Carnaval a Bordo: a travessia do Equador

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Ritual do "Cortejo do Rei". Jorge de Sena, ao centro.

Da viagem na Sagres, um registro de momentos descontraídos, graças à tradicional celebração da passagem do Equador. Compondo o clima "carnavalesco", eis aí a fantasia em torno de Netuno, a quebra de limites hierárquicos e as disputas brincalhonas do velho entrudo…

 


 

Nesta tirada muita gente da guarnição e os cadetes iriam atravessar a linha do Equador pela 1a. vez e dentro da velha brincadeira não se poderia fazer isso sem licença do Rei dos Mares. Por isso na véspera da passagem (9) entrou a bordo para transmitir as ordens de Sua Majestade um almirante que à partida foi saudado com as salvas do estilo. No dia 10 às 3 horas passou-se o Equador por 27oW (GW) dando-se então início às festas. O Rei dos Mares entrou a bordo seguido do seu séquito e tribunal; este arrumou-se junto do cadafalso composto por uma tina de lona, cheia de água, na beira da qual os acusados se sentavam para fazer a barba, cortar o cabelo e rezar. As penas impostas aos réus eram "pesadas" e pagas de maneira a permitir o bom funcionamento futuro das goelas da corte do Rei dos Mares. O tribunal compunha-se do juiz, advogado de acusação, advogado de defesa e escrivão. Foram julgados S. Ex.cia o Senhor Comandante, o Snr. Oficial Imediato ambos por terem comandado o navio sem licença; o Snr. Engenheiro e os Snrs. Guardas-marinhas por passarem pela 1a. vez a linha. Do mesmo crime foram acusados todos os cadetes e os alunos. As primeiras execuções decorreram em boa ordem mas depois teve de ser em massa para acabar rapidamente. No fim a festa degenerou numa luta geral em que cada qual procurou molhar o próximo o mais possível. 

* In: Diários (Porto: Caixotim, 2004, p.12)