A Bela e o Monstro, de Jean Cocteau

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Assim como o teatro, o cinema de Jean Cocteau é focalizado por Jorge de Sena a partir de apresentações em Portugal. Por duas vezes, ocupou-se de "La Belle et la Bête" (1946): a primeira, num artigo de crítica cinematográfica (abaixo transcrito), publicado no Mundo Literário nº 45, de 15 de março de 1947; a outra, em comentário lido em 16 de outubro de 1951, nas "Terças-Feiras Clássicas", promovidas pelo JUBA (Jardim Universitário de Belas Artes), no cinema Tivoli de Lisboa. Este caso único de dupla abordagem do mesmo filme, bem comprova a admiração de Sena pela realização de Cocteau.


 

Para inauguração de uma série de conferências longamente intitulada "Meio século de cinema – revisão dos conceitos da sétima arte e estudo das suas repercussões sociais", o Belcine Clube, sob o patrocínio da Sociedade Nacional de Belas-Artes, organizou uma ante-primeira do filme de Cocteau La belle et la bete, extraído do conto célebre de Mme. Leprince de Beaumont. A apresentação do filme seria feita por Leitão de Barros, que não pôde comparecer; e foi, por isso, substituída por algumas palavras, não consegui saber de quem, e leitura de frases sortidas de Cocteau, durante o intervalo a meio do filme. É já banal o protesto contra esse intervalo famoso. Que, numa ante-primeira, para mais totalmente assistida por artistas e cinéfilos fervorosos, se tenha ido a tão grande condescendência que nem o vício do tabaco desculpava, pois que se podia fumar na sala (o que, diga-se de passagem, muito piorou a projecção) — é condenável. Que esse intervalo, afinal só aceitável para descanso dos olhos cansados pela projecção deficiente, haja sido preenchido por falatórios que ninguém, evidentemente, queria ouvir — é dio mais anti-cinema e anti-espectáculo possível, e não lembrava ao diabo. E, por diabo, é muito estranha a lista dos próximos conferentes: Almada Negreiros, Branquinho da Fonseca, Luiz-Francisco Rebello, António Lopes Ribeiro, Domingos Mascarenhas, etc. A quais, na intenção do Belcine Clube, pertence o sentido da revisão dos conceitos e das repercussões sociais do cinema, se Lopeis Ribeiro dissertar sobre Cinema e sociologia, tema decisivo do ciclo, e para o estudo do qual a jovem lei do cinema lhe fornecerá argumentos de preço?… E se a Domingos Mascarenhas cabe a definição da função da crítica? A par disto, que importância poderão ter as considerações de Branquinho da Fonseca, sobre cinema e literatura, e as de Rebello sobre cinema e teatro? Eu não quero fazer comparações, mas isto lembra-me aquele gracioso programa da Emissora, que se destinava «a espalhar a cultura e a confusão».

A exibição de La belle et la bête, é de lamentar que circunstâncias sem dúvida económicas a tenham obrigado a efectuar-se em tão más condições, com um pequeno aparelho sobre um pequeno écran, porque o filme é, fotograficamente, de claro-escuro, com acentuada predominância do escuro, que, nas Belas-Artes, o fazia por vezes atingir indecifráveis extremos de visibilidade, onde o fantástico de Mme. Beaumont e de Cocteau nem sempre desejaria mover-se.

Classificar de obra-prima este filme, como já ouvi, é exagerado; creio, porém, justo dizer que é uma bela tentativa, com momentos de inexcedível beleza cinematográfica. De facto, ao filme, falta, em dois sentidos, unidade: na planificação e no ritmo espectacular. A adaptação cinematográfica de uma obra célebre enferma, quase sempre, dos mesmos defeitos que, para um estranho, uma conversa de família, a menos que haja cautela em explicitar ais inúmeras motivações implícitas no texto e não tornar implícitas as várias concatenações que o conhecimento da obra criou no espírito de sucessivas gerações de leitores.

A maneira elíptica de Cocteau e a sua tendência para tomar os temas no grau em que outros os deixaram, transformam o que poderia ter sido a narrativa cinematográfica da história, num comentário visual, numa ilustração apenas, embora aprofundada e enriquecida pelo inquieto sentido literário do poeta que sempre é o autor de Les enfants terribles.

Em sequências mais ou menos longas, a que falta a necessária transição, sucedem-se as ilustrações do conto, e a planificação e a montagem ficaram subordinadas mais a um desejo de impressionar a propósito de, do que a um desejo de impressionar com o que se passa. Por outro lado, o ritmo narrativo, parcelarmente sempre adequado (às vezes, até em excesso) às várias cenas, é, no seu todo, irregular e desarticulado, sem que as variações possuam, contrapontisticamente, ia necessária convicção. Consideradas caída uma de per si: são admiráveis do serena vivacidade as primeiras imagens a que não terá sido indiferente a influência de um belo filme antigo, La Kermesse Héroique, de Jacques Feyder; são muito belas as cenas do jardim com as estátuas recortando-se estranhas, no céu; e é inesquecível a visão de La Belle avançando por aquele corredor imienso, enquanto as cortinas brancas das janelas adejam levemente à branda aragem; e a caminhada pela floresta, e a nossa primeira entrada no palácio… E que dizer do final, quando o príncipe e a bela vão abraçados, por ares e ventos, senão que é a dinamização cinematográfica dos sonhos de figuras, nuvens e roupagens, que a pintura barroca tentou fixar?

Precisamente este clou nos recorda que as possibilidades do cinema permitiam a Cocteau maior exploração do fantástico, cuja pobreza no filme é, no entanto, conveniente não misturar com a acertada e subtil intenção de, em vez de separar real e fantástico, criar maravilhoso com o fantástico da realidade e com o realismo da fantasia, o que é da própria índole do maravilhoso. E este foi, ao longo do filme, encantadoramente sustentado pela partitura de Georges Auric, que até independentemente do filme é lindíssima: dada a deficiente projecção, momentos houve que, espectacularmente, só ela defendeu.

Todos estes defeitos e qualidades, uns, característicos do cinema europeu, outros, derivados do talento de Cocteau, fazem do filme a bela tentativa que já disse. É certo que, dirão os técnicos, o período experimental do cinema foi ultrapassado, e não são hoje perdoáveis certas indecisões de factura. Pessoalmente, detesto os gramaticões de tudo, inclusive do cinema; aos que fazem gramáticas prefiro os que poderiam fazer estilísticas, ainda quando as não façam. E, ao lado da perfeição técnica, estupefaciente e idiota, do cinema americano, de que é preciso suportar dezenas de baboseiras em excelente gramática, até encontrarmos uma obra densa de humanidade, que, ainda assim, ou é delicodoce — A Tree grows in Brooklin — ou louca — Arsenic and Old Lace: ao lado disso, é saudável um filme como o de Cocteau. Saudável, não o será bem, pelo menos para o grande público que dificilmente, quando ele for estreado, lhe aguentará a semana mísera e mesquinha. Fantasia e escuridão… a primeira é para crianças… e quanto a escuridão basta a do cinema, para o sono descansado ao lado da toilette da esposa… Que o príncipe, quando retoma a sua forma, se pareça com o namorado de La Belle, e que este quando no mesmo momento morre, tome o aspecto da bête (ambos os papéis desempenhados por Jean Marais. cuja dicção e cujo olhar, enquanto monstro são magníficos), apenas contribuirá para o desgosto do público, que. em matéria de dualismos alegóricos não vai além do Dr. Jekill and Mr. Hyde, de R. L. Stevenson — e será de esperar da mentalidade infra-nietzscheana da população portuguesa, longe do bem e do mal, por defeito… E duvido de que a beleza estática e expectante de Josette Day contribua para esclarecer o virtuosismo psicológico que Cocteau introduziu no conto de Mme. de Beaumont. Por outro lado, os Saint-Just de pacotilha verberarão asperamente que a França envie um conto de fadas, neste momento terrível, decisivo, etc, da vida do mundo. Creio ser justo chamar a atenção para o facto de estar mais dentro da vida a fantasia de La belle et la bête que a falseada representação da vida, sobre que roseamente medra o cinema americano ou americanizante. E, depois da Carmen, La belle et la bête prestigia o cinema francês, de cuja subtileza naturalística e irreal é um exemplar nem sóbrio nem perfeito, mas de inquestionável dignidade, com momentos que ficam como do melhor que o cinema produziu.

 

* Sobre o cinema, Lisboa, Cinemateca Portuguesa, 1988, p. 31-37