por Sena para logo deter-se mais demoradamente na sua poesia, dela sublinhando ecos de António Machado.

 

O antagonismo dos portugueses face a Espanha tem atravessado séculos, espelhando um ressentimento histórico. Efectivamente, apesar de toda a herança cultural e étnica comum, o país vizinho tem sido configurado como ameaça à autonomia e independência nacionais. Todavia, paralelamente a este sentimento de desconfiança, surge-nos a admiração e o reconhecimento das qualidades de Espanha, pela pena de alguns escritores portugueses, como é o caso de Jorge de Sena.

Nesta sequência, a análise que, em seguida, empreenderemos basear-se-á, sobretudo, nos pressupostos teóricos de D-H. Pageaux, Álvaro Manuel Machado e de Jean-Marc Moura, acerca da imagologia, ou seja, o estudo das imagens do estrangeiro. Assumindo-se como uma linguagem sobre o outro, o estudo da imagem deve considerar a sua funcionalidade e valor estético, a conformidade com um modelo, um esquema cultural que é preexistente na cultura do observador. Deste modo, partindo do conceito de imagem, dos seus elementos constituintes, é essencial conhecer os mecanismos culturais que presidiram à sua formação – neste caso concreto, nas obras de Jorge de Sena – e o modo como ela se inscreve no seio de determinada cultura e de um imaginário. Isto porque, através de esquemas culturais preexistentes, o indivíduo filtra a realidade circundante. Assim, a imagem não constitui um retrato fiel da realidade, mas sim uma “ficção”, ou por outras palavras, uma representação cultural do elemento observado.

É ainda a este nível que devemos atentar na escrita da alteridade, notando todos os elementos possibilitadores da diferenciação ou da assimilação entre o “Outro” e o “Eu”, podendo o primeiro surgir como um prolongamento do segundo e do seu espaço de origem, transpondo metaforicamente realidades nacionais.

Nesta esteira, a Espanha assume uma presença relevante na obra de Jorge de Sena, cuja imagem é configurada através de múltiplos vectores, que no presente trabalho, restringiremos ao corpus seleccionado: Diários e Poesia (alguns poemas de Exorcismos, Conheço os Sal, Quarenta Anos de Servidão).

Deste modo, analisaremos, à luz da imagologia, as imagens do país vizinho, filtradas pelo olhar de Sena, contemplando precisamente a sua perspectiva acerca das cidades, da cultura, da Guerra Civil e do povo, atentando igualmente na presença do poeta que considera como “mestre”: António Machado.

É na obra Diários, editada postumamente em 2004, por D. Mécia de Sena, que encontramos algumas das impressões delineadas por Sena, aquando das suas andanças por Espanha, outras são-nos fornecidas através de poemas dispersos por várias coletâneas.

Sucintamente, podemos referir que as incursões do autor por Espanha se situam nas seguintes datas: entre 12 a 17 de outubro de 1954; em 1968, desde o dia 6 de setembro até 22 de dezembro. Posteriormente, regressou a este país em 1972 e 1973.

Madrid é uma cidade muito admirada, visitada e percorrida, referida em Diários, com registos datados de 13 de outubro de 1954, e a 21 de dezembro de 1968. O visitante compara-a inicialmente com Londres: “Cheguei a Madrid às 8 horas e meti-me no metropolitano para a Gran Via, logo a matar saudades de Londres, de que o movimento, a atmosfera matutina, a escala das construções um pouco fin de siècle me deram uma cruciante saudade.” (Sena, 2004:163).

A descrição dos percursos pela capital espanhola, nomeadamente as visitas ao Museu do Prado, denotam um profundo interesse e devoção pela arte em geral. Nele, o viajante salienta a magnificência de Bosch, dos italianos, dos flamengos e das esculturas helenísticas, com o intuito de acentuar a importância que confere a Greco: “Mas o grande, verdadeiramente grande, é o Greco, apesar de uma fluidez de passo de dança que faz ter saudades dos italianos primitivos. O Prado, porém, é realmente esmagador, excessivo – para conviver muito tempo com aquela gente toda, demasiado grande para suportar-se toda junta em tal quantidade.” (2004:164).

Toledo é outra cidade visitada e descrita, sendo destacado o clássico panorama: “as portas ilustres San Juan de los Reys, as duas sinagogas, a casa de Simon Levy (dita de Greco) e o Enterro do Conde de Orgaz.” (2004:164), enquanto o autor procura, na catedral, vestígios de Portugal, da “pátria madrasta”, da qual se exilaria, voluntariamente, alguns anos depois.

O sentimento que esta cidade estrangeira desperta no sujeito de enunciação é, sobretudo, de “estranhamento”, de desintegração, como se uma espécie de abismo o separasse da sua cultura de origem. Deixa transparecer, novamente, a sua admiração pela catedral e pela obra de Greco, sobretudo pelo “Enterro do Conde de Orgaz”, que considera uma autêntica e subtil obra-prima, frisando que: “Toledo é uma estranha cidade, que me impressionou profundamente: sobretudo o ambiente… Mas há, naquilo tudo, de facto, uma estranheza – como se a gente que ali viveu nada tivesse a ver connosco.” (2004:165).

Em contrapartida, o autor revela o seu fascínio por Salamanca, quando, após ter enumerado os locais visitados, reconhece: “Tudo me maravilhou, desde os ornamentos góticos coloridos da catedral ao interior da universidade, desde a magnificência subtilmente clássica da Plaza Mayor ao zimbório da catedral velha […] Salamanca é um encantamento”. (2004:167). É aqui, muitos anos depois, em 1971, que escreverá o poema, com o título simbólico “Plaza Mayor de España”, que considera uma das mais belas do mundo (1978: 263). Podemos encontrar nele um certo rasto da guerra oculta sob a evocação de Espanha, aliada à morte, conciliando-se igualmente a descrição de monumentos, com a meditação filosófica da vida para além da morte. “Que português não só de Espanha morre / Mas de morrer-se não sequer conhece/ A morte que de Espanha o sopra e mata?” (1978: 164).

Além disso, numa passagem diarística datada de 17 de outubro de 1954, o autor salienta a sua “filia” face ao país vizinho, destacando-lhe a superioridade relativamente a Portugal:

Eu tinha conhecido a Galiza; e agora conheci Castela. E a Espanha é de uma grandeza, de uma escala que não é de facto a nossa. Há uma majestade, uma segurança de estilo, uma vivacidade altaneira, que estão de longe acima de nós.

A riqueza monumental de uma paisagem imensa – que maravilhosa é a subida do Guadarrama – e que, apesar de deserta, não é vazia, antes cheia de uma atmosfera de “honor” sombrio como o Greco captou tão bem. Gostei; preciso voltar. Afinal a Europa começa no Caia, apesar de tudo. (2004: 167).

Deste modo, a Espanha é delineada como um país “europeu”, majestoso, exuberante, cujo desenvolvimento e pujança contrasta com o atraso português, que magoa e entristece o autor.

Barcelona é outra cidade que atrai a predileção de Sena, como é documentado em Diários, nos registos de uma visita ocorrida a 16/12/ 1968. A admiração sentida evidencia-se nas considerações tecidas acerca da cidade, através da referência aos locais visitados, sublinhando a grandiosidade dos frescos românicos, da pintura e da escultura catalãs. Além disso, destaca a beleza panorâmica desfrutada do alto do Tibidabo, através de um discurso que deixa transparecer o seu profundo apreço por esta cidade, evidenciando nitidamente o seu deslumbramento:

Sinto-me outra vez como quando cheguei a Paris, e ainda por cima com os pés à razão de juros (primeira coisa de que cuidarei em Madrid). Mas Barcelona é realmente magnífica, e a parte antiga esplêndida, sobretudo para embeber-me da evocação que pretendo. (2004:253).

Em suma, através dos registos destas incursões efctuadas em território espanhol, evidencia-se a preferência por algumas cidades, como é o caso de Madrid e de Barcelona (em detrimento, por exemplo, de Toledo, marcada por uma certa “estranheza”), vistas como verdadeiramente europeias, comparadas, respetivamente, a Londres e Paris e consideradas superiores à realidade do país de origem.

É revelado, a cada passo, o profundo amor do poeta pela Arte (com letra maiúscula, pois engloba todas as artes, desde a pintura à música e ao teatro), que transparece indubitavelmente da sua obra Metamorfoses (incluída em Poesia II), inspirada em diversas obras artísticas. Neste contexto, o poeta recria a dialética da metamorfose, na linha de Ovídio, relacionando explicitamente os poemas com pinturas, esculturas, monumentos, enfim, objectos de que lhe são preexistentes, conferindo-lhes um carácter meditativo.

Por seu turno, a evocação da Guerra Civil transparece no poema “Memória de Granada” (Poesia I, 1972), iniciado com a descrição de Alhambra e da conquista deste último reino (223). Nele, são referidas personalidades relevantes, começando por S. João da Cruz (a quem são dedicados vários poemas) e terminando com os membros da família real, reveladores do conhecimento detido pelo autor acerca de diversos pormenores da História de Espanha. Por fim, o poema termina com a evocação de Garcia Lorca e da Guerra Civil, sendo inscritos versos pertencentes a Mariana Pineda de Lorca.: “Pingo a pingo/ goteja da montanha o poeta em sangue/-com que trabajo tan grande/ deja la luz a Granada!”.

Por conseguinte, neste texto, Jorge de Sena revela uma consciência interventiva, de defesa da justiça e condenação das injustiças, evidenciando-se a preocupação com a Guerra Civil de Espanha e as atrocidades nela cometidas.

Além de Lorca, outros escritores espanhóis são mencionados ao longo da profícua e múltipla obra seniana. Entre eles, António Machado ocupa lugar cimeiro, já que o autor revela por ele uma notória e emocionada admiração, considerando-o como seu «Mestre», visto que o conduziu à descoberta da poesia como conhecimento da essência.

Tal como refere no início de um artigo dedicado ao poeta espanhol intitulado «Sobre António Machado», publicado a 24 de dezembro de 1957 na página literária do Comércio do Porto:

Quando há quinze anos, e com atraso de alguns, se publicou o meu primeiro livro de poemas, levava uma epígrafe de António Machado:

no es el yo fundamental
Eso que busca el poeta,
Sino el tu essencial.

Isto só por si não quererá dizer que, para mim, Machado surgira não apenas como um grande poeta, que se admira, mas como um grande Mestre que se ama, pois que epígrafes são por vezes muito circunstanciais. Mas toda a minha vida, em tudo o que tenho escrito, me tenho procurado manter fiel a esse ditame seu que me ficou gravado no fundo do coração, irremediavelmente. […] (citado em Bento, 1984: 211-212).

A veneração pelo autor de Campos de Castilla manteve-se ao longo da vida de Sena, como é testemunhado pela obra Poesia do Século XX (na qual trabalhou até que a morte o colheu prematuramente), onde encontramos a tradução de alguns poemas do poeta espanhol assim como uma síntese da sua vida e poesia.

Ainda neste contexto, importa referir que três poemas presentes em 40 anos de Servidão (publicado postumamente), focam uma ida a Segóvia (em 12 de Agosto de 1973), cidade onde Machado viveu e lecionou durante quase 13 anos. Por conseguinte, esses três textos são inspirados em elementos da vida e obra do “mestre” espanhol: “Queria que a morte”; “António Machado e S. Juan de la Cruz”; e “Este poeta que leio”. No primeiro (“Queria que a morte”), o nome do poeta não é mencionado, mas a sua presença evidencia-se, visto que são aludidos e glosados diversos poemas seus, como é o caso de “Retrato” de Campos de Castilla e a solear XXXVI, entre outros. Assim, segundo José Bento, no terceiro verso deste poema, quando se alude à morte como “senhora fria/das noites sem regresso e sem amor”, é provável que Sena pretendesse fornecer uma imagem semelhante à apresentada por Machado no poema “Muerte de Abel Martin”, no qual a representa como “la musa esquiva,/ de pie junto a su lecho, la enlutada,/ la dama de sus calles, fugitiva,/ la imposible al amor y siempre amada.” (Bento 1984: 213). Em seguida, o quinto verso refere diretamente a morada do poeta em Segóvia: “Viveu anos aqui, na Rua dos Desamparados” (Sena 1979:147). Por seu turno, é mencionada a partida de António Machado para o exílio (“Quando na derrocada de Espanha […] cruzou a fronteira do exílio”), a travessia da fronteira com a França, após a vitória das tropas de Franco. Neste caso, encontramos também afinidades de teor autobiográfico com o próprio Jorge de Sena, relativamente a temáticas e preocupações, visto que, também ele, num país dominado pelo fascismo, se exilou para o Brasil em 1959. Neste poema, são ainda citados os versos já referidos anteriormente, selecionados pelo escritor como epígrafe do seu primeiro livro, pertencentes a um dos Provérbios Y Cantares que integram as Nuevas Canciones. Por fim, no antepenúltimo e penúltimo versos, é incluída uma frase pertencente ao poema «Retrato» de Machado: “casi desnudo como los hijos de la mar.” Assim, o poema termina com a indagação: “Quem seriam, despojados, estes filhos do mar?” Esta derradeira questão remete para um domínio da alteridade para um «outro», que será precisamente esse «tu essencial».

O segundo poema intitula-se “António Machado e San Juan de la Cruz”, e principia por referir: “Vim a Segóvia ver dois amigos velhos/ Um que viveu aqui por treze anos/ (e veio aqui viver dias depois de eu ter nascido”)” (Sena, 1979: 149). Deste modo, estes dois primeiros versos referem a chegada de António Machado a Segóvia, em novembro de 1919, – pouco depois do nascimento de Jorge de Sena, que ocorreu no dia dois do mesmo mês e ano – onde permaneceu até 1932. Os seguintes são alusivos a S. João da Cruz, sepultado no convento que fundou e onde foi prior. É salientada a divergência entre as “visões ardentes” dos dois poetas, visto que em S. João da Cruz assumem um teor religioso e em Machado um caráter humanista (“Ambos poetas das visões ardentes/ em que um se consumia e o outro não acreditava/ senão como ironia de entre dormir e sonho” no espaço vago onde existe uma terceira coisa/ que nos cumpre – dizia ele adivinhar.” (Sena, 1979: 149). Estes últimos versos assumem uma clara afinidade com os de Provérbios y Cantares: “Entre el vivir y el soñar/hay una tercera cosa. /Adivínala”.

Por fim, no terceiro poema, intitulado “Este poeta que leio…”, também ecoa a sombra de Machado, assumindo um teor mais meditativo. Assim, o seu ponto de origem é a audição de uma música indeterminada e a leitura simultânea deste poeta. A reflexão que percorre o texto refere-se ao papel desempenhado pelas artes, mais especificamente pela poesia. A última estrofe é a mais explícita no que concerne ao poeta espanhol: “Leio o velho poeta. Queria-se/desnudo como os filhos do mar/ Pergunto-me quem sejam esses filhos,/ se ainda os haverá nalgum lugar perdido.” (Sena 1979:151). De novo, surge a intertextualidade com os versos do autor de Campos de Castilla, retomando o tema presente no início e no fim do primeiro poema abordado, instaurando novamente a presença do “outro” e a necessidade de uma espécie de procura, deixada em aberto.

Deste modo, Jorge de Sena, embora trilhe o seu próprio caminho, realiza o que Jorge Lourenço (2001:22) denominou uma “transfusão de poéticas”, ou seja, no seu caso concreto, este “tu essencial” é desvendado a partir de um “eu fundamental”, inscrevendo-se a poesia como palavra fulcral no tempo, numa incessante demanda de uma essencialidade complementada pela temporalidade.

No que concerne à suposta influência exercida pelo apelidado “Mestre” espanhol na obra de Sena, importa salientar a interessante abordagem presente no artigo de Francisco Cota Fagundes, intitulado “Jorge de Sena-Discípulo de António Machado? Da heterogeneidade do ser e das figurações do outro na poesia seniana”. Neste caso, após a análise de diversos poemas e algumas temáticas da poesia seniana, o autor lança a hipótese de a suposta influência do modelo machadiano ser, para Sena, um modo de se libertar e de marcar a diferença perante a concepção de alteridade presente em Pessoa e na sua heteronímia. (Fagundes 2007: 396). Deste modo, o reconhecimento desta influência poderá assumir-se como uma fuga à “sombra” de Pessoa, rumo a um caminho distinto, marcado pela originalidade. Assim, Machado delineia-se como “modelo de referência”, visto situar-se num plano mais distante de admiração ou afinidade, sendo um elemento frequentemente datado, que não se integra no fundamental da obra, não é assimilado estruturalmente. Assume-se, sobretudo como o «rappel duma visão de conjunto vaga e fragmentária» (Machado: 1986, 17). Nesta medida, não chega a assumir a importância de modelo produtor, através da sua inscrição na estrutura da obra.

A visão poética de Espanha transparece ainda em muitas epígrafes, frequentemente usadas por Sena nas suas obras, que desempenham a função de comentário, esclarecimento, justificação quer dos títulos, quer dos conteúdos. Essas epígrafes convocam inúmeras vozes, como é o caso de Garcia Lorca (em Exorcismos), António Machado (em Perseguição), evocando igualmente Garcilaso de la Veja, Baltazar Gracián y Morales e Santa Teresa de Ávila.

Por último, é pertinente salientar que foram numerosos os estudos consagrados por Sena à literatura espanhola: englobam inúmeras traduções e cerca de 40 artigos e ensaios, abordando autores como Garcilaso, Boscán, Herrera, Góngora, Francisco de la Torre, entre muitos outros, o que corrobora a plena consciência da importância do conhecimento da cultura espanhola, possibilitadora, igualmente, de uma mais profunda compreensão da cultura, História e identidade portuguesas. Nesta sequência, o mais importante é a empenhada reflexão tecida pelo autor acerca da identidade portuguesa e hispânica, da sua cultura e das suas gentes.

Em suma, na senda do caminho da “lusofília” inaugurado por Miguel de Unamuno em Espanha, na geração de 90, também Jorge de Sena se revelou como autêntico hispanófilo, ao construir imagotipos positivos de Espanha, através, por vezes, de um olhar quase “quixotesco”. Com efeito, ultrapassou os resquícios da ancestralidade, patente em sentimentos de indiferença, repulsa ou mesmo inveja, historicamente enraizados no imaginário coletivo português, através do conhecimento, da divulgação e da admiração pela cultura e literatura espanholas. É deste modo que se desenham os mapas poéticos de Espanha, configurados pelas linhas da hispanofilia.


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* Dora Gago é Professora de Literatura no Departamento de Português da Universidade de Macau