A mais polêmica correspondência de Jorge de Sena

Avaliado pelo habitualmente comedido Eugénio Lisboa como “um livro, a todos os títulos, exemplar“, o volume que reúne a correspondência trocada entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões mereceu ainda mais elogios do articulista na página 12 do JL de 21 de agosto último (ver): “É um modelo do que um livro de epistolografia deve ser: abundantes e bem investigadas notas de pé de página, textos dos autores, que enquadram a correspondência e melhor iluminam certas passagens dela, testemunhos, um elenco das resenhas do crítico presencista à obra de Sena, índice de outras edições das correspondências, indispensáveis cartas de Mécia de Sena a Simões, umas muito interessantes e esclarecedoras Memórias dos Anos 40 em forma epistolar, de Mécia, um útil Índice Cronológico, um longo, percetivo, bem fundamentado e inteligente “Estudo Introdutório”, da autoria de FDS, que é, de resto, também o responsável por toda a formatação e execução organizativa, e, last but not least, um precioso Índice Onomástico. /// É um autêntico festim a leitura de um livro assim concebido, tão rico de informação, de interpretação fina e de minucioso cuidado organizativo.”

A importância desse carteio agora trazido a público já fora antes apontada por George Monteiro na resenha que aqui editamos (ver).

Contudo, no jornal Expresso de 10/8/2013, Arnaldo Saraiva desfere um contundente ataque contra esta edição ou mais ​propriamente envia ​“sinais de fogo” contra Mécia de Sena ​a propósito de uma referência sobre si próprio que encontrou em carta de Mécia a Gaspar Simões ​(ver), o que ensejou a réplica do organizador do volume, no mesmo jornal, duas semanas depois (ver).

​ Note-se que fora o mesmo semanário Expresso que dera acolhida, anos antes, ao polémico testemunho de Arnaldo Saraiva sobre ​Jorge de Sena, aliás mencionado em ambos os artigos.

 ​Até ao momento, nenhuma outra correspondência editada de Jorge de Sena desencadeou tantas páginas de acaloradas controvérsias.

 

 

 

 

De Pedro da Silveira

 

Parece não ter tido maior difusão este texto de Pedro da Silveira escrito um mês após o falecimento de Jorge de Sena, agora recuperado, e gentilmente para nós enviado, pelo infatigável descobridor de preciosidades Vasco Medeiros Rosa. Como se sabe, o açoriano Pedro da Silveira (1922- 2003) integrou anos a fio o conselho de redação da revista Seara Nova e produziu larga obra como poeta, crítico literário, tradutor e investigador, colaborando em diversos periódicos. Pode-se dizer, sem medo de errar, que os Açores constituem o cerne de quanto escreveu — o que fica bem demonstrado neste necrológio, no qual são sobejamente enfatizados os elos de Jorge de Sena com o arquipélago.  

 

A costa californiana que faz lembrar a dos Açores

 

 

UM AÇORIANO DE LISBOA: JORGE DE SENA*

Nenhum lugar mais certo para lá morrer e se dar à terra um açoriano da dispersão: Santa Bárbara, na Califórnia. É junto à costa e ao longe perfilham-se não me lembra quantas ilhas. Dumas delas ainda sei, ou julgo saber, que se chama San Clemente; doutra, que é Santa Catalina. Sena cantou num poema[1] a visão duma delas, que tinha defronte de sua casa. Se não me mente a memória, ao cabo de tantos anos, dizia meu pai, que as visitou uma vez, que eram habitadas por índios e chicanos, gente pobre, vivendo da pesca e de cultivar melancias, das melhores do mundo — acrescentava —, só comparáveis às do Corvo.

Pode isto parecer impróprio falando dum poeta, de mais acabado de morrer. Melancia não é fruto com prestígio lírico e a memória dum poeta, na hora da sua morte, não se celebrará assim. Pelo menos, não é de regra. Mas veio à pena e fica — de resto, me parecendo que fica bem, tratando-se, como se trata, dum poeta que sabiamente sabia que tudo (todas as palavras, todas as coisas) pode caber em poesia; ao menos quando a poesia é poderosa bastante para se transmitir até à evocação duma melancia, tão digna afinal, em sua humildade de fruto para pobres, como uma estátua grega ou uma sinfonia do genial Beethoven. Jorge de Sena sabia destas coisas: como homem de cultura aberta e multímoda que era e como poeta de raiz que, primeiro e totalmente, era também.

Açoriano de Lisboa, digo no título. Sim, senhores: açoriano de Lisboa, criado num meio familiar açoriano, no qual corriam sangues provenientes das três ilhas que são o Faial (onde seu pai nasceu), São Miguel e a Terceira. Gente ligada ao mar e, até agora e desde o século XVIII, na pessoa do seu antepassado o poeta Manuel Inácio de Sousa, ao comércio marítimo; gente, como ainda Jorge de Sena foi, de se largar pelo mundo. E eis que se põe o pretexto doutra notação digamos antebiográfica: que os do sangue de Jorge de Sena dos Açores (e da Madeira também) desde há muito se derramam por esse mundo, como ele se derramou. Lá temos, em Cabo Verde, filho da Ilha Brava, o marinheiro e erudito historiador Cristiano José de Sena Barcelos, seu parente e doutro Sena (que Sena se não chama todavia), o poeta (madeirense) Herberto Hélder. E quantos mais, filhos e netos de abalados para o Brasil, a Califórnia e outros longes?

Lamenta-se que Jorge de Sena morresse fora de onde nasceu, e parece querer-se que Lisboa seja, já que não o teve (ou não o quis ter?) vivo, sua morada de morto. Quer dizer (e ele o diria se pudesse agora): pretende-se, contritamente, remediar com os ossos o que ao vivo se não quis proporcionar. Mas é sempre assim, ou, pelo menos, é-o nestas arábico-africanas partes, onde a ingratidão exercida contra os vivos incómodos se usa transmudar em reconhecimento (?) quando já passaram a mortos (e já não incomodam).

Não, senhores! Deixem ficar Jorge de Sena na Santa Bárbara que bem amou, lá no cemitério do Calvário, donde se vê o mar e ilhas defronte. Lá ele ficará bem e, tenho a certeza, gostará de receber de vez em quando as visitas amigas dos luso-californianos que soube entender e estimar e lhe pagavam na mesma moeda — gente simples e boa, que poderá não lhe ler a obra mas soube entender-lhe a ternura disfarçada de aspereza, aquele seu feitio insulano, de homem que sempre diz logo, sem rodeios acomodados, o que os da terra firme tantas vezes só dizem depois ou por dentro. Sim! Lá é que Jorge de Sena está no lugar certo. Exilado em vida, seja-o morto; mas exilado, afinal, entre gente que amou: lusos, como ele, que a pátria repeliu; filhos das ilhas onde ele enraizava.

Até onde sou capaz de descobrir o insulano, nado ou de raiz, pela sua expressão, a obra de Jorge de Sena, o seu estar no mundo (da obra e dele homem), são da espécie que não deixa margem a engano: ilhéu indisfarçável. Lá esta a sua poesia, à primeira abordagem um tanto difícil (como difíceis de abordar são as costas das ilhas atlânticas), mas que depois se nos revela tão rica, tão contrastada; e a sua obra de contista, onde a cada passo a insaciável curiosidade total do mundo pulsa; e a do dramaturgo, que até diz daquele «indesejado» D. António, cá só o «Prior do Crato», lá Rei — el-rei D. António I, com sua corte em Angra e a quem a tradição na minha ilha ainda chama «o rei Sant’António»; e a do ensaísta erudito, tão sagaz, curioso de tudo, sedento de todos os humanos saberes.

Não me sinto capaz, agora, de discorrer criticamente sobre o legado espiritual de Jorge de Sena. Até porque a sua morte, embora esperada para mais cedo do que quando já um homem não pode dar à vida senão continuar vivo, me deixa como embaciado: uma morte que, além do mais, vem quase em cima da doutro grande filho das terras no meio do mar — Vitorino Nemésio[2]. E daí, não me sentindo capaz do discorrer crítico, que é coisa para a frio, aqui vai só como o vejo, lhe tomei o gosto à obra: insulada e jogada no mundo, mensagem que me apetece comparar à de Antero, como à do erudito Teófilo (outro de multímodas curiosidades), como à de Carlos de Mesquita; como às desses brasileiros também oriundos das Ilhas, como Machado de Assis, ou Euclides da Cunha, ou Guimarães Rosa, ou Carlos Drummond de Andrade, ou Cabral de Mello Neto; como, mesmo, à desse como criatura detestável mas como escritor assombroso Jorge Luis Borges. Porque em todos reside, na obra que fizeram, superando diferenças de teor, algo que é a genuína marca de quem nasceu numa ilha e traz nas veias sangue provindo duma ilha.

Jorge de Sena morreu no exílio, dizem os seus necrologistas, os quais agora, muito solenemente, falam da reparação a dar ao grande exilado que, aqui e lá fora, tão altamente honrou a cultura lusíada. E eu pergunto: Não era ele já um exilado antes de, de facto, o ter sido? A sua obra não é toda, desde o primeiro livro, um continuado sinal de exílio? E não é afinal o exílio a condição do intelectual que nasça neste ruim sítio onde Eça (outro exilado de raiz) pescou Acácio e Gouvarinho e o Salcede, esses, sim, exemplares de quem, mesmo sendo-o, nunca será um exilado?

Senhores! Leiam-no, aprendam na sua obra a entender, se capazes ainda são disso, que o mundo não se reduz a Lisboa. Mas deixem-lhe os ossos em paz, lá no cemitério do Calvário, em Santa Bárbara da Califórnia, com o mar e não sei quantas ilhas diante dos olhos que para sempre já não poderão avistá-las. E, quanto a exílios — sempre é melhor estar exilado lá fora, vivo ou morto, do que exilado (emparedado) aqui. Não o ignoro: Jorge de Sena amava isto; mas também sabia — doloridamente sabia! — que isto só é bom para majores, argelinos e filhos de reverendos. Amava, explico, um mito; e quando se ama um mito, é sempre melhor viver e morrer longe dele. Por que não deixe de ser mito.
 
 

NOTAS: 
[*] In O Diabo, Lisboa, 4 de Julho de 1978, pp. 17, 22

[1Provavelmente o autor refere-se a “Duas paisagens da Califórnia”, do livro Exorcismos (Poesia III), com data de Janeiro de 1971:

 

AS ILHAS DE SANTA BARBARA

Tão lúcidas recorte no horizonte

a névoa ergue-as do mar em que flutuam

violáceas quietas pela tarde imóvel

até nas brandas ondas que esta praia pousam

recurva apenas de uma luz sem cor

e do silêncio da distância em ilhas

 

BIG SUR

Do alto da escarpa escarpas se prolongam

em que de praias se entrelaça o mar

 sobrevoado de aves. Os rochedos

somem-se e brotam de sem espuma em volta

que só ressaca é depois deles areia.

 

[2Nascido a 19 de dezembro de 1901, o açoriano Vitorino Nemésio faleceu em 20 de fevereiro de 1978.

 

De George Monteiro (2)

Mais uma vez, George Monteiro nos oferece um poema inédito, de sua autoria. Este, datado de 1988, evoca dados da biografia de Jorge de Sena facilmente reconhecíveis e as praias de Santa Barbara, propícias a meditações. A versão em Português é de Luciana Salles. 

 

Praia na costa escarpada de Santa Barbara

 
 
 
 
 

SEA LEGS

Let the record speak.
Cadet Sena would not

 

climb the mast, swim
the sea, refrain from

 

talking, wash out his
his whites. Bad boy.

 

Indifferent ephebe.
Good scores, good

 

family, but yet not
right for Salazar’s

 

navy. Ouster is the
right move, while

 

other trainees move
from the Sagres

 

to a career in starches
and creases. Ditched,

 

but peering heights,
still leery of notions

 

of cleanliness next
to godliness, still

 

talking up a kid’s
storm, still naively

 

thinking literature
matters, he launches

 

a life and plies a trade.
Accumulating nations,

 

he seeds poems along
his track. In his sixth

 

decade Sena sheds his
whites, stifles chatter,

 

and hunkers down in
Santa Barbara to beach,

 

once and for all, a suite
of land/ sea thoughts.

 

Providence, RI
Oct. 2, 1988

 

ANDAR MARINHEIRO

Deixem falar os registros.
O cadete Sena não iria

 

escalar o mastro, nadar
no mar, abster-se das

 

palavras, lavar seus
uniformes. Menino mau.

 

Efebo indiferente.
Boas notas, boa

 

família, mas não
o bastante para a salazarista

 

marinha. Expulsar
é o correto, enquanto

 

outros formandos
partem da Sagres

 

para uma carreira em rigidez
e rugas. Rejeitado,

 

mas aspirando às alturas,
ainda desconfiado da noção

 

de limpeza perto da
divindade, ainda

 

falando intempestivamente,
ainda ingenuamente

 

acreditando que a literatura
importa, ele se lança

 

a uma vida e a um ofício.
Acumulando nações,

 

semeia poemas ao longo
do caminho. Em sua sexta

 

década, Sena recolhe as
presas, cala os discursos,

 

e se ancora em Santa
Barbara para naufragar,

 

de uma vez por todas, numa suíte
de meditações em terra/mar.

 

Trad. de Luciana Salles

À venda a casa de Jorge de Sena em Lisboa

Está à venda a casa da Rua Dinis Dias, 18, no Restelo. Ocupada pela família Sena desde janeiro de 1954, a mudança para esse novo espaço, depois de anos vividos na casa (alugada) dos seus pais, representou para Jorge de Sena a libertação de vários “fantasmas” familiares que o perturbavam. Aí nasceram três filhos do casal Mécia e Jorge e aí muito escreveu o Sr. Engenheiro da Junta Autónoma das Estradas, até sua partida para o Brasil em setembro de 1959. Já professor universitário nos USA, sempre que voltava a Lisboa, recebia no  “bairro de casas econômicas” visitas sem conta de amigos e jornalistas. Em 1968, ante a ameaça, por um despacho ministerial, de perder a propriedade, que pagava ao longo de 15 anos, Jorge de Sena pede o auxílio de Eduardo Lourenço para dirimir a questão junto ao Ministério, obtendo sucesso. Depois de sua morte, a casa abrigou, além da família em férias, inúmeros estudantes e pesquisadores, acolhidos graciosamente durante todo o período que necessitavam permanecer em Lisboa.Os custos da manutenção e a dificuldade em conseguir vigilância contínua levaram a família Sena a optar pela alienação da propriedade. A exemplo de muitas existentes em Portugal, que dizem as autoridades, ou a iniciativa privada, sobre a hipótese de uma “Casa-Museu Jorge de Sena”?  

 

 

 

foto
A casa da Rua Dinis Dias, 18 – Restelo

 

....
….
Casa Restelo
Mécia à janela de sua casa

 

 

Mécia de Sena, a “viúva prodigiosa”

Com tão preciso título, a última edição do JL – Jornal de Letras Artes e Ideias (21/8 a 3/9/2013), dedica a capa e alentadas páginas a Mécia, fazendo-lhe justiça como a grande e infatigável organizadora das obras de Jorge de Sena. Com a devida autorização, aqui reproduzimos esse histórico dossier.

Mecia de Sena a Viuva Prodigiosa_2013_Page_1
(Clique na Imagem para ser Redirecionado)

De Jorge Fernandes da Silveira

Professor Titular de Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor de diversos ensaios sobre a poesia seniana e orientador de trabalhos acadêmicos sobre o autor, Jorge Fernandes da Silveira aqui nos oferece o seu testemunho, recordando momentos de quando foi Professor Visitante na Universidade de Santa Barbara, California — espaço, como sabemos, por onde muito circulou o próprio Jorge de Sena. 

 

67. Proximidades e distâncias no diálogo epistolar / entre Jorge de Sena e Delfim Santos

[LER E RELER JS – 67: Maria Graciete Besse]

A professora e pesquisadora Maria Graciete Besse, da Universidade de Paris-Sorbonne, aqui nos apresenta uma leitura atenta do carteio trocado entre Jorge de Sena e Delfim Santos.

 

 Capa e índice da revista Unicórnio, Lisboa, 1951
Capa e índice da revista Unicórnio, Lisboa, 1951

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“En général, on correspond pour se rapprocher de l’autre, pour communiquer avec lui, du moins le croit-on. Mais peut-être est-ce surtout de son éloignement dont on fait l’expérience. »

Vincent Kaufmann

 

O que significa penetrar na correspondência privada de escritores ou de figuras culturais marcantes em determinada época ? Para além da descoberta de uma trajectória intelectual que se move entre presença e ausência, ao ritmo da temporalidade epistolar, o leitor procura quase sempre neste tipo de obras as marcas de uma emoção e de uma sociabilidade que se traduzem por maneiras de pensar e de viver, práticas de escrita, às vezes confidências pontuais, detalhes anedóticos ou fontes susceptíveis de esclarecer certos aspectos da personalidade dos autores. Como observa Roger Chartier, a leitura da correspondência ajuda a compreender melhor a maneira como os indivíduos constroem as suas representações sobre o mundo pois ao associar práticas sociais e subjectividade, o género epistolar revela-se como um espaço privilegiado para a observação das relações do indivíduo consigo mesmo e com os outros [1]. Enquanto acto de comunicação que oferece um testemunho escrito, a carta implica tanto uma lucidez introspectiva como uma retórica demonstrativa, inscrevendo-se num contexto pessoal e social que é inseparável das circunstâncias históricas e culturais em que foi produzida, fornecendo por conseguinte preciosas informações sobre a mundividência dos seus autores e a actividade intelectual de uma determinada sociedade.

A recente publicação da correspondência trocada durante alguns anos entre Jorge de Sena e Delfim Santos, num período que se estende entre 1943 e 1958[2], constitui um contributo importante para o melhor conhecimento da vida cultural portuguesa em plena época salazarista. O volume, cuidadosamente organizado por Filipe Delfim Santos, que assina um brilhante estudo introdutório bem como um notável aparelho de notas, permite ao leitor penetrar no universo mental destas duas figuras tutelares da intelectualidade portuguesa do século XX.

O escritor Jorge de Sena e o filósofo Delfim Santos foram contemporâneos e implicaram-se, cada um à sua maneira, na vida cultural da sua época, conhecendo ambos o exílio em períodos diferentes e por razões distintas. Jorge de Sena nasceu em Lisboa em 1919, frequentou a Escola Naval e, apesar da vocação para a poesia, formou-se em Engenharia, exercendo durante alguns anos a profissão de engenheiro civil na Junta Autónoma de Estradas. Em 1959, auto-exilou-se por razões políticas para o Brasil onde se doutorou em Letras, em 1964, com uma tese consagrada à poesia camoniana. Para escapar à ditadura militar brasileira, exilou-se uma segunda vez, em outubro de 1965, desta vez para os Estados Unidos e aí recomeçou uma carreira universitária em Santa Bárbara, na Califórnia, onde viria a falecer em 1978. A sua extensa obra inclui poesia, romance, teatro, ensaio, crítica literária, tradução, mas também uma volumosa correspondência que tem vindo a ser publicada nos últimos anos[3]. Delfim Santos nasceu em 1907 no Porto, cidade onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas. Em 1935, partiu para Viena com uma bolsa do Instituto para a Alta Cultura, com o objectivo de aprofundar o estudo dos filosófos alemães que iriam marcar a sua obra futura. Em 1937, foi para a universidade de Berlim como leitor de língua portuguesa. Doutorou-se em Coimbra, em 1940, com uma tese intitulada Conhecimento e Realidade, voltando novamente para Berlim até 1942, data em que regressou definitivamente ao seu país. Ingressou em 1943 como docente na Faculdade de Letras de Lisboa, onde desenvolverá um importante trabalho de renovação do pensamento pedagógico português e em 1950 torna-se o primeiro professor catedrático de Pedagogia em Portugal. Em 1962 criou junto da Fundação Calouste Gulbenkian um Centro de Investigação Pedagógica de que foi director desde 1963 até à sua morte ocorrida em Cascais, em 1966[4].

Apesar de terem estudado ambos no Porto, formando-se um em Engenharia e o outro em Filosofia, a amizade entre Jorge de Sena e Delfim Santos nasceu mais tarde, graças às tertúlias e aos encontros em cafés litérários de Lisboa. O que os reune é “um encontro de afinidades estéticas”, um “amor intenso à Literatura e uma tendência primordial para pensar os temas da Cultura com base no fenómeno literário”, tal como observa Mécia de Sena, na breve nota de apresentação que abre o volume da correspondência (p.9).

Filipe Delfim Santos apresenta nesta edição 12 cartas enviadas por Jorge de Sena ao filósofo e pedagogo português, entre novembro de 1943 e abril de 1958, incluindo ainda algumas páginas do diário de 1954 e dedicatórias de livros, sendo a última datada de janeiro de 1959, alguns meses antes da sua partida para o Brasil. De Delfim Santos, descobrimos 9 cartas enviadas a Jorge de Sena, entre setembro de 1946 e novembro de 1955, uma das quais inclui a resposta a um inquérito sobre Gide organizado por Sena e publicado em 1951 na revista Unicórnio, dirigida por José-Augusto França. O filósofo propõe na mesma ocasião as respostas de uma colega, assistente na Faculdade, Manuela de Sousa Marques, germanista e sua futura esposa, que Sena recusa publicar, por não se tratar de “um escritor profissional” (p.52), o que desagrada a Delfim Santos e cria um  primeiro  desajuste entre ambos.

Baseada num princípio dialógico fundado na alternância das vozes e na sucessão de hiatos temporais, a correspondência entre os dois intelectuais pressupõe quase sempre um tom informal que se apoia numa amizade alimentada  pela mútua admiração e respeito, revelando, como diria Dominique Maingueneau,  uma “cenografia”[5] de estratégias discursivas em que podemos  identificar uma estreita articulação entre o individual e o social.

Como sabemos, o género epistolar implica uma retórica que obedece a sequências fáticas de abertura e de fecho devidamente codificadas. A correspondência entre Jorge de Sena e Delfim Santos, ao longo dos 15 anos em que os seus percursos se cruzaram, cria um interessante espaço de discussão sobre o trabalho de ambos e também a crescente construção de um  relacionamento amigável, bem patente nas formas de tratamento utilizadas. Com efeito, as cartas revelam vários momentos, indicados por expressões, palavras e gestos, que podem ser considerados como estratégicos para a elaboração de representações sobre si e sobre o outro. Podemos assim observar que todas as mensagens de Jorge de Sena incluem uma localização espácio-temporal precisa, sendo enviadas de Lisboa ou do Porto, enquanto as de Delfim Santos indicam apenas a data. As formas canónicas de abertura variam consoante os autores. Nas cartas assinadas por Jorge de Sena, identificamos diversas formas de tratamento que vão da simples marca de deferência, presente na primeira carta (“Exmo Sr. Dr.”), ao registo apoiado da afectividade (indo de “Meu caro Amigo e Camarada” a “Meu caríssimo Amigo e Camarada”), passando pela simples expressão da cordialidade (“Meu caro Amigo”)[6]. Nas cartas enviadas por Delfim Santos, a sequência fática de abertura implica igualmente a polidez e o uso do possessivo mas limita-se quase sempre à fórmula “Meu caro Jorge de Sena”, ou à expressão “Meu caro Amigo” que aparece duas vezes,  revelando uma certa regularidade na forma de tratamento.

O longo convívio epistolar entre os dois grandes intelectuais portugueses ilustra um relacionamento cordial que acompanha sobretudo a troca e a oferta de livros, os projectos de escrita, ou ainda os comentários sobre alguns aspectos da vida cultural. Numa das cartas, Jorge de Sena critica “a farsa do nosso ensino” (p.63) e desabafa sobre o provincianismo portuense do chamado grupo da filosofia portuguesa (p.64), enquanto noutra missiva define  Portugal como “país de catolicismo tacanho e analfabeto” (p.71).

Os dispositivos enunciativos das cartas transmitem um ethos revelador da postura de cada um dos autores[7], isto é, o seu carácter, as suas qualidades, o seu valor moral, a sua posição crítica e até os seus melindres. Com efeito, descobrimos em dois momentos  as reacções opostas de Jorge de Sena às observações do seu correspondente. Assim, ao receber um comentário favorável ao seu estudo sobre Camões, Jorge de Sena anota que lhe respondeu (p.59). Encontramos logo de seguida uma carta de agradecimento dirigida a Delfim Santos, sublinhando que as suas palavras o consolam “da maldade com que toda a gente se tem recusado sequer a fazer crítica ao [seu] trabalho sobre Camões” (p.60). Em contrapartida, quando o filósofo  se mostra reticente quanto à compreensão do livro de poesia As Evidências, o poeta anota que a carta ficou “sem resposta” (p.69). Desta forma, para além de revelar alguma ambiguidade, a correspondência ilustra por vezes o que Vincent Kaufmann designa por “equívoco epistolar”, isto é, a ilusão de proximidade que o intercâmbio pressupõe quase sempre[8], sem nunca deixar de afirmar uma interacção fecunda bem presente no pacto estabelecido entre o enunciador e o destinatário.

Como assinala Filipe Delfim Santos, os anos de convívio de seu pai com Jorge de Sena correspondem ao período em que publicou “a totalidade dos seus tratados filosóficos e grande parte dos seus ensaios, peças de oratória, apontamentos de crítica, intervenções de crónica, notas e memorialismo e deixando também inéditos alguns trechos diarísticos” (p.15). Numa das cartas, Jorge de Sena interessa-se por um ensaio que o filosófo preparava sobre Nietzsche (que não chegou a ser publicado) e alude também às suas intervenções culturais, nomeadamente na última carta enviada em que se refere a uma conferência a que não pôde assistir, em abril de 1958,  por coincidir com uma manifestação de apoio à candidatura de Humberto Delgado, “no dia grandioso e trágico em que, pela primeira vez em dezenas de anos, este povo de que a gente descria mostrou que estava vivo” (p.71). Trata-se do único momento em que encontramos uma referência explícita à situação política do país. Também Delfim Santos comenta regularmente as produções de Jorge de Sena, como a sua Pedra Filosofal (p.39) ou a peça O Indesejado (p.61), mostrando-se sempre interessado e extremamente franco nas suas apreciações críticas.

Tal como as formas de tratamento que abrem as cartas, também as despedidas obedecem a fórmulas estereotipadas, indicando o teor das relações entre os correspondentes, que tanto pode ser próximo como distante, exibindo a disposição do remetente que se despede e podendo fornecer indícios sobre o seu estado de espírito. Na maior parte das cartas de Jorge de Sena encontramos a manifestação da estima, da consideração, do apreço, da disponibilidade ou da simpatia pelo seu interlocutor, enquanto nas cartas de Delfim Santos predominam as marcas da admiração e da gratidão. Quando pretende demonstrar algum descontentamento devido a um incidente desagradável, o filósofo limita-se apenas às desculpas e aos cumprimentos (p.53, 55). Da mesma forma, na última carta enviada, em que evoca a manifestação de apoio a Delgado, Jorge de Sena  apresenta apenas os seus “melhores cumprimentos”.

Nesta edição da correspondência entre Jorge de Sena e Delfim Santos, graficamente muito cuidada, o organizador apresenta ainda um índice cronológico, um índice onomástico e uma útil bibliografia activa e passiva relativa às publicações da correspondência dos dois autores, bem como uma nota complementar de José-Augusto França que evoca o clima intelectual dos anos 50, o papel dos cinco números da revista que dirigiu entre 51 e 56 (de Unicórnio a Pentacórnio, mudando de título para escapar à censura), sublinhando a importância dos debates organizados na Sociedade Nacional das Belas Artes que se estenderam aos encontros no Tivoli em que intelectuais como Delfim Santos, entre outros, comentavam presencialmente os filmes que lhes eram propostos.

Filipe Delfim Santos acrescenta ao volume uma série de anexos que incluem excertos do Diário de Lisboa sobre a participação do seu pai, em 1948, nos debates do J.U.B.A. (Jardim Universitário das Belas Artes) sobre arte e filosofia, mas oferece-nos também um interessante texto de Jorge de Sena consagrado a L’enfant prodigue de Gide. Entre os anexos, o leitor descobre ainda as respostas de Jorge de Sena e de Delfim Santos a um inquérito dirigido por Eduardo Lourenço sobre “como vivem os intelectuais portugueses a sua relação com a cultura passada em Portugal”, publicado na revista Bicórnio de 1952. Uma última curiosidade é a reprodução de uma folha volante, o chamado Manifesto do Peixe Frito, assinado pelos surrealistas Mário Henrique Leiria e Mário Cesariny de Vasconcelos que foi distribuído, em 1951, à porta do Tivoli.

Tributária da posição social do locutor, a correspondência cruzada entre Jorge de Sena e Delfim Santos funciona, entre proximidades e distâncias, como um jogo de espelhos que nos dá a conhecer as redes de influência, as preocupações dominantes de uma época, a tonalidade dos debates (nomeadamente sobre cinema), revelando um ethos discursivo que oscila entre o didáctico, o laudativo e o crítico, capaz de ilustrar estratégias de escrita e de nos transmitir os sistemas de valor da sociedade portuguesa, completando assim, de forma extremamente interessante, o conhecimento da personalidade e da obra dos dois autores.

 

NOTAS:

[1] CHARTIER, Roger (dir.), La correspondance: les usages de la lettre au XIXe siècle, Paris, Fayard, 1991, p.9-10.

[2] Filipe Delfim Santos (org.), Jorge de Sena – Delfim Santos. Correspondência 1943-1959, Lisboa, ed. Guerra & Paz, 2012.

[3] Para o estudo da correspondência seniana, consultar a tese de José Francisco Costa, A Correspondência de Jorge de Sena: um outro espaço da sua escrita, Lisboa, Salamandra, 2003.

[4] Para aprofundar o conhecimento sobre a figura e a obra de Delfim Santos, consultar o site:   http://www.delfimsantos.org/

[5] Para a definição deste conceito, consultar Dominique Maingueneau, Le discours littéraire. Paratopie et scène de énonciation, Paris, Armand Colin, 2004.

[6]  A maneira como começam as cartas é ilustrativa da imagem que o locutor dá de si mesmo e da relação, mais ou menos afectiva, que estabelece com o seu interlocutor. Eis como começam exactamente as  cartas assinadas por Jorge de Sena:

– Exmo Sr. Dr. (Lisboa, 2/11/43)

– Meu caro Amigo (Porto, 26/10/44; Porto, 2/11/44; Lisboa, 6/8/951)

– Meu prezado Camarada (Lisboa, 24 de Março de 1951)

– Meu caro Amigo e Camarada (Lisboa,5/4/51; Lisboa,15/5/51;  Lisboa, 25/5/951;  Lisboa, 4/3/952)

– Meu caríssimo Amigo e Camarada (Lisboa, 8/7/957)

– Meu caro Delfim Santos (Lisboa 18/5/958)

[7] Sobre o conceito de ethos, desenvolvido por Aristóteles e retomado hoje na pragmática e análise do discurso, consultar Ruth Amossy (dir.), Images de soi dans le discours. La construction de l’ethos, Lausanne-Paris, Delachaux-Niestlé, 1999.

[8] Vincent Kaufmann, L’équivoque épistolaire, Paris, Ed. de Minuit, 1990, p.8.

 

 

* A primeira versão deste estudo foi publicada na revista Latitudes. Cahiers Lusophones, Paris-Lisboa, n°43, 2012, p.87-89.

** Maria Graciete Besse é Professora e titular da Cátedra de Português na Université de Paris-Sorbonne/Paris IV; Diretora-Adjunta de UFR Etudes Ibériques et Ibéro-Américaines.

 

66. El canto del exilio en la poesía de Gonçalves Dias y Jorge de Sena

[LER E RELER JS – 66: Joana Meirim]

Neste original estudo, Joana Meirim aproxima a famosa “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias do contundente poema “A Portugal” de Jorge de Sena.

 

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En este ensayo proponemos fijarnos en las similitudes textuales entre los dos poemas elegidos, “Canção do exílio”, del poeta brasileño Gonçalves Dias, y “A Portugal”, del poeta portugués Jorge de Sena, sin olvidar las diferencias que juzgamos más obvias, resultantes de las diferentes experiencias del exilio.

De hecho, y aunque en registros muy diferentes, el de Gonçalves Dias más ameno y nostálgico de la patria, el de Sena lleno de sarcasmo belicoso, ambos poemas nos presentan de qué manera la patria, y en una situación de distancia hacia ella, es tema para la poesía. Ambos intentan comprender mejor su país, valiéndose de la condición del exilio, que en el primer caso propicia la valoración y en el segundo la depreciación. Desde fuera, es posible valorar o criticar con más rigor, idealizar la patria como el destino terrenal perfecto, o mordazmente poner en duda la idoneidad de un país lleno de defectos físicos y morales, subyaciendo en los dos casos la intención del regreso, la voluntad de identificación y reconocimiento.

Gonçalves Dias es considerado en Brasil el creador de la poesía nacional (Candido, 2006: 401), figurando al lado de José de Alencar, en la novela, como representante del indianismo literario en la poesía, y la “Canção do exílio” se considera paradigma de la nacionalidad literaria. En la poesía de Jorge de Sena hablar de Portugal es una obsesión, alimentando el exilio como actitud propia de un poeta resentido, mal amado por su patria y muy crítico con ella.

De las diferentes experiencias de exilio, la de Gonçalves Dias metafórica, estudiando en Coimbra, la de Sena, literal, viviendo fuera de su país, buscando una vida libre, resultan expectativas semejantes en cuanto a la patria. En el exilio portugués, Gonçalves Dias quiere pertenecer a la literatura brasileña, trabajando en el proyecto de independencia literaria ya empezado por los jóvenes poetas de la revista Niterói. En el exilio brasileño, Jorge de Sena quiere pertenecer a la literatura portuguesa como escritor portugués, afirmándose con terquedad, aunque inseguro y receloso de que no le van a dar ese lugar.

El poema “Canção do exílio” pertenece a la primera parte de Primeiros cantos, de 1846, bajo el título “Poesias Americanas”, con fecha de veintitrés de julio de 1843, aún en Coimbra, donde Gonçalves Dias estudiaba Derecho. Este texto poético, quizás el más conocido de la literatura brasileña, presenta la patria como un destino ideal y exprime la etimología de la nostalgia, como dolor del regreso a su país. Ackermann lo considera la más perfecta expresión de la idea de “saudade” (Ackermann, 1964: 45).

El título lanza ya la temática, y el tono melancólico marca todo el texto, corolario de la conciencia de la distancia hacia la tierra natal: “Em cismar, sozinho, à noite, /Mais prazer encontro eu lá[1]”. Su inspiración la encuentra en un epígrafe revelador del contenido del poema, extraído de la balada «Mignon», de Goethe, incluida en la novela Los años de aprendizaje de Whilhelm Meister. Del poema de Goethe, Gonçalves Dias escogió los primeros versos y el estribillo, así traducidos por el poeta Manuel Bandeira: “Conheces o país onde florescem as laranjeiras? Ardem na escura fronde os frutos de ouro… Conhece-lo? Para lá, para lá quisera eu ir” (Bandeira, 1962: 25). Los versos de Goethe expresan el deseo que subyace en todo el poema de Gonçalves Dias, el de volver a su patria, corroborado por el ruego de la última estrofa: “Não permita Deus que eu morra,/ Sem que eu volte para lá (…) Sem qu’inda aviste as palmeiras,/ Onde canta o Sabiá”.

Los dos primeros versos “Minha terra tem palmeiras/ Onde canta o Sabiá” manifiestan ya la identificación con la tierra natal y singularizan sus atributos exclusivos, las “palmeiras” y el “Sabiá”. La segunda estrofa, que cambia para plural el determinante posesivo, permite la identificación colectiva con la patria llena de vida: “Nossos bosques têm mais vida,/ Nossa vida mais amores”. Los elementos exclusivos de la patria son distintos y los comunes son comparativamente mejores que en el lugar del exilio: “Nosso céu tem mais estrelas,/ Nossas várzeas têm mais flores”. La palabra “primores” sintetiza los atributos perfectos que solamente la patria tiene, y por eso es allá donde puede disfrutarlos con placer: “Minha terra tem primores,/ Que tais não encontro eu cá”.

En realidad, todo el texto parte de la dicotomía entre los deícticos, entre el acá, la tierra portuguesa, y el allá, el Brasil, tierra natal que en todo el poema nunca llega a ser mencionada, sino subentendida por las referencias obvias a sus elementos naturales específicos, el “Sabiá” y las”palmeiras”, y el estribillo “Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sabiá” marca la diferencia a través de la repetición. El poema se construye a partir de un esquema comparativo entre un acá menospreciado y un allá sobrevalorado, de ahí que los predicados relativos a la patria sean insistentemente destacados en el poema, contraponiéndose a la insuficiencia de cualidades de la tierra de exilio.

Las diferencias en cuanto a los predicados naturales que separan la tierra natal del lugar del exilio son un motivo para registrar la diferencia mayor que el romanticismo brasileño quería establecer de forma inequívoca – la diferencia entre las dos literaturas, la portuguesa y la brasileña, cuyas fronteras hasta entonces estaban diluidas. Así se estaba escribiendo la diferencia entre la poesía del “lá” y la poesía del “cá”. En el verso “As aves, que aqui gorjeiam,/ Não gorjeiam como lá”, además del sentido literal que contrapone naturalezas diferentes, percibimos el canto del ave como un símil de la poesía que contrasta la brasileña, la de Gonçalves Dias, con la portuguesa.

A propósito de la nacionalidad de la poesía, T.S. Eliot afirmó, en un ensayo titulado “A função social da poesia”, que la poesía es el arte más tenazmente nacional y tiene un carácter más local por contrapunto a la prosa (Eliot, 1997: 59), señalando que eso no significa el aislamiento de las diferentes literaturas: “E é isto que eu entendo ser a função social da poesia no sentido mais vasto: o facto de ela afectar, (…) o falar e a sensibilidade de toda a nação” (Eliot, 1997: 65). En realidad, la poesía de Gonçalves Dias afectó a toda la generación romántica posterior y el propio poeta tenía conciencia de las huellas que estaba dejando: “Mas já nesse tempo, o povo tinha adotado o poeta, repetindo e cantando em todos os ângulos do Brasil” (Candido, 2006: 403).

El gorjeo de la poesía brasileña, el canto del allá, empezaba a ser diferente de lo que se hacía en la tierra de exilio, definiéndose una nueva literatura en Brasil, que debería ser en el plano del arte lo que fuera la independencia política y social (Candido, 2006: 329).

En el poema “A Portugal”, de 1961, escrito a principios de su exilio brasileño, publicado póstumamente en el libro 40 anos de servidão, Jorge de Sena va a denegar la patria, comprendiendo que el país donde se nace no es un bien inalienable, sino una mala suerte: “A pouca sorte de nascido nela[2]”.

En el primer periodo del primer verso Jorge de Sena retoma el poema épico de Camões. Vasco da Gama, recién llegado a Melinde, y por iniciativa del rey que lo recibe, antecede la extensa lección de la historia de Portugal con el verso que concluye la situación geográfica de su país: “Esta é a ditosa pátria minha amada” (III, 21). Sena deshace abiertamente la ironía, que podría estar implícita en el recurso al verso del autor de Os Lusíadas, para rechazar perentoriamente su pertenencia a la patria portuguesa. El “Não” con que remata el primer verso del poema antecede y refuerza la triple negación de la frase proferida por Vasco da Gama: “Nem é ditosa (…)/ Nem minha amada (…)/ Nem pátria minha”. El silogismo que se infiere a partir del verso d’Os Lusíadas es clarividente, la patria no merece ser “ditosa” porque es madrastra (del poeta), y por eso el poeta la deniega.

Afortunadamente el poeta no está preso a la “baixeza” o al “arroto de passadas glórias” y las amistades vencen la cuestión nacional que es fortuita: “mas amigos são/ por serem amigos e mais nada”. La negación de la patria es unilateral, solo el poeta la rechaza: Jorge de Sena puede ser portugués, pero no quiere que Portugal sea su patria, y esta será la causa más grande de su resentimiento como poeta que no coincide nunca con su país.

La primera referencia al país, que con excepción del título no vuelve a ser nombrado, es el primer verso de la tercera estrofa, “Torpe dejecto do romano império”, a partir del cual el poeta comienza una extensa perífrasis de naturaleza escatológica para referirse a su patria. La violencia del lenguaje gana particular relevancia en esta tercera estrofa, momento en el que Sena va a enumerar los defectos físicos y morales de un país detenido, en descomposición.

En primer lugar se fija en la falta de higiene física, fruto del fracaso de su proyecto histórico como nación: “babugem de invasões; salsugem porca/ do esgoto atlântico”. Luego viene la falta de valores morales, prefiriendo la codicia, la vileza y la ignorancia, exactamente los mismos defectos que Camões criticaba y lamentaba, perjudicando la lectura de su poesía: “O favor com que mais se acende o engenho/ Não no dá a pátria, não, que está metida/ No gosto da cobiça e na rudeza/ D’ũa austera, apagada e vil tristeza” (X,145).

Sena declara en este poema la inmundicia de su patria como una realidad que lo desespera. De hecho, el Portugal que nos presenta en la larga tercera estrofa rebaja las imágenes idealizadas por la literatura romántica tardía, de carácter patriótico, que dejó vestigios de tópicos, como el célebre de cariz geográfico divulgado por Tomás Ribeiro, “Jardim da Europa à beira-mar plantado”. Ahora bien, el locus amoenus de los poemas ultra románticos no se adecua a la patria descrita por Jorge de Sena, que ya había glosado, continuando la tradición paródica de los modernistas brasileños como Oswald de Andrade, Murilo Mendes o Carlos Drummond de Andrade, en un poema de 1947, “Paraísos Artificiais”, la memoria de los versos inaugurales del romanticismo brasileño. Al estribillo “Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sabiá” del poema que comentamos de Gonçalves Dias contrapone Sena: “Na minha terra, não há terra, há ruas; (…)/ Na minha terra, não há árvores nem flores (…)/ O cântico das aves – não há cânticos,/ mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º” (Sena, 1988: 131).

Tras la enumeración de los defectos de la patria, el poeta se fija en las características de la tierra portuguesa, que progresivamente va siendo anulada. Empieza por ser alguien, aunque tierra de esclavos, de funcionarios, de prostitutas, de héroes falsificados, de santos poco virtuosos, o de poetas cuya susceptibilidad mediocre se manifiesta a través de la excreción corporal (“terra de poetas tão sentimentais/ que o cheiro de um sovaco os põe em transe”), materializándose después en el vacío de los monumentos y de los museos. Finalmente se presenta en toda la aridez de una historia de ocho siglos de sentimientos secos y en la triple indefinición de una tierra de nadie: “ó terra de ninguém, ninguém, ninguém”.

La tierra portuguesa es una tierra de gente devota y con tendencia a creer en milagros, esperando ociosamente la llegada de D. Sebastião, de “cu pró ar ouvindo/ ranger no nevoeiro a nau do Encoberto”. Es una tierra de funcionarios condenados al “dia burocrático/ o dia-a-dia da miséria / (…) do modo funcionário de viver” (O’Neill, 2005: 52), que otro poeta, Alexandre O’Neill, contemporáneo de Sena, también describió en el célebre poema “Um adeus português”. Es una tierra triste y bellaca, acogiendo con gran afabilidad, a la espera de recibir propinas a cambio de animales parasitarios, los extranjeros: “oh pulgas lusitanas, pela Europa”. Una tierra de monumentos, cuya participación del pueblo es desdeñada (“em que o povo/ assina a merda o seu anonimato”) y en donde persisten costumbres culturales y de convivencia social desfasadas en el tiempo: “em que se vive ainda,/ com porcos pela rua, em casas celtiberas”. La palabra yuxtapuesta “terra-museu” subraya el estancamiento, la paralización de una tierra que se vive desde dentro y sin esperanza o gran estímulo de evasión. En fin, es una tierra seca, impermeable a cualidades, cargando el peso de ochocientos años de veleidades imperiales: “terra de pedras esburgadas, secas/ como esses sentimentos de oito séculos/ de roubos e patrões, barões ou condes”.

En la cuarta estrofa, la última del poema, y que enlaza sintácticamente con la anterior, el poeta acepta pertenecer a la patria de nadie, pero el rechazo es posible y deseado. No se cohíbe de repetir la violencia discursiva, y ahora la forma ofensiva interpela directamente a su patria, a través del uso de la forma verbal “és”, insistiendo una vez más en su carácter escatológico y bestial: “És cabra, és badalhoca,/ és mais que cachorra pelo cio,/ és peste e fome e guerra e dor de coração”. En el final del penúltimo verso del poema se puede entrever una atenuación del odio y del sarcasmo, dando la rabia y el resentimiento lugar al afecto, al dolor de corazón, que compromete el poeta como individuo de su patria.

Finalmente, el último verso resume la problemática relación poeta/patria: si en la primera parte (“eu te pertenço”), Sena tolera pertenecer a su país, y esta es la relación de la patria con el poeta; en la segunda parte (“mas ser’s minha não”), tenemos el otro lado de la relación, ahora del poeta con su patria, rechazándola por no reconocerse a través de ella. Consciente de que la pertenencia a la patria es insuperable, lo que no impide su denegación, la injuria, el desprecio, el inconformismo, Jorge de Sena, adverso a patriotismos o nacionalismos en su poesía, describió Portugal como el país exportador de exiliados: “O meu país sempre, desde que começou há mais de oito séculos, exportou mais homens do que outra coisa. E sempre foi para os seus filhos uma pátria ingrata, sem que esses filhos deixassem de amá-la profundamente” (Sena, 2004: 371).

Sin embargo, es a la patria ingrata y mezquina, de “peste e fome e guerra e dor de coração”, que Sena quiere pertenecer como poeta portugués. En el poema “Borras de império”, cuando dice que Portugal “é feito dos que partem/ e dos que ficam” (Sena, 1989: 173), demuestra que también él quiere formar parte de su país, si bien que lleno de pulgas lusitanas, y por eso le escribe una dedicatoria con un contenido de rechazo.

En los dos poemas comentados se afirma la relación intrínseca con la patria, se ve como la fidelidad a la patria es la cárcel de cualquier escritor, incluso cuando se está lejos. El poeta del Maranhão no esconde el deseo de volver a su patria, que adivinamos en el título y que se vuelve evidente en el epígrafe de Goethe. Asimismo, y a pesar del diferente registro, Sena le gustaría regresar a su patria, aunque diga lo contrario en el poema “Glosa de Guido Cavalcanti” delante de la irreversibilidad de su condición de exiliado: “Porque não espero de jamais voltar/ à terra em que nasci” (Sena, 1989: 51).

En el caso de Gonçalves Dias, la declaración de su nacionalidad está íntimamente relacionada con el proyecto romántico en curso, en el cual se escribía la diferencia hacia la literatura portuguesa. “Canção do exílio” demuestra el orgullo de pertenecer a una patria que desde lejos gana todas las cualidades. En el poema de Sena, la mejor manera de asumir su relación umbilical con la patria es a través de la negación, del rechazo, que posteriormente, en el poema “Em Creta, com o minotauro”, tendría su versión más radical: “Eu sou eu mesmo a minha pátria” (Sena, 1989: 74).

El comentario que hicimos de los dos poemas no deja lugar a dudas en cuanto a una cuestión que creemos la principal: en ambos poetas, la patria, en lugar de ser un problema, es requerida como condición necesaria para escribir su poesía, como punto de partida y de llegada, independiente de las circunstancias vivénciales.

 

 

BIBLIOGRAFÍA

Obras literarias:

Camões, Luís de (1999): Os Lusíadas, ed. A. J. Saraiva, Porto, Figueirinhas.

Dias, Gonçalves (1958): Poesia, ed. M. Bandeira, Rio de Janeiro, Agir Editora.

Goethe, J. W. von (1966): Poems of Goethe, ed. R. Gray, London, Cambridge University Press (pp. 118-119).

O’Neill, Alexandre (2005): Poesias Completas, Lisboa, Assírio & Alvim.

Sena, Jorge de (1979): 40 Anos de servidão, Lisboa, Círculo de Poesia, Moraes Editores.

Sena, Jorge de (1988):  Poesia I, Lisboa, Edições 70.

Sena, Jorge de (1989): Poesia III, Lisboa, Edições 70.

Sena, Jorge de (2004): A arte de Jorge de Sena – Uma Antologia, ed. J. Fazenda Lourenço, Lisboa, Relógio d’Água Editores.

 

Estudios:

Ackermann, Fritz (1964): A obra poética de Antônio Gonçalves Dias, São Paulo, Conselho Estadual de Cultura.

Bandeira, Manuel (1962): Poesia e vida de Gonçalves Dias, São Paulo, Editôra das Américas.

Candido, Antonio (2006): Formação da literatura brasileira – Momentos decisivos 1750-1880, Rio de Janeiro, Ouro sobre azul.

Eliot, T.S (1997): Ensaios de Doutrina Crítica, Lisboa, Guimarães Editores.

 


Publicado en Diálogos Ibéricos e Iberoamericanos. Actas del VI Congreso Internacional ALEPH – Asociación de Jóvenes Investigadores de la Literatura Hispánica, ALEPH & Centro de Estudos Comparatistas, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa, CD-ROM, 2010, pp. 666-673.
Revisto en Julio 2013.

[1] Gonçalves Dias (1958): Poesia, ed. M. Bandeira, Rio de Janeiro, Agir Editora, pp. 11-12. Todas las citas referentes al poema de Gonçalves Dias son extraídas de esta edición.

[2] Jorge de Sena (1979): 40 Anos de servidão, Lisboa, Círculo de Poesia, Moraes Editores, pp. 89-90. Las citas referentes al poema de Jorge de Sena pertenecen a esta edición.

De Otília Lage

Como organizadora do volume dedicado à correspondência trocada entre Mécia e Jorge de Sena relativa ao “período brasileiro” do casal, Maria Otília Pereira Lage foi entrevistada pelo programa radiofônico “À volta dos livros“, transmitido dia 7 de agosto de 2013, que aqui reproduzimos
As fotografias registram o lançamento da obra no Auditório da Biblioteca Pública Municipal do Porto, dia 04 de maio de 2013, em sessão que incluiu a leitura de cartas e poemas, com acompanhamento musical.

 

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Capa do Livro
Capa do Livro
Otília Lage apresenta o volume; sentada, Maria do Carmo Castelo Branco - prefaciadora da obra
Otília Lage apresenta o volume; sentada, Maria do Carmo Castelo Branco – prefaciadora da obra
  Imagem parcial da platéia
Imagem parcial da platéia
amigas de colégio e juventude de Mécia de Sena
Otília Lage entre duas amigas de juventude de Mécia de Sena

 

Leia mais:

65.“Mas que diferença há entre ser-se uma besta na Ilíada ou no Viet-nam?” Sobre a violência da guerra em Jorge de Sena.

[LER E RELER JS – 65: Kassia Fernandes da Cunha]

Neste artigo, Kássia Fernandes discorre sobre a presença da guerra e também da paz na poética “de testemunho” de Jorge de Sena. Como intelectual que não abdica da ética e da estética, o poeta tematiza a violência, a guerra e variadas formas de agressão ao humano em considerável número de seus poemas. 

 

Desde o início da civilização, a opulência e a miséria convivem no mesmo espaço. Atualmente, mesmo de posse de uma visão de mundo mais ampla, a natureza humana continua com as mesmas imperfeições: egoísmo, estupidez, injustiça… A pequenez de espírito e a hipocrisia de um número absurdo de espécimes humanos ainda se opõem ao exercício de uma existência plena, direito de todos. Somado a tais questões, um outro fator, lembrado pela filósofa Hannah Arendt, merece relevância: a moderna perda da fé. A humanidade toma outros rumos, quando o homem coloca em dúvida a influência divina e atribui a si mesmo as conquistas e a própria felicidade, conforme ocorreu no Renascimento, cuja doutrina reconhece o homem – e não Deus – como medida de todas as coisas.

O homem, dessa maneira abalado em sua fé na imortalidade da alma, voltou à sua forma mortal, como o fora na antiguidade; o mundo passou a ser menos estável, a exercer menos confiança do que na era cristã. Ao constatar fora de seu alcance uma possível salvação futura, o ser humano moderno tornou-se cético, impelido para dentro de si mesmo e não na direção do mundo ao seu redor. Justamente quando deveria confraternizar com o progresso contínuo da ciência, vê-se em um profundo estado de alienação, onde o que mais conta é a satisfação individual. A nova era permite ao homem alcançar o espaço, mas rouba-lhe a segurança do chão. Arendt arremata que

 

[…] o homem moderno não ganhou este mundo ao perder o outro, e tampouco, a rigor, ganhou a vida; foi atirado de volta a ela, lançado à interioridade fechada da introspecção, na qual suas mais elevadas experiências eram os processos vazios dos cálculos da mente, o jogo da mente consigo mesma. Os únicos conteúdos que sobraram foram os apetites e os desejos, os impulsos insensatos de seu corpo que ele confundia com a paixão e que considerava «irrazoáveis» por não poder «arrazoar» com eles, ou seja, prevê-los e medi-los. Agora, a única coisa que podia ser potencialmente imortal, tão imortal quanto fora o corpo político na antiguidade ou a vida individual na Idade Média, era a própria vida, isto é, o processo vital, possivelmente eterno, da espécie humana. [grifos nossos] (Arendt, 2009, p. 333).

 

A humanidade, incitada a seguir o seu caminho, passou a conviver com os valores que restaram no mundo. Sem o arrimo da fé, necessitava de algo que a impulsionasse, ou seja, o seu “processo vital”. Em sua peregrinação, Jorge de Sena testemunha considerável parte desse mundo em evidente estado de desequilíbrio, transmitindo impressões que se traduzem em sua poesia, da qual recolhemos uma pequena amostra para compor o aspecto da violência contra o ser humano, nosso objetivo no presente trabalho. Ao perscrutarmos o texto seniano, deparamo-nos com poemas cujo tema é a guerra e seus efeitos, não só no âmbito do território português, local de nascimento do poeta, mas em todo o mundo. Ao examinarmos a agressividade dos confrontos, concluímos que toda a humanidade está vulnerável, como assinala Sena em “O beco sem saída, ou em resumo…” (Sena, 1989, p. 181-182), do qual destacamos algumas passagens pertinentes. Os primeiros versos denotam a imperfeição da humanidade:

 

As mulheres são visceralmente burras.
Os homens são espiritualmente sacanas.
Os velhos são cronologicamente surdos.
As crianças são intemporalmente parvas.
Claro que há as excepções honrosas.

 

A humanidade, que o sujeito poético olha individualmente, por gênero e faixa etária, recebe dele um atributo em forma de adjetivo precedido por um advérbio de modo. Ou seja, a cada tipo é atribuída uma qualidade pejorativa, que com o advérbio torna-se acentuada ou amenizada. Por exemplo: “visceralmente burras” intensifica essa característica das mulheres – na visão do sujeito –, como se fossem burras em seu âmago; os velhos, “cronologicamente surdos”, não o são desde sempre, ficam mais surdos à medida que o tempo passa. Destarte, o que adquire relevância é a humanidade em si, como ela se manifesta nas coisas, qual o seu valor:

 

Humanamente feitas são as coisas,
e as ideias, as obras de arte, etc.
Mas que diferença há entre ser-se uma besta na Ilíada
ou no Viet-Nam?

 

A indagação do sujeito: “Mas que diferença há entre ser-se uma besta na Ilíada / ou no Viet-Nam?” demonstra que as vicissitudes humanas, além de universais, são também atemporais: a Ilíada e o Vietnam servem de exemplos para ambos os parâmetros, constituindo-se em objetos de reflexão sobre o processo desumano das guerras, capaz de transformar seres humanos em “bestas”, subjugados aos caprichos de seus governantes. Sob esse aspecto, encontramos uma interessante passagem nas páginas de O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, onde o autor enumera uma série de conselhos aos príncipes, sobre os mais variados assuntos. No capítulo XVIII, o historiador ensina como proceder em ocasião de combates:

 

Deveis saber, portanto, que existem duas formas de se combater: uma, pelas leis, outra, pela fôrça. A primeira é própria do homem; a segunda, dos animais. Como, porém, muitas vêzes, a primeira não seja suficiente, é preciso recorrer à segunda. Ao príncipe torna-se necessário, porém, saber empregar convenientemente o animal e o homem. Isto foi ensinado à socapa aos príncipes, pelos antigos escritores, que relatam o que aconteceu com Aquiles e outros príncipes antigos, entregues aos cuidados do centauro Quiron, que os educou. É que isso (ter um preceptor metade animal e metade homem) significa que o príncipe sabe empregar uma e outra natureza. E uma sem a outra é a origem da instabilidade. Sendo, portanto, um príncipe obrigado a bem servir-se da natureza da bêsta deve dela tirar as qualidades da rapôsa e do leão, pois êste não tem defesa alguma contra os laços, e a rapôsa, contra os lôbos. Precisa, pois, ser rapôsa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lôbos. (Maquiavel, 1971, p. 111-112)

 

Dessa forma, segundo os conselhos de Maquiavel, é necessário que as naturezas humana e animal de cada ser sejam aliadas para que se obtenham resultados positivos em um confronto. Uma vez que o italiano cita Aquiles, ocorre-nos uma lembrança poética de intensa relação com a morte: a Ilíada, presente também no poema de Sena. Na epopeia homérica a morte é explícita, seja no relato de como um guerreiro foi decapitado ou teve a cabeça estourada por uma pedra. A violência está no destino inclusive dos grandes heróis, não sendo aplicável apenas aos soldados sem patente: o príncipe troiano, Heitor, teve a garganta trespassada pela lança de Aquiles. No entanto, a morte nesse caso também pode ser vista por outro ângulo, com um significado mais nobre. Trata-se da “morte gloriosa” dos seus heróis, desejada, dir-se-ia, uma vez que o ideal de todo grande guerreiro era viver dignamente, ser belo e bom – kalokagathia – e ter uma morte honrada, pois só assim seria capaz de permanecer vivo na memória dos homens por toda a eternidade. Heitor e Aquiles são exemplos de morte gloriosa, tendo o filho de Peleu preferido morrer em combate a fazê-lo na tranquilidade de uma velhice sem brilho: reinando entre os mermidões, mas sem feitos dignos de memória.

Mesmo que milênios separem os combates de Troia e do Vietnam, bem como a motivação dos envolvidos, a violência na guerra do século XX não foi menor: jovens soldados perderam suas vidas ou foram mutilados. Muitos dos que conseguiram retornar, abalados psicologicamente por testemunhar tantos horrores, jamais voltariam a ser os mesmos. Retomando o poema:

 

Que haja Deus ou não
e a humanidade venha a ser ou não
e os astros sejam conquistados (ou não)
apenas terá como resultado o que tem tido:
uma expansão gloriosa do cretino humano
até ao mais limite.

[…]

Gloriosos, virtuosos, geniais,
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Ignorados, viciosos, ou medíocres,
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Do primeiro, do segundo, do terceiro ou quarto sexo:
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Em Neanderthal, Atenas, ou em Júpiter
– burros, sacanas, surdos, parvos.

 

Peremptoriamente, em qualquer condição, a humanidade possui uma tendência acentuada a agir com imperfeição: “uma expansão gloriosa do cretino humano / até ao mais limite”. A repetição sistemática dos adjetivos nos últimos versos: “burros, sacanas, surdos, parvos” ratificam o quanto impura é a natureza humana. Não importa se na pré-história ou na era espacial, onde e quando haja seres humanos: “Em Neanderthal, Atenas, ou em Júpiter”.

O artista, no cumprimento de sua missão de expressar-se através de suas criações, testemunha um dado momento e ao elaborar suas obras coloca suas impressões e seu dom a serviço da humanidade. É natural que um tema de relevância como a guerra, que suscita discussões tão abrangentes, receba a atenção de um número considerável de escritores. Consideramos ser digno de menção o poema de José Saramago, “Fala do Velho do Restelo ao astronauta”, no qual, da mesma forma que Jorge de Sena, o autor reflete poeticamente sobre a condição humana da sua época.

 

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
(Saramago, 1966, p. 76)

 

Saramago, em diálogo com a epopeia camoniana, rememora a célebre fala do Velho do Restelo. Porém, em pleno século XX, tempo da enunciação, é um outro Velho que vocifera, dirigindo-se ao astronauta, não mais a Vasco da Gama. A preocupação com os efeitos das atitudes humanas volta-se agora para o céu e não para o mar. De nada adiantaram as advertências feitas por Camões através das palavras do Velho. Os limites foram extrapolados – os “vedados términos”, para usar uma expressão camoniana –, os caminhos, abertos para novas investidas. Ainda impera a “vã cobiça”, que não conseguiu ser detida, ou, ao menos, “freada”. A ambição por lucros e poder valida todas as imoralidades, a justa distribuição de riquezas nunca existiu: se uma minoria detém incalculáveis fortunas, uma grande parte da população mundial vive abaixo da linha de pobreza. As guerras, geralmente movidas por interesses individuais, são agora incrementadas pelas bombas e minas terrestres.

Mesmo em tempos remotos, quando teria ocorrido a guerra cantada nos versos da Ilíada, já era possível exterminar cidades com o poder aniquilador do fogo: a vitória dos gregos foi obtida após a tomada e o incêndio de Troia, da qual restaram apenas ruínas. Na modernidade, o homem (ou a besta?) com seu engenho, aprimorou as suas armas de guerra, tornando-as cada vez mais letais. Com a Segunda Guerra Mundial, que deixou um rastro de devastação pela bomba atômica, veio o napalme, citado no poema de Saramago. O napalme, uma espécie de gel solvente e altamente inflamável, foi uma arma largamente utilizada na guerra do Vietnam. Quando em combustão, essa substância adere à pele, queimando os músculos e fundindo os ossos. Além disso, libera monóxido de carbono, fazendo vítimas também por asfixia[1]. Nos piores momentos do combate, o napalme foi lançado por via aérea, exterminando vilarejos e campos cultivados. Milhares de pessoas foram sequeladas pelas queimaduras provocadas pelas bombas, que também tornaram as terras imprestáveis para a lavoura.

É esse o mundo imperfeito, infecto, percorrido por Jorge de Sena, que, assim como Saramago, medita sobre a instabilidade da natureza humana: apesar do avanço da ciência, das vitórias obtidas com o programa espacial, ainda não conseguiu vencer as mazelas da Terra. Nos versos de que trataremos a seguir, Sena complementa a discussão acerca da brutalidade da guerra, do quanto os massacres são desnecessários, movidos por razões torpes. O título do poema, “Para Bellum”, é bastante sugestivo ao considerarmos as questões que nele se lêem:

 

Protestos, livros, poemas, sacrifícios,
a história analisada e desmascarada: a paz
e não a guerra desde sempre a guerra.
É velho tudo isto. Há malandros
para ganhar com as guerras, há patriotas
para mandar os outros morrer nelas, há
heróis ou não heróis que morrem nelas,
há multidões para serem massacradas.
Eu protesto, tu protestas, ele protesta, etc.
e nada muda, ou muda para mais.
Antigamente, os faraós ao contar os mortos inimigos
(nunca os próprios mortos) exageravam – evidente.
Hoje, os comunicados cometem sempre esse exagero
(e a mesma distracção discreta). Mas há sempre
humanidade com vocação  para matar e multidões
com vocação vacum para cadáver.
E neste cheiro a podre milenário – vale a pena
sequer dizer que são filhos da puta?
(Sena, 1982, p. 120)

 

De acordo com o dicionário online de português[2], eis a definição de parabélum: sf (expressão lat si vis pacem, para bellum, se queres a paz, prepara-te para a guerra); certa pistola automática de procedência alemã. Trata-se de um entre muitos poemas senianos que possuem a guerra como tema, mas esse em especial mostra um sujeito poético revoltado com os seus efeitos, que brada contra a falta de humanidade dos responsáveis pelos conflitos, que nada fazem: “Eu protesto, tu protestas, ele protesta, etc. / e nada muda, ou muda para mais.” Assim como Saramago, Sena também critica os interesses escusos de quem se beneficia da guerra, que manipula números de mortos de acordo com sua conveniência, fato esse que já se repete há muitos séculos: “Antigamente, os faraós ao contar os mortos inimigos / (nunca os próprios mortos) exageravam – evidente.”

Sempre adiante de seu tempo, Sena demonstrou, em atitudes e palavras, mais precisamente na profusa obra que legou ao mundo, que para ele não foi preciso chegar o 25 de abril de 1974 para que fizesse valer sua qualidade de interventor da humanidade. O conhecido poema de Metamorfoses, “Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”, de 1959, é exemplar como forma de manifestação ética, pois nele lê-se um grande senso de justiça e a necessidade de reverenciar uma memória de humanidade:

 

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós.Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
(Sena, 1988, p. 123-124)

 

Nos primeiros versos desse longo poema, o eu-lírico questiona se haverá possibilidade de um futuro sonhado para os filhos. As dúvidas são muitas, mas há otimismo, há esperança de que esse futuro se cumpra, mesmo que seja necessário lutar por liberdade e justiça, pelo imperioso motivo de se estar vivo: “[…] Tudo é possível, / ainda quando lutemos, como devemos lutar, / por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, / ou mais que qualquer delas uma fiel / dedicação à honra de estar vivo.”

 

Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
(Sena, 1988, p. 123)

 

No âmbito da atividade intelectual que lhe é inerente, Sena pensa o bem-estar da humanidade e as injustiças que podem ser cometidas contra ela, privando-a de um futuro digno, o que pode suceder por diversas vias: uma delas é o abuso de poder pelos governantes, exercido numa guerra desigual e desumana, que reprime, discrimina e mata: “foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, / e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,”. Mesmo na atualidade, o poder ainda legitima as guerras, nas quais um número elevado de vidas é sacrificado, em nome de interesses mesquinhos.

Pensar a guerra e suas consequências remete-nos às reflexões de Walter Benjamin, filósofo alemão que sofreu diretamente os seus efeitos, já que, justamente por causa da guerra, cometeu suicídio[3]. O lembrar e o esquecer perpassam todo o pensamento benjaminiano, que aborda a temática da guerra, a partir de um estudo aprofundado do historicismo, podendo-se citar o ensaio “Sobre o conceito de história”, no qual formula diversas teses sobre o passado e seu processo de reconstituição histórica:

 

O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser perdido para a história. Sem dúvida, somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado. Isso quer dizer: somente para a humanidade redimida o passado é citável, em cada um dos seus momentos. (Benjamin,Tese 3, 1994, p. 223)

 

De acordo com Benjamin, nenhum fato, por mais insignificante que seja, deve ser menosprezado pela história, porém, o lado conhecido é geralmente o dos vencedores, na maioria das vezes perde-se de vista o número de mortos, cujos corpos, como diz o poema, foram amontoados ou reduzidos a “cinzas dispersas para que delas não restasse memória”. A banalização da morte nos leva a concordar com a professora Jeanne Marie Gagnebin, que vem produzindo fecundos estudos sobre a obra de Walter Benjamin: “O esquecimento dos mortos e a denegação do assassínio permitem assim o assassinato tranquilo, hoje, de outros seres humanos cuja lembrança deveria igualmente se apagar.” (Gagnebin, 2006, p. 47).  Assim, os mortos permanecem no anonimato, reduzidos a simples números.

 

 Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
(Sena, 1988, p. 123-124)

 

O quadro descrito é o da injustiça e da inutilidade de um gesto brutal, que ceifou vidas, sonhos e o futuro de um número considerável de homens: “Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, / foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha”, que “ofendeu o coração de um pintor chamado Goya”. Entre os artistas de todas as áreas – pintores, músicos, poetas – há uma preocupação constante com a humanidade. Cada qual manifesta-se em seu trabalho de acordo com sua especialidade: ao que parece, a sensibilidade implícita no traço de Goya ao pintar o Três de Maio suscitou reações em outro coração, igualmente dotado de “fúria e de amor”: o coração seniano, que, ao contemplar a cena retratada e sobre ela meditar profundamente, estendeu suas reflexões para outros dramas registrados pela história, devido certamente à sua visão de mundo tão ampla.

Dessa maneira, a terrível cena dos fuzilamentos metamorfoseia-se em versos. A  dimensão pictórica ganha outras proporções, outros significados no interior do poema: não são os fuzilamentos que entram em questão, mas sim, outros genocídios, como a execução dos primeiros cristãos por Nero, a queima das bruxas nas fogueiras da Inquisição, a Segunda Guerra, que usou as câmaras de gás. Em vista da atualidade de que se constitui, o poema permite pensar em guerras hodiernas como a do Oriente Médio, que condena à morte um número incalculável de inocentes.

 

Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
— mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
(Sena, 1988, p. 124)

 

Mesmo ao considerar que “tanto sangue, tanta dor, tanta angústia” não sejam em vão, o sujeito poético admite que não há quem possa reparar os danos de todos os tipos, causados por milhões de mortes: “Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes / aquele instante que não viveram, aquele objecto / que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam ‘amanhã’.”. O que Goya, o pintor, transmite com imagens e cores, Sena o faz com palavras, demonstrando mais uma vez que para o artista, o intelectual, é inaceitável assistir passivamente aos fatos: é necessário um posicionamento crítico com relação ao mundo que o cerca, sem jamais faltar com a verdade no que diz respeito a guerras e massacres. A fim de dar continuidade a essa linha de reflexão, novamente recorremos à pertinência do texto de Gagnebin:

 

Tarefa altamente política: lutar contra o esquecimento e a denegação é também lutar contra a repetição do horror […]. Tarefa igualmente ética e, num sentido amplo, especificamente psíquica: as palavras do historiador ajudam a enterrar os mortos do passado e a cavar um túmulo para aqueles que dele foram privados. Trabalho de luto que nos deve ajudar, nós, os vivos, a nos lembrarmos dos mortos para melhor viver hoje. Assim, a preocupação com a verdade do passado se completa na exigência de um presente que, também, possa ser verdadeiro. (Gagnebin, 2006, p. 47)

 

O trabalho do historiador se inclui no do intelectual, pois faz parte de uma classe que também não pode ficar à margem dos acontecimentos. O luto é necessário, para que se deixe aflorar as lembranças do passado, tocar nas consciências adormecidas, para então viver-se bem no presente. A tarefa “altamente política” e “igualmente ética” pode ser lida com todas as letras nesse poema seniano. Conquanto todas as adversidades, o poeta acredita que vale a pena resistir, lutar, transformar, como ele sempre o fez. Na sua concepção, é aqui, neste mundo a ser criado por nós, que, enquanto indivíduos dotados de vida e “em memória do sangue que nos corre nas veias”, devemos pensar em realizar o melhor. E o melhor é preservá-lo e tê-lo como uma dádiva, como garantia de um “amanhã” que outros não tiveram.

A guerra traz em si a marca da morte. Não há como dissociá-las, sejam quais forem os seus propósitos. Mesmo que ao final reine a glória do vencedor e a paz seja restabelecida, há de se passar por um processo doloroso de perdas, do qual fazem parte a morte, o flagelo e a indignação. Nos poemas analisados foi-nos possível perceber o quanto a guerra e a violência inquietam os seus autores. Vimos que os versos expressam cenas dilacerantes, em que chagas abertas são tocadas para que se penetre no mais profundo da consciência humana. Essa é uma das formas de protesto dos poetas, que, ao despertarem atenção com os dramas da humanidade, detêm o desejo de provar o sabor inigualável da paz.

 

BIBLIOGRAFIA:

ARENDT, Hannah. A condição humana. [trad. Roberto Raposo]. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. [trad. Sergio Paulo Rouanet]. 7. ed. São paulo: Brasiliense, 1994.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar Escrever Esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. [trad. Lívio Xavier]. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1971.

SARAMAGO, José. Os Poemas Possíveis. Lisboa: Portugália, 1966.

SENA, Jorge de.  Poesia II. Lisboa: Edições 70, 1988.

_______. Poesia III. Lisboa: Edições 70, 1989.

_______. Visão Perpétua. Lisboa: Moraes e Imprensa Nacional, 1982.

Sites da World Wide Web:

http://www.dicionarioweb.com.br/parabelum.html. Consulta em 18/01/2011.

http://www.educacional.com.br/reportagens/armas/quimicas.asp. Consulta em 18/01/2011.

 


[1] Fonte: http://www.educacional.com.br/reportagens/armas/quimicas.asp

[2] Fonte: http://www.dicionarioweb.com.br/parabelum.html

[3] Devido à ascensão do nazismo ao poder, Walter Benjamin, de família judaica, exilara-se em Paris, em 1935. Com a invasão da França pelos alemães, em 1940, o filósofo juntou-se a outros refugiados para tentarem a fuga pelos Pireneus. Porém, na fronteira franco-espanhola o grupo foi detido pela polícia espanhola, que ameaçou entregá-lo à Gestapo. Sem saída, Benjamin suicidou-se, embora no dia seguinte, a passagem do grupo tenha sido permitida pelas autoridades.