88. Da Correspondência Jorge de Sena / Carlos Drummond de Andrade: controvérsias

A nota de Eduardo Coelho, a propósito da correspondência trocada entre Jorge de Sena e Carlos Drummond de Andrade, apresentada na revista Granta/2 como inédita, logo suscitou uma resposta do editor Carlos Vaz Marques na página do Facebook da revista. Esta, por sua vez, suscitou a tréplica de Eduardo Coelho, publicada na última revista Ler (abr. 2014). Abaixo, reproduzimos os três textos. Em seguida, esquematizamos o cotejo entre as cartas editadas na mencionada revista e aquelas, dos mesmos escritores, antes transcritas, total ou parcialmente, por Frederick Williams em ensaio datado dos anos 80, para que o leitor decida por si mesmo sobre o ineditismo ou não dessa correspondência — ponto desencadeador da controvérsia. 

 

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NOTA DE EDUARDO COELHO (LER, DEZEMBRO DE 2013)

A edição da revista Granta n. 2, publicada em Portugal, apresenta como inédita a correspondência entre Carlos Drummond de Andrade e Jorge de Sena. Não procede de todo.

Muitas partes dessa correspondência já foram publicadas no ensaio “Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Sena and international prizes: a personal correspondence”, de Frederick G. Williams, que foi professor da Universidade da Califórnia e da Universidade de Brigham Young. O ensaio encontra-se na revista Quaderni Portoghesi n. 13/14, de 1983; em agosto de 2012, o site Ler Jorge de Sena reproduziu o mesmo.

Jorge Fazenda Lourenço, professor da Universidade Católica Portuguesa, assinou a apresentação dessa correspondência na revista Granta. Ele também é autor de duas bibliografias sobre Jorge de Sena: Uma bibliografia sobre Jorge de Sena (Cotovia, 1991), que foi atualizada, em 1998, no Boletim n. 13 do Centro de Estudos Portugueses da UNESP/Araraquara. Em ambas consta o ensaio do professor Frederick Williams, com quem Fazenda Lourenço ainda organizou Uma bibliografia cronológica de Jorge de Sena (IN-CM, 1994).

Seria de bom tom, na edição da Granta, que houvesse ao menos uma referência ao importante trabalho desenvolvido pelo professor Williams, bem como ao fato de algumas cartas terem sido publicadas integralmente ou parcialmente em seu estudo e no site da Ler Jorge de Sena.

 

 

RESPOSTA DO EDITOR DA REVISTA GRANTA

A revista Granta Portugal publicou na íntegra, no seu segundo número, a correspondência trocada entre Jorge de Sena e Carlos Drummond de Andrade.

É, para todos os efeitos, a publicação de um inédito, como tentarei demonstrar adiante.

O colunista Eduardo Coelho escreve na edição de Dezembro da revista LER que considerar inédita esta publicação “não procede de todo”. Apoia a sua opinião no facto de uma parte dessa correspondência já ter tido publicação num ensaio académico de 1983, da autoria de Frederick G. Williams.

Na realidade, a primeira carta de Drummond (com um erro de transcrição) e excertos de outras cartas, encontram-se transcritos em “Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Sena and International Prizes: a Personal Correspondence”, Quaderni portoghesi, n.º 13/14, Primavera/Outono de 1983 (Pisa: Giardini editori, 1985), pp. 331-358.

Na edição da Granta considerámos a possibilidade de inserir uma nota com este e outros aspectos de contextualização académica, tendo prevalecido – por consenso entre a direcção da revista e o editor responsável pela correspondência, o professor universitário Jorge Fazenda Lourenço – a opção de limitar ao máximo as notas de rodapé e o aparato crítico, por questões de espaço e por não ser a Granta uma revista de carácter académico.

Porque havemos então de considerar inédita a publicação da correspondência entre os dois grandes poetas? As razões são fáceis de entender: foi a primeira vez que tal correspondência teve publicação integral, revelando nomeadamente que Sena propôs Drummond ao prémio Books Abroad, considerado à época a antecâmara do Nobel. Uma parte da correspondência entre os dois poetas refere-se, aliás, a essa proposta desconhecida até à publicação da Granta.

Acontece que o próprio Frederick G. Williams – chamado à liça à revelia – cauciona a perspectiva de que estamos perante a publicação de um inédito. Publicada em 1994, a obra intitulada “Uma bibliografia cronológica de Jorge de Sena (1939-1994)” apresenta um “Apêndice de inéditos” (entrada n.º 913, pg. 207) no qual se inclui a correspondência com Carlos Drummond de Andrade. Essa obra, com a colaboração de Mécia de Sena, é assinada por Jorge Fazenda Lourenço e… Frederick G. Williams. O que significa, portanto, que o próprio Frederick G. Wiliams – tal como os autores do trabalho apresentado no número 2 da revista Granta, Mécia de Sena e Jorge Fazenda Lourenço – considerava a obra inédita, apesar de já ter publicado o referido artigo sobre a correspondência nos Quaderni portoghesi.

 

 

TRÉPLICA DE EDUARDO COELHO (LER, ABRIL DE 2014)

Nesta coluna, em dezembro de 2013, escrevi brevemente sobre a publicação na revista Granta da correspondência entre Carlos Drummond de Andrade e Jorge de Sena. Afirmei que não “procede de todo” sua designação como inédita. Defendi nessa altura, como justificativa da minha afirmação, que muitas partes de suas cartas se encontram no estudo do professor Frederick G. Williams, “Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Sena and international prizes: a personal correspondence”, o qual devia ter sido mencionado por se tratar de um importante e pioneiro trabalho acerca dos documentos reproduzidos.

Em resposta, o Editor do referido periódico reconheceu a publicação de trechos dessas missivas, defendendo, contudo, que é inédita a reunião dessa correspondência. Ele esclareceu sua posição: “As razões são fáceis de entender: foi a primeira vez que tal correspondência teve publicação integral […]”.

É de fato a primeira vez que a publicação integral dessa correspondência chegou ao público. No entanto, já havia afirmado que não procede (e destaco) “de todo” o seu ineditismo – expressão que o próprio Editor citou. Em nenhum parágrafo das minhas considerações afirmei que a totalidade das cartas foi anteriormente editada.

A resposta do Editor ainda me possibilita levar o debate adiante. Ele escreveu: “[…] Sena propôs Drummond ao prémio Books Abroad, considerado à época a antecâmara do Nobel. Uma parte da correspondência entre os dois poetas refere-se, aliás, a essa proposta desconhecida até à publicação da Granta.” (O destaque é meu.) Absolutamente incorreto: tal questão foi levantada por Frederick Williams, em sua pesquisa, com citação de trechos de cartas acerca dessa questão, o que pode ser verificado no site Ler Jorge de Sena <http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/ressonancias/pesquisa/estudos>. Logo, ao contrário do que afirmou o Editor, não é tão simples assim entender as razões do ineditismo absoluto da publicação da correspondência pela Granta. Afinal, a proposição de Carlos Drummond a tal prêmio está analisada, com minúcia, no ensaio. Afirmo até mesmo, com convicção, que todas as questões discutidas entre Drummond e Sena foram contempladas pelo professor em seu estudo. Em razão disso, ao menos uma brevíssima nota tal pesquisa devia receber na edição dessa revista.

Gostaria ainda de destacar mais uma observação do Editor: “Na edição da Granta considerámos a possibilidade de inserir uma nota com este e outros aspectos de contextualização académica, tendo prevalecido – por consenso entre a direcção da revista e o Editor responsável pela correspondência, o professor universitário Jorge Fazenda Lourenço – a opção de limitar ao máximo as notas de rodapé e o aparato crítico, por questões de espaço e por não ser a Granta uma revista de carácter académico.” Uma nota de três ou quatro linhas de um aspecto importantíssimo – um estudo fundamental a respeito dessa correspondência – só atribuiria mais valor à edição, sem exigir qualquer página a mais. Além disso, o fato de a revista Granta não ser de caráter acadêmico não a redime de um descuido.

Por fim, cabe mais um esclarecimento: não estou perseguindo Granta e o professor Jorge Fazenda Lourenço. Retomo a discussão porque a resposta do Senhor Editor faz parecer que meus comentários da edição de dezembro foram levianos. Uma réplica me pareceu fundamental porque a emenda saiu pior do que o soneto. E claro: assim, pelo menos o leitor da Ler, que também não revela caráter acadêmico, pode conhecer uma pesquisa relevante sobre a correspondência de dois dos maiores poetas da língua portuguesa.

 

 

COTEJO: GRANTA   X   ENSAIO DE FREDERICK WILLIAMS

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  • G = Granta
  • FW = Ensaio de Frederick Williams.

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