76. Ensaio sobre um Ensaísta: conversa sobre Jorge de Sena*

Maria do Carmo Castelo Branco de Sequeira**

Nesta apresentação de Jorge de Sena a engenheiros, em declarado tom de conversa, a autora visita algumas das muitas facetas do escritor, não esquecendo de sublinhar sua filiação inicial ao mundo das ciências.

 

M.C. Escher, Still life, 1943

M.C. Escher, Still life, 1943

 

Gostaria de iniciar esta comunicação, citando, como uma espécie de leitmotiv, uma observação importante e motivadora de Roald Hoffman, judeu polaco, prémio Nobel da Química, em 1981:

 

Creio que a actividade criadora não é muito diferente na arte e na ciência. A abstracção da realidade, que é necessária depois da observação, é idêntica. Em ambos os casos, existe sempre um irresistível desejo de comunicação. (…). Ambas procuram explicar uma parte do universo que nos rodeia; e, desse ponto de vista, a actividade científica é até mais trivial: estabelecer parâmetros perfeitamente definidos para a interpretação do Universo é mais fácil que tentar questionar a morte ou o fim de um amor [1]

 

Não só nestas palavras de um químico-físico esta verdade se manifesta. De facto, as relações entre a Ciência, a Literatura e a Arte em geral têm sido motivo de reflexão e criatividade, em muitos planos e situações, tanto no campo de “Encontros”, como o decorrido na Universidade dos Açores, em Setembro de 1991, com o título elucidativo e reversivo, Poesia da Ciência e Ciência da Poesia [2], como na ligação íntima entre o artista e o cientista, como são os casos individuais, na antiguidade clássica, de Lucrécio (com o seu poema De Rerum Natura), no Renascimento, nessa procura ecléctica do saber, de um Leonardo da Vinci, na conjugação interna do homem da ciência com o escritor, como, entre nós, Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Júlio Dinis), Adolfo Rocha (Miguel Torga), Fernando Namora, Rómulo de Carvalho, (conhecido no âmbito da poesia, como António Gedeão), como nos fragmentos científicos que se expandem na obra de autores como Shakespeare, como Camões, como Goethe.

Umas vezes surgem acompanhando a problemática da criação poética, como em Fernando Pessoa, ora através de Álvaro de Campos (não por acaso), Engenheiro Naval:

 

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo
O que há é pouca gente para dar por isso…,

 

Ora através do semi-heterónimo Bernardo Soares que, a propósito de considerar que o meio moderno torna a arte incapaz de unidade, de autêntica construção artística, observa:

 

“Por isso se desenvolveu a ciência. A única coisa em que há construção, hoje, é uma máquina; o único argumento em que há encadeamento, o de uma demonstração matemática.
O poder de criar precisa de ponto de apoio, da muleta da realidade.”

                   (…e termina):

“A arte é uma ciência…
Sofre ritmicamente… [3]

Outras, constroem-se por cruzamento de códigos, como são exemplo alguns poemas de Kaharine O’Brien, recolhidos e traduzidos por Francisco José Craveiro de Carvalho, nomeadamente, estes dois haicais, respondendo à questão, “O que é a Matemática?”:

 

Fé e Razão (diz o primeiro)

Fiadas de axiomas
Entrançadas com lógica
Em convolução

 

Ou,

Verdade e Beleza (diz o segundo, lembrando Horácio)

Cadinho onde se demonstra
Mais brilhante do que alabastro,
Do que o mármore mais duradouro

 

Outras ainda, trazendo para o campo da investigação o fantasma da poesia, na sua configuração mais pura: a metáfora, seguindo um trajecto, que, em Portugal, creio ter sido iniciado pelo Professor José Enes, quando, em 1985, considerava a metáfora, como “ a estrutura nuclear comum a todas as espécies em que a linguagem se elabora, diversifica e multiplica” [4].

Assim também o caso paradigmático de Gonçalo M. Tavares, em Breves Notas sobre a Ciência [5] (onde não estará alheio o pensamento de Paul Ricouer, em La méthafore vive [6] e, consequentemente – ultrapassando os níveis retórico e semântico –, a importância da metáfora, enquanto força interpretativa de qualquer discurso). Cito:

 

“A metáfora, sendo o instrumento de uma linguagem não lógica, pode tocar, isto é, explicar (ou provar) coisas que a linguagem lógica não toca, nem explica…”; “Ao colocar-se a linguagem metafórica fora da ciência exclui-se um conjunto de soluções possíveis e, portanto, um conjunto de problemas”.

 

Falando, depois, do bom uso das ferramentas científicas, acaba por advertir: “Aprende pois a utilizar metáforas, caro cientista. Não sejas incompetente.” (Breves Notas sobre ciência, pp.112 e 113).

Mas não só, falando da metáfora, Gonçalo Tavares cria esta ligação: Também, noutros fragmentos, fazendo penetrar no campo científico, o encontro /desencontro de linguagens, numa tentativa de descoberta incessante, observa:

 

A poesia não é Ciência?
A poesia é ciência individual.
Poema colectivo e útil: eis a teoria científica
(p. 82)

Ou,

A linguagem utiliza a ciência para alcançar a
Ilusão da Verdade, tal como a linguagem utiliza
A arte para alcançar a ilusão de uma certa Beleza
(p. 43)

 

Finalizando com este extraordinário segmento:

 

Céptico, como os cépticos, crente como os crentes.
A metade que avança é crente, a metade que confirma é céptica.
Mas o cientista perfeito é também jardineiro;
Acredita que a beleza é conhecimento.
(a pessoa bela tem um segredo. Descobriu algo.)

 

Entremos agora, partindo deste último pensamento poético de Gonçalo Tavares, no caso específico do nome que marca este “Encontro”: Jorge de Sena – aquele que sempre acreditou que sendo a Beleza conhecimento científico, é, sempre e sobretudo, descobrimento poético, e na sua tentativa de descobrir a “verdade”, nunca perdeu o cadinho da curiosidade e da análise, aquele vaso de fusão ou brecha profunda e fértil, onde o engenheiro e o artista se pudessem (puderam) encontrar.

De facto, o próprio Jorge de Sena, em 1968, regressando, do seu exílio, pela primeira vez, a Portugal, declarava, em entrevista ao Diário de Lisboa [7] :

 

“Eu era engenheiro, e trabalhava como tal; era um escritor também, era director literário de editoriais, era diversas coisas para poder sustentar a família e a mim mesmo. Isso criava um problema que, juntamente com outros que existiam naqueles anos muito confusos e agitados, como é sabido, me tornava a vida insustentável…”,

 

E, se, nesse contexto, este conjunto de trabalhos parece ter sido motivado por dificuldades financeiras, a verdade é que os testemunhos dos seus companheiros de estudo do curso de engenharia, nomeadamente o de João António Ferreira Lamas [8] , indicam que, já nessa altura (de 1938 a 1943), Jorge de Sena “possuía uma cultura geral invulgar para a sua idade e uma cultura literária excepcional e actualizada, tanto na língua portuguesa, como francesa e inglesa”, para além de uma “espantosa capacidade de apreensão e de correlacionação das coisas, dos factos, das ideias e dos sentimentos, no espaço e no tempo, e a consequente lucubração e elaboração analítica e crítica”.

Igualmente, um outro amigo da altura, João Alves [9] nos dá conta das tertúlias que ele frequentava, na livraria Tavares Martins, juntamente, com, entre outros, Antero de Figueiredo, Alberto de Serpa ou Gomes Teixeira.

Logo, este paralelismo que traçara na prática, e desde cedo, entre a engenharia e a literatura [10], tanto enquanto estudante, como durante os anos em que trabalhou, nomeadamente, como engenheiro civil, na Junta Autónoma das Estradas, continuou, acentuou-se e, finalmente centrou-se no trabalho literário (nos seus cambiantes de leitor, de escritor, de crítico e ensaísta, de professor universitário de Teoria Literária, Literatura Portuguesa e Literatura Comparada) depois da partida para o Brasil, onde se doutorou e, em seguida, nos Estados Unidos (nas Universidades de Madison e de Santa Bárbara), abafando o seu trabalho de engenheiro, sem, todavia, o fazer perder as qualidades e ferramentas que retirara deste curso, isto é, um racionalismo e uma inteligência de análise, um rigor e uma perfeita inter-relação da literatura com a ciência e com o mundo, como já acentua no seu extraordinário “Prefácio”, de 1958, à 3ª Série de Líricas Portuguesas: “… a poesia é uma especialização de espírito, uma forma peculiar de educação, embora vise ao conhecimento analógico e simbólico da realidade total…” [11]

Inter-relação que poderemos ver reiterada, vinte e poucos anos depois, nestas suas palavras, a propósito do papel de António Gedeão e dos pressupostos novos que ele trazia à poesia e que eram, segundo o analista, estes:

 

“A grande novidade era uma visão do mundo, em termos de cultura científica actual, coisa que sempre fora de bom -tom literário que as pessoas escondessem, se acaso possuíam algo de semelhante. (…). O tremendo mal do nosso tempo, que é a cisão entre uma cultura literária que se pretende largamente humanística e é apenas uma forma organizada de ignorância do mundo em que vivemos, e uma cultura científica que não sabe sequer da existência dos valores estéticos que dão humano sentido à vida, esse mal não favorece o entendimento de um poeta como António Gedeão.” [12]

Desenvolvendo este campo relacional, e se bem que ele esteja latente na sua obra poética e ficcional, é, porém, na sua atitude ensaística que ele mais forte e estritamente se manifesta e, portanto, dentro daquele tipo textual que gostaria hoje de reflectir convosco. E logo nos surge uma questão prévia: O que é, de facto o ensaio ou aquilo que poderemos designar, como atitude ensaística no campo da investigação?

Todos conhecemos o historial deste género, desde a etimologia (exegium) à sua evolução semântica: passando pelo exame feito ao metal das moedas para ver se eram falsas (analisar, fazer prova, pesar na balança), passando pela sua relação com o lexema “saborear”, isto é, ligando-se à pré-gustação, para assegurar que os alimentos não estivessem envenenados, distinguindo, afinal, o bom do mau; seguindo-se o sentido actual derivado: atitude de reserva, oposta à adesão fácil a qualquer ideia, isto é, hábito de suspeição, de dúvida metódica.

Não é, naturalmente por acaso, que o género ensaístico surge com o Renascimento e tem o seu grande expoente em Montaigne que, indirectamente, formulou as suas características dominantes (espírito crítico, exercício constante da razão, carácter de tentativa, de busca de solução, ensaiando caminhos, confrontando textos, confrontando o pensamento com a realidade).

Hoje, em Portugal, quando falamos de “ensaio”, pensamos, essencialmente, em Eduardo Lourenço. E sobre ele e com ele, a tentativa de definição ganha vigor e, diria, quase poeticidade.

Na verdade, é dentro deste sentido que Eduardo Prado Coelho [13] , reportando-se ao autor de Labirinto da Saudade, afirmou: “Um ensaio não é uma tese inacabada ou apressada. É no rigor assombrado do seu passo, outra coisa de mais instável e terrível, uma ciência obscura, um vinho que apenas se pode partilhar”.

Também, igualmente, Luís Filipe Barreto [14] , a propósito da mesma obra de Eduardo Lourenço, afirma: “O ensaio é um exercício e(terno) feito de desconfiança e problemática que constrói tanto um experimentador do possível, como um desmascarador do impossível. (…) Género ambíguo, em que a escrita rivaliza com a análise”.

Sendo, em grande plano, um homem do ensaio, Jorge de Sena não se limitou a experimentá-lo, também, e em vários momentos, metatextualmente o julgou, dando voz pessoal ao que Carlos Reis sobre ele disse: “O juízo elabora-se na luta “contra” as coisas, em “debate” com elas”, mas é também uma experiência de “digestão” e de “assimilação”, uma arte lúdica, um jogo de ideias”.

Experimentando caminhos, fazendo um ensaio sobre o ensaio, ou sobre ele e sua correlação com a tese académica, lucidamente, lançando farpas (e afinal fazendo o mais extraordinário trabalho sobre a “diferença), Jorge de Sena afirma, ironicamente, sobre a questão das citações neste tipo de escritos, em O Reino da Estupidez I [15]:

 

“Eu sei que o «ensaio» tem sido definido, e lisonjeiramente, como um estudo do qual não é apresentado o aparato crítico, não são dadas as referências. Isto é honroso para o ensaísta (…). Isto é também honroso para o crítico que atente no ensaio, pois que dele se pode imaginar que está nos segredos do laboratório intelectual, e nada há no ensaio que ele não soubesse já ou não pudesse pensar alguma vez, quando se desse ao inglório e árduo trabalho de pensar. (…). [No entanto], o ensaio é, afinal de contas, ou poderá ser, uma meditação culta. Se o ensaio fosse apenas um estudo a que houvesse sido escamoteado o aparato crítico congregado para ele ser escrito, precisamente não era um ensaio, mas uma simples tese universitária, para uso interno e não público, modestamente destinada à conquista de um emprego e da ilusão de ser-se um intelectual. O sujeito-autor não precisava mais que ter lido as obras que um orientador inteligente e bem informado lhe houvesse indicado. (…). Em contrapartida a um ensaísta, e por paradoxal que pareça, pode ser impossível dar as suas referências. Se é um homem culto, largamente informado, que repensou por muito tempo as regiões do Saber que [16] mais lhe importam, ele não pensa nem discorre em função de fichas –  (…), mas de conexões intelectuais extremamente complexas, e até contraditórias, nas suas raízes culturais. (…). Uma alta cultura não existe sem informação: informação acumulada, classificada, criticamente avaliada. Mas a informação não torna ninguém culto (…) Cultura é a coragem de pensar e sentido das responsabilidades quanto ao que se pensou…”

 

Seja-nos desculpada a longa citação, já que ela é absolutamente necessária, para se perceber o funcionamento do seu trabalho de investigação, entre o conhecimento do que existe sobre o assunto e o que sobre ele, de forma independente, se discorre. Assim com os seus trabalhos sobre Camões, assim com a sua visão sobre o “Livro do Desassossego”.

Dos primeiros, disse Aguiar e Silva, num importante capítulo do seu livro, Camões: Labirintos e Fascínios [17] , com o título, “Jorge de Sena Camonista”, (e esse testemunho impressionante do notável camonista que todos conhecemos, é amplamente suficiente para entender a validade do trabalho que Sena desenvolveu desde 1948):

 

Trinta Anos de Camões, o título que Sena escolheu para designar os dois volumes – já de publicação póstuma – em que foram coligidos diversos estudos seus consagrados a Camões ou com ele correlacionados, é um sintagma que significa para lá de uma precisa denotação cronológica (1948 – 1978), a permanência, a intensidade e o fascínio desse diálogo em cujas raízes se encontra uma inequívoca congenialidade de espírito, de existência e de cosmovisão. Homens e poetas com a vida em pedaços repartida por alheias terras, altivos e insubmissos, e por isso incómodos para todos os poderes instalados como «situação», cidadãos do mundo pela universalidade da sua arte, da sua cultura e dos seus ideais, Camões e Sena foram, em contextos históricos e situacionais bem diversos, espíritos semelhantemente consumidos e atormentados por um amor e uma chaga que se chama Portugal…”.

 

No fim deste luminoso testemunho, datado de 1982, Aguiar e Silva fala da visita que fez à biblioteca de Sena, em Santa Bárbara, rematando desta forma:

 

“…Percebia-se, sentia-se, ao passar os olhos pelas últimas aquisições bibliográficas, que Camões polarizara luminosamente, até o fim da sua vida, a actividade e os projectos de Jorge de Sena, como docente e investigador universitário. A morte não o deixou erguer a «catedral» camoniana com que certamente sonhava. A obra escrita e publicada, todavia, representa uma das mais esplêndidas «capelas imperfeitas» que, em qualquer época, foram consagradas a Camões.”

 

Do segundo importante trabalho do autor que aqui hoje nos reúne, ficou o seu trilho, de certo modo, reconhecido, por Jerónimo Pizarro na última versão de O Livro do Desassossego do semi-heterónimo pessoano Bernardo Soares, e um magnífico prefácio com que iria anteceder essa primeira edição “a haver” e da qual diz:

 

“… e sob tudo isto, sob uma maldição de que todos são filhos, como um pecado original a que todos devem o ser, a terrível incapacidade de amar, a medonha demonstração de que o homem existe pelos seus actos e não é outro senão eles, e que não existe, senão como ficção, quando em lugar de aceitar ir sendo, escolhe fixar-se na pedagogia monstruosa de ser por conta alheia, de perder-se na floresta do alheamento.”

 

Dada a exiguidade do tempo e também porque não quero cansar-vos muito, esperando que ainda haja alguns momentos (mesmo breves), para a discussão, resta-me alinhavar algumas ideias (e, se é que os não conhecem, sugeria a sua leitura integral) sobre dois ensaios diferentes, mas que, no seu quase antagonismo, resumem uma forma de ser e de estar (ou de sentir) isto é, cada um representando um estádio entre a ironia (ou quase sarcasmo) e o entusiasmo quase (já) dramático do ensino da literatura. [18], (isto é, sentindo-o, ainda vagamente, como uma espécie de requiem), mas sempre conjugando, em graus diferenciados, a objectividade e a subjectividade, ora no plano sintagmático e relativamente leve, ora no paradigmático, mais pesado (mas cujo peso é embaciado pelo “não dizer”). Comecemos por “Amor da Literatura” [19] – texto de 1961.
Entre o ensaio e a lição sobre o ensino da literatura, se desenvolve este texto, jogando com a objectividade das asserções e a sua conclusão reversiva e subjectivada. Assim, partindo das posições possíveis do homem perante a literatura (“conhecê-la, estudá-la, ensiná-la e vivê-la”), posições que considera passíveis de acumulação, passa a definir cada um dos estádios, para subitamente, voltar ao princípio, confessando que “o problema foi mal posto, falseado nas suas premissas, falseado nas suas conclusões”, “sem qualquer sentido”, porque a Verdade final a que chega, como que anula ou, melhor, põe sob condição todo o resto, iluminando-o, e permitindo-lhe, maliciosamente, fazer, “a título de exemplo”, alguma literatura”, ou, melhor, dizendo com ele, alguma poesia

 

“Não se pode conhecer, nem estudar, nem ensinar, nem viver, aquilo que, no fundo e em verdade, se não ama. Que esse amor seja feliz ou infeliz, que dê alegrias ou amarguras, momentos de satisfação ou desconsolo, iluminações de conhecimentos ou raivas de inconquistável ignorância, é outra questão. Há que amar a literatura. Sabemos bem que o amor pode ser fugaz, intermitente, constante, frágil, imenso, ocasional, calculado, uma paixão súbita, uma paciente conquista. Amando-a, porém, é impossível não querer conhecê-la em toda a parte e em todos os tempos, em extensão e em profundidade; é impossível não querer estudá-la para transmitir e comunicar aos outros a fascinação que ela exerce sobre nós; é impossível não querer vivê-la gratuitamente e como agente, que ela é, de tudo que constantemente se pretende que ela seja e de tudo o que ela constantemente ultrapassa em si mesma e em nós…”

 

O segundo ensaio de que falava, como que nos fornece a “outra face” do seu texto global ou da sua idiossincrasia. Refiro-me a um texto curto, não datado, publicado na Nova Renascença [20] , com a designação de “A Literatura Portuguesa como Sermão da Quaresma”, onde o título, como diria Roland Barthes, é enunciador e deíctico, mas também “aperitivo, porque enunciador de uma certeza negativa, por parte daquele “demoníaco” de que fala Eduardo Lourenço, reportando-se a Andanças e Novas Andanças do Demónio [21] e onde surge “o desafio explícito ao leitor, a displicência, às vezes a escusada, mas ardente afirmação da sua superioridade intelectual, o que quer que seja que institui Sena no papel de Savonarola da nossa cultura (ou incultura), e que, por isso mesmo irrita ou fere a sempre sensível epiderme lusíada, coitada”.

De facto, no curto texto, Jorge de Sena desenvolve uma evolução satírica, ou antes, uma forte e azeda diatribe contra a nossa literatura que, segundo ele, desde a Restauração, e tendo como principal mentor, essencialmente o Padre António Vieira [22] , apenas se tem preocupado em salvar a pátria, numa espécie de “sermão contra o pecado, a favor das armas nacionais”, de tal forma que, diz, nos dias de hoje “toda a gente fala em termos de sermão de quaresma…”.

Termina, interrogando-se, “Quando será que as pessoas deixarão de salvar a pátria com a literatura, e passarão a salvar a literatura com a pátria?”, para responder: “Porque a verdade nua e crua é que não há bela pátria que valha a má literatura que é escrita para salvá.la. (…) Porque as pátrias salvam.se com ciência e técnica, com inteligência e honestidade – mas não, necessariamente com exercícios de retórica”.

Para concluir: Quando Jorge de Sena, no “Discurso da Guarda” [23] (1977), nos declara (comparando-se a Camões nos transes da vida, “mas sem Lusíadas no bolso ou na bagagem”), que não sendo propriamente um emigrante, nem um “luso-americano”, é, de facto um “residente no estrangeiro”, ao dizê-lo com uma aparente simplicidade, oculta, de facto, sob essa espécie de eufemismo, a condição de expatriado que foi e que, apesar do 25 de Abril, irá continuar a ser. Tendo, como sempre teve e sempre lhe reservaram, como disse Fernando Cabral Martins [24] , uma “relação com Portugal e com a cultura portuguesa e mesmo com a intelectualidade portuguesa, sempre difícil, desde o princípio até ao fim, uma relação que nunca se resolveu”, naturalmente que essa “não relação” se manifesta subterraneamente, em muitos dos seus discursos ensaísticos e também, à superfície, na poesia. Basta recordar, em pastiche camoniano:

 

Esta é a ditosa pátria minha amada, Não
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de ter nascido nela

 

Ou, noutro tom, mas com a mesma raiva, a sua assunção como cidadão do mundo

 

Nascido em Portugal de pais portugueses.
E pai de brasileiros no Brasil,
Serei talvez norte-americano, quando lá estiver,
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
Se usam e se deitam fora, com todo o respeito
Necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A Pátria
De que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
Nasci, e a do que faço e do que vivo é esta
Raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
Quando não acredito em outro, e só outro quereria que
Este mesmo fosse. Mas se um dia me esquecer de tudo, espero envelhecer
Tomando café em Creta
Com o Minotauro,
Sob o olhar de deuses sem vergonha
(1969, Peregrinatio Ad Loca Infecta)

 

Assim o reproduziu, também, como que na mesma linguagem, Sophia de Mello Breyner, em “Carta(s) a Jorge de Sena” [25] de que vos deixo as “estrofes”:

 

I
Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade:
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde

 

II
E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida

 

III
Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem –
E assim às vezes chegavas de terra estrangeira
Não como o filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
– Grandioso vencedor e tão amargo vencido –
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos

 

IV
E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta

Coimbra, 22 de Outubro, 2013,

 

 NOTAS:

[1] Entrevista . Por Clara Pinto Correia (JL, nº106, 17 /7/ 1984)

[2] Poesia da Ciência, Ciência da Poesia, Org. de Marc-Ange Graff. Lisboa, Escher, 1991.

[3] Zenith, R. (editor). Bernardo Soares – Livro do Desassossego. Lisboa, Assírio & Alvim. 2003. Pp. 244, 245.

[4] Citado por José Luís Brandão da Luz, em “Criatividade Científica, Imaginação e Metáfora”, Poesia da Ciência, Ciência da Poesia, p.222)

[5] Tavares, G. M. Breves Notas sobre a Ciência, Lisboa, Relógio d`´Agua, 2oo6, p.82

[6] Ricouer, P. La métaphore vive. Paris, Seuil. 1975.

[7] Referência devida a Maria Otília Lage, retirada do seu trabalho, “O escritor e o engenheiro Jorge de Sena, sua Relação com a linha do Tua”, p. 4

[8]  O Engº João Lamas publicou na Revista da Ordem dos Engenheiros, Ingenium (Fevereiro de 1988 ), o texto “O Sena que eu conheci – Jorge de Sena, Estudante de engenharia” de que saiu Suplemento com as duas conferências proferidas em Lisboa e no Porto, respectivamente, em 1987 e 1988.

[9] Depoimento, publicado no “Dossier Jorge de Sena”, organizado por Luís Adriano Carlos, para o Jornal Letras & Letras, em 1988.

[10] Fez conferências e publicou já, entre 1939 e 1959, em várias Revistas, não só poemas como trabalhos de ensaio literário – nomeadamente, sobre Rimbaud, Florbela Espanca, Pessoa e Camões, para além de múltiplas traduções

[11] Sena, Jorge de, Líricas Portuguesas, 3ª série, Selecção, Prefácio e Notas. Lisboa, Portugália Editora. 1958, p.12

[12]  Sena, G. “”A Poesia de António Gedeão (Esboço de Análise Objectiva)”, Dialécticas Aplicadas da Literatura, Lisboa, Ed. 70, 1978, pp. 111 e 113

[13] Universos da da Crítica, citado em “Expansões Energéticas”, Jl, 27 de Março de 1996.

[14] “Em torno de O Labirinto da Saudade”, Prelo, Maio de 1984

[15]Considerações morais à guisa de prólogo” e “Citar, ou não citar, eis a questão”, incluídos em Vinte e Sete Ensaios. Lisboa, Círculo de Leitores- 1989 (pp.127 – 135).

[16] Sublinhado nosso.

[17] Aguiar e Silva, V. M. Camões: Labirintos e Fascínios. Lisboa, Cotovia. 1994, pp. 27 -36

[18] Este surpreendente “entusiasmo” e o seu anoitecer, que, hoje em dia, verdadeiramente encerra o estudo do texto literário e da literatura, e a confusão que, nos nossos dias, se instala sobre o que podemos entender por essa palavra, têm merecido a atenção de muitos (lá fora e cá dentro). Aguiar e Silva, no seu estudo, “Reflexões tempestivas sobre a crise das Humanidades” (in, As Humanidades, os Estudos Culturais, o Ensino da Literatura e a Política da Língua Portuguesa, Coimbra, Almedina, 2010, pp.53 – 74), demonstrava, em termos históricos, esse declínio e as suas causas.

O último eco de um desânimo (que é também verificação objectiva) surgiu recentemente, na crónica de António Guerreiro, com o terrível título, “A pós-Literatura” (Público, “Ípsilon, 18 /10/ 13), onde começa por dizer, “ À maneira de Valéry, que em 1919, em A Crise do Espírito, começava por dizer que «nós, civilizações, sabemos agora que somos mortais», poderíamos hoje dizer que essa longa e lenta elaboração a que chamamos literatura também é mortal: está  brutalmente ameaçada e em vias de desaparecer: Digamos com um pouco mais de rigor : não é plausível que deixe de haver escritores e textos literários, mas o que foi construído ao longo de quaro séculos – isto é, a possibilidade de uma literatura autónoma, com as suas instâncias  próprias e os seus mecanismos internos de legitimação – está a extinguir-se a grande velocidade (…). O espaço literário que se construiu consistiu numa luta para inventar e impor leis específicas da literatura – contra a política, contra a religião, contra uma economia da utilidade e do valor social, pela conquista do monopólio da legitimação literária. E, por isso precisou sempre do médium da reflexão, da abertura crítica e especulativa ao que se passava no seu interior. Sem auto-reflexão, sem essa inclinação obstinada ou até obsessiva sobre si mesmo, não há espaço literário”

[19] Sena, J. Vinte e Sete Ensaios. Lisboa. Circulo de Leitores. 1989

[20] Nova Renascença, Outono de 1980, volume 1º, pp 15 e 16. Texto inédito, provavelmente de 1971.

[21] “Jorge de Sena e o Demoníaco”, in O Canto do Signo – Existência e Literatura (1957 – 1993). Lisboa, Presença, 1994.

[22] “Quem deu o mau exemplo disto, como de muitas outras coisas, foi o famigerado Padre António Vieira, sebastianista rematado, e homem que falava tão bem, tão bem, tão bem, salvando a pátria, que a gente nem se dava conta que ele não dizia nada e a pátria ficava na mesma (ou lhe dava um merecido couce…”) (Nova Renascença, 1980, p..15)..

[23] Jorge de Sena, op. cit. 1989, pp. 277 – 288.

[24] Citado por Isabel Coutinho, “O regresso de Jorge de Sena”, P2, 11 de Setembro de 2011, no dia da cerimónia de homenagem, antes da trasladação dos seus restos mortais para o Cemitério dos Prazeres, não para o Panteão, como preferiria e o disse Vasco Graça Moura, na altura.

[25] Breyner, Sophia de Mello: Ilhas, Lisboa, Caminho. 2004.

 

[*] Conferência apresentada na Ordem dos Engenheiros da Região Centro, no âmbito das suas “Sessões Culturais”, por iniciativa conjunta dos Colégios Regionais da Especialidade e a convite da Coordenadora do Colégio Regional de Engenharia Geográfica, Engª Elisa Almeida

[**] Licenciada e Mestre  pela Universidade do Porto, Doutorada pela Universidade do Minho, é atualmente Professora Catedrática convidada da Universidade Fernando Pessoa. Dentre outras publicações, é autora dos livrosA Dimensão Fantástica na Obra de Eça de Queirós (Porto,  Campo das Letras) e  15 Dias de Febre – Autobiografia ou os Limites da Ficção (Babel, 2011).