Jorge de Sena e o exemplar de Os Lusíadas que teria pertencido a Camões

Do jornal Público, de Lisboa, em 27/11/2013:

 

 

CAMÕES NO TEXAS
Cláudia Silva, em Austin

O centro de investigação Harry Ransom da Universidade do Texas em Austin possui um dos raros exemplares da primeira edição de Os Lusíadas , impressa em 1572, em Lisboa. Camonianos defendem que este exemplar pertenceu ao poeta português, sendo por isso conhecido como o “de Camões”.

 

Ler e examinar um dos raros exemplares sobreviventes da primeira edição deOs Lusíadas – poema épico de Luís de Camões (1524?-1580) –, impressa em 1572, é uma cerimónia quase religiosa, como se tivéssemos ido parar a uma cena do filme O Nome da Rosa .

Esta experiência pode ser realizada no Harry Ransom Center (HRC), Centro de Investigação de Humanidades no campus da Universidade do Texas em Austin (UT Austin), onde está o exemplar que dizem ter pertencido ao próprio Camões e é um dos mais importantes entre os 34 que existem espalhados por três continentes.

Antes mesmo de entrar no edifício do HRC, o visitante já tem, do lado de fora, uma ideia do incrível acervo que o edifício abriga. Nas fachadas de vidro estão impressas várias imagens – retratos de escritores e textos dactilografados – que evocam o arquivo. Lá dentro, na biblioteca, no segundo andar do edifício, quem quiser ver a primeira edição de Os Lusíadas tem de criar uma conta de investigação, na página Web do HRC, e assistir a um vídeo de dez minutos para aprender como se devem manusear livros raros e quais os procedimentos de segurança.
Qualquer pessoa pode ver a obra, mas estes requisitos são obrigatórios para se ter acesso à sala de visualização. É também recomendável contactar a instituição com 24 horas de antecedência, porque o livro está guardado num cofre.

Depois de feita a requisição da obra, uma das bibliotecárias aproxima-se, segurando com as duas mãos uma caixa vermelha de capa dura. Com muito cuidado desata os laços, abre a caixa, põe-na sobre a mesa, retira o livro e pousa-o sobre suportes revestidos de veludo. O visitante pode então folhear o livro, tentar ler as marginálias (comentários escritos à mão nas margens), com a ajuda de duas lupas, identificando as diferenças ortográficas em relação aos dias de hoje. Céu era ceo, muito era muy, e as palavras hoje terminadas em ão acabavam em am. Não era nam.

A experiência de ver o exemplar de Os Lusíadas, considerado o mais importante dos que existem por conter manuscritos de uma testemunha ocular da morte de Luís de Camões, é entendida por alguns como um mapa literário para regressar ao passado. A jornalista brasileira Heloísa Aruth Sturm, quando era estudante de mestrado na Universidade do Texas, em 2010, analisou este exemplar durante um semestre para a disciplina de História do Livro. Todos os alunos tinham de escolher um livro raro, analisá-lo e escrever um artigo académico. Interessada em literatura colonial, Heloísa soube desta cópia de Os Lusíadas através do seu orientador, Ivan Teixeira, investigador brasileiro e na altura professor na UT Austin. A aluna ia pelo menos uma vez por semana ao HRC para analisar Os Lusíadas. Tinha medo de danificar o livro, por isso usava sempre luvas para o folhear. Sentia-se “num convento em pleno século XVI”. A paranóia era tão grande, diz ela, que “às vezes, até tomava cuidado para não ficar respirando em cima do livro”.

 

A edição “de Camões”
No entanto, não são muitos os que vivem esta experiência literária de Heloísa. Richard W. Oram, curador de livros raros do Harry Ransom Center, desde 1991, diz que este exemplar de Os Lusíadas raramente é requisitado. Porém, a sua aquisição pela Universidade do Texas tem sido de extrema utilidade para produção académica mundial sobre a obra de Camões.

K. David Jackson, director dos estudos de Português, na Universidade de Yale, foi professor na Universidade do Texas em Austin, entre 1974 e 1993. Conta ao PÚBLICO, por email, que a universidade já tinha adquirido o livro quando ele foi contratado por esta instituição texana. E quando deu um seminário no Harry Ransom Center usou o livro como recurso. Na altura, mostrou-o à filóloga italiana e especialista em literatura medieval portuguesa Luciana Stegagno Picchio (1920-2008) e “ela ficou fascinada” com os comentários escritos à mão nas margens do livro, a marginália. Em 2003, o investigador publicou um CD-ROM, Luís de Camões e a Primeira Edição d’Os Lusíadas, 1572, com 29 exemplares da primeira edição, de várias bibliotecas internacionais.

O trabalho foi apresentado na Fundação Luso-Americana, em Lisboa. Na introdução textual desse CD, K. David Jackson explica que este exemplar foi essencial e de extrema influência para a academia, por causa das suas qualidades raras, como o “comentário marginal assinado por frei Joseph Índio, padre do Sul da Índia, convertido ao cristianismo, que Camões deveria ter conhecido, que era pelo menos 30 anos mais velho do que ele, tendo chegado a Lisboa em 1501 com a frota de Cabral.” O que atesta a relação entre esse frei e Camões são os manuscritos nas margens nas primeiras páginas do volume. Todas estes dados levaram os investigadores a referir-se a este exemplar como “de Camões”. Dizem que o poeta o teria consigo, quando frei Joseph o terá assistido no leito de morte.

 

“De Camões” para os Estados Unidos
Parte da marginália é em espanhol, incluindo traduções de palavras portuguesas. Este facto permitiu aos investigadores concluírem também que este exemplar pertenceu ao “Convento de Carmelitas Descalços de Guadalcázar”, em Espanha, da ordem a que pertencia frei Joseph Índio desde que chegou a Portugal. Tudo indica que o padre levou consigo o exemplar de Portugal para Espanha ainda no século XVI, logo após a morte de Camões, como explica K. David Jackson no CD-ROM. Diz ainda o investigador americano, no seu artigo de introdução ao CD-ROM, que no século XIX o livro chegou às mãos do diplomata britânico John Hookam Frere (1769-1846), em Sevilha, e, em 1812, foi doado para a Holland House, onde permaneceu durante mais de um século, com excepção de um empréstimo de curta duração a Sousa Botelho, morgado de Mateus, que o usou para preparar a sua própria edição de Os Lusíadas, publicada em Paris em 1817.

Foi na década de 1960 que o livro foi levado para os Estados Unidos, tendo-se então iniciado negociações para a sua compra pela Universidade do Texas. K. David Jackson conta-nos que em 1966 o poeta e dramaturgo português Jorge de Sena (1919-1978), na época professor de Literatura de Língua Portuguesa na Universidade de Wisconsin, apanhou o autocarro em Madison, Wisconsin, onde morava, e viajou durante cerca de 20 horas para chegar a Austin, capital do Texas, para avaliar o exemplar e dar consultoria aos curadores do HRC. No entanto, de acordo com os arquivos do HRC, a compra só se efectuou no dia 4 de Março de 1970. As negociações foram realizadas pelo comerciante de livros Lew David Feldman, da House of El Dieff, em Nova Iorque, com quem Harry Ransom, então presidente da UT Austin e director do HRC, negociava constantemente.

De acordo com o curador de livros raros do HRC, Richard W. Oram, não há muita informação sobre a compra deste exemplar. Parece também não haver muita documentação sobre o mesmo. O curador não sabe as razões pelas quais o livro foi adquirido pela Universidade do Texas. E lembra que não há ninguém actualmente no HRC que tenha estado relacionado com essa compra. Por isso especula que uma das razões para a aquisição deste exemplar possa ter sido o facto de a universidade ter muito dinheiro nessa altura. Além disso, lidavam com o tal comerciante de livros Lew David Feldman, conhecido de Harry Ransom. Os arquivos do HRC que correspondem à compra deste livro estão guardados em quatro caixas. Aí descobrimos que a obra de Camões custou à universidade um pouco mais de cem mil dólares, incluindo seguro e transporte, valor que corresponderia hoje a cerca de 600 mil dólares.

 

O dilema das duas edições
O exemplar adquirido pela Universidade do Texas tem sido de extrema relevância para os investigadores por ter ajudado a desmistificar as supostas duas edições de 1572. A pesquisa sobre os problemas associados à primeira edição tem-se estendido por mais de três séculos, escreve o investigador de língua e cultura portuguesa na Universidade de Yale K. David Jackson na introdução textual do CD-ROM.

Tudo começou em 1685, quando um grande comentarista de Os Lusíadasobservou pela primeira vez que a imagem do pelicano no frontispício (ou folha de rosto) estava virada em alguns exemplares para o lado esquerdo do leitor, e em outros para o lado direito. Observações posteriores identificaram outras diferenças que pareciam estar associadas à posição do pelicano, como a leitura do sétimo verso da primeira estrofe, que começa “E entre” no caso do pelicano “à esquerda,” e “Entre” no caso do pelicano “à direita”. As duas edições ficaram conhecidas como “Ee” e “E”. O exemplar guardado no Harry Ransom Center classificar-se-ia como “E”. Mas K. David Jackson refere-se a estas duas edições como um mito que se fixou no imaginário português.

Desde então, vários investigadores têm-se dedicado a responder à questão: se há duas edições diferentes, duas impressões do mesmo impressor, ou ainda uma edição autêntica e outra falsa. Foi este exemplar adquirido pelo Harry Ransom Center, com capa de pergaminho e em excelente estado, que em 1976 deu início ao estudo comparado de 34 exemplares da primeira edição, levada a cabo por K. David Jackson, e que desafiaria posteriormente a hipótese de que a primeira versão impressa teria sido recomposta numa nova edição.

Conforme o artigo do investigador de Yale, “existem em cerca de um terço dos exemplares sobreviventes – em 12 dos 34 – variantes que representam a combinação, num único volume, de elementos normalmente associados a “E” ou “Ee”. K. David Jackson concluiu, no seu artigo “Luís de Camões e a Primeira Edição d’Os Lusíadas, 1572”, que os dois pelicanos, assim como “E” ou “Ee”, “não correspondem a edições na íntegra, mas sim a estados de impressão de Os Lusíadas em 1572”.

Dos 34 exemplares comparados, 12 estão em Portugal (um deles é um fac-símile), sete nos Estados Unidos, cinco no Brasil, dois em Espanha, quatro na Inglaterra, dois em França, um em Itália, e um na Alemanha. De acordo com o investigador, devem ainda existir outros exemplares em Portugal “em mãos de particulares”.
Conforme os escritos académicos de K. David Jackson, Os Lusíadas é o décimo sexto título publicado pela tipografia e o sexto em língua portuguesa. Foi impresso por António Gonçalves, que tinha oficina própria, em Lisboa, na Costa do Castelo.

Apesar de não ser muito usado, este volume pode ser de extrema valia para várias áreas de investigação. Afinal, como diz o historiador inglês Peter Burke, professor emérito em Cambridge, as marginálias funcionam como uma “evidência da recepção daquilo que o autor emite ao leitor.” Marginálias dos séculos XV e XVI são entendidas, por alguns investigadores, como a primeira forma de hipertexto, de narrativa não linear. Peter Burke defende que as marginálias expressam o que o leitor considera importante, aprova ou desaprova numa leitura.

 

 

75. The Author and Engineer Jorge de Sena: Relationship with the Tua Line

[LER E RELER JS – 75: Otília Lage]

 

In this original essay, the author discovers the relations between the engineer Jorge de Sena – Civil Engineer of JAE – JAE Roads, 1948-1959 – and the endangered line of the Tua river. It begins by tracin2nd cy directly and indirectly in the Tua Valley and Line and in particular in the construction of the elegant bridge of Abreiro. As is well known, this historic railway line is about to sink under the Foz Tua dam, now under construction, which is situated between the villages of Alijó and Carrazeda Ansiães.

 

Neste original ensaio, a autora descobre as relações do engenheiro Jorge de Sena — Engenheiro civil da JAE – Junta Autónoma das Estradas, de 1948 a 1959 — com a ameaçada linha do rio Tua. Começa por traçar sua trajetória no campo da engenharia, destacando a seguir os trabalhos que desenvolveu direta e indiretamente na Linha e Vale do Tua, designadamente na construção da elegante ponte de Abreiro. Como se sabe, esta histórica linha ferroviária está prestes a submergir, sob a Barragem de Foz Tua, já em construção, que se situa entre as vilas transmontanas de Alijó e Carrazeda de Ansiães.

 

Abreiro bridge, Tua river (1953-57)
Abreiro bridge, Tua river (1953-57)

 

“The character Cordeiro from the novel “Signs of Fire” is Alfredo Guisado, poet from the Orfeu movement and, along with his brother, owner of the Irmãos Unidos restaurant in Lisbon where Almada Negreiros painting of Fernando Pessoa is displayed. They had a farm at Tua. It’s a real character. Later in time, with my husband, I actually saw the bird collection he donated to the Zoo.

… before the description of that memory on my Flash, I had already visited Tua – impressive landscape … and I made the journey to Bragança, accompanying students from the Mocidade Holiday Camp where I worked many years in my youth, as this paid my education’s costs.

… my husband worked at JAE from 1946 to 1959 Some years later, already married, passing there together [Tua Line] he told me: I worked at this bridge [Abreiro] we never managed to go together to Carrazeda, our “shangri-lá”.”  [1]

 

INTRODUCTION

These memories of Mécia de Sena, widow and curator of Jorge de Sena’s works (1919-1978), according to herself, his first and most faithful reader, “only serve to show the ambience that our lives were linked to in some way”, and were the starting point for the preparation of this text.

This study develops itself within the theoretical and methodological framework of social studies and techniques, which guides the intensive and extensive analysis of its object: the connection to the Valley and the Tua Line of Jorge de Sena, renowned writer, author of the novel Signs of Fire, an unparalleled work of our twentieth-century literature, a brilliant poet and a prominent literary figure of contemporary Portuguese culture. He was also a civil engineer and had been since 1959 until his untimely death, renowned professor of Luso-Brazilian Studies at Universities in Brazil (Assis and Araraquara, state of São Paulo), from 1959 to 1965 and in the USA (Wisconsin and Santa Barbara – California) from 1965 to 1978.

The study is based on research and interpretation of sources and archival documents of the former JAE (Autonomous Roads Board), an exhaustive photobiography of the writer published by the lnstitute of the Roads of Portugal, and technical engineering works as well as other documents and indirect sources.

We try to outline the path of his very own rigorous and original scientific-technical creation, tracing an overview of his main studies, works and engineering projects, based on research of some of his relevant technical papers, where one can see his intention of writing with the same inspiration, “testimonial” objectivity, reflective intellectual clarity, elegance and aesthetic sensibility that mark his literary and cultural production. We will line out the technical-scientific and literary thought of writer and engineer Jorge de Sena. We will also highlight the relationship of Jorge de Sena’s technical career with his work developed directly and indirectly in the Tua Valley Line framed by the previously shown context.

By reference to that multifaceted and multidimensional dual trajectory in both the humanities and sciences fields, we seek to also scrutinize through this perspective the intellectual Jorge de Sena, the vastness of his exceptional knowledge and interests, high culture and erudition strongly rooted in the universality of the Renaissance spirit which he himself had studied like few did, as evidenced explicitly in a letter he wrote to his wife from Rio de Janeiro on 11/9/1959″(…) Books: Put aside ali those people of the Renaissance and historical studies of that time that are important to work on Camões. (…)

According to a friend and colleague “There are at least 5 distinct personalities in Jorge de Sena. Jorge Cândido de Sena, the citizen, as he is registered. Jorge, as he was called by his family and close friends. Sena, as designated by his academic peers. Engineer Sena, the official title of his profession. Jorge de Sena, an outstanding figure of Portuguese Letters.” [2]

 

1. JORGE DE SENA

“Engineering and poetry face one another within me” (Jorge de Sena) [3]

 

Having lived, worked and started writing and publishing in Portugal during the period of steely political and ideological censorship of the Salazar dictatorship of which he was an unwavering opponent, Jorge de Sena started – still a student – his brilliant writing career as a poet, but also in prose. Author of a new and original approach to literary creation in interrelation with a wide culture, techniques and other arts, namely music, he produced a wide literary, critical and essayistic work and markedly testimonial. His work was “marked by the breadth and variety of interests and achievementsI could go from the almost mathematical analysis to the freest manifestations of taste, always supported on two skills: the ability to quickly accumulate an unlikely amount of information and the security of criticaI discernment.” [4] At the sarne time, at the universities of Lisbon and Porto, during World War II, he took and completed in 1944 his engineering studies, after which, on 22 December 1948, he was hired by JAE as a 3rd class civil engineer, and worked in this organization’s Directorate for Conservation and in the Technical Division of Bridges’ Service. As an engineer he had a prominent career, along with a creative literary production and intense cultural activity, which from 1959 on and already out of the country, would be followed by not only his international public affirmation as an acclaimed author, but by an outstanding academic career as a literature professor. With an unusually solid humanistic culture and technical knowledge, he always distinguished himself by his method of rigorous and systematic investigation searching archives, museums and libraries in various parts of the world, thus was his inexhaustible openness to all knowledge.

This renowned intellectual critic was thus seen by colleagues in Brazil: “this engineer who knew anatomic pathology and was an authority on paving roads; this writer who was a poet and fiction writer of high level; this penetrating and accurate reader; this connoisseur of art and philosophy could quickly become a master of literature…”

This is how Jorge de Sena presented himself, in an interview to Diário de Lisboa, when in 1968, he returned for the first time, from his exile, to Portugal:

“I was an engineer and worked as such; I was also a writer. literary director of editorials. I was several things to be able to support my family and myself. This created a problem that, along with others that existed in those years, very confused and agitated years, as you know, made life unbearable. (…)”

In summary, in the first phase of his life, even in Portugal, Sena was already a great writer but with full-time employment as an engineer, exercising the latter with permanently stressed and sometimes even conflictual relations. In a second phase, exiled abroad, but by then already as a recognized academic, he was able to intensify and diversify the production of his cultural work and literary work. constructing and processing it so methodically and rigorously as if it were an engineering work.

This double training and experience converge in the wealth of a uniqueness that questions “from the inside” the classic separation between “the two cultures”: the humanistic and the scientific-technical, giving us Jorge de Sena as an exceptional case of dialogue between numbers and words, a complex scientific and cultural integration, as he himself pointed out:

“… the tremendous evil of our time (…) is the split between a literary culture that is intended largely humanistic and is nothing but an organized form of ignorance of the world we live in, and a scientific culture that does not even know of the existence of aesthetic values that give meaning to human life. (…) ”

 

2. PATH OF THE WRITER AND ENGlNEER JORGE DE SENA lN PORTUGAL (1938 – 1959)

Jorge de Sena’s simultaneous professional paths were intense and successful in a period of almost two decades of his life.

 

1st cycle (years 1938-1949)

In his youth, we see him being removed of the chances of a career in the Navy from which he was unjustly excluded from entering the Naval Academy as was his calling, as well as the longed for course in a College of Letters.

He then started his engineering studies, a compromise between mathematics and the professions of family tradition, at the Faculty of Sciences of Lisbon, completing the course in Civil Engineering in November 1944 at the Faculty of Engineering of Porto, where he was enrolled from October 1940.

Even then, these characteristics stood out: “(…) he read a lot: poetry, prose, everything that came to hand in Portuguese, French and English, as well as whatever novelties appeared in the booksellers’ shelves, without neglecting the past authors, that he sometimes reread. And he read taking notes, many notes, in an appropriate notebook he always carried with him, as well as a book to read. In practical workshop c/asses, he even put the book on the counter and read while rasping piece of wood or metal held on the vise. (…) He had a general culture unusual for his age and an exceptional and updated literary culture, in the Portuguese, French or English languages. His ability to grasp and correlate things, facts, ideas and feelings, in space and time, and the consequent lucubration and analytical and critical preparation was amazing. He c/early demonstrated a genuine vocation for literary creation, with all the attributes that it can hold in itself (…) despite having to be engaged in the engineering sciences, which have continued to contribute however, as it turned out later, for its full value as a scholar and as a writer, giving him a broader overview and a sum of knowledge he could and knew how to use and that, otherwise, would be more difficult to acquire.”

In 1942, he trained at the Militia Officers Course in Penafiel and Tancos and in 1945, served one year of compulsory military service as a non-commissioned engineer officer cadet in Engineering Regiment 2, in Lisbon.

That year he wrote to his friend Alberto Serpa, complaining that the mandatory military service prevented him from the engineering apprenticeship’s internships he needed to complete in order to have the engineering charter, and only later, on October 1948, did he obtain the Degree Certificate in Civil Engineering in Porto University, although the Society of Chartered Engineers had granted him the “license for professional practice” No. 2496.

His first engineering technical works in the Urbanization Services of the Ministry of Public Works, in diverse construction works, date from 1945 to 1948: Casa do Povo of Montalvão, chapels and churches, fishermen neighborhoods and urbanization of homes for the poor. In 1946, he concluded his engineering internship at the Vale do Gaio Dam, and in 1947 he worked for the Lisbon City Hall and the General Directorate for Urbanization (National Monuments) of the Public Works Ministery.

In 1948, he carried out the first study of traffic statistics to the Directorate General of Urban Services of the Municipality of Lisbon, then a pioneering one.

He was then hired by the Autonomous Road Board, where among other assignments he integrated the “Office for the Bridge over the Tagus,” today the “25th of April”, being its commission’s Secretary.

As pointed out by his friend and colleague, eng. John Lamas, quoted above, he never felt for engineering the passion he did for the navy, poetry or Mêcia Lopes de Freitas (Leca) for whom he harbored the greatest admiration and whom he married in 1949 in Porto.

Simultaneously, during this first phase in 1938-1949, a time when he asserted himself in the literary career, his activities, achievements, tasks and published works as a writer were multiple and diversified.

In 1938, he began writing his work on numbered notebooks titled “Loose Verse and Prose”, signing with the pseudonym Teles de Abreu:  Genesis, Paradise Lost; Flares and The Complete Character. In 1939, he published “Movimento”, a biweekly journal of Geração Universitária. Nos. 1 and 2, the poem “The Fog” and the essay “On behalf of the poetry called Modern”. Also as Teles de Abreu in 1940 he began to collaborate on “Books of Poetry.” No.2. In  December 1941, he read his lecture at Lisbon’s Catholic University Youth “Rimbaud or Dogma of the Poetic Trinity” later published in “Adventure”. dir. Ruy Cinatti. No 2, 1942. Also from 1942 is his poetry book “Persecution”, ed. Cadernos de Poesia, a debut book dedicated to his grandmother Isabel, who had a strong  influence on him, and poems of “Metamorphoses” and “Crown of the Earth” as well as several other short stories and poems about Porto, where he participated actively in literary meetings, at Bookshop Tavares Martins, cafes and other places.

In 1945, he published poems in cultural magazines and on the first cultural anthology “Poetas Novos de Portugal”, published in Rio de Janeiro by the great Brazilian writer Cecilia Meireles, as well as an article on “Over realistic Poetry”; in 1945 he finished the play “The Unwanted” on António, Prior of Crato and Portugal, written in classic structure, in verse and 4 acts. In 1946, he gave two lectures at two of Porto’s most iconic dubs: the first, at the Clube Fenianos Portuenses on “Florbela Espanca or the expression of the feminine in Portuguese poetry” (then 2 years later, another on “The Poetry of Camões”) and the second, in the Ateneu Comercial do

Porto on “Fernando Pessoa, undisciplinator of souls,” at a time when Pessoa, the second best Portuguese poet, was still very little known, That same year, in which Jorge de Sena began to organize his writings in “Diary and Recollections of Literary Life (Unpublished)” was also published in Porto (Livraria Lello) his book of poems “Crown of the Earth” dedicated to the poet and diplomat Ribeiro Couto and the city of Porto where he wrote this book and met Mêcia Lopes de Freitas, whom he met, still a student, in Porto, and to which he later married and built a family of 9 children, sharing with her a lifetime of intense and fully realized love. In 1948, he participated in 13 transmissions of the program “Romance Policial” [Crime Novel] by António Pedro in Rádio Club Português, doing translations and adaptations to radio drama,

 

2nd cycle (years 1949-1959)

In the second cycle of his life, in which he was already married, he lived and worked in Lisbon, he had the poem “Ode to the Future” ready for publishing and began publishing in the magazine “Portucale” (Porto, 2nd series, #21 / 22 Mai-Ag. 1949) the “Unwanted” (António Rei). In 1950, he published a book of poems “The Philosopher’s Stone” (Lisboa: Confluência) and in 1951, the play “Motherly Protection” (Lisbon: Revista Unicórnio) as well as the famous editorial “There is but one poetry” in Magazine “Cadernos de Poesia” (No. 6, series 2, May 1951), in which he was an important contributor in the 2nd and 3rd series. In the same year, he participated in the Tivoli Cinema’s Program “Classic Tuesdays” (unforgettable movies), and saw some of his written interventions cut by the censors [5] at the IX International Congress of Roads, held in Funchal, Madeira Island. In 1952, he participated in the Celebration Programme of the XXV anniversary of the JAE (1927-1952) presenting the lecture “Some considerations on traffic statistics” discussed below, and from that year’s October to November, did an internship in engineering in England, delivering at time, in London, a series of six radio chronicles, “Letters from London”, at the Portuguese Language Program of the BBC. He then planned to go with his family to work in Africa where the company Blackwood Hodge from London, interested in signing him as an engineer, had several interests. This failed to happen, though.

In 1954, in less than 3 months (February 12 to April28) he wrote “Evidence”, a long poem in XXI sonnets, the book published the following year (Centro Bibliográfico) and soon seized by PIDE, the political police of the Salazar dictatorship. At the same time, he participated with other prominent figures of Portuguese culture, in the first meetings of the Sociedade Portuguesa de Escritores (Portuguese Writers Society – officially founded in 1956) and translated stories and poems by American authors for “Perspectives of the United States: The arts and letters “(Lisbon: Portugalia, 1955), a universal anthology organized by poet Adolfo Casais Monteiro, his friend, and as him later exiled in Brazil and the U.S.

With Mêcia Sena, he carried out numerous translation works of difficult and important authors, task he continued to develop when living in Brazil.

In 1956, the Director of JAE, the engineer Carlos Couvreur, attested to the definitive appointment of Jorge de Sena to the permanent senior technical staff, stating that he “has consistently superior technical competence proven by his many projects and inspections, an unsurpassed interest and zeal for the services.” In 1957, the same director issued a statement on his behalf for him to attend a specialized course an reinforced and pre-stressed concrete, near London, under the auspices of the British Council, by the Cement and Concrete Association, between 15 and 24 September of that same year. Indeed, Jorge de Sena was already quite skilled on this subject and had some professional experience since in the JAE he was the author of technical opinions on the first Portuguese projects with reinforced and pre-stressed concrete presented there and was linked, in 1953, to the appraisal of the then considered innovative project of the Abreiro Bridge over the Tua River, inaugurated around that time (topic developed further, item 4 and 5).

At that time, in London, he met the great Brazilian poet Manuel Bandeira, with whom he became good friends, and English writer Edith Sitwell with whom he corresponded.

In 1958, he published the book of poems “Fidelity” (Lisbon: Moraes Ed.) and “Portuguese Lyric Poetry” (3rd series. Lisbon: Portugália), the most important anthology of 20th century Portuguese poetry, whose poem selection, preface and notes are his responsibility.

In 1959, being also editorial director and consultant for several publishers such as the “Livros do Brasil”, he actively participated as such in the national success that was the reception and tour of Portugal of the known Brazilian writer and novelist Érico Verissimo. He also published “About Portuguese poetry” (Lisbon: Attica), his first collection of essays. In August of that same year he left for Brazil, leaving his career as an engineer for a career as a university professor in the field of Literary Studies and Culture, pursuing and bringing to new heights his already remarkable journey as a writer, poet, novelist, essayist, critic, playwright ad translator.

 

3. THE EXPRESSION OF SENIAN SCIENTIFIC-TECHNICAL THOUGHT

 In a brief approach to this dimension of Jorge de Sena expressed in the almost mathematical and scientific rigor of his studies and essays, especially those of recognized importance an Camões, hut also in many of his numerous poems, we begin approaching his technical work, considered one of the first of its kind in Portugal, on road traffic statistics, wriuen in the early 1950s (see items 4 and 5).

In his best known conference, even if little studied, about statistics on road traffic which he delivered at the IX International Roads Congress, held in 1952, he specifically mobilized numerous cases and facets of the problem that, in a wider cultural perspective, he showed he mastered exhaustively and critically. In fact, Jorge de Sena had always been interested in this subject: he was the organizer of the 2nd General Census of the country (1949-1950), having been, later on, invited by Lisbon’s City Hall as organizer and consultant for the 1st General Course on Traffic at the capital.

The lecture began with preliminary considerations, such as the bareness of the subject, which he considered to be “… a bit like bureaucracy, administration, things considered the antithesis of technique but important for the complete mastery of the technical spirit.”

He advocated, with reservations (given the very limitations of counts and censuses), the application of modem traffic statistics, which he reflexively defined as “the reduction of the miscellaneous traffic which daily ruins a bit the better of pavements, the battalions of numbers in close ranks, and some charts or graphics more visually compelling than actually significant.”

After, he critically reflected: “The economic reality of traffic as statistics revealed it interposes itself between the goals of JAE the Road Plan and the funds that JAE has to meet the needs of the road network in its charge.” And concerning the issue of enlargement and improvement of road layouts he cited the example of the UN and its agencies for economic coordination, which can be understood as an implicit criticism to the Portuguese isolation concerning policies of greater openness pursued by that international organization.

He also referred to the urgent need for economic policy coordination and roads policy considering that “material progress engenders itself …” He continued with a comparison of the technical-economic situation of the national road system, in an enlargement period with the state of the rail network system, by then already entering a retraction phase: “If the road creates progress expectations it allows to channel them in a circulation system in which avoidable losses can be minimized. This system is capable of complexity and adaptation to the intended purpose to which the rail system cannot aspire, having already economically achieved the equilibrium stage from which the instruments of economics start to be deficient if its exploitation is not integrated into the overall profitability.”

He ended regarding the effects of technical modernization in the change on the lives of people, a markedly social, cultural and political concern: “On the other hand (and that has been widely noticed) the road and the cars driving by it will thin and fade, the electrification, the local traditions, that bastion of usages and habits, gestures and speeches that isolation preserved the sum of which constituted, inside the country’s borders, a national feature.

You could almost say that JAE or other administrations that preceded it are responsible for having put in the path of annihilation, the Mirandese dialect, the custams of Lapa and Montemuro, the barbarian habits of Montalegre, the Celtic houses of Martinlongo region. But even though they’re interesting, moving or reputable, all of these are surviving archaisms. In exchange, the work of JAE contributed and contributes still as few have to give the scattered populations a new, common denominator, truly solid for it’s founded on mutual knowledge, the interpenetration of interests, ultimately in the experienced and aware creation of a deep and civilized national unity.”

Notable here is his deep technical consciousness and the recognition of the “priority of the technique”, a quality that Jorge de Sena values in men of letters and considers “rare”, as he expressly mentioned in the letter that, in that sarne year of 1952, he wrote to his friend and comrade, Portuguese philosopher and pedagogue Delfim Santos, with whom he maintained prolonged and intense intellectual interaction.

As initially mentioned, we can also find, in Senian poetic, literary and essayistic work, multiple indications of the fruitful dialogue between his solid training and technical-scientific consciousness and his and vast cultural and literary erudition, particularly in some of his Camões themed essays, plus poems and texts of literary critic such as the famous preface to the book “Complete Poems (1956) 1967)”: The Poetry of António Gedeão (objective analysis outline) an important study of Gedeão’s poetry (pseudonym of A. Rómulo de Carvalho, historian and popularize of science) who had been his high school physics and chemistry teacher in Lisbon.

The importance of Jorge de Sena as one of the best and greatest Portuguese writers of the twentieth century that succeeded in introducing scientific rationality in literature (Vitor Aguiar e Silva) is therefore undisputed. This is a topic that, in itself, deserves a profound analysis under the scope of this thought’s study, here but introduced.

 

4. JOURNEY OF THE CIVIL ENGINEER AT JAE

 As already pointed out, Jorge de Sena exercised the profession of civil engineer for 11 years, mostly in the Autonomous Roads Board, where among many other technical functions, planning and participating in conferences, specialized training activities and external consultancy, he was also nominated for various positions.

We will take a more detailed view of his professional career as an engineer of Roads of Portugal (ex – JAE), followed by some personal considerations and criticisms about this profession, set out in letters that he wrote to his wife from Brazil.

Jorge Cândido de Sena, at the age of 29, showed up at the Directorate of Conservation Services Board Autonomous Roads (JAE), for service as an interim 3rd class civil engineer on 15 December 1948, having been conferred power on the same date, and the corresponding Certificate of Public Functions issued, on December 20th, Serving in the Technical Department of the Conservation Services, as of 22 December of the sarne year, he was hired on February 20, 1951, to the technical personnel, being definitively appointed 6 years later.

In February 1953, he was transferred from that Bureau to the Bureau of Technical Services and Bridges, and on 15 September of the same year, he was appointed to serve as secretary for the “Commission for the study of bus and train links between Lisbon and the South bank of the Tagus”, a position he filled since 7/20/1953, and from which he asked his resignation, issued in September 1955.

In April 1954, he was invited to be Chief of Staff of the Minister of Public Works, Eng. Eduardo Arantes e Oliveira, having refused,

The following year, in request to the engineer Director of Bridges Services (March 1955), Jorge de Sena asked permission to “freely exercise his profession outside working hours”, which was granted “provided that the work to be performed does not conflict directly or indirectly with the services of this Board.”

The technical work, opinions, projects and other specialized services that Jorge de Sena had under his responsibility at the JAE, by then an important and expanding national public institution, were numerous and diverse.

In his service record of 1953, these activities appeared developed individually and / or in collaboration: “studies and projects” (Cobres and Mary Delgada road bridges and the study for the temporary use as bridge of the metallic mounting stretch of Bridge Vila Franca ); “Works” (tracking work on the bridges of Fão, Luis I in Porto, Chamusca, Arrotas, Vageira, Vila do Conde), “Projects Review” (development and collaboration in the preparation of various technical opinions of the review committee, among them, those referring in particular to Abreiro Bridge, Gafanha Bridge projects, the project expressly commissioned in pre-stressed concrete, revision and correction of the projects of the pontoons of pre-stressed concrete for Via Norte, the first project on pre-stressed concrete submitted to Division of Bridges Services); “Other Services of the Directorate” (visits to various works for observation and study, particularly to Viana do Castelo and Figueira da Foz bridges).

In 1954, continuing to perform various functions cumulatively, his professional activities are numerous, as per the “note of the work and services performed or directed by him”: Projects (concerning the National Road 208 overpasses at Via Norte and Alvito, Ribeira da Lixa bridge in EN b108, bridge over the Leça River in pre-stressed concrete at Via Norte and review of projects Sardoal Pontoon, Água do Alto Bridge in San Miguel island, Azares, and Almadafe Bridge);  Supervision of works and works by direct administration (the contract for construction of the bridges over the streams of Cobres and Maria Delgada, and supervision of works and studies of the Caminha Bridge, assistance to the D.Luís I Bridge, Porto, works for the Fão bridge accesses. supervision of the geophysical drillings of the Tagus valley, the first study of its kind conducted in Portugal and supervision of deep drilling for the Tagus Commission studies); Studies and Information (assistance to the Director on the project for the Directorate of Faro Roads building, the projects of Gafanha Bridge and the alternative for EN109 road, the adequate destination for the metal bridge in Régua, various arrangements on the bridge D.Luís I in Porto, Vila do Conde bridge, Studies and dealings relating to reports on traffic and its characteristics of the  Swedish Academy, supervision of an intern on the Sabugueiro bridge project, pavement replacement on the D. Luís I Bridge in Santarém, a text on conservation and inspection of works of art. for the ‘Road Conservation Personnel Manual’).

In 1955, in addition to the normal work at the Department of Bridges and other services in accumulation, Jorge de Sena was nominated for Secretary of the Organizing Committee and member of the Executive Committee of the General Secretariat of the lnternational Congress of Bridges and Structures, to be held in 1956. He was invited by the Department for Urbanization Studies of Lisbon City Hall as organizer and consultant for the 1st Course in General Traffic at that city, because he had been the organizer of the 2nd General Census of the country, and always had been interested in these subjects. He engaged himself in the elaboration and review of projects, monitoring activities in several works in the North and studies and technical opinions pertaining to them.

In 1956, the activities and extra responsibilities continued – Directorate of previous years, as indeed when in 1957 he was designated to attend, at Wexham Springs, near London, an 8-day course on reinforced and pre-stressed concrete, area of his expertise and experience. He continued as a consultant to the Department for Urbanization Studies of Lisbon City Hall’s Course for General Traffic, whose organization, refinement and report elaboration he directed and wrote until the end.

In August 1959, on a trip to Brazil to participate in the IV lnternational Colloquium on Luso-Brazilian Studies at the University of Bahia, he decided to accept the invitation extended to him to stay in Brazil as Professor of Literary Theory at the Faculty of Philosophy, Science and Arts of Assis (São Paulo), having joined him, in October of that year, his by then already extended family.

At that time, Jorge de Sena stopped out of his own free will, and forever, his course of obvious success as an engineer:

“(…) I’m agreeing to Assis to begin with, and to finally enjoy a full life with you and my job without engineering, which may eventually happen for, in this field, I also got some assessing or actual possibilities. (…)”

However, in a subsequent letter, also sent from Rio de Janeiro to his wife, we see that the issues and work related to JAE continued to occupy his attention:

“With my key to the Board, it is best to open the drawers and bring home everything that belongs to me and is still there as well as duplicates of Lixa, Rio Leça, Rabaçal (the new preliminary draft – and ask what happened to it) that are on my office’s bookcase. It is curious how of all that is papers, books, property, I feel detached from.”

However, in another letter from the next day he communicated the final decision to disconnect from his professional activities as an engineer, requiring unlimited license, which is granted:

“… I made two requests: one asking that until September 15th, because the invitations continued, it would be considered as service commission, another asking unlimited license. We came here to win our freedom, my love – there is no reason not to present the situation as it is …”

Days later, he would vent out so:

“I’m sick of Engineering”

 

5. JORGE DE SENA’S CONNECTION TO THE TUA LINE

His name is doubly connected to the Tua Line, in an indirect and mediatized way as a writer through the creation of a remarkable character in his only and unfinished novel Signs of Fire. The character was built with factual elements as anowner of a Port wine estate, in Tua, either directly, as we have seen already, as a civil engineer specializing in bridges and pre-stressed concrete, through technical opinions on the construction project of the modem Abreiro Bridge (1953-1957).

The current Abreiro Bridge is a focal point of passage over the Tua River connecting the municipality of Bragança (Abreiro) to the municipality of Vila Flor (Vieiro) by the EN 314.

 

[Figure 3 – Abreiro bridge: elegant lines of the arch]

 

The ancient Abreiro Bridge or the legendary “Devil’s Bridge” which collapsed in the historic violent floods of 1909 existed for centuries. What’s left of that bridge are two granite bridge piers visible to anyone traveling in Tua railway line, which indudes a station to serve Abreiro on the opposite bank. To replace it, another bridge was built, more modem, made of reinforced and pre-stressed concrete with 91 meter span and a single arch, which gives it beauty and singularity considering the time it was designed and built. Beneath the arch, on the left, passes the Tua line, currently dosed.

 

Nigel Hayman Photo, 28 June 2000

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Inaugurated on June 23, 1957, with official ceremonies, the Abreiro Bridge became known for “the purity of the lines of its arch.” In addition to the advances in architecture, its construction reduced the connection between the two banks of the Tua River by about 30 km, which means an investment in the region.

The bold project by the engineer Jacinto Sarmento Correia de Araujo, a professor of Structures at FEUP and author of projects that are now heritage listed, is considered one of the most important projects of the Department of Civil Engineering of the Faculty of Engineering, University of Porto, in the decade of 1950. It is one of the first Portuguese reinforced concrete bridges, in a sense comparable to current Infante Bridge in Porto with “an identity of its own, [becauseJ it is the deck, not the arch that has a higher stiffness. The Swiss bridges designed by Robert Maillart and Abreiro Bridge … are examples of bridges with the same philosophy, albeit with more modest dimensions.”

Its construction took place in a historical context of marked increase of national road infrastructure associated with the onset of industrialization, investment in public works and the creation of infrastructure for the modernization of Portugal, marked by a repressive political regime and a troubled and difficult situation, still due to some extent, to World War II and the postwar period, in which all efforts were gathered for the reconstruction of Europe.

Jorge de Sena, who was then 34 years old and already well known as a writer on both sides of the border, and an engineer of recognized standing, was from the beginning directly connected to the design and construction of the Abreiro Bridge between the years 1953 and 1957.

He was, as can be seen by the attached document, one of four engineers of the Commission responsible for technical assessment and approval of the construction project for the Abreiro Bridge over the Tua River, in Correia Araujo’s contract with JAE, enrolled in the Bridges Works Plan of that organization, for the biennium 1952-1953 and consists of 3 volumes, two pieces written (specifications, description, measurements, prices, budget and supporting calculations) and one of construction drawings, containing what is reported on page 2 of the technical opinion (attached).

You can read in this technical opinion / report that the Abreiro Bridge for transposition of the Tua River, connected to National Road No. 314, then under construction, was considered the most important road for the development of the region (Chaves – Carrazedo of Montenegro – Murça – Abreiro – Vila Flor), integrating the National Road Plan and connecting the Abreiro station of the Tua Line to the village of the same name. Because of the valley’s features it was considered one of the hardest continuity solutions of that road, Among many other technical details referred in the Opinion it’s stated that the analytical calculation done followed the general scheme used before in Barca d’ Alva Bridge already appreciated by the Superior Council of Public Works, whose guiding principles are presented. The accuracy in calculations and additional studies, not common at the time, was justified by the large vault demolition foreseen. The project is, in this technical opinion, globally considered a model and with a bolder design than would be usual, having the team spirit of the design engineer been emphasized.

 

CONCLUSION

In summary, this communication developed over direct archival sources, the theoretical and methodological framework of social studies of science and techniques, addressed Jorge de Sena’s technical and literary relations with the Tua Line. This renowned writer of the contemporary Portuguese culture was simultaneously a civil engineer of the Autonomous Road Board of Portugal (1948-1959), where he performed important duties and positions, having been invited to the position of chief of staff of the Minister of Public Works, Arantes de Oliveira, but declined. He willingly abandoned a career as an engineer, in 1959, exiled in Brazil, and was a prominent opponent of the Salazar dictatorship and was until his premature death in 1978, professor of Luso-Brazilian and American Studies at Universities in Brazil (Assis and Araraquara, Estado de S. Paulo, a1965, 1959) and at the USA (Wisconsin and Santa Barbara – Califomia, 1965-1978).

We drew up the dual multifaceted and multidimensional trajectory over 2 decades (1938-1959) living in Portugal, focusing the spirit of Renaissance universality. In an early stage, Sena was already a great writer with a job as a full-time engineer, recognized for his competence, who exercised functions in permanent tension and conflict. In a second phase, exiled abroad, he became a professor in the field of literary and cultural studies, intensifying and diversifying its cultural and literary work, building and outlining it as if it were an engineering work.

The pioneer overcoming of the classic antagonism between the “two cultures” of humanities and science Jorge de Sena achieved is highlighted. This facet is resumed in the approach made to his technical-scientific thinking, emphasizing his fundamental importance as a writer, through the introduction of scientific rationality to literature.

In the biographical outline of the intense biographic and professional trajectory of engineer and writer Jorge de Sena exercised cumulative and successfully, we noted, in the cultural and literary domain, the publishing of five poetry books, two plays, two poetic anthologies, and numerous translations of classics of world literature, literary conferences, active collaboration in journals and newspapers, cultural and editorial intervention, and, in engineering, many technical opinions, projects, consulting services, specialized training in England and supervision of various public works, including roads and bridges integrated in the National Road Plan that was expanding in the 1950s.

We end approaching the dual relationship of Jorge de Sena with Tua, whether at literary level, with the construction of a “factual” character, a land owner in Tua, in his sole and unfinished novel “Signs of Fire.” a mark of the Portuguese literature of the 20th century, already adapted into a motion picture, whether in terms of engineering, through participation in co-authoring the technical opinion of JAE. 1953, on the proposed construction of the modem Abreiro Bridge over the Tua River, of only one reinforced concrete arch, designed by renowned professor Engineer Correia de Araújo Porto, anemblematic projecto at, the time, of the history of Portuguese engineering.

 

The Minister of Public Works

Your Excellency:

Presented to the Commission by the Direction of the Autonomous Roads Board Services, which refers to the 2nd paragraph of article no. 3, of the Decree-Law no. 36,353, of 17 June 1947, the project of the bridge over the Tua River in Abreiro, on the

National Road 314, elaborated by the engineer, Mr. Francisco Sarmento Correia de Araújo, according to contract no. 1010, was signed between the engineer and the Autonomous Roads Board on 2.6 February 1953.

The completion of this work is part of the Autonomous Roads Board Bridge Work Plan for the biennium of 1952.-1953, under no. 16.

The project consists of three volumes, two which are written components and one which is composed of construction drawings, containing respectively:

 

 WRITIEN

WRITIEN COMPONENT – I

1 – Descriptive Memory

2. – Specifications

3 – Measurements

4 – Price Series

5 -Budget

 

WRITIEN COMPONENT – II

6 -Justifying Calculations

 

CONSTRUCTION DRAWINGS:

CD 1 – Elevation

CD 2 – General layout

CD 3 – General construction elements

CD 4 – Reinforced concrete details

CD 5 – Meeting details

CD 6 – Railing and pavement details

CD 7 – Expansion joints details

CD 8 – Sewage details

CD 9 – Concreting layout

CD 10 – Removal of centering device scheme

 

The specifications are perfectly elaborated and follow the guidelines of norms in use for the Board’s projects.

The measurements and series of prices are well elaborated.

 

The budget amounts to 2,942,525$00 – (TWO MILLION NINE HUNDRED AND

FORTY – TWO THOUSAND FIVE HUNDRED TWENTY-FIVE ESCUDOS).

All parts of the project that the Commission considered in condition to be approved were reviewed.

 

LISBON and THE AUTONOMOUS

ROAD BOARDS, 25 AUGUST 1953

SIGNED, THE COMISSION

 

NOTAS:

[1] Interview by Mecia de Sena, Santa Barbara (California, USA), 15 November 2011

[2] Conference by Eng. Ferreira Lamas, FEUP, 2011, op. cit.

[3] Cited by João Antonio Ferreira Lamas, “O escritor Jorge de Sena visto por um colega de faculdade”,

conference in Faculty of Engineering, University of Porto, 28 April 2011

[4] CÃNDIDO, António – Intelectuais portugueses e a cultura brasileira. In GOBBI, Marcia Valeria Zarobonio, FERNANDES, Maria Lúcia Outeiro, JUNQUEIRA, Renata Soares, org. – Intelectuais portugueses e a cultura brasileira: Depoiementos e Testemunhos. São Paulo: Editora UNES P, 2002, p.28

[5] These reviews of movies have been published by Portuguese Cinematheque, 1988, under the title “On Cinema”, with an introduction by Mécia de Sena.

 

In: MCCANTS, A; BEIRA, E.; CORDEIRO, J.M.L. & LOURENÇO, P., ed.  Railroads in historical context: construction, costs and consequences. Vila Nova de Gaia, Inovatec, v. II, 2012, p. 49-68

[*] Professora da Universidade Lusófona do Porto e investigadora do CITCEM, Universidade do Porto. Doutorada em História Contemporânea pela Universidade do Minho. Professora reformada do Instituto Politécnico do Porto.

 

76. Ensaio sobre um Ensaísta: conversa sobre Jorge de Sena*

[LER E RELER JS – 76: Maria do Carmo Castelo Branco de Sequeira]

Nesta apresentação de Jorge de Sena a engenheiros, em declarado tom de conversa, a autora visita algumas das muitas facetas do escritor, não esquecendo de sublinhar sua filiação inicial ao mundo das ciências.

 

M.C. Escher, Still life, 1943
M.C. Escher, Still life, 1943

 

Gostaria de iniciar esta comunicação, citando, como uma espécie de leitmotiv, uma observação importante e motivadora de Roald Hoffman, judeu polaco, prémio Nobel da Química, em 1981:

 

Creio que a actividade criadora não é muito diferente na arte e na ciência. A abstracção da realidade, que é necessária depois da observação, é idêntica. Em ambos os casos, existe sempre um irresistível desejo de comunicação. (…). Ambas procuram explicar uma parte do universo que nos rodeia; e, desse ponto de vista, a actividade científica é até mais trivial: estabelecer parâmetros perfeitamente definidos para a interpretação do Universo é mais fácil que tentar questionar a morte ou o fim de um amor [1]

 

Não só nestas palavras de um químico-físico esta verdade se manifesta. De facto, as relações entre a Ciência, a Literatura e a Arte em geral têm sido motivo de reflexão e criatividade, em muitos planos e situações, tanto no campo de “Encontros”, como o decorrido na Universidade dos Açores, em Setembro de 1991, com o título elucidativo e reversivo, Poesia da Ciência e Ciência da Poesia [2], como na ligação íntima entre o artista e o cientista, como são os casos individuais, na antiguidade clássica, de Lucrécio (com o seu poema De Rerum Natura), no Renascimento, nessa procura ecléctica do saber, de um Leonardo da Vinci, na conjugação interna do homem da ciência com o escritor, como, entre nós, Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Júlio Dinis), Adolfo Rocha (Miguel Torga), Fernando Namora, Rómulo de Carvalho, (conhecido no âmbito da poesia, como António Gedeão), como nos fragmentos científicos que se expandem na obra de autores como Shakespeare, como Camões, como Goethe.

Umas vezes surgem acompanhando a problemática da criação poética, como em Fernando Pessoa, ora através de Álvaro de Campos (não por acaso), Engenheiro Naval:

 

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo
O que há é pouca gente para dar por isso…,

 

Ora através do semi-heterónimo Bernardo Soares que, a propósito de considerar que o meio moderno torna a arte incapaz de unidade, de autêntica construção artística, observa:

 

“Por isso se desenvolveu a ciência. A única coisa em que há construção, hoje, é uma máquina; o único argumento em que há encadeamento, o de uma demonstração matemática.
O poder de criar precisa de ponto de apoio, da muleta da realidade.”

                   (…e termina):

“A arte é uma ciência…
Sofre ritmicamente… [3]

Outras, constroem-se por cruzamento de códigos, como são exemplo alguns poemas de Kaharine O’Brien, recolhidos e traduzidos por Francisco José Craveiro de Carvalho, nomeadamente, estes dois haicais, respondendo à questão, “O que é a Matemática?”:

 

Fé e Razão (diz o primeiro)

Fiadas de axiomas
Entrançadas com lógica
Em convolução

 

Ou,

Verdade e Beleza (diz o segundo, lembrando Horácio)

Cadinho onde se demonstra
Mais brilhante do que alabastro,
Do que o mármore mais duradouro

 

Outras ainda, trazendo para o campo da investigação o fantasma da poesia, na sua configuração mais pura: a metáfora, seguindo um trajecto, que, em Portugal, creio ter sido iniciado pelo Professor José Enes, quando, em 1985, considerava a metáfora, como “ a estrutura nuclear comum a todas as espécies em que a linguagem se elabora, diversifica e multiplica” [4].

Assim também o caso paradigmático de Gonçalo M. Tavares, em Breves Notas sobre a Ciência [5] (onde não estará alheio o pensamento de Paul Ricouer, em La méthafore vive [6] e, consequentemente – ultrapassando os níveis retórico e semântico –, a importância da metáfora, enquanto força interpretativa de qualquer discurso). Cito:

 

“A metáfora, sendo o instrumento de uma linguagem não lógica, pode tocar, isto é, explicar (ou provar) coisas que a linguagem lógica não toca, nem explica…”; “Ao colocar-se a linguagem metafórica fora da ciência exclui-se um conjunto de soluções possíveis e, portanto, um conjunto de problemas”.

 

Falando, depois, do bom uso das ferramentas científicas, acaba por advertir: “Aprende pois a utilizar metáforas, caro cientista. Não sejas incompetente.” (Breves Notas sobre ciência, pp.112 e 113).

Mas não só, falando da metáfora, Gonçalo Tavares cria esta ligação: Também, noutros fragmentos, fazendo penetrar no campo científico, o encontro /desencontro de linguagens, numa tentativa de descoberta incessante, observa:

 

A poesia não é Ciência?
A poesia é ciência individual.
Poema colectivo e útil: eis a teoria científica
(p. 82)

Ou,

A linguagem utiliza a ciência para alcançar a
Ilusão da Verdade, tal como a linguagem utiliza
A arte para alcançar a ilusão de uma certa Beleza
(p. 43)

 

Finalizando com este extraordinário segmento:

 

Céptico, como os cépticos, crente como os crentes.
A metade que avança é crente, a metade que confirma é céptica.
Mas o cientista perfeito é também jardineiro;
Acredita que a beleza é conhecimento.
(a pessoa bela tem um segredo. Descobriu algo.)

 

Entremos agora, partindo deste último pensamento poético de Gonçalo Tavares, no caso específico do nome que marca este “Encontro”: Jorge de Sena – aquele que sempre acreditou que sendo a Beleza conhecimento científico, é, sempre e sobretudo, descobrimento poético, e na sua tentativa de descobrir a “verdade”, nunca perdeu o cadinho da curiosidade e da análise, aquele vaso de fusão ou brecha profunda e fértil, onde o engenheiro e o artista se pudessem (puderam) encontrar.

De facto, o próprio Jorge de Sena, em 1968, regressando, do seu exílio, pela primeira vez, a Portugal, declarava, em entrevista ao Diário de Lisboa [7] :

 

“Eu era engenheiro, e trabalhava como tal; era um escritor também, era director literário de editoriais, era diversas coisas para poder sustentar a família e a mim mesmo. Isso criava um problema que, juntamente com outros que existiam naqueles anos muito confusos e agitados, como é sabido, me tornava a vida insustentável…”,

 

E, se, nesse contexto, este conjunto de trabalhos parece ter sido motivado por dificuldades financeiras, a verdade é que os testemunhos dos seus companheiros de estudo do curso de engenharia, nomeadamente o de João António Ferreira Lamas [8] , indicam que, já nessa altura (de 1938 a 1943), Jorge de Sena “possuía uma cultura geral invulgar para a sua idade e uma cultura literária excepcional e actualizada, tanto na língua portuguesa, como francesa e inglesa”, para além de uma “espantosa capacidade de apreensão e de correlacionação das coisas, dos factos, das ideias e dos sentimentos, no espaço e no tempo, e a consequente lucubração e elaboração analítica e crítica”.

Igualmente, um outro amigo da altura, João Alves [9] nos dá conta das tertúlias que ele frequentava, na livraria Tavares Martins, juntamente, com, entre outros, Antero de Figueiredo, Alberto de Serpa ou Gomes Teixeira.

Logo, este paralelismo que traçara na prática, e desde cedo, entre a engenharia e a literatura [10], tanto enquanto estudante, como durante os anos em que trabalhou, nomeadamente, como engenheiro civil, na Junta Autónoma das Estradas, continuou, acentuou-se e, finalmente centrou-se no trabalho literário (nos seus cambiantes de leitor, de escritor, de crítico e ensaísta, de professor universitário de Teoria Literária, Literatura Portuguesa e Literatura Comparada) depois da partida para o Brasil, onde se doutorou e, em seguida, nos Estados Unidos (nas Universidades de Madison e de Santa Bárbara), abafando o seu trabalho de engenheiro, sem, todavia, o fazer perder as qualidades e ferramentas que retirara deste curso, isto é, um racionalismo e uma inteligência de análise, um rigor e uma perfeita inter-relação da literatura com a ciência e com o mundo, como já acentua no seu extraordinário “Prefácio”, de 1958, à 3ª Série de Líricas Portuguesas: “… a poesia é uma especialização de espírito, uma forma peculiar de educação, embora vise ao conhecimento analógico e simbólico da realidade total…” [11]

Inter-relação que poderemos ver reiterada, vinte e poucos anos depois, nestas suas palavras, a propósito do papel de António Gedeão e dos pressupostos novos que ele trazia à poesia e que eram, segundo o analista, estes:

 

“A grande novidade era uma visão do mundo, em termos de cultura científica actual, coisa que sempre fora de bom -tom literário que as pessoas escondessem, se acaso possuíam algo de semelhante. (…). O tremendo mal do nosso tempo, que é a cisão entre uma cultura literária que se pretende largamente humanística e é apenas uma forma organizada de ignorância do mundo em que vivemos, e uma cultura científica que não sabe sequer da existência dos valores estéticos que dão humano sentido à vida, esse mal não favorece o entendimento de um poeta como António Gedeão.” [12]

Desenvolvendo este campo relacional, e se bem que ele esteja latente na sua obra poética e ficcional, é, porém, na sua atitude ensaística que ele mais forte e estritamente se manifesta e, portanto, dentro daquele tipo textual que gostaria hoje de reflectir convosco. E logo nos surge uma questão prévia: O que é, de facto o ensaio ou aquilo que poderemos designar, como atitude ensaística no campo da investigação?

Todos conhecemos o historial deste género, desde a etimologia (exegium) à sua evolução semântica: passando pelo exame feito ao metal das moedas para ver se eram falsas (analisar, fazer prova, pesar na balança), passando pela sua relação com o lexema “saborear”, isto é, ligando-se à pré-gustação, para assegurar que os alimentos não estivessem envenenados, distinguindo, afinal, o bom do mau; seguindo-se o sentido actual derivado: atitude de reserva, oposta à adesão fácil a qualquer ideia, isto é, hábito de suspeição, de dúvida metódica.

Não é, naturalmente por acaso, que o género ensaístico surge com o Renascimento e tem o seu grande expoente em Montaigne que, indirectamente, formulou as suas características dominantes (espírito crítico, exercício constante da razão, carácter de tentativa, de busca de solução, ensaiando caminhos, confrontando textos, confrontando o pensamento com a realidade).

Hoje, em Portugal, quando falamos de “ensaio”, pensamos, essencialmente, em Eduardo Lourenço. E sobre ele e com ele, a tentativa de definição ganha vigor e, diria, quase poeticidade.

Na verdade, é dentro deste sentido que Eduardo Prado Coelho [13] , reportando-se ao autor de Labirinto da Saudade, afirmou: “Um ensaio não é uma tese inacabada ou apressada. É no rigor assombrado do seu passo, outra coisa de mais instável e terrível, uma ciência obscura, um vinho que apenas se pode partilhar”.

Também, igualmente, Luís Filipe Barreto [14] , a propósito da mesma obra de Eduardo Lourenço, afirma: “O ensaio é um exercício e(terno) feito de desconfiança e problemática que constrói tanto um experimentador do possível, como um desmascarador do impossível. (…) Género ambíguo, em que a escrita rivaliza com a análise”.

Sendo, em grande plano, um homem do ensaio, Jorge de Sena não se limitou a experimentá-lo, também, e em vários momentos, metatextualmente o julgou, dando voz pessoal ao que Carlos Reis sobre ele disse: “O juízo elabora-se na luta “contra” as coisas, em “debate” com elas”, mas é também uma experiência de “digestão” e de “assimilação”, uma arte lúdica, um jogo de ideias”.

Experimentando caminhos, fazendo um ensaio sobre o ensaio, ou sobre ele e sua correlação com a tese académica, lucidamente, lançando farpas (e afinal fazendo o mais extraordinário trabalho sobre a “diferença), Jorge de Sena afirma, ironicamente, sobre a questão das citações neste tipo de escritos, em O Reino da Estupidez I [15]:

 

“Eu sei que o «ensaio» tem sido definido, e lisonjeiramente, como um estudo do qual não é apresentado o aparato crítico, não são dadas as referências. Isto é honroso para o ensaísta (…). Isto é também honroso para o crítico que atente no ensaio, pois que dele se pode imaginar que está nos segredos do laboratório intelectual, e nada há no ensaio que ele não soubesse já ou não pudesse pensar alguma vez, quando se desse ao inglório e árduo trabalho de pensar. (…). [No entanto], o ensaio é, afinal de contas, ou poderá ser, uma meditação culta. Se o ensaio fosse apenas um estudo a que houvesse sido escamoteado o aparato crítico congregado para ele ser escrito, precisamente não era um ensaio, mas uma simples tese universitária, para uso interno e não público, modestamente destinada à conquista de um emprego e da ilusão de ser-se um intelectual. O sujeito-autor não precisava mais que ter lido as obras que um orientador inteligente e bem informado lhe houvesse indicado. (…). Em contrapartida a um ensaísta, e por paradoxal que pareça, pode ser impossível dar as suas referências. Se é um homem culto, largamente informado, que repensou por muito tempo as regiões do Saber que [16] mais lhe importam, ele não pensa nem discorre em função de fichas –  (…), mas de conexões intelectuais extremamente complexas, e até contraditórias, nas suas raízes culturais. (…). Uma alta cultura não existe sem informação: informação acumulada, classificada, criticamente avaliada. Mas a informação não torna ninguém culto (…) Cultura é a coragem de pensar e sentido das responsabilidades quanto ao que se pensou…”

 

Seja-nos desculpada a longa citação, já que ela é absolutamente necessária, para se perceber o funcionamento do seu trabalho de investigação, entre o conhecimento do que existe sobre o assunto e o que sobre ele, de forma independente, se discorre. Assim com os seus trabalhos sobre Camões, assim com a sua visão sobre o “Livro do Desassossego”.

Dos primeiros, disse Aguiar e Silva, num importante capítulo do seu livro, Camões: Labirintos e Fascínios [17] , com o título, “Jorge de Sena Camonista”, (e esse testemunho impressionante do notável camonista que todos conhecemos, é amplamente suficiente para entender a validade do trabalho que Sena desenvolveu desde 1948):

 

Trinta Anos de Camões, o título que Sena escolheu para designar os dois volumes – já de publicação póstuma – em que foram coligidos diversos estudos seus consagrados a Camões ou com ele correlacionados, é um sintagma que significa para lá de uma precisa denotação cronológica (1948 – 1978), a permanência, a intensidade e o fascínio desse diálogo em cujas raízes se encontra uma inequívoca congenialidade de espírito, de existência e de cosmovisão. Homens e poetas com a vida em pedaços repartida por alheias terras, altivos e insubmissos, e por isso incómodos para todos os poderes instalados como «situação», cidadãos do mundo pela universalidade da sua arte, da sua cultura e dos seus ideais, Camões e Sena foram, em contextos históricos e situacionais bem diversos, espíritos semelhantemente consumidos e atormentados por um amor e uma chaga que se chama Portugal…”.

 

No fim deste luminoso testemunho, datado de 1982, Aguiar e Silva fala da visita que fez à biblioteca de Sena, em Santa Bárbara, rematando desta forma:

 

“…Percebia-se, sentia-se, ao passar os olhos pelas últimas aquisições bibliográficas, que Camões polarizara luminosamente, até o fim da sua vida, a actividade e os projectos de Jorge de Sena, como docente e investigador universitário. A morte não o deixou erguer a «catedral» camoniana com que certamente sonhava. A obra escrita e publicada, todavia, representa uma das mais esplêndidas «capelas imperfeitas» que, em qualquer época, foram consagradas a Camões.”

 

Do segundo importante trabalho do autor que aqui hoje nos reúne, ficou o seu trilho, de certo modo, reconhecido, por Jerónimo Pizarro na última versão de O Livro do Desassossego do semi-heterónimo pessoano Bernardo Soares, e um magnífico prefácio com que iria anteceder essa primeira edição “a haver” e da qual diz:

 

“… e sob tudo isto, sob uma maldição de que todos são filhos, como um pecado original a que todos devem o ser, a terrível incapacidade de amar, a medonha demonstração de que o homem existe pelos seus actos e não é outro senão eles, e que não existe, senão como ficção, quando em lugar de aceitar ir sendo, escolhe fixar-se na pedagogia monstruosa de ser por conta alheia, de perder-se na floresta do alheamento.”

 

Dada a exiguidade do tempo e também porque não quero cansar-vos muito, esperando que ainda haja alguns momentos (mesmo breves), para a discussão, resta-me alinhavar algumas ideias (e, se é que os não conhecem, sugeria a sua leitura integral) sobre dois ensaios diferentes, mas que, no seu quase antagonismo, resumem uma forma de ser e de estar (ou de sentir) isto é, cada um representando um estádio entre a ironia (ou quase sarcasmo) e o entusiasmo quase (já) dramático do ensino da literatura. [18], (isto é, sentindo-o, ainda vagamente, como uma espécie de requiem), mas sempre conjugando, em graus diferenciados, a objectividade e a subjectividade, ora no plano sintagmático e relativamente leve, ora no paradigmático, mais pesado (mas cujo peso é embaciado pelo “não dizer”). Comecemos por “Amor da Literatura” [19] – texto de 1961.
Entre o ensaio e a lição sobre o ensino da literatura, se desenvolve este texto, jogando com a objectividade das asserções e a sua conclusão reversiva e subjectivada. Assim, partindo das posições possíveis do homem perante a literatura (“conhecê-la, estudá-la, ensiná-la e vivê-la”), posições que considera passíveis de acumulação, passa a definir cada um dos estádios, para subitamente, voltar ao princípio, confessando que “o problema foi mal posto, falseado nas suas premissas, falseado nas suas conclusões”, “sem qualquer sentido”, porque a Verdade final a que chega, como que anula ou, melhor, põe sob condição todo o resto, iluminando-o, e permitindo-lhe, maliciosamente, fazer, “a título de exemplo”, alguma literatura”, ou, melhor, dizendo com ele, alguma poesia

 

“Não se pode conhecer, nem estudar, nem ensinar, nem viver, aquilo que, no fundo e em verdade, se não ama. Que esse amor seja feliz ou infeliz, que dê alegrias ou amarguras, momentos de satisfação ou desconsolo, iluminações de conhecimentos ou raivas de inconquistável ignorância, é outra questão. Há que amar a literatura. Sabemos bem que o amor pode ser fugaz, intermitente, constante, frágil, imenso, ocasional, calculado, uma paixão súbita, uma paciente conquista. Amando-a, porém, é impossível não querer conhecê-la em toda a parte e em todos os tempos, em extensão e em profundidade; é impossível não querer estudá-la para transmitir e comunicar aos outros a fascinação que ela exerce sobre nós; é impossível não querer vivê-la gratuitamente e como agente, que ela é, de tudo que constantemente se pretende que ela seja e de tudo o que ela constantemente ultrapassa em si mesma e em nós…”

 

O segundo ensaio de que falava, como que nos fornece a “outra face” do seu texto global ou da sua idiossincrasia. Refiro-me a um texto curto, não datado, publicado na Nova Renascença [20] , com a designação de “A Literatura Portuguesa como Sermão da Quaresma”, onde o título, como diria Roland Barthes, é enunciador e deíctico, mas também “aperitivo, porque enunciador de uma certeza negativa, por parte daquele “demoníaco” de que fala Eduardo Lourenço, reportando-se a Andanças e Novas Andanças do Demónio [21] e onde surge “o desafio explícito ao leitor, a displicência, às vezes a escusada, mas ardente afirmação da sua superioridade intelectual, o que quer que seja que institui Sena no papel de Savonarola da nossa cultura (ou incultura), e que, por isso mesmo irrita ou fere a sempre sensível epiderme lusíada, coitada”.

De facto, no curto texto, Jorge de Sena desenvolve uma evolução satírica, ou antes, uma forte e azeda diatribe contra a nossa literatura que, segundo ele, desde a Restauração, e tendo como principal mentor, essencialmente o Padre António Vieira [22] , apenas se tem preocupado em salvar a pátria, numa espécie de “sermão contra o pecado, a favor das armas nacionais”, de tal forma que, diz, nos dias de hoje “toda a gente fala em termos de sermão de quaresma…”.

Termina, interrogando-se, “Quando será que as pessoas deixarão de salvar a pátria com a literatura, e passarão a salvar a literatura com a pátria?”, para responder: “Porque a verdade nua e crua é que não há bela pátria que valha a má literatura que é escrita para salvá.la. (…) Porque as pátrias salvam.se com ciência e técnica, com inteligência e honestidade – mas não, necessariamente com exercícios de retórica”.

Para concluir: Quando Jorge de Sena, no “Discurso da Guarda” [23] (1977), nos declara (comparando-se a Camões nos transes da vida, “mas sem Lusíadas no bolso ou na bagagem”), que não sendo propriamente um emigrante, nem um “luso-americano”, é, de facto um “residente no estrangeiro”, ao dizê-lo com uma aparente simplicidade, oculta, de facto, sob essa espécie de eufemismo, a condição de expatriado que foi e que, apesar do 25 de Abril, irá continuar a ser. Tendo, como sempre teve e sempre lhe reservaram, como disse Fernando Cabral Martins [24] , uma “relação com Portugal e com a cultura portuguesa e mesmo com a intelectualidade portuguesa, sempre difícil, desde o princípio até ao fim, uma relação que nunca se resolveu”, naturalmente que essa “não relação” se manifesta subterraneamente, em muitos dos seus discursos ensaísticos e também, à superfície, na poesia. Basta recordar, em pastiche camoniano:

 

Esta é a ditosa pátria minha amada, Não
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de ter nascido nela

 

Ou, noutro tom, mas com a mesma raiva, a sua assunção como cidadão do mundo

 

Nascido em Portugal de pais portugueses.
E pai de brasileiros no Brasil,
Serei talvez norte-americano, quando lá estiver,
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
Se usam e se deitam fora, com todo o respeito
Necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A Pátria
De que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
Nasci, e a do que faço e do que vivo é esta
Raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
Quando não acredito em outro, e só outro quereria que
Este mesmo fosse. Mas se um dia me esquecer de tudo, espero envelhecer
Tomando café em Creta
Com o Minotauro,
Sob o olhar de deuses sem vergonha
(1969, Peregrinatio Ad Loca Infecta)

 

Assim o reproduziu, também, como que na mesma linguagem, Sophia de Mello Breyner, em “Carta(s) a Jorge de Sena” [25] de que vos deixo as “estrofes”:

 

I
Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade:
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde

 

II
E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida

 

III
Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem –
E assim às vezes chegavas de terra estrangeira
Não como o filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
– Grandioso vencedor e tão amargo vencido –
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos

 

IV
E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta

Coimbra, 22 de Outubro, 2013,

 

 NOTAS:

[1] Entrevista . Por Clara Pinto Correia (JL, nº106, 17 /7/ 1984)

[2] Poesia da Ciência, Ciência da Poesia, Org. de Marc-Ange Graff. Lisboa, Escher, 1991.

[3] Zenith, R. (editor). Bernardo Soares – Livro do Desassossego. Lisboa, Assírio & Alvim. 2003. Pp. 244, 245.

[4] Citado por José Luís Brandão da Luz, em “Criatividade Científica, Imaginação e Metáfora”, Poesia da Ciência, Ciência da Poesia, p.222)

[5] Tavares, G. M. Breves Notas sobre a Ciência, Lisboa, Relógio d`´Agua, 2oo6, p.82

[6] Ricouer, P. La métaphore vive. Paris, Seuil. 1975.

[7] Referência devida a Maria Otília Lage, retirada do seu trabalho, “O escritor e o engenheiro Jorge de Sena, sua Relação com a linha do Tua”, p. 4

[8]  O Engº João Lamas publicou na Revista da Ordem dos Engenheiros, Ingenium (Fevereiro de 1988 ), o texto “O Sena que eu conheci – Jorge de Sena, Estudante de engenharia” de que saiu Suplemento com as duas conferências proferidas em Lisboa e no Porto, respectivamente, em 1987 e 1988.

[9] Depoimento, publicado no “Dossier Jorge de Sena”, organizado por Luís Adriano Carlos, para o Jornal Letras & Letras, em 1988.

[10] Fez conferências e publicou já, entre 1939 e 1959, em várias Revistas, não só poemas como trabalhos de ensaio literário – nomeadamente, sobre Rimbaud, Florbela Espanca, Pessoa e Camões, para além de múltiplas traduções

[11] Sena, Jorge de, Líricas Portuguesas, 3ª série, Selecção, Prefácio e Notas. Lisboa, Portugália Editora. 1958, p.12

[12]  Sena, G. “”A Poesia de António Gedeão (Esboço de Análise Objectiva)”, Dialécticas Aplicadas da Literatura, Lisboa, Ed. 70, 1978, pp. 111 e 113

[13] Universos da da Crítica, citado em “Expansões Energéticas”, Jl, 27 de Março de 1996.

[14] “Em torno de O Labirinto da Saudade”, Prelo, Maio de 1984

[15]Considerações morais à guisa de prólogo” e “Citar, ou não citar, eis a questão”, incluídos em Vinte e Sete Ensaios. Lisboa, Círculo de Leitores- 1989 (pp.127 – 135).

[16] Sublinhado nosso.

[17] Aguiar e Silva, V. M. Camões: Labirintos e Fascínios. Lisboa, Cotovia. 1994, pp. 27 -36

[18] Este surpreendente “entusiasmo” e o seu anoitecer, que, hoje em dia, verdadeiramente encerra o estudo do texto literário e da literatura, e a confusão que, nos nossos dias, se instala sobre o que podemos entender por essa palavra, têm merecido a atenção de muitos (lá fora e cá dentro). Aguiar e Silva, no seu estudo, “Reflexões tempestivas sobre a crise das Humanidades” (in, As Humanidades, os Estudos Culturais, o Ensino da Literatura e a Política da Língua Portuguesa, Coimbra, Almedina, 2010, pp.53 – 74), demonstrava, em termos históricos, esse declínio e as suas causas.

O último eco de um desânimo (que é também verificação objectiva) surgiu recentemente, na crónica de António Guerreiro, com o terrível título, “A pós-Literatura” (Público, “Ípsilon, 18 /10/ 13), onde começa por dizer, “ À maneira de Valéry, que em 1919, em A Crise do Espírito, começava por dizer que «nós, civilizações, sabemos agora que somos mortais», poderíamos hoje dizer que essa longa e lenta elaboração a que chamamos literatura também é mortal: está  brutalmente ameaçada e em vias de desaparecer: Digamos com um pouco mais de rigor : não é plausível que deixe de haver escritores e textos literários, mas o que foi construído ao longo de quaro séculos – isto é, a possibilidade de uma literatura autónoma, com as suas instâncias  próprias e os seus mecanismos internos de legitimação – está a extinguir-se a grande velocidade (…). O espaço literário que se construiu consistiu numa luta para inventar e impor leis específicas da literatura – contra a política, contra a religião, contra uma economia da utilidade e do valor social, pela conquista do monopólio da legitimação literária. E, por isso precisou sempre do médium da reflexão, da abertura crítica e especulativa ao que se passava no seu interior. Sem auto-reflexão, sem essa inclinação obstinada ou até obsessiva sobre si mesmo, não há espaço literário”

[19] Sena, J. Vinte e Sete Ensaios. Lisboa. Circulo de Leitores. 1989

[20] Nova Renascença, Outono de 1980, volume 1º, pp 15 e 16. Texto inédito, provavelmente de 1971.

[21] “Jorge de Sena e o Demoníaco”, in O Canto do Signo – Existência e Literatura (1957 – 1993). Lisboa, Presença, 1994.

[22] “Quem deu o mau exemplo disto, como de muitas outras coisas, foi o famigerado Padre António Vieira, sebastianista rematado, e homem que falava tão bem, tão bem, tão bem, salvando a pátria, que a gente nem se dava conta que ele não dizia nada e a pátria ficava na mesma (ou lhe dava um merecido couce…”) (Nova Renascença, 1980, p..15)..

[23] Jorge de Sena, op. cit. 1989, pp. 277 – 288.

[24] Citado por Isabel Coutinho, “O regresso de Jorge de Sena”, P2, 11 de Setembro de 2011, no dia da cerimónia de homenagem, antes da trasladação dos seus restos mortais para o Cemitério dos Prazeres, não para o Panteão, como preferiria e o disse Vasco Graça Moura, na altura.

[25] Breyner, Sophia de Mello: Ilhas, Lisboa, Caminho. 2004.

 

[*] Conferência apresentada na Ordem dos Engenheiros da Região Centro, no âmbito das suas “Sessões Culturais”, por iniciativa conjunta dos Colégios Regionais da Especialidade e a convite da Coordenadora do Colégio Regional de Engenharia Geográfica, Engª Elisa Almeida

[**] Licenciada e Mestre  pela Universidade do Porto, Doutorada pela Universidade do Minho, é atualmente Professora Catedrática convidada da Universidade Fernando Pessoa. Dentre outras publicações, é autora dos livrosA Dimensão Fantástica na Obra de Eça de Queirós (Porto,  Campo das Letras) e  15 Dias de Febre – Autobiografia ou os Limites da Ficção (Babel, 2011).

 

Seis Poetas Surrealistas nas Líricas Portuguesas

 Embora não se constituindo como uma estética que Jorge de Sena particularmente tenha privilegiado,  o Surrealismo português está bem exemplificado na seleção de poetas tidos como “surrealistas” presentes na 3a. série das Líricas Portuguesas, antologia que organizou e que teve sua primeira edição em 1958. Transcrevem-se a seguir as breves apresentações que deles faz. Atente-se particularmente na de António Maria Lisboa — poeta homenageado pelo Congresso Internacional “Surrealismo(s) em Portugal”, na evocação dos 60 anos de sua prematura morte, que neste 2013 se completam. O que aí diz motivará seu comentário de tempos depois: ”Creio não pecar por vaidade se disser que, fora dos círculos afectos ao surrealismo que prosseguia mais ou menos em volta de Cesariny, eu terei sido a primeira criatura não-surrealista a proclamar a grandeza de António Maria Lisboa, há vinte anos” (ver)

 

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1- JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS
2- ANTÓNIO PEDRO
3- MARIO CESARINY DE VASCONCELOS
4- ALEXANDRE O’NEILL
5- FERNANDO LEMOS
6- ANTÓNIO MARIA LISBOA

 

1. JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS

José Sobral de Almada Negreiros nasceu na Roça Saudade, Ilha de São Tomé, e não em Lisboa, como tem sido dito, a 7 de Abril de 1893. Fez os seus estudos primários e secundários sucessivamente no Colégio de Campolide, Liceu de Coimbra e Escola Nacional de Lisboa. De 1919 a 1920 seguiu estudos de pintura em Paris, e de 1927 a 1932 viveu em Espanha, onde trabalhou bastante em decorações de casas de espectáculos e outros edifícios. Realizou diversas exposições individuais desde 1912, e participou em várias exposições colectivas de arte moderna, quer em Portugal, quer no estrangeiro. Pela sua obra plástica, que o classifica entre os primeiros valores da pintura moderna; pela sua obra literária, que vibra de uma igual e poderosa originalidade; pela sua acção pessoal através de artigos e conferências – Almada Negreiros, pintor, desenhador, vitralista, poeta, romancista, ensaísta, crítico de arte, conferencista, dramaturgo, foi, pode dizer-se que desde 1910, uma das mais notáveis figuras da cultura portuguesa, e uma das que mais decisivamente contribuiu para a criação, prestígio e triunfo de uma mentalidade moderna entre nós. Autor do Manifesto Anti-Dantas, componente do Grupo de Orpheu, colaborador de Portugal Futurista, de Contemporânea, de Athena, com larga colaboração em jornais e revistas, director de Sudoeste, descobridor da perspectiva dos ladrilhos no políptico de Nuno Gonçalves, Almada Negreiros é hoje uma figura de primeira plana. Mas, no conjunto da sua vasta e multímoda obra, a produção poética não ocupa, no conhecimento do público, o lugar a que tem jus. Poder de veemência apostrófica, força irónica, graciosidade formal, profundeza de visão, simplicidade total de uma expressão que reconquistou uma ingenuidade originária, são aspectos da sua criação poética sempre vigorosa e elegante, de uma extrema capacidade de visionarismo plástico, aliada a uma nitidez linear do estilo, um estile que equilibra o mais saboroso coloquialismo popular, e até lisboeta, com um poder de abstraccionismo geometrizante muito concorde com as orientações predominantes do seu entendimento plástico do mundo. Faleceu em Lisboa, a 15 de Junho de 1970.

 

2. ANTÓNIO PEDRO

António Pedro da Costa nasceu a 9 de Dezembro de 1909 em Nossa Senhora das Graças, Praia, Cabo Verde. Estudou Direito e Letras em Lisboa e frequentou a Sorbonne. Viveu em Paris, em Londres (onde durante a Segunda Guerra Mundial a sua atividade na BBC foi uma das raras vozes livres portuguesas), em África, no Brasil, etc., e os últimos anos da sua vida em Moledo do Minho (onde morreu a 17 de Agosto de 1966), tendo sido no Porto director, encenador e professor de teatro no T. Experimental do Círculo de Cultura Teatral. A sua acção encontra-se ligada a todos os movimentos artísticos de vanguarda e foi um dos principais animadores, a partir da fundação do agrupamento «Pátio das Comédias», da re-novação do nosso teatro. Pintor e escritor, expôs diversas vezes em Portugal e no estrangeiro, pertenceu ao Movimento Surrealista de Londres e foi à sua volta que se formou o primeiro grupo português. Foi fundador da revista Variante, um dos principais colaboradores de Mundo Literário e de Unicórnio e números seguintes desta publicação, e tem larga colaboração ensaística e crítica em jornais e revistas, além de volumes de crítica de arte. A sua versati· lidade – também como ceramista iniciou uma renovação formal – e o seu multímodo talento têm, aos olhos de muitos, desvirtuado a unidade essencial de uma notabilíssima personalidade, entusiástica e original, com um extraordinário sentido do sabor das palavras, e que escreveu uma obra-prima do «romance surrealista»: Apenas Uma Narrativa (1942), em que a imaginação, tantas vezes abstraccionante, do surrealismo adquire, como na sua pintura, um peso de regionalismo, de truculência campestre, de visão poética de uma realidade que transborda de símbolos verbais ou plásticos que são constantes da sua expressão. O mesmo sucede com a sua poesia, que foi evoluindo de uma lírica simplicidade à Guilherme de Faria, seu companheiro de juventude lisboeta, através dos aspectos fantasiosos e graciosos de certo modernismo, até um barroquismo cheio de gosto pelo concreto, que as experiências «dimensionistas» do poeta (o «dimensionismo», fundado por A. Pedro, era como que um ultraísmo poético-plástico) preparavam para a libertação surrealista. Lírico delicado e ao mesmo tempo rude, a sua poesia, em que o Minho raiano e marítimo e o surrealismo se foram cruzando cada vez mais, é uma das mais interessantes da sua época, e não tem sido estimada, nem o foi pelo próprio autor, devidamente.

 

3. MARIO CESARINY DE VASCONCELOS

Nasceu em Lisboa a 9 de Agosto de 1923. Fez estudos de Belas-Artes na Escola António Arroio, que prosseguiu depois em Paris. Igualmente se dedicou ao estudo da música. Vive habitualmente em Lisboa, e tem colaborado com artigos ou poesia em vários jornais e revistas. Fez parte, em 1947, do primeiro grupo surrealista de Lisboa, em cuja constituição teve importante papel, e do qual cerca de um ano depois se separou por discordar da orientação seguida. A sua volta e de António Maria Lisboa se formou então um grupo dissidente, que mais ou menos se desfez como o anterior entretanto se desfizera. Quer como artista plástico, quer como escritor, Cesariny de Vasconcelos prosseguiu a sua actividade, e pode considerar-se, sob certos aspectos, que foi o corifeu ortodoxo do movimento surrealista., se não a única, de todas as personalidades que o surrealismo interessou ou por ele passaram, a persistir numa maneira que tornou muito pessoal, graças a um excepcional talento de poeta. A sua poesia, que guardou, como a de Alexandre O’Neill, um ressaibo do neo-realismo que primeiramente o interessara, não é porém ‘irónica, mas intensamente sarcástica contra tudo e contra si própria, numa ânsia de autodestruição que por vezes culmina em admiráveis explosões de lirismo desesperadamente erótico, contraditório e angustiado. Usando uma linguagem muito lucidamente insólita, que contrasta com a veemência da expressão sempre hesitante entre uma singela ternura pelo quotidiano (em que às vezes aflora um lirismo muito tradicional) e a mera ferocidade de empregar trocadilhos, esta poesia vigorosa e sugestiva, constantemente à beira de extinguir-se ou de tornar-se uma imitação de si mesma, tem tido uma influência notável, nem sempre benéfica, dado que raro o poeta se preocupa com atingir uma clarificação da sua espontaneidade, o que aliás o surrealismo teórico não postula.

 

4. ALEXANDRE O’NEILL

Alexandre Manuel Vahia de Castro O’Neill de Bulhóes nasceu em Lisboa, a 19 de Dezembro de 1924. Depois de ter tirado o curso dos liceus e frequentado a Escola Náutica, empregou-se no comércio, e passou depois a exercer o jornalismo. Tendo-se interessado pelo neo-realismo, foi membro do 1.º Grupo Surrealista, formado em 1947, e colaborou em revistas e suplementos literários, como os do Diário de Lisboa e de A Capital. Em 1951, Cadernos de Poesia ‘dedicaram um número a poemas seus, nos quais predomina uma atitude surrealista, no entanto estruturada por uma ciência muito lúcida da expressão, e que atinge uma violência irónica rara na poesia portuguesa, cujo decantado sarcasmo se fica habitualmente pela indignação verbal. Os últimos livros revelam no mais unitàriamente como um lírico notável, que encontra, na solidez pro-saística da metrificação arcádica, num subtil junqueirianismo (sobretudo de A Morte de D. João), e na fluidez divertida dos «inventários» surrealistas, o suporte de uma expressão ao mesmo tempo sarcástica e sentimental, na qual são elevadas a quase preciosístico requinte, que não recua perante a citação ou a deformação de lugares comuns, as experiências irónicas da poesia antiga e moderna. Mas a sua maior originalidade será talvez a capa· cidade para, numa metáfora ou numa palavra, concentrar um complexo de significados moralísticos, cuja intensidade o poema, disfarçado em «exercício de estilo», utiliza e desenvolve, com um pessoalíssimo sentido do humor, seguramente equi·librado à beira da anedota e da gazetilha.

 

5. FERNANDO LEMOS

Nasceu em Lisboa a 3 de Maio de 1926. Cursou a Escola António Arroio e os estudos livres da Sociedade Nacional de Belas-Artes, tendo-se dedicado às artes gráficas, à decoração e à publicidade. Interessado pela actividade surrealista, participou, em 1952, na exposição realizada na Casa Jalco, que fez escândalo, e onde a sua pintura e as suas .fotografias se impuseram por uma profundidade original da visão. Partido para o Brasil logo depois de uma outra exposição que, em 1953, o confirmou como um dos mais vigorosos artistas plásticos contemporâneos, tem participado nas Bienais de São Paulo, sendo distinguido com diversos prémios de alta categoria, e tem exposto nos Museus de Arte Moderna do Rio de Janeiro e de S. Paulo. Pintor, desenhador e fotógrafo, a sua obra não-figurativa patenteia uma forte personalidade, dotada de um rico sentido poético que da realidade abstracciona subtilmente os elementos de uma penetrante e rude visão ‘ da vida, que surgia também nos poemas com que colaborou em Cadernos de Poesia e na publicação Unicórnio e números subsequentes. Esses poemas trouxeram ao surrealismo um tom de decidida e vigorosa aceitação da vida, sem o desespero ou o sarcasmo negro que tem caracterizado algumas expressões desse movimento.

 

6. ANTÓNIO MARIA LISBOA

Nasceu em Lisboa a 1 de Agosto de 1928 e morreu na mesma cidade a 11 de Novembro de 1953. Após breves estudos numa Escola Industrial, dedica-se inteiramente à arte e à filosofia. Em princípios de 1949, parte para Paris, onde trava contacto com vários artistas portugueses lá residentes e se inicia nas práticas ocultistas. No, regresso, faz parte do grupo surrealista «dissidente», que então daria ao movimento um novo surto, e do qual, com Mário Cesariny de Vasconcelos, foi um dos principais animadores. Volta a Paris em fins de 1950, regressando em Março de 1951. As maiores privações, a falta de ambiente, um destino hostil e uma personalidade excepcional levam-no à doença e à morte. A sua poesia, que é, sem dúvida, das maiores afirmações de potencial lírico das décadas mais recentes, caracteriza-se por uma profunda e visionária seriedade, que contrasta com li ironia ou sarcasmo ou o sentido plástico de outros cultores e continuadores do movimento surrealista entre nós. Uma intensidade destituída de veemência fácil, uma imaginação transfiguradora que possui ou busca uma concepção unitária do mundo, uma fluência que nunca sacrifica a expressão à rebuscada ou insólita originalidade – eis o que, se a morte as não destruísse em pleno voo, faria deste poeta malogrado uma grande figura, despojada das tonitruâncias e das piruetas ocasionais do surrealismo de escola, que aliás se sente quão apenas programàticamente o afloraram. A sua obra aguarda ainda a publicação completa e crítica que merece.

 

In: Líricas Portuguesas, 3 ed. Lisboa, Ed. 70, 1984 2 v.  p I-28, I-132, II-130, II-231, II-279, II-375  

 

Notas acerca do Surrealismo em Portugal

Ainda a propósito do Congresso Internacional “Surrealismo(s) em Portugal”, que transcorre em Lisboa de 18 a 21 de novembro/2013, aqui transcrevemos o “testemunho” que Jorge de Sena redigiu a pedido de Luciana Stegagno-Picchio, que o editou nos Quaderni Portoghesi nº 3. Datado de abril de 1978, é um dos seus últimos escritos, o que lhe confere interesse suplementar. 

 

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Foto de Fernando Lemos: “Hospital de bonecas” (1949)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NOTAS ACERCA DO SURREALISMO EM PORTUGAL, ESCRITAS POR QUEM NUNCA SE DESEJOU NEM PRETENDEU PRECURSOR DE COISA ALGUMA, AINDA QUE, CRONOLOGICAMENTE, O TENHA SIDO, POR MUITO QUE ISTO TENHA PESADO A MUITOS SURREALISTAS, EX-SURREALISTAS, ETC., DO QUE SE NÃO EXCLUEM MESMO EMINENTES PESSOAS QUE CONTAM ENTRE OS MELHORES E MAIS DEDICADOS AMIGOS DO AUTOR

 

Ao compor este longo título, para corresponder à amiga insisistência da admirável Luciana Stegagno-Picchio que me deseja depoente neste conjunto de textos dedicados ao Surrealismo em Portugal, não sei em verdade o que vai acontecer daqui em diante, ao rápido sabor da máquina, e se as «notas» corresponderão ao título, ou ao que se espera que eu diga ou não diga. A ver vamos.

Como mostrei em artigo que saiu em duas partes no Diário de Notícias de Lisboa, em 10 e 17 de Janeiro de 1974, «A Primeira Referência ao surrealismo feita em Portugal», eu creio ter encontrado (havia muito) e digo então que essa referência, escrita em fins de 1924, apareceu em 1925, na antologia Afonso Lopes Vieira – Prosa e Verso, organizada, com largos comentários, pelo Prof. Agostinho de Campos, notório filólogo e crítico, inimigo de quanto cheirasse a Modernismo (que ele, como muita gente de Direita, equacionava e longamente equacionou com «comunismo » e mesmo, mais cruamente, o temível e horrendo «bolchevismo» que sugeria logo, às almas timoratas, uns sujeitos que comiam crianças assadas, todos ignorantes essa gente, ainda que por certo ele muito menos do que outros, de como, na verdade, a grande parte dos maiores fundadores e propagadores do Modernismo euro-americano não timbrou pelo esquerdismo, e mesmo caíu noutros extremos de simpatia ou adesão ao fascismo, o que tudo em 1924-25, sejamos justos, não era fácil de distinguir), que algures no livro, qual citei naquele estudo, ele atacava, aproveitando o recentíssimo Surrealismo cuja aparição lhe não escapara, e que ele chegava a apresentar por exemplos que terão sido as primeiras traduções portuguesas, ainda que curtas amostras, de textos surrealistas, precisamente quando Breton acabara de proclamar o movimento. Agostinho de Campos, companheiro e amigo coimbrão, que fora, de António Nobre (que o Modernismo português roubaria ao Nacionalismo literário, para considerá-lo um precursor que tanto Pessoa como Sá-Carneiro celebraram notavelmente), no mesmo largo passo, mostra-se todavia altamente informado do que ia por algumas partes: fala em Dadaísmo, em Ultraísmo, etc., e eu perguntava-me e pergunto quantos dos mais modernos dos modernistas, naquele interim do movimento nos anos 20, após o ORPHEU e o Portugal Futurista de 1915-17, estaria mais infor(nado do que ele, a respeito de tudo isso, como ele mostrava estar. E não creio que se tenham preocupado com informar-se, como é tão claro que Pessoa não buscou, e que Almada muito menos, sempre fechado dentro daqueles olhos imensos e profundos, com que ele sabia sempre tudo, sem na verdade saber nada. Naqueles anos 20, a continuidade do Modernismo é mantida, mais ou menos numa relativa clandestinidade literária, em que o movimento se desejava fazer respeitável (ainda que Pessoa & Ca. heteronímica tratassem de equilibrar um pouco a situação com uma que outra escapada escandalosa, para honra da firma), por importantes revistas que raríssimos em verdade liam, ou terão lido hoje: a Contemporânea (1922-26), e a Athena (1924-25) dirigida pelo próprio Fernando Pessoa, nas quais em vão, se me não engano, se encontrará qualquer eco de «ismos» passados ou presentes, e ambas coincidem com o lançamento do Surrealismo. Por essa época, ainda a presença estava nos idos e calendas do futuro, fundada que foi em 1927 para durar intermitentemente até 1940, e tendo imposto criticamente, pelos seus membros mais influentes e activos, o Modernismo. Todavia, ao longo das páginas tão ricas e cheias de surpresas ainda por estudar no sucessivo conjunto que a presença foi, em meio de tanta referência que desejava repor a cultura modernista’ num contexto crítico-literário internacional (ainda que a internacionalidade continuasse, com raros momentos, a chegar toda da França), não há qualquer indicação de que o Surrealismo tocara ou penetrara o reconhecimento dos «presencistas» mesmo maiores. Quem nos anos 30 mantivera, com vários «ismos» inventados e experimentados por ele, algum do fogo sagrado da Vanguarda pela Vanguarda, havia sido António Pedro (1909-66), que veio a ser mais tarde o catalisador essencial do movimento surrealista português, quando ele se conglomerou em 1947, na corrente do efémero renascimento do surrealismo internacional que ao, final da Segunda Grande Guerra sucedeu. Mas ainda me lembro bem da mal disfarçada hostilidade dos «presencistas» contra A. Pedro (à excepção , de, mais tarde, Casais Monteiro que veio a ser seu excelente amigo), por o considerarem algo fumiste e «amador», o que esse A. P. que recordo com infinito carinho e saudade na verdade foi em tudo, e é dos mais comoventes e valiosos timbres de quem foi um dos mais distintos poetas do período (em todas as transformações estilísticas que variamente experimentou, sempre com o mesmo pessoal domínio da língua portuguesa que era o seu) e um dos abridores de portas a uma nova pintura portuguesa. Em 1935, publicara Vitorino Nemésio (1901-78) o notável livro de poemas La Voyelle Promise, tudo em francês, o que pareceu muito mal a muita gente, entrando em regular ritmo de publicação do que viria a ser uma das principais obras poéticas portuguesas do século. Em 1937-40, a sua Revista de Portugal, aparecendo quando na verdade a presença estava já praticamente morta como publicação, foi uma imensa abertura em que não houve quase movimento ou personalidade notável (do tempo ou futura) que não colaborasse ou aparecesse. E, no entanto, surrealismos mencionados ou declarados, que a gente veja ou recorde, suponho que não há lá. De resto, a maior parte dos «presencistas» nunca na verdade engoliram muito Nemésio, por razões que deduzo ao mesmo tempo semelhantes e opostas às da relativa aversão a António Pedro. Este, fumiste e «amador», tinha fumos de aristocrata que lhe eram perfeitamente naturais, era bastante rico por filho de uma família estabelecida de roça em Cabo Verde, aonde ele nascera, não precisava de trabalhar para viver – e tudo isso repelia homens que eram membros da mediana burguesia da província portuguesa, com alguma que outra excepção. Citadinos (a não ser mais tarde Casais e Gaspar Simões, estabelecidos em Lisboa, mas Casais sempre com um pé no seu Porto natal e no Entre Douro e Minho das suas quintas), como Pedro o era, nunca em verdade os «presencistas» – sejam os sempre fiéis, os dissidentes, etc. – o foram, apesar de quanto culturalmente estavam ou faziam por estar acima do resto das gens literária. Além de que os «presencistas» estavam apostados em tomar a sério e fazer tomar a sério o Modernismo, e tropelias pelo continuado modelo de 1915-17 pareciam-lhes impróprias, e nada que ajudasse um intenso trabalho de defesa e imposição do que encontrava pela frente uma continuada hostilidade, por parte dos mais diversos sectores da tradicionalidade ou da rotina. É de supor que, para lá de antagonismos meramente pessoais desenvolvidos no meio coimbrão da juventude deles todos, quando estudavam à sombra de um dos estercos universitários da Europa, algo de semelhante se passasse com Nemésio que, além do mais, açoriano decidido a trruntar no «Continente» (como nas Ilhas se diz), se talhava com paciência e persistência uma carreira universitária que, para «presencistas», era, com alguma razão, anátema. Questões de classe, como com António Pedro, não creio que tenha havido. Mas terá havido, em comum com Pedro, um outro aspecto fundamental do Modernismo que Nemésio na poesia praticou desde aquele livro de 1935 até à hora da morte: uma aparente gratuitidade fulgurante na invenção das metáforas, um jogo – entre dramático e risonho – com os níveis de sentido e a articulação ou desarticulação do discurso poético, uma certa versatilidade que se situava na aparência para lá do «humano» que era o que os «presencistas» queriam acima de tudo (com muitas razões dentro de uma literatura que, menos raras obras, era naqueles tempos, um acervo de mediocridades, superficialidades e literatices muito aclamadas pela imprensa). Aqueles funambulismos de Nemésio não eram «sérios» – e o pobre Nemésio por outro lado viu-se doido para ser catedrático de universidade, já que esta considerava inimaginável que aquele «modernista» fizesse parte dos «claustros» insignes de ilustres quadrúpedes que hoje, em grande parte, estão substituídos pelos filhos espirituais, mais sólidos do que eles, por que têm seis pernas em vez de quatro. A contradição é saborosa. Mas o que nos importa é acentuar como não é fácil estabelecer a que ponto Nemésio (que conhecia tudo, mas se dava ares de não conhecer nada) foi sabedor e consciente de «ismos» em geral e de surrealismos em particular. Muito possivelmente foi, como se pode deduzir de alguns aspectos da sua obra (que igualmente se podem deduzir dos numerosos movimentos, grupos, revistas e personalidades poéticas cuja acção imediatamente precedeu a proclamação do Surrealismo por Breton, e a este forneceram o material e o ambiente em que «manifestar-se» de chefe que foi e ficou). Que um Nemésio como um Casais Monteiro conheciam bastante bem esses Réverdys e outros, é verificação minha. Mas o essencial subsiste: Nemésio, como depois Casais em muita poesia ulterior, não absorveram nem estavam interessados em absorver surrealismo algum (o que não é pecado nenhum, e não os faz menos grandes), para lá talvez de uma certa libertação do discurso poético que, todavia, por mais desarticulado ou barroco (no caso de Nemésio este último aspecto) que fosse, não perdia contacto com a lógica tradicional expositiva da expressão. Mais duvidoso ainda é o caso de Edmundo de Bettencourt (1899-1973), um dos fundadores da presença e logo dissidente dela, e por muito tempo apenas o prometedor poeta de um livro de 1930, muito na linha «presencista», até que, após anos e anos de obscuridade que ele mesmo desejava e de rara publicação de um que outro poema, se deixou publicar os Poemas de 1963, em que há coisas excelentes, e que foi logo aclamado como um grande precursor de quantas novas Vanguardas havia, e de surrealismos que terão existido nele, se existiram, ao nível literário, de artifício a usar, tal como em Nemésio ou Casais. Cabe aqui um curioso parentese psico-social, que diz respeito praticamente a quase todos os poetas nascidos naqueles anos 20 em que, simbolicamente, o Modernismo português dormia na indiferença do público, e a que escapámos, perdoem-me a presunção, os poetas, quase todos, nascidos entre 1914 e 1919 (ano em que nascemos eu e Sophia de Mello Breyner): a busca de um pai transcendente na geração da presença. Daí para diante, os pais transcendentes e renegados passámos a ser nós, que não tínhamos tido uma presença, não eramos professores de universidade oferecendo aos alunos um entendimento da literatura que ninguém mais lhes dava, nem vivíamos em solene e altivo isolamento como Torga, apesar da tabuleta da sua especialidade médica, ali logo à entrada de Coimbra. Porque esses pais que os grupos continuamente promoviam, para atirá-los uns contra os outros (o meu é o «maior»), o que se pode ver nas revistas literárias dos anos 50 e depois, foram Régio, Torga (outro dissidente da presença mas não menos identificável com muito dela), Bettencourt, Nemésio … (aqui entra o Surrealismo) e António Pedro que foi sol de pouca dura nas divisões e hostilidades em que o incipiente movimento logo se cindiu.

Em 1934, Georges Hugnet, um dos melhores poetas surrealistas franceses injustamente esquecido, havia publicado um livro que teve repercussão decisiva: a Petite Anthologie poétique du Surréalisme, admirável antologia pela informação e pela qualidade e quantidade das selecções. Era como que pôr ao alcance de um mais largo público numerosos textos que jamais haviam sido acessíveis fosse a quem fosse, uma vez que os surrealistas se publicavam em edições restritas, em revistas luxuosas e caríssimas, etc. (tudo sem dúvida muito harmónico com o negócio editorial e plástico que era parte da subsistência de Breton e do seu movimento, mas bem pouco com o carácter de comprometimento político que não tardaria a dividir ainda mais fundamente o que já era, desde o parisiense começo, uma continuada sucessão de excomunhões e denúncias mútuas). Note-se que aquele carácter de inacessibilidade (e as limitações tremendamente «francesas» de tantos deles, e de um homem tão universal como Breton se queria) terá sido o que largamente contribuiu para a escassa difusão (e nunca declarada implantação até muito mais tarde, em qualquer parte) de um movimento cuja influência é inescapável para entender-se a literatura mundial dos últimos cinquenta anos. Em 1935, um dos raros poetas fora da França desse tempo, e um dos raríssimos ingleses a saberem o que o Surrealismo era, David Gascoyne (n. 1916), poeta muito embebido de verdadeiro surrealismo, publicou o que ainda hoje é uma das melhores introduções ao movimento: A short survey of Surrealism, que, é claro, não havia quem lesse em Portugal, ao tempo de a descoberta do grande romance inglês «clássico» e «romântico» e «vitoriano» se processar sob o signo da descoberta francesa. A propósito, cumpre lembrar que o grande Dylan Thomas (1914-53) tem sido referido como muito marcado pelo surrealismo, desde que se estreara em livro em 1934. É possível, mas o caso é muito semelhante ao dos portugueses mais velhos, acima referidos. Já na Espanha, por exemplo, a Geração dita de 27, com Lorca à frente, teve conhecimento do Surrealismo, como não a geração presencista que em Portugal lhes correspondia, e em maior ou menor grau o encorporou à sua criação poética, sem que todavia jamais tenha havido propriamente movimento que, de resto, aqueles anos que se iam dramatizando não propiciavam. Por 1939-40, Tomaz Kim (1915-67), meu companheiro dos Cadernos de Poesia, porta por onde entrei mais abertamente na arena pública dos meus – neste ano se cumprem – quarenta anos de actividade literária, emprestou-me aquela antologia que ele obtivera e o entusiasmava ainda que moderadamente, e o livrinho de Gascoyne, que ele trouxera da Inglaterra de onde o eclodir da guerra o devolvera à pátria (note-se que, pelo nascimento, este meu distante primo pelos Grilos judaicos da Covilhã, que ambos tínhamos no nome completo e no sangue, tinha, como «pátria», Angola onde nascera).

Ambos os livros, com variáveis efeitos, haviam andado nas mãos de José Blanc de Portugal (n. 1914, em Lisboa como eu) e do Ruy Cinatti (n. 1915, e em Londres). Eu, que já andava a catar surrealismos sem bem saber aonde encontrá-los sem bússola, sofri o que não pode descrever-se como um tremor de terra. Aqui e ali, em alfarrabistas, não sei por quais milagres, encontrei preciosos volumes que ainda conservo de Eluard, de René Crevel, Aragon, etc., que por certo os compradores haviam comprado por engano e vendido logo, lavando as mãos com desinfectante. Esse período da minha juventude, como anos e anos ulteriores, foi, lado a lado com o muito juízo de tratar de arranjar o pão que não tinha, de uma dissipação incrível em submundos inimagináveis, o que nunca escondi de ninguém, mas jamais partilhei ou fiz assunto de. conversa com mesmo os meus mais íntimos amigos. Aliás, é – e perdoem-me este traço de retrato – típico da minha atitude em relação a tudo isso, a minha total incapacidade ou repugnância por qualquer aventura que não envolvesse uma pessoa desconhecida que eu passava a «conhecer» só para isso mesmo, e quando se acabava acabou-se. Assim sendo o como eu vivia, o desregramento surrealista estava nas minhas mãos. E as experiências também – apenas sucedia que eu as prosseguia a sós, o que foi uma escola tremenda, e uma lição terrível. Automatismos, transes, etc., tudo tentei praticar e por vezes consegui, da mesma forma que o sistemático deambular delirante pelos desertos urbanos e nocturnos de Lisboa e Porto (o que não é difícil encontrar em muita da minha poesia). Mas comecei, juntamente com o «aprender» lúcido de algo diverso desde dentro, a sentir um terror negro descendo sobre mim (que também está em vária poesia minha). Era, não havia dúvida, um risco de pura e inescapável loucura, por trás da máscara mais ou menos serenamente irónica que era a minha e irritava tanta gente (para mais, não indo eu às capelas literárias do Modernismo, como ia, para beijar devotamente a mão de algum «mestre»…). Por esse tempo lia eu (em tradução, que o alemão ainda me não chegara) Goethe que admiro profundamente e não é mais que obrigação de pessoa decentemente culta, e as distâncias dele em relação ao Romantismo que ele mesmo tanto ajudara a inventar, foram um dos meus caminhos de salvação. Tomei as minhas distâncias, mas fiquei a saber que o surrealismo ou o que este incluíra nos seus programas, por muito que pudesse ser, na velha tradição da mistificação esteticista- modernista, uma divertida brincadeira de arreliar o burguês, não era brincadeira nenhuma.

Em 1942, após várias publicações dispersas de poemas desde 1938, o Portugal, o Cinatti e o Kim cotizaram-se, tendo eu contribuído com simbólica parcela, para editar-se o meu primeiro livro de poemas, Perseguição. Este livro não era apenas posto sob a égide (em 1942!… quem era ele?) de uma epígrafe de René Char, sendo dividido em três partes que tinham epígrafes de Breton, Gide, António Machado. Esta escolha obviamente era muito calculada: eu colocava-me na linha do surrealismo caminhando ao longo dela, e, do mesmo passo, acentuava que a «disponibilidade» do Gide seria sempre uma das minhas linhas de conduta, tal como o grande Machado, com a sua densidade de pensamento e a sua sensibilidade aberta ao dentro e ao «fora», era um dos meus mestres de poesia e de humanidade (têm-me dado outros mestres, e nunca se lembraram deste que ali estava como que declarado). Depois das epígrafes, o que estava era uma selecção de poemas meus, desde os fins de 1938 aos princípios de 1942, a esmagadora maioria dos quais era, e de outra maneira não podia ser entendida, surrealista de forma e fundo e profundo. O que largamente contribuiu para o silêncio confuso e gélido que rodeou tão estranha coisa, e para que um par de criaturas críticas do tempo dissessem dos dislates mais memoráveis sobre uma coisa que eles não entendiam que fosse. Estes dislates deveriam os surrealistas sobreviventes buscá-los e coleccioná-los para a grande antologia da asneira a respeito deles, se não vivessem quase todos na absurda angústia de que eu exista ou tenha existido sem incomodá-los, e criticando-os muitas vezes com uma simpatia que eles têm encontrado falsa em pessoas que tanto mais gostam deles quanto menos surrealistas lhes parecem, ou dando ao gáudio público o triste espectáculo das suas brigas e quezílias com insultos e semelhantes coisas que fazem as delícias de quem não merece a décima parte do respeito que a maioria dos surrealistas, ou ex-idem, merecem. Mas, quando o surrealismo chegou a Portugal em forma de grupos logo multiplicados, em 1947, a máxima preocupação foi suprimir- me, atacar-me, distorcer o que eu acaso dissera, e sobretudo ignorar por completo, ou fazer ignorar, que aquele livro de 1942 tinha alguma vez existido. Sequer o meu velho e grande amigo José-Augusto França, nas tábuas cronológicas dos eventos, em apêndice à sua monumental A Arte em Portugal no Século XX (1974) resistiu, ou o subconsciente o traiu, a não referir, entre os eventos literários daquele ano esse livro, da mesma forma que, em 1946, se esqueceu de registar o meu livro seguinte, Coroa da Terra, o qual, cruzamento de um surrealismo ainda mais ultrapassado, com um neo-realismo sem ranço de aldeia e de semi-analfabetismo, era formado por poemas que tinham sido escritos desde os fins de 1941 aos fins de 1944. Não admira que, noutros lugares, quando eu entro em listinhas de surrealismos,pareça – como convinha – que o meu primeiro livro era Pedra Filosofal, de 1950 …

Voltemos ao 1942 do princípio do parágrafo anterior. Nesse ano, e foi quando primeiro o conheci, António Pedro que estava na Inglaterra ao serviço da BBC (e como tal era pessoa mal vista das entidades oficiais que todavia o não perseguiram nunca pelas muitas ligações e amizades que ele tinha dos seus tempos juvenis de nacionalismo literário, e íntimo amigo do admirável e malogrado Guilherme de Faria, 1907-28, com cuja poesia a primeira de Pedro se identifica muito) fundou em Lisboa uma revista luxuosamente «moderna», Variante, em que colaborei, e de que saíram apenas dois números. Manda a justiça que se diga que a revista não reflecte, de modo algum, ou faz qualquer propaganda do surrealismo. E, no entanto, António Pedro nesse mesmo ano publicava uma das grandes obras-primas da prosa e da ficção portuguesas, e sem dúvida uma das mais admiravelmente conseguidas tentativas de novela surrealista em qualquer língua, Apenas uma Narrativa. Mas era realmente «surrealismo», pelo menos na completa consciência literária dele? Há que sinceramente pôr reservas, aliás altamente reveladoras da sua complexa personalidade. Porque este livro estilisticamente e estruturalmente revolucionário transbordava de um prazer tradicional que Pedro praticava com as delícias de quem saboreia um manjar que tem tradições lusitanas desde as pompas de prosa de um João de Barros quinhentista: o gosto de explorar os efeitos da língua pelo gosto de usá-la com sumptuosa riqueza e inventiva capacidade, para ficar-se uma pessoa aí mesmo. Não sem funda razão era a obra dedicada a Aquilino Ribeiro, grande escritor que precisamente simbolizava isso, e sempre foi para modernos, para lá das suas ocasiões superiores, a perfeita imagem do que boa prosa e boa ficção não deveriam ser. Todavia, e recuando um pouco, registemos que, em 1940, António Pedro com António DaCosta (que recebia aclamação como promissor pintor de uma renovada Vanguarda) havia realizado uma exposição de pintura, num modesto andar sem os espaços das exposições que davam brado. Mas a gente «moderna» foi toda ver, e alguma dela podia perfeitamente entender que, se eles não eram declaradamente «surrealistas», eram pintores que tinham visto reproduções ou obras dos homens ligados ao movimento surrealista.

E assim chegamos, saltando um pouco, a 1947, quando se dá a formação do grupo surrealista português, sem que eu deseje demorar-me na história incerta dos anos 1942-47, que muitos têm contado cada qual à sua maneira (o que com desculpa da franqueza, considero altamente indigno da categoria deles que não precisariam de recuar-se tanto no tempo, e, além do mais sendo feiamente provinciano, é o oposto do Surrealismo, mesmo que este seja misturado com o chamado e praticado Abjeccionismo que conviria reservar para zurzir apenas a abjecção que de Portugal se apoderou, e é muito mais importante que as abjecções privadas ou públicas de cada um, por mais talento que desbaratem do que realmente têm). Quando o grupo se formou, com António Pedro de galinha dos ovos de ouro para os pintainhos que não eram na verdade da ninhada dele, ninguém me contactou para ser parte de tal coisa, nem eu busquei que o fizessem. Aquilo era realmente uma coisa de gente mais jovem que eu, a que eu não pertencia. Além de que não tinham de facto (embora já tenha sido dito que eu fui membro do Grupo Surrealista …) a mínima intenção de que eu o fosse, com aquelas inconveniências de 1942 e 1946, e o próprio António Pedro, e que a sua memória e sua amizade me perdoem, ressentia muitíssimo a minha atrevida coincidência no tempo, o que nunca impediu as nossas boas relações, e a nossa estreita colaboração em mais de uma iniciativa (como aquelas, de que me orgulho, que contribuíram para renovar o moribundo teatro português e dar aos palcos portugueses de hoje alguns dos seus maiores actores). Em Janeiro deste 1947 foi a exposição modesta mas sensacional (apesar de quanto havia de tremendamente incipiente) do «grupo» mais ou menos em força, porque já as dissidências se realizavam. E em Junho a magna 1ª. Exposição dos Surrealistas. Nesse tempo, eu colaborava na Seara Nova, aonde fazia sobretudo crítica de teatro, e os «seareiros» achavam que eu era um horrendo «comunista» que vigiavam com racionalista dedicação. Eu decidi escrever uma série de artigos sobre a exposição, e foi um bico de obra conseguir convencer aquela gente a deixá-los sair, como depois foi obter da Censura que saíssem tão integralmente quanto possível, uma vez que as Direitas rabiosas faziam griteiro reclamando polícia e o diabo. Mas saíram. E sem vaidade penso que foram do mais sereno, mais atento e mais cúidadosamente observado e escrito por alguém que sabia do que falava, que os «surrealistas» jamais receberam por muitos anos. É claro que estes artigos têm sido suprimidos e ignorados de bibliografias. E na ocasião e depois eu fui alvo de sessões públicas de insulto, com ataques de toda a ordem, etc. E que não se podia, ou o grupo então existente não podia aceitar de mim um generoso e inteligente «reconhecimento» que corresponderia a reconhecerem-me a existência. Um dos cavalos de batalha, se não me engano, era um poema com que os artigos terminavam, Ode ao Surrealismo por Conta Alheia, que considero dos melhores e mais sérios poemas que já escrevi e foi considerado um perverso ataque satírico (vindo depois das páginas que eu publicara … ). Esse poema foi depois incluído em Pedra Filosofal (1950). Todavia, o caso dos artigos era mais complicado. Com toda a seriedade da maioria dos surrealistas (seriedade que um António Maria Lisboa levou às últimas consequências terríveis), o caso é que, para alguns deles, o Surrealismo era na verdade (como de certo modo para António Pedro) uma magnificente piada que permitia uma nova originalidade, sem que a vida se jogasse nisso. E eu dissera (refiro de memória) que o surrealismo não era brincadeira nenhuma, e que as pessoas só tinham nele os seguintes caminhos: acabar em papas como o Breton, em fiéis sacristães do papa como Péret, em chefões políticos como Aragon, em loucos como Artaud, ou em suicidas como Crevel. Ou em poetas sem mais, como aconteceu com Eluard ou René Char, com comunismo ou sem ele. Ora estas não direi previsões, mas realidades perfeitamente visíveis em 1947, sobretudo a quem estivera à beira do suicídio ou da loucura (o que, é claro, não era público nem publicado), não eram exatamente o que aqueles jovens queriam ouvir. E sempre o compreendi. Menos, devo dizer, o feroz antagonismo de um Cesariny de Vasconcelos, que sempre – jamais provocado – me pareceu a coisa mais inconcebível do mundo. Porque, por pequeno, reles e mesquinho que Portugal seja, creio que cabemos perfeitamente  lá todos, e tanto mais quanto eu, há tantos anos, nem sequer vivo lá regularmente, e não faço competência a ninguém nos cafés que já nos anos 50 não tinha tempo para frequentar. Isso de ter aflições com sombras não é próprio de quem não é dos que não projectam sombra, como a personagem do conto famoso do Chamisso, romântico alemão (e bastante «surrealista», por aquele critério do Breton que consistia em proclamar surrealista, desde a fundação do universo, o último sujeito que ele por acaso lera, naquela tão irremediavelmente tão francesa maneira de descobrir a pólvora a toda a hora, com as pólvoras dos outros), personagem que vendera a sombra ao demónio, e depois se viu em chatices medonhas.

A terminar estas notas, registemos ainda algumas significativas efemérides editoriais, críticas ou semelhantes, do presente autor, relacionadas com o Surrealismo e os seus aderentes directos ou distanciados. Em 1944, naquele intervalo de 1942-47, em que haviam aparecido Perseguição e Coroa da Terra, publiquei eu, no jornal O Globo que o Casais Monteiro fazia com ajuda minha, como órgão muito perseguido por polícia e censura, e que estava ao serviço dos chamados Aliados e sobretudo da Resistência Francesa, uma página que há muito eu desejava fazer algures, e não havia naqueles anos sinistros algures aonde o fizesse, e era uma apresentação do Surrealismo, com traduções de diversas figuras do movimento originário. A página fez-se, e as traduções publicadas eram de textos de Breton, Eluard, Péret, Georges Rugnet (as quais muito em breve espero que possam ser lidas na ‘minha colectânea de traduções de poetas deste século, Poesia do Século XX, no prelo há anos). Algures creio ter contado como Casais brigou amigavelmente comigo acerca do título da página e da tradução da palavra, por achar que surrealismo era uma coisa bárbara que ele só deixou que saísse sobrerealismo; e, se havia nele simpatia ou condescendente aceitação da minha mania, posso afoitamente dizer que não havia pelo «surrealismo», nele, mais interesse e curiosidade do que ele tinha por tudo, para estar ao par, como esteve da crítica e criação deste mundo e do outro até à morte. Assim, naqueles anos, e sem que necessário seja sequer recordar os livros que publiquei, há que reconhecer que o Surrealismo foi publicado em Lisboa. Mas, valha a ‘verdade, quem poderia tê-lo lido? O jornal, em sua difusão, era perseguido pelos poderes públicos do Salazarismo, empenhados em não desagradar à Alemanha Nazi que, essa sim, publicava com luxo, e cópia de ilustre colaboração católica e das vizinhanças do velho nacionalismo literário rançoso de banha de cobra (foi, creio, por esse tempo, que um verrinoso criaturo que era um dos grandes eruditos autênticos do tempo, sem cujos estudos ainda hoje se não pode passar, Alfredo Pimenta, que começara anarquista e um dos mais curiosos e audaciosos poetas «decadentes» na viragem do século, inventou aquela famosa palavra que pela sequência sucessiva até parecia alemão, e que simboliza acertadamente as confusões mentais que fizeram nacionalistas respeitáveis, católicos fanáticos, etc., aceitar as ideologias nazis, não só em Portugal, mas por toda a parte e na própria Alemanha: tudo era efeito e resultado de uma magna conspiração muito complicada que metia tudo no mesmo saco, na mais incrível das misturadas – o «anarco-sindicalismo, social-comunista, demo-liberal, judeo-maçónico» …); o jornal era pobre de fundos que nunca chegavam ou não chegavam mais que escassamente, e não tinha força para segurar-se e distribuir-se decentemente; e não gozava das protecções e difusões de certa extrema- esquerda que, se convidada a colaborar e participar, o boicotava bastante, porque queria em verdade fazé-lo, e isto não ajudava também à difusão de um periódico, aonde, para mais, a literatura ocupava um lugar necessariamente de favor. Os literatos ou anti-literatos, ou não leram, ou não fizeram caso de tais maluqueiras metafóricas, ou sendo os futuros surrealistas, estavam quase todos ainda a mudar adolescentemente de pele, largando o neo-realismo em que alguns haviam andado envolvidos, e em busca de outra pele que ainda lhes não aparecera, além de, como fica dito, não terem ainda idade ou ambiente para notarem aquela perdida página. Claro que mais tarde, ao historiarem-se, não podiam de modo algum, nem os seus fiéis cronistas, referir tão insignificante coisa.

Quando, em 1951, e em 1952-53, o surrealismo era obras individuais e algumas brigas públicas entre os vários autores, e outros «grupos» com diversos fitos se haviam entretanto formado,  foi que, por iniciativa minha, reapareceram os Cadernos de Poesia de 1940-42. Aos fundadores que me haviam acolhido e publicado naquele tempo, e a mim mesmo, veio juntar-se um grande amigo que havia sido um dos surrealistas da primeira hora, José-Augusto França. Nessa reaparição, o critério antológico da 1.ª série dera lugar ao que já havia sido o plano de uma 2.ª que nos anos 40.não chegara a fazer-se, e a nossa preocupação era apresentar livros (ainda que «cadernos» apenas) de novos autores que nos pareciam destacar-se seriamente, ou substanciais selecções de outros em «cadernos» colectivos. Assim foi que Alexandre O’Neill publicou o seu primeiro livro de poemas, Tempo de Fantasmas (1951), aonde estavam alguns dos seus melhores versos de sempre, e que Fernando Lemos deu à estampa o seu admirável Teclado Universal, cujo valor e significado ainda não foi devidamente reconhecido a quem é um dos grandes artistas plásticos portugueses. E, com perdão de relembrar uma história esquecida, ou ignorada, Mário Cesariny de Vasconcelos não teve publicação substancial nos Cadernos, porque, e nunca soube nem quis saber porquê, estando ela já composta na tipografia, ele mesmo lá foi, se não estou em erro, destruir a composição.

Nos fins dos anos 50, ganhei uma pequena mas demorada batalha com a Portugália Editora, e que era a proposta de que, para actualizar as séries das antológicas Líricas Portuguesas que tão inestimáveis serviços prestaram (a Primeira, devida a José Régio, e a Segunda, a João Cabral do Nascimento que havia sido um dos iniciadores da ideia dos Cadernos de Poesia, dos quais, por mais velho, recusou sempre directorialmente fazer parte como nós insistíamos – e ambas criticadas ao tempo pelo autor destas linhas, c.f. o recentíssimo volume de ensaios, Régio, Casais, a «presença» e outros afins, Porto, 1977), se organizasse uma Terceira Série, na qual se incluíssem alguns poetas que não haviam entrado na Segunda e suas reedições, e que trouxesse a poesia portuguesa desde o Casais com que terminava essa Segunda até vinte anos depois (o que era altamente razoável como limite, já que, saído o livro, teriam cerca de trinta anos os mais jovens dos incluídos). Não cabe aqui a história tragi-cómica do que foi a preparação dessa antologia, com meio-mundo a recomendar-me poetas, dezenas de poetas invadindo-me de livros que jamais me haviam remetido em reconhecimento da minha existência, e numerosas pressões directas ou indirectas, para que eu não incluisse, fulano ou cicrano, sob pena de o Snr. Beltrano se recusar ofendido. Cheguei a receber uma solene embaixada política que protestava contra o facto de constar que eu não ia incluir certo poeta e escritor que· sempre me mereceu respeito e estima (e cujo papel reconheci depois, incluindo-o com muitos mais, na reedição revista e ampliada que é outro dos dramas editoriais da minha vida, com o 1.º o volume aparecido com atraso incrível, e o 2.º ainda por sair anos passados), que eu devia incluir, porque ele já tinha sido preso três vezes! Também não cabe aqui a pequena história dos equívocos ou malignidades de que a antologia foi vítima por parte de críticos que não tinham a mínima intenção de leras minuciosas e completas explicações dadas no prefácio. O caso é que, desde os fins de 1958, quando o livro saiu, ele, como nunca imaginei, tem servido para colar rótulos a toda a gente, estritamente copiados das minhas notas bio-críticas aos poetas incluídos. Claro que, entre os poetas seleccionados, os surrealistas ocupavam, como deveria ser, lugar de relevo (embora, como sucedeu com outros «grupos», a antologia não fosse «deles», e não tivesse portanto de inserir todos os amigos e simpatizantes dos principais). Assim foi que António Pedro teve largo espaço na Primeira Parte complementar da dita Segunda Série em que não entrara antes, e que, na antologia propriamente dita, figuram com relevo representativo e crítico Mário Cesariny de Vasconcelos, Alexandre O’Neill, Fernando Lemos, e António Maria Lisboa. Creio não pecar por vaidade se disser que, fora dos círculos afectos ao surrealismo que prosseguia mais ou menos em volta de Cesariny, eu terei sido a primeira criatura não-surrealista a proclamar a grandeza de António Maria Lisboa, há vinte anos. E, após tantos anos, não será indiscreto recordar que, ao tempo de procurar obter eu dos autores os dados biográficos e outras informações que alguns negaciavam ou negociavam, Mário Cesariny me deu a honra de, acompanhado de Goulart Nogueira, penetrar no antro do, como se dizia em ataques, o «Velho do Reste1o» (ou piores palavras em vez de «velho», . quando eu não cumprira os quarenta anos), creio que para comunicar-me os dados, e reiterar-me a sua aceitação de entrar na antologia aonde era mais do que óbvio que ele tinha de estar. Noite educadamente cordial.

Em 1969, em traduções de Pedro Tamen, a Morais Editores preparava-se para publicar uma muito completa colectânea dos escritos doutrinais de André Breton, Manifestos do Surrealismo, e da obra poética de Lautréamont. E escreveram-me a solicitar prefácios para ambas as edições que nesse mesmo ano apareceram. Procurei, o mais objectiva e imparcialmente possível, segundo as mais actualizadas informações e obras correlatas, situar Breton e os seus manifestos, bem como a personalidade e a obra do genial criador de ·Maldoror. Foi uma tempestade num copo de água: lá estava eu, incorrigivelmente, uma vez mais ao longo de vinte e sete anos, a imiscuir-me na propriedade privada dos surrealistas. Parecia que as reservas que eu fazia e hoje geralmente se fazem a Breton (para lá do papel decisivo que ninguém lhe nega) eram assim como que ataques ao próprio surrealismo, e à sacrossanta inviolabilidade física e intelectual dos seus sacerdotes titulares: do que não se encontra um traço naquele prefácio meu aos «manifestos», aliás, permitam-me que diga, das coisas seriamente sucintas que têm sido ditas sobre o assunto, não só em francês, mas noutras línguas que não esta eterna servidão do intelectual português, por muito que a gente ame (e eu amo) a cultura francesa, porque a conhece, e não porque leu as últimas macacadas importadas de Paris que nem sequer representam de verdade a França, mas hoje uma data de gurus universitários, todos a darem-se ares de iluminados para os centenares de alunos que vão dormir a sua marijuana ouvindo-lhes os sermões psicanalíticos, estruturalistas, etc.

Naqueles anos 60, andei eu às voltas com preparar a reedição já referida das Líricas Portuguesas – 3.ª série, e à distância, por interpostos amigos, contactei necessariamente surrealistas para as actualizações necessárias. Não é minha culpa que, pela idade, tenham todos ficado no 2.º volume que nunca mais sai.

Só voltei a reincidir em assunto surrealista, creio eu, naquele estudo que referi no início destas Notas, publicado em 1974. Não recordo se suscitou ecos. Mas, apesar de eu acentuar as qualidades de penetração e informação actualizada do Agostinho de Campos, o surrealismo lusitano (falo genericamente) assaltou-me de um sector inesperado, os respeitáveis descendentes do ilustre professor. Julgo que estavam mesmo dispostos a levar-me a tribunal por difamação e outras coisas medonhas, e eu, não por isso, mas por me dar pena uma reacção tão despropositada, parece-me que cheguei a escrever uma «resposta» emoliente. Pouco importa. Mas que tal acção não tenha ido por diante, julgo que é, por mero acaso, o único favor que devo às chamadas Revoluções de Abril.

Quando principiei, ao correr da máquina, e mal parando para verificar alguma coisa neste ou naquele volume, não era intenção minha escrever tanto, e muito menos dar-me a recordar incidentes que não contam, porque o que conta são as obras que ficam. Mas a «petite histoire» tem o seu interesse, tratando-se de uma pessoa tão suprimida ou difamada como eu tenho sido. E creio ter referido tudo, sem que alguém possa ou deva sentir-se picado ou ofendido, e serenamente, desapegadamente, sem azedume algum. Há um par de anos que me habituei a viver em estado de «licença graciosa», como se dizia no serviço público português, o que me trouxe um grande desapego que não é menos desejo de estar presente e activo, como sempre estive. E, agora, tendo escapado a um ataque de coração, segundo a intensidade e violência do qual eu tecnicamente e respeitosamente deveria ter morrido como toda a gente que sofre tal tremor de terra e de carne, sucede que estou empenhado em lutar – e espero que vencer ou protelar – com um mal mais terrível e insidioso que os médicos deixaram que impunemente se instalasse em mim. Jamais, no orgulho e dignidade (alguns amigos chamam-lhes «estóicos», e não me soa mal) que sempre foram os meus, e em caso algum, solicitei a piedade de alguém, sim o respeito a que sempre tive direito e que, por isso mesmo, me foi e é negado tantas vezes. O caso é que estou infinitamente ocupado em terminar o que anos de administração universitária e numerosas actividades pelo mundo adiante me impediram de desenvolver, e tenho mais que fazer. E, se as pessoas não puderam na sua falta de humanidade deixar-me puramente em paz (quem jamais foi deixado em paz em Portugal, a menos que notório, admirado e respeitado filho da puta?), que ao menos tenham a esperança e a paciência de contarem que eu possa ser vencido e não durar muito. De qualquer modo, e isto vai dirigido expressamente aos surrealistas e aos seus amigos directos e dilectos, lembremo-nos de que, estando uns aí e eu por exemplo aqui, estamos todos no mesmo barco, Portugal, que jamais nenhum de nós desejou imaginar que fosse mais surrealista (com a mais brutal e analfabeta violência política) que o Surrealismo que transformou as letras e as artes. Pelo que os que sabemos alguma coisa de surrealismo (concedam-me isso …), estamos na verdade mais unidos que nunca, na luta contra esse surrealismo de borra, que surgiu, misturado às esperanças de um povo, das cIoacas de Portugal. Seja surrealista o país, se é esse o seu espantoso destino secular – mas não o sejam os políticos e os seus escribas, insultando (se não se reformam e não actuam) não só uma nação cujos destinos têm nas mãos, mas o surrealismo intrínseco dessa nação, e o surrealismo particular de Breton, de Mário Cesariny, ou de quem quer que seja. E que a todos nós, um dia, a terra nos seja leve.

 

Santa Barbara, 16 de Abril de 1978

 

In: Estudos de Literatura Portuguesa -III, Lisboa, Ed. 70, 1988  p. 245-260

 

O Surrealismo em Portugal

Por ocasião do 60º aniversário da morte do poeta António Maria Lisboa realiza-se em Lisboa, de 18 a 21 de novembro corrente, o Congresso Internacional “Surrealismo(s) em Portugal”, focalizando “como nunca até então se fez em Portugal, um dos movimentos literários, filosóficos e estéticos mais importantes do século XX português”. Sob esse mote, aqui trazemos um texto ensaístico de Jorge de Sena, originalmente escrito em inglês e datado de 1974, provavelmente destinado a uma conferência, no qual sinteticamente nos apresenta suas observações sobre o movimento e sobre alguns dos artistas que a ele aderiram.   

 

Grupo Surrealista de Lisboa, Portugal 1949. Na foto, da esquerda para a direita : Henrique Risques Pereira, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa e Fernando Alves dos Santos. I Exposição dos Surrealistas, Junho/Julho, 1949.

 

O surrealismo como movimento organizado começou em Portugal em 1947, no despertar do renovado interesse sobre ele, por todo o mundo, logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. O movimento como tal não durou muito, mas deixou uma profunda marca quer na literatura (sobretudo na poesia) quer na pintura.

Portugal foi talvez o primeiro país fora da França onde o surrealismo foi mencionado, poucos meses depois da primeira proclamação do novo ismo de Breton. Aconteceu isto, na mais insólita maneira, por um crítico imensamente conservador,[*] num prefácio a uma antologia de poemas de um bem firmado poeta simbolista, publicado em 1925. O crítico estava bem informado acerca dos fins e estilos do movimento na literatura, e mencionava-os para condenar tal anarquia que ele via como resultado último de toda a Vanguarda. No fim dos anos vinte e trinta, todavia, as actividades surrealistas como tal não tiveram repercussão, em Portugal, nos círculos de Vanguarda. Há que esperar até 1942, quando o meu primeiro livro de poemas apareceu, incluindo exemplos de escrita automática e escudado com epígrafes de alguns escritores surrealistas. Ao contrário do que foi erradamente escrito posteriormente, eu não fui nunca membro de nenhum dos grupos surrealistas surgidos em Portugal, e a minha aspiração como poeta (o que me levou a publicar em 1944 algumas traduções de textos surrealistas) não era ser um surrealista, mas alguém que escrevia depois do que as experiências surrealistas tinham vindo fazendo e dizendo. O meu primeiro contacto com o surrealismo data do fim dos anos 30, quando tomei conhecimento da agora famosa e infelizmente esgotada antologia editada por Georges Hugnet. Aquele meu primeiro livro, tal como o segundo em 1946, foi mal entendido pelos críticos que não podiam ver nem pés nem cabeça num não declarado surrealismo que eles não conseguiam reconhecer sem um claro e polémico rótulo.

Podemos, contudo, dizer que o surrealismo era completamente ignorado em Portugal desde os anos 20 até 1942-44? Porque não atingiu formas claras, antes de 1947, como movimento? Para entender isto e responder a estas perguntas, é importante saber alguma coisa acerca do desenvolvimento da literatura e arte modernas em Portugal.

A literatura moderna, na maneira agressiva do Vanguardismo, começou em Portugal com a publicação, em 1915, da revista ORPHEU, dois números, seguidos por um único número de Portugal Futurista em 1917. O «establishment» do tempo, rotulou como loucos os poetas da primeira revista, mas apreendeu a segunda pela polícia. Destas duas revistas três grandes nomes surgiram: o poeta Fernando Pessoa e Sá-Carneiro, o primeiro agora a caminho de reconhecimento internacional como um dos grandes poetas do século, e o pintor José de Almada Negreiros. As primeiras tentativas escritas em prosa poética de Almada eram já exemplos de corrente do inconsciente antes que Joyce o tivesse desenvolvido. Outras obras destes escritores foram esparsamente publicadas em pequenas revistas depois da grande aventura de 1915-17, mas a principal corrente das letras portuguesas seguia nessa altura as linhas pré-modernistas, como se eles não existissem.

Havia algumas razões políticas para tal. De 1910 a 1926 Portugal foi uma república combatida pelos conservadores e pelos monárquicos pretendendo o retorno do trono que caíra em 1910. A arte dos modernistas era demasiado revolucionária para os conservadores, e eles eram pessoalmente demasiado conservadores (ou apenas queriam pretender que a República era demasiado ordinária para eles) para que os republicanos não se sentissem suspeitosos. Só nos fins dos anos 20 e nos 30 a sua influência se começou a fazer sentir, sobretudo porque um grupo – centrado na revista literária presença – iniciou uma campanha em apoio deles. A gente da presença, com uma ou duas excepções, contudo, se eram a favor da arte e literatura modernas, e de um renovo da cultura literária portuguesa, eram também por uma espécie de «establishment» que não viam o experimentalismo e a Vanguarda como movimentos mas apenas como uma influência literária que apoiava o que eles chamavam a expressão do humano. Era uma espécie de humanismo literário muito na linha da Nouvelle Revue Françaíse. Mas, entretanto, em 1926, um golpe militar derrubou a República e a democracia, e iniciou o regime ditatorial que só terminou em Abril último, como toda a gente sabe. A luta da literatura moderna, tal como a da arte, foi terrível durante estes anos. A independência do espírito tinha que ser defendida a todo o custo e a todo o momento, enquanto, por um lado, o regime tentava integrar os escritores e artistas no sistema, e por outro lado, a censura e a polícia coarctavam todas as tentativas de inconveniente liberdade. Para complicar ainda mais, as doutrinas do realismo socialista começaram a ser pregadas em sentido muito rigoroso e eram forte e criticamente impostas, nos anos 30, por parte da extrema esquerda, e com ela uma espécie de suspeição de toda a Vanguarda como conservadora ou burguesa decadência. Não se podia, de facto, num pais tão oprimido e onde a pobreza era um escândalo público, proclamar doutrinas de arte ou puras literatura com consciência limpa, sem de um modo ou de outro jogar o jogo oficial. Mas não subscrever o realismo socialista, ou pelo menos não aplaudir os escritores e artistas supostamente a tal comprometidos, era correr o risco de ser marcado (secretamente ou efectivamente) quase como fascista. Muitos de nós nesses anos caminhámos em corda bamba. Só no fim dos anos 30 e nos começos dos 40, ajudados pelo facto de que a guerra clarificara naquele momento os alinhamentos políticos (nem um importante ou significativo nome das letras ou da arte alinhou com o fáscio), puderam alguns jovens poetas desafiar por sua conta e risco, e ao mesmo tempo, o «establishment» presença, e a frente do neo-realismo. Durante a guerra Portugal foi neutral, mas o governo nunca escondeu as suas simpatias para com o fascismo. Estar do lado dos Aliados era uma maneira de estar ao lado da liberdade, incluindo nela a arte e a literatura. Curiosamente, o papel que poetas como Aragon e Eluard, ex-surrealistas, desempenharam na resistência francesa, e o facto de que eles eram comunistas, abriu o neo-realismo português para alguns aspectos surrealistas, ainda que se não interessassem pelo surrealismo como tal, e tornou alguns destes aspectosem moda nesses círculos. Nos anos 30 e 40, sem directa referência ao surrealismo, alguns bem informados poetas como Vitorino Nemésio, Edmundo de Bettencourt, e Adolfo Casais Monteiro, tinham já incluído nos seus poemas certas formas menos rígidas e certos meios associativos de criar expressão. Mas foi só no fim dos anos 30 e começos dos 40 que alguns jovens poetas como eu tentaram a renovação do Vanguardismo de 1915-17, tendo em vista todos os desenvolvimentos da Poesia Ocidental desde então. A diferença entre estes então jovens poetas (José Blanc de Portugal, Ruy Cinatti, Tomaz Kim, e eu, a quem normalmente são acrescentados pelos críticos Sophia de Mello Breyner e Eugénio de Andrade) e os jovens poetas que irão promover o surrealismo era que nós estávamos mais preocupados do que ninguém o conhecimento da linguagem e das literaturas além do francês e da influência francesa, que era esmagadora em Portugal, como ainda é desde o fim do séc. XVIII. Dadas as condições que descrevi, é compreensível que, desde os anos 20 até aos fins dos anos 40, nenhum movimento definido tenha começado em Portugal, e que os poetas estivessem mais interessados em experiências suas, se as faziam, do que em lançar formalmente fosse o que fosse.

O que aconteceu com alguns jovens poetas e artistas em 1947, sob a liderança de um poeta mais velho e pintor, António Pedro (1909-1967), tornou-se possível por várias e curiosas circunstâncias.  António Pedro tinha, durante os anos 30 e começos de 40, tentado, em vão, ser reconhecido como poeta e artista de Vanguarda, no despertar da geração 1915. A sua poesia desenvolvera-se de um elegante tradicionalismo em exercícios de Vanguarda que, no entanto, conservou o delicado sentido da terra e das coisas vivas que caracterizam a sua obra. Em 1940, uma exposição da sua pintura conjuntamente com pintura de António DaCosta (n. 1917) foi a afirmação de dois artistas igualmente distantes quer do neo-realismo quer da mitigada Vanguarda, ou do convencionalismo do séc. XIX que estavam ainda em voga nos círculos conservadores. De facto, as obras de ambos eram surrealistas sem o rótulo ou pretensão de serem um movimento. Em 1942, António Pedro publicou Apenas uma narrativa uma bela e poética novela que permanece uma das melhores obras surrealistas em qualquer língua. Entretanto, e até ao fim da guerra, António Pedro trabalhou para a BBC em Londres. As suas emissões, em português, foram como que a voz da liberdade – uma voz que podia levar-nos à prisão, se apanhados a ouvi-la. Voltou a Portugal como uma figura conhecida de todos e o homem que, com Mesens, tinha organizado em Londres a famosa exibição surrealista de 1945. Quando voltou encontrou um pequeno grupo de jovens poetas e artistas cansados do neo-realismo pelo qual tinham passado e queriam seguir um movimento rebelde, diferente dos caminhos que outros tinham seguido nos últimos cinco a sete anos. Ao mesmo tempo, os anos de 1945-47, quando a ditadura de Salazar estava abalada pela vitória dos aliados, permitiam uma espécie de entusiasmo e esperança de mudança, que culminou, em 1949, quando Salazar anunciou eleições presidenciais às quais um vasto espectro da «oposição» apresentou um candidato (que teve de desistir antes da eleição por causa das perseguições governamentais).

Em Outubro de 1947 tinha havido uma reunião atendida por vários poetas e artistas jovens, e por António Pedro, que foi na verdade o começo do grupo Surrealista Português, e que coincidiu com a exibição organizada em Paris por Breton como renovação do surrealismo. Mas quando o grupo, aproveitando a oportunidade da acima mencionada eleição presidencial (durante a qual o governo levantaria a censura para permitir alguma crítica da oposição), abriu uma exibição de pintura e colagens no atelier que António Pedro e DaCosta tinham na «baixa» de Lisboa, o grupo estava já separado em dois: um em torno de A. Pedro, e o outro em torno do poeta Mário Cesariny de Vasconcelos (n. 1923). O catálogo da exposição (apesar do levantamento da censura …) tinha tido a capa censurada, porque era uma declaração apoiando o candidato da oposição para a eleição presidencial. Outras publicações foram lançadas ao mesmo tempo: Prato-poema da Serra de Arga, de António Pedro, um longo poema, A Ampola Miraculosa, de Alexandre O’Neill (n. 1924), uma narrativa feita de gravuras velhas, e um Balanço das Actividades Surrealistas, de José-Augusto França (n. 1922), que se tornou mais tarde um conhecido crítico de arte. Na exposição dois importantes pintores se revelaram: Fernando Azevedo (n. 1923) e Vespeira (n. 1925). A exposição foi um grande sucesso e um retumbante escândalo, mas o grupo que a organizou não teve mais actividade colectiva como um definido grupo surrealista. No entanto, a presença do surrealismo nas artes e letras portuguesas, desde então, data daí. O grupo saído da divisão e tendo à frente Cesariny fez duas exposições, uma em 1949 e outra em 1950, e viriam a ser, anos mais tarde, a única atividade organizada, e a voz do surrealismo estrito. Em 1962, Vespeira e Azevedo, juntos com um jovem artista que se tornou mais tarde no Brasil, para onde emigrou, famoso artista, Fernando Lemos (n. 1926), fizeram uma exposição que ainda foi um sucesso de escândalo. Não cabe aqui escrever com grande pormenor uma história de todas as actividades surrealistas portuguesas, participação individual em exposições, publicações, etc. Mas de tudo isto o que resta ainda? Sem dúvida que uma definitiva presença do surrealismo na arte portuguesa, que prevalece e reforça a linha de Vanguarda. Nas letras, sobretudo na poesia, alguns poetas importantes além de António Pedro que então se converteu num reformador do teatro português com as suas ambiciosas produções. Estes poetas são o já mencionado O’Neill, Cesariny, e F. Lemos, e António Maria Lisboa (1928-53) que hoje se conta entre os melhore-s da língua. De todos eles, O’Neill é aquele que melhor funde a tradição do classicismo irónico e o realismo com a fantasia surrealista em poemas que descrevem com um agudo sentido a luta de ser-se um português em Portugal durante estes anos. Cesariny, que tinha um forte comando do lirismo ao grande estilo, sempre sacrificou – como o próprio Breton – muitas vezes os seus grandes dotes à intenção de ser um surrealista a qualquer preço. António Maria Lisboa, possesso de angustiadas e dramáticas visões teve uma trágica e curta vida, e é talvez aquele que abraçou o surrealismo completamente. Fernando Lemos, como Almada Negreiros no início da Vanguarda em Portugal, e António Pedro depois, trouxe à poesia a visão de um pintor imaginativo, para quem a intensidade de expressão iguala a pura compreensão das formas. Como movimento, o surrealismo, em Portugal, chegou tarde e viveu pouco. Mas a sua insidiosa presença tinha sido sentida nos anos 30 e nos 40; e os resultados da sua tardia aparição ainda pairam por sobre as artes e as letras portuguesas.

 

Outubro, 1974.

 

NOTAS:
[*] Referência a Agostinho de Campos, mencionado em dois artigos publicados em janeiro de 1974 no Diário de Notícias, sob o título “A primeira referência ao surrealismo feita em Portugal” e reproduzidos como texto único emEstudos de Literatura Portuguesa III, antecedendo no livro este aqui transcrito. A referência se repete no texto seguinte, o depoimento “Notas acerca do Surrealismo…”, que pode ser lido neste site (ver)

 

 

In: Estudos de Literatura Portuguesa -III, Lisboa, Ed. 70, 1988  p. 239-244

 

De Engenheiro a Engenheiro: Nótula sobre a correspondência entre Eugénio Lisboa e Jorge de Sena

Depois de breve introdução, transcreve-se abaixo a primeira carta que Jorge de Sena endereçou a Eugénio Lisboa.  Por acaso, apreendida pela PIDE…

 

Capa do livro em homenagem a Eugénio Lisboa
Capa do livro em homenagem a Eugénio Lisboa

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Do relevante contributo de Eugénio Lisboa à leitura crítica e divulgação da obra seniana, melhor do que as palavras elogiosas que eu aqui possa arrolar, há o testemunho material dos títulos que publicou: a incontornável coletânea Estudos sobre Jorge de Sena [1], duas antologias [2] e vários ensaios – a maioria hoje reunidos em As Vinte e Cinco Notas do Texto [3] . Com aquela assumida independência que o caracteriza, lança luzes originais, por vezes polêmicas – ou “ácidas”, como diria o próprio Sena –, mas sempre argutas, sobre a obra e o autor em foco. E, sobretudo, envoltas num savoir lire invejável, num amplíssimo background erudito, numa costura argumentativa clara e cerrada, algo escassa nos tempos que correm. Ou seja, também quando trata de Jorge de Sena, Eugénio Lisboa não foge à “agilidade hermenêutica incólume” e ao “perfil imune a lobbies” com que Eduardo Pitta [4] bem o definiu.

Dentre seus artigos, respigo a recensão [5] publicada na Colóquio-Letras, pouco depois de editado o primeiro volume da correspondência de Jorge de Sena – aquela trocada com Guilherme de Castilho. E se tendenciosamente o faço, é porque muito do que aí nos diz Eugénio Lisboa poderia aplicar-se igualmente à posterior correspondência publicada e a muita da inédita, inclusive àquela que faz de Eugénio Lisboa e de Jorge de Sena especiais interlocutores. Interlocução que, segundo penso, rapidamente deveria abandonar o ineditismo e vir a público, revelando não só um diálogo vivaz entre dois mestres da heterodoxia, como ainda muito de uma contextualização cultural portuguesa (e não só) dos efervescentes anos 70 do século findo, comentada com o à vontade da mútua confiança entre amigos.

Compreendendo apenas 35 missivas [6] – 11 de Jorge de Sena e 24 de Eugénio Lisboa – e concentrando-se entre 1972 e 1978, não resultaria em alentado volume. Mas seria substantiva o suficiente para caracterizar um excepcional diálogo entre duas personalidades fortes, dois engenheiros que, por conta própria, pavimentaram suas rotas pelas letras e nelas edificaram obras inquestionavelmente respeitáveis.

São de Santa Barbara, e apenas daí, as cartas de Jorge de Sena, que sumarizam sua vida de scholar numa universidade americana, sua produção literária, suas andanças um pouco partout sob vários propósitos, com destaque para os acadêmicos. Da parte de Eugénio Lisboa, as cartas datadas de Lourenço Marques, Pretória, Joanesburgo, Paris, Londres, Santo Amaro de Oeiras e S. Pedro do Estoril atestam, já por tais registros, a vasta e variada experiência internacional que o signatário então acumulava, conciliando a docência e as letras com a carreira ligada ao ramo petrolífero, que só no fim de 1976 por completo abandonará.

À guisa de exemplo e ratificando o que afirmo, transcrevo abaixo [7] a primeira carta endereçada a Eugénio Lisboa por Jorge de Sena, de 7 de Junho de 1972, e que, por artes escusas dos tempos então vigentes, foi logo apreendida pela PIDE. Que sua leitura sirva de estímulo a quem tenha poder decisório sobre a edição que ora advogo – a qual viria a prolongar por páginas impressas as comemorações dos bem vindos 80 anos do meu, do nosso, muito estimado amigo Eugénio Lisboa.

 

Meu caro Eugénio Lisboa

Só umas rápidas linhas para muito lhe agradecer a carta que teve a boa lembrança de escrever-me em 26 de Maio, há dias recebida, e também a remessa da revista com a sua palestra sobre a Literatura Moçambicana (se assim pode dizer-se – eu, nos meus cursos de literatura Brasileira [um “caso” de cissiparidade em relação à mãe portuguesa, que julgo que Vocês deveriam estudar, culturalmente, com a maior atenção, sobretudo na época colonial e no século XIX] sempre chamo os alunos a considerarem três ou quatro critérios que longamente, e ainda, os brasileiros confundiram: literatura sobre o Brasil; literatura no Brasil [repartida entre “estrangeiros” que incluem os fieis a Portugal, os “naturalizados” como politicamente o Gonzaga foi, os “brasileiros” radicados em Portugal, em que se contam alguns dos que tentaram, no século XVIII, a mais “brasileira” literatura, e os “naturais”] e literatura brasileira propriamente dita – e assim comecei por tratar a questão em lugar de grande responsabilidade, que é o artigo geral, muito vasto, sobre a Lit. Bras., para a futura nova edição da Enciclopédia Britânica [8], que escrevi, além de paralelo trabalho para a Lit. Port. aonde incluí necessariamente referência às lit. “africanas”) [9], que achei excelente e só o não parecerá a quem se deixe apenas irritar pelo tom “ácido” que, vamos e venhamos, V. desembaraçadamente usa. Acabo de receber um ensaio do Moser (“How African is Afro-Portuguese Literature?”), publicado agora em Review of National Literatures, II, 2, e em que ele trata o caso de maneira que a si sobremaneira importa – e está a responder aos delírios de base estritamente política e de “negritude”, com que muita gente se dá a fazer carreira por estas partes, excluindo (dessa gente) quase todos Vocês por insuficientemente ou nada pretos. Tais coisas já chegaram ao ponto de organizações negras, para protestarem contra Portugal, terem tentado (não levaram por diante) “disrupt” o simpósio de Connecticut, e as celebrações camonianas da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, só porque o Camões era português… Como a eles disse, uma vez, no Wisconsin, em situação paralela, têm os portugueses da metrópole maior representatividade ou mais liberdade política, a grande massa da população portuguesa chega à educação em melhores condições e mais protegidamente?… São Cabo Verde, ou mesmo Angola e Moçambique, assimiláveis ao Congo ex-belga, ou à Nigéria, Quénia, Senegal, etc., que nunca foram, nem em pequena escala, colónias de fixação? Em que língua escrevem os internacionalmente antologiados Senghor, Césaire (que vem deste lado), Camara Laye, Diop? Com o que ficaram grandemente embatucados. O que nada altera à minha velha posição, bem conhecida – mas demagogias baratas são outra coisa.

Tenho a minha próxima visita a Moçambique [10] como altamente importante para mim, com um conhecimento tão ocasional do que se publica e publicou (o que sempre me fez recuar de celebrar coisas que admiro, para não cair nas atitudes falsamente confundíveis dos Césares Amândios [11], o qual até a mim incluiu na incrível antologia por dois ou três “sketches” mais ou menos africanos, e, saiba Você, para poder dizer – o que, naquele tempo, não significava nada – que dois dos ditos haviam aparecido na revista da então Agencia Geral das Colónias, por obra e graça do José Osório de Oliveira que a dirigia…, ou nos humanismos do José Régio, para quem tanto fazia que um sujeito fosse da Cochinchina como da Patagónia, não apenas por respeito aos valores estéticos, mas porque não tinha a mínima noção de circunstancialidade histórica ou cultural, para além do nacionalismo literário lusitano, de fraca cepa, a que se entregara nos seus últimos anos), e para os estudos de Português aqui nos Estados Unidos (de que algum vislumbre V. cita muito a propósito). Com efeito, quanta informação directa e quanto material (livros, artigos, depoimentos, etc.) eu possa colher permitir-me-á, melhor que americanos bem intencionados, entender e apreciar o que se passa, para oferecer algo de mais equilibrado do que a palhaçada por aqui dominante. Embora, é claro, o ser eu português-nato, e branco, me corte muito da autoridade que me reconhecem para outros efeitos gerais. Partirei daqui, com minha Mulher, pelo dia 20, se o bilhete vier a tempo, a Roma, Atenas, se possível Cairo, Lourenço Marques. Depois, Luanda e Lisboa. A seguir, aproveitarei a oportunidade para algumas pesquisas na Europa, e voltarei nos meados de Setembro. Assim, mais ou menos Julho será dedicado a Moçambique.

Quanto a que a universidade aí seja dirigida por um Barbais Morosa ou vice-versa é-me totalmente indiferente. Se ele me convidar a falar lá, aceitarei. Mas não convida, e não apenas por ser o que será – mas porque a “universidade portuguesa” faz absoluta questão de me ignorar ou atacar, com algumas honrosas excepções (e muitas dedicatórias em obras recebidas – qualquer dia, eu publico um volume de dedicatórias dessa tropa e mais outras da praça literária lusitana e vai haver grandes surpresas). Que quer, meu caro, eu sou duas vezes “estrangeiro”: não estudei letras com eles ou com ninguém, vim da tarimba ao doutoramento em Letras, adquiri a nacionalidade brasileira (passaporte que possuo), e ensino nas universidades norte-americanas. Reconhecerem-me enquanto catedrático seria reconhecer que, no mundo, a tal se chega sem passar pelas partes baixas deles. Eu quáse já faço questão, por vingança biográfica, de que me não convidem – para que conste que tenho falado ou falarei em tudo quanto é universidade ilustre deste mundo (está a organizar-se em Inglaterra um convite coletivo de 12 universidades [12], para eu ir ensinar lá, a uma semana em cada uma, no 2º trimestre lectivo de 1972-3, e dois convites formais, o de Londres e o de Cardiff, já chegaram, e serei o “guest-speaker” para a conferência de escritores e críticos, em Março de 1973, no País de Gales), sem jamais ter falado em tais lugares mais ou menos impróprios. Como acabo de ser nomeado chefe do departamento de Literatura Comparada da Un. da Califórnia, poderia mesmo até, com alguma autoridade, explicar-lhes o que isso seja (a Lit. Comparada) – mas de que adiantaria em cabeças tão impérvias ao que não seja a supremacia universal (infelizmente não reconhecida urbi et orbi) da lusitanidade?

Não tem nada que desculpar-se de me citar – os textos publicados são propriedade pública, a menos que cobertos por específico “copyright” mesmo para citações (e não o fiz), ou que sejam desvirtuados fora do contexto (caso de polícia), o que não é seu caso na conferência e não o será no livro sobre o Régio. Cumpre-me a mim agradecer o relevo que me é dado. Apenas gostaria de observar que se tem insistido muito no meu lado ácido, sem se insistir igualmente no meu lado brando: nunca ataquei ou insultei ninguém especificamente (e tenho sido das pessoas mais relesmente insultadas, como me informa regularmente, há muitos anos, a agencia de recortes), mas sim situações e estados de espírito condenáveis que algumas pessoas poderiam representar (o que é apontado por um dos fragmentos que V. cita), tenho escrito altamente bem de muita gente a quem não devo amizade, e poucos têm, tanto como eu, posto a crítica acima de antagonismos pessoais ou ideológicos. A lenda da minha violencia (não no seu caso) tem sido uma das armas forjadas contra uma imparcialidade que fere vários interesses estabelecidos ou a estabelecerem-se. O que eu uso é de uma coisa rara em Portugal – a ironia, coisa escandalosa na pátria do varapau e do arroto.

Quanto a que não tenham dado aí pelo Guerra da Cal, aliás meu amigo, não deixa de ser irónico resultado da justiça imanente – porque pouca gente destas bandas têm fruído tanto, e em tão alto nível, dos favores super-oficiais e universitários do Jardim da Europa, com safaris e tudo. O que não é o meu caso, nem nunca aceitei que fosse (e ainda no Verão passado recusei delicadamente um convite mais ou menos oficial para ir a Angola, que me foi feito em Lisboa). Aceitei, sim, recentemente, o convite oficial para tomar parte no Colóquio de Camonistas em Lisboa, porque sei o que foi a luta – e o triunfo que isso representa – de gente limpa e leal dentro da “universidade”, para que fosse convidado. E, provavelmente, não irei a Lisboa em Novembro, porque a reunião quase coincide com a do juri internacional do Grande Prémio Internacional de Literatura de Books Abroad, a que pertenço, que desejo arrancar para a língua portuguesa [13], e que é, por certo, evento mais importante (acerca do outro, falam os meus livros sobre Camões, e o mais que conto fazer por ele).

Como vê, meu caro, escrever-me pode às vezes ser pior do que tocar a campainha para matar o mandarim. E, sobretudo escrever-me informalmente – ninguém é menos palaciano do que eu, ou mais detesta os engravatamentos e brilhantinas que até os “hippies” religiosamente conservam em Portugal (ou não fossem filhos das boas famílias deles) – verá no meu próximo livro de poemas, a sair, um terrível contra tudo isso e mais alguma coisa – o que não quer dizer que, por sistema, aprecie a má criação que hoje impera naquele mesmo lugar do orbe (ó tu, Sena, eh pá, etc.), e com que a falsa juventude julga que acerta o passo pelo resto do mundo.

Até breve, pois. E creia na melhor estima e simpatia do sempre seu

(ass.) Jorge de Sena

 


NOTAS:

[1] LISBOA, Eugénio (Compilação, organização e introdução). Estudos sobre Jorge de Sena. Lisboa, IN-CM, 1984

[2] LISBOA, Eugénio. (Prefácio e seleção). Versos e alguma prosa de Jorge de Sena. Lisboa, Arcádia/Moraes, 1979 e LISBOA, Eugénio. Jorge de Sena. Lisboa, Presença, 1984.

[3] LISBOA, Eugénio. As Vinte e Cinco Notas do Texto. Lisboa, IN-CM, 1987

[4] PITTA, Eduardo. “Perfil de um amigo”. Blogue “Da Literatura”, 8 de maio de 2010, ver (http://daliteratura.blogspot.com/2010/05/perfil-de-um-amigo.html)

[5] LISBOA, Eugénio. “Sena: o primeiro volume da Correspondência”. In: —. As Vinte e Cinco Notas do Texto. Lisboa, IN-CM, 1987, p. 51-57.(rep. de Colóquio/Letras nº 71, janeiro de 1983)

[6] A listagem é de Mécia de Sena.

[7] Com autorização de Mécia de Sena, e a partir de fotocópia do original datilografado que gentilmente me forneceu, acompanhada da seguinte observação: “A carta que aqui lhe envio é precisamente a que estava na PIDE”

[8] Os dois textos mencionados encontram-se em SENA, Jorge. Amor e outros verbetes. Lisboa, Ed. 70, 1992, p. 233 -272

[9] Neste longo trecho parentético, são de minha responsabilidade os colchetes aqui inseridos. GS

[10] Visita efetivada entre 7 de julho e 01 de agosto.

[11] Amândio César, autor ligado ao regime, publicou em 1972 uma Antologia do Conto Ultramarino, depois de publicar Parágrafos de Literatura Ultramarina (1960), Algumas Vozes Líricas da África (1962), Elementos para uma Bibliografia da Literatura e Cultura Portuguesa Ultramarina e Contemporânea (1968) e Novos Parágrafos de Literatura Ultramarina (1972)

[12] Este “tour” de conferências efetivamente assim ocorreu.

[13] Sena tinha em mente o nome de Carlos Drummond de Andrade. A propósito deste prêmio e dos esforços que Sena empreendeu junto a Drummond, ver o elucidativo artigo de Frederick Williams “Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Sena and International Prizes: a Personal Correspondence”, In: PICCHIO, Luciana S., org. Quaderni portoghesi 13-14 (Jorge de Sena), Pisa, Giardini, 1985, p. 331-358

 

In: Martins, Otília & Almeida, Onésimo, orgs. Eugénio Lisboa: vário, intrépido e fecundo – uma homenagem. Guimarães: Opera Omnia, 2011 p. 143-149

 

De Eugénio Lisboa

Em outubro de 2013, Eugénio Lisboa lançou o 3º volume de suas  memórias —  Acta est fabula — , desta vez revisitando pela escrita a sua Lourenço Marques  entre 1955 e 1976 (abaixo, áudio com a apresentação do próprio autor). Das várias personalidades recordadas nesses vinte anos  conta-se Jorge de Sena, que, lembremos, esteve em Angola e Moçambique em 1972. No capítulo a seguir transcrito (gentilmente facultado pelo autor), o foco incide sobre o encontro e a amizade entre essas duas marcantes personalidades da cultura portuguesa.

 

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Ainda antes do suicídio de Montherlant, ocorrera, em Lourenço Marques, um acontecimento de vulto: a visita a Moçambique, de Jorge de Sena, acompanhado de sua mulher, Mécia, a convite da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra. Chegou no dia 7 de Julho e partiu em 31 ou 1 de Agosto (a 2, já estava em Luanda e em 30, ainda estava em Lourenço Marques).

Na altura em que visitou Moçambique, Jorge de Sena estava já, como Professor, em Santa Barbara (California), para onde se mudara, em 1970, deixando a Universidade do Wisconsin. E tinha, a seu crédito, uma obra importante, abarcando a ficção, a poesia, o teatro, o ensaio e a crítica. Vinha precedido de uma reputação de homem temível, de difícil abordagem… As reputações são o que são: a de Sena parecia-se muito com a de um homem talentoso com uma ponta de génio, mas insaciável e mesmo à beira do intratável.

Esperei para ver. O velho bardo de Stratford, no seu Henrique V, punha-nos de sobreaviso, em matéria de reputações: “A reputação é um instrumento de sopro que é posto a ressoar pelas suspeitas, os ciúmes, as conjecturas.” O Cisne sabia do que falava.

Durante a sua estadia em Moçambique, Sena conferenciou em mais de um local. Se bem me lembro, falou uma noite, na Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra. Depois de uma visita à Ilha de Moçambique, iria, apresentado por mim, no “Teatro Gil Vicente”, no dia 25 de Julho, dissertar sobre o vocabulário de Os Lusíadas, e, depois, no dia 30 faria uma conferência na Universidade de Lourenço Marques, apresentado por Maria de Lourdes Cortez.

Mas, antes de tudo isto, tive ocasião de conversar com Jorge de Sena e sua mulher, em nossa casa e em casa do Rui Knopfli. Falado, Jorge de Sena nada tinha de um dragão: pelo contrário, não só era um brilhante conversador, como era, também, um verdadeiro charmeur. Era de uma extraordinária subtileza, no modo como dividia a sua atenção por todos os presentes, não esquecendo ninguém, nem as crianças.

Quando, certa feita, telefonou, uma manhã, para nossa casa, a Geninha, que andava na fase de “ser ela a atender ao telefone”, pegou no dito e encontrou, do outro lado da linha, o Jorge de Sena. Este, em vez de lhe pedir logo que lhe passasse o pai, esteve uns bons minutos de conversa com ela, antes de lhe pedir, por fim, o favor de lhe passar “o paizinho”. A Geninha, é claro, achou aquilo o máximo e ficou a adorá-lo: na reunião, em nossa casa, com o casal, não prescindiu de estar presente e era toda ouvidos. Ela era muito sensível ao brilho das conversas e o brilho irresistível – e solidamente fundamentado, não superficial – do escritor fascinou-a por completo (a Geninha tinha nesta altura 13 anos incompletos). Muito mais nova, a Manucha também não arredou pé e também com ela Jorge de Sena partilhou a sua atenção.

A “conversa” de Sena não era uma conversa qualquer e o seu “brilho” não era um foguetear vazio. Sena convocava, com mestria e leveza, todo um imponente aparato erudito com que enriquecia – sem a tornar pesada – a sua conversa. Raramente tenho conhecido um conversador deste gabarito. No livro Entrevistas – 1958/1978, recentemente publicado, poder-se-ão ler as várias entrevistas que deu, durante a sua estadia em Moçambique, muito em especial, a que concedeu ao Rádio Clube de Moçambique, em 19 de Julho. Ela dá uma ideia do que era e de que era feita a “conversa” de Jorge de Sena, embora, à “leitura”, falte a enorme vitalidade da sua impressionante presença física. É que Jorge de Sena tinha uma impressionante presença: era alto, bem-parecido e tinha uma voz admirável e extremamente bem colocada. Era um grande senhor da língua portuguesa e era um grande senhor tout-court. Estas qualidades não “aparecem” todas, necessariamente, nos textos escritos, às vezes de uma agressividade e contundência quase intoleráveis e veiculados, por uma sintaxe impecável, sim, mas cheios de circunvoluções, de subordinações, de apartes, de interpolações, que os tornam muito menos atraentes do que a sua conversa solta e bem apimentada. De qualquer modo, foi um privilégio e um imenso prazer conhecê-lo. Era um homem extremamente generoso com o seu tempo e com a partilha do seu saber. Creio que deixou, em Moçambique, além de admiradores, amigos que o não esquecem (muitos não estarão já a viver ali).

Na apresentação que dele fiz, no Gil Vicente, terminava com estas palavras, que aqui quero deixar transcritas: “Resta-me apenas, como moçambicano – perdoe-se-me a momentânea insolência de usar esta pestiferada palavra –, como moçambicano cuja pátria é também a língua portuguesa, agradecer ao Professor Jorge de Sena, ao escritor Jorge de Sena e, também e muito particularmente, ao Jorge de Sena de todos os dias, o privilégio da sua visita a Moçambique, com tudo quanto ela nos trouxe: ensinamentos – e de que modo! –, convívio de uma vivacidade e de um estímulo, como nunca conheci nenhum, brilho, apetência de viver e conhecer e, sobretudo, a imensa vergonha em que ficamos todos, por vermos como trabalha por todos nós, lá fora, um homem que deixámos fugir. Como diria o delegado do Ministério Público de um seu poema escrito há onze anos, “[ … ], a extensão do crime escapa-nos!”.

Na conferência que fez na Universidade, com a sala a deitar por fora (literalmente), Jorge de Sena foi apresentado, com a subtileza e minúcia que caracterizam a sua escrita (e também a sua fala), por Maria de Lourdes Cortez, para cima de quem foi atirado o ónus dessa tarefa (politicamente ingrata?). Mais uma vez, Jorge de Sena fez uma demonstração prática daquela afirmação do ficcionista francês Barbey D’Aurevilly, segundo o qual, “estar acima do que se sabe é coisa rara.” Para uns, segundo o autor de Une Vieille Maítresse, a erudição era “um fardo”, e ficavam abaixo dela; para outros, era, por assim dizer, “um pedestal”, e ficavam em cima dele. Este segundo caso era o de Sena.

Não vou deixar passar o registo de um incidente que decorreu no dia em que fez a conferência por mim apresentada no Gil Vicente, por ser revelador de um outro lado do grande escritor: a sua profunda vulnerabilidade à crítica, sobretudo se vinda de um personagem insignificante (já Valéry observara que qualquer rafeiro nos pode infligir uma ferida mortal). Na véspera da conferência – dia 24 – recebera a notícia da morte, no Brasil, do seu velho amigo Adolfo Casais Monteiro, o que o deve ter deixado um tanto deprimido. No dia da conferência, de manhã, salvo erro, alguém lhe telefonou de Lisboa, informando-o de que um escriba qualquer mordiscara, levianamente, no seu livro de traduções de poesia – Poesia de 26 Séculos – há pouco saído. Sena ficou a ferver o dia todo e, ao fim da tarde, entrou no “Teatro Gil Vicente”, em estado de profundo nervosismo.

Era aquele o primeiro espaço público de que dispunha, para um ajuste de contas. E aproveitou-o! Após a minha apresentação, que agradeceu cavalheirescamente, em vez de “entrar em tema”, como se diz, apropriou-se de uma boa fatia do tempo de que dispunha, para dar escape à sua fúria contra o escrevinhador lisboeta… O público, é claro, ficou perplexo e, pouco afeito àqueles submundos da República das Letras, pouco terá entendido do que se estava a passar. Despejado o saco, Sena lá sossegou e fez uma conferência sobre Camões, como ele sabia fazer. À saída, fintou habilmente os que o queriam cumprimentar e dirigiu-se, ansioso, para o sítio onde se encontrava a sua mulher, inquirindo-a com o olhar. E só quando ela, discretamente lhe deu a bênção (“Andaste bem”), é que ele, descontraído e sossegado, se aprestou a receber as devidas homenagens.

Durante toda a viagem por Moçambique, Sena falou claro e vicentino, embora não se entregasse a provocações de carácter político. Mas disse sempre o que tinha a dizer. Aliás, logo numa entrevista dada ao Notícias, no dia 16 de Julho, teve o cuidado de informar: “Não estou aqui integrado em comemorações nenhumas. Não venho em romaria. Estou em Lourenço Marques a convite da Associação dos Estudantes de Coimbra, o que considero uma atenção especial.”

Depois desta visita, encontrei-me duas vezes com Jorge de Sena: em Londres e em Paris. E, de ambas, pude confirmar a impressão que dele colhera, em Moçambique: a de uma das mais carismáticas e impressivas figuras da nossa cultura e, ao mesmo tempo, a de um homem de grande encanto pessoal e de extrema generosidade.

Fiquei sempre a sentir por ele um grande afecto, o que não quer dizer que tenha sistematicamente concordado com tudo o que fez, disse ou escreveu. Nem tinha que estar: se alguma lição forte ele nos deixou, foi a de um espírito de grande independência. Ser igualmente independente é a melhor maneira de lhe prestar homenagem. (Já de regresso aos Estados Unidos, Jorge de Sena escreveu-me, perguntando-me se quereria ir para Cardiff, como leitor de Português. Seria só um ponto de passagem: a seguir, ele arranjaria maneira de me fazer ir trabalhar com ele, em Santa Barbara. Fiquei lisonjeado, mas não aceitei. Dei-lhe uma desculpa qualquer, mas a verdade é que não estava ainda preparado para deixar Moçambique: demasiadas coisas ali me prendiam.)

 

In: Lisboa, Eugénio. Acta est fabula. Memórias III –  Lourenço Marques Revisited (1955 e 1976). Guimarães, Opera Omnia, 2013 p. 405-410

 

De Patricio Ferrari

O conceituado investigador da obra de Fernando Pessoa, que acaba de editar, em co-autoria com Jerónimo Pizarro, o  livro Eu sou uma antologia, destaca neste depoimento três observações feitas por Jorge de Sena — relativas aos “35 Sonnets“, ao heterônimo Ricardo Reis e ao heterônimo Alberto Caeiro —  considerando-as inovadoras nos estudos pessoanos e ainda muito pertinentes décadas depois de enunciadas. 
 

74. Notas sobre O Físico Prodigioso – algumas figuras

[LER E RELER JS – 74: Pedro Eiras]

Neste ensaio, Pedro Eiras relê o percurso de iniciação vivido pelo protagonista de O Físico Prodigioso a partir de “figuras” que elege como fulcrais. Herói ao mesmo tempo fáustico e inseguro, experimental e diabólico, o físico acaba por descobrir, para lá do apetite pela vida, a aceitação da morte. Para viver a física, deve recusar a metafísica: ser terra, corpo, desejo e dissolução. 

Desenho de João da Câmara Leme (1930-1984)
Desenho de João da Câmara Leme (1930-1984)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Com o passar dos anos, duas observações pessoais que Sena fez sobressaem na minha mente. A primeira é em relação ao diabo. Uma vez num seminário ele prestou um testemunho comovido da existência duma força maligna com a qual ele tivera uma experiência pessoal. Não entrou em pormenores, mas disse-nos que essa força independente era real, e que tentou destruí-lo e que o teria vencido se Sena não tivesse mudado de rumo.

Frederick G. Williams (2007: 152)

 

1. Algumas figuras: um campo de forças.

 

Eis como se inicia O Físico Prodigioso:

 

Balanceando o erecto corpo ao passo do cavalo, vinha descendo a encosta. O sol, muito alto ainda, iluminava de crepitações o vale que, selvático, se abria ante o seu olhar que pervagava abstracto, sem distinguir o mato que floria, as pedras que rebrilhavam pardas e cinzentas, os pequenos animais que esvoaçavam, corriam, rastejavam, ou se ficavam suspensos, sem temor, fitando a mole imensa e caminhante de cavalo e cavaleiro. No fundo do vale, por entre os renques de choupos e salgueiros, entrecortada estava a chapa metálica e estreita de um rio. Foram para ele descendo, o cavaleiro, na mesma distracção absorta, sofreando o passo, que se apressava agora, do sedento cavalo, cujas narinas se dilatavam. O manso ruído de águas entre seixos e o suave dançar das folhas do arvoredo ao sopro de uma brisa ténue fizeram que o cavaleiro despertasse para o calor que sentia, o cheiro acre de suor e pó, que dele e do cavalo era mistura, e um cansaço dos membros e da boca seca. Ele próprio dirigia a descida (Sena 1966: 19)

 

Suspendamos a leitura, mesmo se este parágrafo continua, ininterrupto, atravessando várias páginas. O que acontece aqui? Certamente a verticalidade de um corpo sobre a horizontalidade de uma paisagem. Há uma colina a descer, é certo, oblíqua; mas o olhar do cavaleiro “pervagava abstracto, sem distinguir”: como se todas as diferenças deste mundo natural, ainda não humano, fossem apagadas. Pelo contrário, o cavaleiro não é indiferente, sobretudo não nos é indiferente, se toda a narrativa, embora heterodiegética, for orientada pelo seu ponto de vista, para não dizer ponto de fuga. Como se assim pudéssemos ser também nós, leitores, desde o primeiro instante, físicos prodigiosos.

Por ora, assinale-se esta verticalidade que desequilibra a paisagem; serão vários os desequilíbrios, mesmo se (ou porque) o cavaleiro está bem equilibrado na sua montada. É que este quase-centauro inaugura um regime de funcionamento da paisagem: “o cavaleiro, na mesma distracção absorta, sofreando o passo, que se apressava agora, do sedento cavalo, cujas narinas se dilatavam”, depois “o cheiro acre de suor e pó, que dele e do cavalo era mistura”, finalmente – “Ele próprio dirigia a descida”. Não será uma descrição da psique, entre o desejo do id e o domínio do ego? Ou a irrupção de uma linguagem de controlo e auto-conhecimento, inaudita na natureza, e contudo continuando a natureza? O físico, porque é dele que se trata, começa por ser aquele que tem poder sobre a física, isto é, sobre o seu próprio corpo natural ou sobre a natureza tout court. Ou talvez não. Se esta cartografia vertical do domínio é a tese da primeira página de O Físico Prodigioso, eu procurarei, aos poucos, os lugares do desdomínio.

Regresso à horizontalidade, aqui: “O sol (…) iluminava de crepitações o vale que, selvático, se abria ante o seu olhar que pervagava abstracto, sem distinguir o mato que floria, as pedras que rebrilhavam pardas e cinzentas, os pequenos animais que esvoaçavam”. O que há de estranho nesta frase? Certamente a corrente de orações relativas, a arrastarem a atenção do leitor de uns elementos para outros, agora sem centro de referência, numa quase indolente indiferença (a do próprio físico, a nossa) entre tudo o que existe. A própria frase se faz “horizontal”. Tudo nela é preciso (necessário e nítido), mas nada nela é central: o ponto de fuga transforma-se sem parar. Paisagem indiferente, e já imanente. Mas a imanência é vista do alto do cavalo (que, pelo contrário, está imerso na sede, e portanto no desejo); a focalização acaba por retornar ao físico, demasiado superior. Como escreve Luciana Stegagno Picchio, há nesta sequência um cavaleiro “qui descend la colline enveloppée de lumière: protagoniste et différent, surhomme, dès la première ligne” (1985: 122). Mas essa super-humanidade, julgo eu, é precisamente o que ainda o retira à paisagem. O cavaleiro deverá descer à terra.

 

2. Figuras: horizontalidade, verticalidade.

 

Por enquanto, guardemos esta paisagem, ou melhor, este contraste anterior à paisagem: horizontalidade indiferente de águas, plantas, bichos – verticalidade de um cavaleiro que acorda para o mundo. Não chega a ser uma imagem, mas é a promessa de todas as imagens, e também a negação delas, se o cavaleiro descer do cavalo, se o centauro se desfizer, se o desejo assaltar o super-homem.

Contra as sequências de relativas, surgirão algumas figuras de desordem. Serão de duas ordens. Por um lado, uma movimentação no espaço horizontal: o cavaleiro percorre a paisagem. E, onde quer que pise, instaura a verticalidade: transporta a verticalidade com ele, isto é, a insolência de um olhar sobre. Desequilíbrio do espaço por irrupção do super-homem. Por outro lado, uma movimentação na própria verticalidade, que resolverá aquele desequilíbrio. É assim que o cavaleiro desce da montada, conhece as três donzelas, depois Dona Urraca, ganha uma alma; mas esse percurso de queda continuará ainda, até o cavaleiro morrer e ser enterrado. Percurso de imanentização, pelo qual o homem abdica da verticalidade. Assinalemos já, não haverá simples síntese: porque do corpo irreversivelmente caído se erguerá uma roseira inebriante, gerando novos físicos. O ciclo recomeçará. Mas acho importante pensar que o físico tem de perder a verticalidade: é esta paisagem inicial que deve ser desfeita.

Movimentos na horizontalidade e na verticalidade: eis uma cartografia sem lugares, que apenas assinala devires. E também a axiologia dos breves estados: porque o cavaleiro vertical é estranho na paisagem horizontal, porque o domínio sobre o cavalo é diferente da submissão à terra. Seria preciso pensar O Físico Prodigioso a partir desta gramática de diferenças. E o espaço é tão marcante a este nível que o próprio corpo de Dona Urraca, doente, quando o físico a vê pela primeira vez, é como uma paisagem desigual; cito apenas um excerto de uma descrição maior:

 

O pescoço era longo, e magro como os ombros. Mas da cava peitoral das clavículas os seios avançavam fortes, ainda que descaídos, em curva e contracurva, que mamilos crespos, largos e escuros, coroavam. Depois, a cinta era estreita, e as ancas, ossudas e largas, espetavam levemente as pontas de seus ossos, de que a barriga fluía redondamente como que precipitando-se no umbigo que parecia aquele buraquinho a meio de uma água que se esgota. E, numa onda que se encurvava, o ventre descia para uma altura cuja outra encosta um negro matagal cobria, sumindo-se no fino vale das coxas unidas. (Sena 1966: 37)

 

É de um corpo que se trata, mas parece apenas outra paisagem, como no início do texto. O físico vê (é o narrador que enuncia, mas o ponto de vista é do físico: “O cavaleiro olhou-a assim minuciosamente” (ibidem)) o corpo de Dona Urraca como uma paisagem. Nada é indiferente: os seios são coroados por mamilos, as ancas espetam ossos, a barriga flui, o púbis cobre e desaparece entre as coxas. Nem falta, sintomaticamente, uma rede de metáforas e comparações que indiciam a paisagem natural: “a barriga fluía (…) umbigo que parecia aquele buraquinho a meio de uma água que se esgota (…) numa onda que se encurvava (…) outra encosta um negro matagal cobria, sumindo-se no fino vale”. Mar, montanha, vale, Dona Urraca é uma horizontalidade cheia de lugares verticais. Apenas falta, para nomear esta paisagem, o desejo. Ele chegará na página seguinte: “Ondas tépidas percorreram o jovem, que viu, dentro do seu próprio corpo, as deusas enovelarem-se-lhe no baixo ventre, e se abaixou para elas, com os lábios entreabertos.” O desejo chegará, sim, mas para exigir ao cavaleiro que se baixe, desmonte do seu saber teórico, seja terra. E esta descida não é uma escrita que contém o erotismo; já deve ter ficado claro que a própria escrita é o erotismo. Na expressão de Luís Adriano Carlos, se a nudez “aparece pela mediação da palavra poética, é o discurso enquanto corporalidade que (…) se torna objecto de uma erotização e de um desnudamento radical” (1999: 171).

 

3. Figuras: devir, retorno.

 

A estes movimentos no espaço é preciso, na lógica complexa da novela, sobrepor uma rede de movimentos no tempo. Estes são provocados voluntariamente pelo físico e estão investidos de desejo (enquanto o movimento no espaço pode ser apenas acidental). Eis a primeira ocorrência: “E, pondo novamente o gorro na cabeça, mandou que elas, se eram gente, o não tivessem visto ainda. O que logo aconteceu.” (Sena 1966: 26). O físico tem a possibilidade de promover um retorno ao passado, anulando a História. Mais adiante, Dona Urraca e as donzelas reconhecem nele a possibilidade de devolver à paisagem a plenitude perdida: “ele alteou bem erecto o corpo, e, fitando o céu, levou as mãos ao gorro, e disse em voz baixa, o mais firmemente que pôde: / – Que tudo reverdeça.” (60). De passagem, lembro que esta posição, “bem erecto o corpo”, ecoa o primeiro surgimento do físico na novela, quando “Balanceando o erecto corpo ao passo do cavalo, vinha descendo a encosta”; e esta sugestão fálica acentua-se com o gorro mágico, glande simbólica.

O que é provocar um retorno do tempo? Certamente uma cura analítica demasiado fácil. O físico recupera o passado para negar o presente; podemos falar de fuga. Embora se apaguem os erros cometidos, nada se corrige verdadeiramente. Os primeiros seis capítulos da novela são pródigos em retornos, mas o físico só devagar aprende a melancolia de um domínio demasiado previsível. Avança por fugas. Depressa aprenderá que a História (a sua própria história) não pode ser liminarmente recusada, que o próprio terror deve ter lugar. Por isso nos últimos seis capítulos o físico nunca fará regredir o tempo. O que há nesses capítulos, sim, é um rejuvenescimento miraculoso: torturado, exangue, o físico alcança a sepultura de Dona Urraca: “caiu de costas a seu lado e, pouco a pouco, à medida que o seu estertor se tornava mais nítido, as chagas iam desaparecendo, o cabelo crescendo louro, as feições recuperando os traços desaparecidos. Era como um deus, quando todos viram que expirara.” (1966: 131). Mas aqui o tempo não retorna, não se apaga o devir com os seus acidentes dolorosos; apenas se reivindica uma beleza que sempre esteve lá, invisível, torturada.

Eis-nos perante uma questão fulcral em Jorge de Sena. Lembrem-se as tantas páginas de Sinais de Fogo em que o protagonista, Jorge, vive obcecado com o facto de Mercedes, sua namorada, já não ser virgem. Não há solução: Jorge não é um físico prodigioso, não pode fazer com que o tempo retroceda a um momento (o verão anterior, na Figueira da Foz?) em que Mercedes seja virgem outra vez. A virgindade perdida é o ícone exacto do tempo enquanto irreversível: assim, todos os instantes são virgindades que se perdem. Na vida sexual de Mercedes, Jorge pode temer a sua própria perda de inocência, a irreparável consciência do devir. O que define, forçosamente, Sinais de Fogo como um Bildungsroman, aliás menos marcado pela decisão de vencer o tempo e o mundo quanto de resistir ao desgaste do devir, como se, na expressão de Jorge Fazenda Lourenço, “tornar-se poeta fosse um acto de resistência” (2007: 68).

Há talvez duas soluções para essa dor, apenas duas, se o retorno miraculoso do tempo não serve, como aprenderá o próprio físico. Por um lado, é possível encontrar novas virgindades mesmo no desgaste do tempo, reinventar a origem da experiência mesmo na repetição das experiências. Encontramos essa solução em Sinais de Fogo:

 

Não tinha sido afinal uma experiência nova. Tinha sido, pelo contrário, a mesma experiência de sempre, como nova. E nisso estava toda a diferença. Nisso estava que eu me sentisse tão plenamente um homem. E, se me parecia que deixara de ser uma criança, era porque, de cada vez que acontecia uma experiência destas, era como se um novo grau de consciência e de sensação nos relegasse a uma memória distante e imprestável tudo o que, antes, igual experiência tivesse sido. Todavia, distante e imprestável, não por inútil, e sim por superada. (Sena 1979: 178-179)

 

É uma pequena diferença subtil. O físico cancela realmente o tempo; Jorge, de Sinais de Fogo, cancela sem cancelar: “era como se um novo grau de consciência e de sensação nos relegasse a uma memória distante e imprestável tudo o que, antes, igual experiência tivesse sido”. O físico perde o tempo no imprestável absoluto, para não sofrer; Jorge admite o imprestável como superação, descobrindo que todas as vezes são a primeira vez, todo o tempo é agora.

Mas há uma segunda possibilidade de enfrentar a dor: não anular o tempo da experiência, como faz o físico nos primeiros seis capítulos, não encontrar o agora como superação de todos os agoras, como faz Jorge em Sinais de Fogo, mas sim, simplesmente, recusar o retorno do tempo. Aceitar o desgaste do tempo. Morrer.

 

4. Figuras: física, metafísica.

 

Estes são os movimentos de uma cartografia possível. Podemos rever estas operações falando simplesmente de física e metafísica, isto é, paisagem e humano, devir e retorno do tempo. Ou ainda: condição natural e magia, consciência e inconsciência. Cartografar, talvez, as ligações entre esses dois regimes de funcionamento do mundo; e então teríamos uma rede de desejo e medo: o desejo que convida o físico a ser terra, a desmontar da indiferença, o medo que o leva a refugiar-se na recusa da experiência. Mas o centauro é sempre duplo: desejo e domínio ao mesmo tempo. Repare-se melhor no título: O Físico Prodigioso. É evidente que “físico” não significa o que para nós significa “médico”: físico já é um compromisso entre ciência e magia; e o próprio Jorge de Sena o relembra, em prefácio: “aquele «físico» (ou médico ou mágico, no sentido medieval e ainda ulterior do termo)” (1977: 9). Mas O Físico Prodigioso é mais do que isso. Com alguma liberdade, eu parafrasearia o título assim: o físico metafísico. Porque o prodígio é precisamente a negação da física; e penso que esta novela se pode resumir como uma lenta aprendizagem da recusa dos prodígios. O físico desaprende de ser prodigioso, desaprende de ser metafísico, para ser apenas físico. E esse, paradoxalmente, será o seu maior prodígio.

Um poema em prosa, datado de 1974 e incluído em Visão Perpétua, pode ser lembrado aqui, por dar o máximo de uma síntese entre devir e retorno, humano e animal:

 

Assim a Primavera chega (…) ao homem que imagina a Primavera que vê. Ao animal humano separado de todos os ciclos menos o de ser mortal. Humano porque se separou e viu as coisas e lhe deu os nomes da sua voz aprendida. Animal porque conserva em si mesmo o jogo de existir. (…)

É como se, nesse retorno imaginado com a Primavera, houvesse para o homem um retorno que não há ao espaço sem tempo mas só ciclos, em que não era ainda o ser que se tornou (Sena 1982: 209)

 

Eis o cavaleiro possível: ele já se separou para sempre da Primavera, que imagina (mais do que vê), mas permanece animal e entregue ao tempo; ele mesmo regista a Primavera como um retorno (que não depende dele) mas sabe que o seu único ciclo é o de ser mortal, ou seja, o único que não se repete. Mas nesse ser mortal existe a possibilidade de ser anterior ao “ser que se tornou”: o animal atento que “conserva em si mesmo o jogo de existir”.

Sendo assim, toda a metafísica é física. Claro que o físico prodigioso é um avatar de Fausto (para esta leitura hipertextual, ver Amorim 1999), mas um Fausto que se despoja de magia. Ele quer “ultrapassar os limites da vida humana” (Sousa 1992: 146), mas pela sua integração numa natureza imanente: ultrapassar é apenas regressar. Experiência individual, íntima, secreta. Quando o físico comenta, perante os médicos do castelo de Dona Urraca: “Mas isso são bruxedos, nunca medicinas”, um deles responde: “A fronteira entre a medicina e a bruxaria é só a da virtude e a da fé” (Sena 1966: 36). Curiosamente, devemos dar razão a este médico (que a narrativa faz por tornar antipático ou ridículo), pelo menos no seguinte sentido: a fronteira entre os saberes e as experiências é interior, passa pela virtude e pela fé, ou seja, pelo intestemunhável. Na verdade, talvez o médico esteja a dizer outra coisa: afirma que só é válida a experiência que condiz com um modelo de verdade prévio; mas o certo é que esse modelo de verdade, a haver, não pode ser verificado senão por cada qual. A fé é secreta.

O que é então a experiência imanente? Jorge de Sena escreve, no prefácio a Os Grão-Capitães:

 

no mundo actual, é cada vez mais evidente que toda e qualquer visão do mundo é estética, e que a pessoa humana nada tem a opor à arregimentação, ao conformismo, à nivelação, senão a sua própria existência que, criticamente, se forma e define, ainda que mutavelmente, não nas suas relações de aderência ou de oposição a um determinado conjunto de valores dominantes (…), mas na consciência de que nenhum sistema de valores é válido que não na pessoal verificação a que seja submetido (…). Não há valores transcendentais que mereçam mais respeito do que qualquer vida humana (…). Porque não é deles que a dignidade humana é feita, mas de muitos singelos e modestos valores imanentes (Sena 1976: 19)

 

São frases que poderiam resumir O Físico Prodigioso. Também este se define pela verificação experimental, nietzschiana?, dos valores. Com a salvaguarda fácil de uma nova virgindade sempre que desejável, é certo, mas cada vez menos certo à medida que a novela avança. De resto, nada garante, a priori, qualquer valor: Deus está ausente de O Físico Prodigioso e o Diabo é, como o próprio afirma, impotente face à criatura. Eis uma definição de imanência: mundo sem deus e sem diabo operantes, em que os valores acontecem numa retirada dos prodígios. Mas “retirada” é um termo demasiado marcado pela negatividade para servir a imanência, toda ela disponível para a experiência que a constitui. Não há imanência antes da experiência, como não há físico antes da sua auto-criação, sua poiesis, seu poema: o físico apenas existe no instante mudo em que expira, inteiramente criado por si mesmo, aceitando a morte e a dissolução. Também isso está previsto no prefácio a Os Grão-Capitães: “toda e qualquer visão do mundo é estética”. Não se trata de pensar que, entre as visões do mundo, há a visão estética – mas sim que a visão do mundo, quando existe, é imediatamente estética, criadora (de valores), prodigiosa. Mas o prodígio só se completa quando o próprio criador acaba de viver: quando o físico morre, eis a imanência por paradoxo.

Tudo isto já existe também num conto de juventude, o segundo do pequeno volume intitulado Génesis. Caim, o fratricida, é acusado por Deus; e defende-se nestes termos: “Eu nunca teria matado o meu irmão se não me tivesses provocado… Para julgar o bem e o mal! O bem e o mal!! Que sabes tu deles?! Nem sequer lambeste a árvore!! Qualquer animal sabe mais do que tu!! E o pouco que sabes aprendeste connosco!! É por isso que nos espias e nos provocas!” (Sena 1938: 37). Nestes termos, não apenas a imanência é a retirada absoluta de Deus, como Deus é aquele que nunca poderá atravessar a imanência. E não por ausência de física (este Deus paródico é suficientemente antropomórfico para ter sensações – além de sentimentos, violentos), mas por incapacidade de pensar os valores: “O bem e o mal!! Que sabes tu deles?! Nem sequer lambeste a árvore!!”. Deus não ignora a criação física, sendo seu criador; é a ausência de valor que lhe torna o universo sem sentido. Ele pode ver e ouvir, mas permanece perante o mundo como um leitor perante um texto escrito numa língua desconhecida. Nada está escondido nesse texto, mas nada alcança legibilidade.

Não sejamos demasiado severos com Deus em Jorge de Sena. Porque há outros avatares. Há, na verdade, deuses ainda mais tenebrosos, como os do México, mas também deuses imanentes, não sem monstruosidade, mas pelo menos enraizados em amor devorador, como diz Jorge de Sena numa carta a Sophia de Mello Breyner:

 

Não é, Sophia, que o mundo não esteja cheio de deuses cruéis e sanguinários – todos o foram, e continuaram a ser hipocritamente, mesmo depois de as civilizações os terem polido e habituado a não comerem carne humana (…). Mas deuses que não são de amor, ainda que amor devorador e destrutivo, são uma canalha inominável – e é a diferença entre a monstruosidade fugidia destes que agora visitastes in loco e a dos da Índia, por exemplo, cuja monstruosidade ao contrário simboliza a múltipla riqueza da vida e da morte. (Sena 1971: 117)

 

O que é um deus de “amor devorador e destrutivo”? É o único deus possível na imanência: deus não criador de Adão, Eva, Abel e Caim, mas deus destruidor de todos os sujeitos, deus despojador. Não pode haver experiência desse deus, se ele começa por desmembrar o sujeito da experiência (como Dona Urraca e as donzelas fazem ao cavalo do físico, e portanto ao próprio físico simbolizado nele). Esse deus é o próprio mundo que fere seduzindo. O sujeito, enquanto existe, só pode consentir no seu próprio desmembramento e desaparecer no turbilhão. Sabemos já que o físico resistirá, não quererá entregar-se a tal deus/deusa; preferirá fazer um retorno do tempo, ainda não está disponível para perder a sua condição de sujeito (é cedo de mais, o físico ainda não tem alma; só mais tarde se arrastará, no próprio tempo aceite, até uma vala, onde possa morrer entre os braços de uma mulher amada, amada e amante de “amor devorador e destrutivo”). O que é um sujeito que consente no seu próprio desmembramento e deixa de ser sujeito? É a forma extrema da imanência, sujeito desmontado, aceitação radical da “múltipla riqueza da vida e da morte” – leia-se com rigor: da vida e da morte.

Vários ensaístas descrevem o gesto de aceitação em Jorge de Sena. Recentemente, Fernando Pinto do Amaral encontra em Sena “um desespero recortado num universo por vezes quase beckettiano e despido de todas as ilusões soteriológicas quanto à possibilidade de redenção humana”, mas onde existe “todavia uma estranha serenidade, só possível para lá do desespero” (2007: 30-31). Horácio Costa afirma “a inaplicabilidade da noção de conflito à personagem do Físico, já que para ele sua condição inominável e dual entre ser e não ser (…) não se apresenta como conflituosidade neurótica, e sim como algo constitutivo, aceito tal-qualmente, antípoda da moralidade e mesmo da psicologia burguesas (…) o Físico assume e goza a sua fragmentariedade que é, em si, sua identidade.” (1992: 176-177). Finalmente, lembraria que Eduardo Lourenço descreve Jorge de Sena inspirado por “Um sol ofuscante, exigindo pelo seu esplendor uma ética solar, o dever supremo e tão raro de aceitar as coisas como elas são – as coisas e o que julgamos sentir ou pensar sobre elas – antes que nós as escureçamos imaginando-as melhores ou outras.” (1999: 44). Como em Nietzsche e em D. H. Lawrence, Jorge de Sena obedece ao dever de “aceitar as coisas como elas são”, isto é, sem Deus nem Diabo (ou com um mero Diabo impotente); e não para recusar a transmutação de valores – pois o físico prodigioso aprende tudo do bem e do mal, ele não apenas lambe a árvore da ciência mas inteiramente a devora e encarna.

E contudo, segundo Eduardo Lourenço, há também um “sol negro que preferimos imaginar como mera sombra para evitar o terror e o pânico que o seu mero pensamento destila nas nossas almas pouco heróicas”. A literatura não seria sol ofuscante nem sol negro, mas sim “a existência mesma, escrita, dita e, antes de tudo, já sofrida aquém ou além do mal, como exorcismo desses dois sóis” (1999: 45). Subtileza fundamental: Jorge de Sena não é nenhum dos sóis, mas o exorcismo simultâneo de ambos, a perda de si na sombra que cada um dos dois projecta, fim do sujeito, dissolução consentida, desdomínio.

 

5. Imanência e dúvida.

 

Em vários livros, Giorgio Agamben descreve a melancólica paisagem após Hoffmansthal, Kafka, Walser, a linguagem em ruínas que permaneceu, mas que se defende de si própria por uma ironia triste de pequenos subterfúgios. Ora, essa ironia salva a modernidade de si mesma, jogando com inocência um jogo de desespero. As personagens de Walser, por exemplo, passeiam e deixam que dos seus lábios se vão escapando, sem malícia sequer, fragmentos de desejo logo obsoletos, queixumes sem destinatário, notações de um real inapreensível e incomunicável. Neste mundo obscuro não há revelação, nem sequer desespero em carne viva para dizer essa aporia. Por isso Walser, ao seu modo, é ainda luminoso. Aceita a sua condição de parodiador: está sempre ao lado, parà, nunca no centro da verdade ou da linguagem. De resto, afirma Agamben, e esta seria a lei do modernismo, a sua falência e a sua salvação, “Do mistério não pode surgir senão paródia, qualquer outra tentativa para o invocar cai no mau gosto ou na ênfase. (…) Face ao mistério, a criação artística não pode fazer-se senão caricatura” (2005: 58). A paródia não tem nada a ver, claro, com o rebaixamento do objecto – até porque não há outro objecto senão o da paródia. A paródia é a lei da impossibilidade (“é essencial à paródia o pressuposto da inatingibilidade do seu objecto” (65)), mas também o espaço de liberdade possível.

Dir-se-ia que Jorge de Sena recusa por inteiro tal modelo. Dir-se-ia que, como o seu físico, opta por fazer um retorno miraculoso do tempo, anulando a História desse modernismo aporético (ele que foi um leitor tão atento de Pessoa) e regressando (por uma nova virgindade) a… qual literatura? talvez a um momento anterior à literatura, em que a língua é divina. O físico prodigioso, com a sua vontade erótica, não pode fazer concessões. Tudo aí deve ser inteiramente afirmado, enquanto em Walser qualquer enunciado completo fica sempre pela metade. Estratégia literária e histórica assumida, de combate, em Sena: ser inteiro em todas as frentes, aceitando a própria dor; e em Walser: hesitar na própria hesitação, anestesiando a censura moral. Mas é em busca de desdomínios em Jorge de Sena que parto de novo, suspeitando que, sob a afirmação erótica e sobre-humana do desejo, se esconde a condição paródica de Walser. Mesmo quando Jorge de Sena exige a própria coisa, no seu lugar e no seu nome, pergunto se não é parà, ao lado, de viès, hesitando, que escreve.

Por exemplo, Jorge de Sena exige o próprio corpo, não fantasmas mandatários, não sombras ou sugestões veladas – mas o próprio corpo, insubstituível, como tão raramente – ou nunca – acontecia na literatura portuguesa (ou acontecia por via de um gozo escatológico ainda demasiado preso aos mesmos padrões que quer negar, como em Bocage; ou por sucessões de véus que acabam por mostrar sem dizer, como em Eça; ou por artificial mostração em jeito de exercício, como no Epithalamium de Pessoa…). E contudo, na maior frontalidade física, eis como Dona Urraca descreve o corpo do físico: “o que me curou foi poder amar-te sem te ver, sendo tu o mesmo corpo maravilhoso que eu tinha visto e que nunca é tão maravilhoso quanto se imagina que poderá ser. Invisível, foste muito mais que tudo o que, visível, me prometias.” (Sena 1966: 50). É com um sonho, não com um corpo, que Dona Urraca faz amor e se salva. Il n’y a pas de rapport sexuel (Lacan 1975), de facto, mas talvez porque a relação sexual, sugere Jean-Luc Nancy (2001), não se limita a “haver”, verbo do domínio do ôntico, quando a relação com o outro é ontológica. Seja como for, é com o seu próprio fantasma que Dona Urraca faz amor, e isso a salva. Ela mesma é uma física prodigiosa, e o prodígio é o corpo invisível que ela ama, amando-o por ser invisível, por mais-que-haver. E isso é “uma figuração concreta da invisibilidade do demoníaco em tensa relação com a visibilidade do humano”, como escreve Luís Adriano Carlos (1999: 56).

Por isso não há a própria coisa, o próprio corpo, a partir do momento da cisão em que o desejo se faz como lugar do outro. Nem sequer simples narcisismo existe; Dona Urraca diz ao físico: “Quando te contemplavas, não era a ti que tu contemplavas, mas o que tu serias para quem te contemplasse…” (Sena 1966: 51). É parà, ao lado do corpo, que se encontra o desejo, no outro. Também este desdomínio o físico terá de aprender, e com medo.

Medo – porque o outro se faz Bacante: “Aquelas mulheres eram bruxas. Ele tinha dormido com uma bruxa. Eram tudo bruxas de um castelo infernal. (…) E mandou que tudo voltasse ao momento em que ele fizera reverdecer a clareira.” (Sena 1966: 62). Como se sabe, não há bruxas, mas mulheres que os homens receiam e transformam, para terem bodes expiatórios, em bruxas. É um medo primário que o físico sente, escudando-se, mais uma vez, no cómodo retorno mágico do tempo: a clareira reverdecida, a virgindade recuperada, a cisão dos sexos nula. Cura analítica e a-histórica, que não é uma cura, mas o sintoma de um trauma. Por outro lado, o físico descobre que Dona Urraca e as donzelas mataram e enterraram muitos homens; é a inversão óbvia do mito do Barba-Azul; e portanto a expressão alucinada de um pavor masculino: também eu serei assassinado, também eu serei morto. Moisés Espírito Santo mostra, em A Religião Popular Portuguesa (1984), que as viúvas do Norte de Portugal eram inconscientemente acusadas pela comunidade de terem assassinado os respectivos maridos. De morte natural nunca ninguém morreu…

O super-herói perde o domínio dos seus prodígios: é a mulher ou deusa que o dirige agora, em terror. Terá de ser o diabo a explicar-lhe: “Criança que tu és… Elas amam-te e querem-te como mulheres. E foi por ter feito de ti um homem, que ela queria devorar-te… E o teu cavalo eras tu mesmo, na fome e na sede de amor, que, naquele castelo, elas sofrem. Porque não há homens no castelo, (…) Todos eles foram mortos como tu viste matarem-te o cavalo.” (Sena 1966: 63). Desmontagem rara de uma metáfora, para uso de físicos inexperientes e receosos. É certamente a primeira vez que o diabo impotente e as mulheres solitárias têm mais poder e consciência do que o físico; e esta fraqueza súbita tem a ver com o momento perigoso da assunção de uma masculinidade que se quer preservar (donde o medo da castração, que aqui é apenas entrega de si a um “amor devorador e destrutivo”, divino).

Pelo contrário, o físico permanecerá forte enquanto renunciar a uma cartografia do erotismo. Ele próprio devém andrógino para curar Urraca: “Os físicos que o sangrassem para um banho, que ela tomaria, do seu sangue com água morna. (…) E que ela, segura pelos pés e pelos ombros, sete vezes fosse mergulhada, com cabeça e tudo, nessa água da sua castidade. Entretanto, ele ficaria ali deitado, nu, na cama dela” (Sena 1966: 38). Retirada a metáfora crística, há aqui um tornar-se mulher do físico: uma perda de sangue que é “água da sua castidade”, rompimento de hímen. Parà: o físico deita-se na cama dela, o físico é ela mesma.

 

6. Outra dúvida, ou a figura do contágio.

 

Há talvez outra figura para redescrever este deslocamento parà, este desdomínio: o contágio. Nele confluem todas as figuras vistas até aqui, incluindo a indefinição do sujeito, o primeiro a desaparecer no contágio. Não há sujeito, há um corpo tomado pelos outros. Mesmo os deslocamentos no espaço horizontal ou vertical são ainda demasiado dominados por um eu que os realizasse. Mas doravante só haverá misturas, amálgamas, a alegria da dissolução:

 

Ela alongou-se contra ele, e assim ficaram quietos, abraçados. Os membros do tribunal registaram a imobilidade absoluta deles. De súbito, um estremecimento os percorreu e um estertor ecoou. E a confiança regimental nos cintos oficiais, na verdade infalíveis, não deu ao tribunal a ideia de que eles se haviam possuído. O silêncio e a imobilidade voltaram logo. (…) Era mais do que um corpo flácido: um cadáver. Não era, porém, Dona Urraca. Ou era. Mas os longos cabelos estavam louros, e as feições defuntas eram as dele. (Sena 1966: 98)

 

O contágio não é a passagem de um testemunho ou um atributo, uma correcção gramatical que disponha com maior justeza substantivos e adjectivos. Não: o contágio arrebata o próprio nome no seu todo, tornando físico o que era Urraca. Incipit Carnaval, o mais sério dos Carnavais, que é também carne, vale!, o sim erótico que é o fim dos sujeitos. O tabu propaga-se do físico para Urraca (mas já não há Urraca, só físico), depois para os monges (que deixam de o ser): “Afastaram-se um do outro, desconfiados e gelados de medo. Cada um pegou de um círio, e veio então observar o rosto do outro. Apesar dos capuzes, via-se que estavam louros. Os rostos eram juvenis, resplandecentes, e cada um reconhecia o rosto que haviam destruído.” (102). O carrasco teme (ou deseja?) ser a vítima; e nesse momento em que se coloca, com terror ou fascínio, no lugar do outro, ele já é o outro e deixa de ser senhor da sua própria casa.

É preciso não pensar o contágio como um acidente exterior, que se acrescentasse impunemente à essência de um sujeito, mas como a dissolução desejada do próprio sujeito. Os inquisidores não são vítimas de uma heresia alheia, mas vítimas da sua própria vontade de auto-dissolução, a que chamam, baldadamente, heresia. O contágio, em suma, não ataca um corpo, mas é o próprio corpo destruindo-se na ferocidade do desejo. Por isso a peste que assolará toda esta população é, como em Artaud, “une maladie qui serait une sorte d’entité psychique et ne serait pas apportée par un virus” (1938: 26); ou ainda: “Si le théâtre essentiel est comme la peste, ce n’est pas parce qu’il est contagieux, mais parce que comme la peste il est la révélation (…) d’un fond de cruauté latente par lequel se localisent sur un individu ou sur un peuple toutes les possibilités perverses de l’esprit” (44). Todo o sujeito está doente (sem contacto) de um fundo de crueldade latente, que já é dele antes de eclodir, e que eclode arrebatando-lhe a subjectividade. O físico só é perigoso se os inquisidores forem vulneráveis ao desejo.

E são-no, como se prova nas confissões inesperadas de Frei Bernardo (de Claraval?…) ao preferir ficar com a cara do físico (Sena 1966: 120). A única diferença entre os inquisidores e o físico é a assunção livre do desejo neste e o ressentimento naqueles. Como escreve Ana Sofia Laranjinha, “O absurdo da missão de separar o Bem do Mal, atribuição dos juízes, é revelado quando os corpos se tornam intermutáveis. (…) Esta é a prova final de que o Bem e o Mal são indissociáveis” (1993: 241). Ou se contaminam um ao outro. Aquele mesmo que suspeita, em suma, perde-se e deixa-se contaminar: não há sujeito, só contágio. Todas as paixões, mesmo o ódio e a recusa, são compromisso e aceitação do que é violentamente negado. Os inquisidores recusam a liberdade erótica do físico, mas essa recusa esconde um desejo; do mesmo modo, mas em sentido inverso, Jorge de Sena suspeita de que o anti-clericalismo de um José Régio pode esconder uma aceitação radical da mesma Igreja que pretende negar. Eis um excerto muito rico de uma carta de Sena a Régio, sobre A Chaga do Lado:

 

certo anti-clericalismo (digamos assim), no mais lato sentido embora, é não só uma atitude ultrapassada, como pode até ser tomada como indício de atracções contraditórias profundas, muito mais longe da repulsa que quanto a aparência iluda. A mim me parece que os cismáticos e heterodoxos estão sempre mais livres de «cair», e que é por isso mesmo que contra eles se concitaram as iras sacerdotais. Não sei, porque não vi, se os jesuítas e quejandos que durante largo tempo o namoraram e flirtaram com a sua obra tão desvanecidamente, perceberam isto mesmo e esfregaram as mãos com a pomada da esperança. A V., o que ainda lhe há-de valer um dia à hora da morte, no seu buraco – mesmo de Portalegre, é não ter, na ocasião terrível, quem pelo lado de dentro lhes abra a porta. (…) Pela minha parte, que a sua alma se «salvasse» seria um dos grandes desgostos da minha vida. (Sena 1954: 125-126)

 

Não me posso demorar, como quereria, sobre esta carta problemática. Quem pode, na verdade, desejar a um amigo que a sua alma se perca? Que significado tem este gesto de desejo sobre a própria amizade que aí se fundamenta? Como se pode intervir na solidão espiritual de um outro e fazer sua a própria perdição? São perguntas que terei de abandonar sem sequer um esboço de resposta. Aproveito apenas o que Sena escreve sobre o anticlericalismo como eventuais “atracções contraditórias” por aquilo que se nega; ou sobre “cismáticos e heterodoxos (…) sempre mais livres de «cair»”. De que modo esta carta se poderia aplicar a uma leitura de O Físico Prodigioso? Porque há nesta novela anticlericalismo paródico e também cisma e heterodoxia. Poder-se-ia responder a Sena com o raciocínio da sua própria carta a Régio? Não haverá, além de incongruência entre os inquisidores, também contradição e dúvidas no físico prodigioso? Também ele, como o Zaratustra de Nietzsche, se encontra na margem difícil de um abismo, tentado, durante pelo menos seis capítulos, a negar a plenitude da sua vida.

 

7. Euforia e esperança.

 

E contudo, quanta esperança neste físico! Tudo nele está disponível. Mesmo o nome lhe falta, libertando-o. Também não terei tempo para esgotar as implicações de um diálogo entre Dona Urraca e o físico, que começa assim:

 

– Não sei o teu nome. Como te chamas, meu amado?

– Que adianta o meu nome? Que importa que o meu nome seja este ou aquele? E, na verdade, eu não tenho nome, porque o nome que me deram não é o meu. (…) Que nome me vais dar?

– Nenhum… (Sena 1966: 53)

 

As leituras críticas de O Físico Prodigioso comentam muitas vezes este diálogo belíssimo – e sempre sublinhando a possibilidade eufórica de libertação que se instaura. Maria de Fátima Marinho comenta: “O físico não tem outro nome para além deste. Nomear seria identificar definitivamente o eu com o eu, rejeitar o Duplo” (1981: 147). E Jorge Fazenda Lourenço pergunta: “Como, no amor, oferecer-se à posse de outro sem ser-se possuído? Sem diluir-se no outro? Porque ter um nome é, afinal, pertencer, a alguém, a um lugar, a si mesmo. (…) o físico, sendo o Amor, só pode ter uma identidade virtual – o nome que Dona Urraca, ou que cada um de nós, lhe quiser (souber) dar.” (1992: 131). Acrescentemos ainda o que Giorgio Agamben escreve sobre a identidade: “A pessoa é a captura da espécie e a sua ancoragem a uma substância, de forma a tornar possível a identificação. Os documentos de identidade contêm uma fotografia (ou outro dispositivo de captura da espécie). / (…) A transformação da espécie num princípio de identidade e de classificação é o pecado original da nossa cultura, o seu dispositivo mais implacável.” (2005: 81). A renúncia ao nome é uma libertação.

Avancemos para uma conclusão, o gesto provisório de um fecho de leitura, uma interrupção. Por exemplo, com esta pergunta: o que me interessa tanto em O Físico Prodigioso? Questão pessoal – resposta pessoal. Não me interessa a vitória absoluta do físico, mas a sua dúvida. Não o seu erotismo, mas o seu pudor. Não a sua vitalidade transbordante, mas a vontade de morrer.

Mas não há aqui qualquer tipo de disforia. Sem querer avançar depressa de mais, eu lembraria esse momento central da novela, o fim do capítulo VI: o físico vive com Dona Urraca, já fez o tempo regredir, já ressuscitou os mortos, já encontrou a sua libido como criação e destruição. É nesse momento de omnipotência que se dão dois acontecimentos inauditos. Em primeiro lugar (mas teremos de esperar por uma intervenção do Diabo mais adiante para o compreendermos completamente), o físico ganha uma alma. O Diabo di-lo-á assim ao inquisidor: “Não compreendes que eu teria a sua alma, logo, se fosse a alma dele o que eu quisesse? Mas eu não quero essa alma. E sabes porquê? Porque ele não a tem. (…) Sabes acaso como foi que puderam prendê-lo? Quando, por momentos, ele se cansou, e começou a ter alma ou isso a que chamam alma e eu me entretenho a devorar.” (Sena 1966: 112). Que o físico já-tenha-e-ainda-não-tenha uma alma (e que essa alma seja o resultado de experiências físicas), eis o primeiro acontecimento inaudito. O segundo, simultâneo, é este: o físico quer morrer. Eu diria que se trata do mesmo acontecimento: o físico ganha uma alma e portanto quer morrer – ter uma alma é querer morrer.

Nenhuma disforia, porém. Pelo contrário, máxima libertação. Em L’Inconscient Esthétique, Jacques Rancière observa por que razões a psicanálise recorre ao mito de Édipo como narrativa pretensamente universal para descrever a psique humana; e conclui, lendo uma peça de Ibsen também analisada por Freud, que há um modelo descritivo da experiência psíquica que não se molda por categorias como a narrativa, a acção, o desvendamento edipianos. Segundo Rancière, além da cura analítica, Freud inventa (e receia), especialmente a partir de Para Além do Princípio de Prazer, um modelo dionisíaco de psique: “Union dernière du savoir et du non-savoir, de l’agir et du pâtir, conforme à la logique de l’inconscient esthétique. La véritable cure, la véritable guérison, c’est la renonciation schopenhauerienne au vouloir-vivre, l’abandon à la mer originelle du non-vouloir” (Rancière 2001: 70). Que Freud tenha alcançado e simultaneamente rejeitado este modelo de inconsciente é sintomático. Mas talvez ele deva ser aceite por completo para ler O Físico Prodigioso sem disforia.

O certo é que este físico, capaz de fazer com que o tempo regrida, nunca mais se serve desse poder sobrenatural. Ele deseja morrer, no capítulo VI, e não faz um único gesto, físico ou metafísico, para impedir a sua dissolução como sujeito nos capítulos finais. Atentemos no capítulo VI. O físico confessa a Dona Urraca: “Disseste-me também que eu era um deus. E eu sinto que sou. Ou sinto que estou sendo. E é uma coisa insuportável.” (Sena 1966: 82). Dona Urraca insiste:

 

– Que queres tu então?

– Quero morrer.

Dona Urraca sufocou um grito, afastando-se dele.

– Não digas isso, não digas, que a tua vontade pode cumprir-se.

– Que se cumpra.

 

Dona Urraca segurou-o pelos ombros e as unhas dela cravaram-se-lhe na carne: – Não. Se queres não ser um deus, para que precisas morrer? Basta-te que voltes a ser um homem, aquele que eras, virgem e puro, antes de me conheceres. E que nada seja como foi. Pede para voltar ao momento em que as minhas donzelas ainda não te tinham visto. (82-83)

Aqui, o físico provoca um retorno do tempo, mas regressa ao presente para concluir: “Ele libertou-se dela, e sentou-se no chão, soluçando: – Para quê? Para quê? Nunca sai certo o momento a que se volta…” (85-86). Eu diria que a alma do físico começa aqui – no momento em que ele descobre, não a impotência (ele pode fazer regredir o tempo), mas a melancolia da potência. Não quer ser mais Édipo, mas seguir Schopenhauer. Descer à terra, logo devir terra. Devir terra, logo dissolver o sujeito.

Claro, há também um inescapável hipotexto bíblico: o físico deve morrer, como Cristo morreu. Francisco Cota Fagundes lê O Físico Prodigioso como reescrita dos Evangelhos, com, como texto intermediário, os mitos medievais que Jorge de Sena retirou do Orto do Esposo. E contudo, o ensaísta propõe para esta releitura um acerto nietzschiano: “Quando a multidão pretende retirar o seu corpo, num acto que evoca o de José de Arimateia em relação a Cristo, é ainda a Mãe-Terra que o retém. Quando os pestíferos vão à roseira esperando dela um milagre para os seus males, desiludem-se: o milagre não se realiza, a ordem natural do universo sobrepõe-se à ordem religiosa. O aparecimento do novo físico, que até certo ponto paraleliza a ressurreição de Cristo, tão-pouco se pode considerar religiosamente milagroso” (1981: 138). O verdadeiro prodígio, em suma, não é milagroso: é que haja físicos, física.

É depois de o físico ganhar uma alma que quer morrer. Ou então: é depois de querer morrer que ganha uma alma. Ou ainda: do mesmo modo que, escondida dentro da Inquisição, há uma vontade erótica, assim também é a vontade de morrer do físico que inventa a Inquisição que o mate. Tudo esconde afinal, não a própria coisa, mas o seu contrário: mundo de espelhos – é isso que me interessa tanto em O Físico Prodigioso. É essa vontade de imanência que é também vontade de imolação, e que só se torna verdadeiramente contagiosa (o contágio dos rostos só se dá na segunda metade da novela) a partir do momento em que o físico deseja morrer. Isto é: o físico já não se quer opor ao mundo, ou conquistá-lo. Quer apenas “resistir pela submissão” (Sena 1966: 94). E só assim vence, perdendo-se como sujeito no tempo e na terra. Só aí, paradoxalmente, existe de facto, na sua verdadeira imagem: é esse o retrato da sua alma conquistada. Isto me interessa: a alma não é uma causa, nem uma condenação. A alma é uma conquista.

 

 

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In: Metamorfoses 9.  Rio de Janeiro/ Lisboa: Caminho/ Cátedra Jorge de Sena/UFRJ, 2008, p.  37-54

[*] Professor de Literatura Portuguesa na Universidade do Porto, tem vários títulos publicados  nos campos do ensaio, do teatro e da ficção. Seu livro  Esquecer Fausto ganhou o Prêmio P.E.N. Clube Português de Ensaio/2005.

Fernando Lemos e o túmulo de Jorge de Sena

Fernando Lemos faz questão de visitar o túmulo de seu amigo-de-toda-vida logo na primeira viagem a Lisboa após transladação dos restos mortais de Sena, de Santa Barbara para o Cemitério dos Prazeres. Na visita, dia 30 de novembro de 2009, é acompanhado pelo amigo Pedro Aguilar, que registra fotograficamente esse encontro, de clara emoção, e, muito gentilmente, nos disponibilizou as imagens.  

 

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De Fernando Lemos

Apesar do distanciamento imposto pelas circunstâncias, Jorge de Sena e Fernando Lemos cultivaram sempre a inabalável amizade nascida em fins dos anos 40, quando ambos já davam provas irrefutáveis do talento que os consagraria. Conviviam então com seleto grupo de intelectuais, no qual se contava José-Augusto França, Fernando de Azevedo, Vespeira, António Pedro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Adolfo Casais Monteiro… Mais jovem 7 anos que Sena, Lemos veio para o Brasil em 1953 e aqui desenvolveu intensa produção, muitas vezes premiada, em vários campos das artes: poesia, fotografia, desenho, aquarela, pintura, tapeçaria, artes gráficas, publicidade, programação visual, estamparia têxtil, painéis de azulejos, desenho industrial etc. 

Com a vinda de Sena para o Brasil, colaboraram juntos no jornal Portugal Democrático, editado em São Paulo de 1956 a 1975, que congregava os exilados portugueses unidos pelo anti-salazarismo.

Nos dois testemunhos abaixo, Lemos evoca alguns fragmentos desse longo e sólido diálogo.  

 

 

Cartas inéditas de Jorge de Sena e Fernando Lemos

Fernando Lemos, "Desenho", 1954 (Acervo do MAC/USP)
Fernando Lemos, “Desenho”, 1954 (Acervo do MAC/USP)

 

Porto, 20/4/954

 

Meu caro Lemos

Você tem mil razões para estar zangado comigo – ou tem só uma, que é a de eu não lhe ter escrito. Mas pense nisto: eu não ando a “cavar” a vida, com todo o entusiasmo ou amargura que isso pode saudavelmente dar; ando, sim, a “aturar” a vida, a trabalhar como um cão: no serviço, na Ponte sobre o Tejo (sem chavos a mais), nas traduções que me dão o mais que ninguém me dá, nos artigos que, para não me calar de todo, aceito ir fazendo – e calcule que, de há um mês e meio a esta parte, rebentou-me um filão poético que já produziu, por cima de tudo e não sei em que tempo, vinte sonetos – “As evidências” – cuja série, logo que o filão acabar e estiver tudo passado à máquina, lhe enviarei por cópia, já que não sei quando nem como poderei publicar coisas que, pela violência, é impossível publicar. Mas são, suponho do mais importante e do mais belo que tenho escrito. Verá.

Fui no sábado à abertura da sua exposição [1] e ontem a colectividade fotografou-se devidamente diante dos desenhos. E que desenhos, Lemos! – que admirável, que esplêndida, que grandiosa coisa! Se lhos não aceitaram e entenderem, pode V. estar certo de que são de facto tão puros que não deve esperar compreensão. E desde já gratamente lhe agradeço aquele que, por sua ordem, comunicada pelo França,[2] eu escolhi. Convinha pelo menos fotografar ordenadamente as séries, antes de dispersas aqui e no Brasil, depois de efectuadas as disposições. Porque as acho essenciais para se ver como se inventa o desenho em si mesmo.

Mande-me, quando puder, novas “cartas” como a magistral sobre a Bienal [3], que achei excelente, e que foi um grande êxito apreciado por toda a gente, menos pelos incapazes de apreciarem seja o que for. Tenho em meu poder 97 ou 98.00 escudos, que são o que eles pagam no Comércio  [4]. Diga-me que destino lhes devo dar. Não recebi nem vi “Jornais de Letras” [5], e nada sei dos meus artigos. E a quem devo dirigir-me para receber a “massa”, já que não é V. a recebê-la aí? E devo ou não mandar mais colaboração aos Condés? [6]  A página em que o seu artigo saiu já V. a deve ter recebido, pois que o Costa Barreto, o diretor das páginas, me garantiu que lha mandava.

Espero que esse trabalho em S. Paulo seja bom sobre todos os aspectos. E contactos, que tal? Já viu Drummonds, etc? E a sua ideia de uma revista limpa e poética, como vai?

Estou a escrever-lhe do Porto, aonde acabo de chegar vindo de automóvel de Lisboa, em serviço. Andarei cá pelo norte uns dias, e voltarei a Lisboa, onde me espera tudo o que descrevi na 1ª página. Só os sonetos andam comigo – já é alguma coisa. Calcule V. que o Zé Portugal [7] ia hoje jantar a minha casa… e eu vim repentinamente para aqui. Assisti ao jantar doméstico pelo telefone, poucos minutos antes de começar a escrever-lhe.

Não deixe de me escrever, porque eu não lhe escrevo com regularidade – lembre-se que eu mal tempo tenho de ver os amigos comuns e de saber de si; e não se esqueça nunca de como sou seu amigo e o estimo como artista que é. Isto não é mais do que a verdade.

Fiquei contentíssimo com a ida do Casais ao Brasil – que ao menos vá lá mais um de nós.

A Mécia manda-lhe muitas e afectuosas lembranças. Não está cá, mas V. já sabe que lhas manda.

O França parte amanhã para as Europas – pouco a pouco lá acabarei veraneando em Lisboa, e sem um mês de licença, que ainda este ano o muito trabalho me não permitirá ter. Viva a energia atómica… de que – sabe? – se criou oficialmente cá um organismo.[8] Agora é que vai ser… o raio que os parta. Um grande abraço amigo do

                                                                       Jorge de Sena

 

NOTAS:

[1] Mostra individual de desenhos de FL na Galeria de Março, em Lisboa, criada por FL e José-Augusto França em 1952.

[2] José-Augusto França, amigo de JS e FL.

[3] Na 2ª Bienal de São Paulo, em 1953, FL ganhou o “Prêmio Aquisição”

[4] Jornal O Comércio do Porto, no qual JS muito colaborou e conseguiu a publicação de alguns textos de FL.

[5] Jornal de Letras, publicado no Rio de Janeiro de 1949 a 1993. Em 1954, JS teve dois artigos aí editados.

[6] Os irmãos José, João e Elysio Condé dirigiam o Jornal de Letras.

[7] José Blanc de Portugal, amigo de JS e FL.

[8] Um Decreto-Lei, de 29 de Março de 1954, criou a Junta de Energia Nuclear.

 

 

São Paulo 2. 3. 55

 

Caro Seníssimo:

Não estou hoje com muito tempo para alinhavar uma longa carta, mas não quero deixar de lhe mandar alguns abraços. Para a Mécia também e as razões vão já bem explicadas na carta do Casais [1].

Um grande abraço pelos seus sonetos [2]. Até onde eu sei ler essa elegantíssima maneira de poetisar, li, reli e regostei tremendamente. Você diz cada coisa, homem! Mas que evidências! É uma evidência que por vezes até parece explicada demais. Quem não sentirá os seus piolhosos pentes? E quem não sabe trazer as amarguras diárias no gráfico dos testículos? Não sei se assim é que É; mas assim é mesmo que muitas coisas nos pesam. Grandioso parto o seu, homem! V. é o único engenheiro da terra que se salva, já que os do céu estão salvos por natureza.

Qualquer dia voará uma grande carta. Por aqui nem o meu pai morre, nem a gente almoça… “mais ça va”. E é verdade que amo duas de cada vez. Uma amo, mas a outra é só para trair a primeira. Credo!…

Logo que tiver prontos os mamarrachos para a Bienal [3], mando-lhe fotografias deles. Quanto a Portugal neste certame, acho que… não acho!

Desculpe-me a pressa desta epístola, mas a carta está quási a fechar-se nas mãos do Casais para entrar no correio. Até qualquer dia, muitos abraços para amiga Mécia e para si um dos grandes deste seu amigo

certo

sg

 

NOTAS:

[1] Adolfo Casais Monteiro

[2] As Evidências, livro publicado em 1955, foi apreendido pela PIDE sob a acusação de “subversivo e pornográfico”, mas depois liberado.

[3] Em 1955, FL expôs trabalhos seus na 3ª Bienal de São Paulo

 

 [*] Claudia Atanazio Valentim, “O mundo visto do exílio: uma leitura da correspondência de Fernando Lemos e Jorge de Sena”. Convergência Lusíada, 19 (Relações Luso-Brasileiras), Rio de Janeiro, Real Gabinete Português de Leitura, 2002  p. 99-107