21. Jorge de Sena e Delfim Santos, Correspondência: Estudo Introdutório

F. Santos
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O volume da Correspondência Delfim Santos/ Jorge de Sena conta com rigoroso e detalhista estudo introdutório, que nos aguça a curiosidade sobre o conjunto desse carteio entre duas personalidades cimeiras da cultura portuguesa. Por especial deferência do autor, abaixo o reproduzimos — repetindo o gesto generoso de anteriormente nos facultar algumas cartas (na altura ainda inéditas).

 

Uma Carta é uma alegria da Terra
– Denegada aos Deuses

EMILY DICKINSON, C. 1885

Recolhe este volume, além do teor existencial dos sucessos de um convívio, a resenha crítica por Delfim Santos, vertida em forma epistolar, do primeiro Jorge de Sena nos anos da sua quase estreia poética e das suas primícias dramatúrgicas, situando o Filósofo entre os primeiros leitores e admiradores do Poeta. Convergência recorrente, a que irmana filosofia e poesia, íntimas desde as origens gregas e cujos vínculos se reforçam a partir do Romantismo que, ao fazer derivar toda a crítica e teoria literária das doutrinas e dos debates filosóficos da época, fortaleceu uma comunhão entre ambas que perdurou até aos nossos dias: nas palavras de Delfim Santos, «sobre o que seja essencialmente poesia [há só um] único homem que será capaz de compreender e esclarecer o problema: o filósofo».

Foram muitas as coincidências na vida de Jorge de Sena e de Delfim Santos: nasceram ambos, apartados por doze anos, nos primeiros dias do mês de Novembro, sob o signo de Escorpião, e ambos viveram uma parte das suas vidas na cidade do Porto, onde Delfim Santos nasceu e onde a família da mãe de Jorge de Sena tinha as suas raízes; ambos cursaram as suas licenciaturas na Universidade dessa cidade; Jorge de Sena estudou também no Liceu Camões, em Lisboa, no qual ingressou em 1931, onze anos antes de Delfim Santos, recém-regressado da Alemanha, adentrar como docente esse mesmo estabelecimento de ensino, em 1942; faleceram com a mesma idade de 58 anos, Delfim em 1966 e Sena em 1978. Cartearam-se desde 1943 – pouco mais de um ano após o regresso definitivo de Delfim a Portugal e da publicação por Sena de Perseguição – e o seu diálogo documentado irá durar até pouco menos de um ano antes da migração da família Sena para o Brasilá – pois se a última missiva é de 1958 subsiste ainda uma dedicatória datada já de 1959, o ano da partida.

Como precisou Mécia de Sena, o encontro de Delfim Santos e Jorge de Sena deu-se por via da literatura e dos projectos e realizações de escrita acalentados por ambos.

É o encontro de Delfim com um Jorge de Sena que, apesar de cerceado em Portugal por afazeres profissionais pouco consentâneos com a sua inspiração criadora, se notabiliza rapidamente no domínio poético cultivando depois, com a quantidade e excepcionalidade que se lhe conhece, géneros tão variados como o conto, a novela, o romance, o teatro, o ensaio, a crítica, a crónica, a tradução poética e alguma diarística, deixando inédita à data do seu falecimento parte considerável da sua obra proteiforme.

Por seu turno, Delfim Santos era, ao tempo deste encontro, doutor em Filosofia pela Universidade de Coimbra e com sete anos de estudos distribuídos pelas universidades de Viena, Londres, Cambridge e Berlim, incluindo prolongada docência na última destas, tendo já publicado ou vindo a publicar nos anos de convívio com Jorge de Sena a totalidade dos seus tratados filosóficos e grande parte dos seus ensaios, peças de oratória, apontamentos de crítica, intervenções de crónica, notas de memorialismo e deixando também inéditos alguns trechos diarísticos. Foram os seus talentos de escritor e de orador que o singularizaram e destacaram de entre o corpo docente da universidade lisboeta e lhe permitiram acompanhar os movimentos literários e artísticos que então surgiram, já que terá sido um dos primeiros mestres universitários, na tradição tão bem ilustrada por Leonardo Coimbra, a exercer um verdadeiro magistério extramuros – quer sobre os meios cultos da capital, quer sobre os estudantes organizados associativamente fora do espaço académico propriamente dito:

O seu espírito aberto estava atento a tudo o que fosse ou lhe parecesse ser manifestação de cultura, num desejo sempre vivo de a acolher, de a apoiar e de a estimular. Não se explicava de outra maneira a sua presença certa, quase infalível, em tantas actividades de tipo cultural dentro da Universidade como fora dela. Pode-se afirmar que não havia, na Faculdade como em qualquer outra instituição, conferência de interesse, colóquio, concerto, representação teatral, récita de poesia, exposição, a que o Prof. Delfim Santos não viesse assistir, quando ele próprio não colaborava na sua organização. E sabiam os conferencistas, os executantes, os expositores, os estudantes ou professores promotores da sessão que essa presença significava sempre, como conclusão, um comentário lúcido e estimulante – que transformava essa presença numa forma activa de colaboração. E o que se passava no interior da Universidade passava-se no exterior: ali onde qualquer manifestação cultural autêntica se realizava na vida de Lisboa, conferência, colóquio, concerto, representação, era quase seguro aparecer Delfim Santos. Foi esta uma das suas formas – e não a menos importante – de intervir na vida intelectual e artística de Portugal no tempo em que lhe coube viver.

A irreprimível tendência de ambas as personalidades, de Delfim Santos e de Jorge de Sena, para a intervenção cultural, no sentido mais amplo deste conceito, ditaria que o seu encontro no campo das letras ocorresse sob o signo da crítica, tanto a literária como a cinematográfica – precisamente o domínio, a par da crónica, em que essa intervenção alcança repercussão e audiência entre mais vasto público. Isto sem esquecer as inquietudes filosóficas do próprio Jorge de Sena que inauguram este carteio e que nele permanecem até ao final, com menções a Wittgenstein, Heidegger e a Jaspers, ou «a nítida e tão rara consciência da prioridade da técnica» que Delfim Santos demonstra para regozijo do seu amigo engenheiro.

O primeiro texto refere-se assim ao empréstimo a Jorge de Sena, por Delfim Santos, de um livro de Wittgenstein, filósofo sobre o qual o Professor trabalhara de 1935 a 1937 em Viena e Cambridge durante os seus anos de estudos como jovem bolseiro da Junta de Educação Nacional. Trata-se da edição bilingue do Tractatus Logico-Philosophicus, com introdução de Bertrand Russell, impressa em Londres em 1922, obra comentada por Delfim na sua Situação Valorativa do Positivismo, Berlim 1938. O pedido de empréstimo deste livro terá acontecido durante um encontro ocorrido nos cafés e tertúlias do Chiado, espaço cultural onde ocasionalmente se cruzam. É ainda uma mensagem formal na qual Jorge de Sena trata Delfim Santos por «Sr. Dr.», tom que precede a «melhor camaradagem» que se irá depois construir com afinidades rapidamente confirmadas: no ano seguinte Delfim é já para Sena «meu caro Amigo» numa carta em que este lhe pede informações para uma bolsa destinada a um colega engenheiro. Jorge de Sena expressa aqui uma preferência pelos Estados Unidos como destino de estudos para o seu colega, país onde mais tarde se irá radicar e onde se sentirá, de acordo com o seu epistolário de então, mais europeu do que nunca. A carta de pormenorizada informação com que Delfim Santos acedeu a esta solicitação não foi encontrada no Arquivo Jorge e Mécia de Sena.

Ainda nesse mesmo texto Jorge de Sena interessa-se pelo anunciado ensaio de Delfim Santos sobre Nietzsche, que não veria a luz nem no Litoral nem em qualquer outra publicação. Autor que Delfim já refere pelo menos desde 1930, o seu interesse pelo grande solitário de Rócken é atestado pelo facto de se ter tornado membro da Sociedade dos Amigos do Arquivo Nietzsche em Weimar durante a sua primeira estada na Alemanha em 1936 e de ter trocado nesse ano correspondência com Karl Schlechta, o editor da obra do filósofo germânico, a propósito de projectos de trabalho que lhe foram sugeridos pela leitura da correspondência entre Nietzsche e Gersdorff. Em 1943, Delfim Santos considera Nietzsche, além de credor de grande dívida por parte da moderna psicologia, um precursor da análise caracterológica e valoriza-o depois como prenunciador do existencialismo. Em 1951, Nietzsche é ainda mencionado por Delfim na resposta ao inquérito de Jorge de Sena aqui reproduzida, mas no ano seguinte comenta O Anticristo com reserva e prudência, lamentando a ausência na edição da Guimarães de uma introdução ou apresentação destinada ao público português. Ainda em 1952 este «homem revoltado» será por ele lembrado como um dos inspiradores de Hermann Hesse, autor tão caro a Delfim e com quem ele conviveu na Suíça, trocando depois correspondência conducente à tradução portuguesa de algumas das suas obras. Se Delfim não chegou a publicar o seu projectado estudo sobre Nietzsche lá, manteria um interesse constante não só pela obra do filósofo alemão como também pela influência por ele exercida sobre outros autores do século xx. E um desses influenciados será precisamente Jorge de Sena, que o encoraja nestas cartas a escrever a apologia nietzschiana e cujo interesse pelo pensador germânico o levará a traduzir, já nos anos 70, alguns dos seus poemas filosóficos.

Entre ofertas de livros por parte de Jorge de Sena e agradecimentos de Delfim Santos surge, em 1951, o polémico Inquérito sobre a obra de André Gide conduzido por Jorge de Sena com «cinco traiçoeiras perguntas» (no dizer do próprio) dirigidas aos intelectuais portugueses e cujas respostas seriam publicadas na Unicórnio, Antologia de Inéditos de Autores Portugueses Contemporâneos, a famosa revista em cinco números criada por José-Augusto França e sucedida pela Bi-, Tri-, Tetra- e Pentacórnios.

Fora o célebre escritor gaulês o nome maior do grupo de autores reunidos em torno da Nouvelle revue française e publicados pela casa editora parisiense Gallimard, que lograram impor na literatura francesa temática inovadora e renovada estética, comparável à influência em Portugal exercida pela revista coimbrã Presença, esta aliás fortemente inspirada por aquela. A uma obra de notável ressonância adentro e além das fronteiras do seu país, Gide juntara um toque de escândalo pelas suas viagens ao Magrebe em busca de prazeres pederásticos e pela expressa apologia destes no seu manifesto político-erótico Corydon, sendo pois um autor maldito para a moralidade burguesa oficial, circunstância que Jorge de Sena previsivelmente valoriza e explora com remoques a moralistas e a comunistas (dois dos seus alvos predilectos) no preâmbulo do seu Inquérito.

O facto de Delfim Santos juntar às suas respostas as da quase desconhecida Manuela de Sousa Marques, gideana entusiástica – proporcionando assim à revista uma inesperada leitura feminina (que a ser publicada teria sido aliás a única) de uma obra eminentemente masculina e escrita para um público masculino – porém omitindo a sua ligação sentimental com a respondente, com quem viria a casar em 1957 após longo namoro de uma década, iria causar alguns desenvolvimentos incómodos já que Jorge de Sena, insciente do interesse pessoal do seu amigo na «colega» (tal como Manuela lhe fora apresentada) acaba por sugerir uma solução editorial que desagrada fortemente a Delfim, que a ressente como discriminatória e desmerecida. Pesava em favor do texto intruso a qualidade e desenvolvimento das respostas provindas de uma professora de Literatura que, além do mais, redigira, segundo o mesmo Delfim, um texto mais interessante do que o seu próprio e pelo menos tão importante, em seu entender, quanto o de Eduardo Lourenço. Para a apreciação que Jorge de Sena faz das respostas de Delfim Santos veja-se a súmula apresentada em anexo ao presente volume.

Manuela de Sousa Marques fora aluna de Delfim Santos logo no ano lectivo de 1942-1943, quando o jovem filósofo, então com 35 anos, se estreava na universidade portuguesa após cinco anos no leitorado português em Berlim. A germanista completou a sua licenciatura em Julho de 1946, com 19 valores, apresentando uma tese sobre A Crítica Literária no Romantismo Inglês e Alemão (Primeiras Fases), orientada bibliograficamente por Delfim Santos. Formada pelo grande mestre alemão Wolfgang Kayser, um dos pais fundadores da germanística portuguesa, sucedera ao seu antigo professor na regência das cadeiras de Literatura Alemã na Faculdade de Letras de Lisboa quando este fora afastado no pós-guerra por motivos políticos. Aí ensinaria de 1947 a 1951, ano em que foi dispensada pelo director da Faculdade, João António de Mattos Romão.

Especialista em Kleist e em Novalis, grande apreciadora de Thomas Mann e de Hermann Hesse, após o abandono forçado da vida docente Manuela consagrou-se às traduções e será em 1952 a primeira tradutora portuguesa de Hermann Hesse por mediação de Delfim Santos junto do escritor. Casará em 1957, como foi dito, com o seu antigo professor, em segundas núpcias deste, de quem enviuvará em 1966. Recorda sempre uma visita que o casal Pinto dos Santos fez a casa dos Sena no Restelo, acompanhados por amigos comuns e contertúlios. Sobre Mécia de Sena costuma dizer: «- Se Rilke a tivesse conhecido, tê-la-ia incluído no seu elenco das grandes amoureuses da história da literatura mundial. Pouquíssimas viúvas sequer sonharam fazer o que ela conseguiu realizar pela obra do marido».

A supressão do texto não solicitado resolverá o problema das hierarquias entre intelectuais e rapidamente as relações dos dois amigos retomam o calor de antes. Pouco tempo após o incidente já encontramos novos pedidos de livros e manifestações de solidariedade de Jorge de Sena suscitadas pela contumaz e surda perseguição que, a partir de 1947, é movida a Delfim Santos pelo já mencionado director da Faculdade de Letras da capital, João António de Mattos Romão, tornada agora pública em episódio ocorrido na conferência a que alude Jorge de Sena e agravada por panfleto anónimo de um colega seu sequaz, Artur Moreira de Sá, também citado em termos jocosos na solidária missiva de Sena. Uma constante de Jorge de Sena que encontramos nos seus carteios é essa imediata solidariedade com os seus amigos quando estes são alvo de perseguições e vindictas, e a quem ele escreve incontinenti uma palavra propícia de reforço e de alento.

O ano de 1951 marcou também a estreia de Jorge de Sena no teatro e Delfim Santos escreve entusiástica crítica a O Indesejado, a tragédia seniana em verso à moda clássica. Encomiástica é também a apreciação de Jorge de Sena ao ensaio de Delfim Santos sobre formação profissional.

Igualmente em 1951 o cinema entra em cena neste diálogo: exercendo ambos a crítica literária, os dois se encontram agora na crítica de cinema (ou «comentário», como prefere Mécia de Sena, com um sentido menos técnico) quando para tal são convidados pela dupla Guilherme Filipe e José-Augusto França, que promoveu no Cinema Tivoli, através do Jardim Universitário de Belas-Artes (J.U.B.A.), um famoso ciclo de grandes filmes acompanhados pelo crítico que, presente na sala, lia o seu texto à audiência antes da sessão. A iniciativa decorreu de 1949 a 1955 com forte impacto na vida cultural de Lisboa. França escreveria a propósito que esta conjunção de filme e crítico tinha lugar…

todas as terças-feiras, que assim “clássicas” iriam ser chamadas, com comentários lidos pela melhor gente de Lisboa, escritores, artistas, professores, médicos, advogados, altas personalidades da vida nacional, Vieira de Almeida, António Sérgio, Aquilino, António Pedro, Ferreira de Castro, Namora, Paço d’Arcos, Régio, Gaspar Simões, Casais, Sophia, Sena, Santana Dionísio, Marinho, Pomar e até o Stuart, tal como os professores Delfim Santos ou Barahona Fernandes ou Fernando Fonseca ou Galvão Teles […] por mais sítio nenhum podiam assim eles passar, diante de um público cinéfilo e não só…

Delfim Santos colaborou por cinco vezes no ciclo dos Filmes que não [se] esquecem comentados por escritores e críticos de arte e Jorge de Sena triplicou esse número de participações. Porém, o comentário ao filme de Cocteau agendado para 29.05.1951 e aqui mencionado como destinado a Delfim Santos acabou por ser entregue a Adolfo Casais Monteiro, seu antigo condiscípulo da Faculdade de Letras do Porto, provavelmente por este conhecer bem a obra literária em que o filme se inspirava.

Poucos meses antes, na sessão do J.U.B.A. de 13.03.1951, um comentário de Adolfo Casais Monteiro fora precedido pela apresentação por Jorge de Sena da sua tradução portuguesa de Le retour de l’enfant prodigue, de André Gide, exactamente dez dias antes de ele vir a lançar o inquérito gideano acima referido.

Por fim, ainda em 1951, em 23.10, durante uma das terças-feiras clássicas, sendo comentador José-Augusto França que apresentava Orphée, também de Jean Cocteau, foi distribuído à porta do Tivoli um volante assinado por Mário-Henrique Leiria e Mário Cesariny, ambos pertencentes ao movimento surrealista que França integrara e onde aqueles, em aparente ruptura com este, aludiam especificamente a Delfim Santos devido à visibilidade e sucesso das suas palestras cinematográficas. O panfleto terminava com «[os signatários] desejariam tornar-se normalmente assíduos aos chás dos Senhores Doutores Mário Dionísio, Delfim Santos e Da Costa Braga. O Doutor José Augusto França já tem menos que esperar; já têm por aí um peixe frito» e ficaria conhecido como Manifesto do Peixe Frito.

Uma coincidência de gostos cinéfilos entre Delfim Santos e Jorge de Sena deu-se com The River, de Jean Renoir, estreado em Portugal no Cinema Éden em 09.01.53, acerca do qual Delfim Santos deixou anotações e Jorge de Sena declarou tratar-se de «uma obra-prima inultrapassável» da qual leria o respectivo comentário na sessão do J.U.B.A. de 24.11.53. E será um dos «dez filmes da vida» de Jorge de Sena que irá merecer um texto de Delfim Santos, desta vez para ser lido antes da sessão de 21.01.54 no Cinema Império: Umberto D., a obra de Vittorio De Sica que Delfim Santos credita como uma evolução da estética neo-realista para o puramente existencialista.

O que ambos procuravam com os seus comentários não era certamente a erudição fílmica mas antes a integração do cinema nas grandes temáticas filosóficas, históricas e literárias da cultura do seu tempo – se a Sétima Arte como produto de consumo lúdico era crescentemente popularizada pela sedutora, mas aparente, imediatez do seu acesso, esse sucesso exigia algum enquadramento cultural. Delfim Santos irá ainda explorar o seu potencial educativo em situação escolar e ao fazê-lo prenuncia a sua acção na década seguinte como pioneiro na promoção em Portugal do audiovisual como meio pedagógico.

Regressando à literatura, lemos que já a partir de 1951 as teses de Jorge de Sena sobre Camões são conhecidas e anuídas por Delfim Santos. E se Jorge de Sena aparentemente toma a reserva de Delfim Santos, quanto ao subtítulo do seu trabalho, como um reparo por ele não se enquadrar no género ensaístico, não seria essa a causa das reticências do Professor que antes sugere que um ensaio dialéctico revelador de Camões é algo muito diverso de um ensaio revelador da dialética camoniana. Quando três anos depois, a 06.04.54, os dois amigos se encontram, Delfim Santos está ainda sob a forte sugestão da exegese camoniana de Sena, conforme este regista em passagem do seu Diário.

A quádrupla presença de Delfim Santos nos Diários senianos de 1954 tem sabor de coincidência e de imprevisto: um encontro ocasional no Chiado, um outro na preparação de um leilão de livros, um terceiro no aeroporto de Lisboa e o último na estação da Campanhã. São anotações impressionistas e relatos de conversas corridas, nomeadamente sobre o Brasil, de onde o comum amigo Casais Monteiro decide já não voltar e que começa a interessar cada vez mais Jorge de Sena, anunciando a sua própria migração para a América portuguesa.

Em 1955, Delfim Santos não adere às Evidências, o que parece desagradar a Sena, que anota na carta recebida: «sem resposta». Próprio de Delfim Santos como crítico é a extrema franqueza nas apreciações que faz, às quais as relações pessoais de amizade ou simpatia, ou as opostas, nunca se sobrepõem. E esta sua valoração menos entusiástica vem reforçar e corroborar a sinceridade dos seus juízos passados e das suas anteriores consonâncias.

Em 1957 há ainda ecos de projectos editoriais em torno da tradução das novas enciclopédias alemãs para, segundo Jorge de Sena, se abrirem perspectivas a «este país de catolicismo tacanho e analfabeto» e por fim, em 1958, ano de grandes convulsões em Portugal, Sena estranha que o amigo se mantenha alheio ao mundo da política – posição muito radicada em Delfim, rigorosamente descomprometido quer com a Situação quer com a Oposição de então.

A última mensagem, em forma de dedicatória, vem evocar essa «velha simpatia e a melhor camaradagem» de pelo menos dezasseis anos e é já da época da ida de Jorge de Sena para o Brasil, gerando-se depois uma distância que desataria os nós da vida cultural lisboeta que durante quase duas décadas os haviam ligado.

Quando em 1966 José-Augusto França pergunta por carta a Jorge de Sena se ele «- Soube da morte (coração) do Delfim Santos, em Setembro?», o autor dos Sinais de Fogo respondeu: «- Soube, sim, da morte do Delfim Santos. Mais outro que morre de frustração portuguesa». Certamente evocava o Poeta o amor tão pouco retribuído dele próprio e de Delfim à cultura, ao pensamento e às letras portuguesas – um e outro aguardam ainda o reconhecimento que lhes é devido, entre tantos motivos, pelo seu pioneirismo, pela sua ousadia, pela sua frontalidade e sobretudo por essa tão fértil atitude de exemplar inconformismo e perdurável esperança, sempre iludida e sempre forçosamente adiada, num Portugal que pudesse ser realmente digno dos seus escritores e pensadores.

 

Auckland, Agosto de 2011.

* Jorge de Sena Delfim Santos Correspondência 1943-1959. Organização, estudo introdutório e notas: Filipe Delfim Santos; Apresentação: Mécia de Sena; nota complementar: José-Augusto França