1919-1959: Portugal

Raquel Menezes e Gilda Santos
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1919, 2 de novembro: nasce em Lisboa Jorge Cândido de Sena, filho único de Augusto Raposo de Sena, comandante da Marinha Mercante, natural de Ponta Delgada (Ilha de S. Miguel, Açores), e de Maria da Luz Telles Grilo, natural da Covilhã.

1922 Com três anos de idade, começa a ler.

1923 Escreve as primeiras letras num bilhete para o pai.

1926 Entra para o Colégio Vasco da Gama (Lisboa), que frequenta até o 3º ano liceal.

1929 Inicia o estudo de piano, que se estende por cerca de seis anos.

1932 Transfere-se para o Liceu de Camões, onde será aluno de Rômulo de Carvalho (o poeta António Gedeão).

1933 O pai sofre um acidente a bordo que o leva à amputação de uma perna, sendo obrigado a retirar-se da Companhia Nacional de Navegação depois de mais de 40 anos de serviço, e a família passa a viver da parca mensalidade que lhe é concedida.

1935 Férias de verão na Figueira da Foz, em casa de seu tio Jaime Teles Grilo.

1936 Com 16 anos, conclui o Liceu (julho) e faz os preparatórios (outubro) para a Escola Naval, na Escola Politécnica (Faculdade de Ciências). Sob o impacto de ouvir “La Cathédrale Engloutie”, de Debussy, inicia a sua carreira de poeta. A 11 de junho, escreve “Desengano”, o seu poema mais antigo de que há registro. Escreve a narrativa histórica, inacabada, “Século XII (D. Fuas Roupinho)”.

1937 A 7 de setembro escreve o conto “Paraíso Perdido” (Génesis). A 15 de setembro, ingressa na Escola Naval com as mais altas classificações. Como Chefe do “Curso do Condestável” embarca a 1º de outubro para a viagem de instrução e adaptação no navio-escola “Sagres”, que dura até fevereiro de 1938. Visita Cabo Verde, Brasil (Santos e São Paulo), Angola (Lobito e Luanda), São Tomé, Senegal (Dakar) e Canárias (La Luz, Grã-Canária) – lugares assinalados em sua obra.

1938 A 14 de março é excluído da Marinha de Guerra. De 28 de março até ao fim do ano escreve 256 poemas e, no ano seguinte, 168. Começa a transcrever a sua produção literária para uns cadernos escolares com o título de “Obras”, dividida em “Volumes”. Em abril, escreve o conto “Caim” (Génesis). Em maio, escreve a comédia em 1 ato, Luto. Em junho, começa o romance inacabado A personagem total, cuja escrita só foi suspensa em 1940. Verão na Figueira da Foz. Em setembro, compõe um lied inspirado no poema “Pobre velha música”, de Fernando Pessoa. Em outubro, inicia os preparatórios para Engenharia Civil na Faculdade de Ciências de Lisboa, onde conhece José Blanc de Portugal, de quem será grande amigo.

1939 Sob o pseudônimo Teles de Abreu, estreia no “quinzenário universitário” Movimento, com o poema “Nevoeiro” (no n°1, de março) e o ensaio “Em prol da poesia chamada moderna” (no n° 2), graças a José Blanc de Portugal.

1940 Colabora no último número da presença, com uma carta sobre o poema “Apostilha”, de Fernando Pessoa. Conhece Adolfo Casais Monteiro, que se tornará seu grande amigo e compadre. Participa nas reuniões do grupo fundador (Tomaz Kim, Ruy Cinatti, José Blanc de Portugal) dos Cadernos de Poesia, onde colabora, ainda sob pseudônimo, no fascículo 2, vindo a organizar o fascículo 5. Inicia o curso de Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia do Porto. Vive em quartos alugados, com permanentes dificuldades financeiras e de saúde. A 7 de dezembro, conhece Maria Mécia de Freitas Lopes (Leça), filha do compositor e folclorista Armando Leça, num baile de calouros da Faculdade de Farmácia do Porto.

1941 Assina pela primeira vez como Jorge de Sena (seguido ainda do pseudônimo entre parêntesis) os poemas que publica no fascículo 4 dos Cadernos de Poesia. Durante as férias de verão, faz um estágio de Topografia na zona de Lisboa. Em 20 de dezembro, profere sua primeira conferência, “Rimbaud ou o dogma da trindade poética”, na Juventude Universitária Católica (Lisboa), a convite de Ruy Cinatti.

1942 Em maio sai a sua primeira crítica literária, sobre Poemas de África, de António Navarro, no n° 1 da revista Aventura, de que é redator nos dois primeiros números. No nº 2, publica aquela sua primeira conferência, integrando a separata “Homenagem a Rimbaud” que contará com mais colaboradores. Em junho/julho, publica Perseguição, primeiro livro de poesia, editado sob a égide dos Cadernos de Poesia, pago por Ruy Cinatti e Tomaz Kim, e impresso na tipografia Atlântida, de Coimbra, graças ao papel ofertado por João Alves Gomes dos Santos. Em setembro, frequenta o 1° ciclo do Curso de Oficiais Milicianos, em Penafiel. Interrompe os estudos devido ao agravamento do seu estado de saúde, ficando em Lisboa no período letivo de 1942/43.

1943 A 11 de fevereiro começa a colaborar no Diário Popular, como crítico literário. Frequenta o 2° ciclo do Curso de Oficiais Milicianos. Regressa à Faculdade de Engenharia do Porto.

1944 Em janeiro morre-lhe o pai e, em fevereiro, sua avó materna – grande apoio de sua infância e juventude. Em março, publica traduções de poemas de Paul Verlaine no Primeiro de Janeiro. Em setembro, publica n´O Globo uma página dedicada à poesia surrealista: apresentação e tradução de poemas de André Breton, Paul Éluad, Georges Hugnet e Benjamim Péret. Figura na antologia de Cecília Meireles, Poetas novos de Portugal. Faz o último exame da Licenciatura em Engenharia Civil e conclui o curso, graças à ajuda financeira de Ruy Cinatti e José Blanc de Portugal e ao apoio de José Osório de Oliveira, que lhe faz um adiantamento sobre futuras publicações na Portugália Editora. Começa a tragédia em verso O Indesejado.

1945 Cumpre o serviço militar no Batalhão de Engenharia 2, em Lisboa. Em maio, participa numa operação de transporte de tropas para os Açores, que lhe permite conhecer S. Miguel, ilha natal de seu pai. Em outubro, ainda oficial miliciano do Exército, subscreve listas públicas exigindo eleições livres. Não é deportado para a prisão do Tarrafal (Cabo Verde) por intervenção direta, junto a Salazar, de Ribeiro Couto – poeta e diplomata brasileiro. Em novembro termina O Indesejado.

1946 No começo do ano, é licenciado do serviço militar. A 28 de janeiro, no Clube Fenianos Portuenses, tem grande êxito a sua conferência “Florbela Espanca ou a expressão do feminino na poesia portuguesa”. Em fevereiro, graças à intermediação de Ribeiro Couto, sai seu segundo livro de poesia, Coroa da Terra (Lello, Porto). Em maio, começa a colaborar no Mundo Literário. Em dezembro conclui o estágio do curso de Engenharia, na Barragem de Vale do Gaio. A 12 de dezembro, faz a conferência “Fernando Pessoa, indisciplinador de almas”, no Ateneu Comercial do Porto, tendo Manuela Porto como declamadora. Saem as Páginas de doutrina estética, de Fernando Pessoa, com seleção, prefácio e notas de sua responsabilidade.

1947 É publicada sua conferência sobre Florbela. Obtém a Carta de Engenheiro e trabalha para a Câmara Municipal de Lisboa e a Direção Geral dos Serviços de Urbanização (Monumentos Nacionais) do Ministério de Obras Públicas. Inscreve-se na Ordem dos Engenheiros (sócio n°2496). Em março, estreia como crítico de teatro na Seara Nova e faz a palestra inaugural do Círculo de Cinema na Sociedade Nacional de Belas-Artes.

1948 A 12 de junho, profere, no Clube Fenianos Portuenses, a primeira de muitas conferências sobre Camões: “A poesia de Camões – ensaio de revelação da dialéctica camoneana”. Entre 24 de junho e 16 de setembro adapta treze textos ao teatro radiofônico, para o programa de António Pedro, “Romance policial”, no Rádio Clube Português, de Lisboa. Em novembro, entra para a Junta Autônoma de Estradas (JAE), onde permanece até 1959.

1949 A 12 de março casa com Maria Mécia de Freitas Lopes. Em maio, começa a publicar O Indesejado na revista Portvcale. Em julho, começa a comentar filmes nas “Terças-feiras Clássicas”, organizadas pelo Jardim Universitário de Bela Artes (JUBA) no cinema Tivoli, até 1955. A 10 de dezembro, nasce no Porto Izabel Maria, a primeira filha, que terá Ruy Cinatti como padrinho.

1950 Publica Pedra Filosofal, seu terceiro livro de poesia. A 22 de novembro, nasce no Porto o segundo filho, Pedro Augusto, afilhado de Óscar Lopes.

1951 Co-dirige o IX Congresso Internacional da Estrada, cuja excursão final o leva à Madeira, a 5 de outubro. Co-dirige a 2ª série dos Cadernos de Poesia, redigindo o texto-manifesto de abertura “A Poesia é só uma”. A 7 de junho, faz conferência sobre o “Conceito de Poesia”, no Ateneu Comercial do Porto. Sai em volume O Indesejado (António, Rei), e A Poesia de Camões (Ensaio de Revelação da Dialética Camoniana). A 9 de dezembro, nasce no Porto Maria Joana, afilhada de Adolfo Casais Monteiro.

1952 Co-dirige a 3ª série dos Cadernos de Poesia. Começa a traduzir poemas ingleses de Pessoa. Em outubro, vai pela primeira vez à Inglaterra para estágio na firma de engenharia civil Blackwood Hodge. De 17 de outubro a 28 de novembro lê na BBC uma série de seis crônicas intituladas “Cartas de Londres”. Projeto de mudança para Angola, como engenheiro civil, que não chega a se concretizar. Na revista Tricórnio publica “Ulisseia Adúltera – farsa em 1 acto”.

1953 Em fevereiro é transferido para o Serviço de Pontes da JAE e logo integra a “Comissão para o Estudo das Ligações Rodoviárias e Ferroviárias entre Lisboa e a Margem Sul do Tejo”. A 16 de maio nasce, no Porto, sua filha Maria Manuela, afilhada de Alberto de Lacerda. A 22 de maio, conferência sobre literatura e cultura inglesas no Instituto Britânico do Porto. No Comércio do Porto, de 9 de junho, publica o primeiro texto português sobre o poeta grego Constantino Cavafy, seguido de 5 poemas traduzidos. Publicação, pela JAE, de Algumas Considerações sobre Estatísticas de Trânsito.

1954 Em janeiro, muda-se para o bairro de casas econômicas do Restelo. Em abril viaja à Galiza. A 25 de novembro, em Lisboa, no Restaurante Irmãos Unidos, profere conferência sobre Orpheu, por ocasião do descerramento do quadro “Fernando Pessoa”, de Almada Negreiros. Saem Alguns dos “35 Sonetos” de Fernando Pessoa (São Paulo), em colaboração com Adolfo Casais Monteiro.

1955 Publica o livro As Evidências: Poema em Vinte e Um Sonetos, distribuído em fevereiro, depois de ter sido apreendido pela PIDE, sob acusação de “subversivo” e “pornográfico”. Torna-se “consultor literário” da Editora Livros do Brasil. Publica em fevereiro, na Tetracórnio, o ensaio “Tentativa de um panorama coordenado da Literatura Portuguesa de 1901 a 1950”. Em setembro, viagem à Espanha (Badajoz, Mérida, Córdoba, Granada, Málaga e Sevilha).

1956 A 25 de abril, conferência sobre Manuel Bandeira no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa. É um dos sócios-fundadores da Sociedade Portuguesa de Escritores e, temporariamente, consultor literário da editora Portugália. Mécia de Sena conclui a Licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A 19 de dezembro, nasce em Lisboa sua filha Mariana, afilhada de José Blanc de Portugal.

1957 Sai a tradução de Porgy e Bess, de DuBose Heyward. Em setembro, viaja pela segunda vez à Inglaterra, para novo estágio na área de engenharia. Conhece em Londres Manuel Bandeira. Visita a França e a Bélgica. Traduz Long Day´s Journey into Night, de Eugene O´Neill, para o Teatro Experimental do Porto, com encenação de António Pedro. A 12 de dezembro, em Lisboa, nasce seu sexto filho, Paulo Jorge, batizado pelo Pe. Manuel Antunes, afilhado do casal Fernando Pereira Basto. Ainda em dezembro falece a mãe de Mécia de Sena.

1958 A 15 de janeiro, nova conferência sobre literatura e cultura inglesas no Instituto Britânico do Porto. Colabora na Gazeta Musical e de Todas as Artes, incumbindo-se principalmente da crítica teatral. Em novembro publica Fidelidade, seu quinto livro de poesia, e a antologia Líricas Portuguesas – 3ª série.

1959 Em 11/12 de março participa do frustrado “Golpe da Sé” (seria Ministro das Obras Públicas num almejado governo provisório). Em abril, sai Da poesia portuguesa, seu primeiro livro de ensaios. A 4 de maio, em Lisboa, nasce o sétimo filho, Vasco Manuel (nome em homenagem aos sacerdotes Vasco Miranda e Manuel Antunes, dois grandes amigos da família Sena), afilhado de Francisco de Nascimento Ferreira e Dora Maria da Silva Setao Ferreira. A 27 de junho, começa a colaborar no jornal Estado de S. Paulo.

 

Dados cronológicos ordenados a partir de:
Jorge Fazenda Lourenço, Cronologia de Jorge de Sena, in:—, ed. Jorge de Sena – Antologia Poética. Lisboa, Guimarães, 2010. p. 308-321.

Jorge Fazenda Lourenço & Mécia de Sena, org. Jorge de Sena – a voz e as imagens. Lisboa, IEP/UNL, 2000. (fotobiografia)

Mécia de Sena & Isabel M. de Sena, Jorge de Sena: bio-bibliografia, in: Quaderni Portoghesi 13-14. Pisa, Giardini, 1977 p. 13-22.