Breve notícia sobre cartas inéditas: Um “justo diálogo”, a correspondência de Jorge de Sena e João Sarmento Pimentel.

Otília Lage
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Capitão Sarmento Pimentel

“…as cartas daquela preciosa correspondência que o [João Sarmento Pimentel] tornarão o vulto nobre que muita gente desconhece.”

Assim se pronuncia Mécia de Sena, em carta enviada de Londres, a 28/5/1981, para o Capitão João Sarmento Pimentel, onde considera um “justo diálogo” a correspondência trocada entre este e Jorge de Sena [1959-1977] [1], cuja publicação continua porém por fazer, apesar da intenção, cedo manifestada, e dos esforços entretanto desenvolvidos por Mécia de Sena, para a reunir, compilar, organizar, anotar e editar [2].

Infelizmente ainda inédita, a correspondência entre Jorge de Sena e Sarmento Pimentel configura-se como um trabalho de enorme importância cultural, social, histórica e literária, que muito explicará sobre o contexto e significado mais amplos dessas cartas, da amizade e cumplicidades entre seus autores, acontecimentos, projectos e exílios vividos por ambos, destacados opositores políticos à ditadura salazarista.

Por isso, vale a pena observar uma simples ilustração dessa correspondência e os matizes político-culturais e de profunda estima pessoal que marcaram o diálogo entre essas duas grandes figuras da cultura contemporânea portuguesa tão fortemente ligadas à história do Brasil. Diálogo que seria, na mesma linha e com idênticas características, continuado, ininterruptamente, por Mécia de Sena, desde a morte de seu marido até à de seu amigo[3].

Em 11/6/1961, 2 anos depois de seu exílio voluntário no Brasil, Jorge de Sena envia de Assis, São Paulo, a J. Sarmento Pimentel uma carta que termina assim “Copiado a seu pedido, com a mais grata estima para o Com.te J. Sarmento Pimentel, amigo de Camões…” em que apenas faz a transcrição integral deste seu poema:

“ Podereis roubar-me tudo:/ as ideias, as palavras, as imagens, / e também as metáforas, os temas, os motivos, /os símbolos, e a primazia/ nas dores sofridas de uma língua nova/ […]Nada tereis, mas nada: nem os ossos,/ que em vosso esqueleto há-de ser buscado, /para passar por meu. E para outros ladrões, /iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo”.

Passados 10 anos, já Jorge de Sena residindo em Santa Bárbara, Califórnia, USA, recebe uma curta e amargurada carta datada de São Paulo, 25/7/72, do “seu amigo e muito grato e dedicado João Sarmento Pimentel” (fórmula final da missiva). Dá-lhe conta, com profundo pesar, da morte e funeral do amigo comum, o poeta português Adolfo Casais Monteiro, também exilado no Brasil, terminando assim:

“ O exílio é um drama sem fim. Vejo os mais queridos e os melhores dos companheiros morrerem e aquela esperança de regresso a Portugal cada vez mais retardada. Vou ficando mais só e mais velho e mais inútil. A alegria de viver, a inutilidade de existir, confrontam-se e levam a um desespero lamentável”.

Três meses depois, a 29 de Outubro de 1972, Sena escreve de Santa Bárbara, a J. Sarmento Pimentel uma longa carta de 4 páginas com um poema seu, recente, dedicado “Ao Comandante João Sarmento Pimentel”. Aí se evidencia a profunda admiração do poeta pelo magno exemplo de homem, cidadão, exilado e patriota, do destinatário, cujas virtudes louva e enaltece, numa forma clássica de missiva, que é mais um diálogo e solilóquio em reverencial epístola poética:

“Tão tarde vai, senhor, esta missiva/ em termos de outros tempos em que epístolas/ serviam a saudar heróis e sábios/ como também quantos na vida exemplo/ dariam de inteireza e hombridade/ que às vezes sábios ou heróis não têm /(…)./Para destino, capitão, a pátria/ não dela mas quão dela é o que devera/erguê-la de si mesma, vos criou:/como isso dói e queima vós sabeis, /e quanto é magia de distante ausência./ (…)./Assim, senhor, em vós saúdo e digo/ de como em vida me vivi honrado/com conhecer-vos e por vós ter tido/por digno de amigo e amarada/nas horas duras de se amar a pátria/(…).”

Acompanhava este poema um outro dedicado à memória de Adolfo Casais Monteiro e destinado a ser publicado, no jornal Estadão, “ com o competente relevo e dignidade – o jornal deve-lhe isso e a mim também… e fio da sua influência a publicação do poema”.

Prática comum que, com Mécia de Sena se prolongará, depois da morte de Jorge de Sena, era também o constante envio para Jorge de Sena por Sarmento Pimentel de “remessas de jornais e de recortes de interesse”, a partir do Brasil, país que merece de Jorge de Sena esta consideração no fim de sua carta:

“Lembre-me a todos os amigos aí, com saudosos abraços. Quando irei ao Brasil? Hesito muito – o Brasil tem sido sumamente ingrato comigo, e ser-me-ia muito duro ser tratado de desconhecido depois de quanto tenho feito por ele em anos de dedicação a toda a prova, que só me têm merecido o silêncio ou os rosnidos malignos dessa raça que teria de ser danada por descender de quem descende. Aqui vai o grande abraço muito amigo do sempre dedicado e grato Jorge de Sena”

Esta carta de Sena termina com um extenso post scriptum em que critica a nomeação de um antigo ministro fascista do governo de Marcelo Caetano, para embaixador português no Brasil, dá notícia da publicação de seus “Estudos de História da Cultura” e pronuncia-se sobre aspectos da situação política da Àfrica do Sul, Angola e Moçambique, então em luta armada contra o colonialismo português:

“(…) De Moçambique – terra que me fascina e comoveu, e onde falei com gente de todas as cores e feitios, e a extrema-direita e os “maoistas” a soldo dela me silenciaram ou atacaram violentamente ( e continuam com torpezas nos jornais portugueses) – teríamos muito que conversar, bem como do que vi e senti e ouvi em Luanda, ou da longa conversa que em Lisboa tive com o Luandino Vieira (agora livre e só de residência fixa). É tudo uma questão diabólica e complexa em que ninguém, senão raras criaturas de bom senso e outras de paz, diz toda a verdade: uma tragédia agora, e talvez que em breve tragédias maiores, quando ainda seria possível evitar a catástrofe – branca ou negra – que, no fundo, só alguns loucos ou irresponsáveis desejam como independência, em face do que as Africas estão sendo. Johannesburg, como imagem da Rep. da Africa do Sul e o seu “apartheid”, linda cidade e repulsiva em estado policial como não se imagina que possa existir ( a não ser como o que vi na Grécia, em termos diversos.)

Como se pode ver, há entre ambos um clima de profunda e mútua estima e admiração, o qual vai ser assumido também por Mécia de Sena, na sua correspondência assídua com Sarmento Pimentel, até este falecer, nonagenário, e a quem sempre se dirige, tal como Jorge de Sena, carinhosa e respeitosamente como seu “queridíssimo comandante”.

Observe-se que, para além da recorrência dos interesses literários mútuos, também o carácter pessoal, político e literário vão perdurar nas cartas de Mécia de Sena para o Capitão J. Sarmento Pimentel, espaço de exercício do seu papel de cidadã crítica e reflexiva, que, à semelhança de seu marido, nunca se coíbe de fazer comentários amargos e perspicazes ao deficit de democracia e justiça social e política que minam a sua “pátria” e a sociedade portuguesa da época.
Cartas de Jorge de Sena para João Sarmento Pimentel [95 ítens]

Assis – 11/10/959
———————–Evocação de Jorge de Sena por Sarmento Pimentel
Assis – 27/11/59
Assis – memorando assinado por Jorge de Sena e Victor Ramos (28/11/59)?
Assis – carta oficial – 13/12/59
Assis – 27/12/959

Assis – 5/1/960
Assis –12/1/960
Assis – 5/4/960
Assis –20/4/960
Assis –14/5/960
Assis –18/5/960
Assis –20/5/960
Assis –26/9/960
Assis –24/11/960
Assis –13/12/960
Assis –17/12/960

Assis – 2/4/61
Assis – 27/4/61
Assis –9/5/61
Assis –19/6/61

Rio – 5/1/62
Araraquara – 15/1/62 – carta oficial
S.Paulo – 20/3/62 (*)
Araraquara – 18/5/62
Araraquara –22/6/62
Araraquara – 10/9/62

Araraquara – 6/1/63 (*)
Araraquara –24/3/63
Araraquara –29/3/63
Araraquara –10/7/63
Araraquara –20/7/63
Araraquara –13/8/63
Araraquara –22/8/63
Araraquara –10/9/63
Araraquara –5/12/63
Araraquara –23/12/63

Araraquara – 9/5/64
Araraquara –11/5/64 (no original,12/5/64)
Araraquara – 2/6/64
Araraquara –21/6/64
Araraquara –13/7/64
Araraquara – 19/7/64
Araraquara –25/7/64
Araraquara –7/8/64
—————- cópia de carta para o Barradas de Carvalho – 6/8/64 ?
Araraquara –23/12/64
Cartão de Natal – 1964

Araraquara –23/2/65
Araraquara – 9/4/64 ( no original 9/4/65)
Araraquara –27/4/65
Araraquara –13/6/65
Araraquara –4/7/65
Araraquara –21/7/65
Madison – 14/12/65

Madison – 9/4/66
Madison –19/8/66

Madison –23/3/67
Madison –15/7/67
Madison –24/11/67

Madison –2/9/68
Londres – postal ilustrado -22/9/68
Rotterdam – postal ilustrado – 17/10/68
Barcelona – 16/12/68

Madison – 7/1/69 (de Mécia de Sena)
Madison – 8/5/69

Madison – 23/6/70
Santa Bárbara – 15/11/70

Santa Bárbara – 3/1/72
Lisboa – 17/8/72
Santa Bárbara – 29/10/72 (com cópia do poema: “Ao Comandante…”)

Londres – postal ilustrado – 18/2/73
Santa Bárbara -23/2/73 (Mécia)
Londres – 10/3/73
Santa Bárbara – 4/7/73

Santa Bárbara – 9/1/74
Santa Bárbara –1/4/74
Santa Bárbara –7/5/74
Santa Bárbara –16/5/74
Santa Bárbara –28/6/74
Santa Bárbara –24/9/74 (Mécia)

Santa Bárbara – 2/6/75
Santa Bárbara –13/6/75
Santa Bárbara –14/7/75
Santa Bárbara – 29/7/75
Santa Bárbara –8/10/75
Santa Bárbara – 20/12/75

Santa Bárbara –3/1/76
Santa Bárbara –8/3/76 (remetida cópia a Norberto Lopes de carta de Sena a A.Amorim)
Santa Bárbara –21/4/76 (Mécia)
Santa Bárbara –22/4/76 (dedicatória ao poema “À Memória de Adolfo…)
Santa Bárbara –20/7/76
Santa Bárbara –31/8/76 (Mécia)

Santa Bárbara –23/3/77 (conjunta: Jorge e Mécia)
Lisboa – 14/5/77
Santa Bárbara – 12/11/77
Dedicatória aposta ao “speach” da AIH, em Toronto (Agosto de 1977)

 

[(*) estas duas mandou-mas há tempos o Comandante Sarmento Pimentel; mandei originais a Mécia a 10/12/84]

 

Notas:

1. Incluímos em anexo a relação dessa correspondência, gentilmente cedida por Mécia de Sena a quem agradecemos a confiança demonstrada e a generosa colaboração.
2. Sabe-se por correspondência trocada entre Mécia de Sena e João Sarmento Pimentel que os originais das cartas de Jorge de Sena foram generosamente cedidos por Sarmento Pimentel, na década de 1980 a Mécia de Sena que os dactilografou e anotou, tendo-os remetido posteriormente para o espólio literário de Jorge de Sena, à guarda da Fundação Calouste Gulbenkian até 2009, ano em que foi entregue à Biblioteca Nacional de Portugal onde actualmente se encontra, com o restante espólio seniano.
3. A correspondência aqui referida e comentada foi consultada no espólio literário de João Sarmento Pimentel, à guarda na Biblioteca Municipal de Mirandela, Biblioteca João Sarmento Pimentel.