1. Os contos impublicáveis de Jorge de Sena

Margarida Braga Neves

Inaugurando esta seção — Ler e reler JS — destinada a acolher colaborações as mais diversas, contamos com excepcional ensaio da Profa. Doutora Margarida Braga Neves, da Universidade de Lisboa, a focalizar os contos “cruéis” de Os Grão-Capitães.

 

Os anos passam; mas, desta passagem,
a permanente essência em nós se cumpre,
que para testemunho só nascemos.

Jorge de Sena

 

Jorge de Sena lamentou por diversas vezes a desatenção, quando não o silêncio, da crítica relativamente à sua obra, facto que, somado à distância a que o exílio o colocou, contribuiu para o tornar o primeiro exegeta de si mesmo. Um exegeta seguro da valia do seu legado – «Eu sou (…) dos que ficam», escrevia em 14/3/1977 a José-Augusto França – mas com dúvidas sobre as suas reais possibilidades de reconhecimento num meio fechado e hostil como o meio literário português da época [1]. Tornado crítico da sua própria obra, Sena prefaciou e anotou abundantemente os volumes que deu a lume em verso e em prosa, num gesto que tinha menos de provocação ou de erudição gratuita do que do intuito genuíno de lhes explicar as circunstâncias e determinar o sentido.
Será fundamentalmente a partir de textos liminares como prefácios, e também com base na correspondência do A. com outros vultos da cultura portuguesa, que procuraremos circunscrever a ficção breve publicada em vida por JdS, nos volumes Andanças do Demónio (1960), Novas Andanças do Demónio (1966) [2], Os Grão-Capitães (1976) e O Físico Prodigioso (1977) , considerando que ela se organiza em torno dos conceitos de testemunho e de ficcionalidade.
Paralelamente, pretendemos ainda salientar o modo como os mecanismos repressivos do Estado Novo, e em especial a Censura, condicionaram a publicação de JdS, condenando Os Grão-Capitães – tal como de resto o romance póstumo e inacabado Sinais de Fogo (1979) – «à gaveta». Num momento histórico em que a existência de obras impublicáveis ou «na gaveta» tem vindo a ser cada vez mais posta em causa, afigura-se-nos que esta chamada de atenção se torna ainda mais premente.
Em carta com data de 22/10/1963 para José-Augusto França, Sena, do seu habitual modo desassombrado, mostra-se ciente das implicações que uma eventual publicação da sua colectânea teria – e não apenas entre os meios mais afectos ao salazarismo: «Os Grão-Capitães, que releio de vez em quando para pôr e tirar vírgulas, continuarão à espera de oportunidade, uma vez que, ao serem publicados, corresponderão à minha excomunhão total.» (p. 242. Sublinhados nossos)
Também em carta para Vergílio Ferreira, datada de 30/11/1964, reitera a impossibilidade de publicação deste seu livro, tanto em Portugal como no Brasil, mercê do modo directo e implacável como nele são abordadas as instituições (Deus, Pátria, Família) que constituem o pilar dos regimes ditatoriais implantados nessa altura já dos dois lados do Atlântico:

 

“Tenho pronto um outro [livro], em que creio ter-lhe falado, Os Grão-Capitães, que não é nem romance nem de contos: mas uma sequência de acções e de personagens, que podem ou não ser as mesmas. A violência escatológica do livro e a agressividade dele (exército, marinha, clero, guerra de Espanha, guerra de Angola, família, prostitutas e pederastas, literatos, etc. – num grande charivari de técnicas literárias, algumas muito experimentais e originais, e com uma linguagem e cenas em que tudo é descrito, referido e dito, nos termos da obsessão sexual que corresponde à castração da vida portuguesa nos últimos anos) – tornam-no absolutamente impublicável em Portugal, e agora aqui também.” (p.123. Sublinhados nossos).

 

Daí que só dois anos após o 25 de Abril de 74, em carta de 13/1/1976 para José-Augusto França, o A. se mostre finalmente esperançado na publicação do seu «livro impublicável»: «O meu encravado há tantos anos, por impossibilidade de publicação, livro de contos Os Grão-Capitães parece que sai (…) (é, suponho, das raras coisas que realmente ficaram na gaveta, no tempo da outra senhora) (p.349).
O tempo viria a provar que as duas anteriores afirmações de Jorge de Sena tinham razão de ser: na verdade, a publicação de Os Grão-Capitães só viria a concretizar-se em 1976, ao fim de catorze longos anos de espera, e o número de obras guardadas na gaveta pelos escritores portugueses acabaria por revelar-se exíguo, o que não deve contudo ser lido como um enviesado branqueamento da censura, entidade que sempre se pautou pelo cumprimento zeloso e eficaz do seu sinistro papel.
A censura porém não constituiu entrave à publicação da ficção breve escrita pelo A. a partir dos anos 40 e recolhida na sua primeira colectânea de contos, Andanças do Demónio – Histórias verídicas e fantásticas e outras ficções realistas, antecedidas por um elucidativo prefácio (1960), cujo longo subtítulo permite desde logo apontar para as duas grandes linhas a partir das quais se organiza a sua obra novelística. Na primeira, composta pelos três primeiros contos do volume – «Razão de o Pai Natal ter barbas brancas», «História do peixe-pato» e «Mar de pedras» – prevalece aquilo que Sena designa como «realismo fantástico» ou «historicismo imaginoso», surgindo este associado a uma acção deslocada no tempo e/ou no espaço: na Galileia do século I; algures «lá para as bandas das Áfricas, das Índias ou dos Brasis», em tempo indeterminado e numa atmosfera que não deixa de evocar a de Robinson Crusoë; e nas Ilhas Britânicas durante o século VIII.
Por sua vez, o «realismo contemporâneo», mais tarde também designado como «realismo integral ou fenomenológico», predomina nos quatro últimos contos da colectânea – «A janela da esquina», «A comemoração», «Duas medalhas imperiais, com Atlântico» e «A campanha da Rússia» – de ambiência contemporânea e lisboeta as duas primeiras, de ambiência colonial e naval a terceira, e de ambiência portuense e contemporânea a última.
Excepcional neste conjunto, até pelo seu papel de charneira entre os dois grupos referidos, é o quarto conto «O comboio das onze». Antecedido, como todos os outros, por uma epígrafe extraída, neste caso dos 152 Proverbes mis au goût du jour, de Paul Eluard e Benjamin Perét, o texto, tanto pela sua desarticulação como pelo humor deliciosamente absurdo que nele se insinua, denuncia a filiação surrealista que Sena insistentemente reivindicou.
Importa ainda salientar que a distinção entre «historicismo imaginoso» e «realismo contemporâneo» não tem tanto a ver com o binómio actualidade /inactualidade como com a dimensão mais ou menos directamente autobiográfica da matéria narrada, como ressalta de uma carta datada de 27/2/61 para José-Augusto França: «o volume caminha do fantástico até ao autobiográfico…» (p.190/191).
Aliás, toda a escrita de criação seniana sem excepção – nela se incluindo a poesia, a prosa de ficção e por vezes o próprio ensaísmo – comporta essa dimensão autoficcional que pode no entanto ser mais ou menos transposta, filtrada ou decantada, como sucede nos dois últimos contos de Andanças do Demónio, que têm por base, respectivamente, experiências do jovem Sena como cadete da Marinha, a bordo do navio-escola Sagres, e como estudante de Engenharia no Porto. Por outro lado, estes contos, revistos em 1960 já no Brasil, podem – e devem – ser lidos como prelúdio ao grande surto autoficcional que eclode em 1961-62 e está na origem de Os Grão-Capitães:

 

“Em Março de 1961 surgiu-me o primeiro conto de Os Grão-Capitães, cujos textos igualmente haviam esperado longamente pelo tempo material para serem definitivamente escritos e concebidos (esta ordem tem significado, porque nunca concebi nada, antes de começar a escrever). E a aparição e realização deles prolongou-se até Junho de 1962, quando foi revisto o conto Homenagem ao Papagaio Verde.” («Prefácio» [1971] a Os Grão-Capitães: 15. Sublinhados nossos).

 

A partir deste fragmento liminar, convém notar a questão da ordem na materialização dos textos, verificando-se que a escrita funciona como um motor a preceder a própria concepção do conjunto, e também o predomínio de um léxico ligado ao campo semântico da epifania – com a presença do verbo «surgir» e a insistência em substantivos como «aparição» – a sugerir um cruzamento entre o tomismo e a fenomenologia husserliana, que sempre constituíram pólos de intensa atracção para JdS. Cabe ainda realçar a teia metafórica urdida em torno do campo semântico da luminosidade – clarões, evidência(s), aparição, sinais, etc. – a alertar para a presença do corpo e dos sentidos, e em especial da visão e da audição.
Ao referir-se a Os Grão-Capitães, no «Prefácio» a Novas Andanças do Demónio (1966), afirma o A. que o livro é inteiramente composto por «facetas e casos» ficcionalmente amplificados. Convém salientar esta noção de que a ficção opera através de «amplificação ficcional da observação e da experiência», o que significa que para Sena tanto a primeira, com a distância que pressupõe, como a segunda, com o envolvimento que exige, são compatíveis com uma dimensão testemunhal que não depende da proveniência dos materiais sobre os quais se erige.
A «ampliação ficcional» pressupõe igualmente um tipo – e um ângulo – de focagem que permite o acesso não apenas à realidade mas à hiper-realidade. Uma hiper-realidade que não é muitas vezes senão o reverso, a face nocturna e sombria da realidade. E essa face obscura, secreta, quantas vezes sinistra e sangrenta, é desvendada tanto pela ficção como pelo fantástico, como ainda por um hiper-realismo exasperado e exacerbado a roçar o expressionismo. Porque, como afirma a romancista alemã Christa Wolf, na sua apologia da prosa no século XX, a realidade «é mais fantástica do que qualquer produto da fantasia. Não há invenção que supere o seu carácter cruel e admirável» (apud Seruya, 1995: 105).
No que respeita às narrativas de cunho mais fantástico presentes tanto nas primeiras como nas segundas andanças (de 1960 e de 1966, respectivamente), elas poderiam passar mais facilmente o crivo da censura porque, embora sem perderem de vista a realidade que constitui a matéria em que mergulham, essa realidade surgiria aos olhos dos censores deslocada para um outro tempo e um outro espaço – o que tenderia a acentuar o seu carácter de parábola, com um simbolismo que neutralizaria ou pelo menos atenuaria os seus efeitos políticos mais imediatos. Mas na verdade em Sena o fantástico não só não se opõe à realidade, como, pelo contrário, lhe apõe uma lente através da qual a observa, ampliando-a nos seus mais ínfimos pormenores. E por isso a imagem que o texto devolve, nítida nos seus contornos e iluminada nos seus recantos mais recônditos e secretos, não serve para a (dis)simular mas antes para a alargar, revelando a sua textura rugosa, a aspereza das suas linhas, a contorção das formas e a distorção dos volumes, numa afirmação do carácter tantas vezes grotesco da realidade. Grotesca e infinitamente cruel e, por isso mesmo, apta desmascarar a mentira, a crueldade e a hipocrisia que a minam e corrompem.
Não se estranha assim que a dimensão fantástica da ficção seniana sirva menos para inventar mundos alternativos do que para reflectir (sobre) a indescritível brutalidade e o enorme sofrimento de que é feito o mundo. O nosso – o único e tantas vezes inóspito – mundo.
Aliás, o sofrimento e a degradação impostos por sistemas totalitários geradores de mostruosas máquinas repressivas – sejam elas religiosas, militares ou judiciárias – destinadas a desapossar as suas vítimas dos últimos resquícios de dignidade humana, o nome, a identidade e a própria linguagem, irmanam personagens muito diversas da ficção breve seniana, desde as mais autobiográficas às mais imaginárias.
Tome-se como exemplo o jovem recruta tísico cujo strip-tease ocupa um lugar central no conto «O “Bom-Pastor”», que é o quarto da série Os Grão-Capitães. Inicialmente publicado no volume de homenagem a JdS promovida pela revista O Tempo e o Modo, no seu nº 59, de Abril de 1968, o texto resulta de um episódio presenciado pelo furriel Sena a prestar o serviço militar no quartel do Bom Pastor, no Porto [3], como esclarece em carta datada de 29/6/1968, para Eduardo Lourenço: «sentado à mesa, escrevia a entrega de peças da roupa, e que foi suprimido na narração que, é claro, está construída com uma lógica que a cena não teve de modo algum» (p.69). Impiedosamente retalhado pela censura na parte relativa à descrição da nudez do recruta, o conto só viria a ter publicação integral após a instauração da democracia, e nele salienta-se o vulto do recruta tísico, humildemente agachado aos pés do sargento: um «novelo rente ao soalho, uma trouxa de joelhos pontiagudos, de que emergia um braço com a papeleta na mão» (Os Grão-Capitães:117), reduzido à condição mais ínfima de humilhado e ofendido, despojado até da sua condição de ser humano, pois, no dizer do sargento, «uma desgraça destas nem é gente» (GC:116).
A dor que percorre o seu corpo devastado e nu amplia-se e ressoa na dor do jovem físico sem nome, aviltado pela tortura e pela imundície do cárcere inquisitorial. Aquela dor e aquela abjecção que transformam o corpo outrora jovem, pujante e resplandecente do herói da mais fantástica e simultaneamente da mais autobiográfica das criações senianas em prosa – O Físico Prodigioso – num pobre destroço «magro, chagado, com os membros deslocados, (…) uma ruína que se arrastava aos pés dos juízes, sem fala, babujando grunhidos.» (O Físico Prodigioso: 101).
Trata-se, em qualquer dos casos, e os exemplos poderiam multiplicar-se, de situações que, embora referenciais, testemunhadas, presenciadas no primeiro exemplo, e inteiramente imaginadas, efabuladas no segundo, se situam sempre no quadro do mesmo «realismo integral»[4]:

 

“Apenas onde neste último livro [Antigas e Novas Andanças do Demónio] se aplicava a evocações historicistas “reais” ou fantásticas, ou à transfiguração fantástica da realidade quotidiana e banal, é, em Os Grão-Capitães, aplicada a tornar mais reais que a realidade, e portanto tão monstruosas como o que os nossos olhos temem reconhecer na “realidade”, experiências vividas, testemunhadas ou adivinhadas nas confissões involuntárias e contraditórias de alguns dos actores.” (Os Grão-Capitães: 16-17. Sublinhados nossos).

 

A monstruosidade do mundo e das coisas nele resulta assim da própria vida vivida, da vida observada, daquilo que ela deixa entrever ou adivinhar, dos múltiplos testemunhos recolhidos nos quais se transfigura e reconfigura a realidade que é metamorfoseada, alterada, aperfeiçoada, tornada também ela outra ao ser tocada e reorganizada pela linguagem. Esta, porém, não se limita a resvalar sobre a superfície das coisas. Aplicando-se a perscrutá-las para além de si mesmas, capta-as e amplia-as nas malhas de um dispositivo ficcional que as torna ainda mais presentes e mais verdadeiras. É por isso que a ficção visa mais longe e mais fundo do que o testemunho. Porque reelabora, reinventa, deforma e transfigura, a ficção afasta os factos vividos ou narrados e interpõe um filtro que os ilumina, tornando mais nítidos os seus contornos. Mas não apenas isso. De facto, pela sua própria natureza, a ficção não se vê forçada a recuar perante nada nem nenhuma faceta da realidade, por mais terrífica, inverosímil, horrenda ou repugnante que ele se afigure.
Não se estranha assim que, em carta para Sophia de Mello Breyner, datada de 4/6/62, Jorge de Sena sublinhe o pudor e a reserva que, não obstante a veemente denúncia da sordidez do regime salazarista, as suas criações em prosa deste período evidenciam, ao mesmo tempo que acentua que a sua audácia é não apenas temática mas também formal:

 

“Mas os meus contos melhores, na opinião dos amigos daqui [Araraquara] que os têm lido, são os que tenho escrito e estou escrevendo: uns, para Novas Andanças; outros, para um livro agora impublicável em Portugal (não me recordo se já lhe falei nele), Os Grão-Capitães. Estes são, além de implacável libelo contra a sociedade portuguesa das últimas décadas, uma exemplificação do manifesto que os prefacia, em que proclamam o «realismo fenomenológico e integral»… são tematicamente, estilisticamente, pelas situações, etc., terríficos. Não sei se a Sophia, apesar da dignidade e do pudor que eles possuem, tolerará o estadeamento de tamanhas miséria e degradação – que temos de vomitar. Creio que são dos melhores contos que já se escreveram em português, até pela audácia técnica e experimental de todos eles. São, pois, verdades medonhas e pavorosas: não poupo nada nem ninguém.” (p. 42. Sublinhados nossos)

 

O recurso à dicotomia matéria/ estrutura, por sua vez, permitirá sublinhar a dimensão factual e autobiográfica dos relatos, não deixando no entanto de acentuar que eles são deslocados para um contexto de ficção onde se incrustam e que os reveste e os salvaguarda, ao mesmo tempo que preserva os seus intevenientes:

 

“Tudo aconteceu, ou terá acontecido quase assim. Neste quase, porém, está toda a distância que vai das memórias à ficção – razão pela qual ninguém pode reconhecer-se, como eu também não, nos acontecimentos ou nas personagens. Se a matéria de Os Grão-Capitães é directa ou indirectamente autobiográfica – com que amargura às vezes – , a estrutura que lhe é dada é inteiramente ficção.” (Os Grão-Capitães: 17).

 

A esta opção pela ficção não é evidentemente alheio o humanismo ético de que está impregnada a obra de Sena. Porque o relato da miséria, da degradação física e moral e da corrupção implica necessariamente o envolvimento de outros, de pessoas reais aprisionadas e capturadas na imensa teia em que os factos as enredam, questão essa que viria de resto a merecer uma importante reflexão por parte de Jorge, o jovem narrador/protagonista de Sinais de Fogo:

 

“Encostei-me à janela, olhando a noite. Quanto mais a vida parece nossa, e é mesmo a nossa, mais pessoas se misturam nela. E, quanto mais pessoas se misturam nela, mais temos que dizer sem ter a quem. Porque é impossível falar dela aos outros, sem mostrar a que ponto há ainda outros que estão envolvidos, às vezes sem sequer saberem que o estão.” (Sinais de Fogo, XVIII: 190).

 

De facto, o envolvimento inevitável de terceiros leva JdS a recuar diante de um confessionalismo complacente, como por exemplo o de Rousseau que lhe provoca um misto inextricável de fascinação e de repulsa. A sua opção clara pela ficção resulta de três causas fundamentais: porque esse é um modo de rejeitar o impudor e o exibicionismo presentes na confissão; porque sabe que o fluxo da narração arrasta necessariamente consigo outros; finalmente, porque só a ficção não falseia a verdade:

 

“seria (…) um erro pensar-se que, na confissão memorialística, é que necessariamente as pessoas se nos recontam mais. Por paradoxal que pareça, só pode contar tudo quem tiver muito pouco para contar. E isto não por pudor que pode não existir, mas porque a vida de qualquer pessoa que haja vivido alguma coisa envolve tantas outras pessoas, e sobretudo envolvê-las-á em muitas circunstâncias que não teremos o direito de revelar identificando-as – o que, na ficção, pode ser feito a uma extensão que será impossível na confissão memorialística.” (Os Grão-Capitães:17-18).

 

Daqui se poderá concluir que não só as memórias ou as autobiografias não contêm uma dose de veracidade superior à dos escritos ficcionais, como estes podem aproximar-se mais da verdade factual do que aquelas, uma vez que a ficcionalidade actua como o operador de distância que torna possível e até certo ponto suportável o testemunho. Donde, a ficção pode ser mais autêntica do que a não-ficção e assim, parafraseando Novalis, poderá dizer-se que, para Sena, quanto mais ficcional mais verdadeiro.
Atentemos agora no processo de criação dos textos que constituem a sequência Os Grão-Capitães que, ao apresentar-se com esse subtítulo, se distingue da restante ficção breve do A.. N’Os Grão-Capitães – Uma sequência de contos impera de facto a horizontalidade de série ou sucessão, ou seja, a ordem temporal da sequência que implica progressão e linearidade, nisso se distinguindo do ciclo, que implica um retorno constante.
Composto por um conjunto concêntrico, o ciclo pressupõe continuidade entre os textos, agrupados em torno de um núcleo (tema ou motivo) comum. Deste modo se explica a tendência para a sobreposição, a recorrência e a intersecção em textos de índole diversa e de diferentes géneros. Esse facto porém não atenta contra a individualidade de cada um. O ciclo funciona como uma constelação em que cada um deles gira em torno de si mesmo, rodopiando simultaneamente em torno de um eixo a partir do qual se autonomiza parcialmente, embora conserve vínculos com o conjunto de que faz parte e tem como paradigma o poema em vinte e um sonetos As Evidências (1955).
A designação de linha ou sequência, por sua vez, fica reservada para o agrupamento de textos descentrados, justapostos e avulsos, organizados de acordo com um princípio linear que acompanha e organiza as linhas caóticas da existência, ordenando-as (crono)lógicamente e possibilitando a adição subsequente de outros textos, mas sem que essa adição afecte os restantes. Neste segundo bloco – que pode ser exemplificado através do Post-Scriptum (1960) aos quatro primeiros livros de poemas do autor reunidos em Poesia-I – incluem-se textos tendencialmente mais dispersos e autónomos pertencentes a séries interrompidas e/ou em aberto. A sua organização processa-se de acordo com a unidimensionalidade tranquilizadora e reconfortante que tudo ordena ao longo de uma linha – o «fio da narrativa» que é, afinal, o fio da vida – princípio estruturante pelo qual o ser anseia. O carácter apaziguador das sequências ordenadas de factos não só protege como encasula o ser, levando-o a crer que existe um sentido para os acontecimentos, os quais obedecem a uma causalidade e a uma necessidade – a um curso cuja lógica será possível apreeender – ao mesmo tempo que instaura uma espécie de cápsula contra o caos, o acaso e a pluridimensionalidade que irrompem de todo o lado e tornam inabitável o espaço e o tempo.
Pela sua configuração, Os Grão-Capitães inscreve-se na linha horizontal da memória e do tempo, com uma escrita que procura recuperar pela reminiscência o instante fugidio, para o deter, coagular e repetir, antes de por fim o exorcizar – através do exercício do depoimento, do testemunho, ou seja, através da rememoração de factos, ainda que remotos e dolorosos, como ressalta desta passagem de uma carta para José-Augusto França, com data de 29/12/61: «”Homenagem ao papagaio verde” são memórias minhas de infância, em que a minha família é impiedosamente retratada» (p.218).
Atente-se na repetição do possessivo, a sublinhar a centralidade do sujeito no processo de rememoração com epicentro em si e que irradia para o seu círculo familiar, sendo retomado pela escrita que os captura na malha cerrada da linguagem, para que nada se perca nos desvãos sombrios do não-dito. E é como se estivéssemos perante uma espécie particular de memória desencadeadora, capaz de fazer deflagrar e revolver – através de sucessivas irradiações concêntricas – toda uma série de factos e imagens amagamados em camadas recônditas e cada vez mais fundas.
Sequenciais (e também circunstanciais) serão portanto tanto a poesia como a ficção de teor predominantemente referencial, em que se inclui naturalmente a colectânea Os Grão-Capitães, cuja gestação, rápida como veremos, se concentrou num período curto – como se o ritmo veloz da escrita procurasse reproduzir a deflagração brusca da memória. Do outro lado, do lado do ciclo e da repetição, encontram-se as ficções demoníacas e outras aparentadas, bem como os textos pertencentes a séries – a série plástica, a musical, a camoniana, a das cidades, etc., que em muitos casos foram ocorrendo ao longo de décadas.
Porosas e dinâmicas, as sequências [5] e os ciclos não funcionam todavia em compartimentos estanques, tendendo antes a entrelaçar-se, já que entre elas subsistem fissuras – intermitências, fracturas, fendas, pontos de passagem – que permitem não só a comunicação como a própria reversibilidade [6]. JdS, com efeito, concebe o processo criativo como uma sequência ou um itinerário, sendo que esse trajecto é constantemente interrompido por digressões (retornos ou peregrinações) que constituem elas mesmas percursos alternativos ao emaranhado de caminhos que desbrava e com a sua escrita traça.
Cuidadoso, de uma forma que quase raia a obsessão no que a datas e lugares se refere, Sena, ao proceder à datação minuciosa dos seus textos, integra-os simultaneamente em dois tempos: o da escrita e o da memória, isto é, aquele que os viu nascer enquanto textos literários e aquele em que os episódios que lhes deram origem efectivamente ocorreram, numa perspectiva próxima da de Walter Benjamin na sua crítica à concepção linear do tempo. Para Sena, com efeito, as coisas só acontecem se acontecerem duas vezes. Por conseguinte, um acontecimento é ao mesmo tempo acção e a escrita que a consigna, pelo que fica desse modo duplamente ancorado.
Tempo rápido o da gestação dos textos que compõem este volume: à média de um conto por mês para os sete primeiros – «As Ites e o regulamento» «O “Bom Pastor”» «Os salteadores», «A Grã-Canária», «Homenagem ao papagaio verde», «Os irmãos» e «Capangala não responde» –, todos compostos na Primavera de 1961, em Assis; a um ritmo mais lento os dois restantes, já em Araraquara, onde foram escritos «Boa Noite», em Agosto de 1961 e, no ano seguinte – ou seja, mais de um ano depois do desencadear da série – o último, «Choro de Criança», em Maio de 1962. O que significa que se tratou de uma sequência com a duração total de quinze meses, que se desenrola entre Março de 1961 e princípios de Setembro de 1962.
Da sumária resenha da cronologia de composição do livro resulta o seu ritmo veloz que se consubstancia num alentado volume com 250 páginas compactas, preenchidas com uma escrita torrencial e densa que vai sendo acompanhada, comentada e esclarecida – ou seja, de novo duplamente inscrita a nível paratextual e epistolar.
Assim, em carta datada de 5/5/61 para José-Augusto França, Sena refere-se-lhe em termos que não deixam dúvidas sobre a intensidade do processo em que se encontra imerso: «e, em catadupas, os contos, aberta agora a torneira, desabam sobre mim (p.197). No mês seguinte, em carta de 1/6/61, observa que o conjunto corresponde já a um livro com o título que irá manter-se: «Não sei se lhe disse que atravessei uma fase de catadupas de ficção. Todos os contos moral e politicamente impublicáveis nesse Portugal de que são um retrato sinistro. Vamos a ver se Os Grão-Capitães interessam um editor daqui. (p.205. Sublinhados nossos). Contudo, no Verão desse mesmo ano, em carta com data de 19/7/61, hesita, revelando incerteza sobre se o processo de gestação se encontrará ou não definitivamente concluído: «Os Grão-Capitães, se não aparecer mais alguma coisa, é livro pronto, com sete contos, alguns bastante longos. E é de arrepiar os cabelos.» (p.208. Sublinhados nossos). No final desse ano, em carta de 29/12/61, o número de textos é corrigido para oito: «[número] a que possivelente acrescentarei mais dois ou três, há muito congeminados, se alguma sorte grande editorial (…) mos não publicar assim, só oito.» (p.218). E, volvidos dois anos, a 8/9/1963, em resposta a uma interpelação do mesmo interlocutor reitera o intuito de ampliar o número de textos, alegando contudo falta de tempo e a intenção de fazer preceder a sua publicação pela de trabalhos diversos: «Total falta de tempo, para a redacção copiada, nesta máquina, de alguns deles, e para a composição definitiva de mais uns dois contos» (p.235).
Se bem que a rapidez muitas vezes febril não seja marca distintiva da composição de Os Grão-Capitães, mas antes uma característica da personalidade literária multifacetada de Sena, que, só graças a essa velocidade, ou pressa, ou sofreguidão, pôde alcançar a extensão que se conhece [7] – e o levou a multiplicar afirmações como esta a José Augusto-França, em 3/3/1965: «Vejo a vida a fugir-me e a escassear para tudo o que ainda quero fazer» – não deixa de ser reveladora da peculiar relação do A. com o processo de criação e com o próprio tempo. E por maioria de razões num conjunto como este erigido sobre a memória. Por outro lado, a concentração de escrita num lapso de pouco mais de um ano contrasta com o largo período em que ficcionalmente decorre a acção respectiva: trinta e três anos, desde 1928, para a evocação de infância do primeiro conto até 1961, ano do início da Guerra Colonial em Angola para «Capangala não responde».
Sobre a organização interna do volume, após o título de ressonância camoniana, a dedicatória ampla, as diferentes notas e prefácios e as duas epígrafes – extraídas de um conto de Andanças do Demónio, a primeira, e da Teogonia de Hesíodo a segunda, e versando respectivamente a condição filial e o episódio mitológico e fundador da castração de Urano pelo filho, Cronos, cabe ainda recordar dois aspectos.
Primeiro, que o intuito inicial de nele fazer alternar prosa e verso – mencionado em carta datada de 1/3/62 também para José-Augusto França onde refere a intenção de incluir no livro alguns dos seus poemas políticos mais violentos: «Junto lhe envio a ode “A Portugal”[8] que em tempos escrevi, e será a abertura ou o fecho dos Grão-Capitães, em que intercalarei violentos poemas “políticos”» (p.225) – acabaria por não se concretizar.
O segundo aspecto prende-se com a ordenação interna dos textos. Assim, e se no que toca aos oito primeiros não subsistem dúvidas, uma vez que a ordem escolhida é, como sucede habitualmente em JdS, a cronológica, entendendo-se aqui a cronologia como a dos factos e situações a que os contos directa ou indirectamente aludem (mas não a da sua composição) e que é explicitada na portada respectiva – 1928, 1941, 1942, 1943, 1945, 1953, 1958, 1961 – assume particular importância o facto de o último conto, «A Grã-Canária», cuja acção decorre ficcionalmente em 1938, em Las Palmas e no Oceano Atlântico, o que numa organização estritamente cronológica o colocaria em segundo lugar, se encontrar de facto no final do alinhamento, de modo a salientar o seu carácter epilogal. Tal facto atesta desde logo a sua relevância num conjunto de que constitui peça-chave. Quanto às razões para o tratamento de excepção deste texto cremos que elas se prendem ainda com o facto ele se integrar simultaneamente num «ciclo marítimo» mais vasto, que se inicia com «Duas medalhas imperiais com Atlântico», prossegue com «A Grã-Canária» e se concluiria (?) no romance inacabado Sinais de Fogo.
Sequência ou ciclo – sequência de um ciclo ? – Os Grão-Capitães aí estão e são manifesto e testemunho de grande literatura encerrada na gaveta por mais de uma década. Nove contos que interpelam e sobressaltam aqueles que, como os cadetes na cena final do volume, interrogam o horizonte e, apontando direcções diversas, ficam discutindo o rumo.

 

Notas:

[1] Como se pode ler em entrevista concedida à revista O Tempo e o Modo, que, no seu nº 59, de Abril de 1968, o homenageou: «A única razão pela qual parece que eu proclamo a cada instante o meu talento é porque, até muito recentemente, se eu o não fizesse, ninguém o faria. E, se sou agudamente sensível a todas as formas de injustiça, haveria de deixar que ela se exercesse impunemente comigo? Poucos escritores portugueses de relativo mérito deverão tão pouco à crítica como eu. De todos os sectores, o silêncio ou o amesquinhamento foram de regra durante quase trinta anos. Onde está a bibliografia a meu respeito durante quase trinta anos? » (pp. 418-419).

[2] As duas recolhas foram posteriormente coligidas na edição conjunta e revista, Antigas e Novas Andanças do Demónio, Lisboa, Edições 70, 1978; por seu lado, a novela «O Físico Prodigioso», publicada inicialmente em Novas Andanças do Demónio (1966), passou a ter uma edição autónoma em 1977.

[3] No texto «Quem é Jorge de Sena (À maneira de curriculum)» integrado no mesmo número de O Tempo e o Modo esclarece: «Experiências do curso de milicianos em Penafiel são dramsatizadas no conto “As ites e o regulamento”, do volume inédito Grão-Capitães. Outras experiências militares aparecem em outros contos desse mesmo volume» (p.308).

[4] Veja-se, a este respeito, e para além do «Prefàcio» (1971) a Os Grão-Capitães, o importante artigo «O realismo na literatura», Nova Renascença, nº 21, Janeiro-Março, Inverno de 1986: 13-22.

[5] Sequências (1980) é também o título de um curto volume póstumo de Jorge de Sena composto por poemas de carácter experimental.

[6] Veja-se como desde muito jovem Sena se revela plenamente consciente da coexistência destes dois modos criativos (se assim os podemos designar ), o que o leva a escrever em carta para Guilherme de Castilho datada de 17/12/43: «E desde que me acenaram com ele [livro novo], parei de novo à espera de poesia nova. Nunca supus que fosse tão verdadeiro o carácter cíclico que, de sempre, atribuí às minhas evoluções. Quando ainda não fazia ideia alguma do que representava eu para mim próprio, já via tudo como pontos de passagem de um caminho, ou antes de uma espécie de viagem em que outra porção se gasta em substituir.» (1981: 39-49).

[7] Por sua vez, na entrevista concedida ao mesmo número de O Tempo e o Modo, nº 59, Abril de 68, Sena observa com ácida ironia: «Muita gente neste mundo tem sido pai de nove filhos ou mais, ou tem sido formado em engenharia e sido escritor, sem que isso constitua motivo de espanto. Parece que, comigo, não é assim – talvez que a razão esteja em que, nos meus trinta anos de escritor, eu escrevi muitíssimo – e as pessoas, na sua maioria menos velozes ou mais preguiçosas do que eu, não entendem como é que eu tive tempo para tudo. Tive até tempo para muitas mais coisas.» (p.414).

[8] In Quarenta Anos de Servidão (1979).
 

Referências Bibliográficas

SENA, Jorge de, Sequências, Lisboa, Moraes Editores,1980
______, Antigas e Novas Andanças do Demónio, Lisboa, Edições 70, 1989.
______, Sinais de Fogo, Porto Edições Asa, 1995.
______, Os Grão-Capitães – Uma sequência de contos, Lisboa, Edições 70, 1982.
______, O Físico Prodigioso, Lisboa, Edições 70, 1983.
______, Quarenta Anos de Servidão, Lisboa, Edições 70, 1989.
______ e ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Correspondência 1959-1978, Lisboa, Guerra e Paz, 2006.
______ e CASTILHO, Guilherme, Correspondência, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1981.
______ e FERREIRA, Vergílio, Correspondência, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1987.
______ e FRANÇA, José-Augusto, Correspondência, org. de Mécia de Sena, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2007.
______ e LOURENÇO, Eduardo, Correspondência, org. de Mécia de Sena, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1991.
SERUYA, Teresa (org.), Sobre o Romance no Século XX – A reflexão dos escritores alemães, Lisboa, Colibri, 1995.
O Tempo e o Modo – Revista de pensamento e acção, nº 59, Abril de 1968.

* Texto originalmente publicado no dossiê seniano da Revista Metamorfoses 9 (Rio/Lisboa, Cátedra Jorge de Sena/Caminho, 2009 p. 17- 28)