50. Eu sou eu mesmo a minha pátria: sobre lugares e infância em Jorge de Sena

Sabrina Sedlmayer

O ensaio de nº 50 da série “Ler e reler JS”, traz-nos a leitura que Sabrina Sedlmayer faz do conto “Homenagem ao Papagaio Verde”, em diálogo com os poemas “Em Creta com o Minotauro” e “Ítaca”, de Cavafy


      

Há na obra do Jorge de Sena uma voz rapsódica que se recusa a cantar uma história coesa da pátria e intercepta outros lugares, além da língua, pele, sexo – índices de referencialidade tradicionalmente utilizados para fundamentar o conceito de identidade cultural – e segue rumo à construção de uma transnacionalidade que suspende e interpela as cristalizadas noções de raças e geografias.

O conto “Homenagem ao Papagaio Verde”, escrito ao longo do mês de junho de 1962, quando Sena ainda morava aqui, no Brasil, apresenta-se como uma das mais ternas e ao mesmo tempo inquietantes reflexões sobre a relação da ex-metrópole portuguesa com o Brasil e a África.  Se à primeira vista esse texto memorialístico nos conta do abusado e opressor mundo dos adultos na vida de uma criança, da amizade entre um enclausurado filho único e um exuberante animal de estimação, no gesto da leitura, outras narrativas rapidamente se cruzam, dinamizam este enunciado e nos arremessam para bem longe da casa portuguesa, rumo a uma complexa trama que se constrói num cambiante jogo memorialístico capaz de tencionar barbárie e civilização, o mesmo e o outro, alegria e nostalgia, amor e ódio, Brasil e África.

E o que une o menino narrador com outras terras é um papagaio. Ou melhor, dois papagaios: um, o papagaio verde, o brasileiro; o outro, o papagaio cinza, o africano. O primeiro é descrito como um “ser maravilhoso”, uma “ave grande”, “vistosa”, “corpulenta”, “transbordante de presunção e dignidade”; [1] o outro, o angolano, “cinzento”, de “cores baças”; sem “humor involuntário”, “retraído”, “friorento”, que “tinha apenas de simpático o olhar nostálgico, melancólico, e a mansidão muito dócil do resignado e acorrentado escravo”. [2]

Nessa altura, provavelmente Sena já havia lido Macunaíma.  Rira talvez da “Oropa”, do elogio ao plágio e do trapaceiro papagaio narrador, testemunha debochada que conta e repete os feitos do nosso herói sem nenhum caráter. Identificou-se talvez com a sátira corrosiva, e suspeitou que essa ave “sem pouso e identidade, que desconstrói a visão estagnada de cultura e desconfia das idéias fixas e dos lugares comuns”, [3] além de metaforizar a identidade brasileira, a repetição mimética, possuía, paradoxalmente, aguda afinidade e extrema diferença com o que sentia em relação a sua própria origem, a sua própria pátria.

Mas o papagaio de Sena, diferentemente do de Mário, nos fala de amizade. E em que sentido poderíamos ler uma espécie de política de amizade, para além do conceito de fraternidade, entre Portugal e Brasil subliminarmente configurado nesse conto? Até que ponto a narrativa corrobora com a conhecida identificação trágico-heróica de Sena com Portugal? Seria este conto também uma espécie de epopéia solitária e individual? Ou se alarga e é capaz de falar uma identidade coletiva?

Sabemos que de Homero a Cícero, passando por Aristóteles, depois Montaigne, a amizade sempre foi vista como uma das virtudes mais altas da humanidade, capaz de implantar, entre nós, reciprocidade e cumplicidade.  Ausente da prática filosófica graças à censura cristã, que a considerava um amor desviado por não ser dirigido a Deus, a amizade retoma ao conto de Jorge de Sena como exercício de livre arbítrio, muito diferente da imposição coercitiva da obrigatoriedade do uso da língua em que se nasce.  Mas antes de desenvolver este ponto de discórdia relacionado aos exílios voluntários, há muito trabalhado produtivamente pelos estudos senianos, gostaria de marcar algumas questões no âmbito do enunciado deste conto. Primeiro como a afinidade eletiva do menino com o papagaio brasileiro se deu, paulatinamente, através de uma aproximação corporal. A dedicada e veemente amizade, capaz de criar um ponto de fuga no neurótico romance familiar europeu é uma contraposição à casa triste e soturna. Diferentemente da criança, a ave brasileira tinha passado; conhecera mares e marinheiros. Preso ali, na varanda, era um estrangeiro, uma “nódoa insólita”, “obscenamente garrida”. [4]

Quem trouxera os dois papagaios junto a caixas de frutas, manipansos pretos, vinhos da madeira fora o pai do menino que trabalhava na Companhia de Navegação, e passava mais tempo no além-mar que no solo lisboeta. A chegada do progenitor, de três em três meses, anunciava desavenças e o fim da frágil paz doméstica. O triângulo amoroso que o menino vivia, com ares de superioridade, entre o desprezo ao papagaio africano e o carinho ao brasileiro, com a aparição do pai se desmanchava e se exasperava. O menino passava a se situar entre uma mãe doente e histérica, e um pai mítico e autoritário. Após tumultos e afrontamentos, em que tropegamente caminhava para a escola e para as aulas de piano, o papagaio verde era a saída:

 

Foi por essa altura que a nossa amizade se estabeleceu. As luas-de-mel de meus pais duravam poucos dias, pelo menos com aquela atmosfera de porta e janela fechada em pleno sol e de passos leves das criadas, durante a vigência da qual eu – esquecido, ou mais distantemente tratado, porque minha mãe, quando saia lá de dentro, andava chorosa pelos cantos e não me chamava muito – eu ficava mais livre, entretidas as criadas numa escuta maliciosa ou no “far niente” das tarefas inacabadas. Mas duravam, com efeito, pouco, e logo, quase sem transição, passavam à violência do temporal desfeito, para o que também a porta se fechava, às vezes com safanões à porta e competições pela posse da chave, e lá dentro do quarto havia gritos de ambos, frases sibiladas raivosamente, soluços e ais de minha mãe, até que, num repente, a porta abria-se para as criadas, já a postos, acudirem, com a água de flor de laranja, à minha mãe que, estendida na cama, muito pálida, soltava leves ais de mão no coração. [5]

 

A solidão acorrentada, a incapacidade de comunicar, o isolamento estudioso, tudo se resolvia no entendimento e na camaradagem de olhares cúmplices entre menino e bicho. Justamente nesse ponto, o conto e o célebre poema “Em Creta, com o minotauro”, se espelham e se iluminam reciprocamente. Este poema, escrito três anos após o conto, em 1965, bem perto de Sena partir para os Estados Unidos, é emblemático para entender a obra poética e ensaística de Sena, e é, para muitos críticos, “resultado de uma cristalização das viagens e do exílio do poeta” como também “experiência e autobiografia” [6], que, em permanente errância, após o salazarismo, colecionou “nacionalidades como camisas se despem”. [7]

“O Minotauro compreender-me-á”, diz o eu lírico do poema, [8] e é o que parece dizer o menino sobre a ave brasileira. Tal como os adultos do conto, tidos como “caprichosos”, “volúveis”, “imprevisíveis”, “ilógicos” e “hipocritamente cruéis”, [9] o Minotauro, metade boi e metade homem, é quem entende o poeta em Creta. O papagaio e o Minotauro, na assimetria da língua, da cor, da raça, dos índices de pertencimento, comungarão o necessário cotidiano:

 

Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta

de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha

de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minoutauro,

teremos nenhuma pátria. Apenas o café,

aromático e bem forte, não da Arábia ou do Brasil,

da Fedecam, ou de Angola, ou parte alguma. Mas café

contudo e que eu, com filial ternura,

verei escorrer-lhe do queixo de boi

até aos joelhos de homem que não sabe

de quem herdou, se do pai, se da mãe,

os cornos retorcidos que lhe ornam a

nobre fronte anterior a Atenas, e, quem sabe,

à Palestina, e outros lugares turísticos,

imensamente patrióticos.[10]

 

Conto e poema trafegam, assim, entre o coloquial e o lírico numa dramatização disfarçada em relatos de viagem. Como bem notou David Jackson, Peregrinatio ad loco infecta é uma “dramatização – mítica, filosófica, retórica, metafórica – de uma profunda consciência poética que questiona a verdadeira natureza das nossas crenças e instituições, em cena de viagens peripatéticas, mas politicamente necessárias, ao poeta” [11].

Jackson remete o poema a uma atualização de temas camonianos, como o exílio, o encontro com seres mitológicos do mundo das viagens, além de certo fundo barroco, contraposição de contrários, permeado por um erotismo sado-erótico (como também é marcante na relação entre o pai e a mãe do menino do conto):

 

A natureza híbrida do Minotauro – “metade boi e metade homem, como todos os homens” – funciona como metonímia com a qual o poeta exprime a sua profunda decepção “com a pouca humanidade do mundo”. Os “inimigos da vida” incluem não só as bestas que violam e devoram virgens, mas também os sábios e “toda esta merda douta que nos cobre há séculos”. O narrador rejeita a pretensa cultura literária, que serve apenas para embelezar uma “langue” e distancia-se dos heróis, todos, como Teseu, “um filho da puta”. O Minotauro substitui os homens desumanos e civiliza-se, trocando o cru para o cozido. “Aprende a tomar café e é o único ser capaz de compreender o poeta”. [12]

 

Curiosamente, em “Homenagem ao Papagaio Verde”, a expressão “filho da puta”, última frase proferida pela ave antes de morrer, encontra-se subtendida, no final da narrativa, na fala do menino, quando os adultos se unem para castigá-lo fisicamente, e ele, aos prantos, desabafa: “Ninguém é meu amigo, ninguém é meu amigo… Só o Papagaio Verde é meu amigo”:

 

A luta suspendeu-se numa gargalhada alvar, que escorria babada pelos guardanapos deles. Eu fiquei de costas, buscando com os olhos, lá em baixo, no quintal, o recanto em que jazia o Papagaio. E ouvi distintamente a sua voz aguda e clara, dominadora e viril, sarcástica e displicente, raivosa e cheia de caráter, a proclamar, num grande vôo de asas verdes, o juízo final que murmurara ao morrer. [13]

 

No final do conto, o menino demonstra que aprendeu a língua do matreiro linguajar do brasileiro papagaio. O conto poderia, assim, estar incluído no Peregrinatio ad loca infecta. Convém lembrar que esse título é uma provocadora subversão do título de outro livro Peregrinatio ad loca sancta, um guia do peregrino na Terra Santa. Para compreendermos esta peregrinação poética de Sena, fundamentada em Camões e Rimbaud, torna-se necessário lembrar que Peregrinatio ad loca infecta significa, segundo o escritor português:

 

Em latim, infectus não quer dizer o que passou a dizer em português, mas sim “inacabado”, “não atingido”, “infactível”, “impossível”. Eu deixei que a palavra sugerisse ao leitor português desprevenido o que na verdade não significa como equivalência para uma coisa mais complexa: a dificuldade de existir-se em estado de exílio (estado de que nem mesmo um regresso nos salva e recupera)[14].

Se Sena demonstra, nessa passagem, como as palavras viajam e os poetas emigram, é no desenho tortuoso de regresso a Ítaca, realizado por Ulisses, que encontramos a complexificação da errância do próprio Sena. Deve-se observar que na mesma época em que escreveu “Homenagem ao Papagaio Verde” e “Em Creta, com o Minotauro” Sena trabalhava obstinadamente com as traduções dos poemas de Cavafy, sendo que muitos deles foram lidos em saraus e reuniões de poesia em São Paulo. Conto, poema e tradução foram todos produzidos, assim, num mesmo tempo. Como agudamente pontua Jorge Lourenço:

 

A data dos poemas, em Jorge de Sena, não é um elemento ficcional e sim um radical de temporalização do poema, isto é, da sua radicação num contexto referencial associado a um vivido existencial. A datação dos poemas é um procedimento da poética seniana do testemunho, cuja ancoragem referencial tem como elemento complementar o espaço, ou o lugar (…)[15]

 

Como Goethe, Sena defende que toda poesia é circunstancial. E esta confluência, a tradução de Cavafy, o exílio, a ida para os Estados Unidos, a impossibilidade de regresso, fazem com que o poema “Ítaca”, do escritor de Alexandria, também proporcione um alargamento de sentido no Peregrinatio:

 

Quando partires de regresso a Ítaca,

deves orar por uma viagem longa,

plena de aventuras e de experiências.

Ciclopes, Lestrogónios e mais monstros,

um Poseidon irado – não os temas,

jamais encontrarás tais coisas no caminho,

se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime

teu corpo toca e o espírito te habita.

Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,

Poseidon em fúria – nunca encontrarás,

se não é na tua alma que os transportes,

ou ela os não erguer perante ti[16].

 

No exercício ambíguo da tradução, na operação da leitura da tradição grega, Sena, que, como Cavafy enxertou corpo e erotismo no cânone modernista, reitera como a viagem de regresso deve durar; que convém não se apressar para chegar à ilha. Se a peregrinação se descortina de forma trágica e é anunciada, como espécie de exortação para o vingativo Ulisses, “Ítaca deu-te essa viagem esplêndida./ Sem Ítaca, não terias partido./ Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te”[17], há no conto e no poema de Sena citados anteriormente uma crença na construção da identidade como narrativa. Não linear, não coesa, mas heteróclita, rizomática, porque o eu que diz “eu sou eu mesmo a minha pátria”[18] nunca acreditou que o eu é uma boa armadura para o sujeito; ao contrário, se deixou atravessar  por mares, monstros, lendas e bichos,  sempre em errância.

 

Bibliografia

 

CAVAFY, Constantin. 90 e mais quatro poemas. Versão Portuguesa, Prefácio, Comentários e Notas de Jorge de Sena. Coimbra: Centelha, 1986.

 

JACKSON, David K. In: Século de ouro: antologia crítica da poesia portuguesa do século XX.  SILVESTRE, Osvaldo Manuel; SERRA, Pedro (organizadores).Lisboa: Ângelus Novus, Editora e Edições Cotovia, 2002.

 

LOURENÇO, Jorge Fazenda. In: Século de ouro: antologia crítica da poesia portuguesa do século XX.  SILVESTRE, Osvaldo Manuel; SERRA, Pedro (organizadores).Lisboa: Ângelus Novus, Editora e Edições Cotovia, 2002.

 

SENA, Jorge de. In: LOURENÇO, Jorge Fazenda. Um século de poesia (1888-1988). Lisboa: A Phala, 1988.

 

SENA, Jorge de. Os grãos-capitães (contos).  Lisboa: Edições 70, 1982, pp. 25-50.

SENA, Jorge de. Poesia-III. Lisboa: Edições 70, pp. 74-5.

SOUZA, Eneida Maria de. A pedra mágica do discurso. 2 ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.


[1] SENA, 1982, p. 28.

[2] Idem.

[3] SOUZA, 1999, p. 14.

[4] SENA, 1982, p. 30.

[5] SENA, 1982, pp. 34-5.

[6] JACKSON, 2002, p.180.

[7] SENA, 1989, p. 74.

[8] Idem.

[9] SENA, 1982, p. 27.

[10] SENA, 1989, p. 75.

[11] JACKSON, 2002, p.180

[12] JACKSON, 2002, p.184.

[13] SENA, 1982, p. 49.

[14]  SENA, 1988, p.76.

[15] LOURENÇO, 2002, p.412

[16] CAVAFY, 1986, p.54

[17] CAVAFY, 1986, p.55

[18] SENA, 1989, p. 74.

 

*Sabrina Sedlmayer é professora  da  UFMG