Estudos de História e de Cultura

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Túmulo de Inês de Castro, Mosteiro de Alcobaça

Sob o signo da História, oferecemos a nossos leitores a introdução desta obra de pequena circulação mas da maior importância na trajetória ensaística de Jorge de Sena. Como poderá constatar o leitor, aí encontramos inúmeras pistas para caminhar com mais segurança por muitas das suas páginas ficcionais.

 

Que o homem possa fazer ou não fazer uma coisa tem sua importância para valorar o que realmente se faz
Antônio Gramsci ('Introdução ao estudo da filosofia')


Dos cinco estudos que se reúnem neste volume, um é histórico-genealógico («A Família de D. Afonso Henriques»), outro é sucinta análise da, compreensão anacrônica de uma figura («O Vitorianismo de Dona Filipa de Lancaster»), outro um contributo em que alguma História, alguma análise literária e um pouco de análise artística procuram lançar água — ou lenha — na questão dos Painéis («Os Painéis ditos de Nuno Gonçalves»); e, no último desta série, o mais vasto e ambicioso de todos, Inês de Castro é o pretexto para o exame das condições histórico-sociológicas que a criaram como mito literário, e para a análise estrutural das obras que o seu drama inspirou, desde as supostas referências de romanceiro perdido até aos Lusíadas de Camões, em que ela atinge o significado máximo de um dos símbolos constitutivos de uma filosofia da História de Portugal (tal como estruturalmente a epopéia de Camões pretende defini-la). Poderia dizer-se que o primeiro estudo, com a sua multidão de personagens, é como que o prólogo europeu a um Portugal que está nitidamente individualizado nos fins do século XIII, e cujo século XIV é a preparação para a grande época formada pelos séculos XV e XVI, de que se ocupam primacialmente os estudos seguintes.


Outros estudos mais ou menos monográficos, que há muito igualmente interessam o autor — como uma análise européia do reinado de Sancho II, o internacionalismo ancestral da Rainha Santa, a obra poética e a personalidade do rei D. Dinis, a vida e a obra (provável) do conde D. Pedro de Barcelos, a política internacional de D. Fernando (como precursora da revolução de 1383), a tomada de Ceuta à luz da política mediterrânica das potências européias, a personalidade e a obra do Regente D. Pedro, as vicissitudes dramáticas da sua descendência (esses príncipes tão europeus e que todos morreram jovens e foram sobrevividos por uma irmã que foi personalidade de destaque, em Portugal, e se chamava de seu nome o nome e o apelido de sua avó: Filipa de Lencastre), as conspirações do reinado de D. João II compreendidas como reflexo do que podemos chamar a «era dos duques» por toda a Europa do tempo, uma 'análise literário-sociológica do Cancioneiro Geral', um estudo da repercussão européia do mito de D. Sebasitião, etc. —, estes estudos poderiam também ter sido incluídos aqui. Mas, além de o conjunto resultar de dimensões desproporcionadas, que criavam graves problemas de edição, para quem, como o autor, só dispôs da gentileza da revista 'Ocidente', e não das capacidades de outras entidades para a publicação de calhamaços que não são de êxito popular (e nem sequer literato, que é a única forma portuguesa de um melhor êxito), aconteceria que se perderia, na massa compacta de estudos que vão contra idéias feitas que gozam dos favores de muita gente que passa por esclarecida, o impacto possível das análises, dos comentários, dos esquemas, e até de algumas informações menos conhecidas ou até ignoradas, que os presentes trabalhos concentram para interpretação e revisão da cultura do século XV e do século XVI em Portugal. Optou-se, assim, pela organização de séries sucessivas, das quais esta é a primeira; e incluiu-se nela o estudo sobre Inês, que pretende cobrir dois séculos da vida portuguesa, e que implica a referência à maior parte da problemática dos outros estudos acima enumerados e aqui não incluídos.


Poderá parecer estranho a várias pessoas que o autor de uma larga obra de criação e de crítica literárias apareça agora interessando-se pelos estudos mais especificamente históricos. E não faltará quem diga que, avançando na quarentena, que não é, todavia, uma idade provecta, começa ele a tomar as suas precauções para envelhecer; e é sabido que as minudências historicistas são o melhor refúgio para a velhice que perdeu as ilusões da criação e da crítica literárias… O autor preparar-se-ia para ser o Alfredo Pimenta das vanguardas literárias e políticas… Antes isso, do que ser o Pinheiro Chagas delas, a que alguns se têm candidatado, com reconhecidas vantagens para o historicismo enciclopédico, e algumas desvantagens para a investigação renovadora. E não faltará também quem avente a hipótese de que a distância e o exílio são favoráveis a um romanesco interesse pelo passado histórico. Puro engano tudo isso. Para um crítico que sempre pensou a visão sociológica como fundamental à compreensão dos fenômenos culturais, a História é necessariamente indispensável; e sê-lo-á tanto mais, quanto se não contente ele com esquematismos de ordem apaixonadamente política, que habitualmente têm feito as vezes, na cultura portuguesa, de interpretações sociológicas. Como se fosse possível, mesmo por novos métodos e critérios, reinterpretar validamente os dados de uma erudição, que não tenham sido, à luz desses novos métodos e critérios, previamente revistos! E é precisamente o que tem sucedido com um culturalismo que apenas troca o sinal dos dados acumulados pela imensa investigação levada a cabo pelo século XIX, sem retornar às fontes que esta investigação interpretou com diversa filosofia da História (quando a tinha), e não só interpretou como seleccionou e coordenou em obediência a concepções da vida, que não são já, nem poderiam ser, as nossas.


Por outro lado, e entrando em explicações de natureza pessoal, nada haverá de estranho em que, em 1963, apareça interessado por estudos históricos, um escritor que notoriamente se tem ocupado da literatura do século XVI; e que, como poeta e dramaturgo, publicou, mais de quinze anos atrás, uma tragédia que não só pretendeu ser uma meditação sobre o destino histórico de Portugal, como assenta, ao contrário do que costuma ser feito nesse gênero de teatro, numa investigação rigorosamente documentada. E não será imodéstia afirmar que essa peça marcou, na reabilitação histórica do infeliz Prior do Crato, data decisiva. A crítica literária, quando se ocupou dela, foi demasiado literata (ou demasiado «filosófica», se lhe prestou justiça — e não pode esquecer-se como houve quem a prestasse) para relevar este aspecto; e dir-se-ia que deliberadamente esqueceu, ao criticá-la, por ocasião da. publicação em volume (1951), que ela, escrita durante o ano de 1945, havia sido lida completa, em princípios de 1946, àqueles mesmos que, cinco anos depois, a criticaram como se a não tivessem conhecido antes. E, depois dessa leitura quase pública, a peça fora aparecendo, acto a acto, nas páginas da revista Portvcale de 1949 a 1951. Estas datas mostram a importância das cronologias para a crítica, pois que a publicação de várias obras eruditas sobre o Prior do Crato é posterior não só à redacção, como à primeira apresentação global da dita peça… Insistindo, porém, nas explicações de ordem pessoal: desde que me lembro de mim mesmo, a História sempre fez parte dos meus interesses; e uma das primeiras coisas que escrevi, ainda na adolescência, foi uma novela histórica sobre D. Fuas Roupinho. Este sujeito reapareceu-me muito mais tarde, numa pecinha surrealista que creio melhor que a incipiente e inconclusa novela. Mas talvez a esta eu a rescreva melhor algum dia.


Estes estudos agora reunidos não são, porém, ficção; e pouco importou ao autor que fossem elegantes ensaios literários sobre temas históricos. Foi sempre, e é cada vez mais a sua opinião, que a cultura portuguesa peca por odiosamente literária, mesmo quando alardeia níveis interpretativos ou amontoa os dados eruditos. De um ponto de vista científico, a maior parte dos estudos sobre a cultura portuguesa, que se é forçado a consultar, se quisermos escaparmos ao ensaísmo jornalístico e irresponsável, é de uma lamentável inanidade metodológica, exasperantemente vagos e difusos, quando, para afirmarem, não extrapolam dos limites certos. E nunca ou quase nunca — para lá de pomposas referências eruditas que as bibliografias estrangeiras fornecem muito facilmente — ultrapassam, sempre que se impõem os cotejos interpretativos com as culturas de outras épocas e lugares, um conhecimento destas culturas ao nível do manual elementar, perfeitamente insuficiente para que a cultura portuguesa não fique reduzida à escala da ignorância provinciana de quem se ocupa dela. De resto, quase ninguém está interessado em investigar a verdade que tem sido, pró ou contra, sistematicamente falsificada pelos preconceitos ideológicos; e sem dúvida que é muito mais sedutor, e até mais cômodo, acreditar e fazer os outros acreditar, nas facções que julgamos pragmaticamente mais úteis. E nisto reside um dos maiores castigos que a História reserva a quem se dá ao perigoso jogo de brincar com ela.


Porque, na medida em que interpretarmos o passado com os preconceitos do presente, ficarão escondidos e intactos dentro deste os elementos político-sociais que não denunciámos no passado. A este respeito, a confusão — bem ou mal intencionada — tem sido clamorosa. A historiografia portuguesa, e quem diz historiografia diz qualquer tipo de ensaísmo que aflore implicações históricas, pareceria extremamente saudável, porquanto as acusações retrospectivas se acumulam nela: não haverá português que não tenha, perfidamente escondido nas brumas do nosso tempo histórico, um inimigo pessoal. Isto, porém, nada tem que ver com revisão do passado; e é, pelo contrário, uma forma de evasão às responsabilidades do presente. Mais fácil que exorcismar aquilo que nos impede de sermos de hoje, será por certo acusar um passado que nos autoriza a sermos de ontem. E é por isso que, na primeira oportunidade, o passado ressurge monstruoso para apoderar-se de nós. Precisamente em Portugal o estudo da História deveria demonstrar como isto é uma verdade terrível; e deveria servir de escarmento àqueles que da História se servem, julgam eles que para salvar a pátria, e afinal contribuindo para que ela se perca e com ela os sonhos mais generosos que os levaram a convencer-se de que a História só é sociologia (ou anti-sociologia…) a partir do momento em que a imaginaram tal.


Seja qual for a posição política de portugueses de hoje, a todos se impõe um responsável exame de consciência. E nenhum exame será eficaz e autêntico, se não for haurido na meditação desapaixonada de um passado cujas glórias, tanto como os desastres, pesam no nosso destino. De nada adianta diminuir as glórias (ou aumentá-las), e amplificar os desastres (ou diminuí-los). E muito menos adianta reexaminá-los como se os actores deles pudessem ou devessem prever, sem erros, o futuro que nos envolveria o nosso presente. Esse tipo de retaliação retrospectiva, por muito nobre que seja nos seus propósitos, é sempre uma perigosa falsificação da verdade possível. E, se a política é feita de falsificações conscientes e oportunas, ou tidas como tal, não menos elas constituem um atentado contra a independência de um povo que tem, na sua superestrutura pensante, os responsáveis imediatos pela definição do seu destino. Em História, que é Vida, o grande mal é podermos ser filhos dos pais que não escolhemos; mas o grande bem é podermos, pela liberdade da consciência, assumir a paternidade que o acaso pretendeu impor-nos. A bem dizer, este mesmo acaso só existe, quando um povo, ou a parte responsável dele, abdica desse inalienável direito da humanidade.


Não alimenta o autor quaisquer pressupostos idealistas a este respeito. Sabe e acredita que aquela definição não é válida, se não decorrer da própria experiência social de uma população empenhada em conquistar, nacional e internacionalmente, o respeito que lhe é devido, não apenas por uma História gloriosa (todos afinal têm História gloriosa para si mesmos, e isso nunca impediu que lhas faltassem ao respeito), mas por uma existência secular que, com História ou sem ela, exige o reconhecimento de que desfrutou noutras eras. Mas honestamente pensa, e não tem pejo de dizê-lo, que, até hoje, nenhuma filosofia da História, nem mesmo aquela a que pessoalmente adere, resolveu o problema da responsabilidade historiográfica, por modo a ilibar individualmente aquele que se dá aos estudos históricos.


Não que a História deva ser — e corre absurdamente o risco de voltar a sê-lo, numa Europa burguesa desesperadamente consciente de que a sua supremacia tem de ser traduzida em novos termos — uma escola de heroísmos e de virtudes; nem que deva, paralelamente a isso, tornar-se uma apologia (ou, inversamente, um processo feroz). Uma das grandes comédias do historicismo consiste precisamente em fazer supor que, em História, alguma coisa necessita de desculpa, ou serve de desculpa. A História não é, como nenhuma ciência é, um capítulo da ética. E o princípio da causalidade, se existe, não ultrapassa o domínio da justificação lógica. Nós é que somos animais éticos e políticos.


Se há maneira de superar estes dilemas, ante os quais a objectividade pode constituir a maior das falsificações, ela consiste em nunca afirmar como se a verdade fosse qualquer coisa independente de nós mesmos. A fria e nua publicação de documentos pode ser uma forma superior de iludir o próximo… — porque até a ordenação deles encerrará uma sub-reptícia tentativa de aliciamento para determinada visão dos factos. Mas consiste igualmente, aquela maneira, em não confundirmos a possível verdade com o fascínio ou a repulsa que ela exerce sobre nós.


A verdade histórica existe até ao ponto em que se não escamoteia intencionalmente nenhum dado que chegou até nós; daí em diante, ela depende essencialmente da peculiar compreensão que ideologicamente tivermos dela. Ora, mesmo progressista, uma concepção do mundo será sempre viciosamente ideológica, se não for referida filosòficamente ao ser que a aplica. Isto é, se não implicar uma vigilante e conscienciosa crítica dos postulados teoréticos de que decorre. Tudo o que não é consciência em nós, jamais poderá sê-lo nos outros. E há ainda uma outra razão, essa muito humana, que de nós exige uma tal transformação da ideologia em filosofia. É o respeito que, como indivíduos que a morte silenciará, temos o direito de esperar dos nossos vindouros. Automaticamente abdicamos desse direito de que é feita a dignidade do Homem, se não tivermos tratado com igual respeito os indivíduos que nos precederam. Se o presente quase nunca ou nunca é aquilo que desejaríamos ele fosse, reflitamos que talvez, nas horas silenciosas e amargas da confrontação consigo mesmos, isso tenha sucedido aos nossos antepassados. A consciência infeliz não é afinal apanágio nosso. Foi sempre o preço pago, no mundo, por alguém que tenha desejado meditar sobre ele. E, se as sociedades e os tipos de relações humanas mudaram muito, no tempo e no espaço, a historioidade fundamental do gênero humano nunca deixou de compor-se das dores e das amarguras daqueles que, através dos tempos, possibilitaram a existência dessa abstracção.


Ao ressuscitar a história genealógica, para reunir a multidão de personagens que seria necessariamente a família européia do nosso primeiro rei, não foi outro o propósito do autor, senão o de chamar a atenção para um contexto humano que as abstracções históricas têm feito esquecer. A historiografia portuguesa tem enfermado, a este respeito, de graves erros de visão, que deveria ter sido fito da minha geração corrigir. De época para época, foi-se perdendo a medida comum com o resto do mundo. Mas o que seria compreensível e explicável noutras eras, é indesculpável hoje, quando, retornando a historiografia a um contacto fecundo com a investigação histórica prosseguida noutros países, a fecundidade possível se dilui na integração de uma História que não revimos, nas revisões a que os outros procedem. Foi assim que não tem sido entendido o sentido da historiografia portuguesa pretérita.

 

É evidente que, e o mesmo sucede em todos os outros países da Europa, os nobiliários, os cronicões, os anais, etc, que os primeiros séculos da nossa História nos legaram — e que tão longe estão de repostos ao alcance dois estudiosos —, não eram escritos com critério historiográfico, porque ou visavam a servir determinados interesses concretos, ou a ser muito apenas memorandos de efemérides para as quais não era necessário grande rigor. Não podem ser condenados por não serem aquilo que não pretendiam ser. As crônicas oficiais — que o são — dos séculos XV e XVI, tão diversamente e tão preconceituosamente julgadas, com a mais absoluta confusão de critérios, têm de ser lidas como o que realmente eram: registo oficial dos acontecimentos do reino. Quer os nobiliários, quer as crônicas, não podiam ter, por razões diversas, uma visão universal ou ao menos européia desses acontecimentos. Não por não a terem… Mas os primeiros, porque tratavam de gente que se sentia integrada na Europa (ou, o que era o mesmo, na cristandade), e que, não sendo sensível a diferenças que socialmente não existiam entre os membros do feudalismo europeu a que todos pertenciam, não sublinhava uma unidade que não necessitava de demonstração — esses primeiros não alimentam ostensivamente uma visão extrínseca de tal unidade. As crônicas, por sua própria natureza, não transcendem o âmbito nacional a que visam, embora por vezes sejam bem mais conscientes das conexões estrangeiras do que muitos historiadores que se servem delas. Quando, mais tarde, a sociedade portuguesa se volta para os descobrimentos e conquistas, do mesmo modo a História era, para os homens que a faziam com as armas ou com a pena, algo que prolongava a civilização européia tão implicitamente, que a própria História da metrópole portuguesa se apaga ante a projecção imperial de que a historiografia oficial não pode deixar de ser a justificação. Após a humilhação de 1580-1640, e já durante ela, os historiadores estavam, necessariamente, muito mais empenhados em demonstrarem a si mesmos a anterioridade histórica do país como entidade legítima, do que em, sem dúvidas nesse ponto, verem-no como um país entre os outros (no que, aliás, herdavam, mas de modo paradoxalmente negativo, a convicção de missão histórica, que culminara n'Os Lusíadas de Camões). A historiografia dos séculos XVIl e XVIII, que vai tender, através do aulicismo, para uma visão «esclarecida» da História, não estava em condições de corrigir estes erros de visão, que iam deformando cada vez mais o entendimento da historiografia pretérita e, consequentemente, a compreensão da própria história portuguesa. O esforço de correcção erudita, que, nos fins do século XVIII, foi feito (e a historiografia romântica prosseguiu), teve o grande mérito de pôr os estudos históricos em bases científicas que, por precárias que fossem, não menos procuravam ser documentais. Mas os documentos, se não são transpostos para um contexto mais lato, confinam a História em pulverizações regionais. Não seria a historiografia liberal e romântica a que poderia dedicar-se a europeizar a História portuguesa. Demasiado assentava nos preconceitos do nacionalismo burguês e na fascinação de um medievalismo romanesco, para estar interessada em superar o provincianismo que cada vez mais anquilosava a nossa historiografia. Um dos erros maiores do progressivismo historicista dos nossos dias está em não dissociar, por renitente prejuízo liberalístico, num Alexandre Herculano, o investigador, e o ideólogo, que ele foi, de certa fase da democracia liberal. E as visões fantásticas de um Oliveira Martins, muito menos superam aquele complexo de inferioridade perante a Europa, que vinha consolidando-se desde o século XVII, o resolvem em romanesco trágico as incompreensões anacrônicas do passado português. Não deixa de ser curioso e sintomático que os maiores historiadores portugueses dos finais do século XIX — Costa Lobo, Gama Barros, Alberto Sampaio — sejam, ao mesmo tempo, homens sem estilo e sem horizontes. A reacção antiliberalística, por vinculada ao patriotismo de campanário, herdou e acentuou as limitações do nacionalismo liberalista, do qual era, de resto, e sociologicamente, a decorrência inevitável. E os historiadores progressistas, ao combaterem a miopia patriótica, em termos de reivindicação de um liberalismo já superado, seriam arrastados, como foram, a desvalorizar no plano da História internacional aquilo que tão ridiculamenite era nacionalmente magnificado. Uns e outros, no afã de salvarem Portugal por conta própria, mais o afundaram num isolamento historicista em que todas as perspectivas universais se perdiam. Quando, nas últimas décadas, e sobretudo por influência da moderna historiografia francesa, os estudiosos começaram a procurar novos rumos de pesquisa, ficaram entre eles coexistindo duas linhas que mutuamente deveriam excluir-se. A dos culturalistas que nada renovam da investigação oitocentista, senão com interpretá-la ao gosto das vanguardas políticas (no que tipicamente fazem historiografia pequeno-burguesa, quando julgam estar fazendo obra de esclarecimento). E a dos investigadores monográficos, que se afastem de interpretar em termos que envolveriam uma filosofia da História, disciplina que têm em ascético horror. Os culturalistas prolongam, sem no fundo renová-la, a historiografia romântica. E os monografistas, porque faltam em Portugal os estudos monográficos que abundam lá fora, ficam necessariamente subordinados, para justificarem a própria existência, a esses estudos que, para serem aplicados comparativamente a Portugal, exigiriam uma colecta de elementos pelos quais fossem aferidos.


Transposto tudo isto para a história da cultura portuguesa, os culturalistas disfarçam a falta de conhecimento concreto das épocas de que se ocupam, envolvendo uma análise de obras e autores tomados isoladamente, em vagas interpretações bebidas no Hauser da 'História Social da Arte', que não é obra erudita, mas comspecto muito geral (e nem sequer filosofioamente garantido para os fins a que o aplicam). E os monografistas inspiram-se nos monumentos publicados pelas Presses Universitaires de France para ilustração dos bárbaros. Nada disto tem que ver, senão muito tangencialmenite, com Portugal como país da Europa, há oito séculos, desde quando ser rei de França ou da Inglaterra valia tanto como ser rei de Portugal. Se é certo que não podemos aguardar a magna revisão que se impõe, e que aliás excede a capacidade individual de investigação (para exigir um esforço colectivo e imenso, devidamente coordenado), também é certo que nos cumpre igualmente evitar os erros do culturalismo e do monografismo, quando eles, tentando meritòriamente sair do impasse em que se encontra a historiografia portuguesa, iludem a dificuldade que é reformular em conjunto a velha erudição nacional e a nova erudição estrangeira. Essa fuga à reformulação necessária é o pior dos impressionismos críticos e o mais irresponsável, porque se acoberta 'atrás do prestígio científico de investigações que não foram revistas, para nós, por nós e para o nosso tempo.


Mas o estudo da história cultural, envolvendo o exame de obras de arte, não pode contentar-se com rever os dados da erudição, ou os panoramas das instituições e do comércio europeus. Precisa entrar resolutamente pela análise estrutural dessas mesmas obras. Todos estamos fartos de ouvir brilhantes opiniões (nem sempre…) sobre as obras literárias ou outras, que são patrimônio da nossa cultura. Mas, por incrível que pareça, não se passou nunca à observação concreta do que essas obras são. Figuras como Fernão Lopes, Gil Vicente, Antônio Ferreira ou Camões, continuam a ser interpretadas caprichosamente, aparecendo como precursores ou como obstáculos, no caminho que se pretende a nossa cultura siga. Jamais tão insignes mestres e letrados, como os que se ocupam destes escritores, se detiveram a dizer-nos quais as partes em que uma obra deles poderá estar composta, que função a linguagem é chamada a desempenhar nela, o que distingue essa linguagem das suas contemporâneas, etc., e outras insignificânoias hoje tidas, em todo o mundo (ocidental ou oriental…), como indispensáveis ao entendimento de uma obra de arte e da personalidade que a criou (e, consequentemente, ó culturalistas, da época que as viu surgir, e daquilo que torna essa época algo que nos diz respeito). Por isso, no estudo aqui incluído sobre Inês de Castro, se procede à análise exaustiva de, por exemplo, a 'Castro' de Ferreira, não apenas para podar-se compreender a obra em si, mas também a cultura tão incompreendida que a suscitou.


Esta nota prefaciai vai longa, e talvez iluda os leitores de prefácios (que o não sejam dos escritos que eles precedem) acerca de um caracter polêmico que os estudos agora reunidos não possuem. Eles procuram sobretudo elucidar, corrigir, desmentir, analisar, e sempre num contexto de história e de literatura comparadas. Porque a comparação é muito útil para sairmos de vez do provincianismo satisfeito ou indignado em que há tanto se debate inanemente a cultura portuguesa. Seria estulto que o autor pensasse, ou que se lhe atribuísse que pensasse, estar à espera dos seus estudos para reformar-se culturalmente. De modo algum. Passou já para ele o tempo de julgar-se indispensável à sua própria pátria, seja para o que for, se é que alguma vez, no fundo do seu coração, chegou a pensar nisso senão como ilusão amena. E, se hoje, no isolamento que lhe tem permitido realizar tantos trabalhos que tinha em mãos há muitos anos (e não pode, a este respeito, deixar de consignar aqui a sua gratidão ao Brasil, que lhe concedeu os meios de ser, em plena ocupação, o estudioso que agora é), continua a preocupar-se com os destinos dela e com a integridade da cultura que ela representa, tem plena consciência de que o faz como o outsider que sempre foi e se honra de ter sido em tudo. E que, portanto, não pode esperar para os seus estudos a repercussão que mesmo inimigos políticos sempre mutuamente se reservam, desde que uns e outros tenham freqüentado idênticas escolas de ciência já feita. Em história ou em crítica literária, sabe o autor perfeitamente que qualquer estudo seu, por importante que seja, sempre valerá menos que um mísero artigo de qualquer licenciado em letras, que ele não é; enquanto fora desses círculos, nos meios em que o jornalismo oportunista e o ensaísmo de apressada cultura dão o tom, um qualquer estudo seu trata de uma cultura nacional que não interessa a ninguém, parque faz apelo a um passado que todos temem demasiado para conhecerem-no e amarem-no. Um quarto de século servindo à cultura dos outros ensinou ao autor alguma coisa. Mas ensinou-lhe igualmente que só o outsider está em condições de pertencer à comunidade dos mortos que estão vivos, e não à dos vivos que estão mortos. Quem está de dentro como o bicho da fruta, morre com a podridão que provoca.
 

* In: Estudos de História e de Cultura. Lisboa, Rev. Ocidente, 1967, p. 5-13