Cartas inéditas de Jorge de Sena e Fernando Lemos

Fernando Lemos, "Desenho", 1954 (Acervo do MAC/USP)

Fernando Lemos, “Desenho”, 1954 (Acervo do MAC/USP)

 

Porto, 20/4/954

 

Meu caro Lemos

Você tem mil razões para estar zangado comigo – ou tem só uma, que é a de eu não lhe ter escrito. Mas pense nisto: eu não ando a “cavar” a vida, com todo o entusiasmo ou amargura que isso pode saudavelmente dar; ando, sim, a “aturar” a vida, a trabalhar como um cão: no serviço, na Ponte sobre o Tejo (sem chavos a mais), nas traduções que me dão o mais que ninguém me dá, nos artigos que, para não me calar de todo, aceito ir fazendo – e calcule que, de há um mês e meio a esta parte, rebentou-me um filão poético que já produziu, por cima de tudo e não sei em que tempo, vinte sonetos – “As evidências” – cuja série, logo que o filão acabar e estiver tudo passado à máquina, lhe enviarei por cópia, já que não sei quando nem como poderei publicar coisas que, pela violência, é impossível publicar. Mas são, suponho do mais importante e do mais belo que tenho escrito. Verá.

Fui no sábado à abertura da sua exposição [1] e ontem a colectividade fotografou-se devidamente diante dos desenhos. E que desenhos, Lemos! – que admirável, que esplêndida, que grandiosa coisa! Se lhos não aceitaram e entenderem, pode V. estar certo de que são de facto tão puros que não deve esperar compreensão. E desde já gratamente lhe agradeço aquele que, por sua ordem, comunicada pelo França,[2] eu escolhi. Convinha pelo menos fotografar ordenadamente as séries, antes de dispersas aqui e no Brasil, depois de efectuadas as disposições. Porque as acho essenciais para se ver como se inventa o desenho em si mesmo.

Mande-me, quando puder, novas “cartas” como a magistral sobre a Bienal [3], que achei excelente, e que foi um grande êxito apreciado por toda a gente, menos pelos incapazes de apreciarem seja o que for. Tenho em meu poder 97 ou 98.00 escudos, que são o que eles pagam no Comércio  [4]. Diga-me que destino lhes devo dar. Não recebi nem vi “Jornais de Letras” [5], e nada sei dos meus artigos. E a quem devo dirigir-me para receber a “massa”, já que não é V. a recebê-la aí? E devo ou não mandar mais colaboração aos Condés? [6]  A página em que o seu artigo saiu já V. a deve ter recebido, pois que o Costa Barreto, o diretor das páginas, me garantiu que lha mandava.

Espero que esse trabalho em S. Paulo seja bom sobre todos os aspectos. E contactos, que tal? Já viu Drummonds, etc? E a sua ideia de uma revista limpa e poética, como vai?

Estou a escrever-lhe do Porto, aonde acabo de chegar vindo de automóvel de Lisboa, em serviço. Andarei cá pelo norte uns dias, e voltarei a Lisboa, onde me espera tudo o que descrevi na 1ª página. Só os sonetos andam comigo – já é alguma coisa. Calcule V. que o Zé Portugal [7] ia hoje jantar a minha casa… e eu vim repentinamente para aqui. Assisti ao jantar doméstico pelo telefone, poucos minutos antes de começar a escrever-lhe.

Não deixe de me escrever, porque eu não lhe escrevo com regularidade – lembre-se que eu mal tempo tenho de ver os amigos comuns e de saber de si; e não se esqueça nunca de como sou seu amigo e o estimo como artista que é. Isto não é mais do que a verdade.

Fiquei contentíssimo com a ida do Casais ao Brasil – que ao menos vá lá mais um de nós.

A Mécia manda-lhe muitas e afectuosas lembranças. Não está cá, mas V. já sabe que lhas manda.

O França parte amanhã para as Europas – pouco a pouco lá acabarei veraneando em Lisboa, e sem um mês de licença, que ainda este ano o muito trabalho me não permitirá ter. Viva a energia atómica… de que – sabe? – se criou oficialmente cá um organismo.[8] Agora é que vai ser… o raio que os parta. Um grande abraço amigo do

                                                                       Jorge de Sena

 

NOTAS:

[1] Mostra individual de desenhos de FL na Galeria de Março, em Lisboa, criada por FL e José-Augusto França em 1952.

[2] José-Augusto França, amigo de JS e FL.

[3] Na 2ª Bienal de São Paulo, em 1953, FL ganhou o “Prêmio Aquisição”

[4] Jornal O Comércio do Porto, no qual JS muito colaborou e conseguiu a publicação de alguns textos de FL.

[5] Jornal de Letras, publicado no Rio de Janeiro de 1949 a 1993. Em 1954, JS teve dois artigos aí editados.

[6] Os irmãos José, João e Elysio Condé dirigiam o Jornal de Letras.

[7] José Blanc de Portugal, amigo de JS e FL.

[8] Um Decreto-Lei, de 29 de Março de 1954, criou a Junta de Energia Nuclear.

 

 

São Paulo 2. 3. 55

 

Caro Seníssimo:

Não estou hoje com muito tempo para alinhavar uma longa carta, mas não quero deixar de lhe mandar alguns abraços. Para a Mécia também e as razões vão já bem explicadas na carta do Casais [1].

Um grande abraço pelos seus sonetos [2]. Até onde eu sei ler essa elegantíssima maneira de poetisar, li, reli e regostei tremendamente. Você diz cada coisa, homem! Mas que evidências! É uma evidência que por vezes até parece explicada demais. Quem não sentirá os seus piolhosos pentes? E quem não sabe trazer as amarguras diárias no gráfico dos testículos? Não sei se assim é que É; mas assim é mesmo que muitas coisas nos pesam. Grandioso parto o seu, homem! V. é o único engenheiro da terra que se salva, já que os do céu estão salvos por natureza.

Qualquer dia voará uma grande carta. Por aqui nem o meu pai morre, nem a gente almoça… “mais ça va”. E é verdade que amo duas de cada vez. Uma amo, mas a outra é só para trair a primeira. Credo!…

Logo que tiver prontos os mamarrachos para a Bienal [3], mando-lhe fotografias deles. Quanto a Portugal neste certame, acho que… não acho!

Desculpe-me a pressa desta epístola, mas a carta está quási a fechar-se nas mãos do Casais para entrar no correio. Até qualquer dia, muitos abraços para amiga Mécia e para si um dos grandes deste seu amigo

certo

sg

 

NOTAS:

[1] Adolfo Casais Monteiro

[2] As Evidências, livro publicado em 1955, foi apreendido pela PIDE sob a acusação de “subversivo e pornográfico”, mas depois liberado.

[3] Em 1955, FL expôs trabalhos seus na 3ª Bienal de São Paulo

 

 [*] Claudia Atanazio Valentim, “O mundo visto do exílio: uma leitura da correspondência de Fernando Lemos e Jorge de Sena”. Convergência Lusíada, 19 (Relações Luso-Brasileiras), Rio de Janeiro, Real Gabinete Português de Leitura, 2002  p. 99-107