19. O Indesejado há 25 anos: textos no programa da 1ª encenação portuguesa

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Capa da 2a. edição (1974)

Escrita de dezembro de 1944 a dezembro de 1945, somente a 7 de agosto de 1986 a tragédia O Indesejdo sobe pela primeira vez ao palco em Portugal. Com encenação de Orlando Neves, música de Paulo Brandão e contando com o ator Sinde Felipe no papel do protagonista, integra o ciclo Retorno à Tragédia: O anel português, promovido pelo ACARTE, do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. Bem avaliada pela crítica, foi escolhida pela SEC como um dos cinco melhores espetáculos do ano.

Dos textos que figuravam no programa da peça, para elucidação do expectador, deixamos de lado as "Breves palavras vinte anos depois", que Jorge de Sena tinha anteposto à 2ª edição da tragédia (1974), e transcrevemos a seguir os depoimentos de Sophia de Mello Breyner Andresen e de Orlando Neves, bem como o ensaio de Maria Alzira Seixo localizando a tragédia no conjunto da obra de Jorge de Sena, numa extraordinária síntese.

 

De Sophia de Mello Breyner Andresen:

Conheci Jorge de Sena no Teatro de São Carlos durante o intervalo de um ensaio da orquestra portuguesa com um maestro inglês. Foi o Ruy Cinatti que nos apresentou, era o fim de uma tarde de inverno e os corredores estavam verdes de penumbra.

Pouco depois Jorge de Sena mandou-me a «Perseguição» e comecei a descoberta da sua poesia. Mas só voltei a vê-lo uns anos mais tarde quando, certa noite, ele apareceu em minha casa, com o Ruy Cinatti que, logo à entrada, anunciou que o Jorge ia ler o 1.o acto de uma peça sua, inédita, chamada «O Indesejado». O nosso maravilhamento foi tão grande que exigimos ouvir a peça até ao fim.
Nesse dia nasceu uma amizade que, como é saudável, começou no entusiasmo e na admiração. Meses depois organizei duas leituras desta obra. A primeira, em casa de Maria Alvito, a segunda, em nossa casa, já na travessa das Mónicas. Em ambas as leituras o público — constituído por pessoas de diversas «zonas culturais» —, seguiu os quatro actos, com crescente e apaixonada atenção. Isto me demonstrou a objectiva natureza teatral da peça e a sua capacidade de comunicação.

Quando «O Indesejado» foi publicado escrevi um artigo dizendo que tinha surgido uma obra-prima, uma das raríssimas obras-primas do teatro português. E também perguntando quando seria representado. Pergunta que, há longas décadas, venho repetindo àqueles que lhe poderiam dar resposta. Finalmente, surge a primeira representação. Espero que os actores possam pôr nela aquele rigor de dicção, aquela veemência, aquela violência, seca e contida, que Jorge de Sena punha nas suas fabulosas leituras — tão sóbrias, tão silabadas, tão nitidamente ritmadas, tão exactamente teatrais que nada interrompia a suspensa atenção dos ouvintes. E que, como Jorge de Sena, digam o texto vogal por vogal, sílaba por sílaba, verso por verso.
Como todas as obras que têm um carácter público — isto é, que se dirigem a uma comunidade — (assim são, por exemplo, a Divina Comédia ou a escultura de Olimpia) «O Indesejado» contém em si entendimentos diversos e subversivos.

Num primeiro entendimento «O Indesejado» é um drama histórico que tem por tema a luta do Prior do Crato e a sua derrota.

Numa segunda leitura é uma obra política onde a ocupação castelhana funciona como metáfora da ditadura salazarista. Por isso, «O Indesejado» denuncia o poder da força do dinheiro e da intriga e o enredo de oportunismos, deserções e renúncias e alheamentos através dos quais um povo aprende a desconhecer-se a si próprio. Mas «O Indesejado» é também a tragédia daquele que não consegue conquistar o próprio destino e não consegue ser o rei que era. Estamos, aqui, longe de Fernando Pessoa que fez da separação, da renúncia e da abdicação o seu reino. O Prior do Crato persegue sem tréguas o seu destino até aos seus últimos confins. O pano cai perante o corpo de um herói morto e destroçado que jamais renunciou à coroa que não conquistara.

Em nenhuma outra obra sua Sena está tão inteiro. Com o rigor e a veemência da sua inconfundível linguagem. Com a coragem de se opor às superstições literárias da época ao escrever uma tragédia histórica, em decassílabos e em quatro actos. Com o seu orgulho, a sua paixão, a sua áspera arrogância. Com a sua terrível obcecação de ser aquele que é separado e negado. Com o seu exigente e tumultuoso amor por uma pátria que, obstinadamente, não se reconhece a si própria.

É o Prior do Crato mas é, igualmente, Jorge de Sena quem na peça diz:

Também
A terra portuguesa vós não tendes
Nem ela vos conhece e é minha e vossa

 

De Orlando Neves:

Ao ler, pela primeira vez, O Indesejado, há cerca de seis anos, a surpresa foi grande. As referências que tinha sobre a peça, colhidas em conversas do meio ou lidas em escritos de autores responsáveis, consideravam-na «irrepresentável», por ser «excessivamente» poética, logo quase incompreensível, por não ter «situações teatrais», logo sem conflito, nem acção.

A surpresa foi grande porque me apercebi, exactamente, do contrário, nessa leitura primeira. Quando, há meses, se pôs a hipótese de, ao fim de mais de 40 anos, ela, finalmente, se representar, sucessivas leituras posteriores confirmaram-me, inteiramente, a opinião inicial. Em primeiro lugar, a fluência poética do texto criava-lhe um ritmo interno de grande expressividade; depois, a construção da personagem central (D. António, Prior do Crato) era, na sua linha evolutiva de uma espantosa densidade humana, fortemente teatral; depois, ainda, as outras personagens, as situações pontuais de conflito e acção e as relações igualmente conflituais com o protagonista, no plano vivido e existencial, transmitiam uma emoção rara; e, por fim, a evidente nota anti-sebastiânica de todo o texto trazia-lhe uma marca de contemporaneidade. Mas havia mais. Duas linhas outras se desprendiam de O Indesejado e essas, ao vincarem a modernidade formal da poesia de Jorge de Sena, apoiavam a modernidade textual e de intenções do autor. Por um lado, a situação de um Portugal, sem liberdade nem independência (o tempo dos Filipes), aproximava-se do tempo português em que Sena escreveu (1944/45), então, identicamente, um tempo de opressão. Por outro, a trajectória de exilado (física e espiritualmente) de D. António, a desfé na sua luta e, por causa dessa impotência, nas suas próprias forças, a sua auto-ironia quase dilacerante, recordavam-me o percurso humano e intelectual de Jorge de Sena, também ele um exilado e, tantas vezes, um «indesejado», entre nós (curioso é que o autor tenha escrito tal texto 15 anos antes de partir para o exílio).

Nada disto, porém, é simbolismo. O Indesejado será tudo, menos teatro simbolista. Descobertos os conflitos, as emoções, os sentimentos, reais, de carne e osso, deixei que o texto fluísse sem retoques, sem cortes, sem desvios, sem experimentalismos (de resto, completamente ultrapassados no nosso tempo em que a palavra e o actor recuperaram, enfim, o seu direito pleno a alma do teatro). E, ao fazê-lo, o texto poético tomou-se, quanto a mim, extremamente claro e fluente, compreensível e humano.

A preocupação maior que me moveu, nesta primeira representação de O Indesejado (dar a conhecer a integralidade de um belo texto teatral português), ter-se-ia, talvez, afirmado, em plenitude ideal, se, quanto à envolvência plástica, o espectáculo fosse realizado tal qual (a expressão é do actor António Montez, durante os ensaios), isto é, com os cenários e os figurinos da época, num espaço tradicional de um teatro tradicional. Mas, sobrepôs-se-me a esta idealidade, a meta de todo o ciclo: trazer, para o mais perto do nosso tempo, os textos seleccionados. E, O Indesejado, por tudo o que atrás fica dito, proporcionava a aposta: num espaço não tradicional representar uma tragédia «histórica e clássica» moderna (como o próprio autor a define) o que, desde logo, exigia uma estética diversa — opção que foi, conscientemente, assumida.

Na hora dos agradecimentos, coloco, antes de todos, o que devemos a Mécia de Sena que nos acompanhou muito e nos elucidou mais — a Ela, humildemente, dedicamos esta visão de O Indesejado. Mas estou grato, ainda, ao profissionalismo e talento dos actores que, por força do projecto «Retorno à Tragédia», assim concebido, dispuseram tão-só de um mês e meio de ensaios, exclusivos e exaustivos, deste texto, para darem forma às suas personagens; entre eles, destaco, em meu nome pessoal, Sinde Filipe e Canto e Castro, os que menos tempo tiveram, o primeiro dada a extensão do seu texto, o segundo pelos pouquíssimos dias de que dispôs. Obrigado.

 

De Maria Alzira Seixo: "JS Poeta da Literatura Toda"

alarga-se-me em calmas ondas negras o vácuo mundo em que ninguém me basta humanamente já ninguém existe e os vivos são que os mortos mais distantes.
(Exorcismos)

«mas que eu morra, Zé, para me admirarem à vontade,- sem o monstro de permeio, a incomodar com a sombra. É isso que todos os corvos estão esperando.» (Carta a José Blanc de Portugal, de Araraquara, 22.3.64, citada por Eugénio Lisboa, Estudos sobre Jorge de Sena)

No panorama da literatura portuguesa deste século encontramos uma meia dúzia de escritores que, devido às vastas dimensões das suas obras e à capacidade incisiva que elas detêm, permanecem como figuras tutelares (nem sempre bem conhecidas nem bem estudadas) do que se poderá chamar o classicismo da nossa modernidade. Estou a pensar em Vitorino Nemésio, em José Rodrigues Miguéis, em José Gomes Ferreira, em Miguel Torga, em Jorge de Sena, em Adolfo Casais Monteiro e em Irene Lisboa. Todos eles marginais aos movimentos literários que o Século conheceu, ou com eles entretecendo ligações hesitantes, por vezes de superficial tangencia ou ocasional conjunção ideológica ou estética, desenvolvem uma actividade longa e regular nos domínios da poesia, da ficção e do ensaio (aplicado em certos casos aos estudos de literatura e de cultura e, noutros, à reflexão de índole mernorialística), desta forma ocupando uma área significativa e determinante na configuração literária do nosso século XX.

De entre estes escritores sobressai consideravalmente a figura de Jorge de Sena. Porque é um caso espantoso de poligrafia e de actividade humana e profissional multímoda; porque viveu longe da Pátria durante o período mais importante da sua carreira sem por isso deixar de travar com ela um fremente diálogo, através da sua consagração apaixonada ao estudo da literatura nacional e de uma constante imprecação dirigida aos destinos e desatinos de certos modos de ser português; porque a extensão imponente da sua obra, a desmesurada capacidade de trabalho de que deu provas e a personalidade forte e frontal que muitos lhe conheceram quase o guindaram à categoria de mito — o mito do ausente realizado na incompletude, o mito de uma severa e ríspida consciência nacional exterior a perseguir-nos nos nossos sucessivos malogros e com eles igualmente sofrendo. Deste modo, a consagração (ou redução…) crítica desfigurou relativamente o perfil humano do escritor, e nem sempre se tem a ideia correcta de que Jorge de Sena era aquele amigo encantador que para cada um de nós encontrava longas horas de disponibilidade, o pai carinhoso que arranjava tempo para brincar com os filhos, o marido dedicado, que regularmente se ocupava das compras domésticas, o professor exigente que nunca deixava de encontrar a fórmula eficaz para encorajar um aluno. Inúmeros depoimentos (orais e escritos) testemunham neste sentido. Por outro lado, é verdade que a consagração quase hiper-humana do escritor, exagerando-lhe as cóleras verberativas e os impulsos emocionais de extraversão, tem feito muitas vezes esquecer outros vectores fundamentais da sua demonstração pessoal e literária: a dedicação laboriosa e pertinaz à causa universitária (se bem que exercida no estrangeiro, porque a não podia exercer no seu País — e com efeitos importantíssimos na dinamização do estudo da Literatura Portuguesa nos países onde leccionou!); as relações de chegada amizade que sempre manteve com os amigos portugueses, nomeadamente através de uma correspondência de extensão impressionante; a paciente e atenta actividade de erudição; a veia profundamente intimista de alguma da sua melhor poesia; os passeios da memória pelas regiões do passado (próprio e alheio) que dão matéria ao essencial da sua ficção; uma constante e fundamental convivência com os outros domínios da arte (e.g. sobretudo Metamorfoses e Arte de Música) — assim como uma continuada e persistente impregnação de manifestações diversas do ambiente social, do meio físico, dos vários movimentos de concreta artculação com a vida.

Jorge de Sena nasceu a 2 de Novembro de 1919 em Lisboa e faleceu a 4 de Junho de 1978 em Santa Bárbara (Califórnia). Poderemos considerar como dados essenciais do seu percurso: estudos no Liceu Camões, onde foi aluno de Rómulo de Carvalho (o poeta António Gedeão) e na Faculdade de Ciências de Lisboa, passagem pela Escola Naval (onde pretendia seguir a carreira de oficial da Marinha, que se lhe frustrou para seu grande pesar) e formatura em Engenharia Civil no Porto. Em 1942 publica o seu primeiro livro (Perseguição, de poesia), após ter publicado poemas nos Cadernos de Poesia, dirigidos por Tomás Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti, seus amigos dedicados; é também mais ou menos por esta altura que conhece Mécia de Freitas Leça, irmã de Óscar Lopes, com quem casa em 1949 e de quem teve nove filhos. (Mécia de Sena, desde sempre uma entusiástica colaboradora do marido, tem-se dedicado, a partir da sua morte, e com exemplar persistência e rigor, à reedição revista da sua obra e à publicação dos inéditos). O escritor exerceu entretanto, e durante 14 anos, actividade profissional como engenheiro, mas em 1959 parte para o Brasil, onde aceita permanecer como catedrático convidado de Teoria da Literatura em Assis, mudando-se seis anos depois para os Estados Unidos, tendo-se fixado primeiro na Universidade de Wisconsin e, posteriormente (1970), na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. A esta terra, onde decorreu talvez o período mais tranquilo e produtivo da sua existência de escritor (exceptuando o período «brasileiro», altura de que datam as teses camonianas e a maior parte da sua ficção), se referem circunstancialmente os versos do último livro que publicou em vida, Sobre esta praia… («Sobre esta praia me inclino,/(…) Aqui é um outro oceano./Um outro tempo»).

Com efeito, a personalidade literária de Jorge de Sena move-se muito por sobre a comparação de tempos e de lugares, quase sempre orientada em função do lugar pátrio (a que se prende de forma ambivalente, num misto de sedução matricial e de repulsa motivada por um manifesto sentimento de rejeição: «Eu não posso senão ser / desta terra em que nasci./(…) Trocaram tudo em maldade, / é quase um crime viver. / Mas, embora escondam tudo / e me queiram cego e mudo / não hei-de morrer sem saber / qual a cor da liberdade», Fidelidade) mas também produzida por um profundo sentimento estético que não dissocia das suas implicações históricas e que, para além de o levar a sofrer com as situações políticas de opressão (e daí o seu abandono da terra portuguesa e, depois, do Brasil), lhe incute como que uma noção de convergência total de saberes e de dizeres onde, quer o percurso da civilização ocidental, quer o percurso mais reduzido da sua terra, quer o seu próprio, e central, da infância e da juventude se concentram numa consciência de assunção que não passa sem o fatal sabor deceptivo («Soube-me sempre a destino a minha vida», Perseguição; «Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos/(…) será sempre sem pátria», Peregrinatio ad Loca Infecta). Disso dá conta a sua vária actividade como tradutor e o seu intenso labor de ensaísta preso a matrizes do conhecimento literário pátrio (Camões, Pessoa) mas igualmente votado a domínios de estudo de tipo convergente, nomeadamente o teórico e o comparatista — e.g. os dois volumes das Dialécticas da Literatura, e o monumental trabalho de antologia, tradução e estudo de poesia mundial: Poesia de 26 séculos (2 volumes) e Poesia do Século XX. Disso mesmo testemunha também o seu projecto ficcional, patente nos contos de Antigas e Novas Andanças do Demónio, de Os Grão-Capitâes e em Sinais de Fogo (romance inacabado), onde os temas da infância, os dados autobiográficos, a relação com o passado histórico e artístico são trabalhados de um modo em que a representação clássica do mundo se afixa com, proeminência de acordo com uma visão crítica e uma elaboração poética que igualmente apontam para a aliança sensível em toda a sua obra entre os processos do classicismo e os da modernidade, Será fácil dizer que ele não se integrou devidamente nem numa nem noutra destas duas perspectivas, já que o seu pendor clássico é sobretudo o do erudito e do apaixonado, e que a sua ligação eventual aos preceitos presencistas, neo-realistas ou surrealistas é ténue, embora de consequências concretas no trabalho do teatro (sobretudo no que diz respeito ao surrealismo); mas será talvez mais acertado evidenciar como este percurso acidentado e extenso pela ficção, pelo teatro, pela imensidade de composições poéticas e pela vastidão diversificada dos seus trabalhos ensaísticos é no fundo a imagem dessa dispersão atenta pela vida, dessas andanças por vezes contrafeitas e dramáticas, dessa «peregrinação» interior e exterior que, entre a «perseguição» e a «fidelidade», movida em torno de incertos mas determinantes «sinais de fogo», se orienta «ad loca infecta» para aí tentar encontrar uma originária «pedra filosofal». Do sentido deste percurso e desta busca dá conta O Indesejado; da inquietação que ele só encontra, ou aniquilamento, também («Não era paz o reino que buscavas,/ Nem outro reino existe onde a procures»).

Terá de chegar a nossa vez de nos iniciarmos no percurso de compreensão da figura de Jorge de Sena, de sua incomensurável obra. Ele próprio nos recorda a dívida e a tarefa.

"E aos outros deixo tudo." (Exorcismos)

 

==> Ao leitor interessado numa reflexão histórica sobre a controvertida personagem, recomendamos o ensaio "Um rei indesejado: notas sobre a trajetória política de D. Antônio, Prior do Crato", de Jacqueline Hermann — acessível em http://www.scielo.br/pdf/rbh/v30n59/v30n59a08.pdf