49a. Jorge de Sena, José Rodrigues Miguéis e David Mourão-Ferreira: Triálogo em Clave de Mito (1a.parte)

Teresa Martins Marques
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José Rodrigues Miguéis

O presente texto tem por objectivo tentar perspectivar algumas ligações vivenciais, bem como de trabalho crítico e criativo, entre Jorge de Sena, José Rodrigues Miguéis e David Mourão-Ferreira, estabelecidas a partir de alguns testemunhos orais, e, fundamentalmente, com base na epistolografia e na Obra publicada dos escritores em apreço. No que se refere a David Mourão-Ferreira serão citados materiais inéditos do Diário Íntimo [1], relativos à recepção da sua peça de teatro Isolda.

Não tive o privilégio de conhecer pessoalmente nem Jorge de Sena, nem José Rodrigues Miguéis. Com justiça ou injustiça, quase sempre que tenho ouvido falar de Sena, sou confrontada com a referência ao seu temperamento difícil. Pergunto-me: o que é um temperamento difícil? Quem o julga? Com que autoridade? De acordo com que parâmetros? Teremos a mesma bitola para avaliar o homem comum e o génio? Como se reconhece o génio? Segundo Diderot, e sintetizando a longa reflexão de seis páginas da Encyclopédie (7, 582), reconhece-se por “ l’ étendue de l’esprit, la force de l’imagination et l’activité de l’âme” (…) “ Le génie est un être hors du commun, hors du moment, hors de son temps.

A poucos se aplicará tão bem esta “definição” diderotiana como a Jorge de Sena. E, melhor se lhe aplicará ainda, a fórmula proposta, com inevitável ironia, por Jonathan Swift, nas suas Gulliver’s Travels: quando um verdadeiro génio aparece, poderemos reconhecê-lo por este sinal – os tolos aliam-se de imediato contra ele.

Recordo uma das questões que lhe foram colocadas, na célebre entrevista – «Falando com Jorge de Sena» -, inserta em O Tempo e o Modo: ”Há quem o acuse de susceptível e agressivo. Concorda que o é?” A resposta é, deveras, interessante, afirmando o que pretende negar e praticando, com grande inteligência, a defensividade atacante:

Realmente? Julgava eu que esse mito já havia passado, por se ter revelado inoperante para neutralizar-me e destruir-me. Mas se acaso sou susceptível, tenho a susceptibilidade dos exigentes e dos afáveis, honestamente afáveis. E, se sou agressivo, é só a agressividade do muito amor. Eu não perdoo a ninguém a mediocridade, a estupidez, a vileza, a malignidade, a incultura, a suficiência, a intolerância, o espírito de compromisso, a cobardia moral, etc. Será que estas coisas ainda existem em tão grande escala em Portugal, que eu pareça necessariamente agressivo e susceptível?..[2]” À pergunta que Sena formulou em 1968, a nossa resposta é simples e inequívoca: Existiam e existem.

Não tendo tão mauvaise presse, quanto a de Jorge de Sena, manda a verdade dizer que, pelos documentos e testemunhos que nos chegaram, José Rodrigues Miguéis viveu toda a sua vida com enormes dificuldades relacionais. Bastará ler alguns excertos das suas cartas para David Ferreira, que publicámos na Cronologia inserta no Catálogo da Exposição Comemorativa do Centenário do Nascimento [3] , para avaliarmos até que ponto a vida lhe pesou e, correlatamente também, como nem sempre foi justo na avaliação dos seus próximos e afastados. É, aliás, esta dificuldade que tem feito permanecer inédita, na sua maioria [4] , esta correspondência (compreendendo oitenta espécimes), mantida com David Ferreira, entre 1923 e 1980, ano da morte de Miguéis.

Quanto a David Mourão-Ferreira, a sedução, como um dos traços característicos da sua imagem pública, tanto quanto a leitura dos seus escritos íntimos mo permite avaliar, é uma bem conseguida defesa, uma persona, que não exclui densos rios subterrâneos de melancolia, que a sua Obra não deixa de revelar, embora a crítica, na imensa maioria dos casos, tenha vindo, ao longo do tempo (e com a ajuda do autor), a colocar o enfoque nos aspectos solares da sua poesia e na tematização da mulher, reduzindo o seu leque de leituras e, nalguns casos, construindo uma leitura cliché, decalcada desta redução da Obra, relativamente à complexa e fascinante personalidade do homem.

André Maurois, autor de La Vie de Shelley (1923), Disraeli (1927), Byron (1931), Marcel Proust (1949), George Sand (1952), Victor Hugo (1955) e Balzac (1965), inclui no seu romance Terre Promise (1943) o seguinte diálogo, com o qual poderemos, ou não, estar de acordo, mas que nos ajuda a reflectir sobre a personalidade artística e como é insensato pretender dominar o indominável:

«-Alors selon vous, docteur, tous les romanciers, hommes et femmes, sont des nevrosés ?
– Plus exactement, tous seraient des nevrosés s’ils n’étaient des romanciers… La névrose fait l’artiste, et l’art guérit la névrose.
»[5]

Curará? E, se curar, será isso interessante do ponto de vista artístico? Definitivamente, não é esse o caminho por onde me levará este texto.[6]
Miguéis e David

David Ferreira, pai do poeta David Mourão-Ferreira, foi companheiro de Miguéis, desde os primórdios da Seara Nova. A sua relação com Miguéis é, por assim dizer, uma relação de família. Durante a infância, o pequeno David serviu inclusivamente de cobaia pedagógica a Miguéis para testar trabalhos de natureza didáctica. Com efeito, em 1927, Miguéis colabora com Raul Brandão, D. João da Câmara, Maximiliano de Azevedo e Câmara Reys, na elaboração de manuais de leitura para o ensino primário e, anos depois, terá submetido à apreciação de David-criança outros materiais da mesma natureza. O juízo crítico emitido não foi o mais lisongeiro, mas teremos de ter em conta a questão da “concorrência editorial”, pois, entre os abundantes escritos da infância de David, encontrei um livrinho escrito aos oito anos, intitulado Mil Maravilhas para a Terceira Classe (1935), porventura, feito em resposta às lacunas que viu nos livros dos adultos. Determinação e atrevimento não faltavam ao pequeno David.

Miguéis apreciava particularmente a poesia davidiana e inquiria sobre ele, nas cartas para o pai deste, com a pergunta: “Como vai o teu Poeta?”. Nada disto teria interesse de maior, se esta não fosse precisamente a designação também utilizada pela protagonista feminina do romance de Miguéis O Milagre segundo Salomé [7] , para se referir ao seu amado Gabriel, alter-ego ficcional do autor: “o meu Poeta”. Em 1971,o autor de Léah [8] esfriou um pouco as relações com “o seu poeta”, quando este exprimiu algumas reservas ao romance Nikalai! Nikalai![9] que, pelo contrário, muito entusiasmaria Jorge de Sena. Mas, rapidamente, o contacto caloroso seria restabelecido entre ambos. Miguéis ficaria a dever a David a proposta de admissão como sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, em 1976, o qual diligenciou junto de Jacinto do Prado Coelho e Fernando Namora a assinatura conjunta daquela proposta e a sua posterior aprovação, salientando o seu “pessoalíssimo contributo para a compreensão do homem português.” O autor de Saudades para a Dona Genciana [10] não esqueceria este tributo de amizade, não apenas pelo que significava de homenagem pessoal e reconhecimento público, mas também pelo conforto afectivo que sempre continuou a receber desta família de Lisboa, com quem estabeleceu os mais fortes e duradouros laços, que se lhe conhecem. Com efeito, a última carta para David Ferreira vem datada de apenas dezoito dias antes da morte do escritor.

Em 1998, Diana Andringa realizou um documentário de homenagem a Miguéis – Um Homem do Povo na República -, integrado na série Artes e Letras, da Rádio Televisão Portuguesa, e sendo nessa altura, a mãe de David Mourão-Ferreira, o único elemento ainda vivo da primitiva família, apesar da sua avançada idade, não deixou de lhe prestar o seu testemunho admirativo, ao lado da sua velha amiga Camila Miguéis e também de Mécia de Sena, como seria esperável, conhecendo o seu dinamismo e os laços de amizade, que seu marido estabelecera com o companheiro das letras.

Sena e Miguéis

Sena e Miguéis viriam, de facto, a estabelecer relações solidárias e de cumplicidade de exílio, a partir de 1965, não sem que antes sobreviesse um esboço de conflito entre ambos, que só não assumiria maiores proporções, porque Jorge de Sena, apesar do “decantado temperamento difícil,” soube ceder. Mécia de Sena aflora a questão na «Nota Introdutória» ao volume Sobre o Romance [11] referindo-se à inclusão de um texto, de 1958, intitulado «Thomas Mann, os irmãos de José, e muitas outras coisas inclusive o Chiado»:

A verdade é que José Rodrigues Miguéis, a quem ele se dirigia como esclarecimento, se sentiu imensamente ofendido, quando o leu, antes de ser enviado para a tipografia, e, apesar do seu decantado temperamento «difícil», Jorge de Sena imediatamente o retirou da publicação, não obstante a razão que entendia assistir-lhe de aclarar alguns pontos do artigo do autor de Leha (sic) que não pretendera, nem de modo algum desejara, ferir.”[12] Encurtando razões, direi que Miguéis publicara, nesse mesmo ano de 1958, um artigo, algo injusto, sobre Thomas Mann, apontando-lhe a suas aspirações a Göethe contemporâneo, que teria repudiado, aos setenta anos, a cultura e a filosofia de vida dos alemães, para depois da guerra regressar, reconciliando-se com o seu povo, que soubera ressurgir sem a sua ajuda. Sena refere-se ao dramático azedume de Miguéis e rebate as considerações deste, mostrando (entre outros aspectos relevantes, que é ocioso expor neste momento) que o corte de Mann se estabeleceu com o nazismo e não com o povo alemão. Provavelmente o que mais terá avinagrado Miguéis foi a referência à influência de Eça, que ele ansiosamente, sempre pretendeu negar. Escreve Sena:

E não se assuste com o fantasma do Eça de Queirós que muitos vêem circular na sua obra, como uma persistência de estilo de antes do dilúvio (ou do exílio,— esse fantasma só circula na sua obra de grande escritor (e são cada vez mais raros os escritores neste país agora de romancistas e contistas ilustres), quando V. se abandona ao erro de pensar que esteve longe do país e do seu povo.(…) E não se zangue com o Thomas Mann que não tem culpa nenhuma…”[13]

Se Jorge de Sena não tivesse tido em consideração a susceptibilidade de Miguéis, perderia, então, por certo, o apoio precioso que este viria a conceder-lhe, sete anos depois, ao preparar a sua ida para os Estados Unidos da América, onde o autor de Gente da Terceira Classe [14] já residia desde 1935. Desse acolhimento caloroso dá-nos testemunho uma sua carta, em resposta a outra de Sena, que andou perdida em verdadeiras andanças do demónio, porque este a enviou para uma morada, onde Miguéis já não residia, desde 1963, ano em que viajou para Portugal e onde se manteve até Abril de 1964. Prudentemente, tinha deixado nesse prédio, como endereço alternativo para a correspondência, a casa de uma cunhada nos arredores de Nova Iorque. Em 1965, quando chega a carta de Sena, o primitivo endereço de Miguéis já não existia, porque o prédio tinha sido, entretanto, demolido. Os correios mandaram a carta para a cunhada de Miguéis, a qual, entretanto, também tinha ido para Porto Rico, mas que tivera o cuidado de deixar o novo endereço, para onde a carta de Sena foi remetida, já então cheia de garatujas da via-sacra das estações de correios por onde tinha passado. A cunhada remeteu-a para a nova morada de Miguéis, em Nova Iorque, que acabaria a recebê-la, ainda um mês antes da viagem de Jorge de Sena para a América.

A essa carta, verdadeiramente mais perdida que a célebre de Edgar Pöe, responde Miguéis, em 1 de Setembro de 1965 [15] . Nas palavras do autor de Páscoa Feliz não resta o mais pequeno laivo de ressentimento do atrito de 1958:

Agora, como quando V. saiu de Lisboa para o Brasil, surpreende-me a sua coragem. Que riscos V. tem afrontado!” A partir daqui não seria difícilpara Sena ouvir os conselhos que Miguéis lhe reservava, entremeando-os com uma saborosa auto-ironia, o que permite interpretar tais conselhos como um exercício de auto-persuasão. Vale a pena ler um pouco desta carta na qual observamos, através do olhar penetrante de Miguéis, as dificuldades da disseminação da cultura portuguesa, comparativamente à brasileira, ao tempo da chegada de Sena à América:

«(…) Mas – aviso aos “demónios” interiores andantes & otherwise : Não temos sempre 40 anos!, somethime, somewhere, o homem precisa encontrar um poiso firme. (Olhem quem fala!…) Sinto-me feliz de o saber por cá, e particularmente em Madison, onde o ambiente é calmo e hospitaleiro (a seu modo). Os espanhóis, que são um espinho para quem sofre do tradicional complexo lusitano de pequenez, parecem-me estimulantes: sobretudo o Sánchez Barbudo, que ainda aí deve estar. Madison é o centro da oposição ou resistência universitária à política do Vietnam, e isso pode ser uma tentação e um pitfall: toda a posição política que V. assumir, por estes próximos tempos, representa uma ameaça à “segurança, paz e sossego”—e ao nível material—que V. me diz procurar. Não quer decerto voltar em breve para o Brasil nem para o “horror peninsular”! Não me permito aconselhá-lo, mas a minha trágica experiência de trinta anos impõe-me preveni-lo. Se assim lhe falo é porque sei que o nosso sistema psíquico não aguenta strains ou stresses além de certa medida. E porque a liberdade, como tudo, tem o seu preço. Como (embora sem lhe escrever cartas) o admiro muito e tenho em grande apreço a sua pessoa e obra, não desejaria vê-lo arruinar a carreira. Talvez a atitude dos exilados espanhóis nos sirva de paradigma: mas eles estão muito mais seguros e andam por cá há mais de vinte e cinco anos! (O da Cal, que é fortemente anti-comunista, é também muito prudente e goza de uma situação mais que invejável— e não tem nove filhos, tem só um!). A generosa franqueza lusitana, o nosso polemismo, o desejo de endireitar todo o mundo et son père, a nossa rectidão, podem ser sérios handicaps; a polémica (quase sempre infrutuosa) tem sido o nosso cancro e um obstáculo à criação (para não dizer à nossa infelicidade): é o heroísmo fácil dos que desesperam de simesmos; fácil, mas de custosas consequências. Se o génio é uma longa impaciência, na do P. Valéry, o bom senso é o seu freio… Falo-lhe assim (sem invocar os meus quase 64 anos!) porque conheço o ambiente e tenho pesado maduramente o nosso problema. Se V. nada fizer que o comprometa prematuramente (tudo virá a seu tempo!) terá aqui uma existência que espera e merece; será sem dúvida professor catedrático (para o que lhe bastará apenas obter o PhD) e poderá fazer a sua obra e pesar na opinião. A cultura portuguesa é um factor mínimo, cá fora, e aqui interessa sobretudo o mundo hispânico; e o Brasil! (…) Não basta ter razão, é mais importante saber tê-la… A amargura portuguesa, legítima ou não, não nos conquista simpatias, aliena-as. E nós precisamos culturalmente de amizades e simpatias que nos faltam: Portugal não é só um zero, é um trambolho antipático, sobretudo com a ditadura e a guerra em África. (…)
Só uma atitude fleugmática, sorridente e calma nos pode atrair simpatias tão necessárias a essa paz interior, e mais ainda ao desgraçado “prestígio” português que é nulo. O Machado de Assis aumenta de estatura a cada novo livro traduzido; o Jorge Amado tem leitores (sobretudo desde Gabriela); o Guimarães Rosa vai singrando…mas o Eça só conheceu certo êxito com o Padre Amaro; o Ferreira de Castro passa despercebido, o Sttau Monteiro não atraiu as atenções… Pouco temos que dizer de novo ou de empolgante ao mundo cá de fora. E esse pouco não o apresentamos atraentemente
.”[16]

Mas é também dos problemas da vida prática que Miguéis se ocupa nesta missão quase paternal, mas não excessivamente paternalista, que essa, Sena não a admitiria, e Miguéis sabia-o bem:

Com uma família numerosa, só um salário elevadíssimo lhes permitirá viver com um certo conforto, indispensável num clima atroz. Aproxima-se o inverno, que é tremendo nessas regiões! O problema da habitação é sério. Quem lhes dará as indicações necessárias para compras, etc? (…) É claro que o heroísmo de sua Mulher mais do que sobeja para afrontar tudo isso, mas ainda assim! Muita coisa nos usos e costumes lhes causará estranheza, desde a alimentação aos convívios, como é natural: terão de encher-se de paciência e mostrar a compreensão que talvez falte aos naturais… Não podemos esperar sempre que nos compreendam, nós que tanta dificuldade temos em entender os outros. Digam-nos de qualquer dificuldade que tenham. As crianças são admiráveis “batedores” do desconhecido e com elas aprendemos sempre imenso.— Em suma, se o ambiente o acolhe e não se sente repelido ou hostil; se gosta da organização e da eficiência (depois do Brasil!) se tolera bem o convencionalismo e o burocratismo universitário; se gosta desta liberdade limitada pela responsabilidade; se quer enfim, fazer um lugar, amizades, obra sobretudo — pense em si e nos seus interesses, mais do que legítimos que são afinal os de todos nós! Só a sua Obra de poeta, de crítico, de professor, nos enriquecerá. A polémica, tanto do nosso temperamento, só poderá minar e arruinar-lhe a disposição e a paz. Foi por ter sabido recolher-me um pouco, depois da minha “morte” em 1945, que eu consegui fazer algo do que desejava.”[17]

Entre as coisas práticas, Miguéis esclarece-o sobre a Lei da Emigração, a isenção do Income tax, por ter mais de sete filhos, e por fim desculpa-se:

Esta carta de boas vindas já vai longa e sentenciosa! Não me julgue impertinente. Fala-lhe a experiência do sofrimento (alegre!). Não é difícil “sorrir à morte”, mas o diacho é ter de sorrir à vida, quando ela se nos oferece tão difícil. (…) Pois seja bem-vindo e dê frutos. E disponha de mim, até onde chega o meu pouco.” Despede-se com votos de amizade felicidade e êxito sem, todavia, resistir ainda a um compulsivo P.S. onde ainda lhe fala dos preços dos telefones, e dos aspectos práticos para fazer uma ligação telefónica e até a pronúncia de “ôh” equivalente a zero, e pergunta : “Serei demasiado explícito? Defeito de racionalista”.[18]

Esta carta de boas vindas mostrou certamente a Jorge de Sena que tinha em José Rodrigues Miguéis um amigo, com quem poderia doravante contar, e isso não é para ninguém de somenos importância, particularmente quando se chega, pela primeira vez, a um novo mundo.

Sena e David

A relação de Jorge de Sena com David Mourão-Ferreira foi de natureza bem mais complexa. Sendo David oito anos mais novo do que Sena, e não havendo entre eles uma razoável distância geracional, a relação viria a ser mais problemática, porque se estabeleceu, fundamentalmente, ao nível da crítica mútua. Tudo começou, aliás, com uma crítica negativa de Sena à peça de David – Isolda – poema dramático – escrito entre 26 de Novembro e 3 de Dezembro de 1947 e representado no 7º Espectáculo “essencialista” do Teatro Estúdio do Salitre (sediado no Istituto di Cultura Italiana, dirigido por Gino Saviotti e Vasco de Mendonça Alves), espectáculo esse que decorreu em Lisboa entre 25 e 29 de Junho de 1948. O texto da Isolda não foi até hoje publicado. Não errarei muito se disser que nesta decisão de David está implícita a sensação de insegurança que lhe deixou a crítica negativa de Jorge de Sena, publicada na Seara Nova, nº 1091, de 26 de Junho de 1948. Esta crítica foi, em parte, transcrita por David no seu Diário Íntimo, na entrada de 20 de Agosto de 1948.

Sena não se refere exclusivamente ao poema dramático de David Mourão-Ferreira, com indicações cenográficas de António Manuel Couto Viana, mas também a Carlos Montanha (Fábula do Ovo) e Pedro Bom (a farsa pantomina intitulada A Menina e a Maçã, com figurinos de Ramón Rogent). O espectáculo incluía ainda a peça em um acto Inês, ou o Túmulo Imperfeito de Claude-Henri Frèches, encenado pelo autor, com tradução e indicações cenográficas de Graziella Molinari. Eis as palavras de Sena, segundo a transcrição de David:

(…) Trata-se de três jovens autores, dois dos quais não são, para todos os efeitos estreantes: e em face daquelas jocosas (que o são) farsadas e daquele poema dramático, com que certamente estarão satisfeitos ou não os fariam representar, há que provocar o esclarecimento da situação intelectual desta mais jovem camada que vem surgindo, habilidosa, atraente, mesmo talentosa, que nada aproveitou ou parece ter aproveitado da experiência de consciencialização das duas ou três gerações anteriores, inclusive daquela que, afinal, pelas certidões de idade, quase se confunde com ela. É um doloroso espectáculo assistir, hoje e aqui, a esta exibição de “artisterie” de pessoas que ou declamam retoricamente à margem dos problemas nacionais, ou se divertem com modernismos aparentes e alegorias literárias, demonstrando até que ponto foram e são marcados pelo ambiente em que cresceram, a que ponto, mesmo quando julgam o contrário, se sentem felizes no papel de canários letrados deste solar burguês em estilo português-suave.
Eu sei que me responderão que os mais jovens sempre fazem tábua rasa das experiências anteriores. Mas responderão mal, porque não estou pondo o problema no plano dos artifícios literários, mas no plano de uma consciência viva, nacional e universal, que é incompatível com o jogo fácil a contentar-se a si próprio. Não acuso as três peças em questão de serem reaccionárias. Não são, porque são pior: são conformistas. E não poucas vezes o brincar com coisas sérias como o convencionalismo teatral tem dado tintas progressistas a muito conformismo. Nem o facto de Iseu (Iseu como já dizia El Rei D. Dinis, segundo se devia saber nas Faculdades de Letras e não Isolda) não acreditar prosaicamente em filhos e se recusar às delícias do guizinho, além de representar uma triste compreensão do ciclo bretão e do ciclo arturiano, revela uma crença apenas literária na essência da poesia, porque, das duas uma, ou essas coisas se tomam a sério e se integram no seu momento histórico, ou não se tomam a sério, e então aparecem, por sugestão literária, numa consciência materialística (e não materialista) e sem estruturação dialéctica, como é sintomático do estado actual do «pensamento» burguês mantido a balões de oxigénio. (…)
Isolda, poema dramático de David Mourão Ferreira [19] , em que a acção nem é lírica nem dramática, mas simplesmente mutações produzidas por artes mágicas, com uma linguagem redundante (…) e um vago e agradável sentimento poético, sustentou-se de cair na inanidade, graças à figura excelente da protagonista que Idalina Guimarães ergueu.

Curiosamente, toda a crítica arrasou a interpretação de Idalina Guimarães, que deu bem mais nas vistas pelos dotes físicos, que pelos dramáticos. Mas, mais curioso ainda, são as rasteiras que a vida e a memória nos pregam. Todos estamos lembrados de que o décimo nono poema de Arte de Música [20] se intitula «A Morte de Isolda» e não «A Morte de Iseu».

Nessa mesma entrada do Diário Íntimo, David tece os mais diversos comentários à crítica de Jorge de Sena. As transcrições serão longas, mas tratando-se de textos inéditos, optei por cortá-las o menos possível:

Acho que é inútil relevar aqui uma série de pormenores onde a injustiça e a falta de honestidade são bastante patentes. Bastaria o tom geral de antipatia (e antipatia porquê?) para que muitas das observações, no fundo pertinentes e justas, perdessem grande parte do seu interesse. Há, sem dúvida nenhuma, isto: uma grande má vontade. Quem o objecto? O Saviotti? O Pedro Bom, ou o Carlos Montanha? Eu? Confesso que em mim não vejo nenhuns motivos para essa distinção: conheci o Jorge de Sena numa tarde, na Smarta, sentado à mesa de José Régio; por acaso estivemos de acordo numa discussão que se estabeleceu sobre o conceito de tragédia; a partir daí, passámos a cumprimentar-nos— e até duma forma que me parecia não totalmente cerimoniosa; com uma certa simpatia mútua, supunha eu.
É claro que mesmo que essa simpatia existisse, se ele não tivesse gostado da minha peça o seu dever seria dizer mal. Até aí perfeitamente de acordo. Só o que me choca é a procura obstinada de pontos fracos, o recurso a meios demasiado fáceis para atacar, quando afinal, havia logo este primeiro defeito tão visível: a absoluta falta de teatralidade da minha peça. Para quê recorrer a piadas de galeria— duma galeria que, aliás, não tolera o próprio Jorge de Sena? Para quê fazer das palavras “burguês” ou “conformista” odiosos cavalos de batalha? O Jorge de Sena é possivelmente muito mais burguês do que eu; e quanto a conformista… em 1945, ainda ele colaborava no Atlântico— e eu, não obstante todas as ofertas e todas as minhas constantes necessidades de dinheiro, nunca mandei para lá uma linha. Por outro lado, que encontra ele de jocoso no facto de eu ser aluno da Faculdade de Letras? Sou-o, graças à mesma fatalidade que o fez aluno de Engenharia— simplesmente com menos ambições.

E David continua: “Num passo da crítica, que não transcrevi, declara-se o Jorge de Sena “precocemente envelhecido”. Parece-me que é um engano. Ele é apenas um ressentido. Um ressentido, porque, dentro da sua geração, não fez ainda o que os outros já fizeram— embora a mim me pareça que vale muito mais o que ele ainda não fez, mas esboçou, do que tudo quanto os cabotinos do seu antigo grupo e os do seu grupo actual supõem ter realizado. O Jorge de Sena, ainda que mentalmente superior, tem destas inferioridades: dói-se com os pequeninos sucessos dos medíocres. ( E também, é claro, com os dos não medíocres).
O Sena, apregoando sempre a necessidade de se representarem os jovens autores e ficando furioso quando os representam, é tal e qual como aquelas mulheres emancipadas e emancipantes, partidárias da igualdade dos sexos, e que ficam desesperadas quando, num jantar, são servidas depois de um cavalheiro…
Outra coisa que me choca bastante na crítica do Sena é ele ter adoptado aquele tom, sem que se lhe tivesse posto este problema: eu tenho vinte e um anos e talvez haja a chave de eu ter um pouco de talento. Uma opinião, emitida por ele, poderia ser para mim fundamental (e era-o, se fosse honesta). Suponhamos que eu não descobria a ausência de honestidade, existente nela, e que eu teria a ingenuidade própria da minha idade cronológica. Pronto! Isso era o suficiente para eu desanimar. Há destas responsabilidades morais implícitas em toda actividade crítica: ai de quem as esquece ao exercê-la! – esquecerá assim uma série de consequências funestas que uma ligeira desonestidade pode envolver.
Desonestidade, aliás, imediatamente notória, no facto de ele encarar as nossas peças, de estreantes ou de semi-estreantes, como coisas definitivas e padrão de tudo o que venhamos a realizar. A suficiência com que ele afirma que eu estou satisfeito com aquilo que fiz! Se ele soubesse a longa história dos desânimos, apreensões e dúvidas que eu ia tendo, à medida que os ensaios avançavam — história que nos seus passos principais este Diário assinala. E, depois, a lógica daquele raciocínio: se não estivesse satisfeito não a faria representar. O Jorge de Sena desconhece, ou finge desconhecer, esta coisa muito simples: eu podia ter uma relativa satisfação perante a obra literária, perante o texto, (que a tenho ainda) e ter ficado decepcionado perante ela, realizada teatralmente (como fiquei).
Por outro lado, o que levaria Jorge de Sena a concluir, tão firmemente, que eu tenho uma crença apenas literária na essência da poesia e que não tomo a sério o problema por não o ter integrado no seu momento histórico? É tão grande e tão real a minha crença na essência da poesia e tomo o problema tão a sério que creio que ele nada perde, desintegrado do seu momento histórico ou mesmo numa misturada de elementos históricos diversos. Foi, de resto, o que pretendi com todos aqueles hibridismos de linguagem e de concepções actuais umas, medievais outras— coisa que Jorge de Sena não viu, não compreendeu, ou não quis compreender.

Continua David: “Noutro passo da crítica, que também não transcrevi, prevê Jorge de Sena vaidades feridas ou outras petulâncias. Previsões que, pelo menos no meu caso, não se realizarão. Vaidade não tenho para que ela fique ferida. E mesmo se a tivesse não ficaria ferida com esta crítica. Parece-me ouvir ainda a voz de Maureen [21] — o seu francês mascavado de inglesa—, uma vez, ao sairmos da Sorbonne, depois de o professor lhe ter atacado defeitos imaginários:
«— Savez-vous? Quand on me frappe de cette façon-là, je reste toujours impassible
. »


CONTINUA

 

Notas:

1. Composto por vinte cadernos, escritos entre 1947 e 1955.
Desejo expressar o meu agradecimento à viúva do escritor – Drª Pilar Mourão-Ferreira – pela autorização que me concedeu para citar toda a documentação inédita inserta neste texto: não somente a que respeita aos fragmentos do Diário, mas também à Correspondência arquivada no Espólio de David Mourão-Ferreira.
2. O Tempo e o Modo, nº59, Abril de 1968, p.418. São abundantíssimas as fontes documentais sobre esta questão. Selecciono apenas duas: carta de Sena para Régio, datada de 16 de Fevereiro de 1947, in Jorge de Sena / José Régio. Correspondência. IN-CM, 1986, pp.32-36;carta de Sena para Taborda de Vasconcelos, datada de 17 de Agosto de 1966, in Correspondência Arquivada, Porto, 1987, pp. 88-94.
3. Catálogo da Exposição Comemorativa do Centenário do Nascimento. Câmara Municipal de Lisboa, 2001, pp.181-206.
4. Publicámos duas cartas datadas de 29 de Junho de 1930 e 10 de Dezembro de 1975 na Colóquio/Letras nº129/130 (Julho/Dezembro de 1993). Seleccionámos para publicação no Jornal de Letras Artes e Ideias outras duas, datadas de 21 de Novembro de 1952 e de 30 de Dezembro de 1968. Algumas delas sofreram cortes, considerados necessários por David Mourão-Ferreira e por mim própria, dado que envolviam afirmações lesivas de terceiros, cuja veracidade carecia de confirmação. Em caso algum, tais cortes visam proteger “gente afecta a determinadas orientações ideológicas”, como parece recear Marcello Duarte Mathias, no Diário da Índia (Lisboa, Gótica, 2004, p.185).
5. Cit. por Philippe Brenot, Le génie et la folie en peinture, musique et littérature. Paris Plon, 1997, p.9.
6. Ver sobre esta problemática em José Rodrigues Miguéis: Francisco Cota Fagundes, «A Ficção como Autoterapia: “Regresso à Cúpula da Pena” à luz de Um homem sorri à morte – com meia cara». In AA. VV. José Rodrigues Miguéis – Uma vida em papéis repartida. Edição da Câmara Municipal de Lisboa, 2001, pp.103-128.
7. O Milagre segundo Salomé, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1975.
8. Léah e Outras Histórias, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1958.
9. Nikalai! Nikalai! seguido de A Múmia, Lisboa, Editorial Estúdios Cor,1971.
10. In Léah e Outras Histórias, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1958.
11. Sobre o Romance, Lisboa, Edições 70,1986.
12. Op.cit, p.10.
13. Idem, p.56.
14. Gente da Terceira Classe, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1962.
15. Carta publicada em José Rodrigues Miguéis: Lisboa em Manhattan, (coord. de Onésimo Teotónio Almeida), Lisboa, Editorial Estampa, 2001, pp.261-263.
16. Idem, p.261-262.
17. Idem, p.262.
18. Idem, p.263.
19. Grafado ainda sem hífen.
20. Arte de Música, Lisboa, Moraes Editores, 1968.
21. Maureen é uma amiga inglesa de David, que conheceu no Verão de 1948, no Curso que ambos frequentaram na Sorbonne.

 

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* Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Texto publicado em Gilda Santos, org. Jorge de Sena: Ressonâncias e Cinquenta Poemas. Rio de Janeiro, 7Letras, 2006, p.121-143.