Cartas Inéditas a Eduardo Lourenço

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As cartas a seguir, enviadas por Jorge de Sena a Eduardo Lourenço, e só recentemente encontradas por João Nuno Alçada no acervo do ensaísta, vêm a público pela primeira vez, graças à generosidade do destinatário, que autorizou sua divulgação. Assim, das 8 cartas extraviadas (mencionadas no volume da IN-CM), apenas 5 faltam ser localizadas.

 


 

Lisboa, 3/5/953


Meu caro Eduardo Lourenço


É mais de um mês depois que à sua carta respondo. Entretanto, o José-Augusto França, com quem logo falei, lhe terá escrito a desfazer o que afinal era, felizmente, um seu lapso de interpretação. E desculpe-me que, por tanto trabalho e estadias fora em serviço, lhe não tenha, apesar disso, escrito mais cedo.

Por certo que já recebeu o caderno do Pascoaes, que o França ficara também de mandar. Agora os “sonnets” do Pessoa… esses é que só apelando eu… para mais um inglês célebre… quando voltar a casa da família – mas não me esquecerei, esteja certo.

Eu colaboro, pois, ou tenciono colaborar ou o França tenciona que eu colabore no próximo “córnio” que, diz ele, se atrasou para depois do regresso dele dos turismos italianos, por minha e sua causa.

Simplesmente a minha vida é isto: uma profissão cada vez mais absorvente por dever de ofício (que não pelos proventos, que são os que o Estado dá e nada mais), uma oposição última de todo o meu ser intelectual a essa absorção, e uma necessidade financeira premente de ir realizando aqueles trabalhos literários (traduções, ensaios sobre isto e aquilo) que eu desejaria só escrever ad libitum ou depois de morto. São estes a ilusão de que continuo a realizar-me no que me é mais caro, e ao mesmo tempo a única ilusão que “vende” alguma coisa, comparada com a outra de aumentar o património operático. Uma poesia de quando em vez, que é ao que me vejo reduzido, mas era tudo o que eu sentia e sinto em mim. Por isso, cada vez mais detesto a crítica corrente, que fujo de fazer e nem leio dos outros. Por isso, cada vez mais mergulho em mim mesmo, na atenção ao mundo que me rodeia ainda que distante e através do jornal, e nos livros que me interessam. Dos contemporâneos, é um mero acaso eu conseguir ler com gosto meia dúzia de versos, que se me eternizam em cima da mesa. De tudo isto resulta que me é difícil – e subconscientemente protelo – escrever aqueles ensaios que me peçam… e é o caso do França, ao pedir-me um ensaio sobre os vário escritores à margem de escolas neste 1o. meio século da pátria novecentista. Foi isto o que o França terá intuído e V. farejou em carta dele. A eternização, em cima da mesa, das cartas dos amigos, daqueles cujo convívio é, de raro, o que mais vale ou só vale a pena aqui e agora – isso releva de outro aspecto. Uma carta dessas em cima da mesa é uma presença, uma forma de convívio, uma conversa que todos os dias prossigo: sou um mau correspondente na medida em que os que estimo estão para mim sempre comigo; fui melhor, quando me importava mais comigo que com eles.

Ao princípio que presidiu à criação dos “Córnios” continuo e continuarei a dar a minha adesão, embora pense que um vago “surrealismo” de intenção seja, pelos falsos profetas que já abundam medíocres e aclamados, uma confusão mais a acrescentar à tão confusa e charra vida nacional. Sempre pensei, e disse-o uma vez directamente na “Seara” (e em quantos outros sítios), que falar dos Rimbauds e Lautréamonts é mais do que literatura, ou deve sê-lo. Se assim se não fizer, para apenas opor um “dégout” superior à literatice e ao burguesismo pascácio, é literatura que se faz, e da pior, visto que se principia por declarações “anti-literárias”. A propósito de tudo isto, penso escrever para o outro “córnio” seguinte um ensaio sobre o Jean Genêt, que acho um admirável escritor, muito superior às pretensiosas considerações sartrianas ou bataillescas, que se me vão tornando também o tipo do ensaísmo insuportável, de mera ficção intelectual.

Cadernos” – nem mais realizações nem mais projectos: apenas o compromisso de uma colectánea de poemas do António Pedro. Os “Cadernos” enfermam de várias coisas: o desinteresse total do Portugal, que não dá um passo para eles; de minha impossibilidade em tempo de os fazer eu; de, no espírito do França, os “Cadernos” virem naturalmente depois daquilo que é só dele; e de eu, um pouco triste com tudo isto e com tudo o mais que lhe expus, andar desiludido tanto de “Cadernos” como de toda e qualquer vida intelectual autêntica.

Se leu o meu Sacheverell Sitwell, terá lido também o meu Pascoaes violento mas creio que justo, em que pus o que há muito acerca da questão me ia na alma e cabia num artigo de jornal. Eu penso, de facto, em realizar um volume de ensaios e traduções dos ingleses, que suponho (ó presunção!) interessante e útil. Viu, na Árvore, o terrível Auden que traduzi? E diga-me, se puder, alguma coisa do prefácio que fiz – e é para mim muito importante – para a minha tradução de O fim da aventura do Graham Greene. Ao fim e ao cabo, quando eu tiver setenta anos (se lá chegar, o que espero ardentemente não suceda), o Governo de Sua Majestade Britânica deve-me uma condecoração… O raio que os parta – mas não calcula V. que imagem de terra de promissão me deixou o mês e meio de Inglaterra que auferi! Enfim, de promissão o que ainda se pode arranjar (nunca fui a Paris – mas, com a admiração que nutro por tantos franceses desde o Villon até hoje, porque detesto “l’esprit français" não me daria bem com a mediania que sempre nos envolve e que é onde se alimentam, já dizia o Thibaudet, essas virtudes de Presidente da República).

Para V. ver, a seguir transcrevo um dos meus poemas recentes – ele lhe dirá mais que esta carta que já vai comprida.

Epitáfio

De mim não buscareis, que em vão vivi
de outro mais alto que em mim próprio havia.
Se em meus lugares, porém, me procurardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.

Essas palavras que em meu nome passam
nem minhas nem de altura são verdade.
Verdade foi que de alto as desejei
e que de mim só maldições cobriam.
Debaixo delas a traição se esconde,
porque demais me conheci distante
de alturas que de perto não existem.

Fui livre, como as águas, que não sobem.
Pensei ser livre, como as pedras caem.
O nada contemplei sem êxtase nem pasmo,
que o dia a dia
em que me via
ele mesmo apenas era e nada mais.

Por isso fui amado em lágrimas e prantos
do muito amor que ao nada se dedica.
Nada que fui, de mim não fica nada.
E quanto não mereço é o que me fica.

Se em meus lugares, portanto, me buscardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.


Aqui tem. Dê notícias. Abraça-o com muita estima o seu camarada
                                      
Jorge de Sena

 


Lisboa, 15/6/953


Meu caro Eduardo Lourenço


Por não me ter sido possível ir ao passeio (que sei ter redundado em excelente êxito – e perdoa-me V. que lhe diga da simpatia e consideração por V. que ressumam dos comentários que ontem ouvi?), não chegámos a conversar, quando eu nem sequer chegara a devidamente lhe agradecer a sua bela carta.

O que me diz da tradução – eu limitei-me estrita e esforçadamente a recriar em português o estilo do Greene, mesmo por vezes com sacrifício de uma clareza imediata, cuja subtil falta respeitei sempre que a encontrei por fazer ela parte da própria estrutura do romance.

Do prefácio: há muito, e cada vez mais, eu escrevo com a noção absoluta de pregar no deserto. Sei que uns entendem e não aceitam, e que outros, que aceitariam, não entendem. Mas a única justificação de uma existência que escreve para testemunhar de todas as verdades é persistir mesmo assim, e escrever da compreensão que era possível no nosso tempo. É provável também que me canse – mas isso nada prova senão contra mim, pois que sempre poderá haver, expressa ou não, uma compreensão profunda e amplificadora como a sua. A tristeza, porém, é muita; e não sei se, ainda que (quem sabe?) alegremente, não acabaremos por nos convencer definitivamente de que só nós estamos errados… e certos todos os outros. Eu não ando, de resto, muito longe disto: simplesmente as razões acima ainda se inserem no quadro de uma – como direi? – nada fatalista visão do mundo. Nem de outro modo poderia eu explicar o ter chegado a escrever o poema que lhe mandei e faz parte de toda uma sequência (pela unidade de ocasião no tempo e de inspiração) de igual ou análogo sentido.

Mais uma vez, pois, muito obrigado. Abraça-o com muito estima o camarada amigo
                                      
 Jorge de Sena
 

P.S.- Não deixe de ler os poemas do grego Cavafy que traduzi do inglês e publiquei no “Comércio”, no passado dia 9. Não me lembro se chegámos a falar nisto.

 

 

Lisboa, 6/7/959


 Meu caro Eduardo Lourenço

Não demorei tanto a responder à sua carta de 18, quanto V. possa julgar, porque me chegou às mãos atrasada. E escrevo-lhe hoje, porque só ontem soube, confirmada indirectamente pela Maria de Lourdes Belchior e pelos jornais que publicaram a lista dos convidados, cá a notícia que V. me dava. Mas agora passa-se o seguinte. Eu não recebi nem receberei comunicação alguma, que nem a Comissão Portuguesa ma manda, nem a Alta Cultura para onde a ilustre comissão enviou a lista se digna. Ora sem um papel que ninguém me dá não posso pedir licença ao meu Ministro para sair do País. Veja V. como os “maquiaveis” de bolso funcionam bem. Não será possível, só para achatar estes gajos, V. arranjar-me aí uma cópia autenticada, com o sêlo branco da Universidade, da lista? Por seu lado, a Panair do Brasil telefonou cá para casa a dizer que eu já tinha a passagem marcada e paga (por quem? – mistério).

De modo que, precisando de tratar de milhentas licenças – ministerial, militar, passaporte, visto, etc. – estou a um mês, sem poder fazer nada. E são tantos os trabalhos em mãos que ficam suspensos e que tenho de dispor para largar isto por cerca de 20 dias (pois não hei-de ir ao Rio?) que não posso dispor a minha vida nem des-dispô-la!

A lista, como veio publicada nos jornais (com todo o ar de provir da Comissão), varia muito de jornal para jornal. O Saraiva e o Joel não figuram nela (de resto, parece que o Joel não está numa lista dos que teriam passagem), e na do Diário de Notícias, que é a que o Prado Coelho viu, figura a Natércia Freire! Tudo uma macacada, que será devidamente orientada pelos Marcelos, como se verá.

Dê as minhas melhores lembranças e saudades ao Casais – e espero firmemente poder abraçar-vos em breve.

 Um grande abraço amigo do

  Jorge de Sena