55. A Condição Humana entre André Malraux e Jorge de Sena  

Ângela Fernandes, Universidade de Lisboa

 

Considerado habitualmente como um dos títulos mais significativos da obra romanesca de André Malraux (1901-1976), La Condition Humaine surge em Portugal numa tradução prefaciada da responsabilidade de Jorge de Sena. Ao analisar, por um lado, o contexto editorial de aparecimento desta tradução e, por outro, algumas observações e reflexões do tradutor, verifica-se que a proposta de leitura lançada com a edição portuguesa deste romance implica ao mesmo tempo a revisitação da ficção francesa dos anos trinta e a ponderação sobre os caminhos da literatura enquanto lugar de questiona­mento da humanidade. O objectivo deste ensaio será esclarecer a posição crítica de Jorge de Sena face a este romance de Malraux e, mais especifica­mente, face à ideia de “condição humana” inescapável neste contexto[1].

condi_o_humanaFoi apenas em finais de 1958 que se publicou a tradução portuguesa de La Condition Humaine, de André Malraux, precisamente vinte e cinco anos depois da edição original do romance, e num momento em que o seu autor ressurgia como figura proeminente no panorama político francês, com fun­ções ministeriais no novo governo da V República, chefiado por de Gaulle. A tradução da obra de Malraux em Portugal havia começado mais de uma década antes, num caso de surpreendente contemporaneidade face à edição francesa: em 1944 surgira A Luta com o Anjo, tradução de La Lutte avec l’Ange. I. Les Noyers de l’Altenburg, o derradeiro texto da fase de criação romanesca de Malraux, publicado em 1943. No entanto, apesar da celeridade da sua edição portuguesa, A Luta com o Anjo não conduziu ao interesse editorial pela restante obra do escritor, permancendo este, durante muito tempo, como o único romance de Malraux traduzido em Portugal. Em contrapartida, a publicação de A Condição Humana, em 1958, vem acompanhada da edição, no mesmo ano, de As Vozes do Silêncio, tradução de Les Voix du Silence, de 1951 (um importante conjunto de ensaios que testemunha a viragem de Malraux para a reflexão sobre a história da arte, a partir de 1945) e parece iniciar um ciclo de continuado interesse pelos romances do autor, com a publicação de A Estrada Real (1962), Os Conquistadores (1963) e A Tentação do Ocidente (1965). Também a obra posterior de Malraux será logo recebida em Portugal com a tradução, no mesmo ano da edição francesa, de Antimemórias (1967) e Quando os Robles se Abatem (1971)[2].

Neste contexto, não será despiciendo notar que, em 1963, Vergílio Ferreira publica o ensaio André Malraux. Interrogação ao Destino, sublinhando aí claramente a importância do conhecimento da obra deste autor no âmbito da reflexão sobre os desenvolvimentos da literatura e do pensamento no século XX. Em carta a Jorge de Sena, datada de Outubro de 1964, Vergílio Ferreira reitera a sua admiração pelo «Malraux escritor», que ele «teim[a] em considerar um dos expoentes máximos da consciência europeia actual»[3]. Ora, é precisamente na resposta endereçada a Vergílio Ferreira, em Novem­bro de 1964, que Jorge de Sena chama a atenção para o seu prefácio da tradução de 1958:

 

Não recebi ainda o seu Malraux que vi aqui na mão de um colega que o comprou já em São Paulo. Não pude pois lê-lo Mas vi, com mágoa, que V. não cita bibliografia portuguesa… e poderia ter citado o meu prefácio para a minha tradução da Condição Humana, que não creio coisa das insignificantes que tenham sido escritas sobre o Malraux.[4]

 

Na volta do correio, Vergílio Ferreira justifica a ausência de estudos portugueses (de qualquer forma escassos) na bibliografia do seu livro pelo receio de que nessas menções fosse visto «algum chauvinismo», uma vez que apresentava apenas uma lista incompleta de referências. Mas esta resposta cordata dá lugar a uma observação mesclada de pergunta a propósito da opinião que Jorge de Sena terá sobre o escritor francês. Sugere Ferreira: «ficou-me a ideia – que precisaria de confirmar – de que V. está longe de ter por Malraux a admiração que me merece»[5]. Face a esta insinuação, Sena esclarece na carta seguinte:

 

Sempre o achei um grande escritor: que ele possa ser hoje um «falecido» nada altera que continue a sê-lo – é apenas um muito comum erro de perspectiva na valorização literária, já que isso não nos importa para os escritores do passado, muitos dos quais estavam já defuntos quando morreram.[6]

 

Ao afirmar, em 1964, que Malraux é «um grande escritor», ainda que «falecido», Jorge de Sena sintetiza a dupla face da sua apreciação deste autor – que, aliás, ficara já explicitada quer no referido prefácio de 1958 quer principalmente no artigo «O meu encontro com Malraux», publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 1959. Em ambos os textos, Sena articula a análise dos pontos fortes da obra romanesca de Malraux com a apresentação das suas discordâncias face às escolhas vivenciais tanto das personagens dos romances como do seu autor. À primeira vista, a consideração de Malraux como um escritor «falecido» parece reportar-se à sua opção de abandono da escrita literária: desde meados dos anos quarenta, ele é um escritor inactivo, tornado político, historiador de arte (mais tarde, memorialista). Mas Sena não isola essa opção de Malraux face às escolhas de vida apresentadas pelas personagens dos seus romances, antes sublinha a analogia entre.as soluções romanescas dominantes nas obras dos anos trinta e as opções orientadoras do percurso público do autor. Por outras palavras, Sena não lamenta o «falecimento» do «grande escritor», antes procura argumentar pela inevitabilidade de tal facto em coerência com as concepções vivenciais, tendencialmente individualistas, dominantes no universo romanesco por ele criado. E contudo, embora questionando essas concepções, tanto mais importantes quanto estes romances se apresentam como «meditação estética sobre o sentido das acções humanas»[7], Sena não identifica este aspecto particular (em seu entender questionável, ou mesmo errado, como se verá adiante) com o valor da criação romanesca de Malraux. A simples decisão de traduzir A Condição Humana e de, apesar de contratempos vários[8], a fazer publicar.na editora «Livros do Brasil», de que era então director literário, testemunha o especial apreço de Jorge de Sena por este romance. Aliás, importará notar que a ficção em língua francesa ocupa um lugar diminuto no âmbito do trabalho de Sena como tradutor, tornando-se assim tanto mais significativa a ocorrência deste título por entre as três dezenas de volumes (de poesia, teatro, ficção e ensaio) traduzidos principalmente do inglês.

Como esclarece Frederick G. Williams, no seu ensaio sobre «Jorge de Sena: tradutor» (1999), a actividade de tradução foi, no caso de Sena, bastan­te intensa e algo ecléctica, sempre assente num profundo convencimento da viabilidade e da necessidade de traduzir. Contudo, uma vez que se concen­trou, a partir de meados dos anos sessenta, na tradução de poesia, foi sobre este específico tipo de trabalho que se poderá dizer que se desenvolveu uma «teoria seneana da tradução»[9]. Ora, de entre os critérios de selecção dos textos a traduzir, na Introdução da antologia Poesia de 26 Séculos (1972), Sena explica que traduziu aquilo que lhe suscitou interesse ou admiração, corres­pondendo a uma busca insaciável de «toda a grande poesia deste mundo» e, nela, a uma especial busca de

 

particulares valores de independência de espírito, liberdade de pensamento, franqueza das emoções, rudeza de expressão, lúcido encantamento, agressividade insólita, concisão verbal, magnifi­cência e audácia formais, gosto de grandeza, humor e sarcasmo, profundeza humana, coragem moral, e a suprema consciência da poesia como experiência última.[11]

 

Esta lista de qualidades poéticas dá conta do entrecruzar de aspectos de expressão e de conteúdo no olhar que Sena lança à poesia digna de ser traduzida, e por certo à literatura em geral, sobressaindo em ambos os domí­nios valores que conciliam o rigor (lucidez, concisão) com o desafio (indepen­dência, liberdade, agressividade, audácia, coragem). Ao voltar à sua aprecia­ção do romance de Malraux, nota-se como a generalidade dos valores citados se repete na descrição daquilo que se pode encontrar ao longo de A Condição Humana, texto considerado como testemunho de «uma perfeita e clássica técnica da linguagem escrita: a concisão fremente, a obliquidade patética, a limpidez sombria do isolado intratável», obra maior «pela profundidade das reflexões e pela intensidade das situações», «documento histórico, medita­ção moralista, intensa e asfixiante acção romanesca, estilo admirável»[11].

Não restarão dúvidas sobre a estima de Sena por este romance, nomea­damente no que respeita à sua construção narrativa, mas importa perceber agora em que termos se desenvolve a crítica do tradutor ao sentido de «condição humana» apresentada neste texto, uma vez que Sena não esconde a sua discordância face às conclusões a que lhe parece que se chegará quando se atentar na dimensão reflexiva deste romance de Malraux, lendo-o como «um longo comentário moralista sobre a solidão e a morte, sobre a acção e o destino humano»[12].

No «Prefácio» à tradução de A Condição Humana, e depois do elogio da obra (que se repetirá em termos muito semelhantes na abertura do artigo «O meu encontro com Malraux», de 1959[13]), Jorge de Sena procura enquadrar o aparecimento deste romance tanto no seu contexto histórico, do «período chamado de ‘entre duas Grandes-Guerras’», como no âmbito do percurso biográfico do seu autor. Malraux é então descrito como «um filho preclaro da velha sociedade europeia, daquilo que se convencionou chamar ‘civilização ocidental’», mas «um filho rebelado contra o muito que dessa civilização ele sente que se lhe cola à pele»[14]. Os principais legados dessa civilização serão o culto da arte, forma derradeira de criação, e o individualismo, ou melhor, a «consciência de uma solidão última que só a fraternidade mitiga»[15], tendo em conta que, no entender de Sena, para Malraux «a fraternidade humana é menos uma solidariedade que a consequência de um solitário culto (no sentido de cultura, também) da liberdade»[16]. Daí que o percurso pessoal do escritor testemunhe essa mudança de rumo, da literatura para os estudos de história e psicologia da arte, culminando na entrega à solidão do «museu imaginário», em que o indivíduo se confronta com o que restou da criação humana, mas abstraindo-se tendencialmente do mais que o rodeia.

É precisamente essa solidão e essa distância que Sena surpreende no ministro Malraux quando o entrevê, durante a visita ao Brasil, subindo para o seu carro oficial numa rua do Rio de Janeiro – e por isso afirma, no final do referido artigo de 1959, que Malraux estava, de facto, a «subir para o carro de Chiang-Cai-Cheque»[17], ou seja, para o carro do general chinês que, na intriga do romance A Condição Humana, é alvo de um atentado suicida, enquanto símbolo máximo das injustiças e da traição que vem desencadear o ódio revolucionário na população de Xangai. Se no romance de 1933 o escritor Malraux contava o percurso paralelo de alguns revolucionários de Xangai, descrevendo as suas acções malogradas (lembre-se que o carro de Chiang- Cai-Cheque ia vazio, pelo que o furor suicida de Tchen não atinge o general, que aliás permanece apenas um nome-fantasma ao longo da narrativa), já em 1959 o ministro Malraux parece assumir, no olhar de Sena, o papel dè alvo digno desses mesmos revolucionários, mas, como no romance, saindo incó­lume, e confirmando assim a inutilidade dos gestos-limite individuais. Neste artigo «O meu encontro com Malraux», Sena faz culminar o seu argumento, referido atrás, a favor da analogia entre o percurso biográfico do escritor e as soluções vivenciais dominantes no seu universo romanesco. Acentua-se então a crítica à imagem deceptiva das acções e dos destinos humanos que, segundo Sena, domina A Condição Humana, concluindo que se trata de «uma aventura do espírito que nega», cujas «resoluções finais (…) são todas uma qualquer forma de ópio»[18].

Importa sublinhar que esta interpretação genérica e estas conclusões restritivas não resistem, de facto, a uma leitura mais atenta e cuidada dos temas e das estruturas narrativas desta obra. Isso mesmo demonstra Cristina Robalo Cordeiro, no seu estudo La Représentation Concrète de l’Univers Abstrait de Malraux dans La Condition Humaine (1983); uma análise demorada e porme­norizada do romance revela como a multiplicidade dos elementos significa­tivos e o seu complexo entrecruzar confluem na apresentação de um universo humano ambíguo e questionador dos seus próprios pressupostos. Sobre essa dimensão hesitante e equívoca de La Condition Humaine, afirma a autora:

 

Malraux hésite, se partage, refuse le pessimisme existentiel, aussi bien que l’optimisme trop facile et déterministe d’une conception marxiste, reconnaît les constantes faiblesses des manifestations humaines, de leurs affections, le danger de l’individualisme.[19]

 

Jorge de Sena não leu estas hesitações, ou pelo menos não as considerou relevantes para a interpretação do conceito-chave do romance, i.e., o conceito de «condição humana», desde logo anunciado pelo título. A sua visão global procurou os aspectos mais estáveis da construção romanesca e encontrou, por um lado, a ênfase, ao longo da narrativa, nos dilemas e nas acções indivi­duais de cada personagem (principalmente, os revolucionários de Xangai, Tchen, Kyo, Katow, mas também o aventureiro Clappique ou o financeiro Ferral) e, por outro lado, o desenlace sangrento, com a derrota das variadas aspirações de cada um. Daí concluir que A Condição Humana é uma história de solidões que não se comunicam e tendem a acabar mal, tornando-se-lhe difícil aceitar tal proposta de retrato da condição humana. No prefácio de 1958, fica desde logo assinalada a sua relutância em admitir a validade do projecto filosófico-literário em causa:

 

Malraux é magistral em algumas das suas páginas, no sugerir que o homem pode aprender à sua própria custa a «grandeza». Mas, usando as suas palavras, «tentar dar a homens a consciência da grandeza que em si próprios ignoram» – não basta. (…) não basta especialmente porque a grandeza humana é algo que não releva apenas da descoberta individual, e bem mais da vivência colectiva. Importará assim tanto a solidão de cada um, para que o mundo se transforme numa associação de solidões? Será assim tão precioso o incomunicável? Ou valerá principalmente aquela capacidade humana de sentir os outros lá onde eles próprios se negam ou se esquecem?[20]

Esta contestação do individualismo nuclear (mas, de facto, não isento de interrogações) que domina em A Condição Humana dá lugar, no artigo de 1959, a uma objecção mais clara e radical sobre o alcance desse modelo individua­lista na perspectivação do universo humano. Sena discute aí o modo como, no seu tempo, este romance deu a ver em que medida o mundo estava «podre»:

 

É terrível, porém, meditar sobre a podridão de dentro dela, por ela e com ela. E toda a meditação existencial que não objective em si própria uma consciência histórica da situação em que se reconhece, que não tenha da História uma visão progressiva e humanamente integral, mas apenas uma centralizada e individualista noção dela como de algo que por todos os lados, como um eterno retorno, a fecha num círculo de ferro sem saída – é essa uma meditação exis­tencial que acima da podridão se não ergue (…). E este o erro funda­mental de A Condição Humana, que aliás torna a obra mais emocio­nante e mais sugestiva, na medida em que dá do homem uma imagem de pequeno pássaro belíssimo, que transporta irremedia­velmente consigo a sua própria gaiola.[21]

 

Aqui se percebe como a censura de Jorge de Sena a Malraux assenta afinal numa particular concepção da história da humanidade, em que à consciência do momento presente se alia necessariamente uma perspectiva do devir humano num rumo de progresso. O «erro» de A Condição Humana consiste em não apresentar uma visão histórica, global e distanciada, do problema humano; ou seja, Malraux não inscreve a sua meditação literária sobre a condição humana numa sequência mais ampla de reflexão sobre o Homem, precisamente porque centra a problematização nos indivíduos. Para Sena, assumir uma «consciência histórica» e ter da «História uma visão progressiva e humanamente integral» são dois postulados de partida para salvar uma reflexão do abismo: acreditar que há um progresso, uma evolução tendencialmente no sentido do aperfeiçoamento, e que esse progresso afecta os humanos no seu conjunto permite ultrapassar o impasse individualista, ou melhor, permite fugir à limitação inevitável de cada história pessoal, uma vez que essa é sempre a história de um mortal. Por conseguinte, esta defesa de Sena de uma reflexão necessariamente enquadrada por uma perspectiva de progresso humano implica não apenas a confiança numa dimensão colectiva e social própria dos seres humanos («a capacidade de sentir os outros», de que falava no Prefácio), mas também a crença numa identidade de espécie e consequente unidade de destino da Humanidade, que ultrapassa as dimen­sões básicas do tempo e dó espaço em que se inscreve cada vida, e faz acredi­tar que cada gesto individual tem um significado para além de si mesmo, para além da sua finitude mortal.

Ora, A Condição Humana constitui precisamente um testemunho literário (como outros, seus contemporâneos) das dúvidas sobre esta visão unitária e evolutiva da humanidade; a reflexão sobre o humano está aí centrada na apre­sentação dos destinos individuais porque se procurava assim delinear na histó­ria de cada personagem, na vida de cada pessoa, o contorno reconhecível da «condição humana». Buscavam-se as características que talvez pudessem definir os humanos sem recorrer aos pressupostos prévios de identidade de espécie (como a «natureza» humana, a «essência» humana), pelo que se aten­tava nas existências individuais, nas acções de cada um[22]. Por isso mesmo, o retrato da «condição humana» tal como o entende Malraux não está, nem poderia estar, inscrito numa visão de continuum histórico ou de afinidades evolutivas.

Para compreender por que motivo Jorge de Sena não admite validade em tal tipo de retrato, importa sublinhar o desvio que a proposta filosófico- -literária de Malraux significa face aos princípios do humanismo clássico, no qual, segundo todas as evidências, Sena se revê. As perspectivas humanistas tradicionais implicam a crença na existência de uma natureza humana, ou seja, um ideal de espécie que domina e transcende a vida de cada indivíduo, e privi­legiam a dimensão espiritual do ser humano, capaz de se aperfeiçoar continua­mente[23]. Ao traçar o «perfil filosófico» de Jorge de Sena como «humanista», Francisco Cota Fagundes argumenta pela fidelidade do poeta aos princípios de um «humanismo naturalista» em que sobressaem estes mesmos aspectos, com múltiplos matizes[24]. No caso concreto dos textos críticos aqui em análise, a posição de Sena revela-se com clareza: tanto no Prefácio da tradução como no artigo dé 1959, a «condição humana» do romance de Malraux é aproxi­mada da «mísera sorte, estranha condição» de que Camões «falara»[25]. Ao recordar o último verso da fala do «velho de aspeito venerando» que, no final do Canto IV de Os Lusíadas, censura os navegantes que partem, Sena desloca o conceito de condição humana de pleno século XX para o universo renascen­tista de ponderação sobre a natureza das acções humanas, e recupera assim as premissas do humanismo clássico.

Neste famoso discurso de Os Lusíadas, o «velho» fala em termos genéri­cos da força que anima as acções e os empreendimentos dos homens (chame- -se-lhe «vaidade», «fama», «glória») e termina por evocar (e condenar) o gesto primordial de Prometeu que, ao juntar o fogo «ao peito humano», concedeu a todos os homens a capacidade e a vontade de agir, iniciando assim uma cadeia de impulsos (nem sempre felizes) para a acção. No limite, é este incessante desejo de agir que define a humanidade e, por isso, poderá ser considerado sua «mísera sorte, estranha condição»: «Nenhum cometi­mento alto e nefando / Por fogo, ferro, água, calma e frio, / Deixa intentado a humana geração. / Mísera sorte! Estranha condição!»[26]. A «estranha con­dição» da «humana geração» consiste, no olhar renascentista, nesta força irresistível para todo o tipo de «cometimento» audacioso, sobretudo quando ele parece estar para além das possibilidades humanas; será isso que une todos os homens e que, em última análise, permite apresentar literariamente os heróis, ou seja, aqueles que se distinguiram no cumprimento dessa humana «condição».

Ora, no romance de Malraux, aquilo que acompanha cada personagem é principalmente a consciência da sua responsabilidade individual por cada gesto ou palavra, pelo que a sua heroicidade está em conseguir conviver com essa solidão do agir, que não parece encontrar verdadeiro conforto em desígnios ou afinidades supra-individuais. Por exemplo: «en même temps que lé rapprochait de Tchen la camaraderie nocturne, une grande dépen- dance pénétrait Kyo, l’angoisse de n’être qu’un homme, que lui-même»[27]. Percebe-se, assim, que a «condição» humana está aqui muito longe de se poder confundir com o impulso activo concedido pelo primordial fogo de Prometeu, e torna-se lícito concluir que as discordâncias de Jorge de Sena face a La Condition Humaine, de André Malraux, derivam precisamente do facto de o tradutor continuar a pensar a representação literária dos humanos em termos de grupo coeso que evolui no tempo, ou seja, nos termos da «humana geração» camoniana. Que Jorge de Sena tenha estimado, traduzido e discu­tido um romance que tão claramente desafiava esta sua visão testemunha, em última análise, a singular coexistência, em meados do século XX, de perspec­tivas tehdencialmente irredutíveis sobre os possíveis e desejáveis retratos literários da humanidade.

 

Referências Bibliográficas

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Williams, Frederick G., «Jorge de Sena: tradutor», in Gilda Santos (org.), Jorge de Sena em Rotas Entrecruzadas, Lisboa: Edições Cosmos, 1999, pp. 116-32

Notas:

1. Uma primeira versão deste ensaio foi apresentada no Colóquio Internacional Relações Literárias Franco-Peninsulares, organizado, pelo Departamento de Letras Clássicas e Modernas da Facul­dade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, entre 24 e 26 de Novembro de 2003.

2. Cf. indicações completas sobre as traduções portuguesas da obra de Malraux entre 1944 e 1971 nas Referências Bibliográficas finais.

3. M. de Sena (org.), Jorge de Sena – Vergílio Ferreira. Conespondência, p. 110.

4. Id., ibid., p.115.

5. Id., ibid., p.117.

6. Id., ibid., p.122.

7. J. de Sena, “O meu encontro com Malraux”, p.159.

8. No volume Maquiavel, Marx e outros estudos, em nota explicativa sobre o prefácio de 1958, Mécia de Sena esclarece que a tradução de A Condição Humana estava pronta em 1956 mas «a editora (Livros do Brasil) teve dificuldades alheias à sua vontade (…) em publicar a obra então» (p. 166).

9. F. G. Williams, p.123.

10. J. de Sena apud Williams, p. 127.

11. J. de Sena, “Prefácio”, pp. 5-6, 10.

12. Id., ibid, p.9

13. Eis os elogios com que se inicia cada um dos textos: “sem dúvida um dos grandes livros do nosso tempo, e ouso dizer que uma duradoura obra-prima da literatura universal” (J. de Sena, “Prefácio”, p. 5), “um livro extraordinário (…) ninguém continua igual ao que era, depois de o ter lido” (J. de Sena, “O meu encontro com Malraux”, p.159).

14. Id., ibid., p. 7.

15. Id., ibid.

16. Id., ibid., p. 9.

17. J. de Sena, “O meu encontro com Malraux”, p. 161.

18. Id., ibid., p.160

19. C. R. Cordeiro Oliveira, La Représentation Concrète de l’Univers…, p. 310.

20. J. de Sena, «Prefácio», p. 10.

21. J. de Sena, “O meu encontro com Malraux”, pp.159-60.

22. Ao descrever o ponto de vista dominante nos escritores franceses das décadas de 30 e 40, Pierre-Henri Simon afirma: «ils ne voient, ils ne veulent voir que l’homme concret» (L’ Homme en Procès. Malraux, Sartre, Carnus, Saint-Exupéry, p. 9).

23. Cf. P.-H. Simon, L’Homme en Procès…,pp. 5-7.

24. Cf. F, C. Fagundes, «Jorge.de Sena: A Philosophical Profile», pp. 21-56.

25. J. de Sena, «Prefácio», p. 10, e «O meu encontro com Malraux», p. 161.

26. Camões, Os Lusíadas, IV, 104, vv. 5-8.

27. A. Malraux, La Condition Humaine, p. 152.
* Ângela Fernandes.  “A condição humana entre André Malraux e Jorge de Sena”, Românica, nº 14, Lisboa: Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2005,  pp. 203-214