Um imenso inédito semi-camoniano, e o menos que adiante se verá (parte 2)

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Camões, por Morales de los Ríos

Estabelecida a identidade do autor das Quibíricas, resta perguntar: como foi que tão importante obra se viu em condições de sair à luz em Moçambique? Nada mais simples de responder. Nos Anais do Instituto Histórico e Topográfico do Monomotapa, vol IX, 1884, pp.37-48, hoje reeditados pela diligência do Instituto Internacional de Moçambicologia em edição anastática, imprime-se um inventário de uma família Grabato Dias da Silva e Quadros, feito em 1778, por questão de partilha de terras na zona do Mossuril, no qual pode ser lido, entre outros itens de grande valor histórico-social, que aquela família possuía então um manuscrito assim mencionado: um grosso caderno cozido de estâncias à maneira de Camões em que há falas del-Rei D. Sebastião. É óbvio que se trata do manuscrito original das Quibíricas ou de uma cópia (quiçá a que veio a servir de base para a presente e sensacional 1a. edição). Os Grabatos Dias eram descendentes directos do nosso frade, diga-se em abono da sua virtude e em desconto das suas devassidões, através de um seu filho gerado e nado em Moçambique, aonde não sabemos como o frade teria passado ou quando, ainda que se saiba de fonte segura deste efeito de sua passagem – vide a Tábua LXXIX do Corpo Genealógico das Terras do Oriente, e a nota 57 que se lhe refere [24]. Esta nota é aliás decisiva, já que contribui para explicar o compadrio – termo mais que exacto – entre o Épico ou Camões, e o seu alter-ego. Segundo ela, eram efectivamente compadres, do que não soubera Luís Franco Correia. De facto, Camões fora padrinho na Ilha de Moçambique, de um menino a que puseram o nome de Vasco Grabato, filho de João Grabato e de Sherazada da Cunha Dias, ex-sultana de 2a. classe de Melinde, por ter sido uma das esposas do rei Abd-el-Karim-el-Jamir, filho ou neto daquele que ouvira a Vasco da Gama, segundo Os Lusíadas, nada menos que três cantos dos mesmos [25]. Parece que João Grabato, em circunstâncias não explicadas, a raptara de Melinde e levara para aquela Ilha, provocando com esse acto graves retaliações entre portugueses e os seus aliados melindanos [26]. No manuscrito de Diogo de Couto, largamente referido pelos camonistas e cuja autenticidade côutica é por alguns coutólogos posta em dúvida [27], existe uma nota no verso de pp.148 [28], na qual se declara constar que D. Sherazada – cujo nome esta nota não refere – partilhava os seus favores com os amigos do seu companheiro [29], entre eles o próprio Camões! Isto é, convenhamos, de certo modo extrapolar de uma nota brevíssima e quasi ilegível, mas extrapolação sumamente legítima em Camonologia e garantida pelas mais pertinazes tradições dela, pois que – ó suprema ironia – pode ser que aponte quiçá para que Camões haja dado um poema em troca de um filho que não convinha em absoluto à sua condição de génio celibatário e estéril no que à propagação genética de portugueses respeita [30]. É de admitir que João Grabato tenha trazido [31] consigo o filho para Portugal, e que, mais tarde, este haja regressado à Ilha de Moçambique, aonde ou nas vizinhanças sua ilustre mãe vivia [32]. Os Grabatos prosperaram largamente com fornecimentos às armadas e outras actividades correlatas [33], até que aquelas partilhas que foram uma longa demanda [34] os reduziram a uma mediania mais do que modesta, de que se não recuperaram para cima do anonimato do vulgo [35]. O manuscrito, muito deteriorado, reaparece, porém, mais tarde. Com efeito, numa carta de 17 de Abril de 1893, Mousinho de Albuquerque [36] diz tê-lo notado entre os cartapácios de uma das mesquitas da Cabeceira Pequena, povoação da Terra Firme fronteira à Ilha de Moçambique [37], sem todavia se aperceber do valor excepcional do que manuseara: é o mais que poderia esperar-se de um grande herói que, reflectindo a decadência dos tempos, se suicidou, não com Vergílio ou Horácio nas mãos, mas um romance francês de capa amarela [38]. Recentemente, por certo recolhido e assim salvo para a posteridade por algum eventual habitante daquelas paragens, que suspeitou nele valor superior ao do simples papel velho, quando buscaria móveis luso-indianos para rendosa exportação e difusão da arte portuguesa de origem oriental [39], o manuscrito apareceu em Lourenço Marques (sem rosto, frontispício, ou outras páginas identificatórias), e, por feliz acaso de livraria, tombou nas mãos dos amantes das letras pátrias que ora o editam.

Não é verdade que outro manuscrito exista, como já alguém insinuou, nos arquivos familiares de certa família lisboeta ainda aparentada com aqueles Grabatos. O que terá criado a confusão, ou servido de base a tão aleivosa insinuação, é a existência aí certa e segura de algumas novelas de cavalaria, muito marcadas de erotismo, mas infelizmente ainda inéditas, compostas por D. Joana de Menezes da Gama e Castro, que, nos princípios do século XVII, foi notória abadessa do Convento de Santa Clara de Arrabais, mais tarde dissolvido por uma visitação do Santo Ofício, sendo a abadessa e as suas freiras consignadas às respectivas famílias da alta nobreza a que pertenciam, por “dadas a labores mais carnais que espirituais nos outeiros que promoviam”[40]. A abadessa compunha – o que é de extraordinária originalidade – as suas novelas em verso livre, agrupando-os todavia em oitavas assim irregulares [41]. Há porém alguma desculpa para aquele lapso acima citado. De facto D. Joana de Menezes da Gama e Castro, depois de revertida ao lar paterno (o dos Senhores da Torre das Coiras, em termo de Resende), teve os seus dares e tomares – finalmente mais práticos que teóricos – com um certo Manuel Grabato, cujo nome aparece entrelaçado com o seu no manuscrito das oitavadas novelas, não só no rosto mas em várias das páginas. Um filho que ambos tiveram e se chamou – coincidência ou parentesco? – João Grabato, assinou o seu nome por cima do da mãe, nos rostos dos manuscritos [42]. Mas deste João Grabato nada mais se sabe, senão que, havendo-se partido para o Brasil como secretário do Governador Furtado de Mendonça, aí foi devorado pelos índios aimorés [43]. Se, antes de transformado em churrasco e digerido, também compusera oitavas de verso regular e irregular, conforme os modelos respectivamente do seu homónimo e de sua mãe, eis do que não encontrámos notícia alguma.

Nada disto tem que ver com As Quibíricas, e apenas é aqui mencionado, com o respectivo aparato erudito que nos foi possível acumular, para desfazer-se à nascença um erro literário que poderá proliferar acerca de manuscritos conhecidos da importante obra que honrosamente prefaciamos.

É o momento de declarar, agora que finalizamos estas modestas considerações introdutórias de uma publicação a tão variados títulos estrondosa, que a precipitação em editá-la quanto antes, neste ano do centenário de Os Lusíadas, não nos deu tempo – esmagados ao peso das nossas obrigações de camonólogo não-oficial – para ler atentamente, de uma ponta à outra, As Quibíricas. O que faremos na primeira oportunidade. Mas desde quando é tradição em Portugal, ou em Portugal se exige, que um prefaciador tenha lido a obra que prefacia? Pelo que as circunstâncias até nisto nos fizeram obedecer às mais lídimas tradições da cultura portuguesa.

Ide Quibíricas, ide por esse mundo da lusitanidade e adjacências, e que o vosso vigor, o vosso desbordamento tão sabiamente calculado, a vossa inventiva, o vosso sentimento tão actual e tão vetusto, encontrem, como o vosso autor, aquele centenário e centenarial reconhecimento a que fazeis jus, sem que as armas e a inveja, ominosamente a primeira e a última palavra de Os Lusíadas, ou os altos fados e neste passo, as primeiras e as últimas de que sois compostas, se identifiquem entre si mais do que a duplicidade amplamente demonstrada do vosso autor requer, para mal dos nossos pecados e dos de Camões, quando tentou transformar numa reconquista do Paraíso Perdido – ai quanto sonha a poesia! – a história de “onde se acaba a terra e o mar começa”. Ide, e cantai! E que o Velho do Restelo e o Adamastor, assim como Téthys, Vénus e os outros deuses incluindo o Padre Baco, nos perdoem a todos, e sejam para tanto estas Quibíricas o ramo de louro e mais tempêros tão necessários ao bom gosto da vida e das palavras em torrente, nesta era de pílulas de poesia e outras [44].

 

Santa Bárbara (aposentada da Corte Celeste), 1 de Outubro de 1972.

 

Notas:

24 – Este Corpo Genealógico, citado aliás por Alão de Morais na sua Pedatura Lusitana que faz a mais absoluta fé para os genealogistas da nossa praça, existe – precioso manuscrito – na sevilhana biblioteca do Duque de Medina Sidónia, havendo dele uma cópia muito imperfeita e incompleta na do Escurial. Tão aparentados com a grande e a pequena nobreza de Portugal e suas partes ocidentais e orientais, compreende-se como tal obra tenha em algum tempo sido recolhida à biblioteca daqueles Duques aparentados com o próprio Camões.
25 – Não seria excessivo fazer algumas conjecturas acerca de como e porque se chamava de nome português esta D. Sherazada por quem os Dias vieram aos Grabatos. Mas sublinhemos apenas a curiosa coincidência de ela (e o marido) haverem posto ao filho o nome de VASCO, se não foi o padrinho quem lho deu. Vasco da Gama passara em Melinde, e talvez que não tenha apenas conversado com o rei, conforme rezam as crónicas e Os Lusíadas. Semelhante explicação teria o nome Cunha Dias que era o daquela senhora, já que outros portugueses, noutras gerações, também lançavam a âncora em Melinde.
26 – Estas retaliações são confirmadas pela História Geral das Guerras Moçambicanas, do jesuíta Martim da Câmara Silveira (1570?-1693), hoje belissimamente editada pelas publicações do Instituto Ultramarino de Pesquisas Histórico-Sociais, na série dedicada às Comunicações da Academia Regional da Junqueira, Lisboa, 1971. O jesuíta não faz, porém, alusão àquele rapto, mas, curiosamente, atribui o incidente aos melindanos que teriam assaltado e violado a esposa de um traficante português.
27 – A mais recente publicação sobre esta questão é a de Charles S. Fighter, The Manuscripts of Couto’s Décadas and their Roots in African Legends, Nairobi, 1968, obra publicada sob os auspícios da Hakluyt Society, e a todos os títulos notável.
28 – A nota é de outra letra, ainda que a tinta e o cursivo pareçam da mesma época.
29 – Companheiro é o termo constante do manuscrito, e não marido. Mas isso não nos autoriza a que pensemos que Couto, ou quem por ele, ignorasse ou pretendesse ignorar os sacros laços que ligavam o Grabato e sua esposa legítima, ou esteja mesmo a desmentir a existência deles. Tais imprecisões eram infinitamente comuns em obras do tempo, e aliás reflectiam as cautelas em não servir de fonte para fabricações genealógicas, que os autores tomavam.
30 – Não esqueçamos que, com raras excepções, é sabido ser esta uma condição sine qua non para aspirar-se à mais alta categoria poética na literatura portuguesa, igualmente válida de resto para machos e fêmeas. Havendo já antecedentes conhecidos, e tendo-se Camões por um culminante génio, é perfeitamente aceitável que tomasse as suas precauções, menos para salvaguardar-se de responsabilidades que para guardar-se como génio por excelência. Se alguém não devia, pelo menos publicamente, casar ou ter filhos, era ele.
31 – Trazer e levar são muito curiosamente permutáveis na linguagem literária portuguesa, de longa data, nestas matérias de deslocação geográfica. Notável reflexo de ambiguidade topológica da nação em suas partes dispersas pelo mundo.
32 – Ao que é de crer, dirigia ela, com superior proficiência e recatada dignidade, a contento absoluto das mais altas autoridades civis, militares e eclesiásticas, uma espécie de harém – seria impróprio dizer “bordel” – mantido por várias daquelas entidades em convénio colectivo segundo as tradições do Oriente, aonde, de acordo com as mesmas tradições, eram recebidos eventualmente os visitantes ilustres que cruzavam de e para as Índias. É pelo menos o que consta das Memórias Curiosas sobre a Ilha de Moçambique e Seu Termo, ms. infelizmente inédito do Arquivo Histórico da Beira, composto pelo capitão Álvaro da Costa Perestrelo (parente daquele Pero de iguais apelidos, tido como amigo de Camões?) que ainda chegou a conhecer pessoalmente a ilustre dama, bem como as instalações a que ela presidia “com real benignidade”, diz ele. Parece, todavia, que o Capitão ignorava as circunstâncias do casamento dela, que não refere.
33 – Cf. alguns contratos que pertencem ao fundo do Arquivo Histórico Ultramarino, março 420, e também o que é dito por Fr. Joaquim Lucideno de Ataíde do Patriarca São José, em Tesouro Espiritual de Várias Flores Humanas e Divinas, Chaves, 1742, aonde alguns Grabatos, que por certo são estes, aparecem encomiasticamente louvados “por suma Humanidade com que se haviam no tráfico de escravos para o Brasil, sem jamais separar famílias e antes unindo-as pelos laços sagrados antes de embarcá-las”. É certo que o mesmo autor alude, com repulsa, mas também desmentindo os factos, a outro tráfego, a que eles se entregariam, de jovens negras para os haréns da Arábia que hoje diríamos Saudita. Acerca desta corrente comercial que, ao que temos ouvido, ainda persiste clandestinamente (já não em mãos de Grabatos, é óbvio), cumpre-nos acentuar que tais costumes orientais deveriam ser protegidos e animados pelas autoridades e investidores financeiros, não só por respeitarem uma respeitável tradição antiquíssima, como por contribuírem decisivamente para o intercâmbio cultural, ao nível em que melhor se realiza em carácter de mais sólida radicação, entre a África e a Arábia. Igualmente nos consta que os Emires do Golfo Pérsico ainda patrocinam expedições deste tipo às costas orientais do continente africano – e isto deveriam ter em mente todos quantos dependam daquele prestimoso petróleo que em tão largas quantidades aqueles mesmos emires controlam. Iríamos mesmo até propor que escolas secretas para a educação político-económica de candidatas rigorosamente seleccionadas pelos seus atractivos físicos, e a sua inteligência não só sexual mas intelectual, fossem organizadas por quem de direito, a fim de elas poderem influir decisivamente nos acordos que com esses homens de grande poder viessem a ser negociados. Mas isto é um simples aparte. Todavia, algo nos Grabatos e suas artes o autoriza. É tradição oral que eles – ainda que o nome se ouça corrompido em Garibatas no que é hoje a Tanzânia e o Quénia (Cf. Yogolu Ben Iramit, The Erotic Schools of the Garibats, Dar-es-Salam, 1963) – não se limitavam a uma descuidada e indiscriminada exportação. O material era intensivamente educado em todas as técnicas eróticas, e repartido em duas categorias de diversa escala de preço, para corresponder aos gostos da clientela: as que eram mantidas virgens, e as que o não eram. Estas últimas, por sua vez, compunham-se de dois grupos, as que iam desvirgadas e fortemente usadas, e as que levavam a virgindade reconstituída artificialmente. Os “garibats”, segundo a douta obra acima citada, eram eles mesmos quem, de pais a filhos, rigidamente educados desde a adolescência, executavam pessoalmente estes preparos e arranjos. Para as escolas acima sugeridas, não há mais que restaurar esta tradição.
34 – Os pormenores da demanda, ainda que necessariamente tediosos, podem ser conhecidos pelos documentos publicados no Corpus Historicus et Juridicus ad Mozambique cognatus, à meritória ordem do Conselho Superior das Ordens de Mérito Agrícola, pelo Prof. Doutor Antoniano Divarsá de Mello, Lisboa, 1970.
35 – Não se pense que os Grabatos eram originariamente “vulgo”. Muito pelo contrário. Aparecem já mencionados no Nobiliário do Conde D. Pedro de Barcelos, aparentados nada menos que com os Haros, os Castros e os Guzmáns, e deveria ser melhor conhecida a anedota recolhida por aquele autor muito mais irónico do que os medievalistas têm reconhecido nas suas obsessões filológicas, e em que um Fernão Grabato é referido em muito pitorescas circunstâncias. Oriundos da Biscaia e transferidos depois à Galiza e a Portugal (na pessoa de um bisavô daquele Fernão, o qual havia sido companheiro de Afonso-o-Casto, e parece que havia contribuído para que este fosse menos merecedor do cognome que lhe ficou como soberano hispânico), tiveram naquele Fernão grande fama. Com efeito, primo que ele era de D. Mécia López de Haro, a famosa esposa ou amante do rei D. Sancho II de Portugal, regista o Conde, maliciosamente, que aquela dama, sabedora da curiosidade aterrada que às senhoras e mais fêmeas do tempo ele causava, por ser lendária a gigantesca dimensão dos seus adornos viris (razão pela qual nenhuma queria casar com ele, nem com ele ter mais que superficiais relações de física cortesania), o fez exibir-se na sua câmara ante a corte reunida, e na presença do próprio rei, ordenando-lhe que a máxima dimensão fosse por ele patenteada. E porque tal ele não conseguia ante o gáudio geral (ainda que a amostra fosse suficiente para confirmar a lenda), e rindo-se ela mais do que ninguém, ele comentara que tudo nele era conforme com a grandeza das pessoas a quem de perto e a sós cortejasse, e que apenas em leitos reais era digno dos mais altos estados. Irritou-se o rei com o comentário que tomou por desrespeitoso, e ali mesmo ordenou que D. Mécia levantasse as saias, para ver-se que efeito os seus primores teriam nele. Como não tivessem nenhum, e Fernão ficasse como corrido, saiu-se muito airosamente alegando que, súbdito e vassalo dedicado respeitosamente ao seu rei que o seu membro mais do que ele era, não podia este erguer a cabeça mais alto do que a do próprio rei, mormente quando as dimensões fossem maiores que as do mesmo rei com quem em caso algum deveria competir. E riu-se muito D. Sancho daquela graciosa saída. Mas o mesmo Conde de Barcelos mais adiante insinua que D. Mécia, depois de separada do rei, não resistiu a chamar Fernão ao seu leito, ao que ele, que tomara partido do deposto D. Sancho, virtuosamente se recusou.
36 – Cartas Inéditas, publicadas pelo Comte. Alípio Cárdenas da Silveira, Lisboa, 1959.
37 – Cremos que seria excessivo deduzir daqui, como de certos aspectos da vida dos Grabatos anteriormente referidos, que eles, ou algum ramo deles, houvesse em contradição com a sua extrema e biscaínha origem de cristãos-velhos, abraçado a religião muçulmana. O facto de essa cristandade velha poder ser suposta manchada de algum sangue de cristãos-novos não colhe (vide a este respeito José Delmano Sortelha, O Velho e o Novo nos Cristãos Portugueses, Lisboa, 1942, com copiosas genealogias e muita documentação). Tratar-se-á antes, daquela interpenetração de culturas tão inteligentemente estudada sem descabidos preconceitos por Maria Isabel de Lemos Picollino, em Miscegenação cultural e Miscegenação antropológica: alguns dados para o seu entendimento geográfico nas áreas de incerteza lusíada, tese policopiada de licenciatura em Ciências Sociais, defendida na Secção de História da Faculdade Católica de Teologia de Bragança, em 1971.
38 – Cf. Júlio Dantas, Pátria Portuguesa, Lisboa, s/d.
39 – O que este esforço tenha sido, em favor de um prestígio e reconhecimento, pelos mercados internacionais de arte, do valor de peças raras do antigo império português, eis o que ainda é cedo para avaliar em toda a sua extensão e profundidade. Mas louve-se, desde já, o afã patriótico a que, nesse sentido, se têm entregado pessoas de todas as condições sociais, desde as mais altamente colocadas até àquelas que especiais isenções não protegem. E isto apesar das respectivas medidas que absurdamente existem para contrariar o que, nestes tempos de emigração em massa, não deveria distinguir arbitrariamente entre as pessoas que são autorizadas a sair, e os objectos que o não são mercê de uma antiquada concepção do que património artístico seja. Se tal liberdade de movimentos não existisse apesar de tudo, como teríamos hoje Quibíricas?
40 – Cf. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, gaveta 98, maço 441. A devassa – delicada e eufemisticamente conduzida – é um primor de estilo ou de cândidas revelações por parte das declarantes e que os escrivães tudo fazem para ornar de inócua ingenuidade.
41 – Segundo D. Tomás de Noronha, o conhecido satírico cujas poesias nem sempre pecam pelo melhor gosto, em soneto inédito acerca do caso – vide Miscelânea no. 69 do já citado Fundo Pombalino – as oitavas simbolizariam oito variações eróticas que a abadessa e as freiras propunham como mote aos seus amorosos de locutório, e a irregularidade de extensão métrica referir-se à variabilidade (que elas haviam inocentemente descoberto nas glosas) do membro viril. Num soneto inédito do ms. da Biblioteca do Itamaraty, Gregório de Matos Guerra, o celebrado “Boca do Inferno” da Bahia Colonial, também alude verrinosamente ao caso, mas de modo mais consentâneo com a clausura. No que parece ser uma resposta à hipótese anterior, atribui ele a irregularidade métrica dos versos oitavados das novelas da abadessa apenas ao modesto equivalente feminino que aquelas senhoras por certo, apesar do que possa depreender-se da devassa, conheceriam melhor. Em outro soneto, também do século XVII (códice CCCLX/2-21 do Arquivo Distrital e Biblioteca Pública de Évora), mas anónimo (ainda que, por certas analogias de estilo, a sua autoria possa ser tida como de Fernão Correia de Lacerda, aliás antepassado de famílias moçambicanas), uma outra maligna hipótese é desenvolvida e mesmo anotada com a fonte erudita e devota: O Tratado sobre a Circuncisão de Cristo, da autoria de Fr. Estácio dos Santos, capelão que foi do Cardeal Gasparini, secretário de Estado de Papa Paulo III.
Tratar-se-ia, para as oitavas, de oito objectos fálicos de oito combinações de medidas, de que as freiras dispunham para os seus exercícios místicos. A que vinha aquele tratado? Tivemos ocasião de compulsar, na Biblioteca Vaticana, Secção de Super-Reservados, e graças à gentileza de um dos seus conservadores cujo nome nos cumpre não revelar, esse extraordinário manuscrito, que o é tanto pela matéria gravemente exposta, como pelas esplêndidas ilustrações expressamente desenhadas para ele por Bronzino e Vasari, e que fazem do códice uma das mais raras preciosidades daquela Biblioteca que tantas concentra. No Tratado, discute-se seriamente de como esses objectos, necessariamente circuncisos, correspondiam muito mais exactamente à indução de uma vivência espiritual com um ser divino que fora circuncidado, do que qualquer contacto, impossível de admitir com povos circuncisos, ou com cristãos que só espiritual mas não fisicamente o podiam ser, o que tudo era aliás vedado pelos votos de castidade absoluta. Compreende-se que tão maravilhoso códice não possa nem deva, pela tipografia, ser exposto a olhos maliciosos e teologicamente incompetentes. Mas que o autor do soneto acima referido o conheceu (directamente ou por cópia), não há dúvida.
42 – Cf. Memórias do Termo e Comarca de Resende, por Fr. Apolinário de Santa Rita de Cássia, Viseu, 1803.
43 – Cf. História dos Bispos do Brasil, ms. anónimo da colecção Barbosa Machado da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
44 – Cf. declarações do Papa sobre a pílula e a numerosa bibliografia sobre ela, assim como os manifestos e outras declarações de princípios de poetas mais ou menos concretos ou tendendo a tal, que tudo, por notório, desnecessário é mencionar aqui por extenso.
 

* In: O Reino da Estupidez-II. Lisboa: Moraes, 1978.