67. Proximidades e distâncias no diálogo epistolar / entre Jorge de Sena e Delfim Santos

Maria Graciete Besse**

A professora e pesquisadora Maria Graciete Besse, da Universidade de Paris-Sorbonne, aqui nos apresenta uma leitura atenta do carteio trocado entre Jorge de Sena e Delfim Santos.

 

 Capa e índice da revista Unicórnio, Lisboa, 1951

Capa e índice da revista Unicórnio, Lisboa, 1951

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“En général, on correspond pour se rapprocher de l’autre, pour communiquer avec lui, du moins le croit-on. Mais peut-être est-ce surtout de son éloignement dont on fait l’expérience. »

Vincent Kaufmann

 

O que significa penetrar na correspondência privada de escritores ou de figuras culturais marcantes em determinada época ? Para além da descoberta de uma trajectória intelectual que se move entre presença e ausência, ao ritmo da temporalidade epistolar, o leitor procura quase sempre neste tipo de obras as marcas de uma emoção e de uma sociabilidade que se traduzem por maneiras de pensar e de viver, práticas de escrita, às vezes confidências pontuais, detalhes anedóticos ou fontes susceptíveis de esclarecer certos aspectos da personalidade dos autores. Como observa Roger Chartier, a leitura da correspondência ajuda a compreender melhor a maneira como os indivíduos constroem as suas representações sobre o mundo pois ao associar práticas sociais e subjectividade, o género epistolar revela-se como um espaço privilegiado para a observação das relações do indivíduo consigo mesmo e com os outros [1]. Enquanto acto de comunicação que oferece um testemunho escrito, a carta implica tanto uma lucidez introspectiva como uma retórica demonstrativa, inscrevendo-se num contexto pessoal e social que é inseparável das circunstâncias históricas e culturais em que foi produzida, fornecendo por conseguinte preciosas informações sobre a mundividência dos seus autores e a actividade intelectual de uma determinada sociedade.

A recente publicação da correspondência trocada durante alguns anos entre Jorge de Sena e Delfim Santos, num período que se estende entre 1943 e 1958[2], constitui um contributo importante para o melhor conhecimento da vida cultural portuguesa em plena época salazarista. O volume, cuidadosamente organizado por Filipe Delfim Santos, que assina um brilhante estudo introdutório bem como um notável aparelho de notas, permite ao leitor penetrar no universo mental destas duas figuras tutelares da intelectualidade portuguesa do século XX.

O escritor Jorge de Sena e o filósofo Delfim Santos foram contemporâneos e implicaram-se, cada um à sua maneira, na vida cultural da sua época, conhecendo ambos o exílio em períodos diferentes e por razões distintas. Jorge de Sena nasceu em Lisboa em 1919, frequentou a Escola Naval e, apesar da vocação para a poesia, formou-se em Engenharia, exercendo durante alguns anos a profissão de engenheiro civil na Junta Autónoma de Estradas. Em 1959, auto-exilou-se por razões políticas para o Brasil onde se doutorou em Letras, em 1964, com uma tese consagrada à poesia camoniana. Para escapar à ditadura militar brasileira, exilou-se uma segunda vez, em outubro de 1965, desta vez para os Estados Unidos e aí recomeçou uma carreira universitária em Santa Bárbara, na Califórnia, onde viria a falecer em 1978. A sua extensa obra inclui poesia, romance, teatro, ensaio, crítica literária, tradução, mas também uma volumosa correspondência que tem vindo a ser publicada nos últimos anos[3]. Delfim Santos nasceu em 1907 no Porto, cidade onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas. Em 1935, partiu para Viena com uma bolsa do Instituto para a Alta Cultura, com o objectivo de aprofundar o estudo dos filosófos alemães que iriam marcar a sua obra futura. Em 1937, foi para a universidade de Berlim como leitor de língua portuguesa. Doutorou-se em Coimbra, em 1940, com uma tese intitulada Conhecimento e Realidade, voltando novamente para Berlim até 1942, data em que regressou definitivamente ao seu país. Ingressou em 1943 como docente na Faculdade de Letras de Lisboa, onde desenvolverá um importante trabalho de renovação do pensamento pedagógico português e em 1950 torna-se o primeiro professor catedrático de Pedagogia em Portugal. Em 1962 criou junto da Fundação Calouste Gulbenkian um Centro de Investigação Pedagógica de que foi director desde 1963 até à sua morte ocorrida em Cascais, em 1966[4].

Apesar de terem estudado ambos no Porto, formando-se um em Engenharia e o outro em Filosofia, a amizade entre Jorge de Sena e Delfim Santos nasceu mais tarde, graças às tertúlias e aos encontros em cafés litérários de Lisboa. O que os reune é “um encontro de afinidades estéticas”, um “amor intenso à Literatura e uma tendência primordial para pensar os temas da Cultura com base no fenómeno literário”, tal como observa Mécia de Sena, na breve nota de apresentação que abre o volume da correspondência (p.9).

Filipe Delfim Santos apresenta nesta edição 12 cartas enviadas por Jorge de Sena ao filósofo e pedagogo português, entre novembro de 1943 e abril de 1958, incluindo ainda algumas páginas do diário de 1954 e dedicatórias de livros, sendo a última datada de janeiro de 1959, alguns meses antes da sua partida para o Brasil. De Delfim Santos, descobrimos 9 cartas enviadas a Jorge de Sena, entre setembro de 1946 e novembro de 1955, uma das quais inclui a resposta a um inquérito sobre Gide organizado por Sena e publicado em 1951 na revista Unicórnio, dirigida por José-Augusto França. O filósofo propõe na mesma ocasião as respostas de uma colega, assistente na Faculdade, Manuela de Sousa Marques, germanista e sua futura esposa, que Sena recusa publicar, por não se tratar de “um escritor profissional” (p.52), o que desagrada a Delfim Santos e cria um  primeiro  desajuste entre ambos.

Baseada num princípio dialógico fundado na alternância das vozes e na sucessão de hiatos temporais, a correspondência entre os dois intelectuais pressupõe quase sempre um tom informal que se apoia numa amizade alimentada  pela mútua admiração e respeito, revelando, como diria Dominique Maingueneau,  uma “cenografia”[5] de estratégias discursivas em que podemos  identificar uma estreita articulação entre o individual e o social.

Como sabemos, o género epistolar implica uma retórica que obedece a sequências fáticas de abertura e de fecho devidamente codificadas. A correspondência entre Jorge de Sena e Delfim Santos, ao longo dos 15 anos em que os seus percursos se cruzaram, cria um interessante espaço de discussão sobre o trabalho de ambos e também a crescente construção de um  relacionamento amigável, bem patente nas formas de tratamento utilizadas. Com efeito, as cartas revelam vários momentos, indicados por expressões, palavras e gestos, que podem ser considerados como estratégicos para a elaboração de representações sobre si e sobre o outro. Podemos assim observar que todas as mensagens de Jorge de Sena incluem uma localização espácio-temporal precisa, sendo enviadas de Lisboa ou do Porto, enquanto as de Delfim Santos indicam apenas a data. As formas canónicas de abertura variam consoante os autores. Nas cartas assinadas por Jorge de Sena, identificamos diversas formas de tratamento que vão da simples marca de deferência, presente na primeira carta (“Exmo Sr. Dr.”), ao registo apoiado da afectividade (indo de “Meu caro Amigo e Camarada” a “Meu caríssimo Amigo e Camarada”), passando pela simples expressão da cordialidade (“Meu caro Amigo”)[6]. Nas cartas enviadas por Delfim Santos, a sequência fática de abertura implica igualmente a polidez e o uso do possessivo mas limita-se quase sempre à fórmula “Meu caro Jorge de Sena”, ou à expressão “Meu caro Amigo” que aparece duas vezes,  revelando uma certa regularidade na forma de tratamento.

O longo convívio epistolar entre os dois grandes intelectuais portugueses ilustra um relacionamento cordial que acompanha sobretudo a troca e a oferta de livros, os projectos de escrita, ou ainda os comentários sobre alguns aspectos da vida cultural. Numa das cartas, Jorge de Sena critica “a farsa do nosso ensino” (p.63) e desabafa sobre o provincianismo portuense do chamado grupo da filosofia portuguesa (p.64), enquanto noutra missiva define  Portugal como “país de catolicismo tacanho e analfabeto” (p.71).

Os dispositivos enunciativos das cartas transmitem um ethos revelador da postura de cada um dos autores[7], isto é, o seu carácter, as suas qualidades, o seu valor moral, a sua posição crítica e até os seus melindres. Com efeito, descobrimos em dois momentos  as reacções opostas de Jorge de Sena às observações do seu correspondente. Assim, ao receber um comentário favorável ao seu estudo sobre Camões, Jorge de Sena anota que lhe respondeu (p.59). Encontramos logo de seguida uma carta de agradecimento dirigida a Delfim Santos, sublinhando que as suas palavras o consolam “da maldade com que toda a gente se tem recusado sequer a fazer crítica ao [seu] trabalho sobre Camões” (p.60). Em contrapartida, quando o filósofo  se mostra reticente quanto à compreensão do livro de poesia As Evidências, o poeta anota que a carta ficou “sem resposta” (p.69). Desta forma, para além de revelar alguma ambiguidade, a correspondência ilustra por vezes o que Vincent Kaufmann designa por “equívoco epistolar”, isto é, a ilusão de proximidade que o intercâmbio pressupõe quase sempre[8], sem nunca deixar de afirmar uma interacção fecunda bem presente no pacto estabelecido entre o enunciador e o destinatário.

Como assinala Filipe Delfim Santos, os anos de convívio de seu pai com Jorge de Sena correspondem ao período em que publicou “a totalidade dos seus tratados filosóficos e grande parte dos seus ensaios, peças de oratória, apontamentos de crítica, intervenções de crónica, notas e memorialismo e deixando também inéditos alguns trechos diarísticos” (p.15). Numa das cartas, Jorge de Sena interessa-se por um ensaio que o filosófo preparava sobre Nietzsche (que não chegou a ser publicado) e alude também às suas intervenções culturais, nomeadamente na última carta enviada em que se refere a uma conferência a que não pôde assistir, em abril de 1958,  por coincidir com uma manifestação de apoio à candidatura de Humberto Delgado, “no dia grandioso e trágico em que, pela primeira vez em dezenas de anos, este povo de que a gente descria mostrou que estava vivo” (p.71). Trata-se do único momento em que encontramos uma referência explícita à situação política do país. Também Delfim Santos comenta regularmente as produções de Jorge de Sena, como a sua Pedra Filosofal (p.39) ou a peça O Indesejado (p.61), mostrando-se sempre interessado e extremamente franco nas suas apreciações críticas.

Tal como as formas de tratamento que abrem as cartas, também as despedidas obedecem a fórmulas estereotipadas, indicando o teor das relações entre os correspondentes, que tanto pode ser próximo como distante, exibindo a disposição do remetente que se despede e podendo fornecer indícios sobre o seu estado de espírito. Na maior parte das cartas de Jorge de Sena encontramos a manifestação da estima, da consideração, do apreço, da disponibilidade ou da simpatia pelo seu interlocutor, enquanto nas cartas de Delfim Santos predominam as marcas da admiração e da gratidão. Quando pretende demonstrar algum descontentamento devido a um incidente desagradável, o filósofo limita-se apenas às desculpas e aos cumprimentos (p.53, 55). Da mesma forma, na última carta enviada, em que evoca a manifestação de apoio a Delgado, Jorge de Sena  apresenta apenas os seus “melhores cumprimentos”.

Nesta edição da correspondência entre Jorge de Sena e Delfim Santos, graficamente muito cuidada, o organizador apresenta ainda um índice cronológico, um índice onomástico e uma útil bibliografia activa e passiva relativa às publicações da correspondência dos dois autores, bem como uma nota complementar de José-Augusto França que evoca o clima intelectual dos anos 50, o papel dos cinco números da revista que dirigiu entre 51 e 56 (de Unicórnio a Pentacórnio, mudando de título para escapar à censura), sublinhando a importância dos debates organizados na Sociedade Nacional das Belas Artes que se estenderam aos encontros no Tivoli em que intelectuais como Delfim Santos, entre outros, comentavam presencialmente os filmes que lhes eram propostos.

Filipe Delfim Santos acrescenta ao volume uma série de anexos que incluem excertos do Diário de Lisboa sobre a participação do seu pai, em 1948, nos debates do J.U.B.A. (Jardim Universitário das Belas Artes) sobre arte e filosofia, mas oferece-nos também um interessante texto de Jorge de Sena consagrado a L’enfant prodigue de Gide. Entre os anexos, o leitor descobre ainda as respostas de Jorge de Sena e de Delfim Santos a um inquérito dirigido por Eduardo Lourenço sobre “como vivem os intelectuais portugueses a sua relação com a cultura passada em Portugal”, publicado na revista Bicórnio de 1952. Uma última curiosidade é a reprodução de uma folha volante, o chamado Manifesto do Peixe Frito, assinado pelos surrealistas Mário Henrique Leiria e Mário Cesariny de Vasconcelos que foi distribuído, em 1951, à porta do Tivoli.

Tributária da posição social do locutor, a correspondência cruzada entre Jorge de Sena e Delfim Santos funciona, entre proximidades e distâncias, como um jogo de espelhos que nos dá a conhecer as redes de influência, as preocupações dominantes de uma época, a tonalidade dos debates (nomeadamente sobre cinema), revelando um ethos discursivo que oscila entre o didáctico, o laudativo e o crítico, capaz de ilustrar estratégias de escrita e de nos transmitir os sistemas de valor da sociedade portuguesa, completando assim, de forma extremamente interessante, o conhecimento da personalidade e da obra dos dois autores.

 

NOTAS:

[1] CHARTIER, Roger (dir.), La correspondance: les usages de la lettre au XIXe siècle, Paris, Fayard, 1991, p.9-10.

[2] Filipe Delfim Santos (org.), Jorge de Sena – Delfim Santos. Correspondência 1943-1959, Lisboa, ed. Guerra & Paz, 2012.

[3] Para o estudo da correspondência seniana, consultar a tese de José Francisco Costa, A Correspondência de Jorge de Sena: um outro espaço da sua escrita, Lisboa, Salamandra, 2003.

[4] Para aprofundar o conhecimento sobre a figura e a obra de Delfim Santos, consultar o site:   http://www.delfimsantos.org/

[5] Para a definição deste conceito, consultar Dominique Maingueneau, Le discours littéraire. Paratopie et scène de énonciation, Paris, Armand Colin, 2004.

[6]  A maneira como começam as cartas é ilustrativa da imagem que o locutor dá de si mesmo e da relação, mais ou menos afectiva, que estabelece com o seu interlocutor. Eis como começam exactamente as  cartas assinadas por Jorge de Sena:

– Exmo Sr. Dr. (Lisboa, 2/11/43)

– Meu caro Amigo (Porto, 26/10/44; Porto, 2/11/44; Lisboa, 6/8/951)

– Meu prezado Camarada (Lisboa, 24 de Março de 1951)

– Meu caro Amigo e Camarada (Lisboa,5/4/51; Lisboa,15/5/51;  Lisboa, 25/5/951;  Lisboa, 4/3/952)

– Meu caríssimo Amigo e Camarada (Lisboa, 8/7/957)

– Meu caro Delfim Santos (Lisboa 18/5/958)

[7] Sobre o conceito de ethos, desenvolvido por Aristóteles e retomado hoje na pragmática e análise do discurso, consultar Ruth Amossy (dir.), Images de soi dans le discours. La construction de l’ethos, Lausanne-Paris, Delachaux-Niestlé, 1999.

[8] Vincent Kaufmann, L’équivoque épistolaire, Paris, Ed. de Minuit, 1990, p.8.

 

 

* A primeira versão deste estudo foi publicada na revista Latitudes. Cahiers Lusophones, Paris-Lisboa, n°43, 2012, p.87-89.

** Maria Graciete Besse é Professora e titular da Cátedra de Português na Université de Paris-Sorbonne/Paris IV; Diretora-Adjunta de UFR Etudes Ibériques et Ibéro-Américaines.