Um imenso inédito semi-camoniano, e o menos que adiante se verá (parte 1)

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Em tempo de Carnaval, convém lembrar que, no campo literário, “carnavalizar” não é verbo aplicável somente à poesia ou à ficção… Neste prefácio que Jorge de Sena escreveu para As Quybyrycas, de António Quadros (aliás, livro extraordinário que ainda está à espera de leitores), dá-nos excelente exemplo das piruetas paródicas (e divertidíssimas) que é possível fazer com o ensaio de feição erudita. Repare-se, particularmente, no autoparodiar-se do Sena-camonista, obcecado pelos números d’Os Lusíadas

Neste ano da graça de 1972, em que todos os patriotas – os de direito, os de facto, os honorários, os de ocasião, os sócios correspondentes, e os que pelo mundo adiante, mesmo sem saberem português nem que Camões existiu, trazem, por obra dele, Portugal no coração (e não incluímos os que, por mercê das suas posições políticas, académicas ou outras, celebram ou promovem a celebração do 4o. centenário adiante referido) – celebram, aqueles, por pensamentos, palavras e acções públicas, nas cidades, vilas e aldeias, pelos campos e praias e cidades, e usando de todos os meios da imobilidade ou de transporte individual ou colectivo, o centenário quadratíssimo de Os Lusíadas, os quais, como é sabido dos menos ignorantes, foram obra do eminente Luís Vaz de Camões (ou só Luís de Camões como ele terá feito que figurasse na portada do seu mimoso poema) – que mais sensacional participação nesta geral romaria que agita os corações mais doutos do universo directa ou indirectamente afecto à gloriosa lusitanidade, do que a publicação destas Quybyrycas atribuídas ao conhecido e estimado poeta por certo quinhentista Fr. João Grabato, ou Grabatus, ou Garabatus, como ele, na melhor tradição dos nunca assaz louvados humanistas, macarronicamente latinizou?

Quibíricas é, assim em modernizada grafia, e como se vê imediatamente exercitando as faculdades do olho filológico [1], um vocábulo derivado de Quibir, ou Kibir, ou Kebir, ou ainda Kbr, conforme o grau de arabismo originário que imprimirmos à transcrição do nome de um lugar tão famoso nos fastos sebastianistas [2] da ínclita grei. E é de notar, antes de mais, que este poema, o qual devemos classificar, quanto ao género [3], em epopeia (ou, se quisermos, para melhor nos afinarmos pela actualizada terminologia da crítica contemporânea, anti-epopeia) [4], é em onze cantos. Dez cantos – e foi Faria e Sousa, o respeitado pai da camonologia, quem primeiro terá apontado, nos seus valiosos comentários ao poema de Camões, como, de todos os então modernos fora o mesmo Camões quem primeiro chamara às divisões da sua produção narrativa cantos, colocando-se assim sob a égide da tradição dantesca[5] – tinha e ainda tem o poema camoniano.

Está na memória das gentes ilustradas e patrióticas deste século quantos esforços meritórios foram feitos, por poetas que a crítica nunca reconheceu nem louvou com o requerido patriotismo, para realizar o que Camões não fizera e deveria obviamente ter feito, dados os seus dons mais ou menos proféticos: trazer até às magnificentes alturas da história portuguesa neste século a que nos reportamos, e é por coincidência o nosso, o que, historicamente considerado, não podia ser tomado senão como um prólogo. Com efeito, Os Lusíadas, com a as suas 1102 estâncias, eram e são – como não dizê-lo? – um prólogo. Sem dúvida brilhante, grandioso, ilustre, imorredouro, celebrável com as maiores honras e clamores devotos, mas prólogo de quanto veio depois: Alcácer-Quibir, o respeitável Cardeal D. Henrique (essa tão incompreendida e trágica figura simbólica das hesitações do patriotismo dos governantes mais responsáveis), os sessenta anos de união hispânica (cativeiro de Babilónia, segundo as analogias bíblicas, mas, como elas, não aludindo às tendas de secos e molhados adentro do império espanhol, rendosamente exploradas pela aristocracia patriótica), uma guerra de independência que preciso foi animar com sermões, discursos, demonstrações copiosas dos direitos brigantinos, alguns cadafalsos e até atentados à mão armada, para não citarmos impostos forçosamente cobrados, etc.[6], uma virtuosa rainha, celebrada epicedicamente pelo Padre António Vieira e que foi casada com dois reis sucessivos e irmãos, as minas do Brasil e o convento de Mafra, o Terramoto de 1755 (essa glória que ninguém pode disputar em magnitude a Portugal), as invasões francesas, a ocupação inglesa, as guerras civis, a Regeneração tão decantada pelos homens ditos de 70, pouco lidos em Camões segundo as melhores informações[7], a queda da Monarquia, o tem-te-não-caias da República, e o meio século ulterior que colocou Portugal enfim na vanguarda das nações não apenas ocidentais mas de outros pontos cardeais e colaterais geralmente incluídos na Rosa dos Ventos[8]. Foi assim que várias tentativas foram levadas a cabo[9] para criar-se o Canto Undécimo que faltava à plena integridade de um prodigioso país que atingiu finalmente aquele superior centro de imóvel estabilidade na vertigem dos mundos e no desabar dos impérios, em que o movimento se identifica com a inércia, e a vida pública e privada adquire, entre gravatas (note-se a semelhança deste vocábulo com Grabato), brilhantinas e inaugurações de fontenários, a rigidez perene da morte que a imortalidade isenta daquela putrefacção a que os cadáveres, por falta de consciência nacional e cívica, soem entregar-se[10]. Pressentia-se com justo e atilado juízo, se bem que nem sempre com o respectivo e adequado voo do que é costume chamar-se “inspiração poética”[11], o “incompleto” de Os Lusíadas, e tentava-se obviar tão grave inconveniente para uma obra de tão alto valor histórico-educativo, e para mais considerada perene e permanente por excelência. Mas o pressentimento era-o mais e menos que tal: pois não prometera o próprio Camões ao rei D. Sebastião, uma continuação do poema? Pois não é com essa promessa, em aberto e em suspenso, que o poema termina, num amplo admitir de futuros cantos? E aqui – quem o diria – se encontrava oculta, como tudo em Os Lusíadas, uma chave do acontecimento que, alacremente, aceitámos prefaciar.

Aos 10 cantos de Os Lusíadas, com as suas 1102 estâncias, aparecem agora, de continuação, os 11 cantos das Quibíricas, com as suas 1180 estâncias. Observe-se a correlação:
10            1102
11            1180
que dá ao segundo poema não só um canto a mais mas mais 78 estâncias. Transcendental cálculo: porque 78 era o ano (no século de 1500 em que Os Lusíadas e a especial batalha se distanciam, note-se, de seis anos) – de quê? Quem ignora que de Alcácer Kibir ou Quibir? Onze cantos como um Undécimo Canto, mais 78 estâncias para símbolo daquela data crucial em que se centra o segundo poema. Mas que é 78 dividido por aquela diferença de 6, senão o temível 13? E há mais: 11×10 é 110 que, enquadrado a 10, é 1100, ou sejam menos 2 estâncias que as de Os Lusíadas – mas menos 2 que, somadas àqueles seis anos de diferença entre as duas datas, são o valor 8, número que faz parte de 78 (a batalha) e de 80 (a morte de Camões e a perda da independência)[12]. Mas que não nos escape maior transcendência ainda: qual a razão de 1180 estâncias, além das já expostas e aritmosoficamente justificadas? Nem mais nem menos do que ser 1180 o ano de 1580 subtraído dos 400 anos que nos separam da 1a. edição de Os Lusíadas! 400 era para Camões um valor altamente significativo: um dia, este quarto centenário seria celebrado em circunstâncias precípuas de grandeza nacional, e era o valor que, descontado o “milénio” da Graça, sendo subtraído ao ano do seu próprio nascimento, dava a data em que, criança irresponsável que não sabia que, com o seu gesto, fundava uma nação, Afonso Henriques cuspira na sopa diante de sua mãe, D. Tareja, no castelo de Guimarães![13]

Que estas curiosidades tão assustadoras para os críticos do inefável [14] nos não desviem e antes conduzam, como efectivamente conduzem, aos centrais intento e dever deste texto [15] prefacial [16]. E quais são eles? Meramente apresentar a obra? Analisar o estudo do autor? Ora [17]. Identificá-lo, acima de tudo. E entremos quanto antes na palpitante matéria.

Fr. João Grabato é ou devia ser conhecido de quantos se consideram eruditos do nosso século XVI. Afinal, ele é registado por Nicolau António, na Biblioteca Hispanica Vetus, e por Barbosa Machado, Garcia Peres (por uns versos castelhanos que lhe são atribuídos num ms. da Biblioteca de Palácio, em Madrid, referido por Gallardo) e mesmo Inocêncio. Versos seus e algumas cartas figuram, no estado de ineditismo comum à maior parte da literatura portuguesa não-contemporânea, no Fundo Pombalino da Biblioteca Nacional de Lisboa, bem como em códices da Biblioteca da Ajuda. Também a sua vida pode ser do conhecimento geral, nas suas grandes linhas, sem aqueles pormenores que dão sabor peculiar a tais indiscrições: além das notícias bio-bibliográficas acima citadas, que lha resumem, uma biografia sua (evidentemente ignorada por aqueles bibliógrafos) está inserida na magnificente obra de Fr. António da Purificação, História Apologética e Gloriosa da Aparição e Milagres da Nossa Senhora dos Remédios da Lapa, de Aguiar da Beira, ou Repositório Cronológico, Crítico, Didascálico, Filosófico, Ético, Político, etc., dos Varões Ilustres de Ambos os Sexos que Honraram por Feitos e Virtudes a Seráfica Ordem dos Defensores da Virgindade de Maria, fundada naquela Igreja pelo Insígne Antistite Episcopal de Castelo-Branco, D. Agostinho de Azevedo e Mello de Castro Surrupita, no Ano da Graça de Nosso Senhor, de 1576, Obra Moral e Espiritual, Dedicada ao Ínclito Talento e mais Partes do Excelentíssimo Senhor D. Alexandre da Cunha e Silva Sampaio Villasboas, Eminente Marquêz de Alcabideche, 3o. do Seu Título, 18o. Senhor da Tábua de Ferreiros, Comendador de Castrim na Ordem de Santiago, etc., e do Conselho de Sua Majestade Fidelíssima, Fundão, na Oficina de Luís Craesbeeck da Costa, 1669. É no 7o. tomo desta ponderosa colectânea das mais variadas, inesperadas e interessantes notícias, que o nosso frade aparece como varão que, passado do pecado à virtude, e das armas ao cilício, veio a ser recebido solenemente (corria o ano de 1587) no capítulo da Ordem, tendo depois celebrado missa que foi assistida por todos os notáveis da região e mais membros daquela Ordem a todos os títulos seráfica, e proferido sermão em que – citamos o douto Fr. António – “incluiu não sem escândalo de alguns dos presentes menos versados no sentido divino de algumas letras humanas, versos de um poema que andava compondo sobre o chorado desastre em plagas de Marrocos aonde se teria perdido” (o sebastianismo de Fr. António espreita muitas vezes dos interstícios da sua elegante prosa) “mais o reino que o rei” (p. 154-verso).

Queremos crer que este passo de Fr. António escapou a quantos críticos se ocuparam de Fr. João Grabato, como aliás de outros notáveis autores e personalidades de relevo na História Portuguesa, a que aquele deu lugar no seu vasto “repositório”. Por certo que o facto se deverá à extrema raridade da própria obra que só incompleta existe nas poucas bibliotecas que a possuem [18] – e desnecessário é sublinhar a importância do citado passo, em que evidentemente o diligente autor se refere às Quibíricas.

Mas isto nada é, a comparar com o que segue. Jamais encontrámos a mínima referência, directa ou indirecta, ao extraordinário (é o termo) manuscrito de Luís Franco Correia, não o sempre inédito e conhecido cancioneiro camoniano [19] mas as longas e prodigiosas memórias em prosa, sem título, incluídas na Miscelânea no. 4038, Gaveta 849, do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Esse escrito (decisivo para os estudos camonianos, e tão grave em suas afirmações e registos, que cumpre não publicá-lo nunca, nem permitir o seu manuseamento a nacionais ou estrangeiros)[20], a fls. 68-verso (numeração moderna da “miscelânea” que abre por uma série de cartas de várias individualidades seiscentistas, que nada tem de comum com o manuscrito cuja existência agora revelamos) diz o que adiante transcrevemos a respeito de Camões (de quem as ditas memórias se ocupam primacialmente):

“Havia entre os seus amigos ao tempo que voltara da Índia e publicara já o seu famoso poema que eu cheguei a copiar no meu cancioneiro [21] e tão aclamado foi pelos mais delicados amantes das Musas que então viviam nas Espanhas, como tão denegrido por outros que viram no poema liberdades e atrevimentos impróprios de tão nobre poesia, gente mui diversa em nobreza da que se honrava com protegê-lo como o Senhor D. Rui Dias da Câmara que lhe pedira os salmos postos em vulgar, e mui distante da piedade que ele mesmo todo largava de si como suor de arrependimento por seus anos perdidos quando, desque aportara a Lisboa, ele se fizera muito dos frades de São Domingos, para lhe deixarem passar o poema por limpo e santo, e não suspeitarem dele Camões até que Deus fosse servido chamá-lo à Sua Divina Presença por morte dizia ele que não de pena ou penúria, nem de pátria em competição de doença com as suas partes baixas também marcadas pelos erros e o mau exercício das faculdades viris, mas de puro fazer-se o que não era, por amor mais de seu poema que de sua vida ou salvação. Era gente dada a opiniões mui suspeitas contra a nossa Santa Fé Católica, e outros vícios e pecados que não são de dizer, e que ele tinha por companhia sua em uma taberna que havia ao fundo da rua em que morava e o visitei muitas vezes, ali levado por nossa antiga amizade e pela muita e rendida admiração que o seu génio criara em mim, logo de aquando o conhecera em outros tempos mais felizes mas de menos ou nenhuma fama sua como a que fruía agora. Nunca porém me achegava quando o via rindo ou falando e ouvindo dizeduras indignas de homem bem nascido e cumpridor dos deveres de bom católico e fiel súbdito dos reis de Portugal que ele cantara com tão discreto primor. Dizendo-lhe eu do perigo de tais companhias e de que se murmurava assaz de sua pessoa a ponto que podia o arruído chegar mui asinha aos ouvidos tão longos da Santa Inquisição que nos guarde, respondia-me ele que os frades bem sabiam daquela matalotagem, que ele estava ali para os converter à boa doutrina e para mais acrisolar-se em sua virtude, ao ter tão junto de si os calores do pecado e das más palavras. E eram esses homens alguma gente baixa com que privara na Índia e outros mais moços da cidade que por ali assentavam seus arraiais de blasfémia e desatino, e até alguns velhos sem vergonha nem piedade como um Mendes Pinto que vivia para as bandas de além-rio e andara pelas partes mais extremas do Oriente e diziam eles que compunha uma obra de sua vida andeja que era tudo dito pelo contrário em fingidos louvores de Chinas e Japões e outras terras bárbaras e ignorantes da lei de Cristo. Dos outros me lembro que eram Gaspar da Silva, Martim de Crasto, Luís da Costa, e mais uns quantos que eu tinha todos por cristãos-novos ou pior, além de um que diziam frade, e se chamava João Gravato. Com este me parece que acertou aquele tão grande poeta e meu amigo de escrever a continuação que a D. Sebastião, El-Rei Nosso Senhor cuja alma e corpo tenha Deus em Sua Suma Caridade e Descanso, ele prometera das suas Lusíadas e a que, como diz, o Rei se esquivara sumindo naquelas areias de África aonde ele só perdera um olho e o Rei perdera um reino. E era parte da combinação entre tão grande poeta e frade tão desavergonhado que nem de frade usava o hábito, que o poema havia de ir em nome do frade e não dele, porque assim como o rei não cumprira com o poeta, o poeta não cumpriria com o rei em cantá-lo de seu mesmo nome.

Isto me pareceu coisa em todos modos repreensível e já efeito daquelas obnubilações que o Inimigo lança nos espritos quando sabe que a morte anda por perto. Mas ele uma vez me dissera que o Inimigo não havia que não fôra a nossa mesma mortalidade maligna, o que tomei como daquelas liberdades poéticas de que ele era tão pronto dizedor. Mas terá sido aquele poema obra jocosa que se não fez ou não vi nunca, nem se encontrou nos papéis do Camões por sua morte que não tardou a homem que tanto vivera de tristezas e misérias como não conheci outro. Ou o dito frade a tomou de efeito para si. Quero crer que não foi escrita nem eu do frade mais soube nem curei de saber. E por morte do poeta aquela gente me consta que desaparecera como se foram moscas que só a luz daquela grande alma convocava com o pior de si que é como o fumo de que as grandes almas ardem. Não fôra o meu amor da verdade maior que a amizade sempre fiel que lhe tive e mesmo por me saber honrado da sua, como já noutro tempo declarou o famoso Platão, e isto não escreveria em risco de alguém me ler que não entenda pela verdade que é.”

Não comentemos, senão com um respeitoso silêncio, este espantoso documento. É todavia curioso notar que daquelas más companhias no fim da vida – e dos murmúrios que elas suscitavam – se faz eco pessoa tão devota de Camões como o foi Faria e Sousa. Conhecera ele este manuscrito? Conjectura desnecessária, e que é colateral ao que mais nos importa de momento: Camões é, à fé de Luís Franco Correia, o autor das Quibíricas, de que o frade recitou algumas estrofes no seu sermão da Virgem, não por lhe ter roubado o poema, mas porque o poema lhe havia sido transferido pelo próprio glorioso autor. Assim se pode justamente parafrasear a frase célebre, e afirmar que cada época tem Os Lusíadas que merece.

Que o poema é “camoniano” – isto é, no dizer dos mais abalizados camonistas, possui “o selo e o perfume” de Camões – não sofre a menor dúvida: basta lê-lo e sentir que assim o é [22]. Que o estilo patenteia a intenção de escrever numa linguagem semelhante à das cartas de Camões um poema que não fosse dele, é evidente. Que o frade terá, aqui e ali, posto muito de sua lavra, para melhor cumprir a promessa feita ao amigo e desvirtuar alguma camonidade excessiva e não consentânea com a intenção originária, é patente [23]. Que o poema ressuma amargor satírico e espírito anti-épico, eis o que não só atesta mais fundamente a sua autenticidade, como faz dele, tanto ou mais que Os Lusíadas, uma obra para os leitores esclarecidos do nosso tempo: aqueles portugueses que deixaram de acreditar em si mesmos enquanto tais, ou porque os não deixam ser portugueses, ou porque os não deixam ser eles mesmos, ou porque lhes não deixam fé que para todos sirva. Mais tarde ou mais cedo, veria a luz do dia aquela celebração de Alcácer-Quibir, que não puderam fazer, por falta de talento e de perspectiva, os poetas então contratados para isso mesmo, em vez daquele que deixaria à posteridade a epopeia e a anti-epopeia, o prólogo e o epílogo.

 

Notas:
1- Cf. Aristóteles, DeO culis, e também Carolina Michaelis da Silva, Bases para o Estudo Oftalmológico da Filologia, Coimbra, 1917. Esta autora não deve ser confundida com a sua quase homónima, filóloga também.
2 – Vide o ms. inédito do sábio Leite de Vasconcelos, precioso tesouro oculto da biblioteca, ao que consta, da Faculdade de Letras de Lisboa, intitulado singelamente Palavras Obscenas da Língua Portuguesa, sua Etimologia e Persistência.
3 – Cumpre mencionar, a propósito da teoria dos géneros, a obra excepcional de Karl Steigersson, Os Géneros na Teoria e na Prática, ensaio psico-sexual sobre as origens e sentido actual de um velho conceito poético-retórico. Desta obra, a todos os títulos revolucionária, há uma edição brasileira, traduzida e utilmente prefaciada por Oto Maria de Carpos, S. Paulo, 1967, sob o título acima citado. O ilustre professor de Friburgo discute a aplicação dos sexos (primeiro, segundo, terceiro e quarto), bem como da tradicional classificação dos “géneros” gramaticais (masculino, feminino e neutro), à teoria clássica do “lírico”, “épico” e “dramático”, mostrando como, na verdade, para os estudos psico-literários e estruturais a nível fisiológico-cultural, estes três últimos géneros são trinta e seis. Inestimável descoberta que permite, por exemplo, dizer iluminantemente que certa composição, sendo lírica, se coloca gramaticalmente no género neutro, se bem que estilisticamente o seu autor seja macho, e assim por diante. Abstemo-nos de aplicar ao caso presente estas distinções para não desviar as atenções da crítica e dos estudiosos, nesta apresentação inicial de um importante poema.
4 – Ver o prestimoso ensaio de Jean Carriel des Oursins, L’Anti-Tout comme Clé des Structures Modernes, Paris, 1972, que insere a decisiva questão do antiherói, como anti-romance, anti-teatro, etc., no mais amplo e fundamental contexto da ideação abstracta das estruturas insignificantes.
5 – De Dante, e não como poderia supor-se, de Júlio Dantas, aquele célebre autor de A Ceia dos Cardeais, A Severa e outros clássicos, e que tem sido injustamente mais conhecido como quem presidiu por longos anos às poucas letras da Academia das Ciências de Lisboa.
6 – Cf. Fernando Aldeia, A Literatura de Incitamento à Restauração, antes, durante e depois dos Filipes, Lisboa, 1941 (Publicações do Centro Nacional de Bibliografia Nacionalista, no. 11).
7 – Cf. Pe. Pilírio dos Reis Leitão do Prado, Os Apátridas de 70 e a Conspiração Anti-Camoniana, Braga, 1927, e o notável estudo do Professor Doutor Serapião dos Santos Moscoso de Aragão Herédia da Costa, “Sobre algumas lacunas da chamada Geração de 70, a propósito de um verso de Teófilo Braga na Visão dos Tempos e da crítica de António Feliciano de Castilho, com uma carta inédita de Camilo Castelo Branco”, in Brotoeja, vol. CCXVII, 1940, número especial dedicado às Comemorações do Duplo Centenário, pp. 37-39.
8 – É indispensável para este ponto, a consulta do importante ensaio histórico-geográfico e arqueológico de J. Montachado Malvão, A Rosa dos Ventos no Promontório de Sagres, e o seu Significado para a História de Portugal, Lisboa, 1967.
9 – Vejam-se Sebastião da Costa Dias, O Cabo Espichel no Sentimento Religioso dos Séculos XVII a XX, 4 vols., Coimbra, 1965, e Comte. Júlio Fontes de Alarcão, Cabos e Cabos, Notas sobre o papel histórico do Cabo da Roca, Lisboa, 1969. É também importante consultar Herculano Girino Salgueiro, Glotologia Geográfica de Portugal, Abrantes, 1935, em especial o capítulo sobre “Cabos e os seus homógrafos”.
10 – Cf. Anthropos Calistidines, The Inertia of Perfection, Chapel Hill, 1897, obra que tanta influência exerceu na poesia moderna, segundo Anna Balandrau, The Genesis of Modernism and its Genetics, New York, 1970. Sobre a putrefacção e as suas correlações cívicas, continua a ser clássico o monumental estudo de Andrew Harikari, L’Education Civique dans ses Relations avec l’Entrainement Moral des Cadavres, Publications de l’Académie Anatomique et Pathologique de la France du Sud-Ouest, vol.XCI, 1887.
11 – Cf. Parmesano Triocchi, Pilosa crura, un tema sessuale del Medioevo, Saggi sulla motivazioni della inspirazione poetica, Bari, 1969.
12 – Sobre a questão de se Camões morreu em 1579 como diziam os primeiros biógrafos, ou em 1580 como querem alguns documentos e o romantismo patriótico, veja-se o magistral estudo do Prof. Doutor Fernando Faria Osório de Castilho e Vasconcelos de Menezes Horta Pimentel, O Museu Etnológico de Belém e a Sepultura de Camões, Notas para o Estabelecimento do ano exacto do falecimento do Épico à luz da Arqueologia do Concelho de Vinhais, separata factícia dos Anais da Academia Portuguesa de Ginecologia e Obstetrícia, vol. LII, 1947, p. 28, tão valioso pela lucidez como pela concisão. É igualmente indispensável consultar, ainda que com menos proveito, o ensaio de Orlandino de Mascarenhas Gondim, inserto no 28o. vol. das suas Obras Completas, Lisboa, 1967 –. De interesse, é o trabalho do genealogista B. Acha de Farol, 79 ou 80, um Enigma Histórico, Leiria, 1958, premiado pela Academia de História.
13 – Para a lenda das distâncias entre mãe e filho, nesta emergência originária, e a consequente criação do complexo lusitano-histórico de Édipo, consultem-se, além dos cronistas de 500, o decisivo estudo do Prof. Viegas Mariz, A Sexualidade Portuguesa – Investigações sobre o Incesto e a Desobediência, Porto, 1925, e a comunicação do académico Joaquim Cerdo, “D. Tareja ou o respeito devido às mães portuguesas”, constante do vol. 77 dos Anais da Academia Portuguesa da Língua, 1939. É ainda útil ver, como informação básica, o profundo trabalho de C. G. Jung, “Eros, Anteros und Antiteros” in Gespräche mit Freud, Lepzig, 1915, ainda não recolhido às suas obras completas, e o estudo de Caligule Abraham Strauss, Structures de la Maternité, Paris, 1966.
14 – Cf. James Parrot, What cannot be said is really Pornography? University of South Pennsylvania, Alamo Gordo, 1968, Publications for the Advancement of Interdisciplinary Matters, no. 31.
15 – Sobre as conotações, denotações, transnotações, etc., semanticamente e semiologicamente inerentes ao conceito de Texto, concorrentemente com inter-texto, intratexto, etc., ver Renée D’Arbuès, L’Intra-Texte: Méditations sur le Sens des Ouvertures au dessus et au dessous des Œuvres dites Littéraires, Paris, 1971.
16 – Acerca da noção contemporânea de “prefácio”, ver Enid Geistlich, Das Schwert de Avant-Propos, Heidelberg, 1965, ou preferivelmente, Amos Siddharta Kalasidahrahrti, Seisianisanitsam, Benares, 1962, bem como o artigo respectivo da Great Encyclopedia of Western and Eastern Commonplaces, vol. 28, 1947, publicada sob a égide da Unesco, delegação de Khartoum, e o anuário da mesma enciclopédia, referente a 1971 (o último publicado).
17 – Sob o mais actualizado significado de “ora”, no que à cultura portuguesa respeita, leiam-se Sancho Castrinho, Suplemento Literário do Diário de Lisboa, de 18 de Maio de 1971, Natalino Bermudes, idem da República, de 21 do mesmo mês e ano, e Zeferino Décimo, idem do Diário de Notícias, 20 dos dois idem, os três importantes artigos todos intitulados precisamente Ora Bolas.
18 – O Tomo que geralmente falta é precisamente este sétimo de que citamos. Mas existe ele na Biblioteca Nacional de Paris, onde o compulsámos. É de notar que, no exemplar, se observa que em algum tempo terá sido ele vítima de tentativa de arrancamento deste passo: suporemos que houve intenção de suprimir-lhe a referência às Quibíricas? Não queremos ir mais além nesta conjectura.
19 – Tão conhecido é este “cancioneiro”, que já doutos historiadores da literatura a ele se têm referido como se tivesse sido obra alguma vez impressa. À data do presente prefácio, não foi ainda, que saibamos. Em data ulterior, foi-o em singelo facsimile.
20 – É esta uma sã política. O bom nome da cultura pátria e dos grandes que a fizeram ou impediram, não pode ficar publicamente à mercê do que acaso se tenham lembrado de escrever contemporâneos menos discretos do que lhes cumpria ser. Do mesmo modo, há que ter presente que manuscritos e cancioneiros antigos são propriedade privada e não pública da Nação, e não foram consignados à guarda severa de arquivos e bibliotecas, para consulta e muito menos publicação, mas para serem conservados no mesmo estado de inexistência a que os seus autores ou compiladores os consignaram não os imprimindo em devido tempo. Tudo o que seja uma política de publicação sistemática de tais escritos, independentemente da séria questão da boa imagem que se deve manter da fachada que a pátria a si mesma se pintou ou pinta, corresponde sem dúvida a um grave depauperamento do que é a justificação mesma de arquivo ou tombo: o que ali se guarda para ser guardado por quem recebe a missão de guardar não teria sentido nem valor se fosse de todos conhecido e a todos acessível. Sempre a verdade foi património de raros apenas, aliás – e esses raros há que limitá-los aos que não sintam pela verdade excessivo e exclusivo amor, um dos piores vícios de que possa depender a saudável apatia das nações e dos povos, e a intocabilidade das tradições nacionais tal como a mentira social as criou para o bem comum. Por isso mesmo se deve compreender a aversão dos melhores espíritos por qualquer renovação dos estudos camonianos – pois que a obstinação em empreendê-los é seguro indício de calculada malignidade, dirigida manifestamente contra o papel que a moral e os bons costumes, tradicionalmente, consignaram que Camões representasse para o povo e para as escolas. Pela mesma razão não deve ser encorajado que estudiosos estrangeiros dele se ocupem: parte que ele é do património nacional, não pode este, nem deve, ser libertariamente esbanjado por curiosidades não morigeradas pelo mais acendrado patriotismo lusíada.
21- Note-se a imprecisão: L. F. C. apenas copiara o Canto I, declarando que mais não copiava por se ter imprimido entretanto a obra. Cremos, todavia, que esta reserva que não podíamos deixar de consignar nada retira ao prodigioso valor das memórias cuja transcrição limitamos ao trecho que nos importa aqui pela sua relação com o suposto autor das Quibíricas.
22- Não quisemos, em tão decisivo passo deste escrito, ir além da melhor tradição impressionista da camonologia, a que assim prestamos homenagem.
23- No mesmo espírito de que se faz consignação devida na nota anterior, também nos circunscrevemos adentro do método circular da tradição camonológica, o que simbolizámos na repetição patenteia-patente. Acerca do valor de tais repetições, veja-se Suzanne de Malvoir, La Répetition, ou de la technique du point-en-croix en littérature (tese policopiada de Doutorado de Estudos na Sorbonne defendida em Julho de 1972, e a ser publicada pelas Presses Universitaires de France).

* In: O Reino da Estupidez-II. Lisboa: Moraes, 1978.