Carta a Antonio Candido

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Jorge de Sena, a filha Maria José e os padrinhos Gilda e Antonio Candido, no batizado da criança (a oitava de Jorge de Sena). Araraquara, 17/02/1962.

No seu notável depoimento “Intelectuais portugueses e a cultura brasileira” *, Antonio Candido registra: “Sena escrevia cartas longas, vibrantes, de uma qualidade que as tornava vrdadeiros textos literários, abrindo-se nelas frequentemente com a veemência que o caracterizava”. Pois aqui temos uma carta de Sena, então já nos Estados Unidos, a este seu compadre, acertando os detalhes de uma conferência e de um passeio a Chicago.

Sobre a conferência, dirá adiante Antonio Candido: “[Sena] tinha ido trabalhar na Universidade de Wisconsin, onde nos encontramos em 1968. Eu estava na Universidade de Yale e ele me convidou para fazer lá um conferência, que foi sobre Machado de Assis. Ao me apresentar, manifestou publicamente uma convicção nossa, convicção que debatemos várias vezes: que Machado de Assis e Eça de Queirós eram romancistas do mesmo nível que os maiores da Europa no século XIX. Foi a última vez que o vi.”

 

27 de Abril de 1968

Meu caro Antônio Cândido

Recebi a sua boa carta de 20, e não respondi logo, porque procurei contactar o Aldrich [1] – e soube que ele entretanto lhe escrevera uma que se cruzara com a sua. E ontem chegou a que V. me escreveu a 23, e que confirmava que o convite fôra realmente remetido (a bagunça americana, que se distingue da nossa apenas pela organização, dá sempre para desconfiar).

Virá então V. no dia 9, quinta-feira, para fazer a sua palestra pública, em vernáculo da região, nesse mesmo dia, às 4 da tarde. É preferível a quinta, por que as sextas se caracterizam pela fuga de gente para o fim de semana (que pode ser passado no backyard mas é sagrado por estas bandas, como já terá visto). Para tal, convirá que V. arranje maneira de chegar aqui cedo, na quinta-feira, para ter tempo de se repousar um pouco e fazer a sua concentração espiritual e ensaiar-se ao espelho que será o do Madison Inn, muito perto do “campus”, onde tem aposentos reservados para quinta e sexta. No sábado, a Mécia e eu iremos consigo a Chicago, onde lhe mostraremos o Art Institute e as colecções da Newberry Library (cujo conservador, o Frederick Hall é muito nosso amigo e brasileiro honorário). À noite desse dia, viajaremos de volta, e ficará V. para fazer as suas visitas. E, no domingo, poderá efectuá-las e regressar calmamente ao “haven” de New Haven [2]. Concorda com este programa? Se sim, marcar-lhe-ei reserva em hotel bom e módico em Chicago (ou V. pode hospedar-se com os seus parentes? – diga).

Uma vez que V. tem afinal as notas para, digamos, duas aulas (como eu tinha entendido – e não se classifique de velho cororoca, antes de ver como eu estou…) temos assim confortável material para os meus dois cursos – o da literatura brasileira (advanced survey, em que estou esta semana que entra a concluir o Machado de Assis), e o seminário sobre o romance do Modernismo (com ênfase nos aspectos urbanos, para combater o excesso de Nordeste, que já enjoa). Este é às quartas-feiras, mas usarei a minha aula de literatura portuguesa contemporânea (curso só deste semestre), ou o seminário do António Salles [3]. Aquilo que der para conversa mais longa com os alunos, sem esforço excessivo da sua parte, é o que V. pode programar para o tempo mais comprido (diga-me qual é, para eu anunciar já). Na 5a ou na 6a terá banqueteação magna aqui em casa, como é de tradição deste consul honorário escoucinhado oficialmente, e com maioria de razão para VExcia, ilustre compadre.[4]

Tivemos esta semana aqui os irmãos Campos [5] e concretistas, que se houveram com sucesso (embora não o de escândalo vanguardista que eu desejava que abalasse o “campus” dormente) e partiram hoje para Indiana. Foi aliás a razão de lhe não ter escrito ontem mesmo sobre todos estes assuntos de decisão urgente.

Tivemos muita pena de não ver Gilda [6]. Mas folgamos com a ideia de que VV. se espanejaram devidamente em New York, cidade da minha especial predilecção (como todas as cidades grandes).

O que temos para conversar não acaba mais – e os dias daqui não vão chegar. Mas, precisamente para aproveitarmos da sua companhia o mais possível, e conversarmos à vontade, é que fazemos questão, eu e a Mécia, de passear a Chicago consigo (cidade de que gostamos muito, ao contrário da maioria dos americanos que ainda vêem gangsters, nela, em cada esquina e bêco). Isso poderá aliás ser feito no domingo – mas parece-me que, para V. ter tempo de ver o museu e a biblioteca que grave falta seria que não visse (no museu está o que falta em Paris…), e ver quem quer ver, é melhor como ficou programado acima. A ida a Chicago faz-se confortàvelmente de ónibus (duas horas e meia, a três horas, conforme os horários, e poderíamos sair de Madison às oito e meia da manhã, boa hora), pelo que não vale a pena V. comprar bilhete de avião para esse percurso. E eu, meu caro, avião só de emergência ou entre os continentes… – até ao Texas vou de ônibus, pelo que vou conhecendo este país melhor que muita gente americana que só conhece aeroportos todos iguais.

Esperamos que Ana Luísa [7] não tenha sido envolvida – pelo menos mais do que o conveniente – naquelas confusões guanabarinas [8]. Também acêrca de tudo isto quero conversar consigo. Tenho a impressão de que a juventude brasileira (apertada entre a classe dirigente ou profitente, a que a maioria pertence, e uma consciência nacional sempre traída pelos donos do poder) está reagindo em termos de revolta pela revolta, ou numa cegueira de paixão de extrema frustração – o que, para o futuro, do ponto de vista de um renascimento político em relação à derrocada das estruturas, se me afigura um situação trágica: na medida em que pode ajudar a perpetuar o conservantismo egoísta das classes médias, sempre patriòticamente cobardes (ou vice-versa). Por mim, meu caro, estou cada vez mais marxista e mais triste. E cheio de curiosidade de ver o que vai sair desta situação em que a nossa matriz norte-americana se encontra (e de que depende a das filiais da emprêsa).[9]

 

Notas:

1. Personagem não localizada, mas, possivelmente, seria o Chairman do Departamento ao qual Sena estava vinculado na Univ. de Wisconsin.
2. Campus da Univ. de Yale, onde A. C. lecionou em 1968, como Professor Visitante.
3. Antônio Salles Filho, professor brasileiro que lecionava na Univ. de Wisconsin na mesma altura de JS. Retornou ao Brasil na década de 70, vinculando-se à Univ. de Brasília, da qual se aposentou em 1988.
4. A. C. e sua esposa Gilda de Mello e Souza foram padrinhos de batismo de Maria José, filha de J.S. e Mécia, nascida em Araraquara, em 1961.
5. Augusto e Haroldo de Campos, expoentes da Poesia Concretista brasileira.
6. Esposa de A. C., Professora de Estética no Depto. de Filosofia da FFLCH da USP. Faleceu em 2005.
7. Ana Luísa Escorel, filha de A.C. e Gilda.
8. Referência à forte repressão aos movimentos estudantis contra o Regime Militar em vigor no Brasil, sobretudo em 1968 no Rio de Janeiro (antigo “Estado da Guanabara”).
9. O fim abrupto é apenas da página datilografada (a que nos foi cedida por Mécia). As palavras de despedida foram manuscritas.

* Gobbi, M.V.Z. et alii, org. Intelectuais portugueses e a cultura brasileira: depoimentos e estudos. São Paulo/Bauru: UNESP/EDUSC, 2002. p. 26-7