José Rodrigues Miguéis

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Miguéis com Jaime Cortesão e Ferreira de Castro em Lisboa, 1959. Possivelmente a 11 de junho, na entrega do Prêmio Camilo Castelo Branco.

Foi este o primeiro texto de Jorge de Sena publicado no Brasil, desde que aqui chegara — mais precisamente no jornal O Estado de São Paulo a 29 de agosto de 1959. Não há indicação de data no original, nem referência a ele em cartas, porém, considerando que a sua colaboração nesse periódico já havia começado em junho e que o artigo se reporta a um prêmio igualmente atribuído em junho, é possível que tenha sido escrito ainda em Lisboa, antevendo a dificuldade em redigi-lo durante o sobrecarregado congresso de Salvador e a correria das muitas viagens nesse mês tão agitado (Recife, Salvador, Rio…).

Finalizado em Portugal, às vésperas de o deixar, ou no Brasil pleno de liberdade que acolhia seu autor, certo é que se trata de um artigo altamente significativo para este momento de transição, para quem dá agora o seu salto transatlântico e nas circunstâncias conhecidas: em foco, a figura de um escritor português "profissionalmente consciente da sua dignidade até à medula dos ossos", que, "Com 58 anos, dos quais mais de vinte em longo exílio nos Estados Unidos da América", recebia agora merecido reconhecimento institucional.


Acaba de ser entregue ao escritor José Rodrigues Miguéis, num almoço presidido por Jaime Cortesão (que é actualmente o presidente da direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores), o prémio «Camilo Castelo Branco», no valor de 50 000$00. Este prémio, que se destina a galardoar a melhor obra de ficção publicada no ano anterior à sua concessão, foi instituído por iniciativa conjunta daquela entidade, através da qual é atribuído, e do Grémio dos Editores e Livreiros, que, por subscrição dos seus sócios, o possibilita. O júri, que atribuiu por maioria o prémio, era integrado (como se diz no Brasil) pelo prof. Jacinto do Prado Coelho e pelos críticos David Mourão-Ferreira, João Gaspar Simões, Mário Dionísio e Óscar Lopes, designados complicadamente, mas que se houveram quanto a mim brilhantemente ao chamarem a atenção do público para um escritor de alta categoria, que não atingira ainda, no consenso geral e nas reservas mesquinhas, a consagração a que tem direito para, no especialíssimo isolamento espiritual que é o seu, produzir mais e melhor.

De entre os sócios da Sociedade que concorressem por si ou seus editores, deveria ser designado o vencedor. Porque há muitos escritores que não pertencem à Sociedade, um pouco limitante e familiar se afigurará o critério; mas, de certo modo, terá também suas vantagens, como a de atrair à Sociedade aqueles que apenas considerações de classe ou solidariedade não demovem… Todavia, a concessão do prémio a Rodrigues Miguéis (e parece que outro favorito era Mestre Aquilino Ribeiro com o seu Quando os Lobos Uivam, obra não das suas melhores, mas corajosíssima, que lhe valeu um processo judicial por parte do Governo, que está correndo…) não constituiu por forma alguma um favor «familiar» da crítica, senão na medida em que, por parte desta, uma unanimidade ou uma maioria estabelecidas em torno de uma decisão justa é sempre, de certo modo, um favor, não dos críticos, mas dos deuses que os fizeram abdicar da muita mesquinharia que, em exercício, os torna inferiores a si próprios.

Com 58 anos, dos quais mais de vinte em longo exílio nos Estados Unidos da América, não se pode dizer que é muito extensa a obra publicada em volume de J. R. Miguéis: Páscoa Feliz (novela, Ia edição, 1932, 2a edição, 1958); Onde a Noite se Acaba (contos, 1946, cuja reedição o autor prepara neste momento); Léah (contos e novelas, 1958, já reeditado); Uma Aventura Inquietante (romance, 1958); Um Homem Sorri à Morte com Meia Cara (narrativa, 1958). Regressado a Portugal em 1957, o ano de 1958 marca, como é evidente, uma intensa tomada de contacto com o público português ou de língua portuguesa. Mas muitos autores eminentes da sua geração em Portugal, no Brasil, alhures, não têm obra mais vasta, ou até a têm menor; e, durante os anos de exílio, em que, entre outras actividades, exerceu a de redactor das Selecções do Reader's Digest, no bom tempo em que esta revista popular tanto contribuiu para a difusão de uma ideologia de fraternidade e de solidariedade humanas, não esteve nunca Rodrigues Miguéis divorciado do seu público potencial: com contos ou artigos colaborou em jornais e revistas. Precisamente a novela Léah, sem dúvida uma obra-prima da literatura portuguesa, que dá o título ao volume que lhe mereceu o prémio «Camilo Castelo Branco», foi publicada pela primeira vez na Revista de Portugal, de Vitorino Nemésio em 1940; e o romance Uma Aventura Inquietante havia sido um folhetim publicado pseudonimamente pelo semanário O Diabo, em 1934.

O que distingue J. R. Miguéis no panorama da ficção portuguesa contemporânea é, a par de uma arejada e actualizada técnica romanesca que em si incorpora e renova experiências portuguesas da mais alta categoria e importância (Camilo, Eça, Fialho, Raul Brandão), uma humanidade profunda e inteligente, toda finura e amarga ironia, uma subtileza psicológica, toda imaginação compreensiva, e um estilo discreto e maleável, rico de sugestões e de lúcidos contactos, que sabe recriar o tom próprio de uma evocação, de uma narrativa, de uma observação, de um comentário azedo. Um sereno e dominado azedume de grande espírito – que tem sido, mercê das circunstâncias trágicas em que sempre uma livre cultura, uma cultura não-oficial, viveu em Portugal, a fraternidade triste dos nossos maiores escritores através dos tempos – é sem dúvida uma das mais nítidas características de Miguéis. Grande espírito: personalidade nitidamente vincada que é, para lá de todas as assimilações voluntárias e lúcidas que efectuou (e tanto o diminuíram aos olhos de uma crítica primária que apenas procura as semelhanças superficiais sem ver a transfiguração pessoal), um escritor consciente de si próprio como homem e como artista, e portanto capaz de criar um estilo que não seja uma segunda natureza (como acontece aos que são, antes de mais, «prosadores pujantes», e cuja linguagem é independente de qualquer criação específica), mas expressão de um carácter reagindo ao mundo que o rodeia. A aproximação entre estilo e carácter é, de resto, peculiar a J. R. Miguéis, para o qual, segundo declarações que tem feito (e tantas teve de congeminar por ocasião da concessão do prémio! – entrevistas, artigos, depoimentos…), a «arte do escritor é o seu carácter». O que poderíamos interpretar como significando que o carácter de um escritor se resume e concentra na sua arte, ou que – à semelhança do que tanto se tem dito de Shakespeare, personalidade dramatúrgica – um escritor não tem de carácter senão aquilo que em estilo se forma. Mas esta dualidade de interpretação – ressalvada a importância de uma transferência que é típica da maior dramaturgia – só é válida onde e quando a personalidade de um escritor se não realiza integralmente como tal, e deixa subsistir entre o que é e o que cria um espaço marginal que a criação não toca e, portanto, não transfigura transformando todas as contradições em elementos de uma arte harmónica, qual sempre um estilo a evidencia.

São diversas as contradições de Miguéis, e delas colhe a sua arte o mais valioso e fundo encanto. Muito português dos anos vinte na sua temática e na sua sensibilidade, a sua formação e a sua idiossincrasia estão nitidamente marcadas por vinte anos de América, que lhe vincou os gestos e até o aspecto físico. Muito lírico – quase poderia dizer-se que é o seu um realismo lírico – tem no entanto aquela segurança penetrante do toque realista, ao mesmo tempo áspero e irónico, que não deixa quase nunca de caracterizar uma situação ou uma personagem por um traço incisivo que as diminui o suficiente para que o sentimento lírico possa consolar-se na compreensão humana em que logo as envolve. Muito franco e duro nas suas apreciações como na lucidez com que displicentemente analisa a sua criação e a crítica que delas tenha sido feita ou ele preveja que o venha a ser (as suas obras levam sempre prefácios ou post-fácios que não são, pela arte com que directamente o autor se retrata ou comenta, cias peças menos interessantes que aquelas incluem), é, todavia, muito discreto no seu corajoso realismo a que não escapam as motivações mais delicadas, muito individualista, de um individualismo eivado daquele emocionalismo libertário que caracterizou a época da sua juventude, é no entanto capaz de uma equilibrada crítica dessa atitude.

Todas estas contradições se apuram e afinam, para, através de episódios em que as suas experiências cosmopolitas servem de base à observação de um português (o próprio autor, a personagem que narra, ou a personagem cujo comportamento é descrito) serem criadas peças notáveis de literatura, quais são verdadeiras obras-primas a novela Léah, a narrativa Um Homem Sorri à Morte com Meia Cara, ou o romance-divertimento Uma Aventura Inquietante. Este último, que é o que ingleses chamariam entertainment, é um folhetim alegórico da mais alta e subtil categoria, escrito e construído com uma desenvoltura admirável, e contém páginas magistrais de evocação e caracterização. A odisseia do português aventureiro, pacato e cosmopolita, acusado em Bruxelas de um crime que não cometeu, é uma crítica do individualismo primário da lusitanidade, uma meditação sobre a liberdade, uma sátira risonha de costumes; e algumas páginas, como a descrição de Antuérpia quase no fim do volume, são inolvidáveis de justeza e gosto sugestivo. Um Homem Sorri à Morte, narrativa da experiência de uma doença grave sofrida nos Estados Unidos com internamento hospitalar e operações, é uma obra forte, em que a contenção do estilo, que se torna seco e incisivo, se adapta magnificamente à exposição minuciosa e objectiva do que assim se transfigura numa lição de humanidade experimentada. Mas a fantasia, que não surge nas páginas límpidas de Léah, história de uma singela aventura amorosa, e se dá largas no romance Uma Aventura Inquietante constitui o elemento primordial de alguns dos mais belos contos de Miguéis, como «Regresso à Cúpula da Pena». E o poder evocador, iluminado por uma doce ironia, predomina noutros que, como «Saudades para a Dona Genciana», ficarão modelos de uma Lisboa burguesa e pacatamente republicana e lírica, que morreu. Mas fantasia e poder evocador, associados ao rigor da reportagem «interior», criam obras excepcionais como os contos «O Natal do Dr. Crosby», «Beleza Orgulhosa», «O Cosme de Riba-Douro». Mas as facetas do poliedro são várias: quem não rirá com «Pouca Sorte com Barbeiros»? E não ficará perplexo com «A Importância da Risca do Cabelo»?

Eis que, enfim, temos (e já tínhamos) em Portugal um escritor profissionalmente consciente da sua dignidade até à medula dos ossos, civilizado e culto narrador nato. Creio que, sem desprimor para ninguém, se pode garantir que, por sobre a majestade monolítica de Aquilino Ribeiro, a dignidade de Ferreira de Castro, e o vigor nervoso de um Miguel Torga, a sucessão de Eça de Queiroz se encontra assegurada, com uma vibração humana que o maior prosador e romancista da língua portuguesa (e não esqueço Camilo nem Machado de Assis) não possuía tão dúctil que lhe amaciasse as asperezas desdenhosas de um quase diletantismo.
 

 

* In: Estudos de Literatura Portuguesa- I, 2 ed. Lisboa, ed. 70, 2001, p. 241-245