O Re-descobrimento do Brasil: três cartas inéditas

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Faculdade de Medicina da Bahia, local do Colóquio de que participou Jorge de Sena

As três cartas inéditas a seguir publicadas são das primeiras que Sena escreveu numa nova "descoberta do Brasil", em 1959, logo depois de aportar no Recife e de seguir para Salvador, onde participou do Colóquio que justificava sua vinda. A par das reiteradas saudades de Mécia e da família, as observações rápidas e mescladas sobre a liberdade respirada, a paisagem, o calor tropical, o custo de vida, as desorganizações institucionais (particularmente os aflitivos correios que dificultavam sua comunicação com a destinatária) e mesmo as desconfianças quanto ao modo escorregadio de alguns nativos, permitem-nos perceber, apesar de tudo, a paulatina adesão do signatário ao novo espaço — a ponto de, em pouco tempo, pensar em permanecer…

* Recife, 7/8/959

* Bahia, 5ªfeira, 13/8/959

* Bahia, 19/8/959

 

 

Recife, 7/8/959

Minha querida Mécia, meu Amor


A saudade imensa que sinto de ti, a amargure de não estares ao meu lado, sobrelevam a sensação estranhíssima de respirar o ar livre do Brasil, que logo no avião começou. Revejo o teu vulto na porta do "embarque" no aeroporto, a dizer-me adeus, e de tantas vezes que nos temos separado e de tanto sermos um, foi esta a separação mais dolorosa. Creio que poucas vezes terei sofrido tanto, e sei também que cada vez mais somos um só, vivemos um no outro, meu Amor, não é?


Chegámos ao Recife, depois de uma excelente viagem, mas com duas horas de atraso. 0 avião cheio não permitia grande liberdade de movimentos, e apenas só de quando em vez dormitei alguma coisa. Isto me parece uma mistura heteróclita de Luanda, Braga, Setúbal, Aveiro (pelos canais à beira do rio) e pretensões novayorquinas sem arranha-céus. Não encontrei ainda o Alfredo Pereira Gomes [1]. O Alvaro Lins [2] foi para o Rio.


Os cruzeiros não valem nada. Um taxi – eu, o Urbano [3], a Maria de Lourdes [4] e o Luis Albuquerque [5], de Coimbra, viemos ver as praias celebradas – 160 cruzeiros (uma distância como da nossa casa a S.to Amaro). Comprei a camisa de nylon. Garantiram-me que aqui é tudo mais barato e melhor que na Bahia. Custou a dita 800 cruzeiros, o que me dizem ser bom. Que te parece. 160 esc. não é ? Não comprei ainda, prudentemente, as cuecas.


O inverno aqui é um calor equatorial, que aqui na praia nem do mar vindo, onde estou sentado na praia a escrever-te, uma brisa corta. Mas não ter-te aqui a meu lado é um desgosto infinito. Respirar esta sensação de distância dessa piolheira ignóbil, ouvir falar português à nossa volta – e não estares comigo, oh meu Amor, como é possível? Como estarás? Por certo amanhã terei notícias tuas trazidas pelo avião seguinte. Como estarão os pequenos? Sinto-me só, querida; eu não sei viver sem te saber perto, sem ter-te ao meu lado, sem falar contigo, sem ouvir contigo. E cada vez menos o sei. E quanto eu queria que viesses ainda! Amanhã, mexerei o céu e a terra, embora o Urbano na viagem me tenha descrito os esforços que fez. Receber-te nos meus braços no aeroporto, como te tive nos meus à despedida, será possível?


Partimos de facto amanhã às 6 horas para a Bahia. A vida no Recife é às 6 da manhã que começa: gente na rua, tudo aberto – não é cedo senão para nós. Vamos a ver como o Adolfo [6] reage à confissão geral do João Paulo [7], que aliás só pela rama e directamente lhe transmitirei.


Meu amor, queria ter-te comigo a meu lado, nesta paz que o não é por me faltares aqui. Abraço-te, minha vida, de todo o coração. Beija por mim os pequenos todos. A toda a gente transmite lembranças. E para ti, querida, meu Amor, minha vida, o meu coração inteiro num grande beijo, tudo o que valha e não valha e tu me dás a graça de amar. Teu

Jorge

 

 

Bahia, 5ªfeira, 13/8/959


Minha querida Mécia, meu Amor


Faz hoje uma semana que parti, e curiosamente (acabo de olhar para o relógio) pego da caneta para te escrever quando, com as 4 horas de diferença (são 6 da tarde), a semana se cumpre exactamente. Semana vertiginosa de despaisamento, de tropicalismo, de trabalho insano desde que à Bahia cheguei (passei a tarde inteira fechado no quarto a preparar o relato da tese do Casais, para amanhã pela manhã, que tinha de ser feito agora, pois logo à noite vou ver a Cacilda Becker na Maria Stuart). É noite. Por entre nuvens, um crepúsculo vermelho que sumiu rápido atrás da imensa ilha de Itaparica que está aqui defronte dentro desta baía sem limites de que a cidade é uma parte mínima. A minha tristeza é imensa. As únicas notícias tuas que até hoje recebi são as que a mulher do Cidade me deu. Só quando estou totalmente exausto te não tenho escrito todos os dias as cartas ou partes de cartas que terás recebido, meu amor. O Urbano levará esta, e por isso nela nada conto de especial senão o ar livre que se respira aqui e sem ti respiro, a amargura de não ter-te a meu lado nesta paz sem limites de uma noite quente e serena, em que saberia bem suarmos juntos. Isto é muito belo, de uma força tropical que se intromete nas ruas, e creio que poderíamos ser aqui, meu amor e minha Vida, incrivelmente felizes. Assim, nem sei que possa dizer-te, roído de saudades, sem ouvir nas tuas cartas a tua voz e o teu conselho que são o meu arrimo e a minha consciência, inquieta a todo o instante por uma falta de notícias, que, comunicada, não aflige ninguém, de habituados que estão à fantasia destes correios de cá, em que um telegrama a avisar de uma chegada 3 dias antes, chega depois do avião em que o sujeito vem (aconteceu ao Pedro de Andrade, ao ir daqui ao Rio, antes de eu chegar). Depois, com a ida dos Lourenços [8] para a Europa, estou a ver que a minha tortura só terá alivio no Rio, se entretanto carte tua tiver chegado às mãos do António Pedro Rodrigues [9] (aí, como o correio é directo, levará menos tempo a chegar, presumo). O Casais tem sido muito amigo, e abriu-se comigo, e creio que fui injusto na alucinação dos primeiros dias que não comunicarás a ninguém, de perigosa que é. Mas nada disto importa, senão o silêncio que me rodeia. Eu sei que estás sempre comigo, não só porque és a minha própria alma, como por teres o dom de invisível estares a meu lado sempre em toda a parte. Esse invisível, porém, me assusta. A tua presença, o teu calor, o teu afecto, o teu infinito amor de que os nossos filhos são, graças a Deus, a expressão viva, preciso de tudo isso agarrado a mim, colado a mim, na tua boca, nos teus olhos, no teu corpo que é o mais belo poço de ternura que jamais houve no mundo. Como se é injusto humanamente! Como pode ignorar-se e como só é de um e não poderia ser de mais ninguém (pois não seria assim, nem seria sequer) um tesouro maravilhoso como é a tua pessoa, meu Amor! Eu não tenho desejo senão de ti, e tudo o mais não conta, nem importa. Querida Mécia – é incrível que estejamos separados!


Até ao Rio, não desisto de resolver este problema – o da glória infinita do teu coração batendo ao pé de mim, em mim, e para mim, dos olhos às pontas dos dedos. Meu Amor, estou tão cansado da vida, tão cansado de ver-te sem paz, acabrunhada de trabalho e de aflições, num buraco sem horizontes como é a nossa vida. Mas nela brilha "uma pequenina luz", a luz do teu amor – como ninguém entendeu que não há mais luzes, que toda a minha "fidelidade" é a ti? Beijo-te com uma profunda saudade, abraço-te com uma dorida ternura, e não me distraio um só momento da tua imagem tutelar, que beijo, beijo, beijo.


Teu do coração


Jorge

 

 

Bahia, 19/8/959


Minha querida Mécia, meu Amor

Recebi ontem das mãos do Lourenço (que hoje parte com a mulher para uma viagem de regresso, via Rio, Bolívia, Paris, México, França) duas cartas tuas: a de 9, em que não receberas notícias minhas, e a de 10, em que acabavas de enfim as receberes da Bahia. Ontem, relatei [10] pela manhã numa tempestade de meninotes que me chamavam "velho", a tese sobre a "poesia concreta" que aliás não ataquei. Ao almoço, no Hotel, o M. Caetano [11] veio a mim para agradecer-me o cartão com que eu declinara, "sobrecarregado de trabalho", a recepção dele, e felicitar-me pela brilhante actuação na secção de "literatura", onde de facto pareço um boneco de sabugo, sempre em pé, a meter a colherada. Após o almoço, o Thiers [12] veio muito doce trazer-me o bilhete de avião para o Rio (no sábado). A seguir fui com a Belchior ao Banco trocar 300$00 (o Casais pagar-me-á os artigos de S.Paulo adiantados e fará contas com eles depois, o que lá esclarecerei), dei uma volta pela Cidade com ela, voltei ao Colóquio, onde precisava de ir, fui jantar de despedida (com o Barradas de Carvalho, o Agostinho da Silva, a M. de Lourdes, o Victor Ramos, o Fafe, o Luis de Albuquerque) [13] ao Lourenço e à mulher (440 cruzeiros…), perdemos com a jantarada o espectáculo do Gil Vicente, vim para o Hospital [14] escrever o relatório da tese do Eudoro até às tantas, deitei-me, e aqui estou, às 8 da manhã (hora já tardia!), a responder-te. É extraordinário como recebo uma carta tua em que lamentas a conversa de surdos que o correio nos impõe, quando vai a caminho uma carta minha em que me queixo do mesmo. Mas é tão natural, da maneira que estamos afinados, meu Amor!


Espero que tenhas escrito ao Teu Pai [15] e ao Oscar [16] , pondo tudo bem claro, sem animosidades que complicam mais as situações. Não te arrelies, querida, demasiado – lembra-te daquele provérbio cínico: "nunca digas tanto mal de alguém, que não possas um dia dizer bem."… Será grave a coisa da Helena [17] ?


Querida, não temas que, impensadamente, eu me entusiasme a ficar aqui. Só se, preto no branco, nos aparecesse uma situação definidamente mais desafogada que a que temos. A minha experiência desta gente fugidia e vaga e irresponsável já é muita… Até agora, se a gente do Ceará tem projectos mais definidos, não financeiramente é certo, e mesmo isso… Lá irei ver, se a ida se concretiza. Mas só no Rio eu saberei as voltas que dou. Espero que escrevas sempre para o António Pedro Rodrigues, como te recomendei que fizesses.
 

Ainda bem que esteve agradável a tarde na Eunice [18]. Também eu não disse ao Adolfo tudo o que o João Paulo me disse, não era possível sem ofender e quase pactuar com uma violência que não temos de partilhar.


O Alexandre Eulálio "parece" que me arranjará o apartamento no Rio, mas mal o vejo no "flirt" um tanto estranho em que anda – ao que noto – com um jovem americano. É possível que eu me engane, e de resto nada tenho com isso. O Veríssimo é que tem sido amigo; envia-me americanos, escreve-me cartas – e eu ainda não tive tempo de escrever-lhe um postal. Nem sequer preparei o palestrório carioca (que aplicarei igual nas outras partes). Vamos a ver se hoje assento com o Amora a questão da ida a S.Paulo.


Vou começar a mandar pelo correio pacotes de papelada do Colóquio, para não ter de carregar com ela. Quero diminuir ao máximo o meu peso (já aliviado de alguns livros e dos que trazia para o Casais), para não dificultar a facilidade de movimentos. De S.Paulo, volto ao Rio, depois é que não sei a ordem das andanças na viagem de regresso, que pode meter Brasília, Minas, Amazónia, Ceará, etc. Informar-te-ei sempre de tudo, meu Amor.


Que infinitas saudades tenho de ti e da tua presença junto de mim. Toda a gente, de resto, sente isso. Ainda ontem, o Lourenço me dizia que a nossa correspondência é a contraprova das Evidências[19] … Minha muito querida Mécia, meu Amor: se não fosse estupidez perder as oportunidades que, dentro dos limites razoáveis de tempo, me aparecerem de ver o Brasil, eu chegava ao Rio e metia-me no avião, para Lisboa. Preciso de ti a todo o instante, nada sei ver sem ti, sem a tua presença comigo e em mim. Dá muitas lembranças aos nossos filhos e beijos muitos e que penso sempre neles. Dá lembranças a toda a gente a que nem tempo tive de escrever um postal. E para ti, meu Amor e minha Vida, as saudades, os beijos e os abraços do teu do coração


Jorge

Notas:

1. Matemático e professor português, então radicado no Recife. Oposicionista ao regime, foi expulso da universidade em 1947. Irmão dos escritores Alice Gomes e Soeiro Pereira Gomes, nasceu em 1919 e faleceu em 2005.
2. Diplomata e escritor brasileiro. Era Embaixador em Lisboa em 1959, quando deu abrigo político a Humberto Delgado, contrariando Salazar.
3. Urbano Tavares Rodrigues (1923), escritor português também participante do IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, que transcorreu, de 10 a 21 de agosto, na Universidade da Bahia em Salvador.
4. Maria de Lourdes Belchior Pontes (1923-1998) professora de Literatura Portuguesa e ensaísta, também participante do referido Colóquio na Bahia.
5. Matemático e historiador da Universidade de Coimbra, também participante do mesmo Colóquio. (Nasceu em 1917 e faleceu em 1992)
6. Adolfo Casais Monteiro (1908-1972) foi poeta, professor e crítico literário. Oposicionista, exilou-se no Brasil em 1954, passando a ensinar aqui em várias universidades. Além de participante, colaborou na organização do Colóquio baiano.
7. João Paulo Monteiro, filho de Adolfo Casais Monteiro.
8. Eduardo Lourenço era então professor na Universidade da Bahia – responsável direto pelo convite para que JS participasse do IV Colóquio. Durante o ano que passou na Bahia, esteve acompanhado por sua mulher, Annie de Faria.
9. Proprietário da livraria carioca Livros de Portugal, que também patrocinou várias publicações.
10. Todas as conferências do colóquio na Bahia tinham o seu “Relator”. JS foi designado para “relatar” várias.
11. Marcelo Caetano chefiava a delegação “oficial” portuguesa do IV Colóquio, e, no período de sua realização, costumava convidar os participantes para jantar (inclusive JS e outros que não integravam sua comitiva. Nosso escritor, como se vê, declarou sua indisponibilidade.)
12. Thiers Martins Moreira, professor de Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro, convidou JS para palestras no Rio, logo após o congresso baiano.
13. Todos participantes do IV Colóquio
14. Em carta de 8/8/1959 JS advertia sua mulher: “Não te assustes com o endereço: o Hospital Português é onde veio parar uma parte do grupo de viagem, como outro foi parar ao Retiro dos Franciscanos. Aqui, que (com camas articuladas de hospital, é claro) é um hotel com apartamentos, estamos…”
15. O pai de Mécia de Sena era o folclorista Armando Leça.
16. Óscar Lopes, professor e ensaísta, irmão de Mécia.
17. Maria Helena é a esposa de Óscar Lopes.
18. Possivelmente a atriz Eunice Muñoz, de longa data amiga da família Sena.
19. Livro de poemas de JS.