20. Do Encantamento do Homem ou de Inglaterra Revisitada para Mécia de Sena.

Paula Gândara
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Westminster Bridge Road, Londres, 1952

No diapasão dos escritos pessoais, a ensaísta debruça-se sobre a correspondência trocada entre Jorge e Mécia nos idos de 1952, quando o escritor visitava pela primeira vez a Inglaterra, graças a um estágio de engenharia em Londres.

Neste estudo iremos destacar o conjunto das cartas privadas trocadas entre Jorge de Sena e Mécia de Sena durante as duas estadas de Jorge de Sena em Inglaterra, 1952 e 1957 por contraponto ao conjunto de cartas que se pode encontrar em Inglaterra Revisitada; conjuntamente com duas palestras intituladas “Viagem à Volta da Literatura Inglesa com Algumas Incidências Sobre a Situação da Cultura” e “Inglaterra Revisitada”, ambas proferidas no Instituto Britânico do Porto a convite da Associação Luso-Britânica. São seis as “Cartas”, escritas entre 17 de Outubro de 1952 e 28 de Novembro do mesmo ano e foram concebidas para ser objeto de leitura num programa de rádio da BBC intitulado “Programa de Língua Portuguesa”, que passava aos Domingos, às 19h e 30mn.

As cartas privadas – assinaladas nas notas como c.p. – são em número de 18, escritas entre 15 de Outubro de 1952 e 18 de Novembro do mesmo ano. Trata-se de uma série de epístolas muito particular, devido ao caráter essencialmente privado que as reveste. Nestes textos, Sena deixa transparecer uma interioridade que nos seria de todo desconhecida caso observássemos apenas “Cartas de Londres”. É particularmente na comparação que nos damos conta de uma diferença de tom inesquecível, não apenas pela gravura de um amor pleno entre os interlocutores – situação que abordaremos como enquadramento da situação – mas também pela imagem de um Jorge de Sena profundamente humano na sua fragilidade. Não há, nestas cartas privadas, nenhuma informação sistematizada que nos pudesse interessar no seu rigor ou um hábito de observação discriminada que viesse suprir algumas possíveis falhas de “Cartas de Londres”. Não existe um público leitor e como tal não se apresentam trechos de valia social ou de testemunho histórico mas deparamo-nos com as confissões, inesperadas ou não e com a consciência livre do homem que por uma vez, escrevendo, não é escritor.
Não consideraremos a questão da literariedade destas cartas que no presente contexto se apresentaria fútil. Cremos ser condição suficiente para nos determos nestas missivas o padrão consistente da escrita em que se desenrolam. Assinalamos, no entanto, o nível de auto-consciência quase débil, quase rudimentar que perpassa estas cartas. A escrupulosidade do seu Autor assenta numa série de proposições, respostas e desejos mal contidos que vão estuando e contendo a situação e a experiência presente da primeira pessoa do singular.

No momento em que aceitamos estas cartas como parcela de um estudo e concordamos com a sua capacidade de relação com as “Cartas de Londres” estamos, igualmente a expressar a nossa crença que, entre elas, “Cartas de Londres” e cartas privadas, existem modos de inter-explicação, trechos contrastivos de um sentido de vida, projecções do eu como ator e autor da escrita. E assim sendo devemos conceder a Jorge de Sena, em ambos os conjuntos de cartas, um estatuto que nos conceda a distinção mental necessária à compreensão da prosa de uma personagem que, no contexto histórico, escreve, e de um homem que, numa paleta auto-circunscrita, se entrega a um exercício que é quase da ordem da diarística. Nessa tarefa predomina a sinceridade espontânea, o à-vontade que transparece num quase que desleixo formal pela força dos depoimentos emocionais que estas cartas privadas constituem.

Uma correspondência revela melhor que uma obra a individualidade, o homem. […] [u]ma vida que se confessa constitui o estudo de uma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos, alarga o nosso conhecimento do homem.

Trechos como este justificam o título do presente estudo; ir um pouco além da obra, porque “[d]ir-se-ía que dirigir-se o inibe, o limita, lhe põe na boca uma mordaça” – são palavras de Adolfo Casais Monteiro no seu prefácio às Cartas Inéditas, de António Nobre, e que nos serviriam bem como desculpa para este trabalho, caso se necessitasse. Pretendemos ir além do que Sena diz e não diz e alcançar o terreno movediço da humanidade de alguém que está sujeito a uma série de circunstâncias, de movimentos que não se podem controlar e que, tantas vezes, não há como evitar. Não procuramos segredos que não se quereriam revelados nem observações exóticas. Leva-nos sim o desejo de explicitar aquilo que apenas se pode intuir em Inglaterra Revisitada e mostrar o Autor segundo essa faceta que ele próprio procura tão desesperadamente nos outros: a humanidade. Esta característica dificilmente se encontraria ausente de Inglaterra Revisitada, porém, o grau em que ela lá se encontra é forçosamente diferente do que se encontra nas paralelas cartas privadas. Nestas, Sena dá vazão a tudo o que transborda em si. A impersonalidade ou pelo menos a consciência de uma certa representação está aqui quase que completamente ausente, e se dizemos quase, isso deve-se ao grau de representação sempre implícito na escrita, pois que ao escrever sempre nos distanciamos de nós. Dizer que “[a]ll works of art are founded on a certain distance from the lived reality which is represented” talvez seja suficiente para que se entenda esta Inglaterra Revisitada tão distante da Inglaterra das cartas privadas, pois que essa distância trás em si o germe da ligação com o mundo e o afastamento de um certo sentimentalismo que é, em si, a passagem para o mundo interior do Autor, das suas angústias privadas. A distância retira-lhe todo o possível caráter confessional, toda a impotência das constatações que se fazem no mundo dos afetos e possibilita-lhe o aspecto funcional que lhe vem de ser consciência viva de uma realidade a ultrapassar. Susan Sontag considera essa distância como marca de estilo, porém, ao atentar nessa posição de um ponto de vista teórico em que o estilo se apresenta como manipulação da vontade do autor, então, a obra em si ganha o caráter simultâneo de objeto e função. Uma função que está de acordo com as características que se emprestaram à obra enquanto objeto de trabalho. Perguntamo-nos então qual a função deste conjunto de cartas privadas em que a escrita se encontra tão profundamente desligada de qualquer preocupação de estilo. A marca destas missivas parece ser a da sua inevitabilidade. À medida que se vão lendo, elas demonstram-se quase fatais, e é esta a sua consistência. Sem função pública esta escrita perde a ligação a uma história geral para funcionar única e exclusivamente dentro da história pessoal do seu Autor. Nesta história procuramos as raízes da sua humanidade:

Why do we read a writer’s journal? Because it illuminates his books? Often it does not. More likely, simply because of the rawness of the journal form […]. Here we read the writer in the first person, we encounter the ego behind the masks of ego in an author’s works.

Procuramos o sujeito atrás do autor, buscamos a entidade que se esconde atrás da identidade, porque, segundo Sontag, nos move o desejo de descoberta da alma do autor. E não utilizaríamos alma para descrever um conceito que ultrapassa o nível do consciente. Alma, implica, quanto a nós, a ideia de uma certa antroposofia, a crença num mundo supra-sensível que uma parte do homem poderia alcançar. Parece-nos, no entanto, que se indaga apenas por um fluir duma zona do intelecto que encontra as suas raízes no estudo da psicologia. A psicologia, de novo segundo Susan Sontag, seria a disciplina da equação do eu e do eu sofredor, a contraparte do artista que sublima as suas emoções através da escrita. E assim temos o homem e o escritor em Jorge de Sena, não como duas personae mas como dois pontos de reflexão distintos: de um lado, a utilização da experiência pessoal para alcançar o social, a que separa o objeto do sujeito e que exerce sobre si a ponderação necessária à sua mediação efetiva com o receptor e, do outro lado, a experiência pessoal como exortação retrospectiva. O foco passa a exercer-se sobre a interioridade, os sentimentos, o amor. Como se se considerasse uma escrita para a vida enquanto objeto e outra para a vida como parte integrante do quotidiano.

Se aceitarmos que a literatura é uma criação social e uma imitação no sentido aristotélico ficamos com uma hipótese das “Cartas de Londres” como imitação da vida e com as cartas privadas como expressão fulcral do eu do Autor, se se quiser, como imitação de si.

O interesse que estas cartas nos suscitou radica essencialmente na reflexão elaborada sobre um facto que Eduardo Lourenço apontava no prefácio à Correspondência com Jorge de Sena. Diz ele:

Do perfil literário e humano de Jorge de Sena faz parte uma certa indiferença ou voluntária prática provocatória de confundir até aos limites do possível os domínios tidos como privado e público. Jorge de Sena quis-se e viveu-se, tanto quanto é possível, como personagem sem interioridade.

A leitura deste excerto e o seu confronto com a obra seniana não nos permite negar a evidência. Quase sempre se podem traçar os caminhos da obra para o Autor e vice-versa. Porém, à laia de exceção, encontramos as “Cartas de Londres” quasi lição de obra autônoma e discreta em que o emissor se distingue do Autor. As cartas privadas não nos surgem intrínseca e romanticamente válidas como prática introspetiva mas como fonte de informação válida do ponto de vista exegético.

Desde a Antiguidade Clássica que a epístola tem sido objeto de estudo e sistematização e considerada como fonte de interesse sob várias perspectivas. Com Horácio e Ovídio pode-se considerar a existência de dois tipos de cartas; um, versando as que representam um interesse moral e filosófico, outro, de feição puramente sentimental. Mais tarde, ambas produziram vários tipos de reflexos, a última nos preceitos de amor cortez, por exemplo, e a primeira nas epístolas que caracterizaram o interesse humanista do renascimento. Falar da utilização desta estrutura formal no campo do jornalismo não nos é aqui permitido por falta de tempo mas não esqueçamos que as Cartas se compõem como emissões radiofônicas. E devemos referir brevemente a sua utilização no mundo ficcional de Eça de Queiroz, por exemplo e em obras do século XVIII como Pamela e Clarissa bem como, paralelamente, o seu uso com o intuito de conferir maior verosimilitude aos relatos de viagem tão em voga na época.

Andrée Crabbé Rocha define epístola nos seguintes termos: “A carta é um meio de comunicar por escrito com o semelhante. […] Communicare não implica apenas uma intenção noticiosa: significa ainda ‘pôr em comum’, ‘comungar’.” De seguida, passa Crabbée Rocha a uma análise estrutural da carta em que considera não somente a sequência quando?, onde?, a quem?, o quê? e por quem? como não negligencia o lugar, a data, o destinatário e a assinatura como fatores de importância. Ora é justamente porque a carta congrega em si a função de comungar que neste conjunto de cartas privadas elas nos surgem como parâmetros de análise já que o Autor comungará de modo forçosamente diferente com sua mulher, Mécia de Sena, destinatário explicíto, do que com um público anônimo, destinatário virtual. E desde já o factor a quem? se desvela como ponto de diferenciação entre os demais. Quando? e onde? As cartas encontram-se datadas de 15, 17, 19, 20, 22, 25, 29 e 31 de Outubro de 1952 continuando a 1, 5, 10, 11, 12, 13, 14, 16, 17 e 18 de Novembro de 1952. Apesar das datas, as cartas são escritas diariamente – “Terás ao menos recebido com regularidade as minhas cartas diárias?” . Os intervalos entre os dias correspondem a uma carta que se iniciou, por exemplo, a 15 e que se terminou no dia 16 ou 17. A regularidade da escrita destas missivas permite-nos elaborar uma associação com a escrita diarística que aliás o Autor corrobora – “depois que suspendi o ‘diário’, ontem”. Este facto, que poderia indiciar um carácter monologal nestas cartas é, porém, sinônimo de uma situação distinta. As cartas que se vão escrevendo são não apenas a reafirmação de um afeto profundo mas o estuar de uma ligação entre duas pessoas em que uma se apresenta à laia de alter-ego da outra. Mécia de Sena é, nestas cartas, a figura da recepção perfeita pois que falando para ela Jorge de Sena fala com a naturalidade com que falaria para um reflexo de si: “Tu muitas vezes reages contra a minha insistência em partilhar tudo contigo – a mínima coisa de que goste, em que pense ou me prenda a atenção” e, “as saudades que tenho de ti. É uma coisa como não ter fala, estar paralisado, andar numa espécie de pesadelo surdo.” A Inglaterra que Sena assim percebe é vivida então como numa espécie de falta de sentidos e de movimento. Palavras empoladas pelo amor, sem dúvida, mas que se repetem demasiadas vezes para que estejam desprovidas de sentido, mero exagero de amantes. Sabemos assim da importância deste destinatário no mundo de Jorge de Sena, e esta importância é significativa porque apercebida na ausência ela é razão de um olhar mais rico, pois que é necessário transpor para o papel tudo aquilo, de material e sentimental, que vai experienciando o Autor. Assim se escrevem estas cartas não apenas de Londres ou Northampton mas “No comboio a caminho de sw Northampton, 6a feira, 12h, 17/10/1952” pela urgência da escrita, pela impossibilidade do adiamento da afazia que assim se quebra. Momento da fala indispensável à compreensão do mundo no momento exato, “6a feira, 12h”, ao ser assim explícito permite a concretização mais efetiva de uma ausência que corre o risco de se desvanecer na distância mal pressentida, lugar quase irreal pela desagregação imanente de um ser que, aí, no apartamento, se não concebe na totalidade.

E voltando à sequência proposta por Crabbée Rocha veja-se por quem? e o quê?. Estas cartas privadas são escritas por Jorge de Sena, claro, mas por um Jorge de Sena que escreve não as “Cartas de Londres” mas “só para ti” . E esta proposição é fundamental no sentido que vai influenciar de modo notável o ponto que a seguir nos ocupará; o quê?. O Autor escolhe, exerce livremente a sua vontade e promove o discurso como sendo uma escrita de instauração deliberada – e note-se que, condicionado pelo seu destinatário, Sena fala, ouvindo-se. Seguindo a aproximação da epistolografia a um exercício da ordem da diarística vamos um pouco mais longe e aproximemos a carta a uma espécie de espelho em que o Autor se revê e não se apaga. E quando o ouvimos confessando as saudades que tem de sua mulher podemos talvez compreender um pouco melhor o quanto de reflexo se pode encontrar numa carta: “Como anseio por notícias tuas, como anseio por ti, pelo teu corpo, pela tua voz, pela tua presença, pela tua alma tão grande que caibo nela com a minha miséria!”. A carta toma o lugar da presença e a escrita substitui o corpo e a voz, e tal como Jorge de Sena assim sente a carta alheia, assim será a sua e como corpo e voz que é, espelho do autor, desvelo subjetivo, estas cartas primam pela sinceridade. Num estilo que ora segue simplesmente o multiplicar dos assuntos que se vão versando ou se demora em elocubrações líricas provocadas pelos arroubos de amor e saudade é sempre na naturalidade que segue este discurso quotidiano. Chegamos assim, finalmente, ao problema do conteúdo destas missivas.

A minha vida aqui é esta: levantar às 8 menos ¼, tomar o breakfast (chá com leite, sausages, pão com manteiga, só três fatias) e ir apanhar a camionete às 9 menos 10. Depois […] trabalhar até às 5 e 25, hora a que lavo as mãos (?) para apanhar a camionete que me deixa na cidade 15 minutos depois.

A citação corresponde a um trecho em que Sena expõe, metodicamente, todo o seu dia. Prossegue neste tom, relato fiel e pormenorizado que o ocupa com relevância. Uma descrição pautada por interrogações quanto a pormenores práticos ou anseios quanto ao estado de saúde dos que o preocupam e, ainda, como já mencionamos, por momentos de pura manifestação amorosa. Até aqui, sem surpresas. É depois, quando estes pormenores quotidianos se começam a alargar à sua vivência em Inglaterra, país estrangeiro que almejava desde sempre e que se visita pela primeira vez, que o retrato do país começa a apresentar divergências por comparação com as cartas públicas. Repare-se que o Autor perdeu o interlocutor das “Cartas de Londres”, Portugal e os portugueses, e com ele, a sua responsabilidade testemunhal. Vejamos então alguns dos assuntos tratados em ambos os conjuntos de cartas e a diferença de tratamento entre eles.

O carácter inglês, o traçado urbano de Londres e as artes são domínios em que o Autor se detém para exaltar o respeito pela privacidade e as crenças de cada um, descrevendo uma cidade que é o espírito de um povo crente na liberdade e no respeito pelos direitos humanos. Uma imagem que compara, implícita e explicitamente, a um Portugal em decadência, doente, afastado dessa cidade esplendorosa e única, não apenas na distância física que o mar aprofunda mas também, e principalmente, numa estrutura social que dificilmente sonharíamos em igualar. A primeira carta privada, datada de “London, 15 de Outubro de 1952”, reflecte ainda e sem sobressaltos a imagem a que nos habituaramos em “Cartas de Londres”:

Londres é uma terra monumental com edifícios ora de gótico-ferroviário, ou modern-style-avenida-dos-aliados, ou “Rowing Street” [sic] das fotografias de Churchill à porta. […] [U]m mínimo de frio, com Sol [sic] e neblina, que dá uma luz velada, parda e dourada que não deve haver em outra parte. E o movimento das ruas é mais sereno e pomposo que o do Rossio à tarde.

E em “Cartas de Londres”

Uma luz em que tudo se desfaz e dilui, e nada tem forma ou cor segura. Uma luz afinal como a de Londres, mas transformada em tintas sobre a tela. Porque a luz de Londres enevoada, com um sol dourando espectralmente os edifícios […] é, embora com modéstia, esta luz matutina.

Fala-se da mesma diversidade da urbe, a mesma beleza de uma luz singular, a imagem simbólica de um Churchill em Downing Street, e a comparação inevitável com um Portugal cuja imagem é sempre, de algum modo, inferior. Esta primeira carta é ainda a escrita da primeira impressão, sem interferências dos acontecimentos e das relações pessoais que com o tempo ensombrarão esta Inglaterra idílica.

A carta seguinte introduz o assunto das “Cartas de Londres”, o convite pela BBC e o início dos mínimos problemas de trabalho no estágio de engenharia, que justificava esta viagem – “É nítido o propósito de contrariar, ter em suspenso, não é?” O estágio, que não demoraria mais de duas ou três semanas parece ir prolongar-se por seis ou oito, as entrevistas demoram e o ‘Sr. Draper” que parece ter um “prazer especial em mandar as pessoas à última hora para ‘cascos de rolha’” são contrariedades que se repetem, com pequenas variantes. Vamos assim encontar, em carta datada de 20 de Outubro de 1952, os primeiros sinais de uma entropia cujos sinais mal se percebem nas “Cartas de Londres”:

Fui dar com o nariz na porta da Torre de Londres, que está fechada aos domingos “during the Winter” – lá como cá. Tenho comido sempre que possível na cantina da BBC no bloco monstro que é Bush House e lá jantei ontem às 6 horas, que é a hora a que esta gente janta […]. Aproveitei para, sem grande proveito, ir à National Gallery, onde no fim de uma hora eu já não podia mais com génios de pintura.

E nas “Cartas de Londres”:

Para o português habituado à exiguidade das colecções, a Wallace Collection é o museu ideal de arte. Eu nunca fui ao Louvre, mas a sensação de asfixia deve ser como a que se tem na National Gallery. Tanta pintura – há sempre mais uma sala com quadralhões que a gente não viu.

A diferença de tom é evidente, a preocupação da comparação com o país de origem, que permanece ao longo de todas estas Cartas, condiciona o olhar e aquilo que na primeira carta é negativo é nesta fonte de exaltação perante um Portugal da exiguidade. A comparação entre os dois países que se apercebe num e noutro conjunto de cartas ocorre em moldes díspares. Lá como cá é a primeira das surpresas. A natureza da oposição nas “Cartas de Londres” ocorre sempre de modo negativo para Portugal, mesmo nas situações em que semelhante valorização poderia facilmente reverter para o lado contrário: “Serão estes fleugmáticos britões mais frios que os meridionais portugueses? Puro engano.” No universo privado a comparação deixa um Portugal que em alguma coisa se assemelha a Inglaterra, o horário de abertura ao público dos monumentos é lá como cá, ridículo.

No dia seguinte, o almoço será “um temporal desfeito”, por motivos de ordem econômica, que aliados a uma situação de trabalho cansativa, descrita como uma “jiga-joga” são motivos de um quase desespero. A mera descrição está aqui carregada de conotações negativas: o bloco monstro onde se almoça, esta gente. É evidente que não estamos perante um heterónimo do Autor em plena criação de dois universos absolutamente distintos, a asfixia da National Gallery assim no-lo mostra, mas no contexto da privacidade realçam-se caraterísticas que não só não faria sentido sublinhar nas “Cartas de Londres” – emissões radiofônicas que pretendem alertar o português médio para um situação ditatorial, essa sim verdadeiramente asfixiante – como não fariam sentido dentro da lógica de contéudo que as rege. Veja-se o seguinte:

Calcula tu que não há casa-de-banho nesta casa (como na maior parte das casas) e que o W.C. é uma casinha no quintal. Acrescenta a isto a ignorância de um objeto chamado “penico” ou de outro em forma de viola – e depois venham-me falar do comodismo dos ingleses e da sua limpeza.


Nas “Cartas de Londres” não encontramos menção a este assunto nem a outros de tipo tão íntimo. É na contextualização que se explicam as cartas privadas e nesse teor de um exercício íntimo e de uma história pessoal é que se pode compreender a disparidade das afirmações que surgem, aqui, sem reservas, num espaço de abertura plena ao seu destinatário. Finalmente, estas cartas são ainda uma imagem redescoberta da Inglaterra seniana. Esta sim, humanizada, em contraste supremo com uma Inglaterra quase ideal que transparece nas “Cartas de Londres”. Não são momentos de pleno enriquecimento moral que se pode buscar em qualquer pequenina situação quotidiana mas momentos banais, do espaço efêmero do dia-a-dia que se descreve sem objectivos de esclarecimento político. Veja-se o contraste entre as seguintes citações:

Estes bifes estão jantando (chá e um ovo estrelado), o irlandês diz parvoíces, e a telefonia grita música ligeira que o trio ouve com encantamento, não tanto que se não divirtam um pouco acerca da minha absorção, com que, sentado à mesma mesa, pois que não há outra te escrevo esta carta. A esta gente que nunca escreve a ninguém, nem pega da caneta, faz uma impressão […] que eu à noite escreva – escreva. Acham que eu sou pouco “social”, o que para os ingleses (que fora do trabalho não têm nada que fazer) é uma grande falta.

E nas “Cartas de Londres” repare-se bem no aproveitamento de uma situação comezinha para exaltar os valores da democracia contrastantes com a ditadura portuguesa, que assim, quase sem se notar, se fazia objeto de crítica:

Íamos, pela noite e o nevoeiro adiante, estrada fora, a caminho de Bournemouth […]. De súbito, numa curva da estrada, aparecem uma luzes vermelhas, e uns sinais. E o letreiro, muito grande, dizia: “Please slow men working” – “Por favor devagar – Homens trabalhando”. Quer dizer: não se avisa o motorista do perigo de cair numa vala. Pede-se-lhe delicadamente que atente no que é mais precioso e respeitável: homens trabalhando. Poderá haver um mais nobre exemplo da grandeza deste país e desta gente, uma grandeza afinal intransmissível, que no entanto nos rodeia, nos domina e nos torna irresistivelmente seus?

Apercebemo-nos à primeira vista das diferenças de ênfase. Nestas cartas públicas faz ele ressaltar a “humanidade reservada e insular” , a “simplicidade civilizada”, a “privacy” e o “extraordinário sentido do cómico” do povo inglês, a “familiariedade circunspecta” a delicadeza e a discrição. Todas estas qualidades se conjugam para uma imagem de perfeito sentido público em que o objetivo de criar no receptor uma determinada consciência da realidade, mais sua do que propriamente inglesa, é um factor determinante. Nas cartas privadas em que não se pretende mais do que recriar a vida quotidiana numa tentativa de suprir a ausência, deparamos com a realidade do povo inglês. Não apenas com a “naturalidade educada” que parecia caracterizar inopinadamente todos os ingleses, mas com as pessoas, os que não escrevem, os que não sabem o que é um penico, os que tratam os outros como parte duma engenhoca. Encontramos os que se descreviam como o exemplo da verdadeira consciência da realidade, aqueles que se mantinham dentro dos “discretos limites da familiaridade necessária” por contraste com a excessiva exuberância dos latinos, encontramo-los agora “nesta terra [em que] não se pode bater à porta de ninguém.” E se se queixava da preguiça dos portugueses nas “Cartas de Londres” – “Não sei muito bem, porque não pensei nisso, qual seria outra maneira de resolver o problema, mas deve haver, com certeza, uma maneira muito melhor, portuguesa, de o não resolver”. – ouvimo-lo agora dando azas à sua indignação: “Lazy people é esta gente toda em Inglaterra, com uma arte para fingir que trabalha, sem que o finjimento seja para esconder, ora essa, até faz parte da dignidade do trabalho”.

Não se refreia em nada, mesmo quando se deixa levar por descrições que lhe lembram outra ordem discursiva é ele mesmo quem se trava a palavra:

"E as mulheres, tal qual como os homens, são empregadas dos transportes […] de calças. E todas fumam naturalmente. É fácil ver pela rua fora uma senhora requintadamente vestida, com o cigarro pendurado ao canto da boca. Mas eu não estou a escrever-te, meu amor, uma “carta de Londres”, mas uma de Northampton, só para ti.”

De um lado o homem, do outro o escritor, e não será demais insistir nesta dualidade que o próprio Autor reclama como se ele próprio sentisse a necessidade de demarcar um espaço do outro. De facto não se trata apenas de uma diferença do caráter da escrita, mas da vida de Sena, por essa Inglaterra em que na qualidade de “engenheiro-poeta” se vê repartido entre as obrigações e o prazer, por entre uma Inglaterra que ama e a saudade daquela que é a sua razão de viver: “No fundo tudo me maça e aborrece, nesta solidão infinita que é a minha vida fechada sobre si mesma, longe de ti.”
Realcem-se assim duas citações:

Um frio horrível. E este ambiente familiar de ingleses, que a primeira coisa que fazem é perguntar uns aos outros o 1o nome, para se tratarem como amigos de infância, que não são. Se esta volta é sempre assim … .

E

E pode parar-se num inn à beira da estrada, e, entre a lareira e a cerveja, conversar como amigos de infância com pessoas que nunca vimos nem tornaremos a ver… sem, previamente, termos feito apresentações e sem posteriormente, acabarmos, como em Portugal, fazendo confidências.

O facto relatado é o mesmo, porém, na primeira citação apercebemo-nos rapidamente do tom negativo, enquanto na segunda as mesmas circunstâncias ganham contornos positivos por comparação explícita com o ambiente em Portugal. De facto, o que acontece é que para além da categoria de Autor ou da sua voz enquanto homem com uma história individual, Jorge de Sena é sempre o observador. E como observador procede a uma avaliação da imagem captada, julga-lhe os contornos e coloca-a em perspectiva com o seu reflexo – pois que não esqueçamos que qualquer observador capta apenas uma parcela da realidade global. A partir daqui, conforme os resultados a atingir ou o contexto em que se insere, Jorge de Sena, abstrai-se, propositadamente, de dizer tudo – é a ausência de uma parte que permite a riqueza do significado. O significado do que se diz e o sentido que não se explicita fecham-se, por momentos, e o desafio toma corpo no poder dessa linguagem onde se procede a uma espécie de metamorfose da realidade: “Like the demon’s fantastic mirror, literature presents structured misreflections, which magnify or diminish certain aspects of reality, twist some or leave others out altogether.” O Autor escolhe, avalia e só depois se dispõe a escrever com a consciência plena da acção da escrita, colocando no tempo cultural e na continuidade das consciências momentos que, em si, não teriam como ultrapassar o carácter da efemeridade. Podemos até, talvez, falar de uma certa noção de decorum, na restrição das ideias e do tom, apropriados à consideração de um determinado receptor num determinado momento. E acima de tudo isto, conte-se com a importância do Autor face ao seu público leitor e o interesse que ele possa ter em preservar ou destruir a estrutura em que ambos se inserem. Digamos que se tratará de uma estratégia em que a posição pública do escritor obriga a um afastamento quase que total do seu mundo privado. E quanto mais política for a sua posição, no sentido de obcecada com a colectividade, mais traços individuais se perderão. E assim temos, de um lado, as cartas privadas, de outro, as “Cartas de Londres”: “na 2a feira gravarei a próxima palestra (a 3a). Espero que gostarás dela – francamente, são tão a correr… tão despegadamente das minhas preocupações pessoais – nem as releio, meto-as quando acabo, numa carta […], e pronto.”

Mas gostaríamos de fazer uma pausa, ainda que breve, e reflectir sobre esses traços distintivos-explicativos entre os dois conjuntos de cartas. Isto porque chegados aqui nada mais natural do que nos perguntarmos acerca da imagem de Inglaterra prevalecente para Jorge de Sena. Ora, a ilustração global que se pode apreender nas cartas privadas é ainda a da “terra da promissão” por contraste com um espaço coletivo português onde Sena não pode integrar-se, exilado no seu próprio país: “descobri, meu amor, que onde podemos ser felizes é aqui: nunca me senti tão bem em parte alguma do mundo, e onde é assim, é onde devemos estar.” Porque como ele próprio continua afirmando, a Inglaterra é o espaço da independência total, o lugar onde podia “testemunhar” de tudo o que tinha vivido – e não nos alongaremos sobre este conceito sobejamente desenvolvido por Jorge Fazenda Lourenço no seu estudo indispensável, A Poesia de Jorge de Sena: Testemunho, Metamorfose,Peregrinação – embora não possamos deixar de inserir a citação onde Sena discorre sobre este assunto a Mécia de Sena:

Não sei, meu Amor, se tudo o que tenho vivido pavorosamente e tudo o que tenho tido de tanto encantamento – tudo é para que eu testemunhe. Às vezes penso nisso – mas é tão terrível, que não pode pensar-se a sério, embora a viva com a honesta consciência de viver-se para isso. Eu desejo testemunhar – e a independência total que este lugar nos não dá ainda, tê- -la-emos alguma vez, meu Amor, como a entrevi aqui em Londres?


Em Inglaterra avistava-se a hipótese de ultrapassar esse exílio interno em que se debate dolorosamente em Portugal, aí, ele poderia, talvez, ser feliz e não o “ ‘duplo’ de outra pessoa” : “é-me difícil escrever no meio desta gente, sem escândalo – aqui uma pessoa que é escritor não é outra coisa, para poder ser nada à hora em que os outros não são nada.” Porque Jorge de Sena era ainda o engenheiro que nunca quisera ser. Inglaterra permanecerá, até ao fim, como o espaço do exílio ideal – se tal conceito existe fora do reino das especulações. Os desabafos e as queixas sobre esta Inglaterra terão sempre uma atenuante:

Porque isto, meu Amor, tirando o aturar patrões a armar em safados, é um encanto, de facto. O frio que só ontem começou ligeiramente não mais do que estará aí (e uma chuvinha hoje) suporta-se muito bem, com o conforto que aqui é a coisa mais natural do mundo, embora custe dinheiro.”


E de novo se deixa embriagar pela beleza de um Turner, pela qualidade dos espetáculos… e continuará traduzindo Graham Greene e sonhando o seu encontro com uma das suas admiradas escritoras britânicas, Edith Sitwell. Inglaterra permanecerá como o encontro esperado, fonte inesgotável de poesia e trabalho crítico que culmina nessa obra maior que é A Literatura Inglesa. Mas que se diga de um Jorge de Sena e de uma vida privada paralela à sua vida pública e à sua responsabilidade de testemunhar e que uma possa enriquecer a outra com as suas contradições e continuidades.

 

BIBLIOGRAFIA:

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* Paula Gândara é Professora de Estudos Lusófonos na Universidade de Miami