1. "Gênesis: o jogo dos textos"

Cleonice Berardinelli
Escola Naval, setembro de 1937 - Jorge de Sena, cadete de Marinha
Escola Naval, setembro de 1937 - Jorge de Sena, cadete de Marinha

Inaugurando a série “JS lido na UFRJ”, nada mais oportuno do que um texto da decana dos estudos portugueses no Brasil, e “seniana” de primeira hora na UFRJ, exatamente sobre os contos duplamente genesíacos do jovem autor.

A Mecia de Sena
Na “Breve nota de introdução” ao pequeno volume Genesis, de Jorge de Sena, informa Mecia de Sena que a produção literária de seu marido começa a ser registrada em cadernos intitulados Obras a partir de 1936, o que dá à sua incansável e profícua produtividade a duração de quarenta e dois anos – de 1936 a 1978, data de seu falecimento.

Gênesis compõe-se de dois pequenos contos: o primeiro, “Paraíso perdido”, traz a data 7/9/37 e a anotação: “revisto em 15 e 16 / 4/38” e “acabado de rever em 4/5/38”, o que quer dizer que, composto o segundo, o autor voltou ao primeiro para retocá-lo, ou melhor, usando seu próprio termo, aplicado ao segundo, limá-lo.[1] São duas breves obras de um adolescente de dezessete e dezoito anos, mas escritas com tal garra e segurança, tão fortes e concisas, sem desvios narrativos gratos à inexperiência da idade, que não se podem excluir na apreciação geral da obra multiforme e riquíssima do autor.

Revelando já a essa altura da vida o seu relacionamento difícil com Deus – que permanecerá ao longo dos anos e das obras –, o jovem Sena vai ao texto bíblico para tomá-lo como fonte, mas também para “traí-lo”, dele fazendo a sua leitura. Da história sagrada faz a sua estória profana – porque é sua e porque, na verdade, profana o espaço do sagrado, num jogo intertextual em que lança sombra ou luz sobre o texto do Velho Testamento, fazendo que não se veja o que não convém a seu caminho rebelde ou se valorize o que estava meio oculto, e mais, que surja, nítido ou disfarçado por baixo das palavras, o que lá não estava.

O capítulo 2 do “Gênesis”, em seus versículos 21-23, conta a criação da mulher, tirada da costela de Adão; antes de criá-la, já Deus ordenara ao homem “não comas do fruto da árvore do bem e do mal” (17)[2] . No capítulo 3 (1-5), lemos a apresentação da serpente como “o mais astuto de todos os animais da terra” e assistimos à cena da tentação de Eva pelo animal que usa do melhor argumento para convecê-la: “vós sereis como uns deuses”. Vencida, Eva come o fruto e o dá a comer a Adão (6) e ambos se percebem nus (7), escondendo-se de Deus (8). Novo diálogo se instala na narrativa (o primeiro fora entre a serpente e Eva): é agora Deus que interpela, primeiro a Adão, depois a Eva; ele justifica-se, culpando-a; ela, culpando a serpente que a enganara (12-13). O senhor maldiz a serpente; castigá-la-á como animal que é (14-15), e ao homem e à mulher expulsa do Éden (16-17), para que, conhecedores do bem e do mal, não vão também comer da árvore da vida e tornar-se eternos (22). O que era o Éden, “jardim delicioso”, dizem os versículos 8-15 do capítulo 2.

Até aqui, o texto bíblico. Passemos ao texto profano. A primeira palavra do conto é “Adão”. Já criado, usufruindo da suavidade do Paraíso apresentado como o mais perfeito locus amoenus, que ele adoraria “se não soubesse que Jeová o vigiava a cada instante”, é Adão colocado como o centro da estória. Foi ele que pediu a Deus “o pensamento, a fala e Eva”. Esta começa por ser apresentada através da sua visão: “Ali estava a sua companheira – bem sua, não era uma daquelas coisas duras que tinha dentro dele?” (Assim se resume a criação da mulher).

Introduzida na narrativa, Eva figura ao lado de Adão: “Deitados à sombra duma árvore descansavam das brincadeiras da manhã: correr, jogar às escondidas e pôr pedrinhas no regato para o desviar.” (observe-se o clima de inocência das brincadeiras do primeiro casal).
Adão, porém, adormece e Eva se levanta em silêncio (não fosse Jeová ouvi-la”), dirigindo-se a “uma árvore pequena, mas tão atraente, tão linda, tão proibida…” e lembrando-se da proibição de Jeová: se comerem daqueles frutos, serão expulsos do Paraíso para um lugar que nem imaginam; “Quem para lá for há-de amargar o doce desta fruta!” É Jeová quem reconhece que a fruta é doce…

Num breve parágrafo, é o narrador que informa que os animais e Adão (porque também aos animais se fizera a proibição) haviam esquecido a árvore; só Eva não. No parágrafo seguinte, já não se sabe se é o narrador ou ela que fala em estilo indireto livre, a perguntar-se: “A que saberia a fruta? O que seria o Bem e o Mal? E se tirasse um pomo? E se Deus via? Expulsa do Paraíso” (note-se o expressivo emprego coloquial do imperfeito), e a fazer o julgamento do espaço edênico em que viviam; “Ora! O paraíso era tão aborrecido, todos os dias o mesmo: brincar com a água, com pedrinhas, com os animais, brincadeiras onde de dia para dia não aparecia novidade.” Era isso: farta do mesmo, Eva queria o novo. Hesita, decide-se, toma o fruto, deixa-o cair, apanha-o, dá-lhe uma dentada e outras mais.

Esta, em Sena, a cena da tentação. Que foi feito da serpente tentadora a quem cabia no Velho Testamento a sedução de Eva para o primeiro pecado? Vamos encontrá-la, mas diferente da primeira, na página seguinte. E esta é a primeira funda alteração do texto antigo. Eva sofre uma tentação a que se poderá chamar ab imo, já que vem de dentro dela mesma, daquilo que a caracteriza desde o início como mulher: a curiosidade e o desejo de inovar. Não há aqui o desejo de ser como os deuses, aquele impulso prometeico que marca o ser humano, engrandecendo-o, mas a tendência à transgressão da imposição não aceita. Cedendo à tentação, Eva sabe que sofrerá o castigo, mas antes tem o prêmio que apetecia: “Começou a sentir-se mais leve, mais alta, mais diferente. Um arrepio quente passou-lhe a pele. Gemendo de alegria estranha, apeteceu-lhe rebolar-se no chão. E desejou que Adão também experimentasse essa alegria: “mostrava-lhe o fruto e ria-se sem saber o que tinha. Abraçava-o, chegava a boca à dele.” Nova cena de tentação se inicia e desenrola, agora com a tentadora visível e ativa como a serpente bíblica, mas cujos argumentos não são os da palavra, senão os dos gestos lúbricos de Eva, de sua “boca quente e húmida”, de seu abraço, do atrito de seu corpo, da tática amorosa de uma mulher “enlouquecida de desejo novo.” Adão reage, repele-a, mas acaba por ceder e, como ela, tem o prêmio da infração: “Um calor fulgurante percorreu-o todo e inconscientemente enlaçou-a.” E os dois encerram o ato amoroso que voltaria tantas vezes na poesia e na prosa maduras de Jorge de Sena: “Ofegantes no novo mistério torceram-se e rebolaram nas folhas amarelecidas.”

Só aqui aparece a serpente: “Uma serpente que se aquecia ao Sol viu tudo. A nova correu todo o Paraíso e os animais do céu e da terra assaltaram a árvore.” Seu papel será, no máximo, o de mensageira da notícia que correu entre os animais. E, como na versão moderna da velha história os animais também tinham sofrido a proibição, nela também eles participavam da infração e depois do castigo. A árvore do Bem e do Mal será devorada por todos os bichos da terra e do ar, e finalmente pelos peixes. E mais: os anjos jovens acorreram ao Éden para provar o fruto tentador.

Jeová “espreitou do alto e viu aquela bacanal fantástica enchendo a sua obra. Ficou boquiaberto e voltado a si gritou: – Vamos castigar aquilo tudo! E voltou-se para os anjos.” Foi então que viu que só ficavam ao seu lado os anjos velhos. Num acesso de fúria, precipita-se para a Terra: “E como um furacão, cabelos arrepiados na corrida, auréola tombada sobre uma das orelhas, barba desgrenhada, olhos gritando fogo, túnica a esvoaçar; Jeová desceu ao Paraíso.”

Depois do prêmio, o castigo. Começa pelos que estavam mais próximos dele, os anjos. Manda-os para o inferno, para os diabos. Um deles ousava olhá-lo, com olhos verdes, a desafiá-lo. “Tu, Lúcifer! berrou Jeová no auge do furor. Pois ficas Satanás! Ficas chefe do grupo! Vai p´ro inferno!” [3]
Dos anjos passa a Adão e o expulsa. Este, atemorizado, engasga-se com um bocadinho do fruto proibido, e assim ficará “para todo o sempre.” Os animais desfilam em direção à porta. Só Eva reage à sua maneira.

“Então, resoluta e medrosa, linda como nunca, o peito arfando, o cabelo desgrenhado docemente pela volúpia, tapando o corpo com um braçado de folhas de parra, Eva procurou o mais terno sorriso que lhe ensinara a árvore do Bem e do Mal e disse gorjeando as palavras, ébria ainda: – Não sejas muito severo, meu Senhor!”

 

E é inesperado e deliciosamente irreverente o efeito de seus trejeitos e palavras em Jeová: “Jeová sentiu dentro dele uma sensação melodiosa, espantou-se de não ter gritado e disse de si para si enquanto a via afastar-se ao lado de Adão no meio da turbamulta: – Esta Eva!” Há um quê de edipiano de duplo sentido (se assim se pode dizer) nesta relação quase incestuosa entre Eva e o Criador, tudo dito em tom brincalhão de quem não leva a sério os livros sagrados e joga com seu texto, puxando-lhe os fios para tecer um outro que contesta e parodia o primeiro.

Se o conto terminasse na exclamação entre divertida e enternecida do Senhor, o seu retrato negativo, que se desenhara até com pinceladas de ridículo na sua descida do Céu ao Paraíso, estaria retocado com tintas de simpatia humana que, se o apeiam do divino, o aproximam daqueles que expulsou num momento de cólera. Mas há um parágrafo final.

“Foi por isso que anos mais tarde Deus se fez homem e habitou entre nós. Mas o Mundo era mais sabido – tinha comido a árvore do Bem e do Mal – e Deus que a guardara sem lhe tocar e a quem não restara nem uma folhinha seca tinha ficado bondoso para sempre – era de esperar que fosse enganado.”
Não somente menos severo e até divertido, mas bondoso. E ainda mais: insciente do Bem e do Mal – que ele proibia sem conhecer – diante de um Mundo que muito bem os conhecia, foi e será sempre enganado.

Concluindo: aos dezessete anos de idade, sem nenhuma experiência da vida, mas dominando a língua e intuindo uma excelente técnica de narração, Jorge de Sena se apropria do texto bíblico e, dele tirando os pontos de referência mais divulgados, transmuda-o. Desde o título “Paraíso perdido” (em que talvez ressoe Milton), sabe-se que o ponto central da narrativa é a comissão do primeiro pecado com o castigo subseqüente. O que é novo é o momento de gozo interposto a ambos, que o autor prolonga com requinte erótico. O que é novo também é a responsabilidade total de Eva como tentada e tentadora. E a inesperada transformação de Jeová em Deus (veja-se que começa a ser assim chamado a partir do passivo desfilar dos animais). É novo, indubitavelmente, o tom zombeteiro que já se assinalou e que quebra a seriedade do sagrado.

O segundo conto, “Caim”, tem origem no capítulo 4o do Gênesis, em que se diz que Eva teve dois filhos: Caim, lavrador, e Abel, pastor de ovelhas. Ambos ofereceram seus dons ao Senhor, e este só olhou para Abel. Caim irou-se e o Senhor lhe perguntou por que estava irado. “Porventura, se tu obrares bem, não receberás recompensa? e se obrares mal, não estará logo o pecado à porta? Mas tua concupisciência estar-te-á sujeita, e tu dominarás sobre ela”. No entanto, Caim chamou Abel para irem ao campo e lá o matou. Quando o Senhor lhe perguntou onde estava seu irmão, respondeu-lhe dizendo que não era o guarda de Abel. O Senhor o amaldiçoou, dizendo-lhe que a terra que cultivasse não lhe daria frutos; “tu andarás vagabundo e fugitivo sobre a terra.” Caim reconheceu que seu pecado era muito grande para poder alcançar perdão: “todo o que me achar matar-me-á.” O Senhor, porém, “pôs um sinal em Caim, para que o não matasse quem quer que o encontrasse. E Caim, tendo-se retirado de diante da face do Senhor, andou errante pela terra, e ficou habitando no país que está no nascente de Éden.” (versículo 1-16).

O conto de Jorge de Sena começa com a volta de Caim a casa, ao fim do dia. Desprende-se do texto a paz e o sossego do entardecer. Caim pensa na família, mas seu rosto se assombreia quando se lembra do irmão. À porta de casa encontra os pais e os beija. É, pois, uma figura simpática a que se delineia na sua apresentação ao leitor. “Adão e Caim falaram das colheitas. Não iam mal; os trigais muito louros adoravam já o Senhor com as espigas felizes pendidas para o chão.” Chega Abel; interrogado pelo pai, responde que os carneiros “andavam magros, não medravam, não pareciam os mesmos de tempo atrás.” Vão deitar-se e Caim fica a pensar:

“Em tudo o Senhor preferia o irmão. Agora tinha porém ocasião de se vingar. Os animais estavam tão magros quanto suas culturas estavam gordas e Deus, desta vez, gostaria mais do que ele lhe levasse.”

Chama pelo irmão, que também não dormia, e propõe que vão, no dia seguinte, levar seus produtos ao Senhor. Abel concorda, pensando: “quer vexar-me porque sabe que nada tenho de bom, por outro lado, se não vou, é ele que ganha com certeza”. Caim adormece “no descanso de sua vitória”.
O lugar em que devem encontrar o Senhor é marcado pela dureza, agressividade e aridez: “A terra era árida, a aridez estava em Deus, o sítio divino era árido.” Sobem a um “penhasco abrupto, selvaticamente ornamentado pelas sarças”. Trovões, vento a assobiar, sol brilhante precedem e acompanham a aparição de Jeová que lhes pergunta: “Que quereis?” Caim é o primeiro a falar: “Trago-vos trigo da minha seara e fruta das minhas árvores. O trigo plantei-o para vós, os frutos para vós os colho… E Caim era sincero quando dizia isto.”

O Senhor agradeceu, mas foi a Abel que disse, enquanto acariciava o carneiro que este lhe dera: “Vejo, Abel, que és deveras meu amigo…” Caim decepcionou-se e reagiu:

“– Senhor! Nem contemplais o que vos trago! Hoje, como sempre, é a meu irmão que preferis? E o que vos trago é melhor que o dele… As mãos descairam pesadas de amargura – Nem uma palavra, nem um louvor, nada… Vós sois Deus, vós sois o Senhor… Mas não tendes razão… Desprezais-me sem motivo…”

Abel olhava-o e “talvez estivesse contente vendo-o definir a sua superioridade.”

Jeová, com “o amor-próprio ferido”, riposta-lhe com veemência e dureza. Não tem que dar satisfação de sua preferência. Chama-lhe falso e invejoso. Abel intercede e o Senhor diz que por sua intercessão perdoa ao irmão. Rejeita as ofertas de Caim e “lançando um último olhar àquele que esmagara desapareceu sem ruído.”

Os dois irmãos retomam seu caminho. Abel diz-lhe que Deus é bom e Caim repete que não o é, batendo com força na cara do irmão. Lutam, Abel consegue vencê-lo e deixa-o desmaiado. Mas ele também está todo ferido, sentado à beira do abismo; perdido em seu cogitar, não vê “Caim voltar a si, mexer-se, levantar-se cautelosamente. Não o sentiu aproximar-se de braços estendidos.” O outro firma-se e empurra o irmão. Abel precipita-se no abismo e o narrador, com força extrema, descreve a queda e a reação de Caim.

“O fratricida ficou, com os braços meio estendidos, petrificado no espanto de si próprio. Aos seus olhos desvairados parecia que Abel rolava no mesmo sítio e era a penedia que deslizava vertiginosamente para ele.[4] Uma pedra pontiaguda aproximou-se. O crânio de Abel chocou-se com ela e fustigou-a de sangue; o corpo hesitou um momento e depois continuou o caminho para a torrente onde caiu. As águas fizeram-nos voltear e esbracejar, lamberam-lhe o sangue e levaram-no consigo.

Caim quando a cabeça do irmão se estilhaçou deu um grito violento que o arranhou e encheu de pavor. Caiu de joelhos e agachado, mãos enclavinhadas no chão, olhou o irmão que a água transportava por entre as pedras.”

Tomado de uma “mágoa imensa”, “abateu-se sobre as pedras, amarfanhado a chorar”. Acabou por adormecer e acordou com a voz do Senhor a chamá-lo e a perguntar-lhe pelo irmão. Odiou a hipocrisia divina. Ouviu as violentas acusações que lhe fazia Deus, mas ouviu-as indiferente, “porque tudo o que o Senhor lhe dizia já as suas lágrimas lhe tinham gritado.”

E ouviu ainda mais: “Eu sei que tu mataste o teu irmão!” Revoltado, bradou: “Se sabia porque deixou? Porque não se entrepôs? Não era amigo dele? Porque me deixou matá-lo?” A resposta mais o indignou: “Quis ver até onde ia a tua sede de maldade! […] Quis julgar o vosso / teu e de teus pais / bem e o vosso mal!” e revida:

“Sacrificaste-nos a mim e a ele à tua curiosidade horrorosa! Eu nunca teria matado o meu irmão se não tivesse provocado… Para julgar o bem e o mal! O bem e o mal!! Que sabes tu deles! Nem sequer lambeste a árvore!! Qualquer animal sabe mais do que tu!! E o pouco que sabes aprendeste conosco!”[5]
Retoma-se, como se vê, o que dissera no outro conto sobre o desconhecimento, da parte de Deus, do bem e do mal. Mas o que lá fôra a razão de ser enganado – enganado pelos homens que tinham provado do fruto proibido –, o que o torna frágil e merecedor de uma enternecida simpatia, é aqui usado contra ele, já que a sua ignorância é a causa da sua maldade:

“É por isso que nos espias e nos provocas! Mesmo sem saber tu foste mau! Não tens alma à força de a espalhares em todas as coisas! És ridículo! Nem sequer sabes o que fazes! Eu rio-me! Vês?! /… / Eu rio-me de ti!… Se somos maus a culpa é tua!”

No desespero de sua cólera de injustiçado, esgotados os argumentos verbais, Caim apela para o gesto violento e desrespeitoso, sacrílego:

“Devias ter vergonha de ti mesmo! Eu nem a tenho de ti! Para quê? Olha, o mal é também isto! – Arrancou a pele que o cobria e atirou-lha. – Mas é também o bem! E por mais que espies, a este bem ou mal nunca chegarás! O amor é só p´ra nós!”

E a agressão continua em reiteradas afirmações de ódio e destemor. Ele irá pelo mundo a gritar que o seu crime é a baixeza do Senhor; gritará até cair morto, mas contente, saciado, “porque todos os que passarem pelos meus ossos dirão – Este é Caim, a vítima de Deus…”. As lágrimas lhe vêm “molhar o sorriso amargo que se obstinava nos lábios…”

“Deus ouviu tudo, sofreu tudo em silêncio” até ao fim. Só então falou: não, Caim não morreria, haveria de viver para sentir remorso do que dissera e fizera. Sua revolta ficaria dali em diante contida em seu peito, ainda que passasse

“aos filhos dos teus filhos, aos netos dos teus netos, do peito deles não sairá também… Vou dar-te um mundo novo para viveres. Nele terás filhos e serás feliz – uma ponte, obra de anjos, apareceu sobre o abismo. – Vai! Atravessa o teu cúmplice. Perdoar-me-ás como eu te perdoo…”

Caim atira-lhe à face a palavra que antes pensara: “Hipocrisia!” e continua:

“Não me compras com as tuas escorregadias palavras de perdão… Vou-me embora, sim! Pode ser que tenha filhos! Pode ser que seja feliz! Que te perdoe, que chame por ti! Mas não há-de ser onde tu quiseres! Vou-me embora, mas não pela tua ponte! /… / Vou para onde a minha vontade me levar!”

É outro Caim que aqui se revela: foi o injustiçado – e continua sê-lo –; agora é mais – e com que força! – o rebelde. Se antes procurava conquistar a aprovação de Deus, aplacando-o com suas ofertas, agora rejeita-a, afirmando o seu livre arbítrio (não lho concederam para cometer o crime?), a sua vontade soberana: “Ela é mais forte do que tu!” São as suas últimas palavras. Depois, e por fim, a linguagem dos gestos:

“Ao passar diante do Senhor, silencioso e quieto, arredou com o pé a pele que o cobrira e, passando adiante, começou a sumir-se na noite que se aproximava.”

Vai, inteiro e nu, para o destino que tentará conduzir.

Dos dois personagens desta cena intensamente dramática, um parte, o outro fica, para depois partir; mas há também um personagem secundário que assiste a tudo: o cordeirinho de Abel. Ele já tivera, lá atrás, uma pequena mas significativa participação no drama: morto Abel, adormecido Caim, ele se deitara ao pé do fratricida. Neste momento final, entre Caim, que sai, e Deus, que permanece, hesita “e por fim, balando e às corridinhas, seguiu Caim.” É mais uma vez o gesto expressivo: nele, implícita, a aprovação do narrador.

Novos e inesperados personagens continuam o julgamento, já não para absolver, senão para condenar. Deus fazia desaparecer a ponte rejeitada por Caim, quando ouve risos:

“Das frestas das pedras caras escarninhas de diabos mofavam dele. Mal disposto, lançou-lhes um olhar que os fez esconderem-se; depois chamou uma nuvem, sentou-se nela e voltou para o céu.”

Concluindo: enquanto no primeiro conto tinha havido uma excepcional concisão em relação ao texto originário, neste há uma notável distensão. A que se deve? Ao enriquecimento do personagem Caim que passa de anti-herói a herói. Para tal, há que justificá-lo ab initio e, ao longo da estória, há que incriminar seu antagonista; há que dar-lhes a palavra em extensos e ásperos diálogos, há que descrever detalhadamente as ações e reações de um e de outro. O texto bíblico é apenas a talagarça onde se tece, obedecendo ou não ao risco, o novo texto seniano. A injustiça divina lá está, mas apenas acenada; a reação de Caim é injusta, porque nada se explica das circunstâncias em que se deu; nele não há mágoa nem sofrimento, mas apenas consciência da grandeza do pecado e temor da morte. Personagem totalmente negativo, assim passou à posteridade: feito de uma só peça, é o mau, o matador do irmão inocente.

Jorge de Sena redime-o, transforma-o em herói problemático. Caim é, acima de tudo, um inconformado, um revoltado contra a injustiça, um ser talhado para a liberdade. Poderia dizer, como disse mais tarde um grande poeta: “Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou, / Sei que não vou por aí!”[6] É o protagonista de um drama existencial de todos os tempos, e por isso mesmo moderno, atual. Seu antagonista é o mesmo que se opusera a seus pais, no conto anterior. Como já se apontou antes, porém, o narrador, que lá o julgara com benevolência – apesar de ter-lhe lançado o ridículo –, aqui se encarniça em apresentá-lo como o detentor injusto do poder, o arbitrário, o hipócrita.

Por trás desse narrador está o jovem autor, agora de dezoito anos. Entre os dois contos passaram-se meses, aqueles que gastou numa “viagem de treino como cadete, na Sagres”, e sabe-se que esta viagem e as conseqüências que dela advieram marcaram para sempre o homem sensível que foi Jorge de Sena. Sem querer fazer de seu conto uma página autobiográfica, parece razoável nele encontrar uma projeção do auto-narrador, também injustiçado, também amante da liberdade, também gritando, pela voz de sua criatura: “Vou-me embora, mas não pela tua ponte!”
Duas pequenas obras da adolescência, duas obras já bem realizadas que trazem em si o germe da grande Obra que iniciam.

 

Notas:

1- Ao conto “Caim” ele apôs a seguinte anotação: “Bom para limar”.
2- As citações são tiradas de Bíblia Sagrada traduzida pelo Padre Antonio Pereira Figueiredo. Lisboa, Deposito das Escripturas Sagradas, 1922.
3- Segundo os Padres da Igreja, Lúcifer é o nome de Satan antes da queda. Assim está no Paradise Lost, de Milton.
4- Chamou-me Mecia de Sena a atenção para a tomada cinematográfica da cena: é, por certo, algo de novo no momento em que o autor a escreve.
5- Note-se que o tratamento dado a Deus por Caim passa de vós ao você e ao tu, à medida que este se encoleriza.
6- José Régio. “Cântigo negro”. In: —. Poemas de Deus e do Diabo, 7. Ed. / Lisboa / Portugália, 1969, p. 59.

 

Primeiro texto da autora sobre Jorge de Sena, foi originalmente publicado no dossiê “Evocação de Jorge de Sena”, Boletim do SEPESP (Seminário Permanente de Estudos Portugueses) nº 6, Fac. Letras/UFRJ, set. 1995 p. 45-56. Organizada por Gilda Santos, coube a esta revista inaugurar as publicações sobre Jorge de Sena a partir da UFRJ.