Miguel Ângelo, Shakespeare e Galileu

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Galileu Galilei

História, Literatura, Cultura… Neste entrelaçamento de saberes, um exemplo da mestria ensaística de Jorge de Sena.

 

Neste ano de 1964, celebram-se três centenários de três dos maiores génios que a humanidade produziu: Miguel Angelo, Shakespeare, e Galileu. Como que a simbolizar o que há de final e há de origem em homens como esses, do primeiro se comemora a morte, e dos dois outros o nascimento; e, curiosamente, isto passa-se às vésperas de um outro centenário de nascimento, o de Dante, que se dirá simbolizar, na cultura europeia, a transmutação da máxima estruturação estética que a Idade Média atingiu, em cultura moderna. Ponderemos, daqueles três homens, por ora, os dois primeiros.


Como que em alegoria de quanto os homens não coincidem, e há sempre que os separe mesmo quanto os une no tempo, temos que Miguel Angelo morreu a 11 de Fevereiro, e que Shakespeare nasceu só, ao que tradicionalmente se supõe, a 23 de Abril. Um viveu sempre na Itália, onde nasceu; o outro não consta que tenha saído alguma vez da sua Inglaterra natal. E, na idade, entre ambos, não há só a diferença de 70 dias, durante os quais não estava qualquer deles na Terra: há também os quase noventa anos com que um morria, quando o outro ia nascer para viver apenas pouco mais de meio século.


Escultor, poeta, pintor, arquitecto, a vida activa de Miguel Ângelo, cujos produtos chegaram até nós, corresponde a três quartos de século. A do poeta e dramaturgo, que o saibamos, coube em vinte e poucos anos de actividade conhecida. A vida de Miguel Ângelo foi agitada e sombria, animada por lampejos de lirismo de um génio violento e misantropo. A de Shakespeare, não sabemos que o tenha sido mais do que poderia sê-lo a de qualquer homem comum, como ele foi ou procurou ser na vida. A evolução estética de um parte quase de uma optimística visão renascentístico-medieval, para o dramatismo agónico ou esfíngico das últimas obras, e para a aflição e a dúvida sobre a legitimidade da arte, a que chega, simbolizando em si tudo o que o Renascimento foi, e o que ao Renascimento sucedeu quando este espírito morria. O outro, descrevendo uma curva, ascendeu às maiores violências sobre a inanidade trágica de tudo, para despedir-se do mundo com um sorriso de paz, de complacência, de infinita resignação ante a mesquinhes da vida. De um sabemos que as ansiedades religiosas o assaltaram; do outro parece que a devoção hebdomadária do então recente anglicanismo bastou para deixar as angústias humanas confinadas à despersonalização teatral.


Pode parecer que tudo os separa, menos o génio, ou seja, aquela categoria excepcional que ambos possuem como artistas, e que não irmana afinal ninguém, senão na medida em que, aos possuidores, afasta daquilo que se considera, por exclusão, a mediania da humanidade. Mas a segregação sublime dos «faróis», como dizia Baudelaire, não é, por si só, uma afinidade entre génios.


Todavia, um lato critério do que seja Renascimento — considerado como uma revolução individualista no gosto e no estilo de vida, nas formas e nas ideias — inclui Miguel Angelo e Shakespeare num mesmo período da cultura europeia: aquele que vai desde os fins do século XIV até aos fins do século XVII. Este critério implica a inclusão, num mesmo período, da Renascença, do Maneirismo, do Barroquismo, e do Neo-Classicismo que houve após este último: tudo o que, na cultura europeia, vai desde as primeiras manifestações de interesse laico pela Antiguidade Clássica até à depuração extrema de Racine, que seria a quintessência final desses três séculos. Ou seja, tudo o que vai desde os primeiros ataques do racionalismo à teocracia medieval, até às primeiras dúvidas acerca da representatividade política das monarquias tradicionais.


Mas este lato critério, indo mais longe, pode devorar-se a si mesmo, e incluir aqueles três séculos na própria Idade Média, contra a qual se achava que eles se haviam rebelado. E, vindo então a Idade Média, desde as supostas invasões de bárbaros que, convencionalmente, destruíram um Império Romano que já era «bárbaro», até às Revoluções Americana e Francesa que proclamam o princípio da supremacia política da representividade democrática, Miguel Angelo e Shakespeare, para os historiadores que tão generosamente ampliam, por espírito polémico, a «idade das trevas», serão medievais os dois.


Se o respeito pelos cânones ideais da clássica beleza serena e abstracta é padrão do Renascentismo, nem Miguel Ângelo, nem Shakespeare são deste período. Também o não serão, se o padrão for apenas uma hedonística alegria de viver e criar segundo o capricho de cada um. E muito menos hão-de sê-lo, se o Renascimento for a afirmação titânica de uma rebeldia do Homem sobre a Natureza, contra Deus e o Destino, porque ambos lutaram titanicamente com as suas figuras e personagens, para atingirem precisamente o alvo contrário de uma conformidade que, num, agonicamente abdica da legitimidade da arte, enquanto, no outro, reconhece que a visão do mundo é uma pura convenção teatral que tenta dar forma e sentido ao sonho inane de que somos feitos.


Mas, se ser-se medieval é reconhecer a força do pecado e um equivalente poder da expiação ou da Graça, para resgatá-lo; se ser-se medieval é admitir que o homem não assume, mesmo negativamente, as responsabilidades de um destino individual (mas só as que, como ente humano genérico, lhe cabem); se ser-se medieval é reconhecer a supremacia da representatividade harmónica da teocracia política, sobre o isolamento trágico de cada homem ante a vida e a morte; se ser-se medieval é o uso de formas tradicionais como concretização do eterno no efémero, e não a criação de formas autónomas como a projecção do efémero no eterno — então nem Miguel Ângelo nem Shakespeare são medievais.


A História cultural, como a sócio-política, tem quase sempre vivido amarrada nos seus próprios esquemas, muitas vezes demasiado amplos para significarem algo de característico ou de criticamente válido, outras vezes demasiado resultantes dos preconceitos culturais e nacionais, transferidos por extrapolação, para escalas que não são as suas. Os casos de Miguel Angelo e de Shakespeare (e, como veremos, também o de Galileu) são, a este respeito, altamente significativos. Pelo que ficou dito, estamos vendo a que ponto eles se diferenciam um do outro, naquilo mesmo que possa irmaná-los, e como se irmanam por aquilo mesmo que os diferencia. Enleada nas malhas das suas próprias contradições, a História sócio-cultural responder-nos-á que isso resulta das irresolutas contradições de uma época. Mas será que as contradições de uma época são, ou foram, aquelas que as nossas contradições culturais vêem nela? E não será que as que aparecem no choque das realidades passadas, com o simplismo dos esquemas, apenas denunciam que, naturalmente, em todas as situações, a humanidade é mais complexa e contraditória do que as contradições que queiramos ver nela? Ou melhor: que uma coisa são as contradições pessoais de um temperamento, outra as que uma época tem em si e de que é feita, e muito outra as que resultam de querermos ajustar esquemas preconcebidos (e muitas vezes sobrevivência de um conhecimento desactualizado das questões que nos ocupam) a épocas que não se regiam por eles?


A longa vida de Miguel Ângelo assistiu à desagregação final da Itália, e à sua queda secular sob o império das hegemonias estrangeiras. A vida mais breve de Shakespeare decorreu nas primeiras décadas do grande imperialismo britânico. Quase um século — essa longa vida do escultor e poeta — separa o nascimento dos dois génios; e, nesses anos, a Europa viu o triunfo e a derrocada intelectual da Renascença italiana, o desencadeamento da Reforma protestante, o dilacerar dos povos nas lutas religiosas e na intolerância, a constituição da França, da Inglaterra e da Espanha aproximadamente nos limites modernos, a formação da monarquia austríaca, as descobertas das Américas e do caminho marítimo para a índia, o estabelecimento e o início da queda dos imperialismos português e espanhol, as colonizações transatlânticas, o Concílio de Trento, a difusão da imprensa. Tudo isto aconteceu em vida de Miguel Angelo, e terminou, ou está em vias de terminar, na juventude de Shakespeare, quando, após um século de violentas lutas pelas centralizações territoriais, a Europa saiu da pulverização medieval para as grandes unidades das monarquias absolutas apoiadas na intolerância política das religiões oficiais. Será que ambos pertencem à mesma época histórica? Ou será que um está a cavalo sobre duas (e a morte da primeira nele mesmo se processa exemplarmente), enquanto o outro está integrado na segunda? Porque Miguel Angelo teve trinta anos da sua vida, para assistir à subversão da atmosfera de optimista agitação intelectual, nos abismos do despotismo.


Uma sucinta cronologia é muito esclarecedora. Cerca de 1450, terá surgido a imprensa de caracteres móveis, quando Afonso V de Aragão conquistava o reino de Nápoles. Em 1474, o casamento dos Reis Católicos une Aragão-Barcelona (com o seu império mediterrânico) a Leão-Castela. Em 1477, a morte desastrosa do duque de Borgonha, Carlos-o-Temerário, permite a encorporação de parte dos seus estados à França que, em 1481, encorpora o reino da Provença e, em 1488, o ducado de Bretanha. Em 1492, quando Portugal já descobriu toda a costa ocidental da África e as ilhas do Atlântico, Colombo chega à América. Em 1494, dá-se a primeira invasão francesa da Itália, no mesmo ano em que a Inglaterra obtém a submissão definitiva da Irlanda. Em 1497, no mesmo ano em que os Reis Católicos conquistam Granada, Vasco da Gama parte à descoberta do caminho marítimo para a índia, onde chega em 1498. Em 1500, Cabral descobre oficialmente o Brasil. Em 1513, o Rei Católico Fernando de Aragão encorpora a Navarra espanhola à coroa unida da Espanha. O reino de Navarra, reduzido à parte francesa, une-se à França em 1589. Em 1519, Carlos de Espanha, que já interviera nas guerras de Itália, assume o título de imperador alemão, quando a Alemanha começa a agitar-se na rebelião de Lutero. As guerras da França com o império alemão, e depois com a Espanha, complicadas com as guerras civis de religião, estalam em 1521, e prolongar-se-ão, com intermitências, até 1598. Entretanto, Calvino propusera as suas teses (1535), e Henrique VIII de Inglaterra, já separado de Roma, promulga os Seis Artigos (1539); o império austríaco absorvera a Boémia (1526) e a Hungria (1527); e os soberanos russos tomavam o título imperial (1534). O Concílio de Trento, reunido em 1545, prossegue até 1563, sendo as suas decisões promulgadas no ano seguinte que é aquele em que nascem Shakespeare e Galileu. Em 1580, o império português é, por sessenta anos, encorporado à coroa hispânica. Em 1603, a Escócia e a Inglaterra unem as suas coroas.

E Shakespeare nasceu na atmosfera da «pax anglicana», e assistiu à união das coroas inglesa e escocesa, que consagrava a ambição britânica de realizar-se a Grã-Bretanha. Socialmente, Miguel Angelo é um homem de cultura, que convive de igual para igual com papas, cardeais e príncipes. Shakespeare é um burguês aristocratizado de província, com uma profissão desqualificada — a de actor —, e cujas letras são as da mediania cultural do seu tempo, no seu país. Nem um nem outro são, é certo, «scholars»; e também Miguel Angelo não é um aristocrata de sangue, como grande parte das figuras celebradas do Renascimento o são. Ambos representam, em esferas diversas, o triunfo cultural das classes artesanais da burguesia urbana, que anteriormente se processava dentro dos quadros da Igreja Católica, ou com os instrumentos da cultura, que ela controlava. Mas ambos dependem estritamente de um mecenato garantido pelos grandes próceres da nova aristocracia terratenente e financeira, que havia assumido o poder na Europa, desde os fins do século XIV, propiciando, com Petrarca, Boccaccio, Fernão Lopes e Chaucer, a eclosão de uma cultura laica que acabaria pondo a Igreja ao seu serviço, mediante a imposição das religiões de Estado.


A poesia de ambos é muito diversa. Miguel Ângelo é um artista plástico que escreve versos líricos. Shakespeare é um poeta dramático, que igualmente soube ser um grande lírico, mas em quem não se vê que as outras artes desempenhassem, para seu alimento espiritual, grande papel. O escultor e arquitecto é um dos propugnadores do classicismo contra a «barbárie gótica», e abandonou-o progressivamente, nas ondulações da barroquização da geometria. O dramaturgo viveu na atmosfera de um goticismo humanístico, tão propiciado pelas pretensões do anglicanismo à pureza primitiva e à representatividade de um catolicismo medievalizante, e que, na Inglaterra, só cedeu o passo à imitação classicista, quando ele havia morrido meio século antes. Tudo isto nos coloca Miguel Ângelo como figura exponencial do Renascimento e do Maneirismo italianos; e Shakespeare como o grande Maneirista de um país que não teve Renascença, senão no sentido genérico do movimento cultural humanístico, classicizante na literatura e bíblico em religião, que se desenvolve em toda a Europa desde o século XIV. E, quando, no mesmo ano de 1623, dos prelos de Stratford sai o «First Folio», e de prelos de Florença a primeira edição dos poemas de Miguel Angelo, e a Inglaterra está às vésperas da Revolução Puritana e a Itália dorme um sono austríaco e espanhol, é como se, das sombras de um passado morto, se erguessem a perturbar as magnificências barrocas dois fantasmas vetustos, cujas visões imprudentes a Inquisição queimara, em 1600, na pessoa de Giordano Bruno, esse aventureiro italiano da filosofia, que tanto impregnara, em turbulentos convívios, a cultura britânica.


Como poucos dos muitos grandes, Miguel Ângelo e Shakespeare são o princípio e o fim: aquele viveu o Renascimento inteiro, e sepultou-o no seu «Juízo Final» e na sua «Pietà» final, como Ticiano, outro longevo, fez nas sombras rubras do seu «Martírio de S. Lourenço»; este, no esplendor da Inglaterra isabelina, levou às últimas consequências a angústia que o Renascimento começou sentindo, quando tudo entrou a desfazer-se sob os pés humanos, para reestruturar-se na ordem física e mecânica de um universo autoritário. Ambos criaram monstros: o Hamlet, o David, a Basílica de S. Pedro, Macbeth, as pinturas da Capela Sistina, Ricardo II, os escravos encadeados, Measure for Mensure; e os sonetos de um e do outro são a expressão galante ou dramaticamente dolorosa de um amor que, às vezes, se temia aterradamente a si próprio. Tornara-se humanamente temível aquele amor que, no dealbar das aventuras espirituais, Dante vira regendo «o Sol e as mais estrelas». E foi precisamente Galileu quem transformou esse humano medo, na ordem abstracta de uma ciência superior à insegurança do Homem e ao arbítrio de Deus.


Que ele tenha nascido quando Miguel Ângelo morria, no mesmo ano de Shakespeare, e que a este tenha sobrevivido vinte e seis anos (um quarto de século), eis o que, nestes transes comemorativos, nos cumpre interpretar. A obra científica de Galileu Galilei, muito mais que as artísticas de Miguel Ângelo ou de Shakespeare, tem sido polemicamente interpretada pelos historiadores da cultura, que, em geral e infelizmente, não são historiadores da ciência. E o famoso processo de 1632-33 transformou Galileu num mártir da liberdade da ciência, em nome do sistema heliocêntrico, cuja responsabilidade, nos tempos modernos, cabia muito mais a Copérnico, Bruno, Tycho Brahe, e Kepler, cujos trabalhos e investigações estavam publicados havia muito, quando o cientista italiano confrontou num diálogo pelo modelo platónico, e sem demonstrações matemáticas (a sua confiança nas medidas de Brahe e nas leis de Kepler era muito relativa), os sistemas de Ptolomeu e de Copérnico. Muito mais graves para a sobrevivência do aristotelismo escolástico, a que davam o golpe de morte da ciência experimental, do que os diálogos de 1632, são os de 1638, publicados sem escândalo, quando Galileu fora confinado à aposentadoria vigiada, mas honrosa, da sua casa de campo nos arredores de Florença. De resto, a crença absoluta no sistema de Copérnico (que este expusera no De revolutionibus orbium celestium, aparecido poucos dias antes de ele morrer, em 1543) fora sempre muito incerta, e colocada no plano da mera especulação intelectual. O prodigioso observador astronómico que Brahe havia sido, e cujos valores foram decisivos para o estabelecimento da teoria heliocêntrica, advogara um sistema misto, em que os planetas giravam em torno do Sol, enquanto este, arrastando-os, girava em torno da Terra, numa órbita mais ampla que a da Lua… Deste sistema misto, é que, na obra simultaneamente ocultístico-metafórica e de crítica de observações, que é a de Kepler (trabalhos sucessivos desde os fins do século XVI até ao fim do primeiro quartel do século XVII, surgiram as órbitas elípticas dos planetas. Mas Galileu, nos seus disputados diálogos, que lhe valeram a condenação, revertia às órbitas circulares, apenas por considerações intelectualístico-racionais, em contradição com o espírito do excepcional experimentador que ele, como grande mecanicista, sobretudo foi. E é nisto, como na atitude dele perante o Santo Ofício, que Galileu, bem mais que na questão do heliocentrismo, é, ao mesmo tempo, uma figura decisiva da história da ciência e um homem representativo do mundo novo que sucedia ao de Miguel Angelo e Shakespeare. Contra a razão intelectualista, ele expõe o orgulho (que é, no fundo, humildade mecanicista) da observação e da experimentação. Contra a autoridade do dogma e dos preconceitos, ele afirma a superioridade da ciência; e esta ciência, porque, na sua concepção já barroca, é mecânica, regida por leis imutáveis da matéria reconhecidas pela razão experimental, não exige mártires para subsistir. Na época anterior, Giordano Bruno tinha de deixar-se queimar vivo, para salvaguardar a dignidade da pluralidade dos mundos. Para Galileu, que ele se desmentisse, em nada alterava a dignidade e superioridade de uma ciência que já não era vida humana, mas uma mecânica universal a que obedeciam, com as suas razões ou sem-razões, ele e os seus juízes. A ciência e a vida já se não confundem; e a experiência da vida já não é, para Galileu, como fora para os renascentistas e os maneiristas, garantia de ciência. Esta cria-se da observação e da experimentação, articuladas pela razão humana. E, assim, ele, desdizendo-se do heliocentrismo e abandonando as investigações astronómicas, pode, anos depois e em paz, lançar discretamente a bomba terrível: e, não sem ironia, num tratado sobre o movimento dos projécteis… A ciência desistia de filosofar sobre as grandes coisas perigosas do Universo; e, em monografias especializadas e técnicas, preparava a derrocada delas. E isto é a época barroca.


Estes três centenários de 1564, de três génios cujas vidas cobrem pouco mais do mesmo século e meio (desde o nascimento de Miguel Ângelo à morte de Galileu), são exemplares para meditarmos nas três épocas sucessivas que eles representam na cultura europeia: Renascimento, Maneirismo, Barroquismo. A primeira deu-nos a dignidade do homem em face de si mesmo; a segunda, a agonia existencial; a terceira, a confiança na ciência como a grande libertadora. È dessas três dádivas que se faz o melhor da consciência do nosso tempo. E, por isso, homens como Miguel Ângelo, Shakespeare e Galileu, com as suas demissões trágicas ou irónicas, continuam, no meio de nós, tão poderosamente vivos. Se eles o não estivessem, seria porque nós o não estávamos. A grandeza humana tem destas contradições: são exemplos de dignidade extrema, um artista que descreu da sua arte, outro que reduziu o mundo às dimensões da que era a sua, e um sábio que se renegou. E, no entanto, um ensina-nos que a arte é válida, outro prova-nos que o mundo dos homens é imenso, e o último aponta-nos que, como dizia um dos seus grandes continuadores em nosso tempo, o físico Max Planck: "Uma verdade não triunfa nunca, mas os seus adversários acabam por morrer".
 

 

* In: Maquiavel, Marx e outros estudos. Lisboa, Cotovia, 1991, p. 47-58