Rimbaud, Revisitado

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Publicado originalmente no Suplemento Literário de O Comércio do Porto, em 23/11/54, e incluído em O Poeta é um Fingidor, de 1961, e em O Dogma da Trindade Poética (Rimbaud) e Outros Ensaios, de 1989, o texto que reproduzimos a seguir é uma “revisitação” não só a Rimbaud, pela ocasião de seu centenário, mas também à primeira conferência proferida por Jorge de Sena, aos 22 anos de idade, numa homenagem aos cinquenta anos da morte do poeta francês. Mais que análise crítica, o ensaio é uma espécie de amorosa confissão da “fascinação talvez perniciosa mas decisiva” que a escrita de Rimbaud exerceu sobre Sena.

 

A 20 de Outubro de 1854, em Charleville, nas Ardenas, nasceu Jean-Arthur Rimbaud, morto a 10 de Novembro de 1891. Há muitos anos, a primeira conferência que fiz comemorava o cinquentenário da sua morte; creio que é meu dever revisitá-lo, por ocasião do centenário do seu nascimento. Escrevendo dele neste período simbolicamente curto que, de 20 de Outubro a 10 de Novembro, tão bem representa a sua vida breve e a sua actividade poética brevíssima, não poderei dizer que tenha elucidado grandemente as minhas relações com uma figura e uma obra que exerceram em mim uma fascinação talvez perniciosa mas decisiva. Por certo, porém, não diria hoje coisas que então disse, porque o não vejo agora como via. Também a historiografia e a crítica literária impiedosamente e justiceiramente se abateram, entretanto, com uma persistência feroz que é uma homenagem inconfundível, sobre as lendas piedosas, as «berrichoneries» que inúmeros devotos, menos dele e da verdade que de untuosos motivos, haviam tecido sobre a vida e a obra exemplares de um homem que não podia servir de exemplo a ninguém. De resto, ainda hoje a criação literária, a crítica e o interesse dos leitores não atingiram aquela compreensão, aquela coragem da inteligência e da sensibili-dade necessárias para ver-se que retratos equivalentes à vera efígie de Rimbaud se encontram menos nas sátiras sentimen-tais de Proust que em Notre Dame des Fleurs ou Querelle de Brest, tipos humanos que só Jean Genêt recentemente apresentou às mentalidades virtuosas e descuidadas.

Eu não creio que isto seja um motivo para regressarmos à primeira atitude, a daqueles que, directa ou indirectamente, estiveram perto dele e não foram Verlaine ou Germain Nouveau: a da supressão, pura e simples, do «crapaud pustuleux» de, salvo erro, o ilustre Rémy de Gourmont. Independentemente do valor da sua poesia, hoje universalmente reconhecida como das maiores do mundo e de todos os tempos, e da influência dela, insubstituível na história da liberdade espiritual da criação poética, creio até que a uma tal atitude não se poderá, precisamente agora, regressar mais (como me não parece provável que nenhum outro Claudel se converta ao ler essa poesia), embora aquele mesmo mundo poucas vezes se tenha visto à beira, como hoje, de um tão desenfreadamente hipócrita retorno à tirania da moralidade raivosa. De todos os extremos lados — numa competição ansiosa, numa emulação vertiginosa, só compatível com a oposta anarquia social, e não já política — se considera indecência o desassombro e desavergonhada decadência a aceitação, não apenas já no domínio da caridade estética (aceitação essa, que é decadência efectiva), de todas as verdades. Mas este processo ridículo a que assistimos, no decurso do qual uma burguesia que aristocratizou as suas mercearias por efeito da Revolução Francesa as defende de uma onda que, repetindo-lhe as acusações que ela própria fez ao Ancien Regime, anseia por ser colectivamente a mesma burguesia inicialmente individual, se a não salvar do «demónio da rectidão», de que falava William Blake, uma concreta consciência da vida que só individualmente se extrai dos bens comuns — enfim, esse processo não durará sempre. É bem sig-nificativo que, actualmente, no suado fervor da competição, a uns e a outros o Marquês de Sade apareça como a última e extrema expressão da prepotência aristocrática do Ancien Régime que, no entanto, o encarcerou.

Mas, se o mundo, após os sofrimentos por que tem passado, nao pode, sem uma terrível consciência de culpa, transformar em bem e mal a vida que aceita ou recusa; e, se, portanto, não e possível um simplista retrocesso à tacanhez do jantar de família — não menos é impossível qualquer das duas atitudes em que se compraziam os literatos: a aceitação do homem pelo prestígio convincente da obra, ou a cisão total de ambos os termos, para maior glória do que se sepulta no papel e não na terra ou no jazigo. Da primeira atitude, a da caridade esteticista, que é um dos muitos rostos da hipocrisia, já dissemos. Da segunda, que é indispensável à ciência literária, mas prejudicial à cultura com a qual aquela ciência não deve ser identificada, basta dizer que, se uma obra parece muitas vezes merecer um interesse objectivo, independente do respeito que, na maioria das vezes, o seu autor não merece, é porque a humanidade, por um criminoso hábito de angelização abstracta, prefere contemplar-se a si mesma nas delícias das obras que não sofreu para realizar. A grandeza de uma obra deve tudo a uma capacidade de grandeza que em seu criador havia; mas não se suponha abusivamente que as circunstâncias desagradáveis de uma vida expliquem uma capacidade que, como elas, é expressão exteriorizada, em planos diferentes, de uma mesma existência grandiosa ou miserável, terrífica ou ridícula (que todos o são, em graus diversos, conforme as horas e os homens).

Se após a profanação louvável de que tem sido objecto, há uma obra e um homem exemplares ainda mais de tudo isto, creio que serão Rimbaud e a sua poesia. Deve notar-se que continuo a classificá-los de exemplares, depois de ter dito que ele não serve de exemplo a ninguém. É que os verdadeiros exemplos são dessa ordem pavorosa, que não possibilita a imitação, e apenas a caricatura. Há exemplos e exemplos, segundo o número e a quantidade humana capaz de neles se rever sem sacrifício. A influência de Plutarco e dos Evangelhos são bem típicos dessa vaidade humana por procuração: assiste-se respeitosamente ao sacrifício de alguém por nossa própria grandeza colectiva. O sacrifício de Rimbaud, aquilo que ele definiu na frase: «il ne íít que s’amener à la mort comme à une pudeur terrible et fatale» — esse sacrifício é de outra ordem, ainda quando a França lhe erga estátuas e se honre de contar entre os seus filhos esse «fils prodigue», como o denominou Duhamel, há poucos dias, na cerimónia municipal de Charleville. É o sacrifício de tudo o que releva do convívio, da bondade, do amor, da paixão, do conhecimento, da criação de beleza, à conquista de um «pudor» definitivo. E, pela extirpação da literatura, um sacrifício desse mesmo sacrifício, consumido em palavras, antes de o ser fisicamente em sangue e carne gastos e vencidos. Um sacrifício do escrúpulo, do respeito, da dignidade, daquelas flores últimas da resplandecente podridão humana. Como há treze anos, não posso hoje deixar de repetir as palavras de Rimbaud:

De gloire pudique
Environnez-moi.

Mas desejaria acentuar que Rimbaud, sendo exemplar, não é um exemplo. Foi furiosamente um homem pérfido e um maravilhoso poeta, um ser que traiu na vida e na poesia todo o ilimitado. Não o estou condenando por não ter suportado a humanidade demasiado maternal de Verlaine ou por ter levado às ultimas consequências as literatices sinestésicas de Baudelaire. Isso é com eles ou com a história literária. Mas que ele tenha resumido em si próprio, para quem como tal o queira ver, a aflnidade da aventura humana a caminho da liberdade; que ele tenha esgotado e abandonado as virtualidades últimas da poesia e daquela dignidade derradeira que são a única garantia da nossa existência contra tudo e contra todos — eis o que hoje lhe não perdoo. Não lhe perdoo afinal aquilo mesmo por que o admiro. Devo realmente amá-lo muito.

* In: O Dogma da Trindade Poética (Rimbaud) e Outros Ensaios. Porto: ASA, 1994. p.47-51.