Puigmal

Ivone Costa

Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal já era célebre, quando, por fusão de duas turmas, passou a ser meu colega no 6° ano dos liceus. É assim que começa Sinais de Fogo de Jorge de Sena, dando entrada a uma personagem que, não obstante ser secundária, ganha um estatuto de centralidade nas duas primeiras páginas do romance, empurrando, aí, para um segundo plano o narrador auto-diegético cujo nome só conheceremos mais tarde na obra.

Se pelos primeiros parágrafos um livro ganha ou perde os seus leitores, o extraordinário descendente dos condes de Barcelona joga e ganha. Fabulosa figura de insolentes frases e actividades alegadamente científicas que visam comunicar com as almas penadas, fotografar a alma dos gafanhotos no seu trânsito final e a manufactura de uma pomada que confira a hímen uma elasticidade perene e impeça a sua ruptura, Puigmal é personagem fundamental no tom teatral e mimético que o narrador imprime ao início do romance, quando aquele tenta convencer o professor de Filosofia, um pobre diabo de intelecto amachucado, da existência de alma em todos os seres vivos.

— Quais regras da ciência? – E ele, entreabrindo os lábios finos que nunca se sabia quando sorriam ou se apertavam de contrariedade, respondeu: — A observação e a experimentação. — Ah, muito bem, e como foi que o senhor observou e experimentou a alma dos animais? — Como, senhor doutor? Pessoalmente –. E foi uma gargalhada geral. Ficou imperturbável. — Pessoalmente? – repetiu o professor. — Sim senhor. Fotografando a morte de um gafanhoto – Nova gargalhada. — Um gafanhoto? E o que deu a fotografia? – continuou o professor como que desperto da sua sonolência costumeira. — A fotografia, senhor doutor, foi tirada por um irmão meu, enquanto eu matava o gafanhoto. Mas de modo que se visse a alma passar. E, nela, vê-se nitidamente a alma subindo ao céu. – (…) — Essa é boa, snr. Puigmal, essa é muito boa. Subindo ao céu? Ah, ah, ah. E como subia ela? — Em espiral, snr. Doutor –

A construção do diálogo faz lembrar a maiêutica socrática, exposta por Platão no Teeteto, só que aqui, por força do carácter quase burlesco de que os dois interlocutores se revestem, não é revelada a verdade mas apenas a imensa pesporrência de Puigmal. É também com ele que entram no texto as referências às tensões que antecedem a Guerra Civil espanhola, embora essa alusão surja nimbada de humor porquanto é feita quando Puigmal conta o seu encontro com os separatistas catalães, separatismo em que ele, Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal, único descendente dos condes de Barcelona, está naturalmente interessado.

Sinais de Fogo, para mim um dos grandes romances do séc XX português, tem uma miríade de motivos para convocar novas leituras e novos leitores. Puigmal é a mais divertida de todas.

02/01/2013

* in http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/5104425.html