From the interview in “O Tempo e o Modo” (1968)

Translated by George Monteiro
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Medalha em bronze representando JS, de autoria do escultor M. Inácio.

For the June 10, 1979 celebrations of the “Day of Portugal, Camões, and the Portuguese Communities,” the Secretaria de Estado da Cultura published a compact anthology titled Versos e Alguma Prosa de Jorge de Sena. Eugênio Lisboa was responsible for the selection of texts. Included was this paragraph extracted from the interview Sena accorded the journal O Tempo e o Modo in 1968. The excerpt bears the editorially provided title of “Auto-exame.” The translation, done more than thirty years ago, has not been previously published.

Em celebração ao “Dia de Portugal, Camões e as Comunidades Portuguesas”, em 10 de junho de 1979, a Secretaria de Estado da Cultura publicou uma breve antologia intitulada Versos e Alguma Prosa de Jorge de Sena. Eugênio Lisboa foi o responsável pela seleção dos textos. A edição incluiu este parágrafo extraído da entrevista concedida por Sena à revista O Tempo e o Modo em 1968. O excerto recebeu o texto editorial de “Auto-exame”. A tradução, feita há mais de trinta anos, nunca havia sido publicada.  
SELF-ANALYSIS

I am not myself one of my more steadfast admirers. The only reason, it appears, that I proclaim my talent at every opportunity is that, until recently, if I did not do so, no one else would; and given that I’m acutely sensitive to injustice in all its forms, should I allow injustice to work with impunity in my own case? Very few Portuguese writers of merit owe as little to the critics as I do. From every corner the rule for nearly thirty years has been either to remain totally silent or to under-evaluate. Where is that body of commentary on my work for the past thirty years? With rare, if notable, exceptions, I have been for years honored by nothing more than some book dedications or the receipt of personal letters, admiring and devoted, to be sure. But where on my behalf has been the equivalent of that great public acclaim accorded to my illustrious comrades? Every once in a while, there will be a tantalizing bit in some preface or other, or some grudging praise in a work of literary history. That is the most that I get, while mediocrities get great acclaim because they are sufficiently reactionary, or, sufficiently “one of them,” are garlanded with flowers. Grant it that I do not believe in immortality of any kind, that I’m sufficiently well informed to know that cemeteries are the real libraries and the true literary histories, and grant it as well that I’m not given to playing at what partisanship offers as a sub-stitute for immortality-—the illusion of immortality—and it will become crystal clear why I insist on recognition for the widespread good I have done. To tell you the truth, I detest false modesty. But even more than that, I abhor that mediocrity which will not allow itself to recognize excellence. No, I am not one of my more secure admirers. If I were, I would be like the majority of those living the Portuguese literary life, so utterly self-satisfied with themselves that each one of their books is worse than the last. The problem is not that I think I am so great but that the others, the majority of them, are such small fry. But one thing more: I should say a word in all justice and with grateful recognition about many of the lesser fry, those who do not insist that they are great, and to whom for many years I failed to extend even a single word of re-ciprocal praise, and who in honesty and impartiality, paid more at¬tention to me than did the official criticism emanating from all public sources, individually and collectively. To them, for a long time, I have owed thanks for the touching initiative, one that too often I did not accept as coming from friends. And I want to ask one last question, How many great writers have spent as much of their time working on behalf of so many of their contemporaries as I have over the past thirty years’? How many, I ask? The most that the “others” have done is to praise some piece of mediocrity or, occasionally, dig up some dead man, fearing that otherwise he might cast a shadow upon them. The difference between me and them is that I fear no future judgment, and that I make no attempt to catch sunlight in a sieve. Not at all. My self-confidence is total; it is absolute. No one can destroy me, unless I do the job myself.

 

AUTO-EXAME
Não sou [um dos seus mais seguros admiradores]. A única razão pela qual parece que eu proclamo a cada instante o meu talento é porque, até muito recentemente, se eu o não fizesse, ninguém o faria. E, se eu sou agudamente sensível a todas as formas de injustiça, haveria de deixar que ela se exercesse impunemente comigo? Poucos escritores portugueses de relativo mérito deverão tão pouco à crítica como eu. De todo os sectores, o silêncio ou o amesquinhamento foram de regra durante quase trinta anos. Onde está a bibliografia a meu respeito durante trinta anos? Com raras e dignas excepções, eu, durante anos, recebi apenas dedicatórias de livros ou cartas particulares, ou devotadamente admiradoras, mas onde estão os equivalentes públicos de tanta admiração dos meus ilustres camaradas? Uma ou outra dentada em prefácio, quando muito. Elogios «à contre–coeur» em histórias literárias é o mais que eu recebo, quando notórios medíocres são coroados de flores, por serem suficientemente reaccionários, ou suficientemente «dos nossos». Dado que eu não acredito em nenhuma forma de imortalidade, e tenho erudição bastante para saber que cemitérios são as bibliotecas e as histórias literárias; e dado ainda que não me dou a participar de partidarismos que me ofereçam, por substituição, a ilusão da imortalidade, será bem clara a razão de exigir o reconhecimento que me cabe pelo muito e bom que tenho feito. Tenho horror de falsas modéstias, de facto. Mas tenho ainda maior horror da mediocridade que se compraz em recusar-se a reconhecer o que a excede. Não, não sou um dos meus mais seguros admiradores. Se o fosse, seria como a maioria dos membros da vida literária portuguesa, tão satisfeitos de si mesmos que escrevem sempre um livro pior do que o anterior. O problema não está em eu me considerar muito grande — mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos. De resto, devo acrescentar uma palavra de justiça e de grato reconhecimento: foram muitos dos pequenos que não se julgam grandes, e aos quais durante anos não dei nem uma palavra de correspondente louvaminha, quem honestamente, e com isenção, se ocupou mais de mim do que a crítica oficial das várias chafaricas individuais ou colectivas. A eles devi, por muito tempo, um comovente incentivo que muitas vezes não recebi de amigos. E, ainda, quero fazer uma pergunta: quantos escritores de categoria se têm ocupado tão largamente e tão numerosamente dos outros seus contemporâneos, como eu fiz durante trinta anos? Quantos? O mais que fazem é louvar às vezes um medíocre ou desenterrar um morto, com medo da sombra que lhes seja feita. A diferença entre mim e eles é que não temo o juízo do futuro, e não procuro tapar o sol com uma peneira. Não: a minha segurança é total e absoluta: ninguém pode destruir-me senão eu mesmo.

 

De uma entrevista concedida à revista O Tempo e o Modo, n.° 59, Moraes Editores, Lisboa, Abril de 1968.