Nota sobre os estudos camonianos e inesianos de Jorge de Sena

Gilda Santos
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Numa concessão ao gosto seniano das contagens, listamos abaixo o número de páginas ao lado de cada título completo, para que melhor se evidencie a extensão de seus estudos sobre Camões (buscando maior uniformidade, seguimos as publicações das Edições 70, 1980/1984):

 

1) Uma canção de Camões. Interpretação estrutural de uma tripla canção camoniana, precedida de um estudo geral sobre a canção pretarquista peninsular e sobre as canções e as odes de Camões, envolvendo a questão das apócrifas. (1ª ed. 1966) – 479 p.

2) Os sonetos de Camões e o soneto quinhentista peninsular. (1ª ed. 1969) – 301 p.

3) A estrutura de Os Lusíadas e outros estudos camonianos e de poesia peninsular do século XVI. (1ª ed. 1970) – 315 p.

4) Trinta anos de Camões. 1948-1978 Estudos camonianos e correlatos – 2 vols. (1ª ed. 1980) – 357 p. (I) e 279 p. (II)

5) Estudos sobre o vocabulário de Os Lusíadas. Com notas sobre o humanismo e o esoterismo de Camões. (1ª ed. 1982) – 427 p.

TOTAL: 2.158 páginas

Convém lembrar que além dessas ponderosas 2000 páginas (arredonde-se o número descartando folhas de rosto, sumários, divisórias de capítulos etc.), há ainda textos de Sena que se encontram dispersos (como o é o caso da conferência “Camões: quelques vues nouvelles sur son epopée et sa pensée”, proferida em 1972 no Centro Gulbenkian de Paris) e outros textos de interesse colateral para os estudos camonianos (como é o caso do livro Francisco de La Torre e D. João de Almeida, e dos segmentos do livro O Reino da Estupidez II “O Fantasma de Camões (uma entrevista sensacional)” e “Um imenso inédito semi-camoneano e o menos que adiante se verá”. Neste último – originariamente prefácio de As Quybyrycas, de Frey Joannes Garabatus /António Quadros – encontra-se mordaz ironia a ilustres investigadores e seus eruditos métodos analíticos, não faltando mesmo a paródia a certo camonista preocupado com números e estatísticas n’Os Lusíadas…).

Mas, enquanto os estudos camonianos de Sena são frequentemente citados, quer para endossos, quer para revisões críticas de suas propostas (tal como faz Vítor Aguiar e Silva, no seu já indispensável Jorge de Sena e Camões – Trinta Anos de Amor e Melancolia), o mesmo não se passa com os também alentados, e algo correlatos, estudos sobre Inês de Castro a que se dedicou. Encontram-se eles inseridos nos monumentais Estudos de História e de Cultura, cuja publicação em fascículos tem início em fevereiro de 1963 (quando Sena ainda se encontrava no Brasil) e cessa em novembro de 1969 (já nos Estados Unidos), sempre pela revista Ocidente.

Deste conjunto, os 29 fascículos iniciais ganharam formato de livro em 1967, mas jazem nas páginas do periódico os restantes 15 vindos à luz, numa publicação tão abruptamente interrompida que nem sequer se completa a última frase impressa. E, até hoje, ainda estamos à espera do prometido segundo volume, que conteria, como anunciado ao fim do volume I, “além da conclusão do estudo sobre Inês de Castro, a Adenda e Corrigenda e o Índice Onomástico referente aos dois volumes”. A coletânea em livro é composta por quatro ensaios: “A família de Afonso Henriques”, “O Vitorianismo de Dona Filipa de Lencastre”, “Os painéis ditos de ‘Nuno Gonçalves’” e o colossal, porque se estende por 495 páginas, “Inês de Castro, ou literatura portuguesa desde Fernão Lopes a Camões, e história político-social de D. Afonso IV a D. Sebastião, e compreendendo especialmente a análise estrutural da Castro de Ferreira e do episódio camoniano de Inês”, cujo longo título auto-explicativo soa como proposição e bem dimensiona o ambicioso projeto de Sena, começado a publicar na Ocidente em outubro de 1963. Projeto que se espraia – inconcluso, sublinhe-se – por todas as 365 páginas dos demais fascículos editados. Ou seja, o estudo de Sena sobre Inês de Castro mereceu-lhe irrefutáveis e compactas 860 páginas impressas (tanto como cerca de 43% das dedicadas a Camões…), ao longo das quais examina as obras literárias peninsulares que, da Idade Média ao século XVIII, elegeram como alvo “aquela que depois de morta foi rainha”, e faz entremear a leitura analítica com espantosa erudição histórica e genealógica, adensada em transbordantes notas de rodapé. Segue abaixo a transcrição dos títulos dos 84 “capítulos” inesianos, e a indicação de suas páginas, caminho seguro, não só para situar o leitor diante da magnitude da empreitada, do encadeamento temático e do espaço concedido a cada tópico, como também para suprir uma lacuna no que concerne à sua 2ª. parte:

 

                                  Jorge de Sena: Estudos de História e de Cultura

 

INÊS DE CASTRO, ou literatura portuguesa desde Fernão Lopes a Camões, e história político-social de D. Afonso IV a D. Sebastião, e compreendendo especialmente a análise estrutural da Castro de Ferreira e do episódio camoniano de Inês

 

Índice do volume I (1967):

Nota prévia  (pág. 123)

Introdução (128)

1) Inês e o Romanceiro (130)

2) Algumas considerações sobre o Romanceiro (143)

3) Floresta de Inês e de Isabel (151)

4) Dona Isabel de Liar e a vingança da sua morte (165)

5) Ainda algumas considerações sobre o Romanceiro castelhano (176)

6) Conceituação preliminar do problema literário de Inês (180)

7) Inês de Castro nos reinados de Afonso IV e Pedro I (183)

8) O casamento de Pedro e Inês (197)

9) Os túmulos de Alcobaça (204)

10) Inês de Castro no reinado de D. Fernando, na crise de 1383-85 e na primeira metade do século XV: Fernão Lopes (219)

11) Digressão sobre Menezes, Castros e outros (245)

12) Lucena e Rui de Pina (250)

13) Rui de Pina e Garcia de Resende (259)

14) Inês vista por Lopes e por Pina (263)

15) Inês de Castro e a Crónica Geral de Espanha (269)

16) Data das Trovas de Resende (272)

17) Análise estrutural das Trovas de Resende (277)

18) Gil Vicente e Inês de Castro (303)

19) Gil Vicente e o Romanceiro (315)

20) A Crónica de Acenheiro (323)

21) A Eufrósina de Jorge Ferreira de Vasconcelos (340)

22) O reinado de D. João III (348)

23) O teatro post-vicentino (360)

24) O teatro de Séneca (375)

25) As poéticas do “Cinquecento” (380)

26) Algumas observações ainda sobre o teatro néo-clássico: Aires Vitória e outros (385)

27) António Ferreira: aspectosda sua vida e da sua obra (413)

28) Data provável da Castro (433)

29) O soneto e quem fez a elegia de Dona Inês (439)

30) Observações estruturais acerca da Castro de Ferreira (442)

31) A Castro de 1587 e a Castro de 1598 (447)

32) As duas Castros e as duas Nises (451)

33) Os Confidentes, os Mensageiros e o Coro (468)

34) O duplo Coro, e a primeira comparação entre a Castro e a Octávia de Séneca (472)

35) A Castro, a Sofonisba e a Cléopatre captive (481)

36) Observações sobre a composição métrica da Castro (486)

37) As personagens da Castro em relação às obras anteriores (489)

38) Digressões sobre Pachecos, Coelhos e Resendes (494)

39) Análise estrutural da Castro (506)

40) Camões, Inês de Castro e Os Lusíadas (570)

41) Alguns aspectos de episódio camoniano (579)

42) As “fontes” do episódio camoniano (Faria e Sousa e J.M.Rodrigues): algumas observações (591)

43) Anrique da Mota ou Inês em prosa e verso (604-618)

Total do volume I: 495 páginas

 

Índice do volume II, em fascículos (Revista Ocidente, set.1967 a nov.1969):

1) O Códice Manizola, D. Afonso IV, e outras obras (pág. 3)

2) Conspecto geral das referências a Inês de Castro e da evolução do seu mito (10)

3) Visão geral das obras sobre Inês, desde c.1575 a c.1640 (23)

4) Os condes de Lemos e Inês de Castro (29)

5) Bermudez e a tragediografia castelhana dos fins do século XVI (43)

6) Observações sobre as “Nises”, em especial a “Laureada” (51)

7) As teses de Rey Soto (56)

8) A “Nise Laureada” e “Os Lusíadas” (59)

9) Outras fontes de Bermudez (60)

10) Gabriel Lobo Lasso de la Vega e Inês de Castro (62)

11) Duarte Nunes de Leão (63)

12) O soneto de Lope de Vega, e uma peça ou não (66)

13) João Soares de Alarcão e a sua Infanta Coronada (72)

14) Os poemas narrativos publicados durante a ocupação castelhana (77)

15) As obras de João Soares de Alarcão, e análise de “La Infanta Coronada” (93)

16) A “Tragédia famosa de Dona Inés de Castro, reina de Portugal” (109)

17) Lugar de Alarcón, Guevara e Tirso no teatro espanhol do século XVII (123)

18) “Siempre ayuda la verdad” e a questão da sua autoria (132)

19) Inês de Castro em “Siempre ayuda la verdad” (149)

20) Matos Fragoso e a “Segunda Parte de Doña Inés de Castro” (165)

21) Alarcóns de Espanha e Alarcões de Portugal (173)

22) Uma alusão de Guillén de Castro a Inês, e o romance do “Palmero” (184)

23) Juan de Grajales e José de Valdivieso ocuparam-se de Inês de Castro? (196)

24) Mateus Pinheiro e D. Francisco Manuel de Melo (201)

25) Os sonetos de D. Francisco Manuel de Melo a Inês de Castro (206)

26) Manuel de Faria e Sousa (215)

27) Um curioso problema de fontes e de tópicos suscitado por Faria e Sousa (223)

28) Vélez de Guevara e “Reinar después de morir” (227)

29) Algumas observações sobre “Reinar después de morir” (237)

30) Análise de “Reinar después de morir” (243)

31) Análise de “Reinar después de morir” e vários problemas correlatos (246)

32) O Fradinho da Rainha e o Cano dos Amores (282)

33) O Cancioneiro Fernandes Tomás (289)

34) Fernão Correia de Lacerda e o “Cancioneiro Fernandes Tomás” (295)

35) Alguns dados sobre Fernão Correia de Lacerda; e Inês de Castro na família (305)

36) O “Império Lusitano”, de Fernão Correia de Lacerda (309)

37) “Saudades de D. Inês de Castro” (e também o Cancioneiro de Faria e Sousa) (313)

38) O Cancioneiro Manuel de Faria (e Sousa) (320)

39) Visão de Inês de Castro na segunda metade do século XVII em Portugal (350)

40) Inês no século XVIII (353)

41) O soneto ao representar-se no teatro de Lisboa a tragédia “Reinar depois de morrer: ou D. Inês de Castro” (360)

42) Heloisa e Abelardo, Pedro e Inês (363-368)

 

E no espólio de Jorge de Sena, em Santa Barbara, há ainda inéditos relevantes, além de numerosos apontamentos relativos a estes estudos inesianos…