Testemunho pessoal sobre viver nos Estados Unidos da América

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Madison, 1938 Rowley Ave. A segunda casa da família Sena nos EUA, de 1967 a 1970

Encontra-se no livro América, América — o mais recente das Obras Completas de Jorge de Sena editadas pela Guimarães — este depoimento até então inédito, datado de julho de 1968, no qual lemos não só o “testemunho pessoal” que o título anuncia, mas ainda uma ampla análise do american way of life e das peculiaridades que lhe são correlatas.

 

Há quase três anos que vivo na América do Norte, aonde cheguei, menos de visita que para ficar, em Outubro de 1965. Durante esse período, tenho residido sempre em Madison, capital do Estado de Wisconsin, e viajado extensamente por outras regiões, em geral correspondendo a convites para conferências em universidades ou para participar em congressos mais ou menos universitários. Porque detesto viajar de avião, estas viagens têm-me permitido conhecer melhor os Estados Unidos do que muitos americanos os conhecem. De aeroporto em aeroporto, que é como de hoje em dia a classe afluente deste mundo viaja, só se conhecem aeroportos, as estradas que os ligam às grandes cidades, os hotéis todos iguais como os aeroportos e aquelas estradas, e a mesma gente que percorre tudo isso ou nisso pousa. Mas de camioneta (que é na América um transporte tão confortável como um avião) uma pessoa, em 24 horas de viagem contínua, tem oportunidade de ver muita gente entrar em muitas cidades de importância menor e de conhecer a paisagem com uma intimidade que não pode ter quem faça o mesmo percurso ao volante do seu automóvel. Muito americano faz percursos enormes de automóvel e geralmente é de automóvel que o americano médio se muda de um lugar para outro. Mas, na América, as distâncias são apenas uma incomodidade que o condutor de carro procura anular a 100 km à hora, com o fito de chegar, mais a família, a bagagem diminuta, o cão e o gato (se os não deixou, aos animais, abandonados na rua), ao ponto de destino o mais depressa possível. Quer isto dizer que, apesar de radicado num lugar da América, tenho visto muita América, desde Chicago a New York, de Madison ao Novo México ou ao Texas ou à costa leste (a velha América de Massachusetts ou da Pennsylvania). Não conheço o Sul propriamente dito, nem a costa do Pacífico, nem os Estados das Montanhas Rochosas ou dos desertos, ainda. A América do Norte é, com o México, um continente imenso, e não é possível seja a quem for a pretensão de tê-la percorrido extensivamente, mesmo numa vida inteira. Há, porém, dois correctivos, um geográfico e outro de ordem social, que permitem corrigir essa magnitude que, por certo, assusta as mentalidades europeias. De um ponto de vista de conhecê-la, a América do Norte não é tão grande quanto se julga, porque a sua variedade, que é muita, não é maior que a da pequena Europa. Nesta, uma pessoa, se se distrai num passeio a pé, muda de paisagem física e humana. Na América, uma mesma pessoa pode percorrer centenas de quilómetros sem que a paisagem mude. É o correctivo geográfico da magnitude que coloca a América em termos, que são os seus, de escala em relação à Europa, mas não de concentrada diversidade. E, nestas extensões imensas, em que a densidade populacional é diminuta (uns 20 habitantes por quilómetro quadrado contra os 100 que Portugal terá), a civilização americana impôs uma uniformização de costumes, de aspecto urbanístico, etc, que pode levar o turista distraído a supor que, após milhares de quilómetros, está, por piada, no mesmo lugar… É o correctivo social da magnitude da América, embora ela tenha áreas nitidamente distintas umas das outras.

A minha reacção a tais grandezas não foi tipicamente portuguesa, nem mesmo genericamente europeia. Não podia sê-lo, depois de seis anos de vida num Brasil igualmente imenso que também percorri extensamente, desde o Ceará ao Rio Grande do Sul, e que, como a América do Norte, oferece essa esmagadora sensação de mundo ainda desocupado que o europeu não poderá deixar de ter nas Américas como no interior da Africa (a primeira sensação de uma extensão continental tive-a eu há trinta anos, quando fui de comboio do Lobito a Nova Lisboa, em Angola). No entanto, as planuras da Rússia ou da China, velhos países ou velhas áreas de civilização, darão por certo a mesma sensação que as Américas ou a Africa.

Por outro lado, tendo eu, durante muitos anos, lido literatura americana e estudos sobre a América, a vida norte-americana e o passado que até certo ponto a explica não eram para mim um mundo obscuro e ignoto. E eram-no menos ainda, pelo facto de essa actividade não ter sido senão uma extensão da cultura inglesa, cujo conhecimento sempre me ocupou. A Inglaterra não serve de explicação para a América do Norte, do mesmo modo que Portugal não serve de explicação para o Brasil. Mas, sem um ou outro de ambos os países europeus, é impossível compreender realmente as criações que ambos levaram a cabo nas Américas (diga-se de passagem que uma falta de conhecimento de Portugal explica muitas das perplexidades que os brasileiros sentem ante a sua própria consciência nacional, e que essa circunstância se repete, ainda que a menor escala, em paralelo, nos Estados Unidos da América do Norte, em relação à Inglaterra). Porque, em verdade, ainda quando a América do Norte se empenhasse em diferenciar-se da Inglaterra (e essa fase já passou, se é que alguma vez ocupou os norte-americanos com o mesmo carácter de obsessão que, paralelamente, ainda conserva no Brasil quanto a Portugal), não menos há que conhecer-se bem aquilo contra que se é… sob pena de acabarmos sendo contra nós mesmos.

Todavia, se o conhecimento prévio de um país ajuda muitíssimo a compreendê-lo, nem por isso facilita a habituação a viver-se nele. Porque a cultura de um país é muito mais feita de pequenas peculiaridades, constrangimentos, hábitos de vida e de reacção pessoal, que das grandes linhas que a constituem e a definem. É-o, pelo menos, para quem não está a viver turisticamente nele. Nesse plano do convívio quotidiano, muito pouco adianta a gente saber a história e a cultura de um país, às vezes muito mais extensa e profundamente do que a sabem aqueles com quem lidamos: eles estão no seu «meio», e nós não. E essas peculiaridades são precisamente aquilo que transparece na literatura ou nos estudos culturais, por mais específicos que sejam, porque são o que, de tão comum e tão instintivo quotidianamente, não é sentido, nem tornado em consideração como peculiar, quer pelos escritores, quer pelos estudiosos. Em contrapartida, os viajantes apressados — e a América, como todos os países, tem sofrido dessa casta de gente que, numa viagem de quinze dias, viu tudo e até escreve um livro — correm sempre o risco de misturar o profundo e o superficial, e de atribuir excessiva importância ao que na realidade a não terá tão grande.

Sob estes aspectos, eu e a minha família somos imigrantes portugueses na América, embora com seis anos prévios de abra-sileiramento. Todavia, com diferenças substanciais em relação ao imigrante português, tal como largamente o vi no Brasil, ou sei que ele é aqui, nas regiões onde se concentra (Massachusetts e Califórnia). O imigrante português chegou da Madeira, dos Açores, de Trás-os-Montes, não sabendo de Portugal mais que os horizontes da sua aldeia. As Américas (e o Brasil deixou de ser esse Eldorado) oferecem-lhe possibilidades de enriquecimento, de ascensão social, etc, que ele nunca sonhou que existissem. A tal ponto náo sonhou, que uma das características do imigrante português, com raras excepções, é a sua falta de altas ambições, a sua satisfação com uma mediania que lhe parece já uma ascensão infinita. E, se não faz esforço para compreender o mundo que o rodeia e integrar-se plenamente nele, não menos está em condições de aceitar passivamente como maravilhoso esse mesmo mundo. Esta não pode evidentemente ser a situação de quem imigra por cima, como é o meu caso pessoal. Eu não vim ser na América aquilo que não era, ou ter oportunidades que nunca tinha tido — e estou em condi¬ções de sentir agudamente as falácias do sistema americano de vida, que os americanos estão, eles mesmos, a sentir também.

Para um intelectual, a vida na América (seja ele quem for, menos americano) é extremamente difícil. Com efeito, a vida americana não está concebida e preparada para a vida intelectual, para aquela independência das pequenezas quotidianas sem a qual as ocupações espirituais não gozam da ociosidade indispensável ao seu florescimento. O intelectual europeu, quer sonhe com um capitalismo evoluído como o norte-americano, quer com uma socialização plena da sociedade pelo mito soviético, nem sonha, realmente nem sonha, o que arrisca… Não há como viver aqui, para descobrir-se essa terrível verdade. A menos que uma pessoa seja riquíssima (e ninguém, senão raros, o é na América a esse ponto), não há quem nos faça nada. E a tradição rural, campónia, de círculo familiar isolado, que é a da América, está na base dessa tragédia do grande nivelamento social da riqueza, pelo trabalho, ao alcance de todos… Temos de fazer nós mesmos tudo, ou desistir. O americano tem a obsessão da verdura a seu lado. Para mim, criatura urbana da Europa, a relva é uma instituição municipal que tanto me faz que exista como não exista. Se eu, depois de dar aulas, aturar alunos, participar de reuniões administrativas na universidade, ainda volto para casa para estafar-me a cortar a relva à volta da minha casa, que tempo e que forças me restam para ler e para escrever? Nenhumas. Mas isto é precisamente o mais natural para o americano. Se há um jantar, uma reunião, à tarde ou à noite, o europeu deseja naturalmente conversar dos seus interesses, trocar ideias, etc. Será raro o americano, mesmo de cultura, que se entregue a esse jogo com ele. As pessoas não se reúnem para continuar o esforço intelectual que profissionalmente fizeram durante o dia, mas, para de pé com o copo na mão, ou à volta de uma mesa de jantar, conversarem de nada, aliviarem-se do esforço que fizeram. Seria o mesmo que um engenheiro, em Lisboa, incomodar os seus hóspedes com os problemas técnicos dos seus projectos, ou um advogado com as subtilezas das causas que estudou nessa tarde… A diferença entre a profissão e a cultura não é sensível à maioria dos americanos que, contudo, são às vezes muito mais séria e largamente cultos que muito europeu com pretensões de cultura (basta pensar no número e riqueza dos museus cheios de gente ou na intensidade da vida musical nos Estados Unidos, para se poder reconhecer que esta é uma verdade mais funda do que a Europa julga ou o americano ostenta).

Vejamos agora o problema num nível mais íntimo: o das relações humanas, independentemente da solidão intelectual que é pavorosa para a nossa mentalidade, ou da angústia da falta de tempo, quando teoricamente se têm todos os meios para trabalhar intelectualmente (sim… mas é preciso limpar a neve, é preciso ir às compras, é preciso consertar a fechadura, etc, etc). O americano deve ser um dos povos do mundo mais curiosos de estrangeiro: vive num perpétuo fascínio com o exótico, e, para ele, tudo o que não é americano, é estranhamente exótico. Mas deve ser, também, um dos povos do mundo mais impaciente e menos tolerante das dificuldades do exótico em adaptar-se a ele. O sonho do americano médio é que o mundo todo, mantendo algum folclore mesmo fingido, se torne totalmente uniforme, com os mesmos restaurantes e as mesmas estações de serviço, desde a Cochinchina à Patagónia. Os países de imigração têm a obsessão de que as pessoas se integrem neles. Nisso, os americanos levarão a palma a toda a gente: e talvez que em nenhum país o filho de imigrante queira ser tão completamente americano como aqui, pela pressão impiedosa que lhe foi aplicada nos próprios bancos da escola. Na Europa, e em especial em Portugal, o estrangeiro é recebido com condescendência e solicitude. A América faz um grande esforço nesse sentido: mas um esforço inane e até certo ponto hipócrita, porque não está habituada a lidar com o estrangeiro em nível de turismo ou de relações internacionais. Só recentemente, pelos vastos planos que têm trazido à América massas de estudantes e de visitantes estrangeiros, o americano começou a aceitar que a presença de um estrangeiro na América não é necessariamente um quisto a reduzir ou a confinar num gueto. Com todo o seu nacionalismo, o Brasil nunca me perguntou quando eu me naturalizava brasileiro: na América, sabendo-me residente fixado, é raro o dia em que me não perguntam isso… Lembremo-nos de que um dos maiores crimes cometidos por Charlie Chaplin foi o de nunca se ter naturalizado cidadão norte-americano, do mesmo modo que a campanha contra o prestígio de Elizabeth Taylor, como a grande actriz que se tem revelado ser, vem principalmente de se haver naturalizado inglesa… Contaram-me, e não sei se é verdade, que, quando um sujeito aqui se naturaliza, é convidado, à saída, a deitar a sua documentação anterior num cesto de papéis, «porque recebeu uma nacionalidade melhor»… Nada disto acontece, por exemplo, no Brasil, onde a renúncia é formal e legal, mas não implica uma renúncia de consciência e de sentimento.

Mas voltemos às relações humanas. O americano é afável, familiar, com uma grande preocupação de aparente intimidade no trato. Ai de nós, se confundimos isso, mesmo ao fim de anos, com amizade no sentido europeu. O americano não é amigo de ninguém, nem de si mesmo. E é-lhe extremamente impossível compreender que as relações sociais se processem fora do nível dos interesses quotidianos, a menos que para uma orgia tão ébria que ele se não recorde no dia seguinte de haver contactado pessoas que, para ele, profissionalmente, não tinham interesse nenhum. As inibições da educação americana não consentem que uma pessoa abra a sua intimidade a ninguém, nem a si mesmo: de resto, a intimidade profunda arrisca-se a ser uma zona pecaminosa, comprometedora, em que uma pessoa se descubra, com horror, diferente daquela bem banhada e desodorizada que se exige que ela seja. Daí a reacção dos hippies porcos e de barbas, ou o refúgio nas drogas que são uma maneira de uma pessoa libertar a intimidade sem ter a consciência responsável do que sonhou… Daí a medonha solidão humana do convívio, para pessoas apaixonadamente conviventes como eu. Não que eu não seja uma pessoa «pré-americana» sob esse aspecto. Só uma vez na vida me deixei apaixonar eroticamente de verdade, e sempre tive horror de misturar todo o sentimentalismo com o sexo. Mas, no plano da amizade, é diferente. E o americano transporta para esse plano o mesmo receio (neste caso erradamente erótico) de deixar-se comprometer por alguém: ninguém fica mais dolorosamente perplexo que um americano quando descobre que estima uma pessoa, para lá das amabilidades quotidianas ou profissionais. É como que um assalto nosso à sua liberdade que é afinal o triste direito de ser angustiadamente solitário (mesmo no íntimo círculo familiar). E a gentileza do nosso trato amigo é para ele uma fonte de enleio sem limites, ao mesmo tempo que o comove profundamente (mas raro com reciprocidade).

Por natureza de outsider, que sempre tive a consciência de ser em toda a parte e em qualquer meio, ninguém mais do que eu gosta de praticar as artes do convívio fraterno: creio mesmo que a fonte 7 de muitas das minhas aversões está em mo terem recusado aqueles a quem o não neguei. Por isso, a minha vida na América é uma curiosa contradição. Constantemente recebo a lisonjeira referência a que sou uma pessoa de extraordinária adaptabilidade: pareço um americano, como compreendo bem como as coisas e as pessoas funcionam… E sabe Deus quanto quotidianamente sofro de solidão, de fome de convívio, de amizade, etc. Creio mesmo que até as pedras da minha vesícula são o preço psico-somático que eu pago em sorrisos e em compreensão…

Gosto de viver na América? É difícil a resposta, porque eu não gosto de viver em parte nenhuma. Cada vez mais a humanidade me parece monstruosa e bestial, e a vida uma monumental chatice com poucas compensações. Vejo os meus filhos serem sugados por uma gigantesca máquina de desumanização, que não hesitará um momento em esmagá-los, se eles, na sua ingénua adaptação, não cumprirem exactamente alguma das regras do jogo. Creio que estou a passar por aquela fase (que é a dos escritores que ultrapassam a maturidade e ainda não atingiram a velhice), em que o mundo é uma absurda e incongruente ridicularia nojenta, até que resignadamente o aceitemos como tal, numa tranquila preparação para a morte. Eu ainda não escrevi a minha Floresta de Enganos ou a minha Tempest. E não posso realmente culpar nenhuma América inteiramente disso… As pessoas diriam: que ingrato esse sujeito, que mais quer ele… E eu diria, com Manuel Bandeira, que quero a Estrela da Manhã. E quem iria entender-me ou perdoar-me?
Logo, na América, há muita coisa que eu amo: sou incapaz de não amar a humanidade que desprezo, e sou também incapaz de não aceitar até certo ponto quem me permita existir. No fim de contas, a minha situação na vida é esta: a de colaborar lealmente, mas não aceitar definitivamente coisa alguma, senão até ao ponto em que eu seja aceito também. E, todavia, se a América me faz sentir tremendamente europeu, será que alguma vez serei capaz de voltar a viver na Europa?

Madison — Wisconsin — USA — Julho de 1968

* América, América, Lisboa, Guimarães, 2011, p. 19-27