Um guia de Lisboa pela mão de Jorge de Sena

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cartaz do colóquio Jorge de Sena Vinte Anos Depois

Que Jorge de Sena foi grande viajor todos sabemos. Que muito escreveu sobre os lugares que visitou, também. Mas, dando início ao mapeamento de suas muitas andanças pelos vários continentes, optamos por selecionar um texto sobre a cidade em que nasceu — que, como se poderá constatar, bem conhecia e amava.

 

 

 

“Este sucinto e muito admirável guia cultural e sentimental de Lisboa escreveu-o Jorge de Sena em Santa Bárbara, Califórnia, em 13 de Novembro de 1970. Faz parte de uma carta “pedagógica” sobre a cidade, enviada pelo grande camonista ao seu amigo e dilecto ex-aluno Joaquim-Francisco Coelho, àquela altura recém chegado a Lisboa (…). O guia, tal como a restante correspondência entre os dois amigos, conservou-se até hoje totalmente inédito, e aqui vai divulgado com a permissão de Joaquim-Francisco Coelho, no espírito das comemorações a Jorge de Sena, lisboeta de nascimento, nos vinte anos da sua morte.” [*]

 

Vejo que tem passeado Lisboa como eu a passeei desde que tive licença para passear sózinho: pela noite dentro, perdendo-me por quelhas e becos, andando-a a pé ouvindo os meus próprios passos ecoar no silêncio da noite. Não sei se o Almeida Faria terá mais que um conhecimento “popular” de Alfama, e lhe terá chamado a atenção para as muralhas que, perdidas dentro do casario, viram o cerco de 1383 para a rua da Judiaria, para os velhos palácios decadentes, tudo o que está desde o castelo (que deve visitar) até à Casa dos Bicos que foi dos Albuquerques. Alfama deve ver-se de dia, primeiro do Miradouro de Santa Luzia, que a tem aos pés, e depois descendo por ela dentro (S. Miguel de Alfama), e de noite, não tanto pelas falsas casas de fado para turistas. Estando naquele Miradouro, terá a seu lado o Limoeiro, prisão hoje, mas cujas fundações, para o lado do rio visíveis, são as do palácio real onde João I matou o Andeiro (ainda um arco está num cunhal, quando V. sobe a rua). Deve por aí ver a Sé, e os seus claustros e túmulos (uma capela especial é a dos Pachecos, e o túmulo mais belo é o do pai do Diogo Lopes Pacheco, um dos grandes homens ibéricos, depois de ter ajudado a matar a Dona Inês). E a igreja de Santo António, construída sobre o lugar onde nasceu esse ilustre Bulhões da família de Godefroy de Bouillon da Primeira Cruzada – a cripta é o lugar. Mais para cima e para o lado da Graça, passa V. pela Lisboa velha dos palácios senhoriais, e na Graça tem a igrejinha de S. Gens contemporânea da tomada de Lisboa aos mouros, e a Graça com o túmulo de Afonso de Albuquerque. Passará por S. Vicente de Fora, igreja do fim do século XVI (do maneirismo neo-clássico, e por isso parece haver séculos entre ela e os Jerónimos), panteão dos Braganças, como antes lhe disse. Vindo da Graça para o Rossio o Teatro Nacional está construído ou a ser reconstruído onde estava: sobre os cárceres da Inquisição, já que era ali o palácio dela. Em S. Domingos que ardeu há poucos anos, e que havia sido reconstruída pelo pai do Alexandre Herculano, Fr. Luis de Granada está sepultado na entrada do corredor da sacristia. Ao lado, tem V. o palácio dos Almadas, de onde saiu a revolução de 1640, e, acima, o Hospital de São José, construído sobre as ruínas do Colégio de Santo Antão, o primeiro que os jesuítas tiveram no mundo – a capela do hospital é a sacristia da antiga igreja e um dos mais perfeitos modelos do neo-clássico do fim do século XVI. Por aí ao pé, tem V. a igreja de Sant’Ana, onde ainda estará sepultado o Camões debaixo do chão – já que os ossos dos Jerónimos são hipotéticos (o túmulo dele e do Gama, cujos ossos não são hipotéticos, são do falso manuelino século XIX, o português “gothic revival” vitoriano, como a Estação do Rossio, onde se diz que o arquitecto deixou a assinatura nas portas em ferradura…). A ala direita do Terreiro do Paço, quando V. se volta para o rio, está construída sobre as ruínas do Palácio Real de D. Manuel, e, na rua da Alfândega para o outro lado tem V. uma fachada manuelina esplêndida, a Conceição Velha, tudo o que resta da igreja destruida pelo terramoto famoso (é a porta lateral da igreja desaparecida). Indo ao Museu das Janelas Verdes, aonde cumprimentará o Bosch da Tentação, e algumas pinturas de primeira, não muitas, estará V. no palácio que o Pombal comprou ao Matias Aires, paulista da Vaidade dos Homens. Aos Jerónimos e à Torre de Belém por certo já V. foi. Quanto a sepulturas ou túmulos de escritores, a mais dos que estão nos Jerónimos, toda a gente, desde o século XVIII, com raras excepções, está em dois cemitérios: o dos Prazeres, ou o do Alto de S. João – é onde o Pessoa e o Eça estão, em jazigos de família sem relevo algum. Não sei de repente dizer-lhe aonde cada um deles está, mas é em um desses cemitérios. Não deixe de ver a Igreja da Estrela, uma jóia do rococó comedido, aonde jaz a D. Maria I, e, descendo da Ajuda para Belém a igreja da Memória, construída aonde foi atentado contra D. José. Em Belém, as casas para a esquerda-lado-abaixo, e esquerda-lado/à frente, são, estas, do século XVII, as outras estão onde era o lugar da execução (ou do palácio) dos Távoras (lembrado por uma coluna atrás das casas). É interessante ver o Carmo, a igreja do Nun’Álvares, onde há peças arqueológicas de muito interesse, e o Bairro Alto, cheio de palácios do século XVII XVIII (e que foi o glorioso centro da prostituição lisboeta para os pobres e a classe média). Diz-me V. que já foi a Alcobaça, Tomar, Santarém, Óbidos, Nazaré – esqueceu-se de escrever Batalha, ou não foi lá? Shame, shame on you. Acrescente depois: Leiria, Évora, Coimbra, Porto, Viseu, o vale do Douro (por onde pode passar na Ilustre Casa de Ramires), e o Algarve (Sagres deve ser visto, pela imponência natural e lendária). Se fosse mais ao Norte: Barcelos, Guimarães, Braga, Viana – o outro Portugal.

 

[*] Texto inédito distribuído durante o colóquio “Jorge de Sena, vinte anos depois”, promovido pela Câmara Municipal de Lisboa em outubro de 1998, e depois reproduzido nas atas (Ed. Cosmos/CML, 2001, p. 173-4)