6. Versos que revisitam Angola

Gilda Santos
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Igreja de Nossa Senhora da Nazaré, 1970 (foto de João Loureiro)

Proveniente dos Estados Unidos, e depois de várias escalas em cidades européias, chega Jorge de Sena a Moçambique, no dia 07 de julho de 1972, pela primeira e única vez em sua vida. Aí, entre encontros com amigos regados a conversas intermináveis, conferências, entrevistas, almoços e jantares sem conta, permanece até o fim do mês. Lourenço Marques, Nampula, a Beira, Cabaceira Pequena e, sobretudo, a Ilha de Moçambique** são os pontos referidos numa crônica que deixou inacabada, mas felizmente detalhados nas crônicas publicadas no Diário Popular, sob os títulos “De Atenas, Lourenço Marques e alguns etcs.” (06/8/1972) e “Moçambique ontem e hoje” (de 09/8/1972).

Da África portuguesa no Índico, segue Jorge de Sena para a atlântica Angola, mais precisamente Luanda, à qual retorna 34 anos depois de aí ter estado, nos “tempos de rapaz e marinheiro”, e onde permanece de 02 a 06 de agosto do mesmo ano:

em três dias foi que revi Luanda, ou antes procurei pela cidade baixa o que lembrava dela, além de revisitar os monumentos – as igrejas e os fortes – que continuam ainda no mesmo sítio onde estavam, apenas mais pintadas de fresco do que as lembrava ou mais restauradas da ruína em que se desfaziam.
São estas as palavras introdutórias da última crônica do Diário Popular, publicada em 20 de agosto de 1972, sob o título “Angola e Moçambique”, a sugerir que é uma “Luanda Revisited” o que aí se tem.
Além da crônica, cinco poemas resultaram desse reencontro com Angola, constituindo um “ciclo africano” em sua poesia. Datados de 04, 05 e 24 de agosto de 1972, integram Conheço o sal e outros poemas, publicado em 1974. Como de hábito, acompanha-o uma nota a advertir o leitor para o fato de esse livro conter muitos poemas temporal e topicamente localizados, onde pondera:

o informar das datas e lugares, se por um lado é risco que os poemas correm de ser levianamente identificados com poesia “turística”, é sobretudo indicação de que poderiam ter sido escritos noutros lugares e sem referência a nenhuns (como várias vezes aconteceu), por um poeta para quem, todavia, a criação poética não é abstrato exercício sobre indefinidas experiências.

Coerente com essa concepção, fornece-nos, em outra nota, algumas chaves para lermos melhor a seqüência de poemas “luandinos”:

[O poema “Aves na Baia de Luanda”] reflete, entre outras coisas, a impressão de ser revista em 1972 uma cidade que visitara muito jovem […]. O poema da avó manifesta a vivência familiar que a África era para o autor: as duas anedotas inseridas nele, contava-as sua avó materna […] Os poemas seguintes não requerem anotação excepto que, em 1972, não podia ser publicado o poema do “Café cheio de militares…”, agora incluído. (Sena 1989: 259)

“Aves na baía de Luanda”. Como que repetindo o gesto dos antigos mareantes, que adivinhavam a proximidade de terra pela intensa presença de aves, assim o sujeito lírico inicia sua apreensão desta parte da África concentrando primeiro seu olhar nos estranhos pássaros que a povoam.

Estranhos pássaros, estranhas terras: já o ponto de interrogação que, no primeiro verso, acompanha a palavra cegonhas (ave de características inconfundíveis) indicia a dificuldade de identificar, noutro tempo e noutro espaço, o que seria familiar, o já conhecido. O estranhamento em relação à ave associa-se a seu inusitado habitat, à “cidade boçalmente nova/ onde não há lugar para cegonhas”.

As estranhas cegonhas do agora, do novo, pressupõem outras, menos estranhas, de antes, a que sucederam, tal como as “bancárias/ e militares empresas que se espetam/ em doze andares na névoa” substituiram as “casas/ baixas e velhas, ao chão presas por/ portas iguais de armazenar negócios/ do padrão que por cima co’a família/ tinha andar de sacadas em que recostar-se”. Vislumbra-se nessa sobreposição de tempos e imagens um retrato do “progresso” urbano que, num afã modernizador, tudo descaracteriza. As casas baixas alçando-se em edifícios que tocam o “céu de névoas” expulsam as cegonhas para as “águas baixas, ou telhados/ de cumeeira”, invertendo assim a dita “ordem natural das coisas”: o alto passa a ser lugar de domínio humano; o baixo acolhe as aves, limitadas ao pousar.
Mas se as aves são um emblema da natureza neste espaço citadino, não poderiam ser lidas ainda como um emblema de tudo que aí é nativo? Não estaria também uma outra, verdadeira, Luanda, nesse tempo em que é revisitada, restrita aos espaços “baixos”, submissos, a que a obriga o poderio das empresas e instituições – “bancárias e militares” – que se instalam nos doze andares? Em 1972, sabemos bem, Angola é ainda província do Ultramar, ansiando pelo “25 de Abril”… A interrogação depois de cegonhas persiste no último verso. Será só de dúbias aves que o poema trata?
“Café cheio de militares em Luanda”. O título do poema evoca imediatamente uma situação histórica bem datada – aquela que nos remete à forte presença de jovens militares portugueses em Angola, num esforço teimoso em manter o “Império”, já prestes a se esboroar.
Nas estrofes com número irregular de versos, descrevem-se cenas rápidas de uma peça, algo farsesca, onde soldados exibem comportamentos machistas convencionais, estimulados pela presença de uma rapariga a escrever cartas nesse palco-café.
Os gestos, os olhares, as falas deles (que os versos não transcrevem) são instrumentos de pressão para que a rapariga rapidamente saia de cena. Restam os conquistadores – à D. Juan ou “cavalões” – portugueses todos, evidentemente. E, por isso mesmo, de reações previsíveis como consolo da frustração no ataque à “presa”: masturbarem-se nas retretes ou pagarem putas para depois “contarem/ de uma grande conquista que fizeram todos”.
Mas, e a rapariga? Será uma nativa ou uma portuguesa também? Dela só sabemos ter aliança no dedo, azul em torno aos olhos, pouca roupa e escrever cartas. Pouco importa: é mulher. Mulher acossada, sem espaço seu, ultrajada em sua liberdade, vítima da cobiça de machos afeitos ao vangloriar-se. Em tempo de guerra, neste drama de uma Luanda tão datada, a que nível de degradação chega o diálogo homem/mulher? (E fora de Luanda, fora da guerra, será muito diferente o drama?)
“Foi há cem anos, em Angola” presentifica um passado familiar, como o autor confirma em sua crônica:

É certo que as Áfricas já eram e continuaram a ser uma presença viva da minha família quando eu nasci – desde que, há cerca de um século, minha avó materna, Isabel dos Anjos Alves Rodrigues Teles Grilo, a “Senhora Grande” para os indígenas do Sul de Angola, a esta aportou para lá viver décadas de orgulhosa “Professora Régia”, que o rei D. Carlos nomeara e a República reconduziu em pitorescas circunstâncias. (20/8/1972)

A admiração pela avó, “professora régia” e contadora de casos, é rememorada em narrativa coloquial, também em tom de quem descompromissadamente conta histórias, sem se esquecer de nelas intercalar os diálogos que dão vida ao relato.
Nessa recuperação de raízes, o testemunho documental: a professora nomeada pelo rei, que se desloca com séquito de rainha, “pelo mato poeirente e verdejante”, para levar um saber estranho aos nativos… Encontro de diferenças. Muitas. Contudo, o diálogo entre culturas se faz. Representantes do mundo dos negros e representante do mundo dos brancos “sorriram-se entendidos um e outro”, como a provar que a harmonia é possível.
“Senhora de Nazaré em Luanda” empreende um regresso a passado mais distante e conta-nos da fundação da igreja em 1664 pelo devoto governador André Vidal de Negreiros, devoto cujo nome, ironicamente, o liga, por um lado, ao nada-devoto comércio de escravos e, por outro, com respaldo em Gil Vicente, àquela raça – ímpia – que evoca “esturro/ ardido noutros lumes”…
Portuguesa que é, a capela guarda belos azulejos, consagrados ao milagre sucedido a D. Fuas pela intervenção da Virgem Mãe (ou do Espírito Santo, “em Roma agora banco”)… E compõe a paisagem, como aquelas outras aves estranhas, do primeiro poema, com a leveza elegante de pássaro: “Branca e de arcos,/ pousou-se aqui à beira da baía”.
Finalizando o ciclo angolano, o poema “Na igreja dos Jesuítas em Luanda” constrói-se a partir de uma cena curiosa presenciada pelo poeta e registrada igualmente em sua crônica de 22/8/72: “nesta [igreja] […] vi uma negra velha, sentada no chão, em animada conversa particular com o Cristo crucificado”. E a cena da imponderável interlocução entre um humano – de “cabeça antiga de outra raça/ e sobretudo de outros deuses” – e a representação de um divino – “o Cristo/ que pende morto acima dela, imóvel/ e silencioso” – é elemento desencadeador de reflexões, de questões sem resposta, sobre um possível, ou impossível, diálogo de culturas.

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Encerra-se assim a viagem, de que resultou o políptico poético que examinamos. Políptico pintado em várias técnicas, com vários materiais: a crônica jornalística, o relato descritivo, a investigação histórica, o mergulho na memória pessoal, o instantâneo fotográfico… Mas nada aí nos faz pensar em exotismo, em olhares perplexos diante do diferente. Pelo contrário, é sobretudo em tom de familiaridade que tudo nos é apresentado. Bem distante daqueles narradores de olhos constantemente espantados como os dos cronistas-navegantes de Quinhentos, seria um narrador sóbrio como o de Garrett em Viagens na minha terra aquele que nos guia por estes versos. Também como o viajor que vai a Santarém, o eu lírico desta suite africana, (que, afinal visita “Santaréns” ultramarinas), deixa entrever o mesmo propósito: “de quanto vir e ouvir, de quanto pensar e sentir se há de fazer crônica”. Pois o que importa é adentrar, para conhecer melhor, tanto o interior do país como o seu próprio interior, feito do sentir e do pensar.
De fato, as terras filtradas nestes poemas se nos apresentam, apesar das peculiaridades assinaladas, como extensão do espaço conhecido, como projeção em outras latitudes de uma cultura lusíada que é preciso apreender. Por isso, é possível a identificação de traços portugueses nas igrejas, a rememoração das histórias da avó “professora régia”, a implícita censura tanto à atitude dos militares no café como à descaracterização urbana trazida pelo progresso invasor… É, pois, assumidamente uma África portuguesa e citadina que Jorge de Sena (re)visitava nestes versos.
Atitude pró-colonialista? Não há uma só palavra nesses textos que autorize a hipótese. A sua perspectiva, nada colonialista, revela-se cristalina no final da já mencionada crônica de 20/8/1972:

A minha pátria são a literatura portuguesa e as culturas de língua portuguesa, seja onde e como forem. Quanto ao mais, eu não me quero dessa aldeia entalada entre o Terreiro do Paço e o Bairro Alto, enquanto ela persistir em ignorar-me à escala universal e não aprender a rever-se na grandeza do Brasil, de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, etc., como dos milhões de portugueses e descendentes de portugueses de todas as cores que povoam (e repovoam) o largo mundo. E este eu entendo que ele pertence efetivamente a quem o faz, e não a quem vive nele como um parasita.

 

* Versão reduzida e retocada de SANTOS, Gilda. “Jorge de Sena: versos que visitam a África”. In: CORRÊA, Alamir Aquino, org. Navegantes dos mares às letras; ideário da navegação na Litratura Portuguesa. Londrina, UEL, 1997 p. 163-178

* * Espaço que muito o marcou, e onde escreveu o poema “Camões na Ilha de Moçambique”. Ver: SANTOS, Gilda. “Camões e as navegações vistas da Ilha de Moçambique”. Boletim do SEPESP 6 (Seminário Permanente de Estudos Portugueses), Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/ UFRJ, 1995 p.155-166.