García Lorca, por Jorge de Sena

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Na tradução de Jorge de Sena, publicada em seu Poesia do Século XX, apresentamos um dos mais conhecidos poemas de García Lorca – sua elegia em homenagem ao toureiro Ignacio Sánchez Mejías -, acompanhado pelo verbete criado por Sena para o poeta espanhol.  


PRANTO POR IGNACIO SÁNCHEZ MEJÍAS

I

A COLHIDA E A MORTE

Às cinco da tarde.
Eram as cinco em ponto dessa tarde
Um menino trouxe o lençol branco
às cinco da tarde.
Uma alcofa de cal já prevenida
às cinco da tarde.
O mais era só morte e apenas morte
às cinco da tarde.

O vento arrebatou os algodões
às cinco da tarde.
E o óxido semeou cristal e níquel
às cinco da tarde.
Já luta com a pomba o leopardo
às cinco da tarde.
E uma coxa com uma haste desolada
às cinco da tarde.
Começaram os dobres do bordão
às cinco da tarde.
Sinos e sinos de arsénico e o fumo
às cinco da tarde.
Há nas esquinas grupos de silêncio
às cinco da tarde.
E só o touro coração acima!
às cinco da tarde.
Quando o suor de neve foi chegando
às cinco da tarde.
Quando a praça de iodo se cobriu
às cinco da tarde.
A morte pôs seus ovos na ferida
às cinco da tarde.
Às cinco da tarde.
Às cinco em ponto dessa tarde.

Ataúde com rodas é a cama
às cinco da tarde.
Ossos e flautas soam-lhe no ouvido
às cinco da tarde.
O touro já mugia por sua fronte
às cinco da tarde.
O quarto se irisava de agonia
às cinco da tarde.
Ao longe uma gangrena já vem vindo
às cinco da tarde.
Trompa de lírio pelas verdes virilhas
às cinco da tarde.
As feridas ardiam como sóis
às cinco da tarde.
E as gentes rebentavam as janelas
às cinco da tarde.
Às cinco da tarde.
Ai que terríveis cinco eram da tarde!
Eram as cinco em todos os relógios!
Eram as cinco em sombra dessa tarde!

 

II

O SANGUE DERRAMADO

Que eu não quero vê-lo!

Digam à lua que venha
que não quero ver o sangue
de Inácio marcando a areia.

Que eu não quero vê-lo!

A lua de par em par.
Cavalo de nuvens quietas
e a praça parda do sonho
com salgueiros nas barreiras.
Que eu não quero vê-lo!
Que o recordar se me queima.

Avisai todo o jasmim
com sua brancura pequena!

Que eu não quero vê-lo!

A vaca do velho mundo
passava sua triste língua
sobre um focinho de sangues
derramados pela arena,
e os touros de Guisando,
quase morte e quase pedra,
mugiram como dois séculos
fartos de pisar a terra.
Não.

Que eu não quero vê-lo!

Pelos degraus sobe Inácio
com sua morte toda às costas.
Ele buscava o amanhecer,
e o amanhecer não era.
Busca seu perfil seguro,
e o sonho o desorienta.
Busca seu formoso corpo
e encontra seu sangue aberto.
Ai não me digam que o veja!
Não quero sentir o jorro
cada vez, com menos força;
esse jorrar que ilumina
o palanque e se desaba
no veludilho e no couro
da multidão tão sedenta.
Quem me grita que me assome?!
Ai não me digam que o veja!

Não se cerraram seus olhos
quando viu os cornos cerca,
porém as mães mais terríveis
levantaram a cabeça.
E pelas ganadarias,
houve um ar de voz secreta
gritando a touros celestes,
maiorais de névoa pálida.

Não houve em Sevilha príncipe
que lhe possa comparar-se,
nem espada como era a sua,
nem coração de verdade.
Como um rio de leões
sua força maravilhosa,
e como um torso de mármore
a desenhada prudência.
Um ar de Roma andaluza
a cabeça lhe dourava
onde o seu riso era um nardo
de sal e de inteligência.
Que grão toureiro na praça!
Que bom serrano na serra!
Que brando era com as espigas!
Que duro com as esporas!
Que terno com o orvalho!
Que deslumbrante na feira!
Que tremendo com as últimas
bandarilhas todas treva!

Porém já dorme sem fim.
Já os musgos maila erva
abrem com dedos seguros
a flor da sua caveira.
E já seu sangue por aí vem cantando:
cantando por marinhas e por prados,
e resvalando pelos cornos hirtos,
vacilando sem alma pela névoa
tropeçando com milhares de patas
como uma longa, obscura e triste língua,
para formar um charco de agonia
junto ao Guadalquivir de altas estrelas.
Ó branco muro de Espanha!
Ó negro touro de pena!
Ó sangue duro de Inácio!
Ó rouxinol de suas veias!
Não.
Que não quero vê-lo!
Que não há cálix que o contenha,
que não há andorinhas que o bebam,
não há de orvalho luz que o esfrie,
nem canto nem dilúvio de açucenas,
não há cristal que o cubra de prata.
Não.
Eu não quero vê-lo!

III

CORPO PRESENTE

A pedra é uma fronte adonde os sonhos gemem
sem ter as águas curvas nem ciprestes gelados.
A pedra são uns ombros para levar o tempo
com árvores de lágrimas e faixas e planetas.

Já vi chuvas cinzentas correndo para as ondas,
levantando os seus ternos braços tão esburacados,
para não ser caçadas pela pedra estendida
que seus membros desata sem se empapar de sangue
Porque a pedra recolhe sementes e nublados,
esqueletos de pássaros e lobos de penumbra;
porém não dá nem sons, nem cristais, nem fogo,
mas praças e mais praças e outras praças sem muros.

E já está sobre a pedra Inácio o bem-nascido.
Já se acabou. E agora? Contemplai sua imagem:
a morte o recobriu de pálidos enxofres
e pôs-lhe uma cabeça de obscuro minotauro.

Já se acabou. A chuva penetra por sua boca.
O ar como um louco deixa o peito que se afunda,
e o Amor, empapado em lágrimas de neve,
aquece-se nos cumes das ganadarias.

Que dizem? Um silêncio com fedores repousa.
Estamos com um corpo presente que se esfuma,
com uma forma clara que teve rouxinóis
e vemo-la afastar-se em abismos sem fundo.

Quem o sudário enruga? É falso quanto diz!
Ninguém por aqui canta, nem pelos cantos chora,
nem co'as esporas pica, nem a serpente espanta,
aqui não quero mais do que os redondos olhos
para ver esse corpo sem possível descanso.

Eu quero ver aqui os homens de voz dura.
Os que cavalos domam e dominam os rios:
os homens a quem tine o esqueleto e cantam
com uma boca cheia de sol e pedregais.

Aqui os quero eu ver. Diante desta pedra.
Diante deste corpo com as rédeas quebradas.
Eu quero que me ensinem onde está a saída
para este capitão atado pela morte.

Eu quero que me ensinem um pranto como um rio
que tenha doces névoas e profundas margens,
para levar o corpo de Inácio e que se perca
sem escutar o duplo resfolegar dos touros.

Que se perca na praça redonda dessa lua
que finge criança triste ser uma rês imóvel;
que se perca na noite sem cânticos dos peixes
e na maldade branca do fumo congelado.

Não quero que lhe tapem o seu rosto com lenços
para que se acostume à morte que o arrasta.
Vai-te, Inácio! Não sintas o ardente bramido.
Dorme, voa, repousa: também se morre o mar.

IV

Não te conhecem touro nem figueira,
nem cavalo ou formiga da tua casa.
Nem o menino te conhece, ou a tarde,
porque tu estás morto para sempre.

Não te conhecem os lombos da pedra,
nem o plaino negro aonde te destroças.
Não te conhece uma saudade muda
porque tu estás morto para sempre.

Há-de vir o Outono com seus búzios,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém quer fitar-te nos teus olhos
porque tu estás morto para sempre.

Porque tu estás morto para sempre,
como todos os mortos pela Terra,
como todos os mortos que se olvidam
em um montão de cães que se apagaram.

Ninguém já te conhece. Não. Mas eu te canto.
Eu canto antes de mais o teu perfil e graça.
A madureza insigne do teu conhecimento.
Teu apetite de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve a tua valente alegria.

Tardará muito tempo em nascer, se é que nasce,
um andaluz tão claro, tão rico de aventura.
Eu canto-lhe a elegância com palavras que gemem
e recordo uma brisa triste nos olivais.

 

GARCÍA LORCA, FEDERICO — Um dos maiores poetas e dramaturgos da Espanha e do século XX, nasceu em Fuente Vaqueros, nos arredores de Granada, em 1898. Em Granada estudou, e aí apareceu o seu primeiro livro (em prosa), Impresiones y paisajes (1918). Formando-se em Direito em Madrid (1923), dedicou-se às letras (em 1920, uma juvenil peça, El malefício de la mariposa, foi um desastre madrileno). Libro de poemas (1921) era já uma afirmação de um poeta notável, se bem que muito marcado de preciosismo parnasiano-simbolista (que nunca inteiramente abandonou, mas transfigurou numa expressão sua). A ironia transcendente e um metaforismo surrealista são, todavia, patentes nas Canciones (1927). O êxito teatral de Mariana Pineda, neste mesmo ano, revela-o um grande poeta do teatro. Mas é com o Romancero Gitano (1928) que o grande lírico aparece, senhor de uma linguagem própria em que o romanceiro se funde com uma riqueza modernista e um muito contemporâneo sentido trágico da vida. Uma viagem a New York deu-lhe o versilibrismo e a intensidade de Poeta en Nueva York (1930). Em 1931, funda o seu teatro popular-experimental "La Barraca", em que percorre a Espanha. Bodas de sangre (1933) e Yerma (1934) são outras duas grandes peças do teatro. Nesses anos de 33-34 viaja pela Argentina. De 1935 é o Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, uma das mais extraordinárias elegias modernamente escritas. Muito ligado aos meios republicanos, mas sem actividade política, Lorca, ao estalar a guerra civil, deixou Madrid, onde estava e a república resistiria, pela sua Granada aonde a revolução não rebentara ainda. Na Granada que tanto amava (e a quem, todavia, verberara havia pouco tempo o reaccionarismo), foi preso e fuzilado nos primeiros dias da rebelião (Agosto de 1936) pela repressão militar-fascista (uma obra recentemente publicada em Paris é uma investigação minuciosa e devastadora das responsabilidades que rodearam o seu assassinato). Deixava entre muitos outros inéditos a sua maior peça, La Casa de Bernarda Alba. A execução do poeta pesou e pesa tremendamente na consciência da Espanha, e foi por muito tempo usada pelo anti-fascismo com absoluta ou relativa sinceridade. Mas não pela sua morte trágica e criminosa é Lorca um grande poeta. É-o pela força da imaginação, pela arte com que renovou o romanceiro tradicional e transformou em profunda poesia todo o convencionalismo regionalista da Andaluzia. Mais: tanto na sua poesia como no seu teatro (outros escritos dele são muito frágeis, e só possuem quase interesse para o estudioso ou para o admirador incondicional), há uma insistência obsessiva no tema da morte violenta, a que o seu fim deu um selo atroz de veracidade, e é essa mesma insistência que é essencial à sua visão do mundo, em que beleza e escuridão coexistem, a liberdade é um permanente desafio, e a própria expressão poética uma inocência reconquistada.

 

* In: Poesia do Século XX. 3a. ed. Porto: ASA, 2001.