A Condição Humana, de Malraux

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Este texto introdutório à edição portuguesa do livro de Malraux, vem acompanhado da seguinte nota de seu tradutor, Jorge de Sena: "Uma primeira versão do prefácio, como a tradução que ela havia de preceder, datava de 1956. Mas a editora (Livros do Brasil) teve dificuldades alheias à sua vontade, que o autor destas linhas, como director literário que era, da empresa, acompanhou muito de perto, em publicar a obra então. Uma versão revista do prefácio foi redigida em 1958, quando finalmente o livro pôde sair".

 

La Condition Humaine, de André Malraux, é sem dúvida um dos grandes livros do nosso tempo, e ouso dizer que uma duradoura obra-prima da literatura universal. Alguém já afirmou que se não é o mesmo, antes e depois de ter lido o que é uma das mais pungentes, sóbrias e penetrantes obras de que a ficção se serviu para expor uma concepção simultaneamente desesperada e nobre da «condição humana».

Foi publicado este livro em 1933, naquele período chamado de «entre duas Grandes-Guerras», período que os historiadores do futuro diluirão justamente entre as duas hecatombes, como se ambas houveram sido a mesma, e que foi, no entanto, na ordem política e social, um período decisivo na história da humanidade. Durante ele, de facto, descobriu o conjunto dos homens, uns com entusiástico anseio, outros com ansioso temor, que civilização europeia não significava necessariamente, ou deixara de significar, um predomínio económico e espiritual da Europa política. Nessa época se consumou, de resto, a unidade humana do Globo; nela, as distâncias são definitivamente anuladas, os meios de expansão e transmissão da cultura desenvolvem-se prodigiosamente, e abre-se a todos os homens, sem distinção de classes, credo ou cor, a possibilidade de uma ascensão efectiva à consciência humana. Não se iniciara, é certo, a era atómica, não se concebia ainda um extermínio em massa, levado a cabo com a comodidade e a simplicidade da cam-painha que mata o «Mandarim». Por então, apenas o «crack» da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, lançara o mundo na confusão económica; os nacionalistas chineses triunfavam; o Japão ocupava a Manchúria; o espectro da guerra geral só era uma realidade no espírito dos fautores dela e no de alguns clarividentes. André Malraux era já um escritor conhecido, um pouco o aventureiro da literatura e da arte, que no fundo nunca deixou de ser, a par de senhor de uma perfeita e clássica técnica da linguagem escrita: concisão fremente, a obliquidade patética, a limpidez sombria do isolado intratável. Desde 1921, publicara entre outras obras La Tentation de l'Occident, Royaume Farfelu, Les Conquérants, La Voie Royale. Nascera em 1901, filho e neto de suicidas, seu pai, que fora um arruinado agente da «Royal Dutch», seu avô, que fora «maire» de Dunquerque. Estivera na Indochina, e depois na China, onde assistira à guerra civil em Xangai e em Cantão, e contactara de perto com os actores e ensaiadores do drama. O êxito de A Condição Humana foi retumbante; e François Mauriac anotava no seu diário estas palavras subtis: «Poderia discernir-se nesta indulgência o instinto profundo de uma sociedade muito velha que diz ao filho que se levanta contra ela: — Faças o que fizeres, apesar dos ultrajes de que me embebes, és meu pela inteligência, pela cultura, pelo estilo; és meu por todos os dons do espírito. A minha herança cola-se-te à pele…» [1]. É de facto assim. Vejamos como.

O crítico norte-americano Edmund Wilson, escrevendo sobre o grande poeta Rimbaud, disse: «A carreira dele, com a sua violência, o seu interesse moral e a sua plenitude trágica, deixa-nos a sensação de assistirmos ao espírito humano levado à mais resoluta das sinceridades e na posse das mais altas faculdades, cindindo-se no esforço de fugir, primeiro, ao compromisso humilhante, depois, ao caos não menos humilhante.» [2].

Entre estes dois textos esclarecedores na sua concisão, procuremos esboçar um retrato de Malraux e um sentido da sua obra em que avulta, pela profundidade das reflexões e pela intensidade das situações, A Condição Humana. Malraux é, de facto, como notou Mauriac, um filho preclaro da velha sociedade europeia, daquilo a que se convencionou chamar «civilização ocidental». Foi sempre, porém, um filho rebelado contra o muito que dessa civilização ele sente que se lhe cola à pele. E, como de Rimbaud diz Wilson, dividido entre o «compromisso humilhante» e o «caos não menos humilhante», e a ambos tentando recusar, e recusando-os efectivamente, na medida em que supera uma antinomia que o puro individualismo (a vaidade da consciência humana individual) não pode, de resto, por si só resolver. Rimbaud, abandonando as letras que conduzira à mais extrema aventura, viveu no entanto nos fins do século XIX, quando entre o compromisso e o caos havia uma sociedade poderosa e organizada, que apenas estava trocando o espírito pela consolidação das suas conquistas económicas. Perante esse mundo que, traindo-se a si próprio, cumpria o seu destino inexorável de civilização unilateral e lançava as bases da sua própria ruina, era possível erguer a literatura, ou o altivo abandono dela, como um efectivo e agónico sinal de independência. Era mesmo possível e até natural a proliferação de inúmeras atitudes de individualismo anárquico, de consciências lúcidas à custa de se negarem às outras: entre elas avulta, com uma nobreza inexcedível, a voz comovente de Nietzsche. Mas o mundo de Malraux é outro, é o outro que a esse sucede. Trazendo para ele a consciência de uma solidão última que só a fraternidade mitiga (e é este um dos temas fundamentais de Malraux), era inevitável que Malraux, filho de uma sociedade que inventou por uma lado o individualismo e por outro o culto da arte (ao perder, na sua evolução, a fé na condição ecuménica da humanidade, e a confiança na criação permanente que é a vida), assumisse com uma coerência natural várias posições contraditórias e acabasse criando a tese do «museu imaginário» da arte universal, ou seja a solidão do indivíduo rodeado das reproduções de quanto os homens, em todas as épocas e lugares, criaram. Reparemos que o «museu imaginário» é o corolário final da difusão das artes gráficas ao serviço do indivíduo que pode pagá-las para com elas povoar a sua solidão.

As posições contraditórias de Malraux obedecem de facto a uma natural coerência; enumeremos algumas. Testemunha que foi das convulsões da nova China (e descontado quanto haja de pessoal e deformadora filosofia neles, Les Conquérants e La Condition Humaine são preciosos documentos para a compreensão de um dos mais decisivos factos políticos do nosso tempo), é Malraux quem, com André Gide, vai a Berlim protestar contra o processo subsequente ao incêndio do Reichstag, que consolidava Hitler no poder; é dos primeiros a denunciar ao mundo (Le Temps du Mépris, 1935) a existência dos campos de concentração nazis; se alista como aviador ao lado da Espanha Republicana (e o seu livro L'Espoir, 1937, é considerado pela própria crítica espanhola contemporânea um dos mais belos e sérios que a guerra civil produziu); tendo recusado sempre, ao que parece, fazer parte do partido comunista, rompe com este (que aliás sempre pusera entre parênteses muito da sua obra e das suas atitudes), quando a Rússia ocupa a Polónia e os Estados bálticos; luta na Resistência, é feito prisioneiro, é libertado pelas F. F. I., e comanda depois a brigada Alsácia-Lorena cuja acção foi célebre; é quem se liga ao general De Gaulle e é o ministro da Informação do gabinete de união nacional, efémero (o ministério chamado das «mangas arregaçadas»… Moch, Soustelle, Bidault, Auriol, Thorez, Pleven, etc.) a que o general presidiu; abandona, como De Gaulle, a acção política do movimento quando este decide ingressar no jogo parlamentar; se dedica à crítica de arte e escreve a monumental As Vozes do Silêncio (o seu interesse e o seu conhecimento destes temas datavam já da sua estreia nas letras); se entrega à «metamorfose dos deuses», com que prolonga à mitologia o seu «museu imaginário» de fogosa retórica, e reaparece ao lado do general De Gaulle, na actual crise francesa. De tudo isto, a par dos textos que escreveu, e em que se revela um moralista da estirpe e da descendência de Pascal, La Bruyère e, sobretudo, Vauvenargues, se poderia concluir pela fidelidade a si próprio de um espírito ávido de dedicação individual e de aventura, para o qual a fraternidade humana é menos uma solidariedade que a consequência de um solitário culto (no sentido de cultura, também) da liberdade, e que vê na política um «compromisso humilhante» para a livre expressão daquilo que uma consciência entregue à sua própria irresponsabilidade julga que é verdadeiro. Seria, porém, injusto não reconhecer a autenticidade de uma obra muitas vezes incompreendida ou condenada em função das atitudes do seu autor. De resto, que o tenha sido é por certo um sinal seguro dessa autenticidade dúplice.

Muito se tem afirmado, e é evidente nas suas páginas, que a obra de Malraux é um longo comentário moralista sobre a solidão e a morte, sobre a acção e o destino humano. Poucas personagens haverá, na ficção, tão tragicamente isoladas como algumas de A Condição Humana; e sem dúvida que todas elas se vêem em situações extremas, nas quais a vida e a morte lhes surgem, não sequer como uma alternativa, mas como uma mesma versão do destino, em que a morte é menos escolhida que aceite. Todavia, o sacrifício, a esperança, a fraternidade, o amor, até o cepticismo — característica da acção ou atitudes humanas que as personagens de Malraux a cada passo conhecem — não lhes aparecem como meios, mas como fins individuais. Imersos numa condição que os excede, individualistas que se sabem impotentes num mundo cuja complexidade já não esconde a fragilidade de uma posição individualista, estas personagens convertem-se a esses sentimentos medianeiros da grandeza humana, testemunhando assim de uma grandeza que os ultrapassa.

Quem quer que leia os romances de Malraux com olhos de ver, e em especial A Condição Humana, não pode deixar de sentir lá uma nostalgia da grandeza e da dignidade humanas, como se estas fossem algo que tivesse perdido e que em face do destino cada homem pode encontrar. Malraux é magistral em algumas das suas páginas, no sugerir que o homem pode aprender à sua própria custa a «grandeza». Mas, usando as suas palavras, «tentar dar a homens a consciência da grandeza que em si próprios ignoram» — não basta. Não bastaria até porque aquele dar a homens nos recorda que como que se interpõem certos privilegiados da grandeza entre esta e os outros. Mas não basta especialmente porque a grandeza humana é algo que não releva apenas da descoberta individual, e bem mais da vivência colectiva. Importará assim tanto a solidão de cada um, para que o mundo se transforme numa associação de solidões? Será assim precioso o incomunicável? Ou valerá principalmente aquela capacidade humana de sentir os outros lá onde eles próprios se negam ou se esquecem?

Que tudo isto possa ser pensado a propósito de A Condição Humana seria desde já uma indicação do seu extraordinário valor: documento histórico, meditação moralista, intensa e asfixiante acção romanesca, estilo admirável — eis uma obra em que o nosso tempo palpita com as suas esperanças e as suas desilusões, com as suas verdades e os seus erros, com, principalmente, uma análise magnificente daquilo a que Camões (outro aventureiro, muito contraditório, de um período crítico da história humana) chamou, com evidente conhecimento de causa, «estranha condição». Exactamente assim: a estranheza, tão natural e tão grave, de que todos somos feitos.

Janeiro de 1956 — Agosto de 1958

 

Notas:

1. Citado por P. de Boisdeffre in André Malraux

2. In Axel's Castle.

 

* Maquiavel, Marx e outros estudos, 2.ed., Lisboa, Cotovia, 1991, p. 149-156