Prefácio a ‘As mãos e os frutos’, de Eugénio de Andrade

Dentre os poucos prefácios que Jorge de Sena escreveu para obras de poetas de seu tempo, encontra-se o que destinou  à 5a. edição de As mãos e os frutos, de seu amigo Eugénio de Andrade, vinda à luz, pela Inova do Porto, em 1973 (em volume que incluiu Os amantes sem dinheiro). Nesta concisa apresentação do emblemático livro andradino, Sena ratifica avaliação sobre o autor que veiculara muitos anos antes, nas suas Líricas Portuguesas: “É, incontestavelmente, pela força lírica, pela ciência e a originalidade da forma, por uma sensualidade muito pura e franca, um dos mais notáveis poetas contemporâneos”.

 

AS MÃOS E OS FRUTOS

Foi o terceiro livro de Eugénio de Andrade, sob nome que ficou o seu. Era o quarto livro de poemas que publicava. Hoje, é há muito o primeiro na lista das suas obras poéticas, por supressão de todos os anteriores. E isto aconteceu simplesmente porque ele não quis reter a sua produção juvenil, mas só desde a que primeiro se coligia neste livro.

Diríamos que foi um poeta lento em descobrir-se e à sua pessoal expressão? Não, pois que muitos dos seus temas e imagens predilectas figuravam já nos primeiros livros, e porque um livro publicado aos vinte e cinco anos, como este foi em 1948, não é ainda obra de poeta amadurecido pelo tempo, se bem que o seja de poeta que amadureceu em si mesmo.

E qual a razão, portanto, do êxito perene deste volume consagrado pelos admiradores do poeta e por ele próprio sem dúvida? Por certo que o encantamento de uma colectânea em que, já sem juvenilidade, a juventude é tranquilamente e naturalmente juventude.

As Mãos e os Frutos foi um livro composto graças a um conjunto de circunstâncias que o fizeram feliz. Escrito por um homem na força da juventude, mas no momento raro em que a adolescência ainda não murchou de amarga, nem a maturidade á se fez de triste. Escrito, assim, com lucidez sem angústia, ardor sem ingenuidade, segurança sem complacência, inquietação sem azedume, tranquilidade sem ignorância, e com franqueza discreta, elegância viril, naturalidade para além do desano.

As emoções tensas e contidas do entusiasmo erótico, a melancolia estóica ante o que se perde e esvai, uma vivência vegetal e de ar livre, um frescor de manhãs, um ardor de estio, um fluir das noites silenciosas entre o céu e a terra em que os corpos se alongam ou se aprumam numa nudez sem vergonha ou o contrário dela – tudo isso que será depois muito da poesia de Eugénio de Andrade, surge neste livro, em estado de milagre momentâneo. E, por isso, ficou para sempre na sua obra, como um padrão da sua originalidade e da sua dignidade de poeta.

Uma poesia nem alegre nem triste, nem apaixonada nem fria, nem próxima .nem distante, nem confessional nem reticente, nem intelectual nem sentimental, nem pura nem impura – em versos musicais, fluidos e firmes, a que a rima dá por vezes, menos que a pontuação do canto, a marcação da dança, uma poesia do ser e do amar, entre a carne e o espirito, lá onde as almas não existam para torturar-se e os corpos não saibam o que seja trairem-se.

Dança, sim. Dança pagã sem deuses olímpicos nem telúricos, anterior e alheia ao hieratismo dos mistérios ou ao alegorismo das mitologias. Deuses que são a vibração das águas e dos campos, das sombras e da luz, a intensidade muscular do gesto distendido. Dança anterior, sobretudo, ao pecado como crime de existir. Dança que evoca e concretiza uma Arcádia, uma Idade de Ouro, suspensas sobre o bem e o mal, e no entanto rodeadas – como uma ameaça sinistramente presente que a esta poesia dá a dimensão trágica – pelas fúrias da maldade humana, que só a firmeza do poeta detém no limiar deste paraíso de sensualidade, como aos anjos e aos demónios de que elas se mascaram.

As mãos e os frutos… As mãos que se estendem, que tocam, que acariciam … Os frutos que, maduros, tombam e se entregam… Não as mãos que suplicam ou que receiam ou desistem. Não «os frutos de sombra sem sabor», como o poeta diz. Mas as mãos e os frutos do poeta que, aos vinte e cinco anos, podia serenamente dizer:

 

Se vens à minha procura
eu’ aqui estou. Toma-me, noite,
sem sombra de amargura,
consciente do que dou.

 

– na plena epifania de celebrar aquele momento em que

 

… gravemente, comedidas,
param as fontes a beber-te a face.

 

Madison, Wis., USA, Janeiro de 1970

 

In: Estudos de Literatura Portuguesa II, Lisboa, Ed. 70, 1988 p. 259-260