Arquivo mensais:dezembro 2013

Poemas de Natal – III

Dos 15 poemas de Natal assinados por Jorge de Sena, ainda nos faltava a transcrição de quatro — que agora aqui oferecemos aos leitores. Dentre estes, está o primeiro de todos, escrito em 1938 pelo jovem Sena, meses depois de excluído da Armada. O de 1943, descortina um cenário de guerra. Em 1965, há duas versões de um texto, com a mesma data, e uma delas explicitamente endereçada ao poeta Sidónio Muralha,  companheiro de exílios. O de 1971, reiteradamente interrogativo, explicita contradições e impasses entre o que seria a essencial mensagem natalina  e o “mundo todo bombas” em que se vive, particularmente em tempos de guerra colonial portuguesa. Sem dúvida, a melancolia e as inquietações expressas nestes versos continuam a fazer todo sentido hoje.  

 

António Santos-Natal_73

Cartão de boas-festas da guerra colonial portuguesa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Natal de 1971

Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma Justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido.
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se.
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé.
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm.
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Novembro 71

 

Natal  1965 (a)

(Cartão de Boas-Festas a Sidónio Muralha)

«Quando São Paulo só tinha
quatro milhões de habitantes»
este mundo em que vivemos
não era melhor do que antes.
E muito menos São Paulo:
nenhum de nós lá vivera.
nenhum de nós lá escrevera,
nem nossos filhos havia
com que São Paulo aumentasse.

 

E nestas neves que tombam
exactamente na véspera
do Natal, por propaganda,
fico à espera dum livro
que de São Paulo me manda
a tua camaradagem.

 

Dos trópicos ao Wisconsin
não é uma longa viagem
se poetas portugueses
dos que andam pelo mundo
conservam preso no fundo
um Portugal que não há
nem nunca ainda haverá
neste mundo em que vivemos,
e de que sempre podemos
cantar São Paulo ou a lua.
Venha pois poesia tua,
apaixonada ou serena,
que gratamente a recebo
«ex corde»

 Jorge de Sena.

24/12/1965

 

(b) (Versão original )

Quando São Paulo só tinha
4 milhões de habitantes
este mundo em que vivíamos
não era melhor do que antes.
E muito menos São Paulo:
Nenhum de nós lá vivia,
nenhum de nós lá escrevia,
nem filhos nossos havia
com que São Paulo aumentasse.
E nestes neves que tombam
exactamente na véspera
de Natal, por propaganda,
fico à espera dum livro
que de São Paulo me manda
a tua camaradagem.
Dos trópicos ao Wisconsin
não é uma longa viagem,
se dois poetas portugas
dos que andam pelo mundo
conservam preso no fundo
um Portugal vivo que pode
mesmo cantar de São Paulo
que tinha por habitantes
não quatro milhões, mas quatro
brasucas de Portugal.

24/12/1965

 

Natal – 43

Nos aviões que o mar imenso cruzam,
para que as ondas desçam das alturas
à terra em que se espraiam, ninguém vai.
Quais pássaros, se os move o coração,
ficou na primavera a esperança do regresso.
Descem com a noite, pousam no arvoredo,
e, afinal, mais longe é que pousaram…

 

Não há já folhas secas, este ano;
o vento frio leva papéis velhos
sobre a terra húmida… E as ervas
encurvam-se, e levantam-se manchadas
de alguma tinta: como a humanidade.
Em toda a parte, os mortos se demoram,
os feridos se recordam… Será sangue, então.

 

“Há dois mil anos…” – dizem várias vozes,
e várias letras, várias forças de hábito.
No entanto, quem nasceu foi um segredo,
um querer encher de nomes uma ausência
e de confiança as mães que nos embalam.
…  …  …  …  …  …  …  …  …  …  …  …  …

Crianças se sumiram no incêndio…
Que rósea aurora as ressuscitará?

27/12/43

 

NATAL

Fim… Não se sabe donde sopra o vento…
As terras e o mar olham com espanto
a extensão afogada em desencanto,
em falsa verdade, em legal tormento.

 

Houve, dizem, em tempos um momento…,
Deves saber, de sacrifício santo…
se houve… nós fizemos do teu manto
o inverno deste nosso pensamento.

 

Sim… Procura ter dentro da bondade
um sentimento de oportunidade
e vê na lama… a cor azul que é linda…

 

E vê que nunca a noite foi tamanha…,
nem houve tantos, em torno da montanha,
olhando o céu, esperando a tua vinda…

24/12/38

 

Há 50 anos: poemas de 1963

Os poemas que transcrevemos a seguir pertencem ao mesmo livro – Arte de Música – e têm ainda em comum a inspiração musical germânica de que traçam uma espécie de histórico, embora tenham sido escritos fora de uma ordem, digamos, cronológica: do romântico alemão (que inspira o poema escrito a 8 de abril de 1963) passamos ao barroco compositor do Sacro Império Romano-Germânico (poema de 04/05), seguido do moderno maestro austro-húngaro da virada do século XIX para o XX (08/05, e portanto na mesma semana do poema anterior), e, por fim, do clássico vienense do século XVIII (12/11).   
Acompanhados pela música de Brahms, Bach, Mahler e Haydn, vale reler estes poemas cinquentenários de Sena.

 

 

http://youtu.be/o3a4v1TWUNo

Oitava, ouvindo a primeira sinfonia de Brahms

 

Da música ao sentido, que palavra
preenche o vácuo de silêncio entre este
fluir contínuo de timbrados ritmos
e o que desperta em nós de não sonhada vida?
E que palavra traz consigo o som
do que ela mesma evoca em nós: imagem
de uma ideia, cor de uma lembrança.
perfume de um desejo, forma de um conceito?

 

Esta que ouço orquestralmente ansiosa.
o que me diz? De que soluços seus
eu posso, com palavras ou sem elas,
humedecê-la do que sinto ou sofro?
E que soluços são palavras que
flutuem ténues neste rio fluido
dentro de mim, sonhando que sonhei
da vida que não tenho ou que já tive?

 

Dulcíssima harmonia, sopro e gesto,
ouvida sem ser vista, e pressentida
no imprevisto da sequência firme
de um cálculo de pausas e de alturas:
o mundo sem palavras, movimento imóvel,
frase destituída de sentido.
É isto a Vida: algo que se ouviu
num timbre momentâneo e sobreposto

 

ao vácuo entre as palavras, para além
do som ou do sentido. Ó triunfal
dormência da verdade! Ó suspensão
de todas as certezas! Ó fervor
tranquilo, infrene, ardentemente frio!
Ó trégua, ó paz, vitória sem vencidos!
Eu te saúdo como noite eterna
onde por sons se escreve que existimos.

 8/4/1963

 

Concerto “Brandenburguês” n.º 1, em Fá maior*, de J. S. Bach

(*) Por lapso Sena indicou “Fá menor” no ms. e nas primeiras edições.

 

I

Como se modulando neste espaço-tempo
que se desenha espaço em mero som contínuo
de um tempo trespassado,
a fina imarcescível
dor
é timbre e andamento,
e proporção de altura
a desdobrar-se na serena angústia
de um nada preenchido.

 

Intensamente.
Quietação.
Vácuo.
Tudo.

 

II

Canta o impossível.
Que voz humana
sustentaria
esta pressa alegre
ou a tensão suspensa
do lento sonho?

 

III

Madeiras, cordas, gestos, sopros. tudo
avança imóvel, sem parar, quieto,
a passo irresistível.

Não há que os contenha
senão o inaudível.

 

IV

Neste silêncio, que ficou, flutua?
O quê?
Nós?
Como tão pouco restaria?

4/5/1963

 

 

 

«Das Lied Von Der Erde», De Mahler

 

São versos de poeta* chinês. Depois de sabermos
Isto, é fácil percebermos o exotismo
da orquestração estranha e convencional da
China coada em salas de concerto da Germânia
em que os Siegfrieds, as Brunhildas, as Isoldas.
os Parsifais, e tutti quanti, espreitam dos veludos
vermelhos e coçados de Bayreuth. Mas
por entre os timbres ricamente escritos
uma voz humana, em que o sexo alterna,
ergue de agudos a clara esperança
de que: a dor e a morte sejam alegria,
E tudo isso um pouco uivante e repetido,
mesmo alongado em gesto de só rttmo e orquestra,
é tão mais que Chinas e Germânias de concerto,
é tanto mais que a própria voz de compromisso
entre ópera e lied, galantemente soluçando
mágoas, piririri, tararara,
que a voz, os versos (traduzidos), a orquestra
se fundem neste dia de tão claro céu
em que os não ouço já.
Das Lied von der Erde – será da terra que isto canta, ou canta
do que não somos terra? Eu creio que
…para que crer ouvindo este sonhar da vida?

8/5/1963

 

 «Andante Con Variazioni, em Fá menor, de Haydn
Firmemente suave e docemente atenta vai seguindo em variações serenas
até que ao fim exclama resumidamente a mesma doçura
tenuemente harpejada que ao princípio dissera
como esta vida é urna simples coisa tão subtilmente amarga
que só variando em torno de perdê-la a toleramos toda.
Neste suspenso e continuado recordar sempre diverso
que nunca na memória se repete, mas recorre
mais vago ou mais nítido conforme
o vento passa, a luz se apaga, as vozes se entrecruzam.
e um gesto se desdobra em mil volutas que não foram
sequer as mesmas que o tão vulgar nunca chegou a ser,
trila, remia, reexpõe, repete,
e vai seguindo pensativa, sem pensar em nada
porque pensar, em música, seria mentir tranquilamente
à sucessão de que é possível transitar de uma ideia
ao ponto concordado na memória imaginada da frase que
só de si tira tudo o que será tirado dela.
Como é terrível ser-se tão sereno assim,
perante todos os passíveis que nos não dá a vida,
mas a música dá. Como dói esta imensamente delicada e tão viril
tranquilidade mais do que inumana. Como ultrapassa tudo
este meditar de sons e sentimento, que finíssimo
penetra onde lá nada tem sentido mas uma existência
que num silêncio termina após o acabar-se.

12/11/1963

 

[*] No ms, como na ed. original, onde está cortado pelo Autor, estava um poeta.

 

 

De Orlando Amorim

Professor da UNESP-Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, campus de São José do Rio Preto (SP), Orlando Amorim doutorou-se com uma tese sobre Sinais de Fogo, depois de concluir o Mestrado com uma dissertação sobre O Físico Prodigioso. Aqui nos fala sobre esse seu convívio — já longo, assíduo e intenso — com Jorge de Sena.

 

 

Sena Integral

Do blogue de Eduardo Pitta, “Da Literatura“, em Terça-feira, Dezembro 10, 2013:

 

 

Os leitores de Jorge de Sena sabem que a sua poesia está dispersa por nove volumes — Poesia I (cinco livros), Poesia II (três livros),Poesia III (cinco livros), 40 Anos de ServidãoSequênciasVisão PerpétuaPost-Scriptum II (dois volumes) e Dedicácias. A partir de agora, temos reunida em volume único toda a poesia publicada em vida do autor. São 875 páginas num volume editado por Jorge Fazenda Lourenço — Poesia 1. Seguir-se-á o volume que junta a poesia «esparsa ou inédita à data da sua morte, e posteriormente editada por Mécia de Sena…» Chama-se a isto um acontecimento.

Realça Fazenda Lourenço que «Esta é a primeira vez que os livros de poemas de Jorge de Sena são publicados, integralmente, por ordem cronológica Desde 1978 que a poesia de Sena sobrevivia em antologias avulsas. Agora temos o primeiro tomo da integral, como deve ser. Este volume inclui nota prévia, índice geral, índice alfabético de poemas e primeiros versos (uma ferramenta preciosa sempre ausente das edições portuguesas), prefácios das edições originais, um depoimento, as indispensáveis notas aos poemas e a vastíssima bibliografia de Sena. Publicou a Guimarães, que tem sistematizado a reedição da obra do autor.

 

79. Jorge de Sena: A poesia olhando a História (com ecos de Álvaro de Campos)

Neste ensaio, Helena Barbas examina as relações entre poesia e história na obra de Jorge de Sena, partindo de bases clássicas — onde a poesia épica e a tragédia tinham nos mitos os seus esteios. Apesar das muitas transmutações operadas ao longo dos séculos, a autora reconhece na poesia seniana “uma nova versão de tragédia”, na qual a história recupera “o seu estatuto primordial de logos”. 

 

«Aqui passaram todas: almirantes ladrões e vice-reis, poetas e cobardes, os santos e os heróis, mais a canalha sem nome e sem memória ...".» («Camões na Ilha de Moçambique», Poesia III). Fotografia de Francisco José Viegas.

«aqui passaram todos: almirantes, / ladrões e vice-reis, poetas e cobardes, / os santos e os heróis, mais a canalha / sem nome e sem memória …”.» («Camões na Ilha de Moçambique», Poesia III). Fotografia de Francisco José Viegas.

 

Dos LLoyd Georges da Babilónia
Não reza a História nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egipto
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito

Só o parvo de um poeta, ou dum louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está para lá trás no escuro
E nem a história já historia.

(Gazetilha, Álvaro de Campos)

 

O PRIMEIRO PARALELISMO POESIA/HISTÓRIA a marcar todo o pensamento ocidental estabelece-se implicitamente em Platão e declaradamente em Aristóteles, a partir das respectivas concepções (antagónicas, dado as diferentes cosmogonias) da relação entre a arte e o mundo. Platão entende as Ideias como o verdadeiro real, de que a Natureza é reflexo – acusa a arte de mimésis, de ser o reflexo de um reflexo; Aristóteles considera que o verdadeiro real reside na Natureza, cuja imitação será a suprema qualidade da arte.

Esta velha divergência institui-se como demarcação base entre as estéticas idealistas e materialistas, entre uma interpretação idealista e materialista da arte, resistindo a leituras posteriores da relação entre a arte e o real – neste caso, a poesia como arte, e a história como real – e ainda às tonalidades que a evolução epistemológica lhe tem vindo a dar.

Na teoria e na prática, poesia e história surgem ligadas na sua origem: a primeira vai buscar os seus temas à história (ainda como lenda e mito); a segunda recorre à poesia como meio de transmissão para garantir a sua permanência, divulga-se pelas epopeias.

O amálgama épico inicial (poesia, história, mito e direito) fragmenta-se, dando lugar a outros géneros. O poder do mito é minado pelo cristianismo; a veracidade da narrativa desafiada pela história e pelo direito. A síntese épica divide-se em duas vias paradoxais: uma de carácter ficcional, orientada porém para os ideais do Belo, do Bom e do Justo; outra mais empírica, dirigida para o Real. Na primeira vão enquadrar-se os impulsos estéticos e éticos; na segunda, descobre-se como componente a história aspirando à verdade dos factos.

Diz Hecateu de Mileto: «Escrevo de acordo com o que me parece ser a verdade, pois as histórias [logos] dos gregos são, em meu entender; muitas e ridículas»  [1]. É a partir de um desejo, e de um conceito de verdade, que a história se afasta da poesia. Deixa de ser logos, como já fora em Hesíodo; torna-se uma exposição de informações para manter na memória os actos grandiosos e as razões dos conflitos, como afirma Heródoto [2]. O conceito evolui, e a história passa a pretender-se não só verdadeira, mas ainda científica e imparcial, como o exige Tito Lívio [3].

Ao contrário do poeta, o historiador tem por ofício explanar uma evidência e para tal deverá adoptar um determinado critério. A sua notícia exige um suporte empírico passível de verificação – os documentos, ou os factos. Por si, generalizava e sintetiza. Não concebe o passado colectivo da humanidade como composto de um número infinito de acontecimentos, actos ou actividades isolados, todos eles igualmente significativos e importantes por resultarem da dor individual – o sofrimento humano que o discurso histórico postula, mas que sempre soube não poder penetrar – diz Tucídides: «a causa mais verdadeira [dos conflitos] é a menos evidente na exposição» [4]. Por outro lado, há um apelo a o historiador como testemunha da verdade. É responsabilizável perante uma realidade exterior ao seu discurso; o seu trabalho é sempre referencial, e susceptível de controle. Era.

No momento em que o conceito de verdade se pluraliza, esta medida torna-se variável: «Não é um invariante transhistórico, mas uma obra da imaginação constituinte» [5]., afirma Paul Veyne, e continua falando sobre esta imaginação que subjaz ao evoluir do conhecimento, que relativiza o conceito de verdade, fazendo-nos aceitar que nada seja verdadeiro nem falso: «a verdade é o nome que damos às nossas opções de que não queremos abdicar; se abdicássemos delas, di-las íamos seguramente falsas por tanto respeitarmos a verdade» [6].

Relativizada, uma verdade torna-se homónima e analógica de outras, origina uma verdade plural (a verdade é que a verdade varia, de Nietzsche), um sistema de verdades fabricadas, ou diversos programas de verdade, contraditórios entre si, pertencentes a um tempo e espaço heterogéneos e plurais, e dependentes da esfera de crenças, igualmente sinceras e profundas, adoptadas no momento.

Deste modo, a história – como as outras ciências – é verdade e ficção em simultâneo, porque é uma verdade nunca definitiva, que se estabelece, ainda segundo Veyne, a partir de uma ficção interpretativa.

É a analogia dos sistemas de verdade que nos permite entrar nas ficções romanescas, de achar vivos os seus heróis e também de descobrir um sentido interessante nas filosofias e pensamentos de antigamente. E nos de hoje. As verdades, a da Ilíada e a de Einstein, são filhas da imaginação e não da luz natura [7].

Ou, como já foi dito por Álvaro de Campos: «O binómio de Newton é tão belo quanto a Vénus de Milo. / O que há é pouca gente para dar por isso» [8]. Será a imaginação subjacente à interpretação do historiador que encena os factos históricos, ou as marcas deixadas por eles, sob a forma de um discurso –«Transformando as realizações de muitos anos/ Numa hora de ampulheta» [9]. Curiosamente, com a Nova História, recai agora sobre o historiador, e por razões idênticas, a secular acusação de falsidade de que o poeta se conseguiu ilibar após o Romantismo. Diz Sena, em O Poeta é Um Fingidor, «a verdade em poesia, aquela verdade não perturbada pelos factores ocasionais e aquela verdade que é visão, resultarão da elisão da antinomia verdadeiro-falso, elisão essa que irá processar-se através de um ultrapassamento do em-si do poeta, ao qual tradicionalmente se identificava a essência da poesia que o poeta materializava, existenciava objectivamente» [10].

O historiador é acusado de ilusionismo, de transformar em discurso sobre o real a fabricação de um texto a partir de restos documentais: a montagem ficcional dos fragmentos de que se compõe a história. Por outro lado, embora atravesse vários graus de sofisticação, o seu objetivo mantém-se o mesmo: manter vivo o passado para que possa servir de exemplo, positivo ou negativo, ao presente. A sua imparcialidade é, por mais esta razão, fictícia. Os impulsos éticos, gradualmente escamoteados, emergem discretamente por detrás do desejo de proporcionar ao presente um ponto de referência necessário a uma comparação: «nós teremos mais ardor para contemplar e imitar as vidas belas, se não ignorarmos sequer as que são más e merecem a censura…» dizia Plutarco [11].

A história (seja geral ou específica, seja eventual, serial ou quantitativa) tornou-se vulnerável. Chega-se ao ponto de se aventar (com Paul Veyne) que uma vez que a história não existe, tudo é histórico. Recuando perante o risco de uma posição iconoclasta, Le Roy Ladurie considera antes que a sua força e a sua fraqueza residem no facto de ser «...uma mistura entre as ciências humanas, por um lado, e a literatura,o romance, as belas artes, o cinema, o teatro e a ópera por outro» [12]. De ciência com pretensões ao exacto, ao construir de leis universais, revela-se como uma arte de tratar os restos, uma arte de memória e encenação.

Recupera, de certa forma, a sua qualidade inicial de lenda e mito: p ode ser a legenda, no sentido original do termo, o exemplo que deve ser lido e que poderá ser seguido ou evitado; é o mito, em que se não distingue entre os seres, as acções ou os acontecimentos reais, e os imaginados ou desejados. Em Sena, a história é olhada como o ponto de confronto necessário ao presente e ao real e o recurso ao passado histórico vai manifestar-se como desejo de vencer o tempo.

 

O TEMPO E A HISTÓRIA

 

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos – nem mais
nem menos –
Para com eles ajustar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se
não vê)…
[…]
Imagens de jogos ou de paciências
ou de passatempos –
Imagens da vida, imagens das vidas, Imagens
da Vida
Verbalismo…

(Apostilha, Álvaro de Campos)

 

Quer a sociedade, quer o indivíduo que se interrogue sobre si mesmo, que tente compreender e compreender-se, que busque situar-se, tem que se apoiar numa reflexão segunda (termo de comparação), que não pode ser outra senão a sua própria história. Diz-nos Sena: «a História tem que estar presente na compreensão da própria e pessoal humanidade, com a qual lhe é dado compreender a dos outros...» [13]. Preenche assim uma necessidade de passado e de fundamento em relação ao real, que se poderá traduzir na procura de raízes:

 

Raízes? Como – por metáfora – se ganham
Ou se perdem? Sendo filho? Sendo pai? As duas
                                                               coisas?
Vivendo aqui na pátria mais ou menos do que
                                                   quantos anos?
Perderam-nas Camões e Mendes Pinto no Oriente?
Ganhou-as Eça nos seus exílios de Cônsul?
Manteve-as fumos de ópio aquele Camilo
apenas Pessanha por Macau ? Ganhou-as
Pessoa tão inglês de sul das Áfricas,
No seu tão esperto exílio de Lisboa?
E o Vieira padre e brasileiro na Bahia,
largara-as lá por Roma à Cristina da Suécia?

(«Raízes». Poesia III, p. 206)

 

Tentando reatar com os desaparecidos, o indivíduo recorre à história para simbolizar o seu lugar, para se situar numa rede complexa de forças e analisar as suas relações com o social – a começar pelas instituições: a pátria, a família. Mas, em primeiro lugar, p ara saber se era noutro tempo, que se deveria ter nascido:

 

desta vergonha inominável que é
ter de existir num tempo de canalhas
de umbigo preso à podridão de Impérios
e à lei de mendigar favor dos grandes.

(«Hei-de ser tudo o que… », Visão Perpétua, p. 175)

 

Ou de outro modo, noutro lugar. Saber se é ou não arbitrário viver nesta sociedade em vez de qualquer outra:

 

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de ter nascido nela.

(«A Portugal», 40 Anos de Servidão, p. 89)

 

Ainda que nalguns casos se equiparem no degradado das gentes, ao passado são atribuídas as características de uma Idade de Ouro mítica, que fazem ressaltar a coloração férrea do presente. Porém, mesmo por denegação, não se espera um eterno retorno. É uma história linear que serve de instrumento crítico, e justapõe a diferença de outras organizações, outras leis e outras modas à realidade do presente, relativizando-o no tempo – um tempo que «nos afina e nos apura». Depois, por si só, o tempo não existe, e dele se toma consciência a partir dos «lugares que acabam»:

 

 Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta, ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

(«Noutros Lugares», Poesia III, p. 90)

 

O presente é sempre vivido e construído individualmente – a «narração» histórica que cria a humanidade, ou a voz individual que, a partir da infância («As Crianças Cantavam» , Poesia II, p. 32) , vai dando forma à vida, construindo a memória pela acumulação e registo de experiências. Crescer é afastar-se de um silêncio inicial que advém da ausência de conhecimento do tempo, quebrado pela soma dos instantes:

 

Um intervalo
se abre de outro intervalo que foi,
e outra rasura no fluir do tempo
se instala,
da antiga em mim como de mim na antiga rasura.

(«A Chuva Torna», Poesia II, p. 33)

 

São os momentos entre os intervalos, os fragmentos – pessoais, ou históricos, mas sempre individualizados pela sua irrepetibilidade – que se instituem como memória, e se organizam verbalmente em algo de contínuo.

Do mesmo modo que o presente é indissociável do passado, também o é do futuro, dado que ambo s nele se fundem e por ele se definem. O presente p ode então ser considerado como um instante contínuo de confluências pelo que, quanto mais vasto for o conhecimento do passado, tanto mais vivas e fortes forem as suas experiências, tanto maiores as probabilidades de se vir a definir como um padrão para o futuro. Por tal, mais rico será o presente alargado pelo excesso de vida, de experiências, que é a pluralidade de emoções: «O que é preciso é que o artista sinta por certo número de Outros, todos diferentes uns dos outros, uns do passado, outros do presente, outros do futuro» [14]. Um sentir que é conhecimento adquirido não só pela memória das vivências individuais, mas também pela experiência imaginária das experiências dos outros:

 

parado que ouves, não mais é que o tempo
de hoje em que vives só alheias vidas
de ti alheadas qual de ti vividas.
 
Por outro tempo te criaste impuro,
difuso e firme, no clamor dos versos
que os tempos de hoje reconstroem como
delidas cartas um fogacho acendem.

(«Poema manuscrito…» , Poesia III, p. 30)

 

Ou seja, dá-se a apropriação das memórias dos outros, que é manifestação de uma ânsia de totalidade, de um desejo de vencer o tempo, apesar do reconhecimento do seu curso imparável. Ao afirmar, pela memória, que o passado está morto, o presente eterniza-se e permite que se esqueça que o futuro traz a morte implícita. O tempo transforma-se em história.

Mas, enquanto a história – como memória colectiva da humanidade – organiza os seus elementos linearmente, os tempos, espaços e experiências individuais vão ser concentrados em sucessivas intuições únicas, onde a história será apenas mais uma componente, confirmando a proposta de Bergson: «A memória é praticamente inseparável da percepção, intercala o passado no presente, contrai também numa única intuição os momentos múltiplos da duração e, deste modo, pela sua dupla operação, é causa que de facto nós percebamos a matéria em nós, enquanto que de direito a percebemos nela mesma» [15].

Enquanto soma das experiências da humanidade – ou de uma nação –, a história é absorvida e transformada em conhecimento individual. Porém, como diz ainda Paul Veyne, a história «é conhecimento mutilado» [16]., e assim aparece como o tempo mutilado do mundo que serve de contraponto ao tempo também mutilado do «eu»: o termo de comparação que lhe permitirá ordenar e datar as suas experiências, enquadrar as suas memórias. Individualizada, a história retira ao indivíduo as antigas garantias de perenidade e fama, tornando-se fonte de solidão e angústia, o medo de que «os lugares acabem»: «E o medo que a vida seja isto:/ um hábito quebrado que se não reatai senão noutros lugares que não conheço».

Assim, passado e futuro encontram-se indissoluvelmente unidos num presente que recoloca a noção de tempo como reconstituição finita de uma série de momentos, e explica o actual pela história.

Incapaz de vencer o tempo, Sena vai em demanda do passado pelos espaços (as cidades) e pelos objectos (as obras de arte) que heroicamente lhe sobreviveram:

 

ergue-se alheia a tudo e sobre tudo a Acrópole
Polida a pedra tão marmórea em lâminas
como crispadas vidas em deuses congeladas,

Os deuses como humanos, como deuses estes
ao mesmo tempo uma cidade e gente
um vértice jamais revisitado,
devastada memória do que poderia ter sido.
Não foi, e não será.

(«Atenas», Poesia III, p. 216)

 

Pela invocação aristotélica, o passado associa-se ao mito: o historiador conta a verdade, o que aconteceu; o poeta narra o verosímil, o que poderia ter acontecido, recriando o mundo de acordo com a sua memória. E cada fragmento – os lugares geográficos célebres ou apenas visitados, cada obra de arte olhada ou ouvida – transforma-se num dos velhos loci da memória retórica – de espaço, na pintura, na escultura, na fotografia, no filme; loci de tempo na música. Ou também na própria revisitação da linguagem que é o recurso às figuras de retórica e formas mais antigas: Camões, as cantigas de amigo, as diversas glosas de autores e momentos marcantes da literatura. E ainda, a revisitação dos lugares secretos da linguagem, pelas suas «experiências de esvaziamento semântico» [17]. Abolindo o elemento convencional das palavras, nota-se que estas continuam ainda, e apesar disso, a significar, pelo recurso a paradigmas sonoros de um inconsciente da linguagem. Esta é a visitação ao local do som puro, das ressonâncias misteriosas: o espaço da incantanção, da bruxaria e do exorcismo.

Porém, todos estes espaços, como todos os seus tempos, mesmo que apareçam em simultâneo, são dados como independentes uns dos outros. Não há um tempo puro, mas tempos múltiplos, e o passado surge maculado, degradado pela intromissão do presente:

 

Havia enorme, por entre as inscrições em todas as letras e línguas
uma em negras e majestosas letras: O GRAVANITA ESTEVE AQUI.
Entre mim e o Hamlet, entre a Dinamarca em que algo havia de podre
e o Portugal que estava em mim, erguia-se como um fedor turístico
(ó Mendes Pintos, Cortes-Reais, Dias e Gamas de outras eras!…)
o espectro intenso e inamovível
do Senhor Gravanita. TINHA ESTADO LÁ.

(«Helsingor», Poesia III, p. 1 57)

 

A degradação que é resultado da marca humana, e em consequência da qual, todo o tempo – passado ou presente – é um tempo contaminado. Do mesmo modo, a história confirma-se como um tempo deteriorado pela humanidade:

 

Não foram nunca as circunstâncias nem a história
nem o destino nem a providência
quem matou a grandeza em qualqu.er coisa
império ou obra ou simples gesto vivo
de ser-se por instantes mais feliz.
Mas sempre o assassino se esconde
na outra humanidade . . .

(«Passando onde haja túmulos», Poesia III, p. 142)

 

O miasma passível de ser remido apenas por alguns eleitos incompreendidos, que habitam o espaço: «entre o divino e o humano, onde os heróis se geram»- os artistas, os poetas:

 

há só uns quantos raros transformando em ouro
a merda milenária, e sempre a multidão
ansiosa de burguesa e de servil a transformar em [merda
os oiros todos de sofrer-se o mundo
e de lhe dar em forma o senso que não tem.
Para quê obras de arte? P’ra quê a literatura ?

(«A Última Calista d e Milão» , Poesia III, p . 161)

 

Em Sena, encontra-se a alternativa entre uma história real, degradada, e uma história ideal, feita de acontecimentos a-temporais e por seres sobre-humanos, pertença do espaço do mito (que acaba também a ser desmitificado em Ganimedes).

Paradoxalmente, o passado aparece sempre como um tempo linear, porque irrepetível, e simultaneamente espiralado, porque parcialmente recuperável. O recurso ao passado histórico representará, pois, uma tentativa de fuga à condição de «bicho da terra tão pequeno».

Peregrino (ad loca infecta), sujeito a um tempo enganador, manhoso e cheio de sinuosidades, reconhece-se exilado, por acaso, no século XX. Por sua vez, o local que habita é demasiado estreito, e torna-se imperioso um alargamento dos horizontes. Assim, elege como sua pátria, não mais um terreno delimitado geograficamente, nem um tempo cronologicamente determinado, mas a permanência (relativa) da sua língua, enquanto transmissora não só da sua cultura, mas principalmente enquanto elemento da cultura universal. A língua não é a pátria, mas a porta para o mundo além dela. Assim, o irónico lusitanismo de Sena prova-se como uma necessidade indesejada, porque é o único meio que lhe pode dar acesso ao cosmopolitismo e ecumenismo artístico. Será através da sua língua, pela sua poesia, que lhe poderá ser concedido o passaporte de cidadão do mundo.

O presente e o real, demasiado limitados, alargam-se ao mundo da ideias, uma metáfora do mundo da Alte, aquele que permanece para além das revoluções das sociedades e não conhece fronteiras políticas. Trata-se de um espaço interior e transcendente em simultâneo, que consegue abolir os limites temporais, e cuja história será a verdadeira história da humanidade.

Oriundo de um país de marinheiros, Jorge de Sena assume-se como um ex-marinheiro «Traído pelo mar» e forçado à terra. Sentindo-se desterrado no seu país natal, viaja, exila-se (in)voluntariamente, muda de nacionalidade, morre longe e «estrangeirado». Nascido português, naturalizou-se brasileiro e depois americano – qualquer nacionalidade lhe serve enquanto cidadão do mundo das Ideias. Também o seu viajar é uma outra alternativa de conhecer um mundo real «que não se conhece nunca» porque apenas reflexo daquele outro –, ou que é «um conhecimento inútil»[18]. mesmo em primeira mão:

«acontece que o homem se pode viver e criar abstracções – é pelo rosto e pelos seus gestos e pelo que ele, com o olhar transfigura, que podemos interroga tivamente, incertamente, inquietantemente, angustiadamente, conhecer-lhe a vida. E, se não fora a poesia olhando a História, nenhuma vida em verdade conheceríamos, nem a nossa própria. Não adianta muito, concordarei, este saber; e é mais do que prudente recusá-lo. Mas são precisamente as metamorfoses o que nos permite olhar a cabeça de Medusa» [19].

A metamorfose que é toda a poesia, não só olhando a história, mas a própria vida, e o que permite que esta possa ser aceite na sua estreiteza e limitação; o transfigurar da palavra que é conhecimento, experiência transformadora do próprio e dos outros:

 

Pensei ser esta a soma teimosa do que não existe:
exigência, anseio, dúvida, e gosto
de impor aos outros a visão profunda,
não visão que eles fingem,
mas a visão que recusam:
esse lixo do mundo e papéis velhos
que sai dum jarrão exótico que a criada partiu
como a catedral se iria em acordes que ficam
na memória das coisas como um livro infantil
de lendas de outras terras que não são a minha...

(«La Cathedrale Engloutie», Poesia III, p. 171)

 

o lixo do mundo e os papéis velhos, os restos de um acidente – uma metáfora da história – transformado em acordes que ficam – as imagens da vida a ser aproveitadas e verbalizadas pelos poetas.

 

O LIXO DO MUNDO

 

Complexidades da vida! As facturas são feitas por gente
Que tem amores, ódios, paixões políticas, às vezes crimes –
E são tão bem escritas, tão alinhadas, tão [independentes de tudo isso!
Há quem olhe para uma factura e não sinta isto.

Venham dizer-me que não há poesia no comércio, nos [escritórios!
Ora, ela entra por todos os poros … Neste ar marítimo [respiro-a
Por tudo isto vem a propósito dos vapores, da navegação moderna,
Porque as facturas e as cartas comerciais são o [princípio da história
E os navios que levam as mercadorias pelo mar eterno são o fim.

(Ode Marítima, Álvaro de Campos)

 

O facto histórico positivista, o evento selecionado porque marca os tempos fortes da história, o elemento do arquivo que constitui a memória das nações, deixou de ser importante enquanto tal. A Nova História só o reconhece relativamente à série em que é enquadrado. Para a Poesia, só será relevante na medida em que possa interessar aos «cidadãos do mundo das ideias» os quais, pelo simples facto de se servirem dele, o elevam acima da sua condição de fragmento, transformando-o numa totalidade.

Deste modo, ao ser promovido a facto artístico, o facto histórico deixa de estar debaixo da alçada do referencial, muda de programa de verdade. É esta a situação que permite a anacronia de pôr em diálogo personagens históricas verídicas, mas tendo vivido em épocas diferentes, que se preencham os vazios que rodeiam os fragmentos, que se subverta o facto histórico do passado ou se alargue o seu sentido inicial – como se encontra magistralmente, por exemplo, em Cavafis (cuja referência não se pode aqui ignorar, dado ter sido traduzido por Sena). Também se descobre o contrário, o condenar da degradação que acaba por sofrer um evento que inicialmente se apresentou como ideal – os acontecimentos vividos por Sena aquando do 25 de Abril –, reprovação que se manifesta pela «impossibilidade» de cantar:

 

Como te calas, poesia, longamente
Deixando-me em silêncio dentro de ti.

Tu calas- te de angústia. Aquele país

se despedaça…

Mas como hás-de cantar (cantaste outrora)
de uma revolta agora a desfazer-se
em lutas suicidas que condenas?

Ao menos grita o teu protesto agudo
O grito do silêncio que te amarra.

Não pela História que as nações inventam.
Mas pelo povo . . . »

(«O Grito do Silêncio», 40 Anos de Servidão, p. 179)

 

E poder-se-ia acrescentar, mas pela história que os poetas inventam. Nestas condições, é também possível propor um programa político:

 

«Não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,

E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que só o manejem

E tu, canção mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir- te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora».

(«Não, não subrecrevo…», 40 Anos de Solidão, p. 200)

 

Não se depara aqui nem com o historiador, nem com o poeta, mas com o cidadão comum demasiado próximo dos acontecimentos, que deles não se consegue distanciar, nem p ara passar ao mundo das Ideias, nem para lucidamente regressar ao seu «entendimento amargo» [20]. O facto histórico precisa de tempo para poder subir ao artístico.

Apesar de nem todos os factos históricos se conseguirem transmutar em arte, e pela razão diametralmente oposta, todos os factos artísticos podem ser considerados como factos históricos do mundo das ideias, e celebrados como tal – os epigramas, as glosas, os poemas sobre outras obras de arte, como em Metamorfoses e Arte da Música. São as meditações aplicadas a situações p articulares da música, da pintura, escultura ou literatura, o especular para além d a arte que se institui como história também dos homens e das mentalidades. Será também o único modo de estudar uma obra de arte enquanto elemento de uma história, dado que cientificamente é impossível dar conta do acto criador e da sua originalidade – só atestáveis por outro acto criador original (como já os Românticos haviam percebido).

Assim, tanto o transformar o objecto da história das nações em objecto artístico (logo, original e único), como o recriar do objecto artístico enquanto elemento de uma história ou sociologia da arte, vão dar origem a que a história surja como palimpsesto: o poeta re-escreve-a, e transforma-a na história do que deveria (ou poderia) ter sido.

Mas o mundo da arte tem por base o mundo real, e só adquire sentido em função dele. A arte existe enquanto um modo sempre diferente de olhar o real, de o nomear e instituir. O poeta vai recorrer à estratégia da impessoalidade modernista, socorrer-se do monólogo dramático, das citações, das colagens, mas principalmente ao uso da máscara, nas suas personae literárias de que «Camões dirige-se aos seus contemporâneos» será um exemplo. O recurso ao facto histórico revela-se como uma outra alternativa desta estratégia: conciliar as experiências pessoais ou políticas, os temores e os receios pelo estado do seu país, ou pelos abusos dos seus governantes, com a experiência colectiva de que elas são símbolo. Deste modo, os acontecimentos históricos do passado vêm a funcionar como o eliotiano «objetivo correlativo» de urna situação presente. O passado (longínquo ou recente) é o espelho que o poeta ergue frente ao leitor, e onde este último irá projectar os seus próprios receios ou emoções, um espelho onde se vão acumulando as experiências humanas. Em Jorge de Sena, o reflexo vai de par com imagem da lente transformadora que obriga a uma visão diferente – melhorada:

 

Lentes poliu para de Holanda os míopes
que delas precisavam para a escrita
comercial do açúcar e saborearem
os cantos delicados das pinturas.

os ângulos mediu aos teoremas
da vida humana em lentes tão convexas
que até o latim lhe é como o hebraico morto .
E sem deus teólogo traçou
as linhas da cidade constituída
segundo as leis dos anjos da razão.
E Bento se chamava este coitado
suma gentileza de existir-se
e de pensar-se em glória a paciência triste
de polir lentes sem ter deus nem pátria.
Mas só assim é que os cristais flamejam
em pura transparência apavorada.

(«Homenagem a Spinoza», Poesia III, p. 156)

 

Reflectido, ou refractado, o objecto histórico real é transformado em poesia. Recebe uma dimensão supra-histórica: deixa de pertencer à história das nações, de que é fragmento, para passar à história da humanidade, como um todo, singular. E o poeta que o vai polindo em solidão e terror poderá ter o prémio póstumo da fama.

O conjunto de objectos, ou a série de acontecimentos, surgem como a superfície que, por ausência, oferece a profundidade; o cenário onde se deverá enquadrar individualmente o drama situacional apropriado. E a história, enquanto universo da representação e da aparência, em que se dá primazia à manifestação exterior de um acto social, transforma-se no elemento superficial, o reflectido por excelência.

 

MÁSCARAS HISTÓRICAS

 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste lalgo mundo que me confesse que
uma vez foi vil?
Ó príncipes meus irmãos,
 
Arre, estou farto de semi-deuses!
Onde é que há gente no mundo?

(«Poema em Linha Recta», Álvaro de Campos)

 

Como em resposta a Álvaro de Campos, Sena vai dar voz ao lado mais humano da dor individual, transformando os próprios príncipes em seres iguais aos outros, recriando um mundo de gente.

As suas personagens históricas (que na maioria são literárias) chegam por vezes à beira do ridículo pela exacerbação do seu lado demasiado humano – recorde-se «Camões na Ilha de Moçambique» (Poesia III, p. 1 89) – ou atingem as raias do sublime – «À Memória de Adolfo Casais Monteiro» (Poesia III, p. 207).

Entre o bathos do primeiro e o pathos do segundo, há a possibilidade do ethos aristotélico, que procura a virtude do meio, a descrição do tom ou sentimento que prevalece numa comunidade, ou num indivíduo, para suscitar os afectos suaves, a benevolência que permita compreender a realidade do ser pela sua reprodução artística – que se vai encontrar em «O Indesejado». O processo exige distanciamento relativamente à personagem que se exibe num determinado momento de fala ou de acção. O efeito dramático acentua-se pelo facto de o poeta, omnisciente, jogar com os acontecimentos posteriores à história que relata, e que o seu protagonista ignora. A personagem é focada na iminência da queda – no momento imediatamente anterior a deixar de ser importante para a história – dado que esta só se preocupa com os vencedores, e ignora os vencidos.

António-Rei surge como um peão num jogo de xadrez, a caminho do destino certo e igual para todos que é a morte, tão indesejado quanto Camões:

 

Aqui passaram todos: almirantes
ladrões e vice-reis, poetas e cobardes,
os santos e os heróis, mais a canalha
sem nome e sem memória, que serviu
de lastro, marujajem, e de carne
para os canhões e os peixes, como os outros.

(«Camões na Ilha de Moçambique», Poesia III, p. 189)

 

Assim, ao destino certo da tyché (a fusão helenística da ideia de destino e nemésis), junta-se o destino incerto, a que estão sujeitos os homens durante a vida, a heimarmene. É este destino trágico que orienta todas as personagens históricas, e que domina António-Rei – cuja dimensão se agrava pelo comparar implícito com D. Sebastião:

 

«–Todos... E nunca saberão quem fui.
Nasci antes dos outros, morro depois deles
como se Deus se esquecesse que viver é tempo,
e que, entre ver o mundo e perdê-lo para sempre,
não basta o brilho ansioso de uma coroa distante…
 
A verdadeira, a c’roa do meu povo,
rolou de mãos alheias sem passar por mim,
sem de leve ao menos me pousar na testa!
O peso que senti não era o dela,
não era o Destino a irmanar-me à Terra,
mas a montar-me … – azêmola dos Fados!»

(«0 Indesejado», Acto III, p. 85)

 

António-Rei é a personagem mais cavafiana de Sena, pois o futuro transforma-o numa «nota de rodapé», num simples pormenor marginal à história. E a tragédia do seu destino é realçada pelo facto de encarnar a versão ática do conceito de kaloikagathia: os belos e os bons que deveriam governar o mundo, a que os deuses e os fados se mostram indiferentes.

À tragédia da instabilidade nobre do destino individual contrapõe-se a fragilidade e o pouco valor da miríade de insectos humanos anónimos, com os quais se fazem guerras e leis, constroem e destroem impérios e civilizações. Uma tragédia existencial pois, para o historiador, são irrelevantes. Trata-se da parte da humanidade que faz grafitis nos monumentos e que, pela sua ignorância, tanto pode ser manipulada quanto oprimida:

 

Mas este povo: o povo: esse de séculos
em terra dura e curta vida imerso?
Que sonha ou pensa? Franças e Araganças?
Se lhe tiraram a cama em que sonhar!
Se lhe não deram nunca o imaginar
mais que sardinha assada sem esperanças!
Não sonha ou pensa, apenas faz os filhos
que um dia houveram sido povo se –
um se e sempre se de tantos séculos
e terra dura e vida curta e gente
que está por cima e há outros mais abaixo
danados só de não estarem em cima
do mesmo povo, o tal que todos amam
e lhes faz figas quando voltam as costas.

(«Os Ossos do Imperador», Poesia III, p. 176)

 

A noção dramática da inutilidade do sofrimento humano, bem como a generalização a partir de incidentes particulares, combinam-se com a total ausência de um tom moralizador. O olhar de Sena sobre a história nunca é neutro – por vezes leva-o ao sarcasmo, ao ataque directo ou à corrosão dos mitos da história enquanto pretexto de manipulações. Mas mais

do que moralizar, trata-se apenas de um esforço didáctico:

 

«No que respeita ao elemento moralístico, acrescentemos que toda a poesia […] é uma meditação moral. Sem dúvida que o não é (ou não deve sê- lo) num sentido normativo; mas indubitavelmente o é num sentido escatológico, de inquirição aflita sobre as origens e os fins últimos do Homem» [21].

 

Às personagens agindo como actores, sujeitas a um determinismo por vezes divino, por vezes histórico; à utilização das máscaras e monólogos dramáticos; ao recurso aos acontecimentos históricos interpretados de um modo pessoal; contrapõe-se o culto da sensualidade nos poemas eróticos, enquanto modo de transportar para todos os dias a festa dionisíaca, pelo sacralizar do momento do encontro (que poderia corresponder à atomização de um ritual) , será possível considerar que, em Jorge de Sena, a história (e a vida) se transformam numa nova versão de tragédia – ecoando ainda a proposta de Aristóteles. Mas, mais do que isso, nas mãos do poeta, descobre-se que a história acaba a recuperar o seu estatuto primordial de logos.

 

NOTAS:

[1] M. H. da Rocha Pereira, Hélade, Coimbra, F.L.V.C., 1982, p. 127.

[2] «Esta é a exposição de informações [estória] de Heródoto de Halicarnasso, a fim de que os feitos rios homens, com o tempo, se não apaguem e de que não percam o seu lustre acções grandiosas e admiráveis praticadas quer pelos Helenos, quer pelos bárbaros; e, sobretudo, arazão pela qual entraram em conflito uns com os outros»; Ibid., p. 217.

[3] «Eu Lívio […] enquanto indago e revolvo com toda a aplicação e cuidado aquelas coisas antigas (as histórias dos antigos romanos) de todo o cuidado, o qual posto que não possa torcer o ânimo de mim, que escrevo da verdade, contudo pode fazer esse ânimo inquieto. Determino eu Lívio nem afirmar nem refutar aquelas coisas que se contam antes de se fundar a cidade de Roma, ou na sua fundação mais convenientes às fábulas dos poetas do que aos verdadeiros escritos das coisas verdadeiras e obradas. Concede-se esta licença à antiguidade que, confundindo as coisas humanas com as Divinas, faça os princípios das cidades mais dignos e respeitados»; «Prefácio» in Historiarum as Urbe Condita Decadis Primae, trad. anón.séc. XIX p. 2.

[4] M . H. da Rocha Pereira, op. cit., p. 294.

[5] «…la vérité est la plus variable des mesures. Elle n’est pas un invariant transhistorique, mais une oeuvre de l’imagination constituante», Paul Veyne, Les Grecs Ont-ils Cm à Leus Mythes?, Paris, Seuil, 1983, p. 127.

[6] «…la vérité est le nom que nous dannons à nos options, dont nous ne démor drions pas; si nous en démordrions, nous les dirions décidément fausses, tant nous respctons la vérité; »; Ibid., p. 137.

[7] «Cest l’analogie des systhèmes de vérité que nous permet d’entrerdans les fictions romanesques, de trouver vivants leurs héros et aussi de trouver un sens in téressant nllx pllilosophies et aux pensées d’autrefois. Età celles d’aujourd’hui. Les vérités, celle de L’Illia de et celle d’Einstein, sont filles de I’imagination et non pas de la lumiere naturelle»; Ibid., p. 34.

[8] In Poesias, Lisboa, Ática, s/d., p. 110.

[9] W. Shakespeare, Prólogo a King Henry the Fifth.

[10] In O Poeta é um Fingidor, Lisboa, 1961, p. 24. Todas as restantes obras de Sena foram consultadas nas primeiras edições. Lisboa, Moraes Editores para Poesia I, II III; bem como 40 Anos de ServidãoSequências e Visão Perpétua; Porto, Paisagem Editora para O Indesejado.

[11] Plutarco, Vidas Paralelas, tomo IV.

[12] In «História – Uma Paixão Nova», apud. A Nova História, Lisboa, Ed. 70, 1977, p. 34.

[13] In «Postfácio-1963», Metamorfoses apud. Poesia II, p. 58.

[14] In «O Poeta é um fingidor», op.cit., p. 25.

[15] «La mémoire, practiquement inséparable de la perception, intercale le passé dans le présent, contracte aussi dans une intuition unique des moments multiples de la durée, et ainsi, par sa double opération, est cause qu’en fait naus percevons la matiere en nous, alors qu’en droit naus la percevons en elle», H. Bergson, Matière et Memoire, Paris, P.V.F., 1 982, p. 24.

[16] Paul Veyne, Como se Faz a história, Lisboa, Ed. 70, 1980, p. 24.

[17] F. B. Martinho, «Leituras na Poesia de Jorge de Sena», in Colóquio Letras, Maio, 1982, n° 67.

[18] «De correr mundo…», Poesia III, p. 159.

[19] «Postfácio – 1963» a Metamorfoses, op. cit., p. 163.

[20] «Os Poetas se publicam todavia», 40 Anos de Servidão, p. 205.

[21] «Postfácio – 1963» a Metamorfosesop. cit., p . 158

 

[*] Professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa

In: Camões – revista de letras e culturas lusófonas, nº 2. Lisboa, Instituto Camões, jul./set. 1998 p. 88-101

 

De Maria Fernanda de Abreu

Reconhecida hispanista, a professora da Universidade Nova de Lisboa Maria Fernanda de Abreu aqui nos traz seu testemunho sobre Jorge de Sena, quer como escritor, quer como ensaísta que muito se debruçou sobre temas e peculiaridades da terra do Quixote, não raro em interlocução ibérica.  

 

 

78. Jorge de Sena: um olhar quixotesco sobre «a velha Hispania Mater»

Partindo da conferência (ver) que Jorge de Sena proferiu na abertura do Sexto Congresso da Associação Internacional de Hispanistas, em Toronto, agosto de 1977, a ensaísta tece considerações sobre o olhar arguto que Jorge de Sena lança ao país vizinho e à Ibéria em conjunto.  

 

 

«Nadie es de verdad un miembro de nuestra comunidad, si, por lo menos una vez en la vida, no es Don Quijote, saliendo a librar batallas perdidas para deshacer los entuertos de este mundo, entre los más irritantes de los cuales se cuenta la arrogancia de eruditos míopes que fingen ignoramos o realmente nos ignoran, porque siglos de prejuicios malévolos les han impedido vemos o entender que la historia del mundo, para bien o para mal, no se puede escribir sin nuestra presencia en ella, les guste o no, o aun a nosotros nos guste o no». Em Agosto de 1977, pronunciava Jorge de Sena estas palavras, assim, em castelhano, perante uma «comunidade» de hispanistas, em Toronto, no Congresso da Asociación Internacional de Hispanistas para o qual tinha sido convidado a proferir uma das especialíssimas conferencias plenárias que a organização de cada Congresso da Associação brinda à sua multidão de sócios. Quando as actas do mesmo recolheram as suas palavras, já ele tinha morrido [1].

 

Por mim, sem querer fazer apropriações ilegítimas, não posso deixar de pensar que as palavras então proferidas por Jorge de Sena constituem o seu testamento hispanista ou pelo menos o documento de alguém que muito sabia de tudo sobre o que ali se pronunciou. São ao mesmo tempo o testamento de um português – ou melhor, como ali faz questão de afirmar: um escritor português e cidadão brasileiro – que pensa a ‘sua cultura, a sua história e a sua identidade, integrado numa entidade que ele próprio chama, no decorrer da conferência, de «velha Hispania Mater», assim se integrando, aliás, numa linhagem intelectual, cujo raciocínio esclarecido sempre havemos de ter em conta mesmo quando em algo possamos divergir.

Por isso, me pareceu de algum interesse chamar a atenção para este texto de Sena que, sem pretender eu estar ao corrente de tudo o que sobre ele e a sua obra se tem escrito, creio não estar presente em toda a já vasta bibliografia sobre ele e a sua obra produzida. É este, por agora, o objectivo possível desta nota que, por isso, há- de ser breve. Para tempos mais generosos há-de ficar o estudo que suspeito muito profíquo (e aqui deixo sugerido) de como o seu olhar, ao mesmo tempo quixotesco e sanchesco (no sentido em que o veremos defluir a complementaridade de ambas as figuras cervantinas) ficou escrito nos seus poemas, na sua narrativa, nos seus ensaios sobre literatura, antes de mais no seu entendimento do Barro peninsular.

Lembremos apenas que não será despiciendo que nesse magnífico romance que nos deixou, Sinais de Fogo, tenha feito conviver portugueses e espanhóis em empenhados gestos de solidariedade; e que, nessa impressionante e perfeita novela que é O Físico Prodigioso – cujo lugar único, definitivamente enriquecedor da literatura portuguesa deste século sempre haveremos de agradecer-lhe – tenha recuperado velhas tradições peninsulares; como também não será de somenos significado que tenha escolhido «o coração de um pintor chamado Goya» para o mostrar como exemplo – de liberdade, de amor e de justiça – em carta a seus filhos.

É quase no fim da conferência que Jorge de Sena, com a ousadia e a coragem intelectual e cívica que lhe conhecemos, faz as afirmações que comecei por reproduzir. Mas elas surgem no desenvolvimento lógico e na explicitação de uma atitude que se vem manifestando ao longo de toda a intervenção. Nela, assumindo conscientemente a máscara de Quixote, denuncia e combate a golpes de implacável espada os preconceitos, a ignorância e isso que chama de «miopia», entregando-se a uma batalha (e como se vê, não faço mais do que parafrasear as imagens que ele próprio utiliza) que começa, desde logo, no título: «hispanismo: archipiélago de glorias y vanidades en el mar océano de la ignorancia universal».

A dureza do enunciado resume bem o eixo que vai guiar a sua comunicação, isto é, a denuncia que ao longo dela Sena fará do desconhecimento ou, quando menos, da desatenção que, no campo da história e da literatura, alguns dos mais famosos especialistas do campo hispânico têm demonstrado em relação à diversidade e à complexidade em que se erguem as culturas que ao longo de séculos se têm desenvolvido na Península Ibérica e nos continentes americano e africano com elas ligadas a partir dos descobrimentos.

A começar pela diversidade linguística. Logo no início da sua intervenção Sena dá conta desse problema que sempre se lhe põe a um falante de língua portuguesa quando participa num destes congressos: exprimir-se na sua própria língua correndo o risco, ou melhor, sabendo de antemão que será entendido por muito poucos ou mesmo nenhum ou fazer a concessão de falar a língua do outro para que o entendam? Claro que Sena, inteligente e realista – e sendo bem consciente de que a eficácia da sua intervenção, acusadora e esclarecedora, só atingirá os seus fins se fizer essa concessão – não duvida. E nem sequer lhe notamos nenhum rasto de má consciência. Pelo contrário, como sempre acontece nele, o que poderia constituir uma justificação converte-se, de novo, em acusação: «Pensando en todas estas cosas [a ignorância generalizada do português, do catalão e do galego entre os hispanistas, mesmo entre os que conhecem o francês e o italiano ou entre os que estudaram as obras espanholas de Gil Vicente e de Rosalía de Castro e tendo ainda em conta a experiência de uma anterior intervenção sua noutro congresso de hispanistas, feita em português] llegué a la conclusión de que, por el momento, y mientras los más diligentes entre ustedes se dispongan a comprar sus gramáticas desas lenguas olvidadas, mi mejor decisión sería hablar en espanol. Y es eso lo que estoy haciendo».

E fá-lo efectivamente sem complexos, o que deveria, creio, constituir um exemplo para todos nós, Sem complexos e, como afirma, consciente de que o uso da «língua dos vizinhos», quando as circunstâncias o aconselham, não significa «um debilitamento da identidade portuguesa». Ao aduzir argumentos recorda, entre outros, a época em que o bilinguismo era praticado pelos escritores portugueses fazendo notar que ela «coincidia exactamente, en la historia y en la literatura de Portugal, con el más agudo sentido de una misión imperial portuguesa, y con un ingente orgullo por los descubrimientos Y conquistas iniciadas majestuosamente, con la conquista de Ceuta en 1415».

É, pois, falando em castelhano e afirmando uma identidade portuguesa em primeira instância e, hispânica, no seu conjunto, que Jorge de Sena faz a denúncia das «glórias» e «vaidades», das «ignorâncias» e «miopias» que, desde o início, anuncia aos que o ouvem nessa conferência. Correndo o risco, ou antes, sabendo, a ciência certa, que algumas das atitudes ou das pessoas concretas que vai atacar estão presentes na sala. Porque ele, já o sabemos, não haveria nunca de limitar-se a referências abstractas ou especulativas; as suas conclusões ou juízos generalizadores haveriam sempre de assentar em exemplos concretos, leituras, encontros, experiências, pessoas que aqui deixará apontadas inexoravelmente. São, como exemplos dessa «Cortina de Ferro», diz ele, que parece isolar culturalmente a Península do resto do mundo, «cortina» imposta de fora mas também, como veremos, reforçada, por dentro: o crítico literário René Wellek, aqui acusado por Sena de, em recentes ensaios sobre a crítica literária contemporânea na Europa não referir nem dois nomes hispânicos; o crítico de arte britânico Kenneth Clark, «e se viejecito simpático» que, em televisão e depois em livro, recorda Sena, veio explicar ao mundo o desenvolvimento da civilização, sem que nessa explicação faltassem nem os esquimós: «pero los ibéricos y los ibberoamericanos nunca aparecieron, como si jamás hubieran contribuido ni aun con un librito, ya que no con sus armadas, para el progreso de la civilización»; é, finalmente, «otro nombre respetable», o da também inglesa Frances A. Yates que trata, em livro, o tema do império no século XVI, dedicando cerca de duzentas páginas aos impérios francês e inglês e despachando Carlos V en 20páginas. E como lhe dói a Jorge de Sena que Camões – que «escribió para la Península el poema épico imperial (incluyendo en él sus más serias dudas sobre tal idea)» não seja, nem sequer a pé-de-página, mencionado!

De dor, efectivamente, de dor e de tristeza se faz esta conferência de Jorge de Sena que, a princípio, eu quis ver como testamento. De dor, as ironias e os ataques, De dor, esta necessidade de sair ao campo para desfazer tortos e injustiças. De dor, a máscara quixotesca. A máscara que veste para o campo de batalha e o olhar com que, amorosamente, olha a terra que lhe é pátria ainda que não o lugar da cidadania («yo soy un escritor portugués y un ciudadano brasileño»).

A conferência de Jorge de Sena tem, também, já se vê, uma forte vertente política, com o qual se entrelaçam os aspectos culturais e a que ele, obviamente, não só não foge mas sobre a qual está interessado em pronunciar-se, sempre vestido dessa máscara quixotesca com que, frontalmente, se apresenta. Para exemplificar os tais «preconceitos malévolos» com que, segundo ele, muitas vezes têm sido olhados, de fora, Espanha e Portugal, recorda a «lenda negra» da colonização e modo como esta tem sido usada para «desacreditarnos» lembrando causticamente, apesar de «pedir excusas» aos seus ouvintes como «la parte norte de la Américas» (lembre-se que Sena está a falar em Toronto para uma assembleia constituida em grande parte por norte-americanos ou professores de universidades norte-americanas) deveriam ouvir o que sobre horrores infligidos aos índios contam «historiadores honestos», assim, literalmente, arremessando aos norte-americanos as pedras que estes, junto a outros europeus, igualmente de mãos e passados pouco limpos em matéria de colonização, ao longo dos séculos têm vindo a atirar a espanhóis portugueses. A sua estratégia de contra-ataque desenvolve-se numa lógica tal que chega a fundamentar neste ataque concertado das restantes nações contra os povo da «velha Hispania Romana» (outra expressão que aqui utiliza) e na forma com aquelas puseram esta «de quarentena», o facto do progressivo fechamento que, por sua vez, Espanha e Portugal foram realizando sobre si próprios até essa «espécie de orgullo defensivo», «un complejo de inferioridad», protagonizado, entre outros, pelos patriotas liberais do século XIX, «orgulho» que, em vez de nos levar a analisar as origens dos nossos males, políticos e culturais, e a enfrentá- los, «llegaría a su conclusión lógica en la famosa y ridícula frase del dictador portugués Salazar, cu ando, frente a la opinión mundial acerca de su obstinación en no conceder a tiempo la independencia a las colonias africanas, declaró que Portugal resistiria ‘orgullosamente solo’». E os que pungentemente recordamos a frase do ditador, ficamos a pensar em que medida Sena terá razão na genealogia aqui traçada e quantas vezes, contra princípios a gritos afirmados, nos teremos, pela calada, submergido neste patético orgulho da solidão…

Muitas outras solidões percorrem a conferência de Jorge de Sena. Ou, pelo menos, explicitamente, o clamar de alguém que não quer estar só e, ao mesmo tempo, en nome da história, proclama o direito a, com erros e com acertos, não ser discriminado nem ignorado no meio de tantos outros. E que reclama a atenção não só para uns mas também para outros. E aí entra Dom Quixote.

É certíssima e complexa a visão que Sena tem das figuras cervantinas e não menos interessante a que tem do próprio Cervantes na relação com o seu herói. Dom Quixote é esse que qualquer um que, «de verdad», queira ser «un membro de nuestra comunidad», tem de ser, pelo menos uma vez na vida, «saliendo a librar batallas perdidas para deshacer los entuertos deste mundo». Mas a certeza e a justeza – assim como a justiça – do seu entendimento do livro de Cervantes é, sobretudo, notável em relação a Sancho: «este pobre campesino» que, «desbordando con sabiduría de siglos, es aún más peligroso que su amo». Já sabiamos, do seu poema «Do Maneirismo ao Barroco», que Jorge de Sena fundia o nome do amo com o apelido do escudeiro: «Don Quixote Pança». Aqui, de novo reconhecendo que Sancho e Dom Quixote só existem junta e reciprocamente – o que, aliás, se diz no Quijote de 1615, por boca do próprio Dom Quixote mas a crítica e os leitores têm tendência a não ter em conta – chama a atenção para o facto de que Sancho «más de una vez, sin estar loco, muestra una morbosa (o saludable) atracción por las ideas de su amo». Pelo que, diz ele, de novo atacando os representantes dessa «ignorancia» o «miopia» visada no seu discurso: «no piensen ustedes que pueden buscar refugio en la ide a de hacer de Sancho Panza».

(E eu não posso deixar de entender que este «ustedes» é referência explícita a muitos de esses «eruditos» «míopes» e «arrogantes» a quem Sena dirige a sua diatribe e na perseguição dos quais diz ser preciso vestir-se de Dom Quixote e sair a livrar batalhas. Não estão estes «ustedes» ali na sala? Não é, pois, também a eles que vão direitas as farpas»?)

Interessante, por fim, no âmbito da crítica cervantista, é o facto de Sena interpretar a despedida de Cervantes (no prólogo ao Persiles, escrito poucos dias antes da sua morte) como uma mudança de Cervantes que – depois de, na tentativa de uma explicação pragmática do mundo, ter feito que Dom Quixote, ao morrer, voltasse a ser Alonso Quijano – vinha agora, no limiar da morte, «transfigurar-se» em Dom Quixote para morrer.

Sinais do modo dialéctico que, na segunda metade do século XVI e nas duas primeiras décadas do século XVII, segundo recorda o orador, orienta parte importante das manifestações da arte peninsular? Contradições do modo de ser «hispânico»? Afinal, as figuras de Dom Quixote e Sancho Panza serviam-lhe a Sena para, segundo creio, numa herança que algo terá de Unamuno e da «geraçã» de 98, tal como a utilização feita por Garrett nas Viagens na Minha Terra tinha da herança romântica, falar da «alma» destes filhos da «velha Hispania mater»: «quien no entiende tales contradicciones con que somos los más acabados ejemplos de surrealismo en la naturaleza humana» – conclui ele – «no entiende un ápice de nuestras culturas».

Velha Hispania Mater, Hispania Romana, ibéricos, hispanos são nomes que Sena usa, de forma acumulativa, para referir-se ao conjunto dos povos da Península sem parecer sentir-se pressionado por constrangimentos nacionalistas ou rigores de fidelidade às origens, a que temos sido levados os que viemos ou vivemos noutros tempos. Mas que origens?

Também por isso o que sim me importa é esta laboriosa e comovedora reflexão sobre a identidade portuguesa, na qual, pouco antes de morrer, Jorge de Sena, a um tempo Quixote e Sancho, luta pela boa imagem de uma Península, convertida em «velha Hispania Mater». Mater e amante, Dulineia dos seus encantos, ignorada ou maltratada de «míopes» e «ignorantes». Onde encontramos um apelo: «Debemos insistir y lúchar por nuestro mutuo entendimiento, nosotros, las gentes que hablamos las lenguas desarrolladas en la vieja Hispania Mater». Gentes que ele sabe diversas, e fruto de diversas fontes que, na sua poesia, cantou. Desde os «airinhos» da Galiza e o Ano Santo em Santiago até à mesquita de Córdoba e às memórias da moura Granada de Federico; desde a castellana Plaza Mayor de Salamanca e o Toledo de Garcilaso e de Carlos V até às Ampurias, no extremo catalão, onde «Aqui de Ibéria os gregos se fizeram / primeiramente terra das Espanhas». Gentes que simbolicamente homenageou na figura dessa «gazela ibérica» exaltada em poema – povo «violado por invasões» que, no entanto o não impediram de permanecer. Mesmo se…

«Suspensa nas três patas se repousa».

 

Janeiro de 1999

 

NOTAS:

[1] Actas del sexto Congreso Internacional de Hispanistas. Celebrado en Toronto del 22 al 26 de Agosto de 1977. Publicadas bajo la dirección de Alan M. Gordon y Evelyn Rugg por la Asociación Internacional de Hispanistas, Department of Spanish and Portuguese, University of Toronto, Toronto, Canada, 1980.

 

[*] Docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde implantou e desenvolveu os estudos hispânicos e latino-americanos, de que é a coordenadora científica, e onde preside ao NEIIA – Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos, além de integrar grupos de pesquisa internacionais, voltados para temas da cultura em língua espanhola. 

In: Santos, Gilda, org. Jorge de Sena em rotas entrecruzadas. Lisboa, Cosmos, 1999 p. 235-240 

Hispanismos – arquipélago de glórias e vaidades no mar-oceano da ignorância universal

Ao ser lido em Toronto, agosto de 1977, este texto “provocou algum escândalo, sobretudo entre os hispanistas não espanhóis, alguns dos quais saíram mesmo da sala. A reacção dos espanhóis, foi, contudo imensamente positiva e apoiante mesmo em certos casos.” Escrito originalmente em castelhano (assim figura nas Actas do Congresso, editadas em 1980), aqui o transcrevemos em português, supondo ser Mécia de Sena a tradutora.

 

 

Quando recebi da Comissão Directiva e dos organizadores deste Congresso, o convite para falar numa das sessões plenárias desta reunião internacional dos mais importantes Hispanistas, senti-me ao mesmo tempo comovido e eufórico, assustado e desconfiado. O caso é que não sou um dos patriarcas internacionais na política do hispanismo e outros campos afins a triunfos académicos; e também não sou um daqueles escritores a quem os hispanistas – no sentido mais restrito e usual da palavra – se supõe que leiam ainda que seja geralmente parte do seu Credo de Niceia não olhar sequer para uma página escrita em português. E a minha obra crítica, ainda que subentenda um estudo mais ou menos sério de escritores em espanhol, raras vezes foi lida em público ou impressa nesta língua castelhana que tão querida me é; e deste modo muito naturalmente escapou à atenção de gente tão ensimesmada como os espanhóis e os hispano-americanos, para não falar dos hispanistas dos outros países que, como todos os conversos entusiastas, têm de ser mais papistas do que o papa. Por tudo isto, ao aceitar tal honra me pus a meditar: dado que nestes tempos as honras se costumam outorgar a pessoas sem muito mérito, os independentes solitários como eu não podem recusar uma honra, a não ser que recusar seja ainda maior honra. E este não era por certo o caso. Que milagre então se tinha produzido? Tinham-me descoberto como o escritor português que recentemente recebeu o mesmo prémio internacional de Etna-Taormina que receberam também Guillén e Alberti, sem mencionar Anna Akhmatova ou Ungaretti? Não, porque o convite me chegara antes de o prémio me ser concedido. Tinham descoberto, após a revolução portuguesa, que Portugal existe realmente, ao pé da Espanha, tal como ainda se não descobriu que o Brasil existe junto da América Espanhola, e que em superfície e população é metade de toda a América do Sul? Talvez fosse. E tem havido uma transformação recente nas filas do hispanismo, lusitanismo, brasilianismo, depois da revolução portuguesa e da transição espanhola para a democracia, com a sua inacreditável ausência de derramamento de sangue (quando o sangue e o vertê-lo em borbotões faz parte dos mitos hispânicos), e com a sua não menor percentagem de votantes (quando nós, os povos de fala espanhola ou portuguesa se supõe que não merecemos a democracia que diga-se de passagem não é muito melhor noutras partes, e sobretudo em países ilustres onde pelo menos metade dos votantes se não incomodam a fazer ouvir a sua voz no concerto e desconcerto político da sua pátria); esta transformação foi a descoberta do nosso tradicional espírito de liberdade, e o rechaço do passado imediato, ante cujos governos tantos se inclinaram de tão bom grado e por tanto tempo.

Não me esqueço, é claro, que muitos, em muitos países, intervieram para ajudar os peninsulares e os hispano-americanos que se negavam a aceitar as ditaduras que constituem uma parte tão grande do chamado Mundo Livre, e foi isto nos últimos quarenta anos, ainda antes que o sintagma fosse usado para fins de Guerra Fria. E também me não esqueço que alguns de vós e muitos outros que não sabem uma palavra da língua hispânica nem das suas literaturas, trabalharam com afinco para promover gente que, mesmo quando os consideramos grandes escritores, sejam-no ou não, traem o princípio fundamental de qualquer humanismo desde os começos da nossa civilização; resistir, em nome da liberdade humana, ante qualquer intento dos ditadores, de ganhar prestígio explorando as sensibilidades humanas de homens velhos e cegos.

Espero que todos vós me perdoem a crueza com que expresso os meus sentimentos. Mas quando me convidaram a falar aqui, por certo se sabia que sempre falo muito claramente sobre o que considero essencial para a nossa dignidade de escritores e/ou investigadores.

Voltando ao meu discorrer quanto a aceitar que falaria aqui: talvez o milagre estivesse em que a A. I. H. desejava que todos os povos da velha Hispania Romana se reunissem e falassem as nossas próprias línguas para alegria de todos. Era por certo o caso; mas logo me lembrei, no entanto, que há uns anos, em um dos nossos congressos premeditadamente tinha eu lido uma comunicação em português, e houve protestos dos meus ouvintes amáveis e atentos que me pediram a explicação em espanhol do que tinha dito, pedido que satisfiz de bom grado. Sem dúvida que é já tempo de os hispanistas começarem a aprender as outras línguas nacionais que correspondem ao seu próprio campo de estudo, ou pelo menos que lutem contra o bloqueio psicológico de inveterado orgulho de outros tempos, que os ensurdece sempre que essas línguas se falam diante deles. Além do mais, o português, o catalão, ou o galego, não são tão difíceis para gente que costuma conhecer já o francês ou o italiano, e até o romeno. E, com o devido respeito para o País Basco, não estou pedindo aos hispanistas, confinados às suas línguas latinas, que estudem o basco. Permitam-me apontar alguns exemplos para o que estou dizendo. Todos leram e estudaram e explicaram as obras espanholas de Gil Vicente aos estudantes, e muitos hispanistas escreveram coisas excelentes sobre ele: mas geralmente não se diz nem se preocupam por assinalar que a maior parte das suas obras-primas foram escritas em português, e que deveriam ser também lidas se se quer realmente entendê-lo. Outros exemplos da própria Espanha: em todo o mundo se estuda Rosalía de Castro, e a maioria de vós estará de acordo que com ela e Bécquer a poesia espanhola sai da mediocridade romântica e entra nos refinamentos da poesia moderna. Contudo, os mais belos poemas de Rosalía, os mais íntimos e encantadores são os que se não dão para os estudantes lerem uma vez que foram escritos em galego; quando muito oferece-se uma tradução castelhana. Muito recentemente, em Madrid, me comovi até às lágrimas com uma magnífica execução de La Atlántida de Falia, obra que é em si uma lição de hispanismo autêntico por um compositor que, sendo de Cadiz, foi o mais prístino tipo de castelhano, com uma figura que EI Greco teria incluído na galeria de apóstolos, ou que poderia estar presente ao enterro do conde de Orgaz, ou – se vamos a uma criação artística mais literária – servir de modelo para o Maître de Santiago, de Montherlant. Sim, ouvia eu em Madrid essa gloriosa música (cuja absoluta autenticidade é tão duvidosa como a do Requiem de Mozart, uma vez que Falia teve no seu devotado Süssemayer em Ernest Hallfter), ouvia eu os nobres versos de grande épica de Verdaguer, no catalão original. O teatro estava cheio, profundamente comovido, e houve no fim os mais entusiastas aplausos. E contudo, quantos fora da Catalunha leram Verdaguer ou qualquer outro escritor dos muitos que a Catalunha produziu durante séculos? Se requer apenas um pequeno esforço que se não pode exigir do público em geral das outras línguas irmãs, os hispanistas com um mínimo conhecimentos de latim e de alguma outra língua românica poderiam ser perfeitamente capazes de o fazer, se apenas o quisessem. Afinal, supõe-se que qualquer um tenha essa mínima preparação, não é verdade? Pensando em todas estas coisas, cheguei à conclusão que, para já, e enquanto os mais diligentes de entre vós se disponham a comprar as gramáticas dessas línguas esquecidas, a minha melhor decisão seria falar em espanhol. E é o que estou fazendo.

Permitam-me recordar-lhes que, ao fazê-lo, ao mesmo tempo que mergulho nas delícias da língua e da cultura espanhola, nem por isso renuncio ao meu orgulho português. Dão-lhe força razões históricas muito fortes e antigas. Desde meados do séc. XV, começando com aquele príncipe português, tão fascinante e romanesco, D. Pedro, condestável de Portugal, que mal chegou a reinar em Barcelona onde, todavia, deixou tantos sinais da sua personalidade como governante e protector das artes, e até metade do séc. XVII, muitos escritores portugueses eram bilingues: durante os sessenta anos (entre 1580 e 1640) do Reino Unido conseguido por Felipe II, muitos deles foram parte integral da literatura e da cultura de Espanha, para não falar dos políticos e cortesãos que, antes disso, sendo portugueses, governavam a Espanha por detrás do rei, como é o caso de Rui Gomes da Silva, duque da Pastrana e príncipe de Eboli, ou de Cristóvão de Moura, marquês de Castelo Rodrigo, para não falar das Isabeis Freires de Andrade que governaram os corações dos Garcilasos. Há no entanto algo que desde meados do séc. XV até ao fim do séc. XVI vai de par com o bilinguismo: o uso simultâneo da língua nacional e da língua dos vizinhos não significava de maneira alguma uma falta de consciência nem um enfraquecimento da identidade portuguesa. Pelo contrário: coincidia exactamente, na história e na literatura de Portugal, com o mais agudo sentido de uma missão imperial portuguesa, e com um ingente orgulho pelos descobrimentos e conquistas iniciadas majestosamente com a conquista de Ceuta, em 1415. Por este tempo os reis portugueses tinham recomeçado pouco a pouco a tradicional política dos seus predecessores: reunir Flandres, Borgonha, os Habsburgos e os reinos da Península Ibérica numa ambiciosa maquinação para transformar a Europa numa propriedade familiar de que a Inglaterra e a França ficariam excluídas, se não acediam a ser governadas também por essa vasta família. E recordem, por favor: o retrato de Felipe II está devidamente dependurado nas Houses of Parliament, em Londres, alinhado entre os outros reis de Inglaterra, e a sua filha Isabel Clara Eugénia, aquela a quem mais queria, foi eleita rainha de França em Paris. Mais de uma vez a família esteve quase a conseguir os seus fins. E os portugueses têm que o reconhecer: quando esse mesmo Felipe foi para Portugal para dali reinar durante uns anos e logo voltar a Espanha, deixando estabelecido uma espécie de governo autónomo, não tinha entre os príncipes da época ninguém que fosse tão português como ele, e dos quatro costados (convergiam nele pelo menos oito ramos que vinham directamente daquele conquistador de Ceuta, João I: a política dos reis portugueses ao tentar conquistar para si mesmos as coroas peninsulares e outras tinha criado este epígono de puro sangue, em Espanha). Porque, na realidade, os reis portugueses, os seus cortesãos e os seus conselheiros, se era verdade que cuidavam de manter a sua distância com Leão e depois com Castela, se não opunham, contudo, à «unidad», sempre que as coroas coroassem as suas próprias testas. E pensemos por um momento o que se teria passado com o mundo se Felipe II não tivesse cedido às pressões da facção espanhola e tivesse sucumbido às da chamada facção portuguesa tanto em Espanha como em Portugal, e tivesse ficado em Lisboa, fazendo-a capital do Império Hispano-Português. Talvez a maior parte de todo o mundo falasse hoje espanhol e o Império Britânico nunca tivesse chegado a existir. Mais ainda: a «lenda negra» que persegue sem tréguas a Espanha e Portugal nunca teria chegado a desenvolver-se e a propagar a maior parte das suas mentiras. Ou, pelo menos, nunca teria conseguido a última hipocrisia de alguns países que acusam os ibéricos de ter feito que os outros, então e depois e depois fizeram em medida igualou maior. Que me desculpem, mas, na parte norte das Américas não falemos mais, como era costume, dos horrores que os portugueses e os espanhóis fizeram aos índios, uma vez que ainda há por aqui alguns sobreviventes desses povos e há historiadores honestos que contam o que se passou e o como se passou.

Durante séculos, para nos desacreditarem, se nos atirou à cara com a «lenda negra» e no que se refere a Portugal neste mesmo instante ela pesa sobre as terríveis tragédias de Angola e Moçambique. Se me permitem dizê-lo, desde a independência das colónias espanholas e portuguesas da América, cujas culturas estimo e admiro (devo dizer que me tornei cidadão brasileiro quando vivia no Brasil), as classes governantes desses novos países aliaram-se com os interesses estrangeiros na manutenção dessa lenda, para dissimular que eles, aparentando libertar o seu próprio povo, o entregaram a esses interesses a fim de preservar as estruturas coloniais.

É lamentável ouvir ainda hoje gente culta e até universitários supostamente liberais e bastante de esquerda aderirem ingenuamente (para dizer o menos) a essas histórias. Lembremos o que ocorreu uma vez no México: o povo levantou-se em armas, um dia, em busca da liberdade e independência, as classes dirigentes locais chamaram as tropas espanholas para sufocar em sangue a rebelião e mais tarde fizeram elas mesmas a revolução, e deram independência ao povo, mas guardaram a liberdade para si mesmas. No Brasil, há trinta e sete anos o governador de um dos Estados da federação, e uma raposa velha em política, às vésperas da revolução que levou Getúlio Vargas ao poder (todos sabemos agora que Getúlio Vargas era o que podemos chamar, em muitos aspectos, um déspota esclarecido que fez o Brasil entrar nos tempos modernos), chamou ao palácio os poderosos locais, fechou cuidadosamente a porta do seu escritório e propôs-lhes muito simplesmente: Meus senhores, a revolução é um facto, vai vir infalivelmente. Façamos a revolução antes que o povo a faça. Estes dois factos – um do mundo de fala espanhola, quando tantas nações novas apareciam neste continente (se isto é um continente e não dois ou três, como alguns prefeririam, com um grande oceano em lugar do «Rio Grande River» e o canal de Panamá como fosse um Mar Mediterrâneo) e o outro do mundo de fala portuguesa no mesmo continente – ilustram a realidade de outra versão da lenda negra, muito menos lendária. Não vou insistir na lenda. Mas tive de mencioná-la como uma das causas principais do que acontece com as culturas que a partir de Espanha e de Portugal se difundiram por todo o mundo, não apenas em novos países como também em milhões de grupos de imigrantes, ou em colónias que mudaram de domínio, ou também descendentes dos judeus expulsos da Península Ibérica num infeliz momento de cegueira nacional cujo preço estamos ainda a pagar, uma vez que se converteu numa parte da lenda negra. Com efeito, os outros países puseram Portugal e Espanha de quarentena como se fossem um perigo de epidemia. Claro está que muitas obras de autores ibéricos saíram da península para serem saqueadas, imitadas, adaptadas e transformadas, embora nem sempre em obras-primas de outros países, mantendo um agradável sabor espanhol. Entretanto, Espanha e Portugal cerraram as suas portas para evitar as epidemias que assolavam toda a Europa (e por toda a parte ardiam fogueiras semelhantes às ibéricas). Mais tarde, sob a influência dos seus esclarecidos, dos seus «estrangeirados» e dos patriotas liberais cheios de boas intenções embora igualmente feridos pelo que o resto do mundo dizia sobre os seus países, começaram a sentir uma espécie de orgulho defensivo, um complexo de inferioridade que em lugar de os levar a revelar ou indicar as raízes dos nossos males para dar combate ao inimigo no seu próprio campo, chegaria à conclusão lógica na famosa e ridícula frase do ditador português Salazar, quando, confrontado com a opinião mundial sobre a sua obstinação em não conceder a tempo a independência às colónias africanas, declarou que Portugal resistiria «orgulhosamente só». Claro que ele sabia que isto era em parte um enfeite retórico, uma vez que, se o estivesse, jamais teria conseguido manter-se no poder durante tanto tempo. Sejamos imparciais e honestos em reconhecer que, pelo menos em parte, a sua solidão era real, uma vez que o que estava em jogo não era a dominação portuguesa que de qualquer maneira devia ser eliminada a qualquer preço (tal como o domínio ibérico foi eliminado na América Latina com o apoio inglês dando uma ajuda generosa em troca de uma libra de carne) uma vez que o que estava em jogo era o futuro de África, ou da sua metade meridional, cujo domínio era essencial ou considerado tal pelas grandes potências mundiais. Seja quais forem as nossas simpatias políticas, isto não deixa de ser a verdade. Muitos daqueles liberais dos séc. XVIII e XIX, e começos de XX são na realidade figuras comovedoramente trágicas: ainda que tenham chamado a atenção para muitos males e mais de uma vez tivessem tentado suprimi-los, na verdade não deixavam de resignar-se ante as marcas que as outras culturas se compraziam em fazer nas nossas caras. Se as obras continuavam a sair da península, a Cortina de Ferro continuava, no entanto, a cercar a península e as nações irmãs das Américas. Uma consequência que não vamos aqui analisar e que continua a ser uma obsessão ibérica e latino-americana, é a chamada meditação sobre o ser espanhol, ou brasileiro, ou mexicano ou qualquer outro, quando o problema concreto não é a meditação sobre o ser, mas o nascer para ser. No entretanto, enquanto contemplamos o umbigo e os labirintos da saudade, aqueles que sabem que dentro da Cortina há uma mina de ouro e não a registaram publicamente, não andam por toda a parte anunciando que a têm. E isto foi e é o nosso caso. Em segundo lugar, todos estes países são Latinos, e, como todo o mundo sabe, Latinos, Mediterrâneos, meridionais, se supõe que são povos inferiores, pior ainda que mesclados com índios e negros – excepção, é claro, para gregos e, romanos clássicos, sobretudo se foram estudados por algum famoso sábio alemão. A Itália pode ser uma excepção, uma vez que o Renascimento lá aconteceu e assim se considera. Ortega y Gasset, que não era mau pensador, pensou uma vez, e escreveu-o, que o Renascimento não existira nunca em lugar algum, Mas isto é, é claro, como se diz, um exagero espanhol, embora a maioria dos especialistas contemporâneos, se não dão razão a Ortega, já não sabem muito bem onde colocar o Renascimento. De qualquer modo, a Itália não está mal, tem uma parte bastante nórdica. E a França também não está mal. Se esquecermos a parte meridional, que não temos necessidade de recordar, a não ser que sejamos medievalistas dos que ainda lêem os pensamentos, a França não é um país mediterrâneo. E, apesar de ter lançado um tal desatino como a chamada Revolução Francesa – ocorrência de modo algum dignamente nórdica – a França é a França, como Paris é Paris, A França, ou pelo menos a parte norte, é na verdade um país germânico disfarçado como fica testemunhado por Carlos Magno e família, todos eles cem por cento frankish. E sabe- se que mais de uma vez a Alemanha e a Áustria sucumbiram ao encanto espanhol. E diz-se que os Habsburgos austríacos conservaram até à sua queda, em 1918, o antigo protocolo espanhol, coisa que os primos, Bourbons de Espanha, não faziam com tanta rigidez. Mas, como os factos comprovam, estes pecados pagam-se tarde ou cedo com a deposição.

Pode parecer abrupto tudo o que digo a tão distinta reunião de hispanistas de todo o mundo, muitos deles necessariamente cidadãos dos países que directa ou indirectamente mortifiquei com algumas ironias. Mas penso que todos me compreenderam. Se sois, no sentido amplo ou estrito, fervorosos hispanistas – e é meu dever de colega supor que todos somos – todos vós sabeis, tanto ou melhor que nós, os iberos e ibero-americanos, quão verdade é o que eu disse.

Além disso, a Cortina de que falei também existe para quem se dedique a estudar-nos e essa parte da história vos toca. Todos, ensinando e publicando, sabem muito bem que, com excepção de alguns de nós, hispanistas que saltaram a Cortina de Ferro para nossa maior glória e prestígio, ou dos que associações internacionais colocam em posições importantes, muitas vezes para dissimular que, na verdade, o hispanismo lhes não interessa, o facto é que, fora do nosso mundo, não temos audiência quase nenhuma. Consideremos os exemplos complementares de um dos patriarcas da bibliografia crítica internacional, o eminente René Wellek, ou sejam os seus ensaios sobre The Main Trends of Twentieth Century Criticism (incluído na sua colectânea de Concepts, do mesmo) e A Map of Contemporary Criticism in Europe (que pertence à sua colectânea posterior, Discriminatians): os dois trabalhos juntos dão-nos, de passagem, um par de nomes hispânicos. Tenhamos esperança que no último tomo da sua História da Crítica Moderna, e não apenas em tradução espanhola, Wellek seja mais generoso com estes pobres ocidentais que somos.

Além disso, por todo o lado onde as nossas línguas são estrangeiras, corre a voz de que se uma pessoa é medíocre vai estudar espanhol e que, se não passa em espanhol, se vai para o português. Todos sabemos que os factos não correspondem a estes rumores que talvez deveriam aplicar-se um pouco mais às outras áreas de estudo porque, ao acusarem-nos não reconhecem a sua mesma ignorância e estreiteza de pensamento. Ainda há pouco, ao informar uma universidade sobre um candidato que estavam a considerar, me pediram que explicasse quem eram esses criaturos chamados Dámaso Alonso, Anderson Imbert, Raimundo Lida que o recomendavam, e que autoridade tinham para o fazer. Limitei-me na minha indignação a remeter os perguntadores às enciclopédias e dicionários onde esses nomes poderiam ser encontrados com a honra e dignidade que lhes era devida. Também não há muito tempo, numa outra ocasião, estava eu como membro de um comité para a revisão de um programa de Estudos Renascentistas. O grupo de sábios ali reunidos gozavam na sua maioria de verdadeiro prestígio e representavam várias áreas relacionadas de uma ou de outra maneira com tais estudos. Se discutia quais deveriam ser os requisitos básicos exigidos aos estudantes do programa. Assinalei os pontos fundamentais: primeiro, um curso que estudasse a aparição da ideia de Renascimento e as alterações que esta ideia sofreu; segundo, outro curso sobre o impacto dos descobrimentos, a colonização do Novo Mundo e a evolução das ciências e da filosofia, assim como das condições sociais, durante os séc. XIV e XV – cursos que considero essenciais para compreender qualquer Renascimento no caso de que tenha existido, e além disso num ambiente onde quase ninguém conhece a história da Europa. Encontrei-me confrontado com uma oposição inflexível: não, absolutamente não; o único requisito tinha de ser o estudo de Florença no séc. XV. Não tenho nada contra Florença, uma das cidades que mais amo no mundo; e menos ainda tenho contra os seus renascentistas, uma vez que considero como os meus mais queridos amigos pessoais Lourenço de Medieis, II Poliziano, Marsilio Ficino, Pico della Mirandola et alia, para não mencionar os artistas. Foi lamentável ver precisamente na América pessoas ignorantes do que não é na Europa mas na América descoberta e colonizada onde vivem e deveriam viver intelectualmente; e, o que ainda é pior, ver que tão distintos investigadores não tinham ainda superado a concepção, há muito caduca, de Burckhardt. Quanto aos descobrimentos e conquistas, era evidente que a oposição se dirigia contra a venenosa tradição ibérica que em mim viam. Mesmo estando provado que é falso, o Vinland Man continua a evitar a Norte-América à vergonha de ter sido descoberta por um italiano ao serviço de Espanha. Repare-se que um recente historiador muito respeitado e informado se preocupou em ressalvar que Colombo não descobriu a América do Norte, mas só a América Central, o que, é claro, é muito diferente. E este historiador, nos seus escritos, não é anti-espanhol ou anti-português de profissão, como muitos outros são para bem ganharem a vida.

Tudo isto passa por duas razões: uma larga ignorância em muitos casos voluntária e premeditada, sobre tudo o que seja hispânico (com excepção de modas passageiras como os êxitos de circulação limitada dos novos romancistas hispano-americanos, embora alguns avançados na idade, que dificilmente chegam ao público em geral) e a outra causa é que a maioria dos hispanistas, talvez por orgulho hispânico, ou por uma espécie de humildade provinciana, fazem por passar desapercebidos no mundo de verdade que os rodeia. E esta última causa vai um pouco mais fundo: muitos dos hispanistas, ensimesmados no seu próprio campo, ignoram os escândalos e mentiras que circulam nesse mundo que nos é alheio. Alguns exemplos de pecado de omissão, cometidos por eruditos e especialistas aos quais deveríamos zurzir pela sua negligente ou voluntária ignorância. Note-se: a ignorância ou a falta de curiosidade intelectual são sempre voluntárias, e o maior pecado da vida de um investigador – é quase como pecar contra o Espírito Santo, pecado que nos leva sem remissão ao inferno.

Comecemos com o mais público e publicitado dos escândalos. Todos sabemos que existe na Grã-Bretanha um monumento nacional chamado Kenneth Clark, que deve dizer-se é realmente um ilustre crítico de arte. Este velhinho simpático apareceu na televisão de todo o mundo, e depois em forma de livro, explicando aos leigos o desenvolvimento universal da civilização. Se bem me recordo não faltava nada, nem sequer os esquimós. No entanto, os ibéricos e os ibero-americanos não apareciam, como se jamais tivessem contribuído nem sequer com um livrito, já que não com as suas armadas, para o progresso da civilização. E, que diabo, EI Greco nem sequer era espanhol, como o seu apelido o indica. É verdade que, já passadas as nossas glórias mundanais, fomos – os hispanos – bastante ineptos em começar e desenvolver a Revolução Industrial. Mas ninguém se pergunta se as potências desse tempo nos permitiram que o fizéssemos, uma vez que nos queriam como consumidores e nada mais. Pelo menos poderíamos responder que, ao permanecer, digamos, feudais, não estávamos a sujar as nossas mãos com o sangue e as vidas de milhares de trabalhadores, ultraje para todas as almas sensíveis na Inglaterra, França e Alemanha. E assim perdemos a nossa oportunidade de ter um Marx e um Dickens. Não se pode ter tudo. E além disso Marx e Dickens converteram-se em propriedade pública tal como se passa com todos os clássicos (se não são tão idiotas que se deixem nascer de fala espanhola ou portuguesa – como disse um grande escritor, Spinosa salvou-se a tempo, quando os pais foram expulsos de Portugal antes de o conceberem).

Passemos a outro nome respeitável: seguramente que descobriram os excelentes e importantes livros de uma grande erudita inglesa: refiro-me a Frances A. Yates. Alguns dos seus livros são indispensáveis para o estudo de certos aspectos-chave da cultura ocidental. Viram por acaso o seu Astrae: The Imperial Theme in the Sixteenth Century, que saiu há alguns anos? É incrível: depois de umas vinte páginas dedicadas a «Carlos V e a ideia do Império», as outras densas duzentas páginas são dedicadas ao estudo, minucioso, da Tudor Imperia l Reform e da French Monarchy no século XVI.

Parece piada, mas é tremendamente sério: nem uma menção, apesar do subtítulo mesmo quando o título já seria suspeitoso, nem uma menção a Espanha ou Portugal os países que nessa época tinham repartido o mundo entre si e que estavam aca loradamente ocupados em discutir como ter ou não ter um império. Nem sequer, e nem mesmo em pé de página, se menciona Camões, quando ele escreveu para a Península o poema épico imperial (incluindo nele as suas mais sérias dúvidas sobre tal ideia).

De um famoso crítico de arte e uma justamente respeitada historiadora da cultura passemos a outro exemplo apanhado ao acaso, um historiador que é ao mesmo tempo filólogo no bom e velho sentido da palavra. O Dr. Bernard S. Bachrach publicou há uns quatro anos A History of the Alans in the West, from Their First Appearance in the Sources of Classical Antiquity through the Early Middle Ages: livro muito erudito, com copiosa informação, embora não muito grande, pois que os dados existentes não são muitos. É apesar disso um livro muito enganador para o estudioso de história: ficará sem saber totalmente que os Alanos andaram pela velha Hispânia. E quando no livro se chega aos nomes de lugares de possível origem alana em Espanha e Portugal só temos três casos tirados de uma vulgar enciclopédia espanhola. Esses lugares cheios de sorte que nos representam nas aventuras dos Alanos ao longo de tão longo título são um cerca de Badajoz, outro cerca de Sevilha e o outro por Huesca. Mas podia ser pior se o historiador mencionado, que não se preocupou em procurar bibliografia ibérica sobre o tema não tivesse deitado uma vista de olhos a esse dicionário na secção de obras de referência na biblioteca da universidade. Bem podia ter feito umas perguntas, ao voltar da esquina, no Departamento de Espanhol e Português. Mas, claro está que tal ideia jamais lhe passaria pela cabeça, e deverá ter sido assim que as coisas se passaram, pois não posso acreditar que algum hispanista vizinho não soubesse nada de Alanos na velha Hispânia.

Não é necessário continuar com esta patética lista que seria interminável, acrescentando montanhas de livros sobre qualquer período ou aspecto da actividade humana, para confirmar que todos ignoram completamente, seja qual for o ponto de vista, as nossas línguas e culturas, como se todas elas juntas não fossem uma das maiores partes do mundo actual, mesmo quando queiram ignorar o papel histórico no grande teatro do mundo. Aqueles que se interessam pela literatura comparada como eu, não podem deixar de mencionar os ditos desdenhosos de outros que vivem metidos, como todos sabemos, no que seja capela menor mas mais internacional do que a nostra, e muito rendoso para alguns que em geral nos excluem e nos confinam ao nártex dos catecúmenos. Na América, a Literatura Comparada é uma coisa em que se comparam obras inglesas, francesas e alemãs, com grande profusão, se possível, de bibliografia russa e checa, que ninguém pode ler. Agora como costuma dizer um crítico brasileiro meu amigo, convém acrescentar uns pós do que se chama bulgarités todorovianas. Também se pode pôr um pouco de holandês ou finlandês na pintura. Mas Espanhol e Português, para quê e por quê? E isto, há que dizê-lo, é uma vez mais culpa nossa. Porque os hispanistas se fecham nas suas conchas, ou, se a sua língua materna é uma das nossas, declaram que não podem ensinar em outra. E se o não fazeis, quem o fará? Por certo que, alguns que são especialistas em ensinar cursos em tradução, usando livros cujas origens culturais e literárias lhes são totalmente alheias, embora tal lhes não importe nada. E mesmo assim, quantos dos nossos autores recebem a distinção de ser presa de tais corvos universitários? Sabemos bem que apenas um punhado de nomes mereceram alguma vez tão suspeitosa honraria. E o mais curioso é que, no fim de contas, devemos ficar muito agradecidos. Se o pobre Cervantes e o rico Borges passaram a porta estreita já é melhor que nada.

Pois bem, enfrentemos o facto que, afinal, nenhum de nós ignora: como povo e como investigadores de um complexo peculiar de culturas ou de um dos seus aspectos linguísticos e literários, rodeia-nos um oceano de malevolência ou de cândida ignorância. Muito simplesmente estamos excluídos. Esta é uma situação contra a qual devemos lutar, a menos que – como demasiado frequentemente acontece – considereis, da maneira o mais a-hispânica, que ser hispanista significa apenas ensinar espanhol e escrever sobre obras escritas em espanhol (ou em sentido mais amplo, em português, catalão, etc.) e depois regressar a casa e regar o jardim.

Ninguém é realmente da nossa comunidade se pelo menos uma vez na vida não é D. Quixote, saindo a dar batalhas perdidas para desfazer os erros deste mundo, entre os mais irritantes dos quais se conta a arrogância de eruditos míopes que fingem ignorar-nos ou realmente nos ignoram, porque séculos de preconceitos malévolos os impediram de nos ver ou de entender que a história do mundo, para bem ou para mal, não se pode escrever sem a nossa presença nela, gostem ou não ou mesmo a nós nos goste ou não. E não pensem que podem buscar refúgio na ideia de ser Sancho Pança. Este pobre campónio, cheio de sabedoria de séculos, é ainda mais perigoso do que o amo. Porque, à maneira dialéctica tão peculiar da segunda metade do séc. XVI e das duas primeiras décadas do séc. XVII (e estou a evitar mencionar o Maneirismo, para não cair numa discussão ociosa), Sancho existe juntamente com D. Quixote, e mais de uma vez, sem estar louco mostra uma doentia (ou saudável) atracção pelas ideias e pela conduta do seu amo. Exactamente como Cervantes, com o pé no estribo, já escritas todas as suas obras, podia enviar a sua despedida do mundo a um patrono, despedida que era um romance tão estranho como é Persiles, perfeita contradição de como, na aparência, ele tinha lutado por uma compreensão realista do mundo. E de facto tinha lutado: mas Cervantes se transfigurava em D. Quixote para morrer, recusando o Alonso Quijano que D. Quixote, ao morrer, volta a ser. Nós, os hispânicos, sempre temos querido possuir este mundo e o outro; e esta é uma das mais simples explicações para a descoberta do Novo Mundo, em busca do Paraíso terrestre. Quem não entende estas contradições com as quais somos o mais acabado exemplo de surrealismo na natureza humana, não entende nadinha das nossas culturas.

Por esta altura tereis já notado o plural que quase constantemente tenho usado; e assim tinha que ser: sou um escritor português e um cidadão brasileiro e sempre muito contra a corrente dos meus tempos e lugares me interessei por Espanha e pela Hispano-América. Sei, como muitos de vós, que não se pode entender a Hispano-América ignorando a presença do Brasil, e que, do mesmo modo, é absolutamente impossível compreender a história de Espanha e de Portugal com a ignorância mútua com que têm sido escritas. É igualmente óbvio que não se pode entender o Brasil sem Portugal, nem a Hispano-América sem a Espanha que a modelou; e há que acrescentar que o contrário é igualmente verdade. Um dos exemplos mais dramáticos dos espelhismos a que se renderam muitos espíritos superiores é a ideia de que por baixo da pele da Latino-América, se encontra o bon sauvage de recordação esclarecida, e não nu como o viram Colombo e Cabral, mas vestido com o ouro magnífico dos Incas e dos Astecas, que o tinham como escravo. Não. O que se encontra é algum «conquistador» voraz ou algum frade com cheiro de santidade, que, à maneira ibérica, se tinha esquecido dos votos de castidade. Por outro lado, em Espanha e Portugal, até muito recentemente, era costume rirem-se daqueles povos do ultramar, mesmo quando ocorria e ocorre hoje que alguns escritores brasileiros são mais lidos em Portugal do que os portugueses, assim como muitos escritores hispano-americanos se lêem em Espanha mais do que os próprios espanhóis.

Temos que aprender a respeitarmo-nos uns aos outros, e a permanecer unidos. E os hispanistas estrangeiros têm que compreender que, se seguem o chamamento da sua vocação, devem manter-se afastados das nossas brigas de família. Um americano ou um italiano quando intentam menosprezar a Espanha ou Portugal, só porque os hispano-americanos ou os brasileiros os menosprezam (com grande fúria amorosa), são um tanto irrisórios. E são-no também os estrangeiros que subscrevem a reticência das antigas metrópoles para reconhecer as grandezas que se podem encontrar, desde há muito, no ultramar. E que dizer dos hispanistas que, imitando o complexo de inferioridade da Castela imperialista (a Castela «comunera» não o tem) […] causado pela recusa de Portugal em fazer parte de Espanha? (de facto, nos 850 anos de existência de Portugal, estivemos juntos apenas 60 anos, ou 7% e não mais). Esqueçamos as palavras cruéis de D. Marcelino Menéndez Pelayo ao dizer que os portugueses tinham escolhido a sua mediocridade em lugar de participar das glórias de Espanha. Porque os portugueses sempre participaram dessas glórias de uma maneira ou de outra, como os espanhóis participaram das nossas. Permitam-me que diga que, depois da separação de 1640, dos dois lados da fronteira é difícil discernir que glórias históricas, aparte as que já pertenciam ao ultramar, os espanhóis e os portugueses podiam gozar. Na Guerra Peninsular lutámos juntos, se foi uma glória expulsar Napoleão e os seus exércitos para proveito de países ou gentes tão esclarecidas como Fernando VII, a Inglaterra de Wellington, o rei da Prússia, e os imperadores da Áustria e Rússia, todos eles tão amantes da liberdade dos povos.

Assim como na América do Norte se diz south of the Rio Grande River; para indicar os confins do mundo, também na Europa se disse mais de uma vez que a Europa termina nos Pirenéus. Afinal de contas que importa se estamos ao sul do Rio Grande ou em África? Entrar nesse jogo é aceitar uma vez mais o racismo inventado pelas maluquices românticas sobre raças e povos, ideologias que culminaram tão graciosamente na demência de Hitler.

Devemos insistir e lutar pelo nosso mútuo entendimento, nós, as gentes que falamos as línguas desenvolvidas na velha Hispânia Mater. De facto somos nós uma gente especial, que atraiu com as suas obras e as suas excentricidades a vós,  eruditos de outras nacionalidades, a quem, em muitos casos, e através dos anos, devemos mais que a nós mesmos na compreensão e estima das nossas culturas.

Possivelmente vamos todos mudar muito no torvelinho industrial contemporâneo; mas como D. Quixote – e como devem saber – nós somos ao mesmo tempo aristocratas e plebeus de cepa camponesa. Ou como os velhos Alarcones disseram uma vez, há séculos, quando um juiz lhes pediu para apresentarem os seus títulos de nobreza: não tinham nada que apresentar; se os reis enobreciam os seus protegidos para os promover, outros como os Alarcones eram nobres pela graça de Deus. Curiosamente esta era a mesma doutrina defendida pelo Dr. Huarte de San Juan no seu Examen de Ingenias, ele que foi um desses ibéricos que publicavam um livro com dedicatória ao Rei Nosso Senhor num ano de  575, para ver o livro proibido num Index de 1581: com Felipe II e a Inquisição ainda mais omnipotente do que ele, ninguém sabia nunca a que agarrar-se. Não era por sinal Felipe o grande defensor da mais que romana […], ao mesmo tempo que o coleccionador de arte que salvou para nós obras de Hyeronimus Bosch que os bispos flamengos estavam tão ocupados em queimar?

Durante muito tempo todos nós na nossa grande família de tantas raças temos feito o impossível para nos ignorarmos uns aos outros, quando não nos tentámos suprimir, se pensávamos ter força para o fazer.

Portugal e Espanha, ao que parece, percorrem novos e difíceis caminhos para a democracia e a justiça social de que estiveram privados por tanto tempo, caminhos tornados intransitáveis para uma aterradora maioria dos nossos irmãos das Américas. Parece-me apropriado, ao chegar à peroração final deste comprido e nem sempre agradável discurso, dedicar uma profunda e comovida homenagem às suas desventuras. Uma vez que eles, nossos irmãos, são também nobres pela graça de Deus, mesmo que não haja graça nem Deus. Estas contradições nunca foram problemas para os nossos místicos e os nossos ateus, porque descobrimos em nós, mesmo nas nossas vidas, há muito, o que tanto trabalho deu a Hegel para descobrir, ou, para melhor dizer, o que à filosofia europeia levou tantos séculos. To be ar not to be is not the questionon. Não é sequer questão: é muito simplesmente uma compreensão da vida humana,  incompreensível para outros. O príncipe Hamlet – que não era um «príncipe constante» – teve um vislumbre dessa verdade que foi sempre nossa, e esta verdade é a nossa graça salvadora, no meio da nossa própria malícia, ou retorci mentos, ou erros, enquanto à nossa volta se agita o imenso oceano do resto da humanidade ou de académicos demasiado humanos, que nos ignoram como o universo nos ignora a todos.

Somos e não somos ao mesmo tempo, e tendes que aceitar, a menos que, para cúmulo dos nossos males, desencantados, nos decidam mandar para o diabo mais às nossas línguas. Não o façam. Continuem perseverando, e ajudando-nos a estar neste mundo em que «la vida es sueño», mesmo que nunca estejamos a dormir, mesmo quando longas ditaduras façam o possível para comprar o nosso silêncio, o nosso adormecimento, ou a nossa morte. Porque há que saber que, como D. Quixote que está sempre a morrer, cada vez que lemos o final do livro, nós nunca morremos. De maneira alguma. Que o mundo goste ou não, todos nós e os nossos amigos estamos nele para ficar, e com as nossas contas no bolso para exigir o pagamento justo e com juros, quando chegar o Juízo Final. Se permanecermos juntos somos uma força imponente. Sei, porque conheço demasiado bem a natureza humana, sobretudo a nossa, que isto de uma ou de outra maneira nunca ocorrerá, para maior alegria e proveito de quem nos divide para melhor reinar. Mas podemos, pelo menos tentar; e sonhar com o Quinto Império que nos fugiu da mão; mas que não será de ninguém senão nosso. Não para nada nos dispersámos por todo o mundo como nenhum outro povo o fez por sua vontade; e por vezes temos sido tão furiosos revolucionários, quanto fiéis às nossas imortais tradições. Como disse um grande poeta português demos novos mundos ao mundo; e, no dizer de um sábio seu compatriota e contemporâneo, «lo que és más: nuevas estrellas»: as nossas línguas e países deram ao mundo alguns  os seus maiores escritores. E o mundo segue cego e surdo a tudo isto. Somos de certo modo, como o roseau pensant de Pascal: o universo, ao destruí-lo, não sabe o que faz. A nossa vitória é que sabemos, e um dia a vitória final chegará.

 

Santa Barbara, Agosto de 1977

 

In: Sobre teoria e crítica literáriaPorto, Caixotim, 2008 p. 181-200. 

77. Poderes del diablo

Resenha de El Físico Prodigioso, assinada por Maria Fernanda de Abreu, quando a novela de Jorge de Sena ganhou tradução em terras de Espanha (Ed. Xerais de Galicia, Vigo, 1988, trad. de Sara Cide Cabido e Antón Reixa)

 

 

Jorge de Sena, fallecido en 1978, con cincuenta y nueve años, en Santa Bárbara (California), donde era profesor, es, sin lugar a dudas, una de las personas más importantes de la cultura portuguesa de este siglo. Poeta, narrador de ficción, ensayista literario y aun autor de teatro, Jorge de Sena se dedicó a todo con una fecunda desmesura.

De la narrativa de ficción de Jorge de Sena, en donde convergen, a la vez, su imaginación creativa, su conocimiento de lo literario y de la literatura y su voluntad visceral de recuperación de la tradición literaria, de  cuestionamiento y de experimentación, bien podría considerar se como paradigmático este su O Físico Prodigioso. «Novela», género narrativo que se distingue tanto del cuento como de lo que hoy, en España, se designa por novela (podría pensarse en, por ejemplo, las Novelas Ejemplares cervantinas), O Físico Prodigioso fue publicado por primera vez incluido en un volumen de cuentos de su autor, Novas Andanças do Demónio, en 1966; fue, más tarde, 1974, incluida en una Antologia do Conto Fantástico Português, organizada por Melo e Castro. Finalmente, el texto se publicó aisladamente en 1977.

La narrativa de O Físico Prodigioso, en esta edición autónoma, va enmarcada por dos textos importantes de su autor: una «pequeña nota introductoria» y unas «notas» finales. En las últimas proporcionando al lector el texto que le sirvió de «simple punto de partida»: el Orto do Esposo, libro moralístico-religioso de la literatura portuguesa de la primera mitad del siglo XV.

Este «físico prodigioso» («físico» en el sentido medieval y no sólo de «médico» o «mago») lo creó Jorge de Sena «como símbolo de la libertad y del amor», de la libertad que «todo lo arrasa », del amor que «todo lo manda». Situar la acción en la Edad Media se convierte en uno de los soportes fundamentales al crear el distanciamiento necesario.

Lo fantástico es, una vez más, el recurso fundamental para el ejercicio de la imaginación. Y ese ejercicio tiene, sobre todo, dos objetivos temáticos conjugados: exaltar el poder indestructible del amor y el sentido de la libertad contra el orden establecido. Su principal agente es un gorro mágico. Sus poderes le permitirán, además de una extraordinaria capacidad erótica, hacer resucitar a muertos o anular el poder represivo de la Santa Inquisición, empeñada precisamente en aplastar el poder de lo erótico. Cuando esta lo encierra, lo tortura o intenta ahorcarlo sin conseguirlo, porque el diablo o el amor lo protegen, los inquisidores y la ciudad son destruidos y cosas extrañas, sobrenaturales, tienen lugar.

Su impresionante fuerza textual está en haber desarrollado, paralelamente a la sensualidad como tema, la sensualidad del lenguaje narrativo. Además de una atenta construcción visual que articula el diseño de imágenes con movimentaciones espaciales, está el recurso constante a la mirada: la mirada de los personajes que se miran insistente y ávidamente los cuerpos, los unos a los otros (la mirada es elemento fundamental de la relación erótica); los que se miran a sí mismos en el espejo (para mirar se en su imagen); la mirada del narrador que registra cuidadosamente cada uno de los gestos y miradas; la mirada del lector que sólo reconstruyendo todo ello podrá rehacer la belleza imaginística que la novela crea. Una de las virtudes, del gorro mágico es justo la facultad de hacer el físico invisible. Y hasta la incorporación de formas líricas medievales – canciones, romances – se integra en esta voluntad de lo sensual.

En el final, bellísimo, convergen todos estos elementos. El cuerpo «moribundo» del físico torturado y casi ahorcado se arrastra por las calles hasta la tumba de la amada donde brotan enormes rosas mágicas de cuya sangre emanará la fuerza de reconstituir el poder del amor, de la libertad, de la vida sobre la represión y la muerte. Final que vuelve al inicio, literal y simbólicamente cíclico. Con una fuerza mítica sobrecogedora. Una «epopeia en prosa», como le llamó Jorge de Sena, su autor.

 

[*] Docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde implantou e desenvolveu os estudos hispânicos e latino-americanos, de que é a coordenadora científica, e onde preside ao NEIIA – Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos, além de integrar grupos de pesquisa internacionais, voltados para temas da cultura em língua espanhola. 

In: Culturas 170 (Suplemento semanal de Diário 16). Madrid, jul. 1988, p. VIII