Notas sobre regressos a Portugal: Cartas inéditas de Sarmento Pimentel e Jorge de Sena

Gilda Santos (e Mécia de Sena)
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Em fins dos anos 90, ao preparar um dossiê* sobre a presença de personalidades portuguesas no Brasil, o nome de Sarmento Pimentel logo se me impôs. Participante do fracassado movimento revolucionário do "7 de fevereiro de 1927" contra a Ditadura militar, implantada pelo golpe de maio de 1926, antecipa com seu longo exílio no Brasil uma série de incontáveis exílios que o salazarismo motivaria. Personalidade íntegra e generosa a mais não poder, tornou-se logo, nas palavras de Jorge de Sena, "um símbolo da resistência ao fascismo", uma "figura tutelar" da "atividade dos oposicionistas no Brasil, capítulo de alguma importância na longa cadeia de ações que culminou no 25 de Abril." Homem de ação e de cultura, soube congregar em torno do jornal Portugal Democrático, de que foi feito "Presidente de Honra", um extraordinário grupo de colaboradores, capaz de imprimir ao periódico tal nível de qualidade como raras vezes se terá visto em publicações assim politicamente comprometidas.

Como foi Jorge de Sena o prefaciador, por duas vezes (1963 e 1974), de seu originalíssimo livro Memórias do Capitão, e como os laços afetivos entre o casal Sena e o Capitão eram dos mais estreitos, ocorreu-me pedir a Mécia de Sena que se incumbisse de o relembrar. Assoberbada de trabalho, mas, ao mesmo tempo, desejosa de homenagear o querido amigo, da conversa entabulada vingou uma sugestão sua: escolheria algumas cartas trocadas entre ambos, inéditas, e brevemente apresentá-las-ia. Como, graças à sua inacreditável capacidade de trabalho, a correspondência entre os dois encontra-se já preparada para publicação, não foi difícil a Mécia atender com rapidez a meu pedido. Poucos dias depois, chegaram-me pelo correio algumas páginas, numa inconfundível datilografia, precedidas da seguinte nota, datada de 25 de março de 1999:

Projectava eu, com o apoio de Vasco Graça Moura, então presidindo à publicação na Imprensa Nacional/Casa da Moeda, ir publicando, lenta mas regularmente, a rede imensa de correspondência que Jorge de Sena mantivera com as mais variadas pessoas, às vezes praticamente toda a sua vida de adulto. Mas as condições alteraram-se, e o projecto não foi além de quatro "diálogos" publicados: Guilherme de Castilho, José Régio, Vergílio Ferreira e Eduardo Lourenço, além de uma pequena selecção da larga correspondência que comigo mantivera.

Entre as muitas pessoas a quem me dirigi, no sentido de me darem acesso às cartas, sobretudo anteriores a 1963, quando Jorge de Sena começou a dactilografar as suas cartas e a escrever com cópia, já que as cartas que se "perdiam" entre o Brasil ou Estados Unidos, e Portugal eram muitas, contactei o nosso queridíssimo "Comandante" João Sarmento Pimentel, com quem prolonguei até o fim da sua vida, não muito frequente mas imensamente amiga (quase diria carinhosa) essa correspondência. Sarmento Pimentel, não só logo me enviou cópias, como ampliando a sua generosidade à altura que sempre lhe tínhamos conhecido, me mandou todos os originais, que guardo como coisa preciosa.

São mais de duas centenas as cartas, mensagens e postais trocadas, entre os dois amigos que se estimavam e admiravam mutuamente, com um imenso respeito que não estorvava a familiaridade.

Dado o limite imposto pelas dimensões da revista onde a matéria se publicava, acordamos, Mécia e eu, na seleção das cartas que se seguem (transcritas na íntegra), que têm como elo temático o relato de regressos a Portugal dos dois amigos — em tempos e circunstâncias bem distintas. Pensamos ser interessante observar, para lá do estilo de cada autor, os comentários feitos sobre a terra natal revisitada depois de longo afastamento, depois do constante compartilhar da vivência do exílio.


São Paulo, 05 de abril de 1969

Meu Caro Dr. Jorge de Sena

A última notícia da sua passagem por Portugal li-a hoje no Comércio vindo pelo correio marítimo, mais moroso que as naus dos quintos. As outras eram reportagens das suas entrevistas, conferências, triunfos literários, êxito da operação que lhe extraiu os calhaus encrustados no fígado e que certamente haviam tido origem nas malfeitorias dum exílio sem fim e de mil dificuldades que houve de vencer para atingir aquela fama de notável professor universitário, além do árduo e absorvente trabalho cotidiano que garantiu sustento à sua numerosa e encantadora família.

Eu imagino o carinho e a alegria dos nossos amigos portugueses por poderem abraçar o grande escritor, o poeta, o humanista que universalmente se projectou com os seus livros, sua inteligência, sabedoria, portuguesismo fidalgo um pouco quixotesco, mas victorioso, exemplar, pleno daquela nobreza de carácter que dignifica o homem e o clerc.

Nessas andanças, celebradas pelas gazetas ainda mais que as "andanças do Demónio", Você deve ter perdido alguns kilos e também aquele mau humor com que via a vida de lutas, de invejas mesquinhas, feiosas ingratidões. Suponho-o feliz e contente nesse meio de infinitas possibilidades e rodeado da mocidade alegre, inquieta, cheia de esperança, que são os seus discípulos. Adivinho também o seu lar encantador, ruidoso, quando não atento às "Fantasias de Mozart, para tecla" que Você refere na página 31 da sua Arte de Música. Eu recebi em novembro de 1968 este precioso feixe de poemas que tanto me encantou como surpreendeu, pois nunca havia dado pelo seu genial entendimento nessa divina arte. Poeta, e do mais alto gabarito, está ali o Jorge de Sena de sempre, mas o mestre, o conhecedor de tantos e tão diversos e famosos compositores dá uma ideia dum ilimitado poder de conhecimentos que me trazem à lembrança Leonardo da Vinci: — "Toute la curiosité intellectuel de la Renaissance, ses rêves de gloire et de progrés indéfini, son enthousiasme pour la beauté et la science, furent reunis, avec d'autres qualités de génie, en Leonard." Livro de cabeceira agora é para mim Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular, assunto já conhecido da leitura da tese que vi e ouvi defender em 1964 e à qual faço referência no 2° volume das Memórias. Mas é agradável reler as doutas e concludentes investigações e sábios comentários do mestre camonista. Este livro devia trazer a edição diplomática da Lírica de Camões e ficava assim o mais valioso e autorizado tratado do mais notável poeta lírico da língua portuguesa. Neste exemplar, que recebi há dias vem a autografá-lo as generosas palavras da sua amizade e que logo mostrei aos meus filhos e aos netos mais crescidos que já podem compreender a valoração bibliográfica dada pelo meu amigo às raridades da minha biblioteca.

Fico ansioso pelas impressões de ordem política da "Formosa Estribaria". Ando desanimado com a atitude dos sucessores e continuadores do fradalhão de Sta. Comba. Quando o Caetano falou pela primeira vez e consertou a perna no Mário Soares nós aqui tivemos a infeliz ilusão de que ia começar o fim do reinado pidesco. E telegrafamos-lhe em termos dignos, sem abdicarmos da nossa posição de democratas, evidentemente. "Que crédito que dá tão facilmente/ o coração àquilo que deseja" já dizia o Camões. Dura lição e eu, ao contrário do poeta, não fiquei contente por me haver enganado.
D. Mécia teve a gentileza de me escrever dando as suas notícias quando andava acompanhando de longe, como nós aqui, essa triunfal caminhada pela Europa universitária. Dê-lhe os meus melhores agradecimentos. Esta prosinha vai assim mesmo atabalhoada, emendada, e malfeita. Desculpe-a, é preguiça de velho amigo admirador e muito grato.

João Sarmento Pimentel

 


Madison, Wis., USA, 8 de maio de 1969

Meu querido Comandante,

Já não sei há quanto tempo lhe devo notícias, enquanto vou sempre recebendo sinais da sua amiga generosidade e gentileza. Não passa de hoje (em que um dos seus bilhetes me chegou e também o recorte das demissões e aposentadorias e mais belezas). E vivo tão exausto de trabalho (e mal recuperado da operação em Lisboa), que nem lembro claro se já lhe dei conta da minha viajem, ou não, e impressões de Portugal. Na dúvida (porque eu já perdi o controle da minha correspondência e de tudo o que não seja o trabalho contínuo que me mata), aqui vai. Há dois meses e meio que cheguei da Europa — e a viagem fez-me muito bem e muito mal. Bem, porque foi um prazer deambular pela Europa adiante como fiz, apesar da correria frenética que foi a minha (sempre quero ver o mais, não vá tudo acabar amanhã), e porque foi comovente o triunfal "regresso." Mal, porque trouxe saudades concretas e insuportáveis, quando as tinha já transcendidas e abstratas em dez anos de ausência. Os menos de três meses quase me parecem os dez anos anteriores — para o que contribui a agonia que é viver-se nesta América dilacerada pela estupidez, a maldade, a cobiça, a mais colossal mentira do que seja democracia política. E tornei-me dolorosamente sensível, já sem capacidade de irónico encaixe, à sorrateira ou agressiva hostilidade contra o que seja Portugal ou português, que é apanágio deste hemisfério — e mais repugnante aqui que no Brasil, por à sorrelfa, como tudo o que se faz ou diz neste país. E o espectáculo do Brasil é desolador — dá-me vontade de escrever uma carta aberta a esse Costa e Silva, declinando a nacionalidade, ou pedindo para ser "suspenso" por solidariedade… Mas de que adianta? Nenhum brasileiro entenderia, nessa ilusão de que ainda não saíram e que põe o sentimento pátrio acima dos governos que o não representam (tu és primo do tio do cunhado etc, — só setenta milhões de desgraçados, nesse país, não têm parentes pistolões).

De Portugal, que lhe direi? A decadência do país, por falta de braços e dinheiro, é manifesta. Lisboa suja, as estradas esburacadas, um ar de decadência que, se não fosse mesquinho e acabrunhador, seria saudável, por o país perder aquele ar lavado e penteado por decreto, que o tornava arrebicado e ridículo. Apesar de as possibilidades de informação serem hoje muito maiores e atingirem maior número, a sensação de irrealidade persiste. Mas o alívio geral pela desaparição do Fradalhão é evidente em tudo, ou era: até, se pode dizer-se, mais divertidamente indisfarçável nos próprios estado-novistas, tirando uns quantos ultras ferozes que clamam contra a traição que lhes desfaz o castelo. Creio cruamente que, se o Marcelo liberalizasse efectivamente a vida política (o que não fez por medo à reacção, e também por ser-lhe mentalmente impensável — essa gente acabou por acreditar na legalidade deles mesmos), teria o apoio tácito de praticamente toda a gente, ainda que muitos, por princípio, continuassem a bradar. E ele não o fará, porque a grande massa da população se apolitizou… pela guerra da África. Esta é inteiramente impopular como guerra — mas não como memória imperial (que é uma realidade, quer a gente goste, quer não), nem, tristemente, como possibilidade de ganhar mais dinheiro durante algum tempo. Sob este aspecto, as classes populares e as altas classes estão felizes… Se a guerra puder continuar a ser uma "drôle de guerre" em que se ganha dinheiro e se combate o menos possível (a este respeito, o cinismo é quase público). Por outro lado, a Oposição não pode, pela sua divisão, a sua senilidade etc, assumir quaisquer responsabilidades — e quem quer tomar a de acabar com a guerra? … E a massa geral até, por certa inflação e alguma desordem (greves, estudantadas etc) que habilmente o Marcelo tem permitido, fala, com estúpida saudade dos bons temos — e teme qualquer agitação, qualquer sacão brusco. O descontentamento é porém geral quanto à situação económica — e não levará tempo que o Salazar seja acusado de tudo (como o Estaline foi), sobretudo do atraso que coloca o país em situação dificílima em face de uma Europa integrada. O sentimento de frustração é geral também — toda a gente sente que perdeu a sua vida, e só o Salazar viveu regaladamente quarenta anos da sua. Mas basta isso? Parece-me só haver juventude. Mas esta, com gente muito boa, é ainda, como sempre, do ponto de vista de futuros dirigentes, muito reduzida. Fala-se muito de reformas universitárias — mas quem altera aqueles fósseis, e os filhos espirituais de 40 anos deles? Calcule que a decisão secreta das duas universidades maiores (a do Porto pouco conta) é que … no pânico da data de gente que se doutorou ou está a doutorar no estrangeiro (é o que a maior da rapaziada está a fazer em Paris ou Londres, graças às facilidades que foram dadas para isso), a universidade portuguesa não reconhece qualquer doutoramento estrangeiro: há que repeti-lo em Portugal! Por isso, insistentemente, nunca fui tão chamado respeitosamente de Engenheiro — e só os do contra me tratavam de Professor Doutor. Em Lisboa, só o Cintra, a Belchior e o Nemésio me cumprimentaram; e em Coimbra, só o Maios e Sá que me apresentou publicamente na Associação Académica, e o brasileiro Guilhermino César que me foi cumprimentar quase escondido. Havia porém uma multidão de um milhar de pessoas nas Belas Artes para aclamar-me de pé, e o mesmo aconteceu no Porto e em Coimbra. Chorei, meu caro — para mais doente como vinha. Em resumo. A atmosfera purificou-se um pouco: a polícia está mais discreta e contida na "legalidade", a censura algo acéfala corta e descorta — e a maior parte das pressões e denúncias vem de baluartes menos de opinião política que de comedoria, que controlam a Emissora, a TV, e a censura (porque o Salazar os pôs nessa posição). Não poucas partidas ao Marcelo, em quem vêem um "traidor" (porque, mais hábil, e necessitado de base de sustentação faz de bonzinho e talvez não seja mau de todo), lhes vi fazerem. Comigo ele foi de uma elegância e de uma correcção absolutas, como o Salazar não cuidaria de ser. Também o fui com ele; e é claro que, sem abdicar de nenhuma afirmação clara, não permiti que as minhas aparições se transformassem em comícios — o que me valeu a vaia da extrema esquerda chinesa (também lá há disso, o que prova a total irrealidade por absurdo) nas Belas Artes, e o aplauso das outras forças coligadas… Vim muito triste, no fim de tudo. Mas creio que, se uma pessoa desistir de salvar uma pátria irrecuperável, e for cultivar as suas couves desiludidas poderá lá fazê-lo em paz — vindo a amnistia geral que ainda não saiu (se ela sair, é claro, e se a situação subitamente não azedar para uma luz verde da CIA e do Pentágono a alguns generais… única forma de governo que lhes interessa em qualquer parte). Sei que o Marcelo mandou que fossem revistos todos os processos pendentes para serem arrumados de uma maneira ou de outra. Se isto terá andamento ou não, não sei.

Da Europa gostei muito — ah que saudades. Toda. Mas especialmente a Inglaterra, a Dinamarca, a Holanda, a Suíça, a Áustria, a Itália, até a Espanha. A França, como sempre, achei encantadora e detestável, como a Alemanha. Mas Londres, Amsterdam, Copenhague, Roma, Florença, Zurique, mesmo Colónia. E Viena. Enfim, estive em 60 terras diferentes, o que parece incrível. E não penso senão em voltar de qualquer maneira, a qualquer pretexto, para esquecer-me desta opressão americana, em que tudo se falsifica em nome de pretensa garantia das liberdades que não há senão de ser preso e andar nas bolandas dos tribunais que fazem e desfazem acórdãos como o Juiz da Beira.

A saúde não anda boa. Mas tenho trabalhado muito — e comecei depois de três semanas de operado, em estado já grave (a inflamação começara séria em Paris, onde cheguei sem poder dar um passo — e logo que me vi melhor fui para a Itália), e cansado de tanto correr. Em breve, sairão mais estudos camonianos, um novo livro de poemas, outro de traduções de poesia, outro de ensaios vários.

Tudo receberá a seu tempo. E a tensão que na América está agora em tudo, também chegou ao meu Departamento, onde os "estrangeiros" (eu, espanhóis, professores de espanhol que não são americanos) começam a ser vítimas da xenofobia conservantística e conformista que acabará por destruir estas universidades que os estudantes já assaltam à mão armada (e fazem muito bem).

Tenho muitas saudades de todos os amigos daí — do Brasil não, pois que acho que já não encontraria lá sequer o pouco ar que ainda se respirava quando parti. Vamos ver quando posso dar aí um salto. Recomende-me a todos.

E para si vai oferto o grande abraço do sempre seu muito amigo,

Jorge de Sena

 


Lisboa, 18 de outubro de 1974

Meu caro Dr. Jorge de Sena,

Aqui tenho permanecido, vai para um mês e cumprindo aquela promessa de assistir às comemorações do " cinco de outubro de 1970…"
Houve festa emocionante na Câmara Municipal. Eu, como o mais velho dos combatentes, tive ali grande honraria, hasteei a bandeira nacional e discursei agradecendo por mim e pelos outros dois remanescentes dos acontecimentos políticos de 64 anos passados. Esses meus dois companheiros foram-se abaixo das pernas, MacBride com uma paralisia geral, César de Almeida a fingir de vivo…

Disseram as gazetas e os circunstantes que a minha prosa esteve a calhar. A multidão confirmou, deu muitas palmas, muitos vivas e quando eu saí da Câmara levou-me em charola do Largo do Município até à Rua do Ouro, com beijos e flores as raparigas, os moços aos abraços, tantos e tão apertados que corri sério risco de sufocar! Valeu-me o Coronel Varela Gomes, soldados e homens mais calmos que puderam formar um cordão em volta do pobre de mim. Mas o entusiasmo deste bom povo de Lisboa gritando: Sarmento Pimentel, Sarmento Pimentel!, não foi inferior ao carinho e alegria ruidosa com que me receberam os portuenses em Campanhã.

Almoções de arromba (e cada vinho!), falas letradas simpáticas, os jornalistas, a TV, Rádio uma praga, até que fui parar no Instituto de Altos Estudos do Estado Maior do Exército para uma conferência que teve a parte escrita obrigatória e outra parte oral a modos de exame universitário com um júri de alto lá com ele!: dois almirantes, dois generais, um Ministro (o da Defesa). A escrita era para o arquivo, a fala de 20 minutos ouvida em silêncio disciplinar já que a assistência era só tropa desde os alunos cadetes da Escola do Exército, até senhores de galões largos e veneras por dezenas que nem montra de boteco armarinho!

Agradou a hierática palestra àquela gente de guerra hoje aplaudida de "Forças Armadas." Querem agora que eu vá a um regimento da guarnição de Lisboa para pregar aos soldados. Se calhar ainda me nomeiam capitão do E.M.!… Toda esta cativante camaradagem é testemunha de certa gratidão, compensadora dos 47 anos de exílio.

A Política andou por aqui meia embrulhada. Atirou de pernas ao ar com o Spínola, levou à cadeia alguns lorpas saudosistas, mas está voltando, ou indo, para uma posição mais estável e de rumo mais certo.

Regresso ao Brasil dentro de 20 dias e vou confiado que chegaremos às Eleições de Março sem empeno. Há ainda, (e havê-la-á até ao fim do mundo) uma burocracia desgraçada, capaz de atrasar a marcha do sol, que muito impede solução rápida e urgente de situações clamorosas, injustas, perigosas. A remodelação e actualização dos quadros faz-se lentamente, adiam problemas, perde-se um tempão.

Mas os males duraram meio século e temos de reconhecer que não se curam em seis meses. Os partidos começam a concentrar-se sendo que o P.C. não tem, como pensava, a posição cimeira. Penso que só 15% dos votos serão seus nas eleições. O Partido Socialista tem-se firmado e deve ser majoritário, ou ombro a ombro com os Democráticos centristas.

Lá vou amanhã para o Porto presidir um comício onde estão presentes os chefes socialistas da França, Alemanha, e um leader inglês trabalhista. Mário Soares é hábil, popular, inteligente. Veio almoçar comigo ontem (16) o José Augusto França e deu-me a agradável notícia das suas próximas conferências na Universidade de Lisboa. Estarei aqui quando o meu amigo vier abrir os olhos a esta mocidade ansiosa de ouvir a palavra eloquente e erudita do famoso humanista e grande Mestre Jorge de Sena? A minha nova volta ao Brasil talvez seja em 10 de dezembro para o Congresso do Partido Socialista.

Na ida de amanhã ao Porto aproveitarei uns dias a visitar os meus parentes transmontanos. O tempo do Outono é lindo e saudoso. O frio ainda se suporta e o cair da folha tem mutações de rara beleza na cor, na luz do sol, no crepúsculo silencioso e triste. Há assim um ambiente de despedida que diz um pouco com o doloroso sentimento da velhice.

Lembre a D. Mécia e a essa prole numerosa e inquieta que tem a salutar alegria de viver e traz no coração aquela esperança triunfante dum melhor futuro.

Um abraço de seu amigo muito grato e admirador

João Sarmento Pimentel
 

* Convergência Lusíada nº 16, Rio de Janeiro, Real Gabinete Português de Leitura, 1999