96. Jorge de Sena e David Mourão-Ferreira: relações literárias

[LER E RELER JS – 96: Teresa Martins Marques]

Mais uma incursão da ensaísta Teresa Martins Marques pelo diálogo travado entre dois grandes escritores do Séc. XX português: Jorge de Sena e David Mourão-Ferreira. 

 

 

Jorge de Sena (JS) fora testemunha de acusação de David Mourão-Ferreira(DMF) num processo judicial que lhe moveu o poeta Alberto de Lacerda, aquando da  sua saída da Távola Redonda , em 1951. Em 1955, JS envia As Evidências ao “Exmo Crítico do Diário Popular,” sem referência ao nome de tal crítico, ou seja DMF.[1] Pouco depois, encontram-se ambos num jantar em casa de Tomaz Kim e, curiosamente, não falaram de Literatura. DMF publica, logo a seguir ao encontro, a crítica àquela obra, crítica essa que constitui uma obra-prima da arte de elogiar e, simultaneamente, de mitigar o elogio. Considerando JS “quer como poeta, quer como ensaísta, quer como dramaturgo, porventura a personalidade mais rica, mais complexa, mais importante, revelada depois de 1940”, logo depois deste fervor atira-lhe um balde de água fria, classificando a poesia de dessorada ou gélida, considerando a sua obra ensaística prejudicada por um pendor alusivo-polemizante e seu teatro ainda excessivamente preso à bancada do intelectual, muito pouco feito para as tábuas do palco”. Três anos depois, em 1958, JS refere-se a DMF nas Líricas Portuguesas[2], dizendo que a sua personalidade não é tão vincada como a de Couto Viana ou Fernanda Botelho, “mas tem uma mestria técnica e uma desenvoltura irónica […] que justamente o destacam, e à sua poesia mais ou menos restrita a uma inspiração […] erótica, pelo fino sentido de uma modernidade discreta, em que o quotidiano e a fantasia se equilibram numa grande segurança de tom, que é do melhor quilate nos últimos poemas”. DMF esperava pior e, naturalmente, sentiu necessidade de atenuar o tom da crítica de 1955 ao livro As Evidências, quando, em 1960, incluiu esse texto em Vinte Poetas Contemporâneos. Lemos no prefácio: “Mantiveram-se, […] alguns juízos que, porventura, já não terão razão de ser mas que a tinham no momento em que as críticas foram publicadas. […] os reparos feitos à poesia de Jorge de Sena, a respeito de As Evidências, ficaram praticamente eliminados pela publicação do livro seguinte − Fidelidade […].”

JS agradece a DMF o envio deste volume de ensaios em carta datada de 25/7/1960, enviada de Assis, três meses após a recepção do livro, carta essa que constitui um interessante depoimento do ponto de vista das suas influências críticas, ao mesmo tempo que faz uma recensão crítica a Vinte Poetas Contemporâneos .

A carta inicia-se com uma curta nota para, a modo de desculpa, fazer uma explanação acerca dos seus compromissos e da vida universitária no Brasil:

 

Três meses levo a agradecer o seu volume de ensaios, após a chegada dele. Mas V. compreenderá que a minha vida aqui não é de menos trabalho do que aí o era. Sob certos aspectos até o é mais, se possível, na medida em que o tempo integral da minha Faculdade me permite uma absorção total nos compromissos que trouxe e nos que se lhes acrescentaram, na medida em que, aqui, o professor universitário tem muitas obrigações extra-universitárias a que não pode nem deve fugir, e na medida em que a liberdade, ou a conquista dela para os outros, nos ocupa e absorve numa constante vigilância…

 

JS passa ao comentário do livro, mostrando a clara valorização que os textos críticos recebem ao serem compilados em livro, considerando que eles eram já bem mais do que recensões, e valorizando um aspecto que se me afigura da mais elevada pertinência, ou seja, que a marca da verdadeiro ensaísmo se afere pelo tom e pela densidade referencial:

 

Eu lera praticamente todos, suponho, os artigos que V. inclui neste volume. E uma garantia, se outras não houvesse, de que V. é um ensaísta e um crítico, está em que, independentemente da extensão, as suas recensões resistem em livro, isto é, não eram recensões, mas breves ensaios que podem sair das páginas efémeras onde aparecerem e de saírem avultam como nessas páginas não avultavam ainda. Ora este tom e esta densidade referencial são a marca do verdadeiro ensaísmo.

 

JS analisa o ideário do new criticism subjacente ao prefácio do volume, referindo a importância que para ele tivera a obra de Empson Seven Types of Ambiguity, havia já vinte e dois anos, e assim marcando ironicamente o atraso na crítica portuguesa, relativamente ao ideário dos new critics. Salienta ainda a ligação à estilística alemã, através do seu maior expoente, Leo Spitzer, bem como à sociologia, aqui representada pelo adjectivo “diamático” (neologismo em código, inventado pelas oposições ao regime salazarista, para traduzir o adjectivo “dialéctico”). Tudo isto em simbiose com as teorias  de Jung,  Karl Vossler e o neopositivismo de Wittgenstein, bem como a vertente da a-historicidade na estilística espanhola protagonizada por  Dámaso Alonso:

 

O seu prefácio é uma excelente exposição crítica daquilo que, um pouco latamente de mais (ampliando a acepção norte americana), se chama de “nova crítica” (nova com bem trinta anos já, e a ser combatida no próprio baluarte agora).

O Richards, e sobretudo o Empson (cujos Seven Types foram de uma enorme importância para mim – o primeiro ensaio que publiquei, há 22 anos, bem mostra como eu o havia lido), sempre me interessaram muito, como o Spitzer. Mas sempre tive em horror (quando fui sendo cada vez mais diamático em sociologia e “jungista” em psicologia – simbiose estranha que, comigo, tem funcionado) o idealismo crociano que estava por trás desse “vosslerianismo” todo, uma vez que o Richards (filho também do neopositivismo lógico – e, neste, livro fundamental para mim foi o Tratado do Wittgenstein), o Dámaso Alonso e essa tropa toda, me pareceram sempre extremamente perigosos para Portugal, onde o “isolamento” de um poema, tão fundamental para a sua leitura, se pode confundir perigosamente com a despolitização dos intelectuais e com a abstracção das realidades concretas que nos rodeiam. V. mesmo, na sua experiência de crítico e de professor, se aperceberá disto que, aqui, com os meus alunos, tive ocasião de experimentar, já que, culturalmente e até certo ponto socialmente, há muitas semelhanças de “idade” entre estes vários mundos ocidentais…

 

JS valoriza as técnicas, que considera, de certa forma, decorrentes do ideário saussuriano, mas não adere ao eruditismo filológico e biográfico que então entende particar-se em Portugal, aproveitando para apontar ao seu interlocutor a discrepância entre a orientação que agora propõe e a sua prática crítica, que DMF, afinal, já assinalara, ao colocar este seu prefácio como texto-manifesto contra a crítica imediata. Aos trabalhos davidianos, aponta-lhe como rumo certo os métodos e as práticas já demonstradas no ensaio sobre Vinicius de Moraes:

 

O ter em horror não significa nem nunca significou, para mim, que as “técnicas” não possam e não devam ser aplicadas, uma vez despojadas do conteúdo idealista, e retornadas ao positivismo de Saussure, do qual, mais ou menos, todas elas decorrem. Eu creio que, precisamente, importa hoje ultrapassá-las e ter em atenção como uma crítica interna pressupõe, já feita, uma crítica externa que, no nosso país, o eruditismo filológico e biográfico não foi nunca capaz de fazer com rigor, segurança e método.

No caso especial dos seus ensaios, eu suponho que não há, suficientemente, conexão profunda entre a orientação que V. propõe e aquilo que V., com uma maturidade que ainda não tinha, fez. E é absolutamente necessário que a haja, para V. se libertar, e prosseguir no caminho que, salvo erro, pisou certo a propósito de Vinicius de Moraes. Concorda comigo?

 

JS, minuciosamente atento, não podia deixar de reparar na modalização discursiva e na agulhagem que o prefácio de Vinte Poetas Contemporâneos aponta, mas, apesar disso, continua convencido da injustiça da crítica de DMF ao seu livro As Evidências e faz-lho notar, apontando  as divergências que tem relativamente à crítica de DMF, que, em sua opinião, não terá entendido que o  seu pensamento “é sempre dialéctico, isto é, pretende ultrapassar a própria contradição que exprime”:

 

No meu caso pessoal, eu continuo a pensar que V. foi injusto para com As Evidências – injusto em seu critério, e não apenas no meu –, já que são exercícios “in meaning” e “in ambiguity” (e não on). E que a aparência de “direct statement” em Fidelidade, como o aparente predomínio (mas não real) de “indirect” no grupo de sonetos, o fez confundir clareza com limpidez, e não ver que o meu pensamento é sempre dialéctico, isto é, pretende ultrapassar a própria contradição que exprime.

 

Muitíssimo pertinente se me afigura a tentativa de dilucidação da metáfora, não raro ornamental exercício de retórica, sem correlação entre os termos, e que continua a inçar o discurso literário que, nestes casos, de literário tem pouco: “Note V. que hoje, quando assim não for, a metáfora é ornamental apenas (e chamo a sua atenção para a retórica arcaizante implícita na definição de Dámaso Alonso), ou é um exercício em “correlativo objectivo” sem correlação nenhuma, sem outra objectividade para lá de uma invenção sem sentido.”

JS tem a noção exacta de que o papel de ensinar o crítico a fazer crítica pode ser mal interpretado, e, por isso, tem o cuidado de insistir na honestidade que o move e na estima que acredita ser mútua.   “Porque o estimo e sei que V. me estima, e porque não sei manter-me nos limites da camaradagem mesureira, eu tinha o dever de lhe dizer tudo isto, que espero aceite como a declaração pessoal que é.”

Feito este aparte, volta a comentar Spitzer e, sobretudo, os métodos críticos dos dois Alonso, o Dámaso e o Amado, sobre cujas teorias constrói uma interessante teoria: “Os métodos, meu caro, e o caso do Spitzer é bem sintomático (e até o do Dámaso Alonso ou o do outro, o Amado, que tal destroço tem feito por estas bandas), são excelentes para quem os cria, óptimos para quem os usa e péssimos para quem acredita neles (sem criticar a filosofia em que assentam).”

Elogia o crítico e o poeta DMF em tentativa de lhe fazer ver que as propostas que defende no prefácio são, de certa forma, contra a sua natureza de poeta. Na realidade, bem cedo, DMF se  afastou de tudo o que o podia constranger. Faz, depois, a lista dos principais new critics, pólvora exaurida em fogo de artifício que João Palma-Ferreira lhe quer fazer descobrir, e que só terá lido (e mal) o prefácio de DMF.

 

Provavelmente,  JS desconhecia que DMF, nesta fase da sua vida, tinha já a maior relutância em responder à correspondência e não poucas vezes foi por esse motivo mal interpretado. Muito mais tratando-se de uma carta tão minuciosa que exigiria um tempo de concentração na resposta. O mais certo é que esta minuciosa carta-ensaio de JS tenha ficado sem resposta, mas isso só Mécia de Sena nos poderá dizer, a partir da conspícua organização da correspondência de seu marido. Certo é que, cinco meses depois, JS interpela DMF, na dedicatória manuscrita em papel, posteriormente colado ao volume Poesia I: “Ao David Mourão-Ferreira, silencioso, crítico e distante – porquê? – estes vinte anos, que rejulgará, do Jorge de Sena, Brasil, Natal de 1960.”

DMF é um dos vinte e três escritores, no total de trinta e nove inquiridos, que aceitam responder ao inquérito «Falando de Jorge de Sena», inserto no volume de homenagem da revista O Tempo e o Modo[3]. Nas suas respostas não poderemos deixar de ver a evolução crítica que treze anos operaram. Começa por citar  a única frase de adesão, que escrevera em 1955, mas fazendo questão de manter o modalizador “porventura”. JS acusa o toque na dedicatória manuscrita no exemplar de Arte de Música, nesse mesmo ano de 1968: “A David Mourão-Ferreira, esta porventura Arte de Música, com a velha camaradagem amiga do Jorge de Sena.”

Ainda na resposta davidiana ao inquérito, não se estranhará que entre o JS criador e o JS crítico coloque em maior destaque o segundo. Sobre o juízo crítico inter-pares escreve ainda, em 1993, no volume Jogo de Espelhos (LII), falando de si próprio, embora na terceira pessoa: ”Os poetas costumam considerá-lo razoável narrador; os narradores, razoável poeta. E uns e outros, desde que elogiosamente sobre eles tenha escrito, um clarividente ensaísta.”

A pergunta verdadeiramente difícil de responder no Inquérito de O Tempo e o Modo era a questão da influência de JS na sua obra. A resposta de DMF é interessante, pela honestidade que revela:

 

Não sei, ao certo, se ele me influenciou; sei, no entanto, que lhe devo muito –, bastante mais do que ele possa supor. […] durante anos e anos, raro era o texto que eu publicava, sem que a mim mesmo perguntasse qual seria a reacção de Jorge de Sena, no caso de o ler. Ainda hoje por vezes isso me acontece; e não me acontece em relação a muita gente. É que sempre reconheci em Jorge de Sena um mestre, um juiz privilegiado, uma testemunha incomparável. Todavia quase sempre procurei furtar-me à sua influência. E não será isto, afinal, uma forma de ele me ter influenciado?[4]

 

Ainda em carta para DMF datada de 31 de Janeiro de 1970 (com uma ironia de cariz político sobre a data entre parênteses “(ainda há 31 de Janeiro?)”, JS mostra-se muito caloroso e agradecido pelos elogios que lhe fizera em carta anterior e o certo é que, ao defender JS, DMF estava também a defender-se a si mesmo de acusações congéneres: “Profundamente – e é verdade – lha agradeço, pelo que diz de mim e pela belíssima maneira como o argumento se articula, mesmo por defender-me de ser tido por excessivamente variado e homem de sete instrumentos.” E para quem tanto foi acusado de autocentramento, aqui temos outra imagem, ao contrário de uma anedota comparativa entre JS e Camões, que não sei se é lenda, mas que tem tudo para ser  lenda. O que aqui fica não é lenda, são as palavras exactas de JS:

 

Brincando, brincando, essa de pôr-me “sem paralelo” lá nos cimos, é que não. Afinal de contas eu ainda não escrevi os meus Lusíadas… Mas creio que V. me caracteriza muito bem (elogios à parte), acentuando os vários aspectos da minha criação poética, quer formalmente, quer como “consciência”. Quando me parece que o meu tempo vai acabar (há pouco escrevia eu ao Casais que, vários de nós, estávamos agora na bicha, morto o Régio, para a forca, o esquartejamento e a fogueira, após evisceração prévia, que em Portugal nos esperam após meia dúzia de anos de semi-triunfo), é-me sumamente grata a sua prosa, e pelo espontâneo entusiasmo que V. pôs em escrevê-la e a escreveu.

 

DMF agradecera a JS o facto de ter escrito sobre a morte de Régio, o que vem reforçar a complexa relação entre ambos, colocando-se agora DMF, após a sua morte, em posição de grande proximidade como o autor de As Encruzihadas de Deus. JS está entre os que o defendem: “Obrigado pelas palavras sobre o artigo a propósito da morte do Régio. Escrevera pouco antes um a defendê-lo de ataques, e que estava a rever, quando e chegou a notícia da morte dele. Escrevi então esse.”

JS comenta também alguma incompreensão que suscitou a Peregrinatio,livro de que muito gosto e onde penso que publiquei das minhas melhores coisas”, acrescentando que muito gostaria de ver o que DMF viesse a escrever sobre ela. Refere, em seguida, que se encontra

 

esmagado de compromissos editoriais, três diferentes séries que serão talvez três diferentes livros me estão a aparecer: uma continua os poemas da viagem à Europa, outra (que ou escrevo em inglês e traduzo para português ou vice-versa) será uma de poemas terríveis sobre os Estados Unidos (alguns de inaudita obscenidade, como esta civilização é, no mau sentido da palavra), impublicável enquanto for aqui residente (o menos que o crescente fascismo faria seria expulsar-me) e uma outra de “invenções “ au goût du jour feitas só com versos de toda a gente, concretissimamente usados (esta primeiramente publicarei em plaquette para me divertir com a cara de meio-mundo…)

 

A referência à “invenção” au goût du jour deve-se ao facto de JS, nesta mesma carta, ironizar com tal palavra: «“invenção”, a nova palavra mítica que sucedeu ao “humano”, ao “mistificado”, ao “autêntico” e outras belezas da nossa rara terminologia crítica…»

A seguir ao 25 de Abril, JS pôde também contar com DMF, que, no Verão de 1974, o convidara a colaborar n’A Capital. A  9 de Março de 1975, JS enviou  um artigo intitulado «O Silêncio dos Melhores», comentando um artigo de Natália Correia, «O Silêncio dos Melhores é cúmplice do Alarido dos Piores», que lhe chegara em finais de Fevereiro de 1975, pela mão de Rui Cinatti, em que dizia ser a autora o único “homem” a falar duro semanalmente em Portugal, chamando a atenção para a responsabilidade dos intelectuais. Esse artigo chegaria na hora menos própria, dado que, a 11 de Março, com o endurecimento do radicalismo, JS entendeu não dever sair no jornal. Lúcido texto onde denuncia o proverbial ódio raivoso a tudo e todos que sejam independentes e livres; a tudo o que se distinga por uma altura de espírito. Com grande acerto premonitório diz JS a verdade nua e crua que ninguém  queria  dizer: que os partidos e agrupamentos políticos em Portugal estão mais empenhados em conquistar e consolidar posições do que em construir a democracia. E afirma lapidarmente: “Não tenham pois os intelectuais a pretensão de serem os condutores de povos, que nunca são. Mas não acalentem os políticos a ilusão de que, falando muito, são necessariamente eles os intelectuais de qualquer revolução, que não são também.”

Foi pela mão de DMF o  intelectual então político, que JS é o orador oficial nas comemorações do 10 de Junho de 1977, quando proferiu o célebre «Discurso da Guarda», escrito em Paris a 3 de Junho:

 

[…] cumprem-se trinta anos sobre a primeira vez que de público me ocupei de Camões, iniciando o que, sem vaidade me permito dizê-lo, tem sido uma contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém a não ser à sua própria consciência[5].

 

E assim se auto-retrata. A cumplicidade que, nessa época das suas vidas, revelam, leva JS, em gesto de nobre solidariedade, a interceder por Raul de Carvalho, em carta de 18 de Maio de 1977: “Peço-lhe, David, que consiga melhorar a sorte daquele homem, coitado, no que V. puder fazer, se puder (que a gente, às vezes, quer e não pode).”

De 18 de Julho de 1977 data a derradeira carta de JS, onde refere a última vez que se encontraram: em Coimbra, a 7 de Junho, na jornada presencista. Telefonou para casa de DMF antes de partir para Londres, para se despedir, a 20 de Junho, mas não o encontrou. Enviou ainda a antologia sobre Pascoaes que ficara de organizar. Queixa-se da burocracia que o esperava nos departamentos da universidade: “as encrencas todas deixadas para [ele]  resolver.” As relações literárias e nalguns momentos pessoais, entre estes dois escritores é húmus e incentivo vivificante da obra davidiana[6]. A própria divergência pode constituir uma das melhores formas de homenagem. DMF e JS prestaram-se mutuamente homenagem franca quer na divergência quer na convergência, para proveito de ambos e dos seus leitores.

 

NOTAS:

[1] David desempenhou no Diário Popular as funções de crítico de poesia entre 1954 e 1957.

[2] Líricas Portuguesas 3ª série, Portugália Editora, 1958, p. 441.

[3] O Tempo e o Modo, nº 59, Abril de 1968; em 1967, passara o 25º aniversário da estreia literária de Jorge de Sena com o livro Peregrinação (1942).

[4] Nos últimos anos de vida, o autor de O Indesejado foi objecto de particular atenção da parte de Portugal. Não será estranho o facto de DMF ser, ao tempo, secretário de Estado da Cultura.

[5] Cf. SENA, Jorge, Dedicácias, seguido de Discurso da Guarda, Lisboa, Guerra e Paz, 2010, p.103.

[6] Cf. MARQUES, Teresa Martins, «Jorge de Sena, José Rodrigues Miguéis e David Mourão-Ferreira: Triálogo em Clave de Mito», SANTOS, Gilda (intr. e org.), Jorge de Sena: Ressonâncias e Cinquenta Poemas, Rio de Janeiro, Sete Letras, 2006, p. 121-143.

 

Leia mais:

 

[*] Teresa Martins Marques | CLEPUL – Universidade de Lisboa

Jorge de Sena: Los trabajos y los días – Una antología

Los trabajos y los días es una antología -seleccionada por Jorge Fazenda Lourenço─ que ha resultado de un esfuerzo por registrar las diversas y prolíficas peregrinaciones literarias y culturales de Jorge de Sena (Lisboa, 1919-Santa Bárbara, California, 1978), «Los trabajos y los días» es el título de uno de sus poemas y también de esta selección de textos, porque cifra bien la dimensión épica y lírica de toda la obra de Sena. Incluye no sólo una sección bilingüe de poemas. sino también de cuentos y ensayos. A propósito, menciona Fazenda Lourenço en el prólogo: «En el terreno de los discursos y ensayos, las elecciones recayeron, mayoritareamente, en textos en que el poeta se presenta a sí mismo, en relación con el mundo y la literatura de su tiempo, ». La selección de los cuentos, dificilísima, buscó establecer un diálogo con aspectos importantes de la poesía: el testimonio como transmutación poética de una experiencia vivida, el erotismo, la centralidad de Camões en la vida y en la obra de Jorge de Sena, En lo que concierne a la poesía. busqué que sus ejes principales, antes mencionados ─erotismo y escatología, exilio y peregrinación. testimonio y lenguaje. humanidad divina y dignidad humana─, estuvieran representados. La poesía de Jorge de Sena es una poesía total, que toca y profundiza todos los géneros, en una especie de reactualización de la tradición poética y de toda la literatura ─entendida como un palimpsesto─ desde los tiempos de Gilgamesh al tiempo de los saberes y experiencias que con Jorge de Sena se construye. De cualquier modo. Como, dice en un verso de su poema “Espiral”, incluido en esta antología: “Un solo poema basta para alcanzar la tierra”.»