17. Jorge de Sena e Maria Gabriela Llansol: as novas andanças do fulgor

Maria de Lourdes Soares
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Textualizando, um elo prende-se, até que um outro peregrino o acrescenta.
Maria Gabriela Llansol (LL1, p. 39)[1]

Começo invocando a estância 1 de O começo de um livro é precioso [2], livro recém-publicado de Maria Gabriela Llansol, para que a decisão da intimidade se pronuncie. Mantendo o começo e prosseguindo, tomo nas mãos o fio do último verso-linha, que se estende em confiança, crédito e, por fim, tecido (CPL, 1), acentuando, com Barthes (1977, p. 83), a idéia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo. Sabendo da potência de algumas famílias semânticas, que formam tufos no dicionário (.fp, p. 143), atento aos possíveis matizes e desdobramentos: Confiança: crédito, fé. Fiar (1): reduzir a fio, urdir, trançar; (2): entregar sob confiança, confiar à fé de alguém. Fiel (1): que cumpre aquilo a que se obriga, leal; (2) fio de metal posto a prumo, no centro da balança.

Este começo conduz-me à primeira notação de Um falcão no punho, outro não menos precioso começo: “a morte possível de Jorge Anés na fogueira é um fio que tem um colorido luminoso e sereno, e afia pausadamente a minha língua” (fp, p. 8)i Abre-se a paleta das cores. Jorge de Sena, ou melhor, “Jorge Anés, no livro” (FP, p. 128), mestre em provar os metais, é um “fio” de “colorido luminoso e sereno” que afia, nos dois sentidos, a língua da rapariga do fulgor: dá-lhe gume e perfeição. E o fiel da balança que apruma a língua da rapariga que temia a impostura e que, em Um beijo dado mais tarde, vivia numa casa em que “não se administrava bem a Justiça da língua” (BDT, p. 7). “Pausadamente”, com a serenidade de quem percebeu que “a escrita e o medo são incompatíveis” (FP, p. 13) e aprendeu que a têmpera sucede à prova do fogo.

Fio __ linha, confiança, crédito, tecido. Em suma, a trama de uma linhagem que se torna audível e visível quando a decisão da intimidade se pronuncia.
Sobre a identificação de uma linhagem nos seus textos, Llansol afirma que, através de determinadas atividades de leitura, alguns fios soterrados são trazidos à luz, e ‘esclarecem-se’ fragmentos de escrita comum, ganhando visibilidade o lugar da alma crescendo (EL, p. 3). No encontro entre o texto de Sena e o de Llansol, interessa-me acompanhar esse vir à luz de alguns fios que se esclarecem mutuamente. O texto de Sena fascina a autora porque é um texto que pensa. A sua natureza é a da pergunta que continua posta. Por isso, o autor de Metamorfoses integra a linhagem dos autores que pertencem ao tronco de uma mesma vibração, têm a mesma espiral luminosa interior […], como uma coluna de fogo que se interroga e procura o seu anel (EL, p. 3).

O anel é um dos princípios enunciativos através dos quais as figuras ou cenas fidgor tomam corpo na escrita llansoliana: a idéia de crescimento (devir) está ligada à idéia de não perder o anel — entenda-se, o contrato fiduciãrio, a aliança, a linhagem (Mourão, 1997, p. 84). Ao responder àpergunta de Sena, Llansol vê-o como uma coluna de fogo anelante, percebendo também a insanável ferida que liga a sua figura à de Camões:

Lembrava-me de Jorge de Sena que é Jorge Anés, no livro. Continuei pensando que o vira como ele desejara ter vivido. Havia nele. uma bala, ou estilhaço, provinda de outros combates (quem sabe se da Campanha do Norte de África — Ceuta, 1549) que nunca ninguém conseguira extrair-lhe. (FP, p. 128)

É possível ler nesta sobreposição de combates a seniana dor de haver nascido em Portugal / sem mais remédio que trazê-lo n’alma (Sena, 1988, p. 117) e o destempero camoniano por vir cantar a gente surda e endurecida (Lus., x, 145). Talvez por essa, e por outras razões, Llansol decida crismá-lo [3] (confirmá-lo na fé), invertendo-lhe as letras do sobrenome, como procede com o de Pessoa (Aossê), mas conservando-lhe o nome, como faz com o de Luís de Camões (Luís Comuns), o interlocutor privilegiado de Sena, a quem se dirigiu como a um seu contemporâneo, um poeta vivo, de tal modo que falou através dele e por ele “aos seus contemporâneos”(Lourenço, 1988, p. 66). É possível ainda relacionar esta inversão ao demoníaco, inconfundível marca das andanças textuais senianas, na poesia e na prosa, como apontamos em estudo anterior (Soares, 1994, p. 92). Examinando a questão, Cristina Paes associa Anés a elos, anéis que a mão escriturante necessita portar, até para encetar suas próprias metamorfoses escriturais (Santos, 2001, p. 109), retomando, de certa maneira, o que Gilda Santos já apontara:

o anagrama ANÉS, ao alterar a tonicidade do nome original, não estará buscando fone-ticamente a associação com anéis? Anéis são elos, liames — aquilo que pode relacionar objetos ou pessoas. Mas anéis são também objetos de adorno — dedos que, com coreografia própria, produzem a escrita. Uma escrita talvez crivada de ligações, como aquelas que fazem ecoar Sena em Llansol (Santos, 1994, p. 105)

Meus passos deixam sinais, escreve Sena num poema (sena, 1988, p. 139). Fogo e língua são justamente os sinais mais evidentes da passagem de Jorge Sena na obra de Llansol. Ainda na primeira notação de Um falcão no punho, na seqüência de um duplo nascimento — nascimento de Jorge Anés e de Luís Comuns a partir das pombas que revoam na Praça Luís de Camões — segue-se a formulação de um desejo da narradora — a libertação de poder escrever e imprimir eu própria —, libertação que anuncia um outro nascimento — o de eu-em-texto, trazendo à fala o fio de água de si (RV, p. 112): Dobra a tua língua, articula. I Dobra a tua língua, articula (FP, p. 8). Fazer soar a língua: travessia, duplo esforço. Dobrar: contornar o obstáculo do nome próprio, o duplo ele (nome de letra) de Llansol, sobrenome privilegiado na assinatura autoral, e que soa estranho à língua portuguesa. Dobrar: ir além dos mares já navegados, acolhendo ativamente a herança da língua já trabalhada, mas amplificando-a, acrescentando o seu próprio legado, conforme a lição de Sena e de Camões.

Uma cena similar de nascimentos encontra-se em Causa amante, livro inicialmente intitulado O nascimento de Ana de Peñalosa, e que foi escrito quase na mesma época que Um falcão no punho. É em Causa amante que, significativamente, surgem pela primeira vez as figuras de Jorge Anés, o jardim que o pensamento permite e a rapariga que temia a impostura da língua. No capítulo Gosto, tal como em Um falcão no punho, a narradora também manifesta o desejo de poder escrever e imprimir eu própria e de pôr livros em circulação, para que livro escrito seja livro lido. Assim, em resposta às páginas já impressas e agrupadas em cadernos, para serem lidas, recebe um texto de Jorge Anés acabado de escrever e imprimir (CA, p. 94). Vale a pena lembrar que Jorge Anés, além de destinatário e signatário, em Causa Amante, é também um dos mensageiros que passam pela mesa de escrita, em Onde vais, drama-poesia? (DP, p. 24).

Poeta que lê poeta tem cem anos de criação, sentencia, com apurado senso de justiça, Jorge Fernandes da Silveira. Apoiando-nos num enunciado-base proposto por este grande leitor de poetas, interessa-me refletir sobre o fato de a escrita de Llansol afirmar-se, tal como a de Pessoa e a de Sena, através de um duplo movimento entre práticas dialeticamente solidárias de escrita e de leitura. Em suma, revelam-se prodigiosos Leitores-Autores ou Autores-Leitores de caráter exemplar (Silveira, 1988, p. 68-69).

Em suas peregrinações, Jorge de Sena, como se sabe, foi um grande visitador de textos alheios, notadamente o de Camões, seu gêmeo textual, de acordo com o olhar percuciente de Llansol. Como quem prevê um idêntico destino de leitura para seus textos, Sena escreveu: Na peregrinação que é a nossa vida, muito mais somos visitados do que visitamos (Sena, 1988, p. 26). Em Causa amante, confirmando o duplo movimento entre práticas solidárias, também Jorge Anés, perseguido pela Inquisição, encontra a protecção dos livros da comunidade de beguinas (CA, p. 94-95), pois, como se lê em Um falcão no punho, o seio de um livro ninguém o pode dominar ou destruir, nem eliminar por crueldade ou cobiça (FP, p. 109).

Com a sua escrita sempre inteligente e intrépida, Jorge Anés visita a narradora de Causa amante, que passa o dia a tatuá-lo, ou a escrever nele. Tatuar. inscrever sobre o corpo, crismar. Crismar, confirmar na fé. Recorto um trecho que se encontra no início de E ou “Era impossível que o fogo ardesse”‘, eu acumulo aponta-ynentos sobre apontamentos com respeito ao auto-defé de Jorge Anés (CA, p. 97). Não se espere aí a reconstituição dos acontecimentos, biográfica e historicamente falando. Não a Inquisição da História, mas a inquirição da língua – esta a cena que interessa à escrita llansoliana: sofrer o fogo é uma experiência só audível aos que ainda falavam com a língua; aqueles que devem morrerpara que a língua viva, devem ressuscitar entre si (CA, p. 102). Em suma, na lição que esse acto/auto-de-fé ensina repercute uma das inúmeras perguntas de Um beijo dado mais tarde: Como se passa de uma vida humana a um livro que se leia por entre nós? (BDT, p. 26).

Tatuar, acumular apontamentos sobre apontamentos, são gestos que participam da decisão da intimidade (CLP, 1) — a proximidade-sobreposição (IQC, p. 25) ou sobreimpressão textual (LC, p. 21), tão cara a Llansol. Assim, no capítulo Movimento, o final de Super Flumina Babylonis (Sena, 1983, p. 166), um dos mais belos contos senianos, participa da topografia textual que acumula texto sobre texto no montante da escrita:

Sobre os rios que vão por Babylónia me achei onde sentado chorei as lembranças de Sião e quanto nela passei…

E ficou escrevendo pela noite adiante… (CA, p. 88)

Fluir de rios sobre rios, poderosa corrente textual que reúne águas de várias nascentes: o salmo bíblico, as redondilhas camonianas, o conto de Sena, o fragmento de Llansol… Olhar no olhar do olhar sem fim (IQC, p. 25) ou, dizendo com Barthes (1977, p. 49), é bem isto o intertexto: a impossibilidade de viver fora do texto infinito. Mas, como diferentes são os modos de sentar à beira desse rio, na passagem pela água de escrita (F, 188) de Llansol, cujo projecto delineia os contornos de uma ucronia eudemonista, como propõe João Barrento (2003, p. 9), o choro de exílio já se converteu em jubiloso canto.

Ainda no capítulo E ou “Era impossível que o fogo ardesse”, Jorge Anés, sem lume que o aqueça — só que o queime, senta-se no mesmo banco que Comuns. Postos a conviver no jardim que o pensamento permite, ambos perdem-se mutuamente no ritmo e no sentido das palavras. Quando só uma voz percute, perguntando: o que [é] a língua? (a tentação deste jardim?), um responde ao outro: era impossível que o fogo ardesse. Jorge Anés senta-se também ao lado da narradora, sobre a pedra que ela escolhera para esse encontro (alusão à seniana pedra filosofal?). Durante uma visita, fala-lhe dos textos que escrevera (tinha escrito sobre a matéria que se inflama que, quando se apaga, gasta o fogo) e da procura da língua, dizendo-lhe que o caminho era longo, mas que tivesse esperança, pois maior que [eles] / era a língua / que [os] esperava (CA, p. 98-101).

Sobre as posições do corp’a’screver (LC, p. 10), impossível não lembrar de Os trabalhos e os dias, primeira súmula da concepção seniana da poesia como um testemunho de linguagem (Lourenço, 1998, p. 41). Sentado à mesa, como se a mesa fosse o mundo inteiro, principia o poeta a escrever, como se escrever fosse respirar / o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem l de um caminho sem nada para o regresso da vida. E a poesia vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre, / quando eu fico triste por serem as palavras já ditas / estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos (Sena, 1985, p. 74). Sentada à beira do rio da escrita, respirando pelo corpo com que avanç[a], encontra-se a mulher de Parasceve, entre o ruah, a respiração dispersa que sopra, e a porta aberta, o rio que corre à [sua] frente, serena e jubilosamente chamando por alguém-texto, aquele que virá e a saudará (P, p. 175-180).

Voltando a Causa amante, a variedade de Jorge Anés, poeta, contador de histórias, ser reflectido, enfim, inquiridor da língua, ficará no jardim de reflexão crescido lentamente, a conviver com as restantes presenças (CA, p. 100). E Era impossível que o fogo ardesse ali até o fim (CA, p. 99). De fato, pondo em movimento o jogo de significados proposto pelo próprio Sena para o termo infectus [4], Jorge Anés é uma peregrinatio ad loca infecta, lugar e caminho de escrita inacabado, aberto a múltiplas possibilidades de nascimentos textuais. Não por acaso, o livro em que pela primeira vez Jorge Anés nasce em texto abre-se para uma nova parte depois do capítulo “Fim”, justamente a que dá título ao livro: Causa amante. Em outras palavras, era impossível que o fogo ardesse até o fim: serenamente repousa do seu ímpeto, metamorfoseando-se (SS, p. 35).

Se a poética da metamorfose resume de forma admirável as andanças textuais senianas (Carlos, 1986, p. 18), metamorfosear é o princípio construtivo da estética do fulgor perseguida por Llansol: metamorfosear (mais tarde, direi fulgurizar) é um acto de criação (SH, p. 191). Não cabe, no âmbito deste estudo, comparar os processos metamórficos da rapariga do fulgor e do físico prodigioso, nem tampouco aprofundar afinidades e visíveis pontos de contacto entre as respectivas peregrinações, alguns dos quais aqui deixamos apenas apontados: Camões, Pessoa, Rimbaud, tradução, travessia de gêneros, alargamento da noção de intertexto, diálogo com outras linguagens.

O que eu desejo ser / ser me ensina (LL1, p. 66). Sobre o fato de Llansol se sentir próxima e efectivamente muito diferente de Sena (SH, p. 129), faz-se necessária uma menção, ainda que forçosamente breve, a O Senhor de Herbais, provocador livro cuja primeira de suas duas partes se organiza sobretudo a partir de duas leituras fundamentais: Le Bateau Ivre, de Rimbaud, o rapaz raro (um dos autores importantes na obra de Llansol e também na de Sena [5]) e as Novas Andanças do Demônio, de Jorge de Sena, um autor raro, como Rimbaud. A referência ao barco ébrio encontra-se no Capítulo I, quando a narradora anuncia a Eusébia, sua interlocutora realista, que contará, mais adiante, a história de um comboio sereno, atacado de ebriedade pela leitura de um determinado artigo (SH, p. 30-31). Quanto ao texto de Sena, numa longa e polêmica nota do VI e último capítulo da primeira parte, em explícita interlocuçao com o não menos polêmico prefácio de Sena às Novas Andanças do Demônio, Llansol reconhece a contribuição do físico que abraçou todo um sistema, declarando as razões do apreço que sempre cultivou pelo seu labor:

Sena, para mim, faz parte dos poucos autores do século passado que tentaram ultrapassar “as tentações e os impasses” com que, em todo o Ocidente novelístico e romancista, deparou o realismo. Houve outros — Raul Brandão, Régio, Virgílio, Rubem A., Herberto Helder e o primeiro Almeida Faria (espero não estar a esquecer de nenhum, apesar de estar a hesitar sobre Carlos de Oliveira). […] De todos eles, creio que Sena foi o que mais agudamente se deu conta do ‘molho de brócolos” em que estava metido o realismo. Era, de longe, o mais viajado e, possivelmente, o mais culto de todos eles. […] Sabia que a Literatura era universal e tinha uma história de impasses acumulados e de alguns saltos resolvidos. (SH, p. 130-132)

No final desta nota, dirigindo-se diretamente ao seu interlocutor, como se ele estivesse presente ou como se de uma carta se tratasse (meu caro Sena), a autora não deixa também de apontar em que aspecto fundamentalmente dele se distancia — o contacto emotivo com a cultura portuguesa, a relação com as nossas coisas: raramente se viu na literatura portuguesa um tal fogo a espirrar enxofre sobre a quermesse lusa (SH, p. 137). Segundo Llansol, não ocorreu a Sena que ser português é, deveras, um facto mas não necessariamente um destino (SH, p. 132) [6] E assim conclui, mantendo o distanciamento crítico, sem deixar também de lhe prestar uma respeitosa homenagem: Apesar do muito que lhe devo, preferi escrever as “novas andanças do fulgor” (SH, p. 138).

Para finalizar, recorro novamente a O Começo de um livro é precioso. Fiel aos seus, na estância 306 [7] (uma das três, num total de 365, que receberam data), Llansol inclui Jorge Anés entre as espécies que cultiva no jardim abismático da sua escrita, até à luz da ressurreição (CLP, 306). Três dos nomes de escrita nela invocados – Comuns, Jorge Anés e Vergilio Ferreira [8] -, nasceram e viveram, biograficamente falando, nesta cultura seca e caótica, e amaram apaixonadamente esta língua (IQC, 183). Na língua deste país escreveram, confrontando-se com a sua gramática teimosia e devolvendo-nos, por mutações de maravilhamento, água renovada, escrita experiente / Por já ter morrido de afectos / apenas tristes (Os versos são de Llansol, na última estância do livro, CLP, 365). Quanto à homenagem a Sena/Anés, parece-nos significativo que a estância 306 de CLP traga a indicação 2 de novembro, dia de Finados no calendário religioso e dia do nascimento de Jorge de Sena, segundo a sua biografia e também à luz da ressurreição do texto, fazendo ecoar o já referido trecho de Causa amante: aqueles que devem morrer para que a língua viva, devem ressuscitar entre si (CA, p. 102). Porque ler/escrever é trazer à luz, ressuscitar, cobrir de eternidade, o outro nome do amor que não se esvai (Sena, 1985, p. 74).
Notas:

1. Obras de Maria Gabriela Llansol referidas e siglas usadas para as citar: O livro das Comunidades (LC), Causa Amante (CA); Um Falcão no Punho (FP); Finita (F); Da sebe ao ser (SS); Um beijo dado mais tarde (BDT); Lisboaleipzig 1 (LL1); Inquérito à quatro confidências (IQC); Onde Vais, Drama-poesia? (DP); A Restante Vida (RV); Parasceve (P); O Senhor de Herbais (SH); No espaço Llansol (EL); O começo de um livro é precioso (CLP, sem numeração de páginas; a indicação segue a numeração das estâncias).
2. O começo de um livro éprecioso. Muitos começos são preciosíssimos. / Mas breve é o começo de um livro — mantém o começo prosseguindo. / Quando este se prolonga, o livro seguinte se inicia. / Basta esperar que a decisão da intimidade se pronuncie. / Vou chamar-lhe fio_linha, confiança, crédito, tecido.
3. Alterar os nomes de figuras conhecidas é pratica freqüente em outros romancistas contemporâneos, como Maria Velho da Costa, em Casas Pardas (1986).
4. Em latim, infectus não quer dizer o que passou a dizer em português, mas sim “inacabado”, “não-atingido”, “infactível”, “impossível” (Sena apud Lourenço, 1988, p. 86).
5. Em 1941, Jorge de Sena profere a sua primeira conferência sobre Rimbaud (O dogma da trindade poética) (Lourenço, 1985, p. 81). Sobre o diálogo do texto seniano com o desse poeta, cf. Santos, 2001, p. 353-362.
6. A palavra destino tem profundas implicações na cultura lusíada. Cf. Santos, 1997, nomeadamente a tese 11, Portugal não tem destino. Tem passado, tem presente e tem futuro, a última das Onze teses por ocasião de mais uma descoberta de Portugal, capítulo 3, p. 71, em clara interlocução com o pensamento de Eduardo Lourenço, em O labirinto da saudade. Psicanálise mítica do destino português (1991).
7. Os cultivo, fiel aos meus, no jardim abismàtico que aqui I Me trouxe—Ana e Myriam, Parménides, Prunus Triloba, / Maya, Potropato, Suso, Eckhart, Müntzer, O Pobre, Alice, / Alisubbo, João da Cruz, Ana de Peñalosa, Margarida, Isabôl, / Copérnico, Comuns, Spinoza, Coração de Urso, Bach, / Hölderlin, Nietzsche, Teresa Martin, Kierkgaard, Rilke, Pai, / Maria Adélia, Avó Maria, Jorge Anés, Mãe, Jade, Vergílio / Ferreira __ até à luz da ressurreição.
8. Faz-se necessária uma brevíssima referência a Vergílio Ferreira, com quem Llansol conviveu pessoalmente, de forma intensa, prestando-lhe, em Inquérito às quatro confidências, uma bela e comovente homenagem literária. Neste livro, a autora imagina Vergílio, nascente hesitante a polvilhar-nos de lucidez, a entrar no paraíso a escrever, conforme teria sido a sua vontade (IQC, p. 183).

 

Referências Bibliográficas:

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