65.“Mas que diferença há entre ser-se uma besta na Ilíada ou no Viet-nam?” Sobre a violência da guerra em Jorge de Sena.

Kassia Fernandes da Cunha *

Neste artigo, Kássia Fernandes discorre sobre a presença da guerra e também da paz na poética “de testemunho” de Jorge de Sena. Como intelectual que não abdica da ética e da estética, o poeta tematiza a violência, a guerra e variadas formas de agressão ao humano em considerável número de seus poemas. 

 

Desde o início da civilização, a opulência e a miséria convivem no mesmo espaço. Atualmente, mesmo de posse de uma visão de mundo mais ampla, a natureza humana continua com as mesmas imperfeições: egoísmo, estupidez, injustiça… A pequenez de espírito e a hipocrisia de um número absurdo de espécimes humanos ainda se opõem ao exercício de uma existência plena, direito de todos. Somado a tais questões, um outro fator, lembrado pela filósofa Hannah Arendt, merece relevância: a moderna perda da fé. A humanidade toma outros rumos, quando o homem coloca em dúvida a influência divina e atribui a si mesmo as conquistas e a própria felicidade, conforme ocorreu no Renascimento, cuja doutrina reconhece o homem – e não Deus – como medida de todas as coisas.

O homem, dessa maneira abalado em sua fé na imortalidade da alma, voltou à sua forma mortal, como o fora na antiguidade; o mundo passou a ser menos estável, a exercer menos confiança do que na era cristã. Ao constatar fora de seu alcance uma possível salvação futura, o ser humano moderno tornou-se cético, impelido para dentro de si mesmo e não na direção do mundo ao seu redor. Justamente quando deveria confraternizar com o progresso contínuo da ciência, vê-se em um profundo estado de alienação, onde o que mais conta é a satisfação individual. A nova era permite ao homem alcançar o espaço, mas rouba-lhe a segurança do chão. Arendt arremata que

 

[…] o homem moderno não ganhou este mundo ao perder o outro, e tampouco, a rigor, ganhou a vida; foi atirado de volta a ela, lançado à interioridade fechada da introspecção, na qual suas mais elevadas experiências eram os processos vazios dos cálculos da mente, o jogo da mente consigo mesma. Os únicos conteúdos que sobraram foram os apetites e os desejos, os impulsos insensatos de seu corpo que ele confundia com a paixão e que considerava «irrazoáveis» por não poder «arrazoar» com eles, ou seja, prevê-los e medi-los. Agora, a única coisa que podia ser potencialmente imortal, tão imortal quanto fora o corpo político na antiguidade ou a vida individual na Idade Média, era a própria vida, isto é, o processo vital, possivelmente eterno, da espécie humana. [grifos nossos] (Arendt, 2009, p. 333).

 

A humanidade, incitada a seguir o seu caminho, passou a conviver com os valores que restaram no mundo. Sem o arrimo da fé, necessitava de algo que a impulsionasse, ou seja, o seu “processo vital”. Em sua peregrinação, Jorge de Sena testemunha considerável parte desse mundo em evidente estado de desequilíbrio, transmitindo impressões que se traduzem em sua poesia, da qual recolhemos uma pequena amostra para compor o aspecto da violência contra o ser humano, nosso objetivo no presente trabalho. Ao perscrutarmos o texto seniano, deparamo-nos com poemas cujo tema é a guerra e seus efeitos, não só no âmbito do território português, local de nascimento do poeta, mas em todo o mundo. Ao examinarmos a agressividade dos confrontos, concluímos que toda a humanidade está vulnerável, como assinala Sena em “O beco sem saída, ou em resumo…” (Sena, 1989, p. 181-182), do qual destacamos algumas passagens pertinentes. Os primeiros versos denotam a imperfeição da humanidade:

 

As mulheres são visceralmente burras.
Os homens são espiritualmente sacanas.
Os velhos são cronologicamente surdos.
As crianças são intemporalmente parvas.
Claro que há as excepções honrosas.

 

A humanidade, que o sujeito poético olha individualmente, por gênero e faixa etária, recebe dele um atributo em forma de adjetivo precedido por um advérbio de modo. Ou seja, a cada tipo é atribuída uma qualidade pejorativa, que com o advérbio torna-se acentuada ou amenizada. Por exemplo: “visceralmente burras” intensifica essa característica das mulheres – na visão do sujeito –, como se fossem burras em seu âmago; os velhos, “cronologicamente surdos”, não o são desde sempre, ficam mais surdos à medida que o tempo passa. Destarte, o que adquire relevância é a humanidade em si, como ela se manifesta nas coisas, qual o seu valor:

 

Humanamente feitas são as coisas,
e as ideias, as obras de arte, etc.
Mas que diferença há entre ser-se uma besta na Ilíada
ou no Viet-Nam?

 

A indagação do sujeito: “Mas que diferença há entre ser-se uma besta na Ilíada / ou no Viet-Nam?” demonstra que as vicissitudes humanas, além de universais, são também atemporais: a Ilíada e o Vietnam servem de exemplos para ambos os parâmetros, constituindo-se em objetos de reflexão sobre o processo desumano das guerras, capaz de transformar seres humanos em “bestas”, subjugados aos caprichos de seus governantes. Sob esse aspecto, encontramos uma interessante passagem nas páginas de O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, onde o autor enumera uma série de conselhos aos príncipes, sobre os mais variados assuntos. No capítulo XVIII, o historiador ensina como proceder em ocasião de combates:

 

Deveis saber, portanto, que existem duas formas de se combater: uma, pelas leis, outra, pela fôrça. A primeira é própria do homem; a segunda, dos animais. Como, porém, muitas vêzes, a primeira não seja suficiente, é preciso recorrer à segunda. Ao príncipe torna-se necessário, porém, saber empregar convenientemente o animal e o homem. Isto foi ensinado à socapa aos príncipes, pelos antigos escritores, que relatam o que aconteceu com Aquiles e outros príncipes antigos, entregues aos cuidados do centauro Quiron, que os educou. É que isso (ter um preceptor metade animal e metade homem) significa que o príncipe sabe empregar uma e outra natureza. E uma sem a outra é a origem da instabilidade. Sendo, portanto, um príncipe obrigado a bem servir-se da natureza da bêsta deve dela tirar as qualidades da rapôsa e do leão, pois êste não tem defesa alguma contra os laços, e a rapôsa, contra os lôbos. Precisa, pois, ser rapôsa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lôbos. (Maquiavel, 1971, p. 111-112)

 

Dessa forma, segundo os conselhos de Maquiavel, é necessário que as naturezas humana e animal de cada ser sejam aliadas para que se obtenham resultados positivos em um confronto. Uma vez que o italiano cita Aquiles, ocorre-nos uma lembrança poética de intensa relação com a morte: a Ilíada, presente também no poema de Sena. Na epopeia homérica a morte é explícita, seja no relato de como um guerreiro foi decapitado ou teve a cabeça estourada por uma pedra. A violência está no destino inclusive dos grandes heróis, não sendo aplicável apenas aos soldados sem patente: o príncipe troiano, Heitor, teve a garganta trespassada pela lança de Aquiles. No entanto, a morte nesse caso também pode ser vista por outro ângulo, com um significado mais nobre. Trata-se da “morte gloriosa” dos seus heróis, desejada, dir-se-ia, uma vez que o ideal de todo grande guerreiro era viver dignamente, ser belo e bom – kalokagathia – e ter uma morte honrada, pois só assim seria capaz de permanecer vivo na memória dos homens por toda a eternidade. Heitor e Aquiles são exemplos de morte gloriosa, tendo o filho de Peleu preferido morrer em combate a fazê-lo na tranquilidade de uma velhice sem brilho: reinando entre os mermidões, mas sem feitos dignos de memória.

Mesmo que milênios separem os combates de Troia e do Vietnam, bem como a motivação dos envolvidos, a violência na guerra do século XX não foi menor: jovens soldados perderam suas vidas ou foram mutilados. Muitos dos que conseguiram retornar, abalados psicologicamente por testemunhar tantos horrores, jamais voltariam a ser os mesmos. Retomando o poema:

 

Que haja Deus ou não
e a humanidade venha a ser ou não
e os astros sejam conquistados (ou não)
apenas terá como resultado o que tem tido:
uma expansão gloriosa do cretino humano
até ao mais limite.

[…]

Gloriosos, virtuosos, geniais,
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Ignorados, viciosos, ou medíocres,
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Do primeiro, do segundo, do terceiro ou quarto sexo:
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Em Neanderthal, Atenas, ou em Júpiter
– burros, sacanas, surdos, parvos.

 

Peremptoriamente, em qualquer condição, a humanidade possui uma tendência acentuada a agir com imperfeição: “uma expansão gloriosa do cretino humano / até ao mais limite”. A repetição sistemática dos adjetivos nos últimos versos: “burros, sacanas, surdos, parvos” ratificam o quanto impura é a natureza humana. Não importa se na pré-história ou na era espacial, onde e quando haja seres humanos: “Em Neanderthal, Atenas, ou em Júpiter”.

O artista, no cumprimento de sua missão de expressar-se através de suas criações, testemunha um dado momento e ao elaborar suas obras coloca suas impressões e seu dom a serviço da humanidade. É natural que um tema de relevância como a guerra, que suscita discussões tão abrangentes, receba a atenção de um número considerável de escritores. Consideramos ser digno de menção o poema de José Saramago, “Fala do Velho do Restelo ao astronauta”, no qual, da mesma forma que Jorge de Sena, o autor reflete poeticamente sobre a condição humana da sua época.

 

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
(Saramago, 1966, p. 76)

 

Saramago, em diálogo com a epopeia camoniana, rememora a célebre fala do Velho do Restelo. Porém, em pleno século XX, tempo da enunciação, é um outro Velho que vocifera, dirigindo-se ao astronauta, não mais a Vasco da Gama. A preocupação com os efeitos das atitudes humanas volta-se agora para o céu e não para o mar. De nada adiantaram as advertências feitas por Camões através das palavras do Velho. Os limites foram extrapolados – os “vedados términos”, para usar uma expressão camoniana –, os caminhos, abertos para novas investidas. Ainda impera a “vã cobiça”, que não conseguiu ser detida, ou, ao menos, “freada”. A ambição por lucros e poder valida todas as imoralidades, a justa distribuição de riquezas nunca existiu: se uma minoria detém incalculáveis fortunas, uma grande parte da população mundial vive abaixo da linha de pobreza. As guerras, geralmente movidas por interesses individuais, são agora incrementadas pelas bombas e minas terrestres.

Mesmo em tempos remotos, quando teria ocorrido a guerra cantada nos versos da Ilíada, já era possível exterminar cidades com o poder aniquilador do fogo: a vitória dos gregos foi obtida após a tomada e o incêndio de Troia, da qual restaram apenas ruínas. Na modernidade, o homem (ou a besta?) com seu engenho, aprimorou as suas armas de guerra, tornando-as cada vez mais letais. Com a Segunda Guerra Mundial, que deixou um rastro de devastação pela bomba atômica, veio o napalme, citado no poema de Saramago. O napalme, uma espécie de gel solvente e altamente inflamável, foi uma arma largamente utilizada na guerra do Vietnam. Quando em combustão, essa substância adere à pele, queimando os músculos e fundindo os ossos. Além disso, libera monóxido de carbono, fazendo vítimas também por asfixia[1]. Nos piores momentos do combate, o napalme foi lançado por via aérea, exterminando vilarejos e campos cultivados. Milhares de pessoas foram sequeladas pelas queimaduras provocadas pelas bombas, que também tornaram as terras imprestáveis para a lavoura.

É esse o mundo imperfeito, infecto, percorrido por Jorge de Sena, que, assim como Saramago, medita sobre a instabilidade da natureza humana: apesar do avanço da ciência, das vitórias obtidas com o programa espacial, ainda não conseguiu vencer as mazelas da Terra. Nos versos de que trataremos a seguir, Sena complementa a discussão acerca da brutalidade da guerra, do quanto os massacres são desnecessários, movidos por razões torpes. O título do poema, “Para Bellum”, é bastante sugestivo ao considerarmos as questões que nele se lêem:

 

Protestos, livros, poemas, sacrifícios,
a história analisada e desmascarada: a paz
e não a guerra desde sempre a guerra.
É velho tudo isto. Há malandros
para ganhar com as guerras, há patriotas
para mandar os outros morrer nelas, há
heróis ou não heróis que morrem nelas,
há multidões para serem massacradas.
Eu protesto, tu protestas, ele protesta, etc.
e nada muda, ou muda para mais.
Antigamente, os faraós ao contar os mortos inimigos
(nunca os próprios mortos) exageravam – evidente.
Hoje, os comunicados cometem sempre esse exagero
(e a mesma distracção discreta). Mas há sempre
humanidade com vocação  para matar e multidões
com vocação vacum para cadáver.
E neste cheiro a podre milenário – vale a pena
sequer dizer que são filhos da puta?
(Sena, 1982, p. 120)

 

De acordo com o dicionário online de português[2], eis a definição de parabélum: sf (expressão lat si vis pacem, para bellum, se queres a paz, prepara-te para a guerra); certa pistola automática de procedência alemã. Trata-se de um entre muitos poemas senianos que possuem a guerra como tema, mas esse em especial mostra um sujeito poético revoltado com os seus efeitos, que brada contra a falta de humanidade dos responsáveis pelos conflitos, que nada fazem: “Eu protesto, tu protestas, ele protesta, etc. / e nada muda, ou muda para mais.” Assim como Saramago, Sena também critica os interesses escusos de quem se beneficia da guerra, que manipula números de mortos de acordo com sua conveniência, fato esse que já se repete há muitos séculos: “Antigamente, os faraós ao contar os mortos inimigos / (nunca os próprios mortos) exageravam – evidente.”

Sempre adiante de seu tempo, Sena demonstrou, em atitudes e palavras, mais precisamente na profusa obra que legou ao mundo, que para ele não foi preciso chegar o 25 de abril de 1974 para que fizesse valer sua qualidade de interventor da humanidade. O conhecido poema de Metamorfoses, “Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”, de 1959, é exemplar como forma de manifestação ética, pois nele lê-se um grande senso de justiça e a necessidade de reverenciar uma memória de humanidade:

 

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós.Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
(Sena, 1988, p. 123-124)

 

Nos primeiros versos desse longo poema, o eu-lírico questiona se haverá possibilidade de um futuro sonhado para os filhos. As dúvidas são muitas, mas há otimismo, há esperança de que esse futuro se cumpra, mesmo que seja necessário lutar por liberdade e justiça, pelo imperioso motivo de se estar vivo: “[…] Tudo é possível, / ainda quando lutemos, como devemos lutar, / por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, / ou mais que qualquer delas uma fiel / dedicação à honra de estar vivo.”

 

Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
(Sena, 1988, p. 123)

 

No âmbito da atividade intelectual que lhe é inerente, Sena pensa o bem-estar da humanidade e as injustiças que podem ser cometidas contra ela, privando-a de um futuro digno, o que pode suceder por diversas vias: uma delas é o abuso de poder pelos governantes, exercido numa guerra desigual e desumana, que reprime, discrimina e mata: “foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, / e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,”. Mesmo na atualidade, o poder ainda legitima as guerras, nas quais um número elevado de vidas é sacrificado, em nome de interesses mesquinhos.

Pensar a guerra e suas consequências remete-nos às reflexões de Walter Benjamin, filósofo alemão que sofreu diretamente os seus efeitos, já que, justamente por causa da guerra, cometeu suicídio[3]. O lembrar e o esquecer perpassam todo o pensamento benjaminiano, que aborda a temática da guerra, a partir de um estudo aprofundado do historicismo, podendo-se citar o ensaio “Sobre o conceito de história”, no qual formula diversas teses sobre o passado e seu processo de reconstituição histórica:

 

O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser perdido para a história. Sem dúvida, somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado. Isso quer dizer: somente para a humanidade redimida o passado é citável, em cada um dos seus momentos. (Benjamin,Tese 3, 1994, p. 223)

 

De acordo com Benjamin, nenhum fato, por mais insignificante que seja, deve ser menosprezado pela história, porém, o lado conhecido é geralmente o dos vencedores, na maioria das vezes perde-se de vista o número de mortos, cujos corpos, como diz o poema, foram amontoados ou reduzidos a “cinzas dispersas para que delas não restasse memória”. A banalização da morte nos leva a concordar com a professora Jeanne Marie Gagnebin, que vem produzindo fecundos estudos sobre a obra de Walter Benjamin: “O esquecimento dos mortos e a denegação do assassínio permitem assim o assassinato tranquilo, hoje, de outros seres humanos cuja lembrança deveria igualmente se apagar.” (Gagnebin, 2006, p. 47).  Assim, os mortos permanecem no anonimato, reduzidos a simples números.

 

 Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
(Sena, 1988, p. 123-124)

 

O quadro descrito é o da injustiça e da inutilidade de um gesto brutal, que ceifou vidas, sonhos e o futuro de um número considerável de homens: “Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, / foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha”, que “ofendeu o coração de um pintor chamado Goya”. Entre os artistas de todas as áreas – pintores, músicos, poetas – há uma preocupação constante com a humanidade. Cada qual manifesta-se em seu trabalho de acordo com sua especialidade: ao que parece, a sensibilidade implícita no traço de Goya ao pintar o Três de Maio suscitou reações em outro coração, igualmente dotado de “fúria e de amor”: o coração seniano, que, ao contemplar a cena retratada e sobre ela meditar profundamente, estendeu suas reflexões para outros dramas registrados pela história, devido certamente à sua visão de mundo tão ampla.

Dessa maneira, a terrível cena dos fuzilamentos metamorfoseia-se em versos. A  dimensão pictórica ganha outras proporções, outros significados no interior do poema: não são os fuzilamentos que entram em questão, mas sim, outros genocídios, como a execução dos primeiros cristãos por Nero, a queima das bruxas nas fogueiras da Inquisição, a Segunda Guerra, que usou as câmaras de gás. Em vista da atualidade de que se constitui, o poema permite pensar em guerras hodiernas como a do Oriente Médio, que condena à morte um número incalculável de inocentes.

 

Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
— mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
(Sena, 1988, p. 124)

 

Mesmo ao considerar que “tanto sangue, tanta dor, tanta angústia” não sejam em vão, o sujeito poético admite que não há quem possa reparar os danos de todos os tipos, causados por milhões de mortes: “Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes / aquele instante que não viveram, aquele objecto / que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam ‘amanhã’.”. O que Goya, o pintor, transmite com imagens e cores, Sena o faz com palavras, demonstrando mais uma vez que para o artista, o intelectual, é inaceitável assistir passivamente aos fatos: é necessário um posicionamento crítico com relação ao mundo que o cerca, sem jamais faltar com a verdade no que diz respeito a guerras e massacres. A fim de dar continuidade a essa linha de reflexão, novamente recorremos à pertinência do texto de Gagnebin:

 

Tarefa altamente política: lutar contra o esquecimento e a denegação é também lutar contra a repetição do horror […]. Tarefa igualmente ética e, num sentido amplo, especificamente psíquica: as palavras do historiador ajudam a enterrar os mortos do passado e a cavar um túmulo para aqueles que dele foram privados. Trabalho de luto que nos deve ajudar, nós, os vivos, a nos lembrarmos dos mortos para melhor viver hoje. Assim, a preocupação com a verdade do passado se completa na exigência de um presente que, também, possa ser verdadeiro. (Gagnebin, 2006, p. 47)

 

O trabalho do historiador se inclui no do intelectual, pois faz parte de uma classe que também não pode ficar à margem dos acontecimentos. O luto é necessário, para que se deixe aflorar as lembranças do passado, tocar nas consciências adormecidas, para então viver-se bem no presente. A tarefa “altamente política” e “igualmente ética” pode ser lida com todas as letras nesse poema seniano. Conquanto todas as adversidades, o poeta acredita que vale a pena resistir, lutar, transformar, como ele sempre o fez. Na sua concepção, é aqui, neste mundo a ser criado por nós, que, enquanto indivíduos dotados de vida e “em memória do sangue que nos corre nas veias”, devemos pensar em realizar o melhor. E o melhor é preservá-lo e tê-lo como uma dádiva, como garantia de um “amanhã” que outros não tiveram.

A guerra traz em si a marca da morte. Não há como dissociá-las, sejam quais forem os seus propósitos. Mesmo que ao final reine a glória do vencedor e a paz seja restabelecida, há de se passar por um processo doloroso de perdas, do qual fazem parte a morte, o flagelo e a indignação. Nos poemas analisados foi-nos possível perceber o quanto a guerra e a violência inquietam os seus autores. Vimos que os versos expressam cenas dilacerantes, em que chagas abertas são tocadas para que se penetre no mais profundo da consciência humana. Essa é uma das formas de protesto dos poetas, que, ao despertarem atenção com os dramas da humanidade, detêm o desejo de provar o sabor inigualável da paz.

 

BIBLIOGRAFIA:

ARENDT, Hannah. A condição humana. [trad. Roberto Raposo]. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. [trad. Sergio Paulo Rouanet]. 7. ed. São paulo: Brasiliense, 1994.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar Escrever Esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. [trad. Lívio Xavier]. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1971.

SARAMAGO, José. Os Poemas Possíveis. Lisboa: Portugália, 1966.

SENA, Jorge de.  Poesia II. Lisboa: Edições 70, 1988.

_______. Poesia III. Lisboa: Edições 70, 1989.

_______. Visão Perpétua. Lisboa: Moraes e Imprensa Nacional, 1982.

Sites da World Wide Web:

http://www.dicionarioweb.com.br/parabelum.html. Consulta em 18/01/2011.

http://www.educacional.com.br/reportagens/armas/quimicas.asp. Consulta em 18/01/2011.

 


[1] Fonte: http://www.educacional.com.br/reportagens/armas/quimicas.asp

[2] Fonte: http://www.dicionarioweb.com.br/parabelum.html

[3] Devido à ascensão do nazismo ao poder, Walter Benjamin, de família judaica, exilara-se em Paris, em 1935. Com a invasão da França pelos alemães, em 1940, o filósofo juntou-se a outros refugiados para tentarem a fuga pelos Pireneus. Porém, na fronteira franco-espanhola o grupo foi detido pela polícia espanhola, que ameaçou entregá-lo à Gestapo. Sem saída, Benjamin suicidou-se, embora no dia seguinte, a passagem do grupo tenha sido permitida pelas autoridades.

* Kassia Fernandes da Cunha é Mestre em Literatura Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense (UFF), tendo defendido em 2010 sua dissertação Paisagens na poética de Jorge de Sena: Peregrinação, visão de mundo e testemunho (ver http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/ressonancias/pesquisa/estudos/pesquisa-academica-sobre-jorge-de-sena/ )