Fernando António Nogueira Pessoa

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Fernando António Nogueira Pessoa (13-6-1888-30-11-1935). Nasceu em Lisboa. Pessoa contribuiu para o lançamento do Movimento de Avant-Garde na literatura portuguesa. Através da Revista ORPHEU (1915) e Portugal Futurista (1917) foi uma das suas figuras principais com Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) e José de Almada Negreiros (1893-1970). Depois da morte de seu pai, em 1893, sua mãe casou com o cônsul português em Durban, Africa do Sul, onde Pessoa viveu de 1896 a 1905, excepto por uma breve estadia em Lisboa e nos Açores. Fez o liceu na Africa do Sul, e ganhou o prémio para Composição em inglês, Rainha Vitória, após o que voltou a Lisboa para frequentar a Faculdade de Letras. Não muito depois desistiu de estudar e usou o seu conhecimento de inglês para se manter como correspondente comercial. Nunca mais viajou para longe de Lisboa, viveu só, não casou, e fugia a excessiva companhia ou vida literária. No seu começo — como crítico literário primeiro — em 1912, elogiou o movimento «saudosista», um ramo simbolista, em tais termos extravagantes que o seu artigo provocou polémica em todo o país: e até ao fim da vida continuou intervindo de vez em quando na vida política ou literária com paradoxais e mistificadores artigos e panfletos. Durante a sua vida apenas publicou, em livro, poemas em inglês: 35 Sonnets, 1917, Antinous, 1918, English Poems — I – II  (uma edição revista de «Antinous» e «Inscriptions»), 1921, English Poems — III (o poema «Epithalamium»), 1921, a maior parte deles demasiado «metafísicos» para o tempo e todavia em antecipação da mudança de gosto da poesia inglesa; e uma sequência de poemas emblemáticos, em português, sobre história de Portugal, Mensagem, 1934, um livro de menos importância ainda hoje controverso já que pode ser interpretado como «nacionalista» e usado para apresentar Pessoa como simpatizante do regime autoritário no poder desde 1926, o que ele não foi. Pessoa contribuiu com poemas para revistas literárias e publicou-os em grande número na sua Athena (1924-25). A enorme quantidade da sua poesia nas duas línguas e a sua prosa só começaram a ser coligidos em 1942, e o tesouro que é os seus escritos dispersos ou inéditos está longe de ter sido explorado, apesar de ele ter sido saudado como mestre desde 1927 (cf. o artigo na presença, de José Régio, a principal figura da segunda geração modernista).

A educação britânica que em jovem Pessoa recebeu foi inteiramente diferente da influência francesa que então prevalecia na literatura portuguesa e não só marcou para sempre os seus pontos de vista, a sua cultura, e o seu comando da linguagem, como veio a exercer uma influência anglicizante na subsequente dicção poética em Portugal e no Brasil, até infiltrando o falar educado. Ainda hoje a poesia de Pessoa é original e audaciosa, e ninguém nas literaturas ocidentais foi tão longe como ele em consustanciar o sonho moderno de criar um «correlativo objectivo» anti-romântico. Na verdade, Pessoa escreveu poesia em seu nome (em tradicionais estâncias, e padrões métricos, mas com brilhantes inovações de linguagem) e também com pelo menos três outros nomes — Álvaro de Campos, o declarado modernista, tragicamente orientado, com capacidade para amarga e majestosa dicção em verso livre; Alberto Caeiro, o honesto empírico e sensualista, cujo verso livre é aparentemente esvaziado de qualquer preocupação artística; Ricardo Reis, o classicista, cujas odes horacianas ultrapassam os sonhos dos escritores do séc. XVIII. Estes nomes eram «heterónimos» como lhes chamou, e não pseudónimos; têm diferentes filosofias da vida, escrevem em níveis de linguagem diferentes, e usam diferentes figuras de estilo e de forma. Pessoa chegou mesmo a escrever discussões literárias entre eles e preparou-lhes os horóscopos para encaixarem nas suas vidas, ou vice-versa (tal como outros poetas post-simbolistas tinha tendências esotéricas que se revelam na sua obra). Como «caso» Pessoa seria um pasmo, se o não fosse pela excepcional qualidade da sua poesia. A sua lucidez terrífica, o seu jogo de linguagem, a sua inventiva de imagens, a sua criação de «heterónimos» (e quando ele escreve poesia em seu nome não deixa de ser tanto um heterónimo como quando «é» outro) que são grandes poetas de direito próprio, e o seu intelectualismo profundamente sentido na melhor tradição portuguesa de Camões e Antero de Quental (um dos seus mais conhecidos versos diz: «o que em mim sente está pensando») qualificam-no como um dos maiores poetas em português (e como tal é admirado em Portugal e no Brasil) e sem dúvida um dos maiores poetas deste século em qualquer língua. Selecções dos seus poemas apareceram em espanhol, francês, inglês, alemão, etc, nos últimos trinta anos abrindo caminho para que ele seja reconhecido como um dos mais importantes mestres da poesia moderna.

Outras obras: Poemas de F. P. (1942); Poemas de Álvaro de Campos (1944); Poemas de Alberto Caeiro (1946); Poemas de Ricardo Reis (1946); Páginas de doutrina estética (ed. J. de Sena, 1946); Poemas dramáticos I (1952); Poesias inéditas: 1930-35 (1955); Poesias inéditas: 1919-30 (1956); F. P.: Antologia (ed. O. Paz, 1962)

Bibliografia: J. do Prado Coelho: Unidade e diversidade em F. P. (1949); João Gaspar Simões: Vida e Obra de F. P., 2 vols, 1951; A. C. Monteiro: Estudos sobre a poesia de F. P. (1958); J. A. Nemésio: A obra poética de F. P. (1958); Jorge de Sena: Fernando Pessoa & C.a Heterónima, Lisboa, 1982.

 

* In: Amor e Outros Verbetes (Edições 70, 1992)